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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Piada - Gregorio Duvivier

folha de são paulo
GREGORIO DUVIVIER
Piada
O francês teve uma ideia: nós só vamos sair daqui quando o português disser ou fizer uma estupidez
Um português, um francês e um americano estavam no deserto quando perceberam que estavam dentro de uma piada. Foi o português quem primeiro perguntou: o que é que nós estamos fazendo aqui, ó, pá? Ao que o francês respondeu, com leve sotaque: se você está falando "ó, pá" isso só pode ser uma piada, porque nenhum português de verdade fala assim.
Ao que o americano respondeu: e se nós que nem portugueses somos estamos falando português, e ainda por cima com esse sotaque tão malfeito, é porque isso só pode ser uma piada.
Já estou morrendo de sede, disse o francês, precisamos sair daqui o quanto antes. Ao que o português, que não era burro e tinha ido parar ali na piada por engano, respondeu: talvez algo de engraçado precise acontecer, talvez a gente precise encontrar a graça da piada pra conseguir sair daqui.Talvez se encontrássemos uma lâmpada, disse o americano, piadas de deserto costumam envolver gênios, lâmpadas, três pedidos, e no terceiro pedido, puf: a graça.
Os três cavaram por horas, sem qualquer vestígio de graça ou lâmpada. O francês teve uma ideia: nós só vamos sair daqui quando o português disser ou fizer uma estupidez. Ao que o português disse que era contra a perpetuação desse tipo de preconceito. Os outros dois pediram que ele batalhasse por essa causa depois que já tivessem saído da piada. E o português desandou a gritar estupidezes, a contragosto. Não teve graça. Partiu para o humor físico. Tropeçou, comeu areia, imitou um camelo. Nada.
Foi aí que lhe veio a ideia: talvez não fosse uma piada de português. Talvez fosse uma piada de francês. Algo relacionado ao fato dele não tomar banho. O francês disse que era limpíssimo e que o mais provável era que a piada em questão recaísse sobre o americano. Este disse que nunca tinha visto uma piada de americano, que só torna essa piada melhor, respondeu o francês, porque ela é inesperada. O americano fez meia dúzia de americanices, sem efeito.
Eis que no horizonte surge, esbaforida, uma loura. Alguém viu meu papagaio?, ela pergunta. Perfeito!, diz o francês. É nele que mora a piada. Surge o papagaio. Mas ele é do tipo que não fala. Eles desistem. Exaustos, refestelam-se na areia, moribundos. Talvez isso não seja uma piada, diz o português. Talvez isso seja só uma coluna de jornal, que não precisa de graça para acabar. Talvez acabe de repente, sem piada. O que é que a gente faz?, pergunta a loura. Espera, ele responde. Espera.

    segunda-feira, 26 de agosto de 2013

    Gregorio Duvivier

    folha de são paulo
    Werner
    Quem está em segundo plano nunca discorda. O pessoal desfocado passa a vida concordando
    Quando nasceu, no mesmo quarto acontecia um parto espetacular. Era o primeiro parto de sétuplos do mundo e a mãe dos bebês havia convidado todas as emissoras do país a televisionarem o recorde. No mesmo momento em que todas as câmeras focavam na grávida recordista, nascia, ao fundo do quarto, todo desfocadinho, um bebê chamado Werner, o primeiro bebê-figurante da história.
    Quando pequeno, na escola, Werner estava sempre no meio da massa de alunos, sem jamais se fazer notar. Ninguém se lembrava do seu nome, apesar de tão particular. Conheciam-no ora como menino ora como ei, psiu ou você. Quando tentava dizer algo, era reprimido e mandado para o fundo da sala. Logo descobriu que estaria condenado a sentar no fundo. Mesmo quando não estivesse sentado lá. Quando, por acaso, se sentava na primeira fila, era no fundo que as coisas aconteciam. Quando passava pro fundo, o fundo voltava a ser só o fundo.
    Um dia, resolveu fazer uma loucura: saiu de casa vestido com o maiô da mãe. Descobriu que não era o único. Talvez fosse o mais discreto. A rua estava tomada de homens vestidos com as roupas da mãe e mulheres vestidas de roupa nenhuma. Era Carnaval.
    Ao contrário do que poderia se pensar, sua vida não era um tédio. Muito pelo contrário. Ao seu lado sempre aconteciam as coisas mais fantásticas. Bastava ele sair de casa para que prédios pegassem fogo, super-heróis dessem um rasante para salvar alguma menina indefesa e um homem-bomba se partisse em mil pedaços. Ele só observava perplexo e conversava com as pessoas ao seu lado (sem fazer muito barulho).
    Aprendeu a falar baixo, para não atrapalhar a ação principal. Aprendeu a concordar com o que estavam dizendo. Aprendeu a gesticular como quem concorda. Quem está em segundo plano nunca discorda. O pessoal desfocado passa a vida concordando. A não ser em fase de protestos. Lá estava ele, na Paulista, discordando. Educadamente. Como quem concorda.
    Descobriu os prazeres de não ser notado. Nunca foi julgado. Nunca disseram dele: esse aceno de cabeça foi meio torto. Esse abraço desfocado não está muito crível. Ele só passava, sorrindo. E passou a ser bom nisso. Quando passava, as pessoas se sentiam melhor. Passava tão sem intenção, tão sem objetivo, tão somente por passar, que parecia que estava tudo em ordem.
    Até que um dia Werner morreu. Ou melhor, foi demitido. Olhou para a câmera.

