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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Marcelo Coelho

folha de são paulo
O eterno masculino
Quadrinhos clássicos do Fantasma, personagem criado em 1936, voltam às bancas de jornal
É sempre estranho que os heróis de histórias em quadrinhos tenham de usar algum tipo de uniforme. Qual a razão daquelas roupas inteiriças, daquelas capas bandeirosas e sungões tamanho GG?
Corrijo o pensamento, ao imaginar a alternativa absurda. Ninguém de paletó, gravata e chapéu poderia sobrevoar os céus de Metrópolis sem ridículo. Um Super-Homem de azul esvoaçante pode ser absurdo, mas seria ainda mais absurdo em roupagens civis.
Joaquim Barbosa talvez fosse menos implacável se o despojassem da toga de morcego. Verdade que outros ministros do STF, capazes de mostrar larga indulgência frente aos réus do mensalão, usam também a capa protocolar.
Só que, sentados, deixam que predomine o paletó comum, a camisa neutra, a gravata banalíssima. Os males da coluna forçam Barbosa a manter-se de pé. Pior que isso. Apoiado no espaldar da poltrona giratória, o presidente do STF parece uma águia no alto do penhasco, pronto para a arremetida fatal.
Não me estendo na comparação. Concluo que a roupa ajuda e volto ao tema dos uniformes dos super-heróis.
Nenhum mais absurdo, pensando bem, que o do meu preferido na infância. Tratava-se do Fantasma, "o espírito que anda". Em plena selva do interior da Índia, ou talvez na África Equatorial, ele não tirava nunca a malha roxa, que lhe cobria a cabeça inclusive.
Por cima, o maiô de listras pretas em diagonal, do qual pendia o prosaico acessório de uma pistola automática, no coldre antigo. O mais estranho era a máscara, sumária como a parte de cima de um biquíni, mas que por alguma razão velava seus olhos atrás de uma borracha branca.
Naquela indumentária grudenta, meio de mergulhador, meio de Fanta Uva, o Fantasma sentava-se sozinho no Trono da Caveira, afagando seu lobo Capeto, e dava audiência a seus súditos --uma tribo de pigmeus, dotada de rei próprio, a quem distinguia um chapéu cônico de galhos secos, à guisa de coroa.
Com tudo isso, o Fantasma me parecia mais interessante do que Mandrake, Tarzã, Super-Homem e mesmo o Batman. Seria, provavelmente, mais "sexy" que todos esses rivais.
Tinha, também, aparência mais maligna. Cercava-se de caveiras; longe do ambiente urbano, na escuridão da jângal, cultivava a própria lenda.
Ao mesmo tempo, não tinha nenhum poder sobrenatural. Apenas a credulidade dos nativos --sempre ela-- cuidava de aumentar suas façanhas. Era tido por imortal. Mas não; representava apenas o último descendente de uma dinastia que há 400 anos, com o mesmo uniforme, jurara combater os malfeitores daquelas bandas.
Teria voado até as nuvens para derrotar um gigante de dez andares. Não, não. A própria narrativa dos quadrinhos ironizava a licença poética dos selvagens. No máximo, esmurrara um gângster grandalhão.
Claro que, destituído de superpoderes, o Fantasma se tornava ainda mais formidável aos olhos de um menino. Representava o luxo de uma completa autonomia; era realista em seu delírio; não tinha nada com que contar, exceto a imaginação dos pigmeus que o seguissem.
Sai nas bancas, pela editora Pixel, um livro com as primeiras histórias do Fantasma. Com história de Lee Falk e desenhos de Ray Moore, a saga dos "Piratas do Céu" foi publicada pela primeira vez em fins de 1936.
Embora a publicação da Pixel se apresente como o primeiro volume de uma série, já pegamos a aventura pela metade. Nessas 126 páginas, em quadrinhos bem pequenos, o herói está às voltas com uma quadrilha composta exclusivamente de belíssimas aviadoras.
Eu tinha a impressão --mas pode ser devido a versões posteriores-- que os desenhos do Fantasma fossem menos primitivos. Os movimentos do herói são rígidos, os enquadramentos se prendem ao convencional, as expressões faciais caem no tosco e no amadorístico.
Eram só isso aqueles quadrinhos? Não. A aventura tem boas reviravoltas, e todas devido a um só fator: a inconstância do sexo feminino. Várias vilãs --sempre lindas-- se apaixonam sucessivamente pelo herói. Ele as manipula como quer, mesmo que na maior parte do tempo algemado e atrás das grades.
As aviadoras se dividem, brigam, reconciliam-se, traem-se umas às outras. Não apenas um colonizador levando paz às tribos primitivas, o Fantasma também triunfa, intacto, sobre tantas sedutoras. É o eterno masculino. Talvez por isso mesmo não dispense o collant roxo e o maiô listradinho.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Marcelo Coelho

folha de são paulo
O dedo no nariz
A cultura católica palpita de corpo em toda parte. Os quadros dos santos explodem de chagas
Nas "Confissões de um Poeta", Ledo Ivo relembra um dia de grande chuvarada, na praça da Matriz de não sei que cidade brasileira. Da igreja saía um grupo de seminaristas em excursão.
O aguaceiro veio de repente, e todos correram para se proteger. Todos, menos o superior da diocese. "Corre, corre, dom Fulano!", gritavam os seminaristas. Mas o prelado prosseguia no mesmo passo.
"Bispo não corre", sentenciou dentro da batina ensopada, pisando nas poças com seus sapatos pretos.
Os tempos mudaram, como atesta um vídeo que circulou na internet, com o papa Francisco. Cometi a imprudência de compartilhá-lo no Facebook.
Choveram protestos, até dos leitores mais fiéis. Do que se tratava? A meu ver, nada de mais.
Sentado no banco traseiro de um carro prateado, com câmeras e repórteres querendo entrar pela janela, Francisco fazia uma discreta higiene no nariz.
O polegar, dentro da narina, descreveu uma rápida meia-lua. Algo foi retirado de lá. Depois de uma breve pausa, o papa...
Sim, o papa comeu a melequinha! Compartilhei a notícia sem comentário. Meu objetivo não era tripudiar a imagem do pontífice. O vídeo certamente era invasivo. Mas achei bom, achei normal, gostei, sorri.
Há coisas muito piores a fazer do que ingerir esse tipo de matéria. Fiz isso uma vez, quando criança, e não estava sozinho na ocasião.
Lembro-me bem. Estava na casa de uma tia, muito católica por sinal, e que tinha problemas de surdez. Talvez por isso, ela ficava às vezes ausente da cena, sem prestar atenção em nada. Dizia mesmo que, quando a conversa ficava chata, ela desligava o aparelho.
Sei que ela estava sentada à minha frente, com os seus olhos puros e verdes fixados em mim. Foi como se me hipnotizasse. Pus o dedo no nariz, e naquela única vez, experimentei o gosto --salgado, seco, sem nojo-- do que retirara lá de dentro.
Com uma risada de surpresa, ela saiu de seu transe --e eu também. Como fui capaz da proeza? Eu sabia que não era algo que se faz em público.
Pode ser que eu precisasse certificar-me de que ela estava ali. Pode ser, também, que eu precisasse certificar-me da minha própria existência. Tínhamos sido colhidos, quem sabe, numa espécie de vazio temporal.
Um buraco negro, vá lá, em que a nossa própria existência, e a consciência de estar nela, desapareceram silenciosamente. Não era eu, não era ela; a impropriedade --das mais leves, afinal-- se cometera sem sujeito.
De resto, todo mundo põe o dedo no nariz. Tive o prazer de fazer essa revelação, já adulto, a um menino a quem repreendiam a constância nessa atividade.
Só não sei por que tantas pessoas fazem isso dentro do carro. Basta olhar para os lados quando o sinal está vermelho. Alguns cantam. Outros põem o dedo no nariz. Sabemos (me incluo nessa) que qualquer um pode nos surpreender nessa inocente intimidade.
Estar dentro do carro, mesmo com o vidro aberto, aparentemente nos torna imunes à crítica. O carro é o meu castelo. O teto de lata é, ainda assim, um teto. De lá, posso xingar qualquer pedestre. Por que não o dedo no nariz?
Os jogadores de futebol (mas não os de basquete ou de vôlei) fazem pior em campo; o uso de cotonetes em público, embora não corriqueiro, conhece menor reprovação.
Escarradeiras eram comuns nos tempos de Machado de Assis; até recentemente, a cera do ouvido podia ser retirada com a unha do mindinho, desde que a fizessem crescer, "à catita": esse o termo.
O "processo civilizador", para lembrar o conhecido livro de Norbert Elias, impõe crescentes disciplinas sobre as atividades corporais. Está provavelmente errado quem pensa que a Idade Média era uma época de puritanismo; em Chaucer, Boccaccio ou Dante fala-se mais da "questão do corpo" do que em qualquer catálogo de arte contemporânea.
Mais do que deseja a austeridade protestante, a cultura católica palpita de corpo em toda parte. Os quadros dos santos explodem de chagas e de sangue. Sempre achei estranho, aliás, o guardanapo que o padre usa na missa depois de tomar o vinho. No cristianismo, de resto, Deus se fez de carne, carne que come peixe e pão, carne que atravessaram pregos.
A imprensa cerca o papa. Ele põe o dedo no nariz. Há muita simbologia nisso. Quem quiser que atire a primeira pedra.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Marcelo Coelho

