domingo, 1 de setembro de 2013

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Fundadora e ex-presidente do MuBE vigia e critica gestão do museu

Dona Marilisa Rathsam é a pedra que dói no sapato dos diretores do MuBE, o Museu Brasileiro da Escultura, localizado numa das regiões mais nobres de São Paulo.
*
Ela mora bem em frente à instituição, na rua Alemanha, no Jardim Europa. Da janela do seu quarto, observa tudo o que se passa nas dependências do lugar. E andava angustiada.
*
Uma das fundadoras do MuBE e sua presidente de 1995 a 2008, ela não se conformava com a iniciativa da atual gestão de retirar, da entrada do prédio, as placas de bronze com os nomes dos que, no passado, assinaram polpudos cheques para ajudar a erguer o museu. Entre eles, o de sua mãe, Aracy Rodrigues, e o dela própria.
*
Recentemente, depois de ver, à noite, que a luz da sala de reuniões estava acesa, atravessou a rua e foi até lá. Segundo alguns diretores, "invadiu" o lugar e, nervosa, chegou a dar um beliscão em uma das integrantes do staff. "Ah, me arrependi tanto", diz ela. Dias depois, voltou ao museu. Entregou a cada diretor um bilhete pedindo perdão. "Estamos íntimos de novo, a amizade voltou. Nos abraçamos, beijamos. Foi um tal de declarar amor... Está tudo bem. Estou feliz."

Fundadora critica gestão do MuBe

 Ver em tamanho maior »
Marlene Bergamo/Folhapress
AnteriorPróxima
Marilisa Rathsam, ex-presidente do MuBE (Museu Brasileiro da Escultura), é vizinha do museu que ajudou a criar
*
Os diretores consideram que é questão de tempo: dona Marilisa voltará à vigilância. Dias antes da briga, ela tinha ido ao prédio com seu mordomo, Normando, para fotografar as goteiras do lugar.
*
"Fui numa hora em que estava todo o mundo almoçando", contou ela à coluna no começo do mês. No dia da entrevista, ainda não tinha feito as pazes com a diretoria ("Agora não quero falar mais deles, não posso balançar a amizade") e abriu o coração.
*
"Está abandonado aquilo [o museu]. No meu tempo, eu pedia dinheiro para empresas. Agora ninguém pede porque não dão." A seu pedido, Sandra Brecheret, filha do escultor, assinou texto dizendo que a única coisa que o MuBE hoje faz é "um barulho insuportável" por causa de "ônibus chegando da periferia lotados" para eventos que atraem "carrinhos que vendem vodca, uísque e pinga".
*
Desde que foi destituída da presidência, dona Marilisa teve três disputas judiciais com a instituição. Um dos processos, segundo seu sucessor, Jorge Landmann, pedia que um busto dela própria, em bronze, fosse colocado nos jardins do MuBE. Outros dois, que o lugar voltasse a se chamar Museu Brasileiro da Escultura Marilisa Rathsam, como era até 2008. "Ela perdeu", diz Landmann. "Não tem sentido deixar o nome de pessoa viva no prédio."
*
Dona Marilisa diz que não quis brigar. "Suspendi o processo porque, olha, o melhor caminho é a gente se entrosar. Todos queremos o bem do museu." O busto, feito a pedido "de um diretor que não quer aparecer", está em sua casa. O plano agora é colocá-lo numa praça na esquina da rua.
*
O fato é que dona Marilisa saiu do museu, mas o museu não sai de dentro dela. "Eu adoro", diz.
*
"Do meu quarto, eu via o Paulo Mendes da Rocha [arquiteto que planejou o prédio, nos anos 1990] chegando. Eu ia para lá e ficava dez horas. Organizei a comissão de obras, tanta coisa eu fiz. Meu marido [Marius] dizia para o Normando [mordomo]: 'Diga à dona Marilisa que, se ela não vier agora, vou almoçar no clube [Harmonia]'."
*
Filha única de um casal que administrava imóveis da própria família, em SP, ela nasceu "na rua Epitácio Pessoa, 8, que hoje é avenida Ipiranga, 313, um prédio que vovô construiu bem no lugar da casa em que eu nasci". Estudou no tradicional Colégio Des Oiseaux. Nas férias, viajava com a mãe para Paris.
*
"Ela adorava, falava um francês castiço." Em museus e exposições, aprendeu a amar as artes. Aos 23 anos, começou a pintar. Em sua casa, entre tapeçarias francesas, candelabros, lustres de cristal e pratarias, estão mais de 30 quadros que pintou, incluindo um autorretrato.
*
Nos anos 80, já casada e vivendo na rua Alemanha, engajou-se no que moradores do Jardim Europa definem como um dos primeiros movimentos urbanísticos e ecológicos do país: a briga para evitar a construção de um shopping center na esquina da av. Europa com a sua rua.
*
Ainda candidato, Jânio Quadros prometeu desapropriar o terreno. Eleito prefeito, em 1985, fez uma reunião com os moradores. "Ele disse: 'Eu não quero fazer um jardim no meio dos Jardins. Quero dar um fim nobre ao espaço'. Levantei então a mão e falei: 'Eu faço um museu'. Olha que louca, meu marido quase desmaiou."
*
O prefeito fez um contrato de comodato, por 99 anos, com a SAM (Sociedade de Amigos dos Museus), presidida por Marilisa. Que foi bater na porta de endinheirados para levantar fundos para a construção do MuBE, num esforço reconhecido até por aqueles com quem ela hoje tem desavenças. O museu foi inaugurado em 1995.
*
"Ciccillo Matarazzo [fundador do MAM, Museu de Arte Moderna] comprava Modigliani, Niomar [Moniz Sodré, do MAM do Rio] comprava Mondrian [...] Marilisa pertence a esta elite voltada às artes", já escreveu o curador Fábio Magalhães. Sob a presidência dela, foram inúmeras as exposições: Max Ernst, César, Giorgio de Chirico.
*
O fim de seu período, no entanto, foi conturbado. O MuBE foi apelidado de Museu Brasileiro de Eventos ("Eram festas para meus amigos ricos, que davam dinheiro para o museu"). As desavenças com Andrea Matarazzo, então secretário de Subprefeituras, eram constantes ("São rivalidades que passam. Sou amiga da Tereza, mãe dele, e até ajudei na eleição dele a vereador"). O prefeito Gilberto Kassab ameaçou romper o comodato.
*
Seis anos depois de deixar o MuBE, dona Marilisa segue na janela, atenta. Na semana passada, prometeu ajudar na arrecadação de R$ 4,5 milhões para uma grande obra de restauração que, entre outras coisas, deve por fim nas goteiras do museu.
Mônica Bergamo
Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

José Simão

folha de são paulo
Ueba! Bafafá do Pinto boliviano!
O deputado vai ser uma péssima influência na prisão: vai roubar as quentinhas dos colegas!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E esse senador boliviano, o Pinto Molina! Ainda bem que é Molina, porque se fosse Durina, o estrago ia ser maior!
"Senador boliviano Pinto Molina entra escondido no Brasil". Programa Mais Pintos! E derrubou um Patriota! Um pinto derrubou um patriota. Então, estamos com 400 médicos cubanos e um pinto boliviano!
E agora: "Bolívia pede para Dilma devolver o Pinto". Faz uma troca! Troca um pinto por três corintianos! Rarará!
E a Dilma não devia devolver o Pinto pro Evo, mas pro ovo. Dilma devolve o Pinto pro Ovo! Rarará!
E Patriota que é patriota não vai buscar pinto lá fora! Rarará!
E o escândalo da semana: "Congresso livra de cassação deputado condenado e preso". Natan Danadão! Superprático: um deputado que já tá preso!
O Congresso deu uma banana pro Gigante! E diz que esse deputado vai ser uma péssima influência na prisão. Vai roubar as quentinhas dos colegas! No mínimo!
E os médicos cubanos? Diz que os Médicos Cubanos vão abrir o Sírio Cubanês! E sabe o que um médico cubano receitou pro pai de um amigo meu? Salsa três vezes por semana para artrose e um charuto no final do dia pro estresse!
E quem vai ficar cuidando do Fidel? Fidel: "Llamen los médicos, los médicos". Não tem. Foram todos pro Brasil.
E não sou contra a vinda dos médicos cubanos, mas o problema é a língua: confundir caganera com "Guantanamera". E a charge do médico cubano: "Holla". "A rola tá bem doutor, o problema tá na cabeça". Rarará.
E diz que os médicos cubanos terão três semanas para aprender como o SUS funciona. E o SUS funciona? E um amigo no Twitter: "se os médicos cubanos aprenderem como o SUS funciona, eles vão bater o ponto e ir embora". Rarará.
Então, temos três vergonhas nesta semana: um Pinto que entrou escondido, um deputado presidiário e os médicos brasileiros hostilizando e vaiando os médicos cubanos.
Avisaram que eles seriam tratados assim?! Avisaram que no Brasil ainda tem gente não civilizada?
E chega de médicos. A pior coisa na minha idade é arrumar treta com médico. Rarará.
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

    Mauricio Stycer

    folha de são paulo
    O estranho fim da MTV
    Não basta conteúdo de qualidade sem empreendedores e gerentes com visão do negócio
    As notícias sobre o fim da MTV Brasil são difíceis de entender. Como já ocorreu no passado com outras empresas do ramo, parece não haver relação de causa e efeito entre os problemas da emissora ao longo dos seus 23 anos de atividades e o conteúdo produzido no período.
    Lendo diferentes depoimentos sobre a história da emissora, tenho a impressão de que uma questão importante está sendo deixada de lado. A saber: a MTV não está acabando porque sua programação é de baixa qualidade.
    Nos últimos meses, a emissora exibiu alguns dos programas mais originais, ousados e provocativos que vi este ano na TV aberta.
    No final de maio, foi ao ar "A Menina sem Qualidades". Dirigida pelo dramaturgo Felipe Hirsch, a série de 12 episódios se distanciou do cânone imposto pela TV americana (e copiado aqui), e apostou numa narrativa sem sobressaltos, lenta até, com poucos diálogos e