      segunda-feira, 19 de agosto de 2013

      Gregorio Duvivier

      folha de são paulo

      Breve história da internet

      Ouvir o texto

      Conheceram-se na sala dez a 15 anos do bate-papo UOL. De onde teclas? Ele teclava de Belo Horizonte, ela de Caxias do Sul. Ele deu um número de ICQ. Passaram dias ao som de oh-ou e navios partindo. Ele pediu uma foto. Ela não tinha foto. Descreveu-se ruiva (não era). Ele se apaixonou perdidamente.
      Pediu o e-mail dela: era do iG, por causa do cachorrinho. O dele era Zipmail, por causa da Luana Piovani. Mandou um poema. Ela respondeu dez minutos depois. Trocaram todo tipo de poemas e cartas de amor. Até a caixa postal dele lotar, uma semana depois. Ele apagou todos os e-mails que não eram dela (ou pra ela). Não eram muitos.
      Logo lotou de novo. Migraram para o Hotmail. A caixa postal era um pouco maior. Conheceram o MSN. Ele pediu uma foto. Ela pintou o cabelo de vermelho só pra tirar a foto. Mandou. Ele gostou mais ainda. Ela fez um fotolog só com fotos dela. Pra ele. O fotolog fez sucesso, não só com ele. Combinaram de se encontrar em São Paulo. Ele foi, ela não. Pararam de se falar por um tempo.
      No Orkut, ela encontrou ele dois anos mais velho. Ela pediu desculpas em um lindo testimonial. Ele aceitou. Passaram a trocar scraps. Ele era um figura popular, tinha criado a comunidade do Pearl Jam. Ela criou "Adoro Banho Quente", comunidade popular mas não tanto quanto sua rival "Odeio Banho Gelado". Combinaram de se encontrar em São Paulo. Os dois foram. Beijaram-se assistindo a "Era Do Gelo". Ou não assistindo. Começaram um namoro à distância.
      Foram meses difíceis de MSN, até que inventaram o Skype. A vida mudou. Beijavam a tela, dormiam abraçados com ela. Ele fez uma música para ela e postou no YouTube. Ele ganhou seguidores no Twitter. A caixa postal do Hotmail lotou. Migraram para o Gmail e sua caixa infinita (ou quase).
      Ela foi pro Rio de Janeiro fazer faculdade. Ele foi atrás. Entraram no Facebook quando não tinha quase ninguém. A foto de cada um era a cara do outro. Moravam juntos, dividiam o mesmo computador, compartilhavam os mesmos vídeos. O Gmail e sua estranha mania de não dar logout automaticamente fizeram com que ela lesse toda a sua correspondência. Ele ficou puto com o que ela leu. Ela ficou puta com o que ele tinha escrito. Quase terminaram.
      Preferiram comprar outro computador. E cada um passou a ter uma senha. Riram muito no 9gag. Recusaram-se a entrar para o Google Plus. Hoje falam-se o dia inteiro no WhatsApp. E o Instagram deles é só fotos do bebê.
      gregorio duvivier
      Gregorio Duvivier é ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