folha de são paulo
Os fascistas 'do bem'
Em nome de que minorias alguém se levanta e puxa um coro para avacalhar quem quer que seja?
O vídeo circulou na internet. Dois jovens toparam com o pastor Feliciano num avião e resolveram se manifestar. Enquanto o deputado, famoso pelas opiniões homofóbicas, mexia no computador com aparente concentração, eles se levantaram, cantando "Robocop Gay", antigo sucesso dos Mamonas Assassinas.
Estavam achando tanta graça na coisa que nem conseguiam cantar direito. Pediram aos demais passageiros que aderissem ao coro, sem muito sucesso. Ouve-se, no máximo, uma voz feminina fora do alcance da câmera.
Atrás de Feliciano, um homem sentado começou a se incomodar e pediu aos dois rapazes que ficassem quietos. Foi rapidamente hostilizado também: "Você é o guarda-costas dele?".
O deputado, que já disse inconveniências sobre afrodescendentes e defende que psicólogos possam anunciar tratamento para a homossexualidade, mantinha-se impávido. A dupla não sabia bem o que fazer; recuar ou avançar?
Um deles avançou. Estendeu o braço, no que pode ser interpretado como uma tentativa de fazer carinho na cabeça do pastor.
Depois, eles desistem. O vídeo continua com uma entrevista de outra passageira, que cita Freud e critica, de modo razoável, a repressão sexual.
Pelo que diz minha sensibilidade para o assunto, os dois manifestantes não tinham jeito de gays. Talvez, se tivessem, eu não estaria escrevendo este artigo. Não sei.
Tinham, isso sim, as características claras do jovem fascista urbano brasileiro. A voz desarticulada, o espírito do oba-oba cervejeiro, o celular na mão e a ideia pronta na cabeça.
Não preciso dizer que tenho máxima antipatia por Feliciano e seus congêneres. O deputado ganhou a loteria ao se tornar presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. É exemplo do tipo de acordo surrealista que se faz para garantir a base parlamentar de apoio para o governo Dilma --e provavelmente qualquer outro que apareça no futuro.
Representa, com ridículo e insistência, a espécie de dinossauros de gomalina que prosperam na política brasileira. Será um fascista? Depende da definição.
Atrasado não é sinônimo de fascista, ignorante também não. Preconceituoso, conservador, racista, homofóbico --é possível ser tudo isso sem ser fascista.
Na minha definição, pelo menos, para ser fascista é preciso algo além disso. Cito alguns ingredientes.
Em primeiro lugar, a nostalgia da horda primitiva. O fascista está feliz em grupo; só age quando sente que a maioria está a seu favor. Ou melhor, age quando se sente protegido pela aprovação da maioria.
Fosse apenas isso, qualquer multidão seria fascista, o que não é verdade. Nem mesmo o uso da violência pode ser identificado ao fascismo. Revoltas podem ser violentas sem ser fascistas, o que não significa que eu aprove a violência.
Imagine-se, por exemplo, duas torcidas de futebol enlouquecidas. Entram em confronto. Dos dois lados, há selvageria, fanatismo, estupidez. O fascismo, a meu ver, aparece em outra ocasião.
Suponha a torcida de um time que acabou de ganhar o campeonato. Encontra, no meio da festa, uns quatro ou cinco adeptos do time derrotado. Não contente com a vitória, a torcida vencedora resolve hostilizar os perdedores. Hostiliza, xinga, cai de pancada em cima dos coitados --para lhes "dar uma lição".
Isso, para mim, é puro fascismo, e não depende de nenhuma orientação ideológica. Trata-se de oprimir, em grupo, o derrotado, o minoritário, o sem defesa.
Os dois marmanjos do avião escarneceram de Feliciano porque se julgavam, com razão, em maioria naquele ambiente mais ou menos civilizado, onde haverá poucos homofóbicos militantes.
Há 30 ou 40 anos, é possível que fizessem o mesmo se algum transexual estivesse a bordo. Qual o propósito de hostilizar Feliciano? Puni-lo por ser quem ele é? Em nome de que minorias você se levanta da cadeira do avião e puxa um coro para avacalhar quem quer que seja?
Gostei de ver as faixas contra Feliciano nas manifestações de junho. Gostei das manifestações, também.
Mas o fascismo, por vezes, esteve por perto. Não porque --como dizem-- muitos manifestantes "negavam os partidos políticos". Uma tradição pacífica do anarquismo sempre desconfiou dos partidos, e não tem a ver com fascismo.
Foi fascista, entretanto, quem se juntou para quase linchar o PM Wanderlei Paulo Vignoli, na manifestação de 11 de junho. Por sorte, não eram tantos assim. Também por sorte, Vignoli não era nenhum Robocop.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Marcelo Coelho

