domingo, 17 de março de 2013

Perguntas cabeludas - Barbara Gancia

folha revista são paulo

É brincadeira? Bucicleide me apareceu com quatro crianças. Pois é, filhas dela. Uma menina loira, de idade indefinida (bem, ao menos para mim, que não sei mais dizer a idade de ninguém, não me pressione, por favor); um garoto igualmente claro que aparentava ter sido grotescamente disfarçado por uma peruca de índio de camelô e um par de óculos de Groucho Marx com bigode.
Mas, como eu não tenho grande intimidade com crianças, poderia muito bem ser o primo de Michelle Obama que acabou de chegar de Chicago. Pode inclusive ser um adulto proveniente daquela região do México em que a população apresenta sinais manifestos de hirsutismo facial, não sou a melhor pessoa para julgar. As outras duas crianças, se é que crianças são, tanto poderiam ser pigmeus da Nova Guiné como Buci, digo, Cleide poderia, em última instância, estar mesmo dizendo a verdade.
Aparentemente, ela teria trocado os quatro órfãos por tostequeiras elétricas na ilha de St. Lawrence, ao sul do estreito de Bering, em um esforço para lhes conferir uma existência digna, antes que elas acabassem virando ração para alce nas mãos de feitores de escravos esquimós em uma fazenda da Sarah Palin. Seria um lugar sórdido em que a mão de obra infantil é obrigada a ouvir música da cantora Björk 24 horas para trabalhar sem protestar. Para comer, apenas raspadinha sabor groselha. Ai de quem pedisse de uva.
Ainda estava digerindo as novidades quando Buci puxou-me de lado para dizer que não havia dormido na noite anterior pensando nas possíveis perguntas que a filha poderia lhe fazer e nas respostas que daria, caso a menina tomasse conhecimento do episódio do motorista embriagado que acabou por jogar o braço decepado do ciclista com o qual colidiu em um córrego.
Ilustração Alex Cerveny
Para você ver. Até a tresloucada Bucicleide tem sensibilidade para saber que é preciso orientar crianças diante da abundância de informações a que estamos expostos em um mundo em que o equivalente a 450 bibliotecas do Congresso norte-americano é produzido pela internet diariamente.
O que não significa que essa quantidade enorme de informação tenha a mesma importância daquilo que está armazenado na biblioteca do Congresso, é claro. A maioria do que se produz todos os dias é lixo na forma de frases falsamente atribuídas a Clarice Lispector.
Segundo minha amiga, o diálogo hipotético de Buci com sua filha poderia ocorrer da seguinte forma: "Mamãe, por que o motorista fugiu?". Ela lhe diria que o inconsequente tinha bebido e, mesmo sabendo que isso era errado, resolvera sair dirigindo. Depois do acidente, teria ficado com medo e fugido.
Bucicleide preparou todo um discurso sobre cometer um ato grave e não assumir a responsabilidade, sobre como dirigir um carro é uma responsabilidade de adulto e como ele acabou agindo de forma infantil. E, ainda por cima, de ele ter bebido justamente logo depois de as leis sobre álcool e direção terem endurecido... Comecei a perder o interesse na conversa. Meu olhar foi pouco a pouco desviando para os meninos. Eles pareciam os irmãozinhos do filme "Valente" depois do feitiço.
Buci continuava a parlamentar sobre pais que, na melhor das intenções, correm para aliviar a dor dos filhos. Mais uma pergunta hipotética: "Se fosse mais velho, ele faria a mesma coisa?". A pergunta é antiga. Se não existisse castigo, você ficaria?
E um sujeito capaz de jogar um braço em um córrego se apresentaria à Justiça caso o advogado não lhe explicasse as consequências que ele estava enfrentando?
Ainda estava com essa na cabeça quando me veio mais uma. "E se sua filha lhe perguntar: 'Quer dizer que ele só voltou por medo de ser pego, não porque se arrependeu?'."
Talvez você possa nos ajudar, caro leitor. O que dizer para a filha da Bucicleide?
Barbara Gancia
Barbara Gancia, mito vivo do jornalismo tapuia e torcedora do Santos FC, detesta se envolver em polêmica. E já chegou na idade de ter de recusar alimentos contendo gordura animal. É colunista do caderno "Cotidiano" e da revista "sãopaulo".

Quadrinhos

folha de são paulo

CHICLETE COM BANANA      ANGELI
ANGELI
PIRATAS DO TIETÊ      LAERTE
LAERTE
DAIQUIRI      CACO GALHARDO
CACO GALHARDO
NÍQUEL NÁUSEA      FERNANDO GONSALES
FERNANDO GONSALES
MUNDO MONSTRO      ADÃO ITURRUSGARAI
ADÃO ITURRUSGARAI
PRETO NO BRANCO      ALLAN SIEBER
ALLAN SIEBER
MALVADOS      ANDRÉ DAHMER
ANDRÉ DAHMER
GARFIELD      JIM DAVIS
JIM DAVIS
HAGAR      DIK BROWNE
DIK BROWNE

O consumidor tem o direito de saber quem é quem - Entrvista Juliana Pereira

folha de são paulo

ENTREVISTA JULIANA PEREIRA
Para a secretária nacional do setor, carimbar as empresas que desrespeitam o cliente é a melhor alternativa de punição
ANDREZA MATAISSHEILA D’AMORIMDE BRASÍLIAMais efetivo do que multas, a secretária nacional do consumidor, Juliana Pereira, acredita que carimbar as empresas com o "selo" de quem respeita ou desrespeita o consumidor é a melhor alternativa para puni-las.
A xerife do consumo explica que o governo criará um ranking com base não apenas em quantidade de reclamações, mas considerando também o tipo de problema, o que o ocasionou e a solução apresentada pela empresa.
"É direito do consumidor saber quem é quem no mercado de consumo", defende. Diz ainda que as empresas precisam parar de tratar o consumidor como um custo.
Ex-diretora do Procon em São Paulo, a secretária, que assumiu o cargo no ano passado, diz que espera contar com o apoio dos consumidores para vencer as pressões contrárias à implementação do Plano Nacional de Consumo e Cidadania, lançado pelo governo na última sexta. Leia trechos da entrevista.
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Folha - Não faltou ousadia na elaboração do plano para um país onde o consumo é a base do crescimento da economia?
Juliana Pereira - A ousadia está exatamente em transformar o assunto em questão de Estado e enfrentar o problema com um conselho de ministros, com foco na solução. Parece pouco, mas é um salto grande.
O plano não prevê aumento das multas, não prevê mais multas...
98% das multas vão parar no Judiciário. As empresas recorrem das multas do Procon, do Ministério da Justiça, das agências reguladoras, recorrem de todas. Só no setor de telecomunicações, por exemplo, fizemos uma conta que, num determinado período, o Ministério da Justiça e os Procons somavam multas de R$ 50 milhões.
Não é a multa que vai melhorar?
Vários países passaram por esse processo da multa alta, da multa que vai sendo discutida longamente, a empresa começa a diluir isso no custo e, na hora que chega o dia para ela pagar, ela já tem todo o dinheiro.
Suspender as vendas, como fez a Anatel, é mais efetivo?
As empresas recorrem também. A novidade está exatamente numa outra coisa que o mercado entende muito rapidamente: todo o governo junto com a agenda do consumidor.
E quando o problema for de infraestrutura?
Uma empresa de e-commerce me disse que o problema é das estradas. Eu disse: o problema é que você promete entregar em dez dias uma coisa que não consegue. Você mente para o consumidor.
Essa postura do governo de assumir a defesa do consumidor pode retrair investimento?
De forma alguma. Esse é o discurso de gente que aposta no retrocesso. A agenda de defesa do consumidor é qualidade, bom atendimento e transparência na cobrança. É uma agenda de desenvolvimento.
É para isso que o Brasil caminha?
Acho que caminhamos para cada dia mais ter um consumidor consciente. O consumo é transversal nas classes sociais: da A à E, todo mundo consome. Essa consciência de que quero qualidade e respeito não tem classe social.
Há os críticos que afirmam que, com isso, o governo vai quebrar empresas...
Esse é um discurso que tem 23 anos de atraso. O Código de Defesa do Consumidor existe desde 1990 e aconteceu o contrário. Vamos criar um índice para mostrar quem é quem. Consumo é relação de confiança. Deu problema, a pessoa procurou a empresa e resolveu, isso aumenta a confiança de que escolheu a marca certa. O consumidor precisa deixar de ser custo e ser tratado como um sujeito importante da relação.
Mais de duas décadas depois, o Brasil está discutindo como aplicar o CDC. O país não está atrasado?
Vinte anos para uma mudança da sociedade é pouco. É claro que temos pressa porque não vamos viver 150 anos.
Como enfrentar o lobby das empresas que têm representantes no Congresso? Uma das principais medidas, a que fortalece os Procons, depende de aval do Congresso.
O que o Procon pode fazer está no Código de Defesa do Consumidor: multar, apreender o produto, inutilizá-lo, caçar o registro, proibir a fabricação, suspender o fornecimento. O que estamos fazendo é dizer que, se ele pode tudo isso, queremos que ele possa também resolver a vida do consumidor de uma maneira mais efetiva.
Qual o recado que a senhora dá para os consumidores?
Você tem o poder. O consumidor escolhe a marca, o modelo, o serviço, o banco que contrata e o Estado brasileiro está dizendo que o que ele quer -qualidade, bom atendimento e transparência, principalmente em custo- virou uma questão de Estado.
É uma cruzada contra as empresas?
Não estamos fazendo nada contra ninguém. É a favor. Um mercado que respeita o consumidor vai ter condições de ser mais competitivo, de exportar, de agregar valor para sua marca. A proteção do consumidor é um instrumento de desenvolvimento econômico e social. É assim no mundo desenvolvido.
Como xerife do consumo, qual o recado para os empresários?
Temos uma grande oportunidade para virar o jogo. Para transformar essa política de Estado, esse novo status de proteção do consumidor, em menos conflito e mais soluções.
E para quem não acredita nisso, que acha que essas medidas não vão sair do papel?
No lançamento do plano estavam todos os Poderes e atores do sistema de defesa do consumidor. Acho que é um bom recado.
A mentalidade de que multa é um custo que se provisiona e empurra a discussão para a Justiça...
Acabou.
Mudar a mentalidade do empresário será um desafio?
Para mudar a mentalidade, vamos estimular a competitividade. Chegou a hora de ter no Brasil um conceito de competitividade pelo consumidor e não só a competitividade clássica do custo.
Como será esse modelo?
Vamos construir indicadores que mostrem o comportamento. A defesa do consumidor sempre diagnosticou o efeito: os mais reclamados. Muitas vezes aparecem os mais massificados. Queremos olhar de maneira mais ampla e dar luz a outros mercados. A ideia é propor indicadores que olhem a conduta setorialmente e permitam analisar a causa para dizer se é uma decisão contumaz da empresa e se tem que ser punida de acordo.
Como vai funcionar isso?
Vamos trazer uma qualificação para as reclamações. Em geral, elas são de que o produto não funciona, a empresa não entregou ou cobrou indevidamente. Queremos dizer: o que o banco cobrou, por que e se tem uma norma sobre isso. Isso qualifica mais a demanda. Queremos qualificar as reclamações para que isso seja levado também para os acionistas.
Classificar as empresas que respeitam e as que desrespeitam os consumidores dá mais resultado?
É direito do consumidor saber quem é quem no mercado de consumo.
Vai ter um ranking dessas empresas?
A intenção é sofisticar esses instrumentos.
Há críticas de que dar maior poder aos Procons fere a constituição.
O Procon pode fechar loja, aplicar multa, cancelar alvará e não pode determinar a devolução de R$ 50 para o consumidor? O próprio Judiciário nos apoia nesse processo. A análise constitucional foi feita pela Advocacia Geral da União.
E a crítica de que as empresas terão que ter estoques maiores para trocas imediatas?
Vamos ter 30 dias para discutir a lista dos produtos essenciais, inclusive com o mercado. A troca é para produtos com defeito. Tenho esperança de que produtos com defeito sejam um percentual muito baixo. A gente sabe de situação em que o consumidor chama a polícia na loja. É esse o país que a gente quer, onde o consumidor, para ser respeitado, precisa chamar a polícia?

    FRASES
    "O Procon pode fechar loja, aplicar multa, cancelar alvará e não pode determinar a devolução de R$ 50 para o consumidor?"
    "Não estamos fazendo nada contra ninguém. É a favor. Um mercado que respeita o consumidor vai ter condições de ser mais competitivo, de exportar, de agregar valor para sua marca"
    "O Estado brasileiro está dizendo que o que o consumidor quer -qualidade, bom atendimento e transparência, principalmente em custo- virou uma questão de Estado"

    RAIO-X
    NOME
    Juliana Pereira
    FORMAÇÃO
    Graduada em direito e pós-graduada em contratos e responsabilidade civil
    EXPERIÊNCIA
    Foi coordenadora do Procon de Franca (SP); assessora especial da Secretaria de Direito Econômico; coordenadora geral do Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor; e diretora do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor

      Vinicius Torres Freire

      folha de são paulo

      Sem papa, Oscar ou Nobel
      Piadas sobre Francisco revelam recalques nacionais e nossa obscuridade sintomática
      A ARGENTINA tem papa; vários Nobel e Oscar, dizia-se entre milhares de piadas que suscitou a eleição de Francisco.
      O chiste tem lá suas relações com o inconsciente, mas não se trata aqui de fazer análise de recalques nacionais nem de lamentar o fracasso no BBB da fama mundial, bobagem provinciana e burra.
      O Oscar é dado por uma associação comercial, kitsch como tantas, que chama a atenção por ser povoada por gente bonita, rica e famosa.
      O Nobel poderia ser lá um indicador com mais tutano, ainda mais se a gente levasse em conta prêmios de ciência. Os Nobel de Literatura são o túmulo do escritor desconhecido, de tanto escrevinhador agraciado. O da Paz já premiou ex-terroristas, afora trastes demagogos.
      Ainda assim, por que o país é desconhecido e ignorado como esses nomes de rua? Numa piada do ciclo papal, um cardeal diz a outros: "Não tínhamos combinado de eleger um brasileiro?". Alguém responde: "Ué, mas a capital do Brasil não é Buenos Aires?". A piada é velha, mas não seu motivo.
      Para glosar Francisco, se a Argentina vive no "fim do mundo", o Brasil parece morar no mesmo endereço, mas nos fundos. Por que somos tão obscuros? Importa? Importa, mas como sintoma de deficiências e perversidades nacionais.
      Somos obscuros porque somos recentes. Até 1960, não passávamos de mistura de Sudão com Império Russo perdida num canto do mapa. Tínhamos fome africana, massas de servos no sertão, éramos ainda mais iletrados do que hoje. Exportávamos café, açúcar e algodão, produtos sem rosto, afora o de Carmen Miranda. Os vizinhos do Cone Sul eram mais educados e ricos. E mais brancos, o que diminui o preconceito.
      Somos separados do mundo porque falamos português, essa língua remota, quando não acham que falamos espanhol (ainda hoje, sim, até em universidades aqui nos EUA).
      Somos isolados porque países grandes tendem a ser mais autocentrados. Por não temos importância militar e geopolítica. Mas moramos longe em parte porque queremos.
      Somos muito ignorantes. Gostamos pouco de escola; de aprender no exterior; de falar com o exterior. Nas universidades de elite dos EUA, há relativamente menos brasileiros que mexicanos, chilenos e argentinos.
      Entre 187 países, estamos em 85° lugar em desenvolvimento social (Chile: 40º; Argentina: 41º). Isso, entre outras coisas, é sinal de ignorância, de incivilidade.
      Somos isolados. O Brasil é um dos países mais fechados do mundo ao comércio internacional.
      Demoramos a importar tecnologias; raro importamos cérebros. Vendemos ainda produtos sem rosto, soja e ferro (nada contra) e raras Embraer. Nas prateleiras do mundo, há café da Colômbia e daqueles países miúdos da América Central e da África que confundimos no mapa. Não do Brasil.
      Mas o Brasil tem o maior sistema de ciência e a economia com o maior nível de sofisticação técnica no mundo em desenvolvimento. A invenção de tais coisas ajudou a criar mais desigualdade, mas essa é outra história.
      Somos assim algo obscuros porque pouco "conversamos" com o resto do mundo, embora gostemos de miçangas, "gadgets"; olhamos muito para nosso umbigo pouco educado.