quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Na prática, a teoria é outra


VERA MAGALHÃES
A quatro dias da eleição, Haddad deve esclarecer de uma vez qual sua proposta para a gestão da saúde

PARA FUSTIGAR Celso Russomanno no primeiro turno, Fernando Haddad foi cirúrgico: pegou uma proposta do então líder nas pesquisas que não parava em pé -a de que quem andasse mais de ônibus pagaria mais- e a martelou diuturnamente na TV, como forma de mostrar inconsistência do candidato do PRB.
O resultado foi que Russomanno desidratou, ficou fora do segundo turno, e o petista chega à reta final da sucessão como franco favorito.
Haddad se orgulha de ter sido o primeiro a apresentar plano de governo. Mais: evoca a suposta densidade técnica desse programa como lastro de que está apto para governar a maior cidade do país sem nunca ter disputado uma eleição.
Portanto, não há nada de ilegítimo em fazer uma análise aprofundada desse documento, das declarações anteriores e da formação teórica do candidato para cobrar as mesmas inconsistências e incoerências que ele apontou no ex-rival.
E quando se faz isso não há como não ver ambiguidades e contradições na proposta para a administração da saúde. O modelo municipal hoje é um híbrido entre gestão pública (direta ou pela autarquia municipal) e parcerias com as chamadas Organizações Sociais, que já são majoritárias em termos de número de equipamentos e de pessoal.
Quando ainda era pré-candidato a prefeito, Haddad declarou: "Quem tem de administrar os hospitais é o próprio poder público". Seu plano de governo fala em "retomar a direção pública" na saúde.
Cobrado diante de falas e documentos, Haddad recuou. Primeiro falou em fazer concurso público, algo que não combina com o modelo das OSs. Depois, disse que manterá os contratos enquanto vigorarem, sem deixar claro o que faria depois.
Por fim, com cara de ofendido, usou o programa na TV para assegurar que vai manter as parcerias.
Ainda assim, tem dito que os três novos hospitais que promete construir serão geridos pela prefeitura -o que sugere que a defesa do modelo das OSs é só conjuntural.
Tanta confusão sobre o que se quer para a área que é a maior preocupação dos paulistanos não é trivial. A quatro dias da eleição, Haddad deveria ser mais transparente.
COLUNISTAS NAS ELEIÇÕES segunda: André Singer; terça: Nelson de Sá; quarta: Vera Magalhães; quinta: Alexandra Moraes; sexta:Eduardo Graeff; sábado: Leandro Machado/Leandro Narloch; domingo:Mauro Paulino

Helio Schwartsman



Atacadão médico

SÃO PAULO - 
Não há dúvida de que, por vezes, médicos exageram. Dão a seus pacientes drogas que os fazem sentir-se melhor ou obter os resultados desejados no curto prazo, mas sem pesar adequadamente os efeitos de longa duração.
Essas considerações valem mais ou menos para tudo, desde algumas terapias antienvelhecimento que abusam de hormônios e vitaminas até as fórmulas para emagrecer, passando pelo uso liberal de antibióticos. Para combater os excessos, reguladores como o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Anvisa apelam a soluções de atacado. O exemplo mais recente é a decisão do CFM de proibir seus associados de receitar hormônios a quem não apresente deficit dessas substâncias.
A medida até faz sentido em termos de saúde pública, mas viola o princípio geral da medicina de que a situação de cada paciente é única e precisa ser analisada individualmente. O que é ruim para a maioria pode ser bom em casos específicos. O médico existe justamente para avaliar circunstâncias especiais. É provável que muitos dos profissionais brasileiros sejam mal formados, o que recomendaria reduzir um pouco sua autonomia para prescrever. Mas, de novo, esse é um cálculo que despreza as singularidades e, por isso, acaba prejudicando os bons médicos e seus pacientes.
Outra dificuldade na regulação do setor é que o CFM é, ao mesmo tempo, uma entidade de classe e uma autarquia com poderes normativos. Os interesses políticos podem contaminar as considerações técnicas. O melhor exemplo é o da homeopatia, que, caso raro no mundo, é reconhecida pelo CFM como especialidade médica, embora seu estatuto científico seja, na mais generosa das hipóteses, controverso. Faria mais sentido dividir o CFM em duas entidades distintas, uma para zelar pelos interesses corporativos dos médicos, que são legítimos, e outra encarregada de fazer as recomendações científicas.
helio@uol.com.br