folha de são paulo
O vício da notícia
Irresistível, seriado americano 'Newsroom' mostra o sonho e os pesadelos de todo jornalista
Talvez seja culpa de seu ótimo desempenho num antigo filme de Woody Allen, "A Rosa Púrpura do Cairo". O fato é que, por mim, Jeff Daniels terá sempre o papel do perfeito panaca americano --passivo, grandalhão, branquelo e balofo.
Ele surge desse jeito nas cenas iniciais do seriado "Newsroom" --meu mais recente vício televisivo. Jeff Daniels é o âncora Will McAvoy, astro de um noticiário das dez que não fede nem cheira.
McAvoy está participando de um debate numa universidade americana. Enquanto ele fica quieto, olhando de um lado para o outro, a discussão pega fogo.
Contrapõem-se os lados clássicos da luta ideológica norte-americana: uma direita fundamentalista, triunfante e raivosa, contra um centro-esquerda democrata acuado e sem originalidade.
O encontro já está chegando ao fim quando o nosso picolé de chuchu, por razões que só serão explicadas mais tarde, tem uma iluminação e se engaja num discurso memorável.
Fatos e mais fatos, números e mais números são expostos com uma lógica impiedosa, provando por A mais B que os Estados Unidos não são nada dessa maravilha que os americanos dizem ser.
Como acontecerá em muitos outros momentos do seriado, o acúmulo de evidências empíricas se acompanha de um crescendo emocional, e a música, de um modo que não poderia ser mais americano, conquista a adesão até mesmo do espectador mais cético.
Confiaremos plenamente em Will McAvoy a partir de agora, e ele próprio renasce como jornalista. Seu noticiário conhecerá uma reviravolta fabulosa, graças à aparição de uma nova produtora, vivida pela britânica Emily Mortimer.
Nada mais de engolir explicações oficiais furadas. Nada mais de fofocas idiotas. Nada mais de ouvir as mentiras conservadoras em silêncio. McAvoy ganha o poder de jogar sobre a mesa, como um cadáver na sala do júri, os fatos decisivos, que deixam os assessores e os políticos sem resposta.
Para qualquer pessoa interessada em notícias, o seriado é irresistível. Sua segunda temporada estreia no Brasil dia 15 de julho, pela HBO; o pacote com os DVDs da primeira temporada já está nas lojas.
Como em toda minissérie que se preza, as personagens ficam mais complexas a cada capítulo. A aparência de bonachão escondia, no caso de Jeff Daniels, um tipo dos mais antipáticos, incapaz até de saber o nome próprio dos subordinados.
Logo veremos que o mau humor do âncora tem origem numa grave decepção sentimental. Mas não! Havia outras causas... E espere, sua violência contra os entrevistados está saindo fora do controle. Mas o que é isso? O sujeito tem um coração de ouro.
Viciei-me na novela, como se vê. Multiplique esses quiproquós psicológicos pelos vários personagens da equipe que produz o noticiário. São, aliás, tipos deliciosos para quem conhece um pouco da vida interna do jornalismo.
Há a loirinha absolutamente atrapalhada, pronta a cometer prodígios de ignorância --só que, apesar da aparente burrice, ela tem o jornalismo no sangue. Há a acadêmica de óculos, gostosíssima, fluente em dez línguas --mas totalmente surda para as regras mais elementares da profissão. Naturalmente, muita tensão sexual se concentra naquele convívio em ambiente fechado.
Cada encontro entre os personagens ganha as faíscas rapidíssimas dos diálogos de Aaron Sorkin (autor de "West Wing").
Apesar da suposta neutralidade de McAvoy no debate do primeiro capítulo, sua atuação é dura no combate ao conservadorismo americano. "Ah, como seria possível isso numa grande emissora privada de TV hoje em dia?"
Pois é. O tapete do âncora e de sua equipe está sendo puxado o tempo inteiro. Mas o jogo da emissora exige inteligência de detetive para ser descoberto.
O melhor, entretanto, está naquilo que toda produção americana não se cansa de fazer. Jornalistas ou pistoleiros, astronautas ou detetives, os personagens são sempre excelentes em sua atividade, e podem gabar-se dos êxitos mais implausíveis.
A ideia de que se vive pela vocação, de que ou se é um profissional "outstanding" ou não se é nada, sobrevive a despeito de todas as falhas humanas de cada personagem. Que incluem, por exemplo, estar chapado de maconha no dia de uma revelação histórica.
Cada capítulo, aliás, aborda capítulos recentíssimos da política americana. Espero ardentemente pelos próximos.
Enquanto isso, fico de férias até dia 14 de agosto. Boas semanas.

sábado, 6 de julho de 2013

Marcelo Coelho

folha de são paulo - Opinião
Manifestações expõem o fato de que o poder não muda
O FATO DE QUE O PODER NÃO MUDA, DE QUE HADDAD SE ALIA A MALUF ENQUANTO A CURA GAY FOI IDEIA DE UM TUCANO, FOI EXPOSTO
MARCELO COELHOCOLUNISTA DA FOLHAAs manifestações do mês passado foram de lavar a alma. Em 2007, tentou-se fazer coisa parecida. Mas quem se lembra do movimento "Cansei"? Não deu certo. Estava excessivamente identificado com o antilulismo, a Fiesp, o "andar de cima", enfim.
Silenciou-se, agora, a versão de que toda crítica ao PT era coisa da direita golpista. Se as críticas à corrupção e ao péssimo estado dos serviços públicos cresceram agora --e pouco se falou contra desemprego ou carestia--, isso talvez seja consequência dos próprios ganhos sociais acumulados na última década.
Garantido um maior acesso aos bens de consumo, chega a hora em que o cidadão menos rico também diz "cansei". Compra um computador, e aquilo bem ou mal funciona. Mas o ônibus não funciona, nem a escola nem o posto de saúde.
A "nova classe C" chegou provavelmente a seu teto de consumo, e não lhe sobram tantos recursos para migrar de vez para o mundo da escola paga, do plano de saúde privado, da segurança particular.
Isto posto, é certo que as manifestações de junho foram "multiclassistas". Havia a ultra-esquerda. Havia uma classe média que, decepcionada com os seus tucanos e com os seus Demóstenes, resolveu fazer oposição com as próprias mãos. Havia uma massa estudantil que já não é tão elitizada, graças às cotas e ao ProUni.
Havia uma juventude de periferia para quem os males do Estado não se localizam em Dilma ou Renan, mas numa PM que prende, achaca e barbariza. Havia os descontentes com uma PM que não prende e com uma Justiça que prende menos ainda.
No meio desses dois extremos, a maioria só se mobilizou de fato quando entrou em cena o direito democrático de protestar sem ser espancado pela polícia.
Uma escolha foi feita entre duas fotos terríveis: a do policial quase linchado e a do outro, batendo no casal que tinha entrado numa cafeteria.
Ninguém estava a favor do vandalismo. Mas estava menos ainda a favor da baderna policial. A questão da PM é o grande tema ainda a ser tratado, com reforma política, transportes, educação.
Com isso, as circunstâncias fizeram com que Alckmin e Haddad, PSDB e PT estivessem "objetivamente" do mesmo lado. A saber, do lado direito do Sena, em Paris.
Primeiro as planilhas, depois o cassetete.
O fato de que o poder não muda, de que Haddad se alia a Maluf enquanto a cura gay foi ideia de um tucano, foi exposto.
Não é só no Brasil que as máscaras da política vão caindo. Outras, com o "V" de Vingança, correm o mundo. Ainda que eu não me sinta confortável com o que pode vir daí, pessoalmente me senti vingado também.

