quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Primeira bailarina brasileira a integrar o prestigiado balé russo comenta o ataque contra o diretor da companhia

FOLHA DE SÃO PAULO

DEPOIMENTO
'Rezo para que o Bolshoi continue um ambiente de arte, e não do crime'
MARIANA GOMESESPECIAL PARA A FOLHAVidro na sapatilha, tirar colchete de vestido antes do espetáculo, agulha no arranjo de cabelo, tudo isso eu sei que acontece, mesmo parecendo exagero.
Teatro é um meio cruel. Nossa carreira é curta, bailarinos são muitos, e o pior é ambição. Já vi bailarinos que se drogam, se alcoolizam. Há os que foram parar em manicômios durante turnês.
Já vi muita coisa e já perdoei muitos casos deste tipo, mas, dessa vez, não. Não entra na minha cabeça tamanha ambição. Esse exagero é o reflexo do que vem acontecendo com os artistas ali dentro.
Uma tragédia: Sergei Filin nos últimos dias não enxerga e reage somente à luz, claro e escuro -foi a última notícia que tive dele.
Quando cheguei ao teatro Bolshoi, sete anos atrás, Sergei Filin ainda era o primeiro bailarino. Lembro quando dancei o balé "Cinderella" e ele descia a escada do segundo ato no baile sentado no corrimão, escorregando, e a plateia gritava: "Oooooh!".
Realmente, técnica, beleza, carisma de causar espanto e, obviamente, inveja.
Filin virou diretor do Bolshoi em 2011, no momento em que o teatro explodiu, com transmissão on-line e em cinemas, grandes turnês e sucesso.
No meu primeiro ano de Bolshoi, ainda sem falar muitas palavras em russo, lembro que recebi um comunicado do teatro informando que eu deveria pagar uma taxa equivalente a US$ 200 para me registrar na cidade.
Eu, estagiária na época, sem salário, chorava no restaurante do teatro, quando Filin, aquele príncipe, chegou até mim e perguntou o que havia acontecido.
Pela primeira vez alguém tinha tentado falar inglês comigo. Eu contei a situação e ele me disse que resolveria.
No dia seguinte, fui chamada ao caixa do Bolshoi, recebi o valor e assinei um recibo de "ajuda de custo".
Só o que posso fazer é rezar por ele e pelos artistas que amam sua profissão.
Rezo para que esse templo Bolshoi continue sendo um ambiente de paz, e não da concorrência, de arte, e não do crime. Os espetáculos continuam e nunca vão parar, pois o dever do artista é acalmar e encantar o público, mesmo que por dentro do sorriso esteja mergulhado em dores, dúvidas e medos.
MARIANA GOMES, 24, foi a primeira bailarina brasileira a integrar o balé russo Bolshoi.
Leia a íntegra em
folha.com/no1218409

