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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ruy Castro

folha de são paulo
Quitutes e cosméticos
RIO DE JANEIRO - Em junho, a Câmara Municipal de Juazeiro do Norte (CE) comprou 33 mil esponjas de aço, 4.200 vassouras, 1.400 litros de água sanitária e, modestamente, 312 frascos de óleo de peroba. Esse material se destinou à limpeza da sede da Câmara, que tem 21 vereadores e se reúne duas vezes por semana. Mas não há nada de ilegal em tais compras --os próprios vereadores as autorizaram. Devem achar que é difícil manter a Câmara limpa.
Ainda no Ceará, o governador Cid Gomes (PSB) foi criticado por contratar um serviço de buffet, para abastecer sua residência oficial e seu gabinete, no valor de R$ 3,4 milhões. O buffet, dizem, consistia de caviar, ostras, escargots, salmão, trufas, presunto de Parma e pães "exóticos", arranjos de orquídeas, taças de cristal, 700 garçons, 500 garçonetes e 15 chefs de cozinha. Seus opositores não sabem onde ele acha tempo para gozar de tanto luxo, já que vive a bordo de helicópteros e jatinhos, no Brasil e no exterior.
Cid Gomes é o mesmo que, em janeiro, pagou R$ 650 mil a Ivete Sangalo por um show de inauguração de um hospital em Sobral (CE), sua cidade, e cuja fachada desabou um mês depois. É também um dos políticos mais ativos na campanha para abocanhar parte dos royalties do petróleo devidos ao Rio --e agora se sabe por quê: sem isso, como fazer frente a tantas despesas?
Seu colega de PSB, Wilson Nunes Martins, governador do Piauí, também se propunha a investir R$ 6,3 milhões do dinheiro público no fornecimento de quitutes e cosméticos para seu palácio, incluindo reparadores de pontas de cabelo, gel esfoliante para o rosto, hidratante para o corpo, filtros solares, aparelhos de barbear e xampus. Mas foi aconselhado a retirar o edital. É pena --pelas fotos, parece mesmo precisar desses produtos.
Não se veem muitos manifestantes às portas deles.

sábado, 31 de agosto de 2013

Ruy Castro

folha de são paulo
O sapo de Arubinha
RIO DE JANEIRO - Entro no táxi em Ipanema e o motorista me diz: "Bom dia, Ruy. Acredita que conheci o Arubinha?".
Muitos motoristas do Rio sabem que gosto de futebol e puxam assunto. Mas nunca um deles me veio com algo tão sensacional. Arubinha foi um personagem de Mario Filho, o jornalista que, com seu irmão Nelson Rodrigues, inventou a crônica esportiva. E a maior crônica de Mario falava de um jogador do humilde Andaraí que, em 1937, rogou uma praga contra o Vasco por este ter goleado seu time por 12 a 0.
Por que a praga? Porque o jogo nem era para ter acontecido. A caminho do estádio, numa noite de muita chuva no Rio, o ônibus do Vasco bateu. Jogadores se machucaram e, enquanto eles eram medicados no Pronto Socorro, o Andaraí --que sabia que ia perder e poderia ter vencido por W.O.-- recusou-se a se aproveitar e esperou pelo adversário. Mais de uma hora depois, o Vasco chegou e, mesmo estropiado, meteu 12 a 0.
Trilado o apito final, um jogador do Andaraí --Arubinha-- ajoelhou-se no gramado e, sempre sob chuva, olhou para o céu e disse: "Se existe Deus, o Vasco vai ficar 12 anos sem ser campeão". Passou. E, ano após ano, nada de o Vasco ser campeão. Falou-se que, para garantir, Arubinha ainda enterrara um sapo em São Januário. O fato é que o Vasco, campeão pela última vez em 1934, só voltaria a sê-lo em 1945 --11 anos depois. Moral: se tivesse vencido apenas por 1 a 0, nada lhe teria acontecido.
Nélio, o motorista, me contou que Arubinha era um velho amigo de sua família em Madureira. Ele próprio, ainda garoto, o conhecera nos anos 70 --um senhor baixo, de pernas arqueadas, sexagenário e sempre de mau humor, principalmente pela história do sapo. Morreria uns dez anos depois. Ouvi a história e ganhei o dia --tinha conversado com alguém que conhecera o lendário Arubinha.

    sexta-feira, 30 de agosto de 2013

    Ruy Castro

    folha de são paulo

    A cidade é deles

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    RIO DE JANEIRO - Outro dia, pelo calçadão do Arpoador, vinham dois "black blocs" no rigor dos trinques: coturno, calças, mochila, camiseta e jaqueta pretos, e moletom com touca idem enrolado à cabeça, deixando apenas os olhos de fora --uma espécie de burca militar, como já se disse aqui. Imagino que trouxessem consigo os adereços de mão próprios da categoria: álcool, vinagre, pedras, molotovs e máscaras contra gases --todo cuidado é pouco quando se tem a lei pela frente.
    Mas não havia lei à vista, nem roupa mais imprópria para um "footing" àquela hora --três da tarde, com um sol de veranico sob o qual a dupla suava e parecia apenas exótica, não ameaçadora. Bem faz o Batman, que só sai à noite para trabalhar --sabe que, à luz do dia, sua roupa de morcego tem algo de ridícula. Por sinal, a fantasia dos "black blocs" é a mais próxima que eles acharam para substituir a de Batman --que, tudo indica, usavam até há pouco.
    Nossas cidades não têm opções para se trocar de roupa em público. Donde os dois devem ter saído de casa já paramentados e cruzado no prédio com seus vizinhos e porteiros --que os conhecem desde crianças e sabem muito bem quem são. Bem provável que morassem na Vieira Souto (com os pais, naturalmente) e estivessem a caminho do acampamento armado pelos meninos do "Ocupa Delfim", no Leblon.
    O fato de saírem fantasiados às ruas e com a maior naturalidade sugere que estamos nos habituando aos "black blocs". E por que não? A cidade é deles. A noite cai e a função começa. Do Leblon, seguem para o largo do Machado, onde quebram o que encontram pela frente. Destroem metade de Laranjeiras e, de lá, vão para o Castelo, a Cinelândia ou a Lapa, onde o rastro da depredação continua.
    Hoje, já não passam de 200. Mas são suficientes para subjugar os demais 5.999.800 com que convivem.
    ruy castro
    Ruy Castro, escritor e jornalista, já trabalhou nos jornais e nas revistas mais importantes do Rio e de São Paulo. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda. Escreve às segundas, quartas, sextas e sábados na Página A2 da versão impressa.

    quinta-feira, 29 de agosto de 2013

    Moda é cultura - Marta Suplicy - Tendências/Debates

    folha de são paulo
    Moda é cultura
    Sem estilistas famosos, como Pedro Lourenço, nós não teremos condição de projetar nossas milhares de confecções charmosas
    As pessoas se expressam de diferentes maneiras e a moda faz parte dessa forma de se mostrar.
    Não é difícil, olhando a vestimenta das mulheres do século 19, perceber seu papel na sociedade e distinguir as desigualdades nas classes sociais. A moda traduz muito da vida e cultura da história de um povo, assim como a gastronomia. Basta pensar na nossa culinária, na judaica e, por que não, nos Estados Unidos e seus hambúrgueres.
    A cadeia produtiva da moda é gigantesca: dos botões aos zíperes. Das costureiras às fábricas têxteis. Das pequenas confecções aos ateliês dos famosos. Das vendedoras aos estilistas. São milhares de pessoas dinamizando a economia e criando empregos.
    A moda também gera símbolos. Marcas que, de tão importantes, se tornam até sinônimo da cultura do país. Atraem turistas, agregam valor a outros produtos e se, combinadas com gastronomia, música, monumentos, potencializam uma imagem positiva e contribuem para o "soft power" do país.
    No Brasil começamos a entender recentemente esse poder da moda. As "fashion weeks" se consolidaram graças ao esforço de alguns e toda a cadeia produtiva se beneficia.
    No Ministério da Cultura o maior instrumento de fomento é a Lei Rouanet. Mas a moda não conseguia captar. O que faltava? Apresentar projetos de acordo com as previsões da lei. O MinC estabeleceu quatro critérios para aceitar projetos: promover internacionalização (impacto na imagem Brasil), ter simbologia brasileira (mostrar raízes e tradição), formar novos profissionais (estilistas ou na cadeia produtiva), ou ainda preservar acervos.
    O primeiro a apresentar projeto com base nesses critérios foi Pedro Lourenço, jovem estilista já com reputação para participar da Semana da Moda em Paris.
    Como ministra, chamei para mim a decisão, pela simbologia de quebrar um paradigma na afirmação que moda é cultura; por entender a importância da repercussão de um brasileiro estar nesse desfile (cobertura midiática), abertura e interesse pela nossa indústria da moda e para a construção de uma imagem de um Brasil criativo, moderno e atraente. Queremos um Brasil que transcenda o país do Carnaval, sol e biquíni.
    Pedro Lourenço é beneficiado, assim como Herchcovitch ou Ronaldo Fraga? Certamente, pela exposição que terão. Entretanto, sem esses criadores, e outros que agora virão (espero as estilistas que trabalham com rendas nordestinas), nós não teremos condição de projetar nossas milhares de confecções charmosas que, com o tempo, darão alegria a tantas mulheres como quando hoje compram algo "francês".
    Essa marca/país nasceu depois de enorme esforço da França na promoção de seus criadores (subsídios e exposições nos principais museus) e da genialidade de alguns deles: Dior, Chanel, Lacroix, Saint Laurent, para citar alguns. Exposições com esses ícones "vendem" o país.
    A porta está aberta. Muitos passarão, sem tanto estardalhaço, para ampliar a marca Brasil, aumentar investimentos, exportar nossos produtos, gerar emprego e renda para brasileiros.
    Torço para que os nossos, que agora podem sair fortalecidos pelo apoio no incentivo fiscal propiciado pela Rouanet, consigam patrocinadores, concretizem seus sonhos, mas, mais que isso, se consagrem símbolos de um Brasil pujante, criativo e iluminado.
    Todos seremos beneficiados.

      segunda-feira, 26 de agosto de 2013

      Escapadas - Ruy Castro

      folha de são paulo
      Escapadas
      RIO DE JANEIRO - A presidente Dilma surpreendeu ao revelar que, outro dia, escapou do Planalto sem ser notada e saiu de moto por Brasília. Ótimo. Significa que não somos apenas nós que já não toleramos as carantonhas dos que a cercam no comando do país. O fato de a presidente não ter carteira de habilitação, não saber dirigir motos e de ser impossível que ela saia sozinha não tem a menor importância.
      Importante é saber que nenhum presidente se contenta com passar o dia assinando documentos sem ler, gritando com ministros ou dando tapas na mesa. Foi citado o caso do presidente João Baptista Figueiredo (1979-1985), que também saía de moto pelas madrugadas de Brasília --talvez para se ver longe, por algumas horas, dos colegas que queriam impedi-lo de devolver o país. Na verdade, a agenda dos presidentes devia prever um horário livre, para que eles pudessem escapar e fazer o que quisessem.
      No passado, isso era possível. Dizem que Getúlio Vargas, em seu período constitucional (1951-1954), saía à noite do Catete e caminhava pela Praia do Flamengo até a rua Paissandu, e voltava. Numa dessas, teria cruzado com Graciliano Ramos, seu ex-preso político, e os dois se cumprimentado. Se aconteceu, foi um belo momento da democracia brasileira.
      Juscelino Kubitschek (1956-1961) também escapava, mas para visitar sua namorada Maria Lucia Pedroso. Jânio Quadros (1961) só não escapava porque não achava a saída do Alvorada, e ficava zanzando às tontas pelo palácio. Já João Goulart (1961-1964) vinha ao Rio de surpresa e fechava a boate Michel, em Copacabana, para ele e seus amigos. E até Castello Branco (1964-1967) ousava aparecer de repente num teatro. Enfim, presidentes e escapadas são quase sinônimos.
      Sem falar nos que, nos últimos 28 anos, escaparam da Lei da Ficha Limpa --porque ela ainda não existia.

      sábado, 24 de agosto de 2013

      Ruy Castro

      folha de são paulo

      Buck vs. Flash

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      RIO DE JANEIRO - Sempre achei que o cidadão precisa tomar partido. Entre duas opções equivalentes, ele deve pesar uma e outra, e decidir por uma delas. Ou não pesar nada, e decidir do mesmo jeito. Isso vale para religião, política ou futebol, e também para quesitos que, para os outros, podem não ser importantes, mas, para ele, são.
      No meu caso, sempre preferi Paris a Nova York, gatos a cachorros, praia a montanha, jiló a quiabo e Nara a Elis. Claro que, em alguns casos, me enganei --somente há pouco, por exemplo, constatei que passei 50 anos torcendo pelo bombom errado. Mas nada supera a sensação de se certificar de que uma escolha feita no passado era a correta.
      Buck Rogers vs. Flash Gordon. Ao contrário de todo mundo da minha turma, sempre gostei mais de Buck Rogers. Descobri-o no caderno de quadrinhos do "Correio da Manhã" nos anos 50 --as cores só faltavam saltar da página-- e, quando conheci Flash Gordon, muito depois, todos aqueles foguetes e asteroides pareciam "déjà-vu". E, se vinham me dizer que Buck era uma imitação de Flash, eu tinha o prazer de informar que era o contrário --Buck foi criado por Philip Nowlan e Dick Calkins em 1928; Flash, por Alex Raymond em 1934.
      Nesta semana, assisti ao seriado "Buck Rogers", de 1939, do mesmo estúdio (Universal), diretor (Ford Beebe) e ator que já vivera Flash Gordon em seriados anteriores: Buster Crabbe. Pois também no cinema Buck supera Flash. Num show de delírio futurista, seus personagens têm raios laser, cinto antigravitacional, VLT (veículo leve sobre trilhos), rastreadores tipo GPS, telefone viva voz, TV interativa, ponte aérea Terra-Saturno, e acham tudo muito natural.
      Mas fulminante mesmo é a cenografia do filme. Comparada à arquitetura e aos cenários Art Déco de "Buck Rogers", até a "Metrópolis" de Fritz Lang parece Brejo Seco.
      ruy castro
      Ruy Castro, escritor e jornalista, já trabalhou nos jornais e nas revistas mais importantes do Rio e de São Paulo. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda. Escreve às segundas, quartas, sextas e sábados na Página A2 da versão impressa.

      sexta-feira, 23 de agosto de 2013

      Oito a menos - Ruy Castro

      Folha de são paulo
      RIO DE JANEIRO - Há um novo formato de disco na praça: o "extended play" --um CD com quatro faixas, em vez das convencionais 12. Não era sem tempo. Até há pouco, quem comprasse um disco por causa de uma música era obrigado a engolir 11 contrapesos, que não lhe davam nenhum prazer e só faziam encarecer o produto. Com a internet, as pessoas ganharam a possibilidade de "baixar" apenas a música que lhes interessava --donde deixaram de comprar discos, e a indústria fonográfica foi para o buraco.
      Nesse sentido, o CD "extended play" é uma boa ideia. Atende ao interesse de quem ainda gosta de discos "físicos" e se resume à faixa que interessa ao cliente, com, no máximo, três contrapesos. Aliás, o "extended play" é uma ideia tão boa que até já a tiveram antes --mais exatamente, em 1949, há 64 anos.
      Era o que então se chamava de "45", porque rodava em 45 rpm, e não em 33 rpm, como os revolucionários álbuns "long-playing" --os LPs--, também recém-lançados pela Columbia. O "45", um mini-LP com quatro faixas, foi inventado pela RCA Victor para fazer frente ao monopólio da Columbia na rotação de 33. E chamou-se "extended play" porque comportava o dobro de música contida no antigo "single" em 78 rpm, com uma só gravação em cada lado.
      O território dos "45" eram as vitrolas automáticas, chamadas "jukebox", onipresentes nos EUA. Daí aquele grande buraco no centro do disco --para comportar a largura do pino de tais máquinas. No Brasil, as "jukeboxes" nunca pegaram e, contornado o problema do monopólio, as gravadoras preferiram lançar os disquinhos em 33 rpm mesmo, chamados de "compactos duplos".
      Os novos "extended plays" em CD custarão mais barato --afinal, suas despesas de produção são menores. Mas a maior vantagem é a de que suas oito músicas a menos farão um enorme bem à música brasileira.

        quarta-feira, 21 de agosto de 2013

        Pró-mercado - Delfim Netto

        folha de são paulo
        É preciso estar muito desatento à realidade brasileira para não perceber a profunda mudança de comportamento do governo na política econômica, na tentativa de melhorar as suas relações com o Congresso Nacional e na abertura de um melhor diálogo com os possíveis investidores nos projetos de infraestrutura.
        Na política fiscal há explí-cito repúdio a novas alqui-mias e um esforço no sentido de manter o deficit nominal abaixo de 2,5% do PIB e a relação dívida bruta/PIB a- baixo de 60%. Ela ainda é desconfortavelmente "expansiva", contudo não sinaliza qualquer tragédia.
        Na política monetária não há (e nunca houve) ameaça de perda de controle da taxa de inflação, que teima em permanecer em torno do limite superior da "meta". Recentemente, entretanto, o Banco Central vem tentando reduzi-la. Recusou a dominância fiscal que aceitou até há pouco e aumentou a taxa de juro real.
        As contas externas que produziram um deficit em conta-corrente de quase US$ 250 bilhões entre 2009 e 2013 vão sendo corrigidas endogenamente e trabalham no sentido de aumentar ligeiramente a taxa de crescimento do PIB. Três movimentos na direção correta. Outra mudança tão importante quanto essas ocorreu também nas relações entre os negociadores do governo com o setor privado investidor na infraestrutura.
        Na busca da necessária e desejada modicidade tarifária, o insistente "achismo axiomático ideológico" que produziu tanto atraso foi substituído pela flexibilização do diálogo e por um esforço de compreensão dos problemas espinhosos que envolvem todas as concessões de serviços públicos, cercadas no país por regulações irrealistas. Um exemplo paradigmático foi a aceitação de que as licenças ambientais dos projetos devem ser objeto da ação preliminar do governo.
        Finalmente, mas não menos significativo, é o recente esforço do Executivo para melhorar suas relações com o Legislativo. Ele está reduzindo as tensões que haviam transformado num cabo de guerra a harmonia que deve prevalecer entre os dois Poderes para o exercício de uma eficiente administração pública. É evidente, por outro lado, um avanço na disposição do governo no sentido "pró-mercado", não "pró-negócio". Assume-se claramente a ênfase na prioridade da competição em lugar da escolha de "campeões".
        Tudo isso deve tranquilizar as relações políticas e aumentar a probabilidade de sucesso da política econômica e das concessões de estradas de rodagem, portos e energia, que poderão ser um estímulo ao aumento dos investimentos do setor privado em geral. Será também um fator importante na superação do dramático desânimo que se apropriou da economia nacional.

          Ruy Castro

          folha de são paulo
          Por sujar a rua
          RIO DE JANEIRO - A Prefeitura do Rio está lançando a Operação Lixo Zero, que vai multar quem emporcalhar a cidade. Em primeira instância, a campanha é educativa. Equipes da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) estão percorrendo as ruas para flagrar maus cidadãos jogando coisas onde não devem e alertá-los para o que os espera. Em breve, com guardas municipais, policiais militares e 600 fiscais em ação, as multas começarão a chegar para quem tratar a via pública como a casa da sogra.
          Uma guimba jogada ao chão custará R$ 157. Chicletes, latas de refrigerante, garrafas PET, sacos e copos plásticos, idem --por item despejado. Há pessoas que põem na rua ou deixam para trás sofás, pneus, até carros. Um metro cúbico de lixo abandonado custará R$ 375. Acima disso, R$ 3.000. Abordado pela autoridade, o sujismundo terá de informar seu CPF. Se se recusar, será levado ao delega. Num mundo ideal, as pessoas deixarão também de cuspir no chão.
          Imagina-se que, quando essa lei começar para valer, os recordistas de multas serão os cerca de 300 jovens golpistas que, nas últimas semanas, se habituaram a tomar as ruas, pichar monumentos, vandalizar prédios públicos, quebrar orelhões, arrancar postes, apedrejar vitrines, depredar bancos, saquear lojas e, por uma estranha compulsão, destruir lixeiras, jogar o lixo no asfalto e armar barricadas de fogo com ele.
          É verdade que, no seu "bullying" político, digno do fascismo, eles não estão nem aí para a cidade, que é de todos --e que, por algum motivo, parecem querer levar ao colapso.
          Pois, já que a lei não permite prendê-los por vandalismo, saque, formação de quadrilha, desacato à autoridade, resistência à prisão e nem mesmo por ataque aos órgãos públicos, talvez seja possível enquadrá-los por sujar a rua. Não prenderam Al Capone por sonegar impostos?

          Fernando Rodrigues - O Congresso se realinha

          folha de são paulo
          BRASÍLIA - O Congresso deixou ontem em sua pauta a votação de vetos presidenciais menos relevantes. Deu um tempo extra para Dilma Rousseff formatar contrapropostas e, assim, evitar a derrubada de outros vetos mais críticos. Apesar desse refresco, a vida do governo tende a piorar no Legislativo.
          Essa conjuntura está prestes a se materializar por três razões: 1) o novo sistema de votação de vetos, 2) o orçamento impositivo e 3) a mudança na tramitação de medidas provisórias.
          O novo sistema de vetos presidenciais exige uma atitude preventiva do Planalto na votação de qualquer lei. Antes, muita coisa corria solta. A presidente vetava o que bem entendia.
          Agora, esses vetos têm de ser apreciados em até 30 dias depois de sua publicação. A votação é secreta e perto do incontrolável.
          O orçamento impositivo --que merece uma crítica em outra coluna-- é uma emenda constitucional. Está na fase final de aprovação na Câmara. Garante de maneira compulsória a cada deputado e senador cerca de R$ 11 milhões por ano para distribuir em obras de seu interesse.
          Hoje, o poder de liberar esse dinheiro é do Planalto. Tem sido uma potente ferramenta de convencimento durante votações cruciais. Deixará de existir.
          Por fim, ontem a Câmara colocou para andar a emenda constitucional já aprovada pelo Senado a respeito de medidas provisórias. Se passar (e as chances são reais), impedirá as chamadas MPs-ônibus: quando assuntos incompatíveis entre si são agrupados no mesmo texto. Também dará tempo adequado à Câmara e ao Senado para debater a proposta --e torna necessária uma atuação maior do Planalto na aprovação desses dispositivos.
          Esse cenário todo chega junto com a popularidade presidencial avariada, a economia andando de lado e a eleição de 2014 batendo à porta. A vida de Dilma e de todos os presidentes futuros não será fácil.

            Helio Schwartsman

            folha de são paulo
            Pelo bate-boca
            SÃO PAULO - Analistas, colunistas e editorialistas foram mais ou menos unânimes em condenar o bate-boca entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski. Um dos argumentos mais usados é o de que desavenças explícitas reduzem a confiança da população no Judiciário, o que é ruim para o país.
            Tenho uma visão um pouco diferente. É claro que um pouco mais de urbanidade no Pretório Excelso não faria mal a ninguém, mas acho bom que as pessoas tenham a oportunidade de ver a Justiça um pouco mais como ela de fato é, e não como os manuais gostam de descrevê-la.
            Se há um paradigma que ruiu nos últimos 30 anos, com descobertas no campo da teoria da decisão e da neurociência, é o de que agentes racionais são capazes de fazer escolhas com base apenas em dados objetivos, cálculo e reflexão. E é nessa noção que o direito ainda se funda.
            Daí não decorre, evidentemente, que leis, provas e uma hermenêutica racional não tenham nenhuma importância. Elas têm, mas não devemos cair na ilusão iluminista de que outros fatores, alguns deles pouco abonadores, como ideologia, inimizades e até os níveis de glicemia não influam --e, por vezes, decisivamente.
            Meu exemplo favorito é o estudo israelense que mostrou que juízes que decidem sobre o livramento condicional de prisioneiros tendiam a julgar a favor do requerente só no início dos trabalhos ou após o lanche, quando estavam descansados e alimentados. Na hora da fome, o número de pedidos aprovados caía a zero.
            Seria precipitado afirmar que a Justiça não difere de um sorteio, mas, mesmo que suas decisões fossem inteiramente aleatórias, já serviriam ao propósito de disciplinar a resolução de conflitos. De todo modo, até para que possamos cobrar modificações que reduzam o grau de subjetividade a que o sistema está sujeito, precisamos olhar para as interações entre magistrados como elas realmente são, sem disfarces nem ilusões.

            terça-feira, 20 de agosto de 2013

            Severine Macedo e Marconi Perillo no tendências/debates

            folha de são paulo
            SEVERINE MACEDO
            Uma conquista histórica
            A conquista do estatuto se dá no momento em que os jovens, cujo contingente nunca foi tão grande, estão mobilizados, empolgando as ruas
            A aprovação do Estatuto da Juventude significa o reconhecimento dos jovens por parte do Estado como estratégia para o desenvolvimento do Brasil.
            Significa tornar as políticas para o setor uma obrigação do Estado, independente da vontade de governos. Significa combater a construção social e histórica de estigmas que recaem sobre a juventude, visibilizando-a como sujeito de direitos.
            O Estatuto da Juventude é um imenso legado. Além dos benefícios diretos --como a meia-passagem e a meia-entrada, que agora contemplam jovens de baixa renda, além dos estudantes-- é preciso observá-lo de maneira ampla para compreender todo seu valor como marco legal e histórico.
            Entre os direitos agora assegurados está o da participação política, com a definição de órgãos e conselhos juvenis como canais de promoção da política de juventude em todos os entes da Federação.
            O estatuto é a declaração do Estado de que o jovem brasileiro necessita de atendimento de acordo com sua especificidade. O documento inova ao exigir a oferta de condições especiais de jornada de trabalho por meio de "compatibilização entre os horários de trabalho e de estudo" e a educação em todos os níveis para os jovens do campo, um dos grupos juvenis mais invisibilizados da política pública, entre outros avanços legais.
            O que faz o estatuto é também integrar e organizar, em todo o território nacional, o conjunto das políticas públicas voltadas para atender as demandas juvenis.
            Todas elas serão norteadas por princípios comuns, como o da autonomia e emancipação dos jovens, e serão assumidas como compromisso pela União, os Estados e os municípios por meio do Sistema Nacional de Juventude.
            Erguer cada avanço legal do Estatuto da Juventude na vida concreta dos brasileiros é o próximo e desafiante passo que o nosso sistema político nos coloca e para o qual a Secretaria Nacional de Juventude e o governo da presidenta Dilma estarão empenhados. Essa tarefa, entretanto, não é exclusiva do governo federal. É uma responsabilidade a ser compartilhada entre todos os níveis de poder da República.
            Para que ganhe concretude, o direito à mobilidade, por exemplo, tão reivindicado nas recentes mobilizações em todo o país, necessita fundamentalmente de políticas públicas desenhadas nas esferas estaduais e municipais. Desenho que, segundo o estatuto, deverá ser feito com participação jovem.
            Para os jovens, este momento da história representa uma oportunidade única. A conquista dessa carta de direitos chegou com a juventude mobilizada, dotada de novas ferramentas de comunicação e empolgando as ruas, ao mesmo tempo em que representa 51 milhões de pessoas (de acordo com o censo demográfico 2010 do IBGE) --o maior contingente jovem da história do país.
            Assim como a mobilização dessa juventude acelerou a conquista de seu estatuto, que há quase dez anos tramitava no Congresso Nacional, ela poderá também contribuir --e muito-- para acelerar a efetivação de seus direitos.
              MARCONI PERILLO
              Um pacto pela segurança
              A União deveria custear até 50% da folha de pagamento das polícias Militar, Civil e Técnico-Científica e do Corpo de Bombeiros Militar
              As guerras travadas no Congresso Nacional em torno da divisão dos royalties do petróleo e da reforma do ICMS trouxeram à luz um debate que não pode mais ser adiado: a revisão do pacto federativo.
              Os Estados encontram-se espremidos financeiramente, tanto pelas exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal quanto pela queda de repasses da União na esteira das sucessivas desonerações do governo. Precisam, não obstante, ampliar investimentos em serviços públicos.
              A segurança pública é um setor que demanda solução urgente, vitimado de forma particularmente grave pela situação fiscal dos Estados. Segundo dados do Mapa da Violência 2013, a taxa de homicídios na população brasileira, que em 1996 era de 24,8 por 100 mil habitantes, saltou para 27,1 em 2011. É o maior índice entre os 12 países mais populosos do mundo --quase quatro vezes maior que o do Paquistão.
              Para fazer frente à demanda cada vez maior por segurança pública, é necessário aumentar o efetivo das polícias. Mesmo em meu Estado, onde o salário inicial de um policial militar é o segundo mais alto do Brasil e onde conseguimos, em 2013, produzir uma inflexão na taxa de homicídios, o número de policiais por habitante é baixo: o efetivo é de apenas 12 mil homens, metade do necessário para atingir o patamar de 1 policial por 250 habitantes recomendado pela ONU.
              Não existe mágica contábil que nos permita fazer um aporte de pessoal dessa magnitude. As transferências federais caíram nos últimos dois anos, em parte devido às desonerações de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e Cide (Contribuição sobre Intervenção no Domínio Econômico) feitas pelo governo para estimular a economia. Essa caridade foi feita com o chapéu dos Estados, que viram despencar o montante do FPE (Fundo de Participação dos Estados).
              Por outro lado, o piso da educação subiu 22% em 2012 e mais 8% em 2013, o que fez com que mesmo o aumento de 6,7% na arrecadação de Goiás não desse conta de cobrir as despesas com a folha de pessoal.
              Para mitigar a situação da segurança pública e desafogar os Estados, o governo de Goiás propõe uma revisão do pacto federativo. Nossa proposta consiste em uma emenda ao artigo 21 da Constituição, por meio da qual a União deverá prestar assistência financeira aos Estados para a manutenção e a execução de serviços de segurança pública.
              Antes que o leitor se espante com a ousadia ou questione se isso não trará problemas na cadeia de comando --já que a PM deve obediência ao governador, que paga seu soldo--, permita-me lembrar que já existe um precedente. A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal são mantidos pelo governo federal, sem que cause constrangimento à autoridade do governador.
              O Fundo Constitucional para a Segurança Pública, que seria instituído por lei ordinária para regulamentar o dispositivo constitucional, seria usado para custear até 50% da folha de pagamento da PM, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros Militar e da Polícia Técnico-Científica.
              Propomos que ele seja repartido aos Estados conforme o número de agentes de segurança pública por habitante: quanto mais policiais, mais verba o Estado receberia. O fundo seria corrigido pela receita líquida corrente da União.
              O projeto tem a vantagem adicional de pôr fim à polêmica em torno da PEC 300, em tramitação no Congresso, que equipara os salários da PM e dos bombeiros de todo o país aos do DF e ao qual os governadores resistem, não sem razão.
              Não estar-se-ia, com isso, produzindo nenhuma revolução no ordenamento jurídico brasileiro, dado o precedente do Distrito Federal.
              Trata-se tão somente de propor um pacto --palavra tão em voga em Brasília-- por mais um serviço público essencial, que tem ficado de fora do radar do governo federal, gerando risco desnecessário e evitável para toda a população.

              Vladimir Safatle

              folha de são paulo
              Depressão e autenticidade
              Um estudo publicado no "Journal of Clinical Psychology" afirma que em torno de 20% das mães terão um episódio depressivo nos primeiros três meses após o parto, sendo que 7,1% terão um episódio grave. Ou seja, uma em cada cinco mulheres passará por depressão ao tornar-se mãe.
              Esse número extremamente alto deveria nos levar a perguntar sobre o tipo de fenômeno que tal sofrimento psíquico expressa. Talvez exista algo nesses episódios depressivos que diga muito a respeito não apenas de situações patológicas específicas, mas da experiência social da maternidade enquanto tal, principalmente em nossa época.
              Ao menos desde sociólogos como Max Weber e Émile Durkheim, tendemos a nos ver como sujeitos de sociedades nas quais a autoridade tradicional, com seus modelos tipificados de comportamento e julgamento, sofre processo contínuo de erosão.
              A radicalização desse movimento teria levado sujeitos a se sentirem em situações extremamente angustiantes quando precisam assumir papéis nos quais novos afetos aparecem. Como a transmissão tipificada de modelos é questionada, uma mulher não sabe se deve repetir o padrão de maternidade que encontrou em sua própria mãe, nem sabe até que ponto deve acreditar no discurso impessoal de especialistas.
              Talvez, no entanto, tal questionamento sobre as normas a seguir seja vivenciado de maneira depressiva porque nosso imaginário social de maternidade não prepara as mulheres para situações nas quais ela descobrirá afetos contraditórios que a acompanharão para sempre. Situações em que ela precisará cuidar de uma criança cujo desejo ela nunca compreenderá completamente.
              Em um contexto social submetido à tradição, você sabe o que deve fazer e age independentemente do seu sentimento do momento. Há um preço a pagar por isso, pois é permitido agir sem autenticidade. Mas, em um contexto de erosão das autoridades tradicionais, o discurso social dirá o seguinte (e isso pode ser tão violento quanto submeter-se à tradição): "Principalmente, siga seus sentimentos com autenticidade e você será uma mãe suficientemente boa".
              Como somos cada vez menos preparados a lidar com sentimentos ambíguos e ambivalentes, a sensação depressiva de que nunca uma mulher será uma mãe suficientemente boa sobe à cena.
              Nesse sentido, talvez não levaríamos tantas mães à depressão se entendêssemos como a exigência social de autenticidade pode se transformar em uma forma de submissão a uma imagem inatingível, que só terá por função desqualificar a maneira concreta como lidamos com o que não sabemos como lidar.

                Carlos Heitor Cony

                folha de são paulo
                A supremacia do Supremo
                RIO DE JANEIRO - Semana passada foi deprimente. O bate-boca entre dois ministros do Supremo Tribunal Federal mostrou que ainda não chegamos ao ponto ótimo de uma democracia, quando o respeito pela opinião alheia --por mais estranha que seja-- é a condição primeira e última de uma sociedade realmente livre.
                Sem entrar no mérito da briga entre as duas Excelências, lembro que o STF, entre outras manifestações que honraram o Brasil no terreno da justiça e da liberdade, teve momentos de bravura no passado recente do país.
                Jardel Noronha de Oliveira e Odaléa Martins publicaram, em 1967, um livro em três volumes intitulado "Os Grandes Julgamentos de 1964", entre eles, os processos no STF relativos a Café Filho, Seixas Dória, Parsifal Barroso, Ênio Silveira, Francisco Julião, Gregório Bezerra, Tenório Cavalcanti, Hélio Fernandes, Juscelino Kubitschek, Mauro Borges, Miguel Arraes e muitos outros.
                Cronologicamente, o primeiro habeas corpus foi pedido por meu advogado, Nelson Hungria, livrando-me da Lei de Segurança Nacional no processo que me foi movido pelo então ministro da Guerra, general Costa e Silva. Ganhei por nove a um, mas continuei processado pela Lei de Imprensa vigente na época, pegando uma pena de seis meses. No caso da Lei de Segurança Nacional, a pena seria de 20 a 30 anos.
                A sucessão de habeas corpus dada pelo Supremo Tribunal Federal alertou os militares. Logo que puderam, cassaram três ministros cujos votos eram sempre independentes: Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal.
                Tanto no passado como no presente, o STF sempre deu provas de grandeza. Dos três Poderes da República, é o mais conceituado. Antes de ser uma instituição republicana, é um patrimônio moral do povo brasileiro. Deve ser respeitado e respeitar-se.

                  Eliane Cantanhêde

                  folha de são paulo
                  Bode na sala
                  BRASÍLIA - Se até o namorado brasileiro do jornalista Glenn Greenwald é detido no Reino Unido, imagine-se o que vai acontecer com o próprio Greenwald quando ele puser os pés nos EUA, depois de ter revelado ao mundo as estrepolias digitais das agências de espionagem, ops!, de segurança do país. Um simples passeio não vai ser.
                  Um lance genial seria Greenwald desembarcar nos EUA na véspera da visita de Dilma Rousseff a Barack Obama em outubro. Sua prisão ofuscaria totalmente o encontro.
                  Os dois governos, de lá e de cá, trabalham com afinco para detalhar uma agenda densa, à altura do ritmo de aproximação bilateral dos últimos anos, e houve três visitas relevantes ao Brasil: as do secretário de Estado, John Kerry, e dos secretários de Energia e de Agricultura.
                  Os EUA e o Brasil estão entre os maiores produtores agrícolas do planeta e têm de tentar driblar os grandes fornecedores de petróleo e gás, que vivem às turras, num mundo quase à parte dos meros mortais.
                  Nem a agenda nem essas viagens, porém, têm tido importância e debate na opinião pública, que só pensa, fala e reclama da espionagem das agências dos EUA em governos, indústrias e até cidadãos e cidadãs.
                  Se Washington não consegue inverter a pauta da mídia agora, muito dificilmente conseguirá quando Dilma e Obama se encontrarem.
                  Esse cenário já preocupa previamente, mas poderá ficar muito pior caso Greenwald pegue um avião, desembarque no seu próprio país e vá direto do aeroporto para uma cadeia qualquer por ordem do governo --o mesmo governo que criticou a Rússia por conceder asilo provisório a Edward Snowden, que passou as informações ao jornalista.
                  As relações Brasil-EUA vão bem em diferentes áreas, sobretudo as estratégicas. Mas, queiram os dois lados ou não, a prioridade neste momento são as questões pontuais, essas que produzem manchetes.
                  É preciso tirar o bode da sala.

                    Helio Schwartsman

                    folha de são paulo
                    Domar o Leviatã
                    SÃO PAULO - É evidente que nações como os EUA e o Reino Unido têm não apenas o direito como também o dever de combater o terrorismo. É igualmente certo que a inteligência é o melhor caminho para fazê-lo. Entre a CIA e a NSA agindo nas sombras e os marines marchando conspicuamente sobre Bagdá, fico com a primeira opção sem pestanejar.
                    Isto esclarecido, manifesto meu irrestrito apoio a Edward Snowden e, por extensão, a Glenn Greenwald e ao brasileiro David Miranda. A contradição entre o primeiro e o segundo parágrafos é apenas aparente.
                    O advento do Estado, com sua polícia, Poder Judiciário e agências de segurança, ao prevenir e disciplinar os zilhões de conflitos interpessoais que ocorrem todos os dias em qualquer área um pouco mais povoada, foi a invenção que mais contribuiu para domesticar a barbárie entre os homens. Mas a segunda invenção que mais ajudou a reduzir a violência foram os mecanismos de controle que visam a impedir que o Estado se volte contra os cidadãos.
                    Assim, mesmo sem aceder à crença ingênua de que leis internacionais, tratados de amizade e ações individuais como a de Snowden poderão um dia pôr fim à espionagem, devemos apoiar tudo aquilo que concorra para manter o Leviatã estatal sob rédeas tão curtas quanto possível. Divulgar seus excessos, como o fez o ex-agente da CIA é um bom começo. Idem para tentar provocar uma reação concertada da comunidade internacional, ainda que haja algo de irremediavelmente hipócrita em ver Rússia e Equador posando de paladinos da liberdade de imprensa.
                    A detenção de David Miranda por autoridades britânicas, num exercício explícito de "bullying" --e contra alguém que, em princípio, não tem nada a ver com a história--, prova quão necessário é impor freios e contrapesos à mão pesada do Estado.
                    Espera-se que o governo Dilma Rousseff reaja com um pouco mais de firmeza do que mostrou até aqui.
                    helio@uol.com.br

                      segunda-feira, 19 de agosto de 2013

                      Aécio Neves

                      folha de são paulo
                      Exemplos
                      Nas últimas semanas, grande parte da atenção da opinião pública voltou-se para as questões que envolvem a nossa juventude, que ganharam inédita importância com as manifestações que sacudiram o país.
                      À juventude costuma-se sempre agregar a noção de futuro, do que ainda está por ser realizado.
                      Mas a resignação em adiar projetos e soluções para um tempo que ainda virá não deixa de ser uma forma de transferirmos indefinidamente responsabilidades. E de perdoarmos a nós mesmos, enquanto sociedade, por tudo o que ainda não fomos capazes de fazer.
                      Duro mesmo é reconhecer que o Brasil de hoje já é o Brasil do futuro que várias gerações imaginaram e pelo qual muitos trabalharam. E mais duro ainda é reconhecermos que certamente estamos muito aquém do que tantos brasileiros sonharam. E mereciam.
                      Penso nisso estimulado pela disseminação da percepção de que vivemos uma autêntica revolução e que ela nos coloca no portal de um mundo que inaugura novas relações sociais e humanas, provocadas por enormes transformações tecnológicas. Ainda que seja constatação verdadeira, quando apresentado e endeusado como valor absoluto, o novo acaba por transformar em obsoleto o que veio antes.
                      Muitas vezes, a sensação que parece prevalecer é que quase tudo o que nos trouxe até aqui já não faz tanto sentido. Será?
                      Lembrei-me de Ruy Castro e de suas crônicas recheadas de ironia e inteligência, aqui mesmo nesta Folha, onde volta e meia nos alerta para o reconhecimento que devemos a nomes importantes da nossa cultura.
                      O puxão de orelhas é pertinente.
                      Um bom exercício de educação civilizatória é a percepção do papel insubstituível de brasileiros que fazem grande diferença. Antonio Candido é um exemplo. O professor e pensador, que recentemente completou 95 anos, continua a nos oferecer o seu valioso patrimônio de ideias.
                      Foi, aliás, com especial alegria que, em 2007, tive a oportunidade de manifestar-lhe a admiração dos mineiros entregando-lhe o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, então na sua primeira edição.
                      O professor é referência de idoneidade intelectual, espírito cívico e dignidade pessoal. Sua obra atesta o compromisso radical com a compreensão da realidade à sua volta. Literatura é vida, ele generosamente nos ensina.
                      Há dois anos, numa entrevista em Paraty, ele se confessou "um homem do passado, encalhado no passado".
                      O mestre estava errado. O seu legado, ético e intelectual, longe do ancoradouro das coisas envelhecidas, ilumina um caminho permanente de amor e respeito pelo Brasil.
                      Homens assim, independentemente da idade ou do tempo em que vivam, serão sempre referência do futuro que precisamos ser.

                      Ruy Castro

                      folha de são paulo
                      Crianças brincando
                      RIO DE JANEIRO - Uma psicóloga da PM-SP defende que crianças de oito anos podem manusear armas de fogo, "desde que acompanhadas pelos pais". É normal, diz ela, que o filho de um policial tenha curiosidade sobre o instrumento de trabalho de seu pai, "assim como o filho do médico tem sobre o estetoscópio". A recente tragédia em São Paulo, envolvendo o menino Marcelo Pesseghini, 13, suspeito de matar seus pais (ambos, policiais militares), a avó e a tia-avó, e que se matou em seguida, tudo a tiros, não abalou sua convicção.
                      Vejamos. É normal que o filho de oito anos de um piloto de aviação tenha curiosidade sobre o instrumento de trabalho do pai --o avião. Isso autoriza o piloto a pôr o filho na cadeira do copiloto e "acompanhá-lo" enquanto ele pousa o aparelho levando 300 passageiros? O filho de um madeireiro, apenas por ser quem é, estará autorizado a brincar com uma motosserra? E o filho de um proctologista estará apto a manipular o instrumento de trabalho de seu pai?
                      O que dizer do filho de um funcionário de laboratório de análises encarregado de certos exames? E o filho de um carteiro, vai brincar com minha correspondência? E o de um bombeiro, vai brincar com fogo? E o de um motorista de ambulância? E os de quem trabalha com material tóxico, explosivo ou radiativo --como satisfazer sua curiosidade por aquelas coisas de que os pais falam com tanta naturalidade ao jantar?
                      A professora Maria de Lourdes Trassi, da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, rebate o argumento da psicóloga da PM, dizendo: "O cirurgião pode até dar o estetoscópio ou a luva [para o filho brincar]. Mas não vai lhe apresentar o bisturi".
                      Também acho. E há muitas coisas com que o filho de um PM pode brincar --gás de mostarda, bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha--, sem ter de apelar para armas de fogo.

                      Medo da autoridade - Valdo Cruz

                      folha de são paulo
                      BRASÍLIA - Por mais que o petismo diga que Marina Silva não mete medo, a candidata verde passou a preocupar, sim, os responsáveis pela missão de reconduzir Dilma Rousseff a um segundo mandato.
                      Seus recentes movimentos na direção de economistas como André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, deixaram desconfiados estrategistas da dona do Planalto.
                      Sua entrevista na Folha deveria, por sinal, ser levada em conta pela tropa da presidente como sinalizador do que pode ter pela frente, além do que já considera sabido.
                      Como segunda colocada nas pesquisas, posição conquistada por influência dos recentes protestos de rua, Marina não hesitou em criticar atos que extrapolam os limites da desobediência civil aceitável. Não foi dúbia. Foi bem assertiva.
                      Algo que, na avaliação de alguns petistas graúdos e lulistas, a atual mandatária do país não foi até aqui. Pelo contrário, dizem eles, Dilma teria deixado a desejar neste ponto.
                      O risco, no momento, é acreditar, com certo alívio, que o problema não é mais do Executivo. Dado que, agora, os protestos são contra os governadores do Rio e de São Paulo.
                      Nada mais perigoso. O clima de baderna fere a todos, em maior ou menor grau. Como um assessor presidencial admitiu, investidores estrangeiros postergaram investimentos por causa dos protestos.
                      Seria péssimo que isso continuasse a ocorrer quando se aproximam os leilões de concessões de rodovias e aeroportos, vitais para o país sair do crescimento medíocre.
                      Enfim, Marina hoje não é a principal dor de cabeça da presidente, mas mostrou potencial para virar. Seus problemas reais estão na economia, com dólar em disparada, e no Congresso, com ameaças de derrubada de vetos nesta semana.
                      Áreas em que Dilma precisa restaurar sua autoridade e credibilidade. Justo dizer que deu os primeiros passos, mas falta mais. Para não colecionar derrotas e semear riscos.

                        Vinicius Mota

                        folha de são paulo
                        Os liberais de cada um
                        SÃO PAULO - Marina Silva deu mostras de ter amadurecido na entrevista publicada ontem nesta Folha. O discurso da ordem não se restringiu à crítica dos protestos violentos, na qual empregou sem assombro o termo "Estado democrático de direito", frequente no léxico conservador.
                        Em dois outros momentos, a presidenciável endossou ideias de orientação liberal na economia. Autonomia do Banco Central? "Fundamental". Pretende encarar uma nova reforma na Previdência? Sim.
                        Na eleição de 2010, Marina já acenava à chamada ortodoxia econômica, no meio de um palavreado confuso e contraditório. Parece que a fase de dúvidas passou.
                        Sem entrar no mérito da convicção da ex-ministra, há boas razões práticas para abraçar a causa. Hegemônica nos últimos cinco anos, a condução alternativa, "desenvolvimentista", está desmoralizada pelos frustrantes resultados entregues.
                        O próprio governo reconhece a derrota e corrige a rota da pilotagem econômica. Fará concessões adicionais à cartilha liberal, tantas quanto julgar necessárias para manter-se no poder. Tem um time reserva, orientado pelo treinador Palocci, pronto para entrar em campo se for preciso.
                        A turma liberal tucana, aliviada com o afastamento de José Serra --para ela um desenvolvimentista da Unicamp--, está firme com Aécio Neves. Armínio Fraga, ex-chefe do BC, encabeça este grupo.
                        Nesse quadro, é natural que Marina Silva, cujo desempenho de segunda colocada nas intenções de voto melhorou, arregimente os seus próprios liberais. Recebe a aproximação de André Lara Resende, um dos melhores economistas brasileiros do século passado, mentor do Plano Real.
                        Decerto se trata de um Lara Resende modificado, excêntrico e desalentado com as peripécias recentes da economia global. Pensa alto se vale mesmo a pena o crescimento econômico. Ainda assim, não se recusa um Lara Resende.