    quarta-feira, 3 de julho de 2013

    Marcelo Coelho

    folha de são paulo

    Gatsby, o retorno

    Não se pode reconstruir o passado, diz Nick Carraway, o narrador de “O Grande Gatsby”, ao misterioso personagem cujo nome dá título ao romance de Scott Fitzgerald.
    “Como assim? Claro que se pode!”, responde Gatsby. Do alto de uma imensa fortuna, adquirida não se sabe direito como, ele quer reconquistar o amor de sua juventude. Conhecera Daisy, uma moça aristocrática, quando ainda não tinha um tostão.
    Daisy acabou se casando com um ricaço de família tradicional, que logo se revela adúltero, preconceituoso e violento. O casamento vai mal quando Gatsby reaparece, montado numa mansão espetacular, palco de uma sequência nauseante de festas —às quais Daisy não comparece.
    Exposto assim, o tema principal de “O Grande Gatsby” poderia ser adaptado para uma telenovela de terceira. A arte de Scott Fitzgerald está em deixar todos os personagens, e suas motivações, envoltos numa atmosfera úmida, desentendida e reticente.
    A publicidade antecipada em torno de “O Grande Gatsby”, filme de Baz Luhrmann com Leonardo Di Caprio, sem dúvida intensificou a má vontade de muita gente. Ainda mais porque estava na memória a versão anterior do livro, dirigida por Jack Clayton em 1974, com Robert Redford e Mia Farrow.
    As cores esmaecidas e o charme lânguido do filme mais antigo terminaram produzindo a impressão de que se tratava de uma obra mais artística do que era realmente.
    Como Jack Clayton nos empapava de estilo e figurino, e como tendemos a ser maus intérpretes dos códigos sociais do passado, aquele “Grande Gatsby” diminuía o contraste entre a aristocracia de Daisy e a ambição emergente de Gatsby.
    No livro, este é desprezado, por exemplo, quando usa um terno cor-de-rosa: sinal de breguice irremediável para os outros personagens.
    Só que Robert Redford, com o terno da cor que quisermos, será sempre um bacanão na mais alta película da nata social americana. A história real de seu fracasso amoroso ficava um bocado incompreensível, atrás de muitos véus de tule, no filme de Clayton.
    “Não se pode reconstruir o passado.” “Claro que se pode!” A resposta de Gatsby poderia ser adotada pelo próprio Baz Luhrmann, que fez tudo para reconstruir, de um ponto de vista completamente subversivo —quase terrorista de tão subversivo— o filme de 40 anos atrás.
    Quando uma pessoa tem dificuldade em entender alguma explicação mais trabalhosa, há quem goste de humilhá-la, perguntando: “Quer que eu desenhe?”. O novo “Gatsby” faz isso com o romance de Fitzgerald, explicitando a trama com recursos de professor de cursinho.
    O estilo de Luhrmann flerta, aliás, com o desenho animado. Tudo começa quando reconhecemos, no papel de Nick Carraway, ninguém menos do que Tobey Maguire. “Onde é que eu vi mesmo esse carinha?”
    Resposta: nos filmes do Homem-Aranha. Os recursos de 3D, fazendo mergulhos ridículos na selva de edifícios de Manhattan, confirmam a pretensão de transformar aquele evasivo clássico literário num “blockbuster” demencial.
    A intenção caricatural, extremada, de Baz Luhrmann, surge assim como reação à finura da versão mais antiga.
    As duas, talvez, se complementem. Com suas festas quase fellinianas, com a vulgaridade explícita da filmagem, com a inexcepcionalidade feminina de Carey Mulligan (no papel de Daisy), o filme de Baz Luhrmann adota, na verdade, o ponto de vista novo-rico, meio bandidão, do próprio Gatsby.
    Com a vítrea Mia Farrow e um Robert Redford impecável, o filme de 1974 aristocratizava tudo. Diminuía os conflitos, eufemizava as diferenças sociais, musicalizava suavemente a tragédia.
    Nenhuma das duas versões dá conta, a meu ver, do que mal e mal se sugere no livro. Para impressionar Nick Carraway, e convencê-lo de suas credenciais para a classe A, Gatsby o leva para almoçar num restaurante, apresentando-o a uma figura estranhíssima.
    Meyer Wolfsheim logo se revela, no livro, uma espécie de gângster. É difícil entender por que razão Gatsby levaria Carraway para conhecer um tipo tão suspeito. Seria ingênuo, pensando que Carraway não perceberia a estirpe do interlocutor? Ou, ao contrário, estava tentando comprar a consciência de Carraway, abrindo-lhe as portas para adquirir uma fortuna ilícita também?
    Seria difícil filmar de um modo que fizesse justiça às duas hipóteses ao mesmo tempo. Mas, se o livro exige mais de uma leitura, não é nada mau que o espectador possa agora contar com um filme tão diferente daquele, discreto e perfumado, que guardava nas suas memórias de 1974.

    quarta-feira, 26 de junho de 2013

    Marcelo Coelho

    folha de são paulo
    A vez da mídia
    Se o pensador mais ousado da Globo se chama Arnaldo Jabor, talvez seja momento de uma autocrítica
    Partidos, Congresso, sindicatos, governantes --não há instituição democrática que não esteja sob o foco de críticas. Falta falar de outra instituição, a imprensa. Ou "a mídia", como prefere dizer quem já se põe no campo de ataque.
    Acho que há três pontos a destacar. Em primeiro lugar, a ideia de que as redes sociais, como o Facebook, aposentaram a mídia tradicional. De um ponto vista, faz sentido. De outro, não.
    Claro que, graças ao Facebook, foi possível avaliar, por exemplo, se valeria ou não a pena participar da manifestação de segunda-feira passada, dia 17 de junho. Quanto mais adeptos no mundo virtual, mais se sente que o momento de passar à vida real já chegou.
    Não é tão claro o raciocínio de que, com as redes, elimina-se a função dos jornais e das empresas de comunicação. Muito do que se compartilha no Facebook, em termos de notícia e opinião política, tem origem nos órgãos jornalísticos organizados, sejam impressos, audiovisuais ou da própria internet.
    Passo com isso ao segundo ponto. Quem está protestando contra o pastor Feliciano, a PEC 37, Renan Calheiros, os gastos da Copa, e outros mil problemas, teve sua indignação despertada pelas notícias dos jornais e da TV.
    São as reportagens de sempre, com sua rotina de sempre, que acumularam essa insatisfação contra o sistema político. E, se a mídia noticiou os casos de vandalismo, também foram indispensáveis para mostrar os abusos policiais.
    A imprensa sai então glorificada dessas movimentações? Com toda evidência, não. Houve ataques contra emissoras de TV e contra repórteres respeitabilíssimos, como Caco Barcellos. Há mais.
    Acredito que, graças à conquista de um poder de autoexpressão possibilitado pela internet, as pessoas que se manifestam nas ruas e nas redes se sentem mal representadas na mídia tradicional.
    Em parte, a "crise de representação" que se verifica no caso de partidos e Congresso se reflete nas relações entre imprensa e cidadãos.
    Existe a sensação, claro, de uma desigualdade de poder de fogo: grandes empresas de comunicação podem mais do que sites e blogs isolados.
    Há também um abismo geracional. Incluo-me entre os que envelheceram. E olhe que à minha volta, nos chamados formadores de opinião, nos analistas, comentaristas, sociólogos, filósofos, urbanistas, técnicos e economistas que, sempre os mesmos, são os entrevistados nessa época, a maioria está na ativa desde que eu era criança...
    Quando o pensador mais ousado e "irreverente" da Globo se chama Arnaldo Jabor, talvez seja o momento de uma autocrítica.
    A alienação, o distanciamento entre a imprensa e os manifestantes se dá em outros níveis também. Ao voltarem-se contra governantes, as passeatas denunciam o contraste entre o mundo oficial, movido a discursos eleitorais, planilhas técnicas e blá-blá-blá de marqueteiros, e uma realidade cotidiana da qual todos se esquecem assim que assumem o poder.
    É injusto dizer que um jornal como a Folha se esquece de apontar falhas na saúde, nos transportes e na educação. Ao contrário, isso é noticiado todo dia, com investigação e detalhe.
    Mas, assim como os políticos só parecem acordar para o interesse público às vésperas da eleição, também os jornais concentram-se excessivamente, a meu ver, no calendário eleitoral. Não há dia --mesmo nestas últimas semanas-- em que não saiam notícias sobre as movimentações de Aécio e Eduardo Campos, ao lado dos clássicos prognósticos de que Dilma vai se reeleger se a economia não piorar muito.
    A rotina desse tipo de cobertura mata os jornais, e interessa a pouquíssimas pessoas. As próprias reportagens sobre corrupção e mazelas administrativas me parecem difíceis, chatíssimas de ler.
    Há a obrigação de revelar dados, estatísticas etc., sem o que estaríamos retrocedendo a um jornalismo da Idade da Pedra. Ao mesmo tempo, acho que isso trouxe um risco de rotinização e tecnicalismo que afasta o leitor --e não adianta "emburrecer" a linguagem para trazê-lo de volta.
    Chamo "emburrecer" o processo que leva à elaboração de boxes, por exemplo, dizendo "entenda o que é o mensalão", "entenda o que é reforma política" ou coisa parecida. "Entenda, é sua última chance".... Mas os manifestantes destes dias parecem estar entendendo mais do que se pensa.
    -
    PS. Atribuí a Fernando Henrique, na coluna anterior, a frase de que "política é a arte do possível". A frase é de Bismarck (1815-1898). FHC criticou a ideia, dizendo que na verdade "a política é a arte de tornar possível o necessário, o desejável".

