sábado, 18 de maio de 2013

Hoje é o Dia dos Museus: veja dicas da 'Folhinha' e de crianças para comemorar a data

folha de são paulo

BRUNO MOLINERO
DE SÃO PAULO
MARINA GALEANO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O que não faltará neste fim de semana em São Paulo é cultura. Além das atividades da Virada Cultural, que tomarão o centro da cidade, diversos museus estarão com programação especial. Oficinas de grafite, brincadeiras africanas e outras atividades (veja na página 7) fazem parte do Dia Internacional dos Museus.
Estas e as próximas páginas trazem indicações dos museus preferidos de crianças, além de dicas de atividades. A "Folhinha" também selecionou dois dos principais museus de São Paulo, o Masp e o Museu Paulista (o Museu do Ipiranga), e elaborou um roteiro para crianças.
"O museu não é chato. Ele pode ser uma caça ao tesouro. Basta despertar a curiosidade da criança", diz Denise Peixoto, educadora do Museu do Ipiranga.
O lugar esconde objetos curiosos, como a água dos principais rios do país. Já no Masp, a brincadeira de hoje é receber pistas para encontrar pelo museu as obras que estão reproduzidas nestas páginas.
Também será possível se inscrever no Clube Infantil de Arte do Masp. Ao participar dele, crianças de até dez anos passam a não pagar ingresso e a receber notícias sobre a programação.

Crianças indicam seus museus favoritos

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Zé Carlos Barreta/Folhapress
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MUSEU AFRO BRASIL - "A gente viu a estrutura de um navio negreiro e vários instrumentos de navegação. Visitamos esse museu porque estamos estudando a África", Davi Rubinato, 10
CONFIRA O ENDEREÇO E A PROGRAMAÇÃO DOS MUSEUS
ESPAÇO CATAVENTO
(Praça Cívica Ulisses Guimarães s/n, Palácio das Indústrias; tel. 0/xx/11/3246-2003)
Visita guiada pelo edifício Palácio das Indústrias
Quando hoje e amanhã (às 10h e às 16h)
Quanto R$ 6
INSTITUTO BIOLÓGICO
(Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252; tel. 0/xx/11/2613-9500)
Exposição "Planeta Inseto" (programação normal)
Quando (de terça a domingo, das 9h às 16h)
Quanto grátis
MAC (ex-sede do Detran)
(Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301; tel. 0/xx/11/5573-5255)
História da arte para crianças a partir de seis anos, por meio de uma obra de Pablo Picasso
Quando amanhã (das 11h às 12h30)
Quanto grátis
MAM
(Av. Pedro Alvares Cabral, s/n, Parque Ibirapuera, portão 3; tel. 0/xx/11/5085-1388)
Oficina de grafite
Quando hoje (das 15h às 16h; é preciso retirar senha com 30 minutos de antecedência)
Quanto grátis
MASP
(Av. Paulista, 1578; tel. 0/xx/11/3251-5644)
Caça aos quadros
Quando hoje (das 10h às 18h)
Quanto grátis
MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA
(Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664; tel. 0/xx/11/3823-4600)
Quando de terça a domingo (das 9h às 18h)
Quanto
MUBE
(Av. Europa, 218, tel. 0/xx/11/2594-2601)
Viradinha Cultural no MuBE, com oficinas de boneco, gibiteca etc.
Quando hoje (das 10h às 18h)
Quanto grátis
MUSEU AFRO BRASIL
(Av. Pedro Alvares Cabral, s/n, Parque Ibirapuera, portão 10; tel. 0/xx/11/3320-8900)
Brincadeiras tradicionais do Congo
Quando amanhã (das 15h30 às 16h45)
Quanto grátis
MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA
(Praça da Luz, s/n; tel. 0/xx/11/3332-0080)
Visita guiada
Quando hoje (das 10h às 18h)
Quanto grátis
MUSEU DO FUTEBOL
(Praça Charles Miller, s/n, Estádio do Pacaembu; tel. 0/xx/11/3664-3848)
Exploração do espaço a partir de um jogo de palavras
Quando hoje e amanhã (das 10h às 15h30)
Quanto grátis (aos sábados) e R$ 6 (domingo)
MUSEU DO MARACANÃ
(R. Prof. Eurico Rabelo, s/n, Rio de Janeiro, RJ; tel. 0/xx/21/8871-3950)
OBS: Por causa da Copa das Confederações, o museu está desativado
MUSEU PAULISTA
(Parque da Independência, s/n.º; tel. 0/xx/11/2065-8000)
Visita guiada e fotografia em um ateliê
Quando hoje (visita guiada, das 9h às 16h) e amanhã ("Saí Bem na Foto?" das 9h às 16h)
Quanto grátis

"Um Livro Forjado no Inferno" apresenta trabalho de Espinosa ao leitor

folha de são paulo

Em prosa fluida, obra mescla história política e interpretação
VLADIMIR SAFATLECOLUNISTA DA FOLHAA força de um filósofo se mede por sua capacidade em se colocar como contemporâneo. Neste sentido, há de se admirar a força de Espinosa.
Visto nos séculos 18 e 19 largamente como um panteísta irracionalista e místico, a ponto do adjetivo "espinosista" quando aplicado a um filósofo equivaler a uma desqualificação, o holandês transformou-se, a partir da segunda metade do século 20, em referência maior do pensamento político contemporâneo.
Graças a leitores como Deleuze e Althusser, noções espinosistas ganharam importância no debate político e na crítica aos limites da democracia liberal. Dificilmente entenderemos porque usamos conceitos como, por exemplo, imanência, multidão, afetos como fator político, sem passarmos pela reatualização de Espinosa.
Neste sentido, é interessante perceber como a natureza política do pensamento do filósofo holandês é compreendida em uma tradição distante da chamada "filosofia continental". Daí a curiosidade do livro de Steven Nadler --"Um Livro Forjado no Inferno: O Tratado Escandaloso de Espinosa e o Nascimento da Era Secular", lançamento do Três Estrelas, selo editorial da Folha.
Escrito em prosa fluida como um misto entre biografia, história política europeia e interpretação do "Tratado Teológico-Político", livro maior do pensamento político moderno, o trabalho de Nadler visa, principalmente, apresentar Espinosa ao leitor norte-americano.
O que explica porque seu foco principal é compreender o "Tratado" espinosista como "uma extensa argumentação em prol da liberdade do pensamento e expressão no Estado moderno, bem como uma defesa da separação da filosofia e da religião como um meio de garantir tal liberdade".
No entanto, há de se perguntar se esta visão de um Espinosa defensor dos valores liberais e laicos não acaba por perder algumas das dimensões mais inovadoras do seu "Tratado".
Lembremos como, a partir do desvelamento da gênese do Antigo Testamento, em que se acompanha o processo de produção de um livro que se quer a palavra divina, o "Tratado" de Espinosa encontra as bases para um modelo de análise dos mecanismos de servidão e ilusão que sedimentam os vínculos sociais. Análise baseada na maneira com que afetos, como a esperança e o medo, são socialmente mobilizados pelas crenças religiosas.
Neste sentido, sua compreensão dos vínculos orgânicos entre teologia e política, tão presente no sintagma "teológico-político", visa não apenas defender um Estado laico, mas mostrar o quanto construções teológicas se perpetuam e se perpetuarão, de forma insidiosa, no interior dos vínculos políticos.
Longe de um precursor da democracia liberal, Espinosa parece muito mais perto de um crítico da servidão presente em todo Estado dependente da colonização afetiva de seus cidadãos.

    Painel das Letras: Inéditos malditos - Raquel Cozer

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    A obra do poeta baiano Gregório de Matos (1636-1695), atualmente mais lembrado em  antologias ou livros didáticos, será editada pela Autêntica a partir deste ano. Estão previstos cinco volumes do Boca do Inferno, assim conhecido pelos poemas obscenos e pelas sátiras implacáveis, com versos fixados e anotados por Marcello Moreira e ensaio introdutório e glossário de João Adolfo Hansen, coautor das notas. A base é uma série de textos até agora inéditos guardados na biblioteca da UFRJ. Joaci Pereira Furtado, que fez o meio de campo com a Autêntica, será o editor.
    HQ na berlinda
    Os organizadores de “Seres Urbanos (1991-1998): Coletânea da HQ Underground Cearense” travam um embate com a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult).
    Aprovada em edital de incentivo às artes, decisão publicada no “Diário Oficial do Estado” em julho de 2012, a obra não recebeu os prometidos R$ 15 mil. Meses após abrir uma conta para receber o valor, sem notícias da Secult, os responsáveis souberam que nova análise julgara a HQ “imprópria para menores” por conter “cenas de sexo explícito e de violência”.
    O artista Weaver Lima discute o fato de o projeto aprovado voltar a ser analisado e diz que o critério não consta do edital. A Secult afirma que pode fazer análises em qualquer fase e que parte dos livros se destina a bibliotecas, que atendem a menores.
    *
    Atalho Caetano Galindo vem há oito meses contando no blog da Companhia das Letras sua saga para traduzir “Infinite Jest”, romance de mais de mil páginas de David Foster Wallace. Até esta semana, verteu 919 páginas. É um trabalhão: o livro não deve sair antes de 2014.
    Atalho 2 Mas, desde o início de abril, a Livraria da Vila oferece a edição portuguesa, “A Piada Infinita” (Quetzal), na tradução de Salvato Telles de Menezes e Vasco Teles de Menezes. A venda é proibida, já que a Companhia tem os direitos de comercialização no Brasil.
    Atalho 3 A Companhia afirma que, em geral, casos do gênero acontecem por falta de informação das transportadoras e das lojas. A Livraria da Vila diz que não tinha conhecimento da exclusividade, mas que pode interromper a comercialização.
    Inédito A revista “Acéphale”, encabeçada por Georges Bataille de 1936 a 1939, terá seus quatro volumes lançados pela Cultura & Barbárie, isolados e, depois, numa caixa. A obra buscava resgatar as ideias de Nietzsche do uso indesejado por nazistas. A tradução é de Fernando Scheibe.
    Zumbis Com a estreia da filme homônimo com Brad Pitt, no final de junho, o livro “Guerra Mundial Z”, de Max Brooks, lançado em 2010 pela Rocco, ganhará tratamento especial, incluindo cartazes em ônibus e “blitz” na estreia do filme, com promotores vestidos de mortos-vivos distribuindo trechos da obra.
    Zumbis 2 O livro, assinado pelo filho do diretor Mel Brooks com a atriz Anne Bancroft, vendeu 20 mil cópias antes de esgotar. A nova edição será de 30 mil exemplares. Nos EUA, retornou à lista dos mais vendidos: figura há 40 semanas no ranking de ficção do “New York Times”
    Fantasia “The Fall of Arthur”, enorme poema incompleto de J.R.R. Tolkien que será lançado nos EUA na próxima semana, ganha tradução só no fim do ano pela WMF Martins Fontes. Antes disso, os fãs terão acesso a nova edição de “Folha e Árvore”, que inclui o conto “Folha, de Migalha” e o ensaio “Sobre Contos de Fadas”, uma declaração do autor sobre seu gênero literário.
    Fantasia 2 Lançada antes pela Conrad, “Folha e Árvore” terá a tradução totalmente revisada por Monica Stahel.

    Drauzio Varella

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    Paulo Vanzolini
    Era um ídolo, capaz de viver tudo o que eu admirava: a paixão pela ciência e pela cultura popular
    Fui aluno do professor Paulo Vanzolini no primeiro ano da faculdade. Eram aulas de bioestatística, aos sábados, nos tempos do quadro-negro e do giz que ele só largava na hora de acender o cachimbo.
    Era um ídolo, capaz de viver a um só tempo tudo o que eu mais admirava: a paixão pela ciência e pela cultura popular. Tornamo-nos amigos 40 anos mais tarde, depois de uma viagem no barco-escola da Unip, para gravar uma série de entrevistas no rio Negro.
    Vou dividir com você, leitor, alguns trechos dessa conversa (que pode ser vista na íntegra no site drauziovarella.com.br).
    -- Sempre gostei de bicho, mas não gostava das aulas. Para ser sincero, nos quatro anos do primário, cinco de ginásio, dois de pré-médico, seis de medicina e três anos em Harvard, nunca assisti às aulas com gosto.
    -- Com 14 anos, consegui um estágio no Instituto Biológico. No laboratório, eu era uma espécie de segundo auxiliar de cachorro, mas comecei a aprender zoologia e descobri a evolução.
    -- Meu pai era professor da Escola Politécnica da USP. Um amigo dele, André Dreyfus, fundador da genética no Brasil, me aconselhou: "Se quiser estudar vertebrados, vá à faculdade de medicina aprender anatomia, histologia e fisiologia; na Zoologia, esses cursos são muito ruins.
    -- Depois de formado, fui para Harvard me achando o maior cientista. Tomei um choque cultural quando vi o que era a zoologia moderna. Com eles, aprendi que o cientista precisa ser generoso, ele não é o dono da ideia. Se tenho uma coleção, devo colocá-la à disposição de todos. A escola científica europeia é baseada na pequena vantagem, na mesquinharia, atributos que a fazem muito diferente da americana.
    -- Charles Darwin pertencia à classe mais privilegiada da Inglaterra. Nunca precisou trabalhar. Veio para a América do Sul como naturalista numa expedição que passou pelo Brasil e Argentina antes de chegar a Galápagos. Lá, ele se deparou com um cenário intrigante: ilhas que apresentavam fauna e flora distintas.
    -- Era um gênio, um conservador que chegou a uma ideia revolucionária. A publicação de "A Origem das Espécies" agrediu profundamente o establishment inglês. Darwin viveu um drama pessoal terrível. Só seguiu em frente porque era um pesquisador honesto. Acho que, se pudesse, teria desistido. Imagine contestar a crença de que a Terra tinha apenas 6.000 anos e que as espécies haviam sido criadas ao mesmo tempo por Deus.
    -- Trabalhando separadamente, Alfred Wallace chegou às mesmas conclusões, mas a documentação de Darwin foi mais completa. Wallace escreveu um artigo maravilhoso, enquanto Darwin escreveu um livro. Mas os dois comprovaram uma regra básica da zoologia: o zoólogo tem que ir para o mato.
    -- Pensar uma teoria é um ato social. No isolamento ninguém consegue.
    -- Andei pelo Brasil inteiro, conheço o Nordeste como o fundo de meu bolso. Visitei a Amazônia peruana, a equatoriana e a brasileira. Descia do barco, conversava com as pessoas e anunciava: "Compro lagartixa, sapo, jacaré e cobra". Quando assumi o trabalho no Museu de Zoologia, a coleção de répteis e anfíbios tinha 1.200 exemplares. Agora, no fim da minha carreira, chegou a 220 mil.
    -- Sou um zoólogo de unhas sujas, apaixonado pelo trabalho. Com quase 80 anos, aposentado, vou diariamente ao museu, das 8h30 às 19h. No momento, passo os dias contando escamas de cascavéis.
    -- O silêncio do laboratório me faz bem. Gosto do povo, mas de um em um não gosto não.
    Nessa altura fiz a pergunta inevitável: -- Ainda sobra tempo para compor?
    -- Houve uma época em que todas as noites eu ia ao jogral do meu amigo Luiz Carlos Paraná, onde havia música da melhor qualidade. Era o bar mais interessante de São Paulo. Quando o garçom faltava, eu vestia a jaqueta e servia as mesas. O Paraná e outros amigos se foram, deixando uma sensação terrível de perda pessoal. Sem eles, diminuí, fiquei menor.
    -- Olhando para trás, para sua vida de compositor de músicas memoráveis e de cientista consagrado, você se considera feliz?
    -- Sou um homem em paz. Feliz? Não sei qual filósofo, Sólon ou Thales, disse que só é possível julgar a felicidade de uma pessoa depois de sua morte, porque é imprescindível ter uma morte feliz.
    Adeus, professor.