    Mônica Bergamo

    FOLHA DE SÃO PAULO

    PINTAR PAREDES
    Grafiteiros como Simgol, Minhau e o francês Kongo se reuniram para a abertura da Bienal do Grafite, anteontem. A fotógrafa Anita Goes e o arquiteto e colunista da FolhaGuto Requena foram ao MuBe conferir.
    IMPÉRIO DOS SENTIDOS
    A Orquestra Imperial, da qual fazem parte Nina Becker, Kassin e Wilson das Neves, comemorou dez anos e lançou novo álbum, com show no fim de semana. A videomaker Nina Cavalcanti esteve na plateia da choperia do Sesc Pompeia.
    A INSULINA É NOSSA
    O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anuncia hoje a retomada da produção nacional de insulina humana, principal medicamento usado por diabéticos. O remédio será produzido no Brasil por meio de uma PPP (parceria público-privada), que inclui o Laboratório Farmanguinhos, da Fiocruz, e uma empresa ucraniana, detentora de tecnologia para a fabricação da substância.
    MAIS INSULINA
    A produção nacional de insulina foi interrompida em 2001, quando a brasileira Biobrás foi vendida para uma multinacional dinamarquesa. Com a PPP, o Brasil vai fabricar mais de oito milhões de frascos de insulina por ano, suficientes para a assistência aos 7,6 milhões de diabéticos brasileiros. Cerca de 900 mil usuários obtêm o remédio no SUS.
    FORA DO AR
    A TAM vetou parte da campanha do Creci-SP (Conselho Regional dos Corretores de Imóveis), veiculada em todos os seus voos neste mês, por fazer referência a pilotos. "Para viajar com rapidez e segurança, você confia em um piloto de avião. Na hora de conduzir um negócio imobiliário, você também precisa do profissional certo", dizia a campanha produzida pela Área Comunicação.
    FORA DO AR 2
    No ar também na TV, o vídeo foi adaptado. "Para cuidar da saúde, você confia no médico", diz o novo comercial exibido antes da decolagem. A TAM diz que informações a bordo relativas à aviação devem ser definidas pela companhia para evitar "desconforto aos passageiros".
    POR UM TRIZ
    Gilberto Kassab não estará no Brasil em seu primeiro aniversário de SP como ex-prefeito. Retorna após périplo mundial pelas cidades que disputam com a capital paulista sediar a Expo 2020.
    ALFORRIA JÁ
    A Secretaria da Justiça de São Paulo resgatou 59 trabalhadores em situação análoga à escravidão em 2012. No dia 31, realizará debate para discutir as diretrizes da Carta Compromisso contra a Escravidão, assinada por Fernando Haddad, Geraldo Alckmin e Dilma Rousseff.
    -
    Estarão presentes a ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) e a secretária da Justiça Eloisa Arruda.
    FAXINA
    Após a saída de Carlos Wendel, seu diretor-executivo desde 2002, a Cinemateca deve regularizar boa parte do pessoal. Segundo Leopoldo Nunes, secretário do Audiovisual, em torno de 80% de 200 funcionários em SP são pessoas jurídicas, e não servidores concursados.
    DE FRANJA
    Durante a posse de Barack Obama, anteontem, quem ligava para o cabeleireiro da primeira-dama em Chicago ouvia o seguinte recado: "Aqui é o Johnny Wright, e eu não posso falar sobre o novo cabelo de Michelle Obama, que ficou ótimo".
    RITA, 50 ANOS AQUI
    Rita Lee fará turnê em comemoração dos 50 anos de carreira. A celebração começa com o show que a roqueira faz na sexta no vale do Anhangabaú. A advogada Silvia Venna é a nova empresária da cantora.
    A MÃO DO MESTRE
    Baianas da Companhia Tribo de Dança vão fazer a lavagem da escultura "Mão", de Oscar Niemeyer, no Memorial da América Latina, na sexta, aniversário de São Paulo, num gesto simbólico de purificação da cidade. Um cortejo sairá do Auditório Simón Bolívar, ao som de uma bateria formada por 50 integrantes de escolas de samba.
    CURTO-CIRCUITO
    O Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil inaugura hoje a exposição "A História da Imigração Através de Retratos".
    O Instituto Vladimir Herzog promove a cantata "O Diário de Anne Frank", na sexta, na catedral da Sé.
    O restaurante Gusto, no Itaim Bibi, abrirá 24h por dia a partir de amanhã.
    O projeto "Cabaret Volátil" estreia hoje no Studio SP da Augusta. 18 anos.
    Gabriel Gava toca hoje na Wood's. 18 anos.
    A Galeria do Avesso, com exposições de "street art", abre hoje no shopping Casa & Móvel, em Pinheiros.
    O ator Henri Stroeter integra o elenco da peça "O Terraço", em cartaz no teatro Nair Bello. 10 anos.
    com ELIANE TRINDADE (colaboração), LÍGIA MESQUITA (interina), ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER e CHICO FELITTI

      Osesp e Nelson Freire dão brilho a Villa-Lobos em discos de fora

      FOLHA DE SÃO PAULO

      CRÍTICA MÚSICA ERUDITA
      SIDNEY MOLINACRÍTICO DA FOLHADesde meados do século 19, quando Liszt (1811-86) formatou o moderno recital e Brahms (1833-97) apontou novos caminhos formais, piano e sinfonia têm estado fortemente integrados à estrutura dos concertos de música clássica.
      Villa-Lobos (1887-1959), por outro lado, tem sido mais conhecido pela incontestável importância de sua obra para violão e pelas formações idiossincráticas de seus "Choros" e "Bachianas Brasileiras", que nem sempre encontram espaço nos formatos convencionais das temporadas.
      Por isso os lançamentos internacionais, por selos prestigiados, do primeiro volume integral das 11 sinfonias pela Osesp regida por Isaac Karabtchevsky (Naxos, R$ 40,60) e do álbum "Villa-Lobos & Friends" pelo pianista mineiro Nelson Freire (Decca, R$ 34) apontam novos caminhos para o processo de recepção da obra do carioca.
      O CD da Osesp traz a "Sinfonia nº 6 - Sobre a Linha das Montanhas" (1944) e a "Sinfonia nº 7" (1945). São obras densas e opacas: trazem um Villa-Lobos diferente, estranho em sua maturidade.
      Forma, harmonia e orquestração viram um só bloco, que parece se sobrepor inesperadamente a melodias e ritmos. O Brasil que está nelas viu ao longe a Segunda Guerra e passou pelo Estado Novo. É um Brasil mais real, menos pretensioso.
      O CD de piano, por outro lado, traz Nelson Freire no auge da forma tocando música de Villa-Lobos e de outros sete compositores nacionais. É uma coleção de pequenas peças (a maioria utilizada como bis por Freire), todas velhas conhecidas dos pianistas brasileiros.
      Mas é certo que a maioria dessas peças ainda é nova para o público habitual no exterior.
      E nada melhor, neste momento, do que o som e o senso de equalização de Nelson Freire para apresentá-las.
      Versões como as da "Valsa da Dor" (de Villa-Lobos) e o tríptico dedicado a Guarnieri (1907-93) estão no mesmo patamar de suas melhores performances de Chopin (1810-49) ou Debussy (1862-1918).
      VILLA-LOBOS: "SINFONIA Nº 6" E "SINFONIA Nº 7"
      AVALIAÇÃO ótimo
      BRASILEIRO: VILLA-LOBOS & FRIENDS
      AVALIAÇÃO ótimo

        Marcelo Coelho

        FOLHA DE SÃO PAULO

        Tempo de Kindle
        É muito chato ler qualquer livro em que o texto tem a invariável aparência de um documento do Word
        Ando meio cansado dos tradicionais elogios ao livro impresso. Aquela conversa de "adoro cheiro de livro" não me convence muito; de tão repetitiva, parece perder a sinceridade que possa ter tido, tornando-se talvez só um clichê.
        Não sei se muita gente apreciava de fato o cheiro do livro antes de surgir a ameaça do Kindle e outros formatos eletrônicos.
        São raros, aliás, os livros que têm cheiro de fato, a não ser que você afunde o nariz dentro deles, atividade dificilmente compatível com a da leitura propriamente dita. Tudo bem, alguns livros da infância trazem esse tipo de memória guardada nas páginas.
        Mas a encadernação ou a cola podem até produzir um odor próximo do amargo e do enjoativo: algumas edições de arte, com papel brilhante e pesado, estão nessa categoria. Além de apresentarem o defeito de refletir a luz, se a lâmpada for forte demais.
        Quanto ao contato da pele do dedo com o papel, não sei que prazer se tira disso. Já me cortei com as bordas de edições muito perfeitas. O papel mais macio, por sua vez, pode exigir uma lambida nos dedos de vez em quando, coisa que na minha opinião fere um pouco a etiqueta de qualquer escritório ou biblioteca. Um pouco mais e estaremos todos mexendo os lábios durante a leitura.
        É que todo esse apelo à "fisicalidade" do livro tende a ser uma traição, acho, do que há de mais espiritual no ato de ler. Não é prazer que deva ser contaminado por apelos táteis, olfativos ou, pronunciemos a palavra, gastronômicos.
        O livro impresso, quando se manifesta na conversa sobre tato e perfume, inscreve-se no mesmo capítulo que mobiliza os adeptos da "slow food", os especialistas em charutos, os que percebem notas de canela e mirtilo no vinho não sei das quantas. É vontade de refinamento, decorada e repetida num esforço de autoconvencimento.
        Quanto à praticidade, tenho também minhas dúvidas. Não é fácil segurar nas mãos uma boa edição de "Guerra e Paz". A versão encadernada pesa muito. Em formato de bolso, é raramente resistente aos meses de investida. Em dois volumes? Aí não vale.
        Tenho livros baratos que se despedaçaram antes de eu chegar ao final. Livros mais caros, de capa dura, resistem obtusamente à informalidade e ao conforto de um uso cotidiano. O papel antigo fica amarelo e ganha manchas. O papel de luxo, tipo bíblia, cria orelhinhas e se rasga facilmente. Um dicionário grande, editado em volume único (penso no "Houaiss") é objeto de alto risco. Em vários volumes? Sempre erro ao calcular a ordem alfabética.
        Resultado: comprei um Kindle, numa viagem, há coisa de dois anos. O produto agora está disponível no Brasil.
        Fica o testemunho: nunca uso a geringonça. A ausência de cheiro é o de menos. Os problemas são outros. Em primeiro lugar, é muito chato ler qualquer livro em que o texto tem a invariável aparência de um documento do Word. Será incompetência minha ou toda a arte da tipografia desaparece com o Kindle?
        E as capas? Não existirão mais? Voltamos ao século 19 com essa novidade eletrônica. Além disso, não me conformo em pagar, digamos, quarenta reais apenas pelo direito abstrato de baixar um arquivo literário na máquina.
        A abstração do Kindle tem outra consequência, mais grave do que a questão do cheiro do papel. É que, como em toda tecnologia contemporânea, o espaço entra em vias de desaparecimento, sendo substituído pelo tempo. Não ficam mais evidentes a página de trás, a página da frente, a página par, a página ímpar, a grossura do livro que estamos lendo, ou o seu lugar na prateleira.
        Tudo passa a se situar numa névoa temporal, entre o "agora" e o "não ainda", sem o "para trás" ou o "mais adiante". Por isso se fala na "memória" do computador, e não no seu "armário" ou no seu "depósito". Última vitória do tempo, o sistema de arquivos em "nuvem" eliminou o problema do "espaço em disco".
        Com o Kindle, você nem precisa de marcador de livro: ele liga sozinho na página em que você interrompeu a leitura. Só que, assim, você também deixa de folhear o livro e reler por acaso alguma passagem.
        Claro que vão inventar, um dia desses, a "função folhear", e um comando de produção de odores, assim como os computadores imitam o barulho de páginas sendo viradas. Mas aí eu já não estarei, provavelmente, lendo mais coisa nenhuma. Mais uma vitória do tempo, aliás.
        coelhofsp@uol.com.br