    sábado, 22 de junho de 2013

    Opinião: Uma possível agenda para a crise instalada no Brasil

    folha de são paulo
    MARCELO COELHO
    COLUNISTA DA FOLHA

    Não acho que jornalista deva dar conselho a ninguém, mas me preocupa a profundidade da crise. Acho que a presidente Dilma acertou, no geral, quanto ao tom e ao conteúdo do seu discurso ontem. Mas talvez as respostas tenham de ser mais profundas.
    Por mais que sejam variados os lemas e palavras de ordem dos manifestantes, o fato básico é que eles não se veem representados nem atendidos pelo Congresso, pelas prefeituras, pelos governadores e pelo Executivo Federal.
    Acho que há espaço para uma série de iniciativas capazes de recuperar -e sanear-as instituições políticas, antes que o descrédito seja completo e a única resposta possível seja o aumento da repressão.
    Cito algumas, só como exemplo, porque o conteúdo específico de cada item poderia ser discutido conforme o gosto do governante.
    1. Um esforço pela austeridade pessoal. O presidente uruguaio, Pepe Mujica, não usa carro oficial, não mora em palácio e se veste como um jeca. Era tempo de políticos brasileiros seguirem o exemplo.
    2. A retomada, no nível federal, da faxina dos ministérios intentada inicialmente pela presidente. As forças políticas mais sérias do país estão reféns de uma "base parlamentar" que pode ser útil no dia a dia, mas é o principal empecilho para a resolução da crise.
    3. Uma iniciativa mais concreta de reforma política. Nem sei se o financiamento público de campanhas é o melhor método. Mas é preciso responder à desmoralização de um sistema em que os representantes eleitos pelos cidadãos se tornam representantes das empresas que contribuíram para seu caixa de campanha.
    4. Na questão da educação, bem atendida pela proposta presidencial de dedicar 100% dos royalties de petróleo a essa área, acho que nada se fará sem um aumento radical do salário de professores. Mesmo com o aumento de impostos que teria de haver.
    5. Uma real abertura para os movimentos populares. Por que os prefeitos não convidam alguém próximo do Movimento Passe Livre para a Secretaria dos Transportes? Em nome de que lógica partidária esses cargos são loteados?
    6. Não é que os manifestantes não saibam o que querem. Querem coisas demais. Se há propostas de reforma em todas as direções, e se o sistema político está em descrédito, seria necessário dar vazão e forma institucional ao debate que está nas ruas. Seria o caso, a meu ver, de convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, com fins específicos (reforma política, reforma previdenciária, etc.), para a qual poderiam candidatar-se cidadãos mesmo sem filiação partidária.
    O fundamental é encontrar, para a vontade de mudança, um caminho político. Caso contrário, ou teremos paralisia ou as formas mais despolitizadas e selvagens de protesto.

    sexta-feira, 21 de junho de 2013

    'It's revolution, baby', anunciam cartazes na avenida Paulista

    folha de são paulo
    OPINIÃO
    MARCELO COELHOCOLUNISTA DA FOLHANo estacionamento, perto da estação Vila Madalena, o manobrista foi avisando. "Hoje ficamos abertos até as nove da noite." Acrescentou sorrindo, com sotaque bem nordestino: "É por causa da revolução".
    Na Paulista, alguns manifestantes pareciam concordar. Só que o cartaz era em inglês: "It's revolution, baby". Imagino que não tenha sido por acaso, também, que um garoto estivesse de camiseta preta, com o célebre lema da Nike: "Just do it".
    Bandeiras do Brasil, entretanto, predominavam, e como nos velhos tempos, muito estudante pintou a cara de verde e amarelo.
    Cantou-se o hino nacional. Hino nacional? A passeata prosseguia, e os cartazes mudavam de tom. "O hino nacional não me representa. Representa a burguesia, os coxinistas e a violência."
    Enquanto eu me perguntava o que serão os "coxinistas", outro cartaz, já no meio do bloco dos trotskistas (acho), ia mais longe.
    "Nacionalismo é o caralho, este país é violento e sanguinário." As palavras do cartaz eram gritadas por vários manifestantes.
    Mais difícil de ser gritado era o lema de outro cartaz, agora em sentido inverso.
    "A política de importação está acabando com as indústrias do Brasil."
    Será isso um exemplo de "coxinismo"? Se a palavra tem a ver com "coxinha", o que no meu tempo queria dizer "mauricinho", havia poucos engravatados, apesar de alguns idosos e crianças, na manifestação.
    Duas senhoras de moletom pink esperavam instruções. Outra, mais ousada, apareceu com seus dois cachorrinhos brancos, não sei se poodles ou lulus. O agasalho dos "pets" eram duas pequenas bandeiras nacionais.
    Ainda no capítulo mais comportado do evento, uma estudante postou-se em cima do canteiro, com um cartaz bem elaborado. "Direitos constitucionais com qualidade. Precisamos de líderes competentes e honestos." Arrém, arrém. "O jovem neste país está sendo levado a sério!" Arrém, de novo. No outro extremo, havia lemas mais concisos. "Meu cu é laico."
    PEC 37
    Tanto quanto Dilma, Alckmin e Haddad, um dos grandes vilões da passeata foi o pastor Feliciano. Também Renan Calheiros e, especialmente, a PEC 37 (que tira poderes do Ministério Público) estavam entre os alvos mais frequentes. Havia o convite para que o país parasse se a emenda constitucional for aprovada. Será possível? Tudo é possível, atualmente, com a mobilização facilitada pela internet.
    "Saímos do Facebook", orgulhavam-se diversos cartazes. "Corruptos, vocês se preparem, vão cair um por um." De forma mais visual, um grupo apareceu de guarda-chuvas abertos: "está chovendo porco".
    Contra a corrupção, pela reforma política, contra o capitalismo, não faltaram generalidades desse tipo. Solitário, um manifestante foi mais específico: "Voto distrital". E ponto final.
    Para comentaristas mais idosos, como eu, isso até que era fácil de compreender. Menos clara foi esta mensagem: "O inibidor do MID já caiu". Explicaram-me que é referência a um videogame.
    Do lado libertário, gritou-se muito que "o povo unido não precisa de partido". E também se pediu "um país sem catracas".
    Enquanto outros manifestantes diziam "eu SEI por que protesto", um homem sozinho carregava um vasto cartaz de papelão, dizendo apenas uma palavra. "Lost".
    Perdido? Havia palavras contra muita coisa, mas não é culpa de ninguém se, da Copa à conta de luz, há tanta coisa para ser contra. Todo manifestante, afinal, quer se manifestar. Mesmo que seja apenas para dizer, como em outro cartaz: "Mãe, não me espera para a janta".

    quarta-feira, 19 de junho de 2013

    Marcelo Coelho

    folha de são paulo
    A arte do impossível
    "Se vocês não nos deixam sonhar, nós não deixamos vocês dormir", dizia um cartaz na passeata
    Havia cartazes sobre quase tudo, e bandeiras das mais variadas, na manifestação de anteontem em São Paulo. Por vezes, não passavam de uma folha de papel de tamanho um pouco maior, sem sinal de representar alguma luta coletiva.
    Alguém simplesmente pegava o papel e escrevia o que pensava. "Não são os 20 centavos", dizia um cartaz. Com certeza.
    O aumento das tarifas de ônibus, de 6,6%, estava no programa --e, conforme o ano que se tome como base, pode ser qualificado como inferior (ou não) aos índices inflacionários.
    Não se reuniriam tantos milhares de pessoas, entre estudantes e gente de cabelo branco, entre garotões de classe alta e adolescentes da periferia, se a PM não tivesse dado o seu "show" de truculência na semana anterior.
    Imagino que com a passeata se quis mostrar, acima de tudo, o espírito desarmado da grande maioria --e sua capacidade de fazer, como tantas vezes aconteceu no Brasil, protestos de massa com fraternidade e alegria.
    Assim, algumas pessoas acompanharam a passeata com flores brancas nas mãos. A roupa branca, cujo uso se recomendara nas convocações, não chegou a constituir um sucesso. Na parede de um prédio, projetaram-se imagens de Gandhi.
    Não foi, entretanto, apenas um protesto contra a violência policial, como não foi só contra o aumento dos ônibus. O governador Alckmin e o prefeito Haddad foram xingados à vontade, é claro. Mas havia outro espírito movendo aqueles milhares de pessoas.
    "Se vocês não nos deixam sonhar, nós não deixamos vocês dormir", dizia um cartaz. Ideias desse tipo, com trocadilhos interessantes ou mesmo palavras de ordem genéricas, como a de que "o país acordou", brotavam de todos os lados, um pouco ao estilo de maio de 1968 na França.
    Apareceram coisas díspares: cartazes com escritos em inglês ("ônibus free", algo assim) ao lado de bordões verde-amarelos antiquíssimos ("verás que um filho teu não foge à luta"). Pouco importa.
    Quiseram as circunstâncias que PT e PSDB se equalizassem no repúdio dos manifestantes. O aumento do ônibus e a violência da PM tiveram um poder que, passe o trocadilho, valeria chamar de "alquímico".
    Estava latente a sensação de que os dois grandes rivais da política brasileira se equivalem, cada qual com seus mensalões, sua tecnocracia paralisada, suas promessas cínicas, sua sensatez, seu realismo.
    Para que tudo ficasse mais claro, Haddad e Alckmin estavam juntos em Paris. Todo prefeito sabe que, diga-se o que se disser, chega a hora de aumentar o ônibus. Todo governador sabe que, diga-se o que se disser, chega a hora de usar as balas de borracha.
    Não me sai da cabeça a foto de Haddad selando, aos sorrisos, seu pacto com Paulo Maluf, na campanha eleitoral. Todos seguem a esfuziante frase com que Fernando Henrique sagrou seu pragmatismo: "A política é a arte do possível".
    Pode ser, e tem de ser, a arte do impossível também. É isso o que milhares de manifestantes estavam mostrando na segunda-feira.
    De alguma forma, vai-se esgotando a legitimidade de um pragmatismo, de um aliancismo, de um cinismo, de um petismo, de um peessedebismo que nada têm a oferecer em termos de valores e de ideais.
    Por isso mesmo, "não são os vinte centavos" o que está em jogo. O pragmatismo que leva a tantas alianças políticas com a direita passa a ser contestado, principalmente pelos mais jovens. São aqueles que também dizem, na internet, que o pastor Feliciano não os representa.
    Havia cartazes de cunho bastante "liberal" ou "neo-Fiesp" na passeata. Mensagens contra a corrupção e em defesa de um bom uso do "dinheiro dos meus impostos" eram comuns. De todos os cartazes, entretanto, o de que mais gostei estava sendo levado por uma moça e tinha linguagem chula. Dizia apenas: "Copa é o caralho".
    Talvez seja uma boa síntese do momento. É que, a começar dos políticos do PT, vive-se numa espécie de comemoração permanente --o país está ótimo, vivemos um momento extraordinário, construímos estádios e todos estão felizes.
    Abaixo a Copa do Mundo, talvez quisesse dizer a moça do cartaz: pelo menos, expressou sua impaciência diante da sorridente enganação geral. É esse sorriso, feito da insensibilidade, do cinismo e do oportunismo de décadas, que a passeata pretende tirar do rosto dos governantes.

    quarta-feira, 5 de junho de 2013

    Marcelo Coelho

    folha de são paulo
    Stravinsky hoje
    No centenário da "Sagração da Primavera", o compositor russo sobrevive ao mito
    O senhor acha, perguntaram a Stravinsky na década de 1960, que sua música é agora mais compreendida do que na época da "Sagração da Primavera"? Como se sabe, a estreia do balé, em 1913, produziu um dos maiores escândalos da história da música.
    Não, "não compreendem melhor agora", respondeu Stravinsky. Simplesmente "os escândalos passaram de moda", enquanto a música continuava difícil.
    Ou melhor, acrescentou. Não é que o público tivesse de "compreender melhor" a sua música. Mas tinha, isso sim, "de ouvir melhor".
    E quanto ao futuro?, perguntou o repórter polonês. O público vai acabar compreendendo? Ninguém sabe o que é o futuro, respondeu Stravinsky, decerto cansado diante de perguntas a que deve ter respondido com muita frequência.
    Em qualquer peça de música clássica, e não apenas no caso de Stravinsky, o problema da incompreensão existe. Podemos gostar de Mozart e Beethoven, mas quem, num concerto, está "entendendo" tudo o que se passa?
    Sem contar as músicas que, de tanto sucesso, tornaram-se quase impossíveis de acolher com inteligência.
    A Quinta Sinfonia de Beethoven, por exemplo. O "tã-tã-tã-taaam" transformou-se num rótulo de si mesmo, é algo que quase não se ouve mais: apenas se reconhece.
    Talvez tenha sido por isso que, no começo do século 20, a arte moderna tenha se voltado tantas vezes para o "primitivo", para o "selvagem" --e a estreia da "Sagração da Primavera", que completou cem anos na semana passada, ficou como um dos maiores exemplos dessa atração pela "barbárie".
    É que a "civilização", num sentido muito particular, tornara-se um impedimento para a arte. Quem ouve muito uma música já não a escuta mais. A "selvageria", portanto, pretendeu apenas raspar a pátina, o verniz, a cera do ouvido de uma plateia civilizada demais --e Paris, onde o balé estreou, era o lugar ideal para isso.
    Esse processo de superexposição a determinadas obras de arte explica, também, a importância dos intérpretes em música clássica. O grande intérprete consegue fazer com que uma obra já muito conhecida seja descoberta como novidade.
    Na música barroca, por exemplo, tudo foi reinventado a partir dos anos 1960, quando começou a pesquisa pelos instrumentos originais e por uma nova fidelidade às partituras de época.
    O resultado paradoxal dessa maneira de interpretar os barrocos (sem verniz, com mais secura e menos calda de caramelo) foi que Vivaldi e Haendel se tornaram... quase stravinskianos também. O futuro, sobre o qual indagava o repórter na entrevista com Stravinsky, chegaria impondo uma revolução sobre o passado.
    O próprio Stravinsky se encarregou disso. Depois da fase "russa" e "bárbara" dos balés com Diaghilev, reescreveu partituras de Pergolesi (1710-1736), e entrou numa fase "neoclássica". O curioso é que uma obra como seu concerto para violino, por exemplo, apesar de muito menos barulhento e dissonante do que a "Sagração", no fundo é ainda mais difícil de ouvir.
    Não se traduz em ideias como "violência primitiva", "poder telúrico", "ritmo primal" que nos ajudam a apreciar a "Sagração".
    Talvez seja uma obra de menor qualidade mesmo. Em todo caso, o desenvolvimento posterior de Stravinsky não foi, como dizem, uma "regressão", uma desistência de qualquer missão revolucionária que o mestre desempenhara no começo do século.
    Ao longo de sua vida, assumindo diferentes "estilos", Stravinsky foi se tornando mais reconhecível por quem ele era, enquanto compositor individual, e menos como um mero "médium" da crise estética modernista.
    Modos de deslocar o ritmo, um gosto cítrico na instrumentação, a recusa das técnicas de transição, a "montagem" mais que o desenvolvimento, aparecem em peças menos escandalosas, mais "civilizadas", tanto quanto nas escarpas, cavernas e fogueiras da "Sagração".
    Compositores e intérpretes posteriores se tornaram "stravinskianos" em alguns momentos, sem que o termo se reduzisse a ser sinônimo de "modernistas". Foi um longo caminho até que Stravinsky se tornasse, afinal, apenas Stravinsky, e não o equivalente de uma força anônima, a encarnada na "Sagração".
    O compositor sobreviveu ao próprio mito --o que não deixa de ser um ganho da civilização. Vitórias desse tipo são raras; vale a pena comemorar.

    quarta-feira, 29 de maio de 2013

    Marcelo Coelho

    folha de são paulo
    O troco em balinha
    Anúncios contra a pirataria no Brasil e nos Estados Unidos ajudam a reavaliar a diferença entre os países
    Comprei pouquíssimos DVDs piratas ao longo da vida. Uma vez, há dez anos, em total estado de inocência, vi que existia uma banquinha na frente do Espaço Unibanco, e achei que era uma espécie de sebo ou venda de ocasião.
    Nesse espírito, levei uma coleção de filmes sobre a história do jazz. Mais parecia um samba de breque.
    Muito tempo depois, ou melhor, no mês passado, comprei uma leva dos filmes do Oscar que eu não tinha conseguido ver. O DVD não ficava empacando o tempo todo.
    Mesmo assim, a experiência deixou a desejar. "O Mestre", por exemplo, filme bastante chato sobre o criador da cientologia, tinha legendas mais absurdas do que as próprias teorias apresentadas durante a história.
    Prefiro comprar DVDs "seminovos" ou remexer nos saldões da Blockbuster. Claro, isso me deixa mais desatualizado do que nunca em termos de cinema americano. Enfim, há vantagens e desvantagens.
    Mas talvez o melhor do DVD pirata esteja no fato de que ali, pelo menos, não temos de ver anúncios contra a pirataria.
    O que mais me irrita, nesse tipo de coisa, é que eles desabilitam o seu controle remoto: não consigo pular o anúncio. Sou obrigado a assisti-lo, a ser doutrinado na defesa dos direitos de Steven Spielberg, dos donos da Fox.
    Os anúncios brasileiros são bastante criativos, aliás. Mas o interessante é quando você topa com uma mensagem americana contra a pirataria. A comparação pode ser instrutiva quanto às diferenças de mentalidade nos dois países.
    Nos Estados Unidos, eles mostram dois consumidores. Bill, conta o anúncio, chamou os amigos para assistir um filme em casa. Está tudo pronto, a cerveja, a pipoca. Tony, em outro apartamento, fez o mesmo.
    Só que Tony comprou um DVD pirata. O som é péssimo; a imagem, turva. Pobre Tony! Seus amigos o abandonam. Ele luta com o controle remoto, e as pipocas se espalham pelo chão. Ficou sozinho. Não é mais popular. É um "loser".
    No Brasil, como se sabe, os anúncios antipirataria têm outro conteúdo. O vendedor de DVDs piratas dá o troco "em balinha": são munições de metralhadora.
    Ou então é o pai edificante, repreendendo o filho porque colou o trabalho do colégio. Só que assiste ao DVD pirata. O filho o repreende em troca.
    Embora eu não tenha certeza das ligações entre pirataria e tráfico de drogas (ou sequestro, ou terroristas da Al Qaeda), reconheço nos anúncios brasileiros um conteúdo moral mais elevado. Trata-se de apelar para o respeito à lei.
    Nos Estados Unidos, o apelo é aos interesses do próprio consumidor. Que se refletem, sobretudo, na aprovação dos seus pares.
    Usando a velha distinção de David Riesman, em "A Multidão Solitária", seria o caso de dizer que o brasileiro seria ainda um exemplo de cidadão "autodirigido", ou seja, alguém que incorporou dentro de si a legalidade.
    Precisa ser apenas, digamos, melhor informado sobre a lei específica em questão, mas haverá de colaborar. Quer se olhar no espelho e se enxergar como um cidadão de bem.
    Já o espectador americano perdeu qualquer senso de civismo. Na tipologia de Riesman, é o "heterodirigido": não pensa em ficar bem consigo mesmo, mas sim em ficar bem com os amigos. Não quer ser visto como um muquirana, um pobretão, um molambento eletrônico.
    Estaremos tão bem assim em termos de escala de valores? Há algum tempo, tudo levaria a crer que passaria por otário, por um "caxias", o sujeito que não compra DVDs piratas. Hoje, o apelo do anúncio brasileiro se dirige aos admiradores de Joaquim Barbosa.
    Se funciona ou não, é outro caso. Será menor o comércio pirata em São Paulo do que em Los Angeles?
    Talvez o anúncio relacionando crime organizado e pirataria convença menos por lá. Afinal, num mundo em que os direitos autorais são uma fonte de renda tantas vezes ilegítima (basta pensar no quanto ganham os netos de um escritor morto há décadas), a condenação à pirataria é um bocado problemática.
    Já se mudou a legislação a respeito, estendendo a validade dos direitos sobre uma obra, para responder a um risco iminente: o de que a imagem de Mickey Mouse passasse ao domínio público.
    Com lei ou não, é ainda o mundo de Tio Patinhas; Donald, certamente, tenta o DVD pirata, enquanto os escoteiros-mirins suspiram desolados.

    quarta-feira, 22 de maio de 2013

    Não saia de casa - Marcelo Coelho

    folha de são paulo

    O problema de Barack Obama, disse outro dia uma ex-assessora, “é que na verdade ele não gosta muito de gente”. Até surpreende, continuou Neera Tanden, “que ele seja um político. Não telefona para ninguém e não é próximo de muitas pessoas nem no seu partido”.
    Apesar das muitas dificuldades e hesitações do presidente americano, eis aí um motivo a mais para eu simpatizar com ele. Custa a confessar, mas sinto o mesmo: não acho fácil gostar de gente.
    Por espírito democrático, durante anos eu me sentava ao lado do motorista de táxi. Até que aprendi o óbvio:  quem não tem disposição para conversar com o taxista faz melhor se ficar no banco de trás. Não garante que você fique a salvo de ouvir bobagens, mas protege um pouco.
    O inferno são os outros, disse Sartre —e, se a frase costuma ser citada por todo mundo, não é menos verdade que funciona especialmente bem entre intelectuais.
    Claro, para citar agora a Simone de Beauvoir, ninguém nasce intelectual. A pessoa se torna intelectual, ou nerd, ou matemático, porque prefere a companhia de livros, computadores e números à dos “amiguinhos” da escola.
    Concluo, ainda militando a meu favor, que está errada uma frase clássica da direita populista. A saber, a de que “esses intelectuais de esquerda não gostam de povo”.
    Não é que não gostem de povo. Não gostam de gente, em geral. Marilena Chaui, por exemplo, afirma detestar a classe média.
    Se definirmos classe média como o grupo que se vê refletido nas páginas de “Veja”, concordo. A classe operária, se for definida como o grupo que se vê refletido nos programas do Datena, não se sai melhor.
    Sim, tenho bons amigos e preciso deles. Se vou a um jantar, divirto-me, conto casos, derrotei há muito a própria timidez. Mas faço um esforço, cada vez maior, aliás, para sair de casa.
    “Nunca saí de casa sem ter levado porrada”, resumiu o escritor Pedro Nava. Felizmente não digo o mesmo. Às vezes cumpro até um desafio: o de obter um sorriso, uma risada, de cada pessoa com quem encontro. Como certo personagem de Racine, cubro de flores a borda do grande abismo.
    Depois, tudo fica tão mais fácil com a internet. Mesmo a ida ao shopping, relativamente segura e confortável, perde para a comodidade de se comprar qualquer porcaria em casa.
    Escrevo essas coisas pensando no problema das cidades. Nem preciso falar da Virada Cultural. A iniciativa é excelente (eu é que não vou). Serve para que os habitantes de São Paulo se reapropriem de um espaço tomado pelos carros e pelos mendigos.
    Mas é uma luta de vida ou morte, como se viu com as vítimas desse último fim de semana.
    O problema não se limita a São Paulo. Tome-se a maratona de Boston. A ideia, ainda uma vez, é inventar um uso “saudável”, ou “cultural”, para o espaço urbano. Não se trata mais de viver a cidade no seu dia a dia, mas de produzir “eventos”. Esses se esgotam em si mesmos.
    Não são mais procissões ou comícios, e se alguém quer cuidar da saúde pode perfeitamente correr sozinho. A ideia é juntar gente. Celebrar, se quisermos, a experiência de um corpo coletivo.
    A luta de vida ou morte, também nos Estados Unidos, se fez presente. Uma bomba caseira pode fazer mais estragos do que dez arrastões paulistanos.
    A saída parece ser a de tornar o espaço público um espaço vigiado. As câmeras previnem, ou pelo menos ajudam a punir, a ação dos agressores da cidade.
    O direito de ir e vir, de conviver com os semelhantes, torna-se uma espécie de “sursis”, de liberdade condicional —e a igualdade se resolve nos números afixados no crachá do maratonista, se não forem os números da ficha policial.
    Ao colapso do espaço público corresponde a hipertrofia do espaço privado. O símbolo disso veio também dos Estados Unidos. Um maníaco sequestra menininhas, cobre de tábuas as janelas da própria casa, promove toda sorte de abusos, e os vizinhos não sabem de nada.
    Fechado no seu núcleo protetor, sem admitir um raio de sol dentro de casa, aquele infeliz cultivava o fungo fantasioso do incesto.
    Lá fora, na maratona, ou na escola modelar, outro maníaco dispara a esmo ou detona bombas na multidão. Pedofilia e terrorismo se completam. Entre o espaço público e o privado, inventou-se a terra de ninguém, a prisão sem dono, com jaulas a céu aberto: o campo de Guantánamo.
    Quem sabe? Na escala dos que não gostam de gente, talvez eu não seja dos mais exagerados.

    quarta-feira, 15 de maio de 2013

    Tarado é quem reprime - Marcelo Coelho

    folha de são paulo

    Tarado é quem reprime
    Engana-se quem achar que o mundo de Nelson Rodrigues ficou restrito à década de 1950
    Obeso, bundudo, de terno e colete, um senhor de certa idade dá ordens peremptórias ao garçom. "Menino! Aqui. Mais gelo! Mais ge-lo!"
    A palavra se repete sempre em maior volume, crescendo em precisão, em clareza, em especificidade. "Ge-lo! GE-LÔ!"
    Trata-se do Doutor Camarinha, o ginecologista alcoólatra de "O Casamento", adaptação teatral do romance de Nelson Rodrigues em cartaz no Tuca.
    Difícil dar ideia por escrito da variedade de sugestões que, na voz do ator Élcio Nogueira Seixas, transparecem nesse simples pedido por mais gelo.
    Há, naturalmente, a bebedeira do doutor. Tudo é motivo de comemoração, e ele quer mais gelo como alguém poderia querer mais de tudo -mais música, mais mulheres, mais barulho.
    Ao mesmo tempo, sente o prazer do mando, da ordem, da dominação. Repete a palavra "gelo" como se o garçom fosse incapaz de entendê-la. Ou quem sabe porque há muito ruído no salão de festas.
    Por ser alcoólatra, talvez o Doutor Camarinha quisesse frisar que está pedindo apenas gelo, e não mais uma dose da bebida. Ou o contrário: tudo não passa de um código entre ele e o garçom, que sabe perfeitamente como encher o copo.
    Tudo isso seria o bastante se o universo de Nelson Rodrigues fosse puramente realista. Mas sabemos, como diz o anúncio para desligar os celulares no início da peça, que na imaginação de Nelson Rodrigues "tudo pode acontecer".
    O Doutor Camarinha pede gelo de um modo diferente. Ele tem aquele tipo de exigência obsessiva, de fixação no detalhe, de relação com o objeto, que é típica do perverso, do fetichista sexual.
    Ele diz "gelo, ge-lo, GE-LO" como alguém poderia dizer "velas!" ou "chicotes!". É implicante, detalhista, cri-cri, absurdo, no que tange a seu pedido.
    Esse ambiente de perversão generalizada, de sexualização do que não é sexualizável, marca sem dúvida toda a obra de Nelson Rodrigues. O outro burguês da peça, vivido memoravelmente por Renato Borghi, é o doutor Sabino Uchoa Maranhão ("nome límpido e nostálgico de defunto", segundo o próprio).
    O doutor Sabino implica com a secretária, que disca o telefone antigo com a ponta do lápis. "Por que não usa o dedo? O dedo, doutora Noêmia", e ele mostra o dedo, "o dedo!" Ele grita. "O dedo serve para discar!"
    E o verbo "discar", ainda mais quando usado no infinitivo, ganha obscuras conotações. Roland Barthes dizia que os atos da perversão sempre se declinam de forma intransitiva. "Você escreve?" -a pergunta já é suspeita, reflete Barthes. Do mesmo modo, uma das mocinhas da peça pergunta à amiga: "E com ele, você fez? Fez tudo?".
    Tudo, e mais do que tudo, de fato acontece nessa peça; é o que se espera de Nelson Rodrigues: incesto, assassinato, estupro, arremessando cada personagem contra o outro na satisfação mais bestial e triste dos instintos. O ato sexual, desculpa-se um padre, "o ato sexual é só uma mijada".
    Mais pecaminoso, evidentemente, é ter esse pensamento.
    Esses pais de família, essas mocinhas casadoiras, não se revelam apenas quando se entregam ao desejo.
    O que "O Casamento" ajuda a entender é precisamente o contrário. A repressão aos instintos sexuais é tão pornográfica, tão bestial, tão sombria quanto o ato de libertá-los.
    Quando o Doutor Camarinha pede gelo ao garçom, ou faz um discurso contra o homossexualismo ("nem os ratos escapam dessa desgraça!"), ele está tomado por instintos tão irracionais e grotescos quanto os que julga ver nas pessoas que critica.
    Situada, como não podia deixar de ser, no Rio de Janeiro dos anos 1950, a encenação de "O Casamento" traz muitos toques estilísticos, no figurino por exemplo, da década de 1970.
    Engano pensar, contudo, que aquele mundo repressivo desapareceu junto com as lambretas, a revista "Manchete" e o iê-iê-iê. Basta ver o pastor Feliciano e seus adeptos.
    O chefe de igreja pentecostalista que se esfrega em cédulas de dinheiro, o padre pedófilo, o evangélico que abusa de meninos estão todos os dias nos jornais. São perfeitos personagens de Nelson Rodrigues.
    "Uma bichinha", diz Renato Borghi já no fim da peça, "não pode desprezar cinco milhões de patacas!". Era um ato de desapego ao dinheiro incompatível com seu comportamento sexual. Deve ser por isso que tantos líderes evangélicos são contra os gays.
    Pensando bem, o melhor que posso esperar desses deputados é que sejam completos corruptos. A corrupção não é de todo ruim; suponho que seja a melhor arma contra o fanatismo.