FERNANDO RODRIGUES




É um processo
BRASÍLIA - 

Há um clima de "o Brasil mudou" no ar. Tem sido comum ouvir e ler que foi "histórica" a decisão do Supremo Tribunal Federal de condenar réus do mensalão.
São inegáveis os avanços institucionais nos últimos anos. O STF trilha o mesmo caminho. Mas, como sou treinado para ser cético, tendo a achar exagerada a euforia geral sobre o julgamento do mensalão. Vejo tudo como parte de um processo civilizatório lento e irregular, embora com saldo positivo.
O mensalão e crimes correlatos têm como gênese duas razões principais. Primeiro, a certeza quase certa (que existia) de impunidade. Segundo, e mais importante, o caldo de cultura em vigor dentro do Congresso e dos meios políticos para que muita gente corrompa e seja corrompida.
Absolutamente nada foi feito para atacar a segunda razão do surgimento do mensalão. Ao contrário. A miríade de partidos políticos só faz aumentar. Basta lembrar que no início do governo Lula, em 2003, existiam apenas 25 das atuais 30 legendas. Muitas dessas agremiações vivem penduradas nas tetas do dinheiro público. Não têm votos, só que aparecem na TV e no rádio (tudo pago com verbas estatais) e ganham um naco generoso do Fundo Partidário.
Na área dos costumes políticos há poucas boas notícias. Na semana passada, enquanto o STF castigava os mensaleiros, a Câmara oficializava a "semana de deputado": agora o trabalho é obrigatório só às terças, quartas e quintas. Nos outros dias, as Excelências folgam e recebem do mesmo jeito. De quebra, engavetaram a proposta que eliminaria o 14º e o 15º salários para os congressistas.
É bom que o STF esteja condenando mensaleiros. Mas o Brasil continua basicamente igual. É tudo parte de um processo que levará décadas para amadurecer. Vai depender muito de como votarão os eleitores. Aliás, os brasileiros nas urnas têm dado um recado ambíguo: a maioria não está nem aí para o mensalão.
fernando.rodrigues@grupofolha.com.br

Ruy Castro



Mais clipes

RIO DE JANEIRO - 

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) vai investigar as contas de 17 partidos políticos brasileiros. Nas últimas prestações, eles não têm explicado muito bem o que fazem com o dinheiro que lhes é destinado por um Fundo Partidário -provido pelo Tesouro Federal-, para pagar seus funcionários, arcar com o aluguel de suas sedes e certificar-se de que não lhes faltem clipes, cola Pritt e envelopes pardos. Suspeita-se do gasto de milhões com atividades extrapartidárias, justificadas com notas frias.
Que os partidos errem nas contas e tentem remendá-las de forma duvidosa, não é surpresa. Afinal, são comandados por políticos, não por técnicos em contabilidade, e talvez isso também aconteça em outros países com vida partidária ativa. O espantoso é o grau de atividade da nossa vida partidária -quantos outros países terão tantas agremiações registradas e funcionando?
Se fossem só 17 partidos, já seria um exagero de siglas à disposição do eleitor. Mas se quiser se abanar com todo o leque partidário, o brasileiro terá 30 partidos entre os quais escolher. Alguns vindos de longe, como o velho PCB (Partido Comunista Brasileiro), de 1922; outros, ainda nas fraldas, como o PEN (Partido Ecológico Nacional), de 2012, e o PPL (Partido Pátria Livre), de 2011.
Trinta partidos significarão 30 orientações ideológicas tão diferentes que exijam legendas isoladas, incapazes de se compor? Difícil. Veja o PT. Quando foi fundado, em 1982, acomodava dezenas de linhas de esquerda, todas se odiando entre si -e elas aprenderam a conviver sob uma bandeira. Aliás, fizeram isso tão bem que aprenderam a conviver até com Collor, Sarney e Maluf.
Uma vantagem de muitos desses 30 partidos se fundirem seria a de que o bolo destinado a cada um pelo Tesouro ficaria maior. E, com isso, mais clipes.