      segunda-feira, 12 de agosto de 2013

      Gregorio Duvivier

      folha de são paulo
      Se o prédio tivesse 30 andares
      Daria tempo para ela me explicar o que é batata noisette e talvez nós iríamos até namorar no elevador
      Eu queria que esse prédio tivesse 30 andares. Ou de repente dois. Se tivesse 30 eu ia fazer amizade com todo o mundo que mora aqui. Se tivesse dois eu não ia falar é com ninguém. Mas se tivesse dois andares eles não iam precisar de ascensorista. Um elevador de dois andares não precisa nem de botão. Tinha que ter é 30. Nove andares é que não dá. Quando o rapaz do 701 fala bom dia seu Zé, eu digo bom dia, como vai o senhor, e ele diz mais ou menos a minha hérnia voltou a atacar, e eu digo tem um remédio excelente pra hérnia, é só pegar um pouco de sálvia e colocar num potinho, pronto já chegou no sete. Ele diz me explica da próxima vez pra gente não prender o elevador, só que ele não vai lembrar de perguntar e nem eu vou lembrar de contar e mesmo que eu lembre não vai ter mais clima nenhum de falar de hérnia. A gente só quer falar de hérnia quando a gente tá com hérnia e olhe lá, uma vez minha esposa disse. Isso foi antes dela me largar. Ela disse que eu só falo coisa que não interessa a ninguém na hora que ninguém quer saber. Mas isso faz muito tempo. Ela não falava era com ninguém. Mas ela não mexia com elevador. Aí é fácil. Quando a gente mexe com elevador é diferente. A gente mexe com seres humanos. E acaba se envolvendo. Nove andares é o bastante pra ouvir um pouquinho da conversa da moça bonita que trabalha no 902 e saber que a patroa dela não gosta de batata corada, só de batata noisette, e quando eu pergunto como é que é uma batata noisette, ela diz é redondinha e crocante, e quando eu pergunto como é que faz batata noisette, já tá na altura do sexto andar e eu penso que não vai dar tempo dela explicar, e quando eu penso isso já tá no sete e ela diz é complicado não vai dar tempo de eu explicar, e aí eu digo bem que o prédio podia ter 30 andares só pra você me explicar, e ela diz Deus me livre, morro de medo de altura, e daí eu ia dizer se o prédio tivesse 30 andares a gente podia até namorar, e ela ia dizer taí, isso não é uma má ideia, daí a gente ia parar o elevador e namorar ali mesmo. Se o prédio tivesse 30 andares. Só que não tem. E a porta já abriu há muito tempo e ela já foi embora e disse tchau seu Zé. E eu não namorei ninguém. E não fiz nem uma amizade daquelas de sair pra tomar uma cerveja depois do expediente. Ah, se esse prédio tivesse 30 andares. Mas não. Minha mulher é que tinha razão. Eu não vou mais falar é com ninguém.

      segunda-feira, 5 de agosto de 2013

      Gregorio Duvivier

      folha de são paulo
      Se eu morresse...
      Aqui morreu Gregorio Duvivier, que fazia vídeos pra internet e escreveu um livro de poemas
      Se eu atravessasse a rua agora, eu morria atropelado por aquele carro preto. Era bom que eu não precisava entregar o texto dessa semana. Mas ia ser um drama fodido.
      O dono do carro preto ia ficar bem puto. Depois ia ficar bem mal. Depois ia ficar bem puto, de novo, porque o sinal tava aberto pra ele. E o carro preto ia ficar bem estraçalhado. Dei uma engordada que ia ser fatal pro carro preto. O dono do carro preto ia sair me xingando, só depois ia perceber que eu já morri.
      Aí ele ia ficar mal de novo. As pessoas iam ficar putas com ele, porque ninguém fica puto com quem já morreu. Mas o sinal tava aberto pra mim, ele ia dizer. Talvez alguém me reconhecesse: esse cara faz uns vídeos pra internet. Talvez virasse uma comoção.
      A Folha ia publicar uma homenagem no lugar onde é a coluna, o Porta dos Fundos talvez lançasse um vídeo-homenagem, com meus melhores momentos editados, uma música emocionante. Fora que 27 anos é uma idade ótima pra morrer, tem um monte de gente legal que morreu com 27 anos e as pessoas iam me botar no meio dessa lista. Ia parecer que eu faço parte de um grupo: "Nós, que morremos com 27". Ia parecer que eu tinha levado uma vida muito mais maldita e muito mais interessante.
      Talvez eu virasse nome de rua. A rua em que eu morri. A própria Marquês de São Vicente talvez passasse a se chamar rua Gregorio Duvivier, com a legenda: mártir dos atropelados. Se bem que o sinal tava vermelho pra mim. Nunca iam homenagear um cara que atravessou no sinal fechado. E a Marquês é uma rua muito grande.
      Talvez valesse mais a pena eu ser atropelado numa rua menor. Na rua das Acácias, por exemplo, eu tinha mais chance. Aí sim, rolava meu nome. Ou não. Rua das Acácias é um nome bonito, os moradores iam preferir manter. E ninguém atropela ninguém por ali. As pessoas iam achar suspeito. Iam pensar: esse daí se jogou na frente do carro só pra virar nome de rua. Talvez aqui na Marquês seja mais fácil. Talvez aqui eu consiga emplacar um canteiro. Canteiro Gregorio Duvivier. Não. Canteiro não costuma ter nome.
      Talvez, no máximo, uma plaquinha: aqui morreu Gregorio Duvivier, que fazia vídeos pra internet e escreveu um livro de poemas. Que ninguém leu. Não. Melhor não atravessar, não. Por enquanto, morrer não tá valendo muito a pena pra mim. Nota mental: fazer alguma coisa que preste. Puta que o pariu, tenho que entregar o texto dessa semana.

      segunda-feira, 29 de julho de 2013

      Gregorio Duvivier [Porta dos Fundos] é novo colunista da 'Ilustrada' a partir de hoje

      folha de são paulo
      GREGORIO DUVIVIER
      Mas antes
      Mas antes, eles tinham se beijado e pedido desculpas. Mas antes, eles tinham dito que seria uma noite linda
      Ela saiu de casa batendo a porta. Mas antes, ele tinha mandado ela tomar no cu. Mas antes, ela tinha pedido que ele pelo menos limpasse a merda que fez. Mas antes, ele tinha derramado vinho no tapete. Mas antes, ela tinha duvidado de que ele derramaria o vinho todo no tapete. Mas antes, ele tinha dito que derramaria o vinho todo no tapete. Mas antes, ela tinha dito que a culpa não era dela de ele não ter um emprego. Mas antes, ele tinha dito que ela não precisava jogar na cara que ele não tinha dinheiro nem para comprar um tapete. Mas antes, ela tinha dito que a mãe dela merecia respeito, afinal de contas era ela quem tinha mobiliado o apartamento, do ventilador ao tapete. Mas antes, ele tinha dito que a mãe dela era uma vaca. Mas antes, a mãe dela tinha saído do apartamento batendo a porta. Mas antes, ele tinha pedido que a mãe dela saísse, de preferência sem bater a porta. Mas antes, a mãe dela tinha dito que ele estava mais gordo. Mas antes, ele tinha dito que a mãe dela estava mais velha. Mas antes, a mãe dela perguntou se ele tinha conseguido o emprego. Mas antes, ele disse que a mãe dela chegar de surpresa era só o que faltava. Mas antes, a mãe dela tinha chegado de surpresa. Mas antes, eles tinham se beijado e pedido desculpas e prometido que não iam brigar. Mas antes, ele perguntou por que é que nada que ele faz nunca está bom. Mas antes, ela tinha reclamado que ele não sabia nem abrir um vinho. Mas antes, ele tinha tentado abrir um vinho. Mas antes, ela tinha sugerido que ele abrisse o vinho. Mas antes, eles tinham se beijado. Mas antes, eles tinham deixado os filhos na casa da irmã dele. Mas antes, eles tinham dito que seria uma noite linda. Mas antes, eles tinham passado no supermercado e comprado o melhor vinho. Mas antes, ela tinha dito que tinha muito orgulho do marido que ele era. Mas antes, ele tinha chorado porque não era assim que ele se imaginava aos 35. Mas antes, ele tinha sido recusado na entrevista de emprego. Mas antes, ela tinha dito que confiava cegamente nele. Mas antes, ele tinha dito que era só uma entrevista de emprego, e que nada estava certo ainda. Mas antes, eles tinham combinado de comemorar as duas coisas, o aniversário e o emprego novo. Mas antes, eles tinham acordado e percebido que, naquela noite, eles iriam comemorar sete anos juntos. Mas antes, eles tinham sido felizes. Isso antes.
        Gregorio Duvivier é novo colunista da 'Ilustrada'
        Cocriador do Porta dos Fundos passa a escrever às segundas-feiras no caderno
        DE SÃO PAULOGregorio Duvivier, 27, ator e roteirista, passa a escrever às segundas na "Ilustrada" a partir da edição de hoje.
        Um dos fundadores e sócios do canal de humor on-line Porta dos Fundos, Duvivier está hoje entre os comediantes e roteiristas mais ativos e reconhecidos do país.
        Ele escreve e atua nos vídeos do Porta dos Fundos, que já superaram 30 milhões de acessos no YouTube, e assinou roteiros para séries de televisão, como "Louco por Elas", da Globo, e "O Fantástico Mundo de Gregorio", um reality show falso e escrachado sobre sua própria vida, que foi exibido pelo Multishow.
        Também já escreveu episódios das séries "As Brasileiras" e "As Cariocas", que foram levadas ao ar pela Globo.
        Filho da cantora Olivia Byington com o músico Edgar Duvivier (e enteado do diretor Daniel Filho), Duvivier ficou conhecido ao protagonizar o filme de estreia de Matheus Souza, "Apenas o Fim" (2008), que mostra a separação de um jovem casal.
        Desde então, ele atuou em outros dez filmes, entre eles "Vai que Dá Certo" (2013), de Maurício Farias, e "Reis e Ratos" (2012), de Mauro Lima, além de ter feito pontas em novelas e seriados, como "A Grande Família".
        No teatro, Duvivier integrou recentemente o elenco de "Como Vencer na Vida Sem Fazer Força", musical da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho.