terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Tereza Cruvinel - Nas águas da Bahia‏

Dilma sabe que sua campanha à reeleição será bem diferente da de 2010, quando ela era um poste vistoso puxado por um guindaste de alta potência, o então presidente Lula 

Estado de Minas: 08/01/2013 
Não se deve enxergar um fato, mas apenas um gesto, no convite da presidente Dilma Rousseff ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), para o almoço que tiveram sábado, na Base Naval de Aratu, do qual participou também o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT). Mais substância deve ter havido no passeio de barco que ela fez no domingo com o governador baiano e a mulher dele, Fátima, cujo humor Dilma muito aprecia. Ele é o mais provável coordenador da campanha dela à reeleição, o que depende das equações que vier a montar para sua própria sucessão na Bahia.

O convite a Campos ela fez em 27 dezembro, quando já circulava uma entrevista dele à revista Época, assegurando que vai apoiá-la em 2014. Mas, como declaração não é compromisso, Dilma novamente o afagou, tratando de mantê-lo como aliado. Segundo relatos, o almoço, com a presença dos parentes de todos, ficou no “social”, não tendo havido conversa reservada a dois ou a três. Jaques, contrariamente aos petistas ressentidos com Campos e seu PSB por causa das disputas eleitorais de 2012, que acarretaram derrotas ao PT, tem agido para mantê-lo no campo lulodilmista, tendo até declarado que ele pode ser o candidato da coalizão em 2018. Tem aparado arestas e buscado inserir o colega pernambucano nos palcos em que pisa. Levou-o consigo, por exemplo, aos funerais da venerada dona Canô. De outro lado, Campos enfrenta as pressões do PSB para que comece a articular a candidatura.

Independentemente disso, Dilma deve saber que sua campanha à reeleição, se for mesmo candidata, será bem diferente da de 2010. Ela era um poste vistoso puxado por um guindaste de alta potência, o então presidente Lula. Agora, ele a apoiará, mas já não é presidente, por mais popular que ainda seja. Ela terá que se virar, costurar alianças e seduzir aliados, e essa não é sua praia. Mas é a de Jaques, com o qual tem uma relação de identidade e confiança. Para coordenar a campanha dela, ele terá que arrumar primeiro o tabuleiro baiano. Já estando no segundo mandato, tentará fazer um sucessor petista. Estão no páreo o senador Walter Pinheiro, o ex-presidente da Petrobras Sergio Gabrielli e o deputado Rui Costa. Não será uma escolha fácil. 

O principal aliado do PT no estado, hoje, é o PSB. E aí começam os problemas. Para garantir o apoio do PSB, a estratégia natural do governador seria oferecer-lhe a vaga de senador, optando ele por concorrer à Câmara. Ele se elegeria praticamente sem fazer campanha, podendo se dedicar à candidatura de Dilma. Mas a senadora e principal liderança dos socialistas na Bahia, Lídice da Mata, também quer ser candidata ao governo. A vaga no Senado não interessa, ela ainda tem quatro anos de mandato pela frente.

Essas são as questões da política baiana que se conectam com o futuro de Dilma e, certamente, foram abordadas no passeio pelo mar da Bahia.

A crisma e o alvo

O ex-presidente Fernando Henrique crismou o senador Aécio Neves como candidato a presidente pelo PSDB em 2014. Tendo se afastado do cotidiano partidário nos últimos anos, ele voltou ao proscênio na certeza de que, se o PSDB não se renovar e não formular um novo discurso, o PT é que ficará 20 anos no poder, tal como projetou um dia seu amigo Sergio Motta para os tucanos. A isso tem se dedicado – a instigar o partido e a colaborar com Aécio – desde o almoço que tiveram logo que foram apuradas as urnas de 2012. Partiu dele a orientação para que o PSDB mire a política econômica de Dilma e comece a fazer dela o alvo direto do confronto, até então centrado na figura do ex-presidente Lula. Esse é o contexto em que devem ser compreendidos os ataques ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, por causa dos remanejamentos de recursos realizados para garantir a meta fiscal de 2012. Carga tributária, risco inflacionário, incerteza regulatória e excesso de intervencionismo são outros temas que, daqui para a frente, os tucanos vão esgrimir contra a política econômica de Dilma.

Para ela, chegou o momento da verdade. Se em 2013 o crescimento não der o ar de sua graça, começará a ser acusada de ter interrompido a trajetória anterior, pois mais que o cenário externo tenha contribuído para isso. 

Baixa sentida 

Beto Vasconcelos, secretário-executivo da Casa Civil, surpreendeu a ministra Gleisi Hoffman e a própria presidente com seu pedido de afastamento por causa de um projeto acadêmico. Pela sólida formação jurídica e pela relação de confiança, Dilma contava com ele para resolver eventuais substituições no Ministério da Justiça ou na Advocacia-Geral da União (AGU).

CIÊNCIA » Papel de plástico 100% brasileiro - Flávia Ayer‏

Em parceria com a Universidade Federal de São Carlos, empresa paulista desenvolve produto a partir da reciclagem de embalagens de picolé, salgados e biscoitos 

Flávia Ayer
Estado de Minas: 08/01/2013 
 
Imagine um papel que não amarela nem molha, não rasga facilmente e pode ser usado normalmente para escrita ou impressão. Esse produto existe e tem tecnologia 100% brasileira, resultado de uma parceria entre uma multinacional situada em São Paulo e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior paulista. Apesar de ter o aspecto do material de origem vegetal, o papel, na verdade, é feito de plástico e foi desenvolvido a partir da reciclagem de embalagens de biscoito, picolé, salgadinhos e rótulos. Batizado de vitopaper, o produto se assemelha ao papel couché, com superfície muito lisa e uniforme, e já foi empregado na confecção de livros, relatórios empresariais e até cadernos. A cada uma tonelada de vitopaper produzida, a estimativa é de que 750 quilos de plásticos deixem de ir para os depósitos de lixo.
O vitopaper é o primeiro papel sintético produzido com material reciclado “pós-consumo”. A principal matéria-prima são os polipropilenos biorientados (BOPP/PP), usados na produção de embalagens flexíveis, como de picolés, barrinhas de cereais e bombons. Até então, o PP não tinha uma cadeia de reciclagem ativa e, ainda que reciclados, acabavam parando em lixões e aterros sanitários. Uma das vantagens é que o papel é fabricado nas mesmas máquinas que produzem as embalagens. “Nossa preocupação era não desenvolver um subproduto, como as vassouras feitas de plástico, e conseguir adotar a mesma tecnologia que já usamos nas embalagens flexíveis”, afirma a gerente de produtos da Vitopel, Patrícia Gonçalves.
A diferença principal em relação à fabricação do BOPP/PP – e segredo guardado a sete chaves – é o acréscimo de aditivos para conferir ao produto aspecto de papel. “As embalagens são cortadas, passam por uma lavagem e se transformam em pequenas bolinhas, que chamamos de pellets. Esse material recebe aditivos e é esticado em uma máquina, se transformando num filme bem fininho”, explica Patrícia. Para completar o processo, depois de cortado, o papel sintético recebe descargas elétricas como parte de um tratamento de superfície. O projeto levou cerca de três anos para ser desenvolvido e contou com a participação do Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar.
À receita do papel sintético, a UFSCar acrescentou a possibilidade de se incorporar outros tipos de plásticos, mais uma inovação do produto. Até então, não havia no mundo tecnologia que empregasse diversas variedades de plástico na reciclagem. Com isso, passaram a compor a fórmula do vitopaper o polietileno de baixa densidade (usado para confeccionar as sacolinhas de supermercado), o polietileno de alta densidade (frascos de produtos de higiene e limpeza), além do poliestireno (embalagens de iogurte e copos descartáveis). Para viabilizar a fabricação do papel de plástico, a Vitopel firmou parceria com associações de reciclagem de Votorantim (SP), onde a empresa está sediada.
 
CARACTERÍSTICAS Além de 75% reciclado e 100% reciclável, o vitopaper, no mercado há cerca de três anos, é 30% mais leve que o papel comum. Com coloração perolada, o produto pode receber todas as tonalidades durante a impressão e usa 20% menos de tinta em relação ao convencional. Um dos poréns é que não pode ser usado por impressoras caseiras. Os modelos a laser também são vetados, pois o material não resiste a temperaturas acima de 120 graus. Em compensação, água não é problema para o papel de plástico, que não absorve líquidos. Em relação à escrita, a única limitação são as canetas tinteiras – lápis e consequentemente borrachas, além das canetas esferográficas estão liberados. Não é possível em uso para embalar alimentos também é proibido por ser um produto reciclado e seu uso, por enquanto, se limita à indústria gráfica.

Resistente a traças, o papel sintético não tem prazo de validade. “O livro vai durar tanto quanto seu conteúdo”, comenta Patrícia. O produto já foi empregado na produção de livros como o infanto-juvenil Guerra e Paz, de Eraldo Miranda e ilustrações de Marcelo Alonso, inspirado nos painéis homônimos de Cândido Portinari. A Petrobras é uma das empresas que usou o vitopaper na confecção do seu relatório anual e o Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores, prepara resumo sobre a Rio +20 também produzido com o material. Além desses volumes, o produto já foi usado em cardápios, revistas e cadernos. Até agora, a estimativa é de que 1 mil toneladas do papel de plástico tenham chegado ao mercado.

Um dos entraves para a disseminação do vitopaper é o fato de ele ser mais caro que o papel convencional. Dois motivos pesam nesse aspecto: a ausência de uma grande escala de produção e os impostos. Ao contrário do papel de celulose, que para aplicação de livros e periódicos é isento de impostos, o vitopaper conta com os tributos. A isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) foi conquistada em 2011, mas o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) continuando pesando e, para se ter uma ideia, por causa disso, o produto fica 18% mais caro, percentual de ICMS aplicado em São Paulo.

Painel - Fábio Zambeli [interino]

FOLHA DE SÃO PAULO

Grande elenco
Atento à inquietação de peemedebistas que enxergam sinais de reaproximação de Dilma Rousseff com o PSB de Eduardo Campos, Michel Temer entrou em campo ontem para rebater o que chama de "intriga". "Aplaudo qualquer contato com o Eduardo. Nosso interesse, meu e da presidente, é uma nuvem de aliados para 2014 e o PSB é importantíssimo", disse o vice-presidente à coluna, negando que os socialistas representem ameaça ao papel do PMDB no projeto de reeleição.
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Senha A apreensão entre dirigentes do PMDB aumentou com o encontro de Dilma e Campos, sábado. "Vão dizer que já temos a presidência das duas Casas no Congresso", diz um peemedebista que teme o PSB vice na chapa presidencial em 2014.
Onipresente O governador pernambucano usará o horário de TV de seu partido em todos os Estados no transcorrer do ano, além dos 40 minutos reservados à direção nacional. Campos quer vitaminar palanques regionais.
Sonho meu Azarão na disputa pela presidência da Câmara, Júlio Delgado (PSB-MG) redigiu documento que detalha uma das bandeiras de sua campanha: rever o pacto federativo para evitar submissão do Legislativo ao Executivo e ao Judiciário.
Vácuo Para o deputado, o STF só deliberou sobre temas que seriam prerrogativa do Congresso, como a Ficha Limpa, por omissão da Casa.
Photoshop O favorito Henrique Alves (PMDB-RN) fala em valorizar a atividade parlamentar. Se eleito, promete campanha para melhorar a imagem da Câmara.
Axé Após dois encontros com Jaques Wagner (PT-BA) durante suas férias na base naval de Aratu, Dilma disse ao governador que pretende retornar a Salvador para o Carnaval. A presidente aprovou a estrutura do local, preparada com ajuda da primeira-dama Fátima Mendonça.
Guilhotina Além de garantir que "vai sobrar energia'' em 2013, Edison Lobão (Minas e Energia) afirma que, apesar do acompanhamento diário do sistema elétrico, não há situação emergencial. "Se houvesse, cabeças teriam rolado. Inclusive a minha".
Sonho de verão Questionado sobre o nível dos reservatórios, o ministro lembra que quando assumiu a pasta, em 21 de janeiro de 2008, não havia uma "gota de chuva'' na maioria das regiões do país. Neste ano, compara, "já choveu em Estados importantes".
Upgrade Sai no final do mês relatório de comissão das Minas e Energia sobre 42 subestações estratégicas. Iniciada após série de apagões em oito Estados, a varredura deve sugerir troca e modernização de equipamentos.
Presente Em meio à temporada de enchentes, Fernando Haddad corre para fechar o calendário de festividades dos 459 anos de São Paulo, celebrados no dia 25, seu aniversário. Gilberto Kassab deixou as providências finais para o sucessor. A prefeitura estuda promover show no Anhangabaú.
Boa... Haddad telefonou ontem a Luiz Marinho. Quer visitar o campus de universidade federal em São Bernardo do Campo, aprovado em sua passagem pelo MEC.
... vizinhança Marinho não resistiu: pediu ao correligionário que doe área para o piscinão do Jaboticabal, na divisa dos dois municípios.
Romaria Além do PR, o PRB abrirá esta semana tratativas com Geraldo Alckmin para 2014. A sigla de Celso Russsomanno se diz desprezada pelo PT, aliado nacional, na montagem do primeiro escalão paulistano.
com ANDRÉIA SADI e DANIELA LIMA
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TIROTEIO
"Ao escolher FHC como guru eleitoral, o que Aécio fará se Dilma evitar o racionamento de energia elétrica? Oposição no escuro?"
DO DEPUTADO FEDERAL VICENTE CÂNDIDO (PT-SP), sobre o tucano ter optado pelo ex-presidente como precursor de sua candidatura ao Planalto em 2014.
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CONTRAPONTO
Existe amor no Senado
Eduardo Suplicy (PT-SP) ocupava a tribuna do Senado, em dezembro, para defender a inclusão da palavra "amor" antes do lema "Ordem e Progresso" na bandeira brasileira. Cristovam Buarque (PDT-DF) interveio:
-Se fôssemos fazer uma bandeira para o povo brasileiro, seria preciso tirar tudo o que está escrito, porque dez milhões não sabem ler. O que temos é um problema geométrico: não cabe mais uma palavra naquele espaço!
Suplicy defendeu, encerrando sua fala:
-Quando houver amor de todos nós ao povo brasileiro certamente não haverá mais analfabetos no Brasil...

    Avanço do Alzheimer é mais rápido nas mulheres - Paloma Oliveto‏

    Pesquisa feita nos EUA conclui que a atrofia cerebral aparece primeiro em pacientes do sexo feminino. A descoberta pode ajudar no desenvolvimento de novas drogas 

    Paloma Oliveto
    Estado de Minas: 08/01/2013 

    Passados mais de 100 anos desde que foi descrito, o mal de Alzheimer ainda desafia a medicina, que, apesar de avanços nas últimas décadas, não decifrou por completo a doença degenerativa, caracterizada pela morte gradual dos neurônios. Uma das particularidades desse tipo de demência é a diferença entre gêneros. Estudos epidemiológicos e pesquisas baseadas em exames de imagem mostram que os danos aparecem primeiramente nas mulheres, que sofrem maior perda de massa cinzenta do que os homens.

    O trabalho mais recente sobre a variação da doença de acordo com o sexo foi apresentado na reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte. Um estudo da Universidade Médica do Sul da Califórnia, em Charleston, mostra que a atrofia cerebral e a morte de células do órgão progridem mais rapidamente nas mulheres. Na pesquisa, Maria Vittoria Spampinato, professora de radiologia da instituição, avaliou as informações médicas de 109 pacientes que participam da iniciativa de neuroimagem para a doença de Alzheimer, uma pesquisa que acompanha centenas de indivíduos saudáveis e pessoas que já sofrem algum tipo de declínio. Todos os participantes do estudo de Spampinato apresentavam sinais de transtorno cognitivo leve, condição na qual ainda não existe a demência e as funções cognitivas estão preservadas. Contudo, os pacientes já sofrem problemas de memória. O transtorno é considerado um dos mais fortes fatores de risco para o Alzheimer. 

    Durante cinco anos, foram realizados mapeamentos cerebrais de 60 homens e 49 mulheres, com média de idade de 77 anos, por meio de exames de ressonância magnética periódicos. “Estudar o Alzheimer ainda é uma dificuldade porque apenas a análise do tecido cerebral, que só pode ser feita após a morte, fornece o diagnóstico definitivo da doença. Porém, a tecnologia de imagem tem se mostrado uma aliada dos pesquisadores porque, de forma não invasiva, podemos ver o que está se passando no cérebro dos pacientes”, afirma Spampinato.
    Ao fim de meia década, todos os 109 voluntários haviam evoluído para o Alzheimer. Usando as imagens da ressonância que avaliaram os cérebros dos indivíduos 12 meses antes do diagnóstico e 12 meses depois, foi possível criar mapas que ilustraram as alterações na massa cinzenta dos pacientes. Essas avaliações revelaram que, comparadas aos homens, as mulheres apresentavam uma atrofia muito maior um ano antes de o Alzheimer ser detectado. 

    As ressonâncias mostraram tambémque os homens e as mulheres da pesquisa perderam massa cinzenta em áreas cerebrais diferentes. Os danos provocados pelo Alzheimer, porém, são idênticos quando a doença já está bem estabelecida tanto em homens quanto em mulheres. “Depois de cinco anos, a atrofia era igual, independentemente do gênero. Isso indica que apesar de a doença demorar mais para se manifestar nos homens, quando isso ocorre ela vem de forma bastante agressiva”, constata a radiologista. 

    Para Spampinato, os resultados do estudo sugerem que o direcionamento dos testes farmacológicos e das estratégias preventivas precisam levar em conta a diferença de gêneros. “Há pesquisas ainda bastante embrionárias, mas que podem ser promissoras no sentido de buscar drogas que evitem a progressão do Alzheimer. Caso o resultado do nosso estudo seja replicado, e já estamos trabalhando na ampliação da amostra, ele pode ter fortes implicações no desenvolvimento de futuros medicamentos. Não podemos dizer agora se as drogas deveriam ter diferentes formulações; acredito que esse não seja o caso, mas a decisão de quanto e quando administrá-las poderá ser influenciada pelo gênero do paciente”, defende.

    Influência genética Ainda não se sabe por que o Alzheimer destrói a massa cinzenta das mulheres antes de começar a danificar os neurônios dos homens. Para um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, parte do problema pode ser explicada por uma variante genética já associada anteriormente à doença. Eles descobriram que a mutação do gene ApoE4 interrompe o funcionamento normal do cérebro de mulheres idosas e saudáveis, mas em homens nas mesmas condições ele tem um impacto pouco significativo. Mulheres que carregam a variante apresentam padrões neurodegenerativos muito antes que qualquer outro sintoma se manifeste, segundo os médicos de Stanford. 

    Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que tanto homens quanto mulheres que herdam duas cópias do gene mutante — uma probabilidade pequena, que afeta apenas 2% da população — têm grande risco de desenvolver Alzheimer. Mesmo nesse grupo, porém, as mulheres estão mais propensas a apresentarem sinais da doença do que os homens. Os pesquisadores descobriram isso por meio de amostras do líquido cerebrospinal, um fluido que é transportado do cérebro à espinha medular. Punções lombares em mulheres com duas cópias do ApoE4 revelaram um elevado nível da proteína tau, implicada com o desenvolvimento da doença (veja infográfico). Além disso, exames de imagem revelaram uma atividade cerebral anormal. Nos homens, mesmo que portadores da variante, nada disso ocorreu. 
    De acordo com Michael Greicius, professor de ciências neurológicas e diretor médico do Centro de Stanford para Distúrbios da Memória, para cada três mulheres com Alzheimer existem dois homens. “É verdade que mulheres vivem mais, e que a idade avançada é o maior risco para a doença, mas a disparidade de gêneros persiste mesmo se você fizer ajustes de longevidade. Acreditamos que por trás disso pode estar o impacto do ApoE4, o que, no futuro, é capaz de ser um fator importante para terapias gênicas”, afirma. 

    “Cada vez mais, reforça-se a ideia de que as lesões cerebrais relacionadas ao Alzheimer surgem antes nas mulheres. As manifestações clínicas do distúrbio não apenas aparecem mais cedo, como são mais severas nos primeiros anos”, afirma Lisa L. Barnes, pesquisadora do Centro Rush de Controle do Alzheimer, em Chicago. “Há várias linhas de pesquisa indicando fatores de risco, como variantes genéticas ou falta de algum fator protetivo, como o estrógeno, que fica deficiente depois da menopausa. Todas essas questões merecem estudos aprofundados, pois, ao entender como a patologia do Alzheimer e de outras demências diferem em homens e mulheres, poderemos compreender melhor a doença e mesmo desenvolver estratégias mais específicas e direcionadas de prevenção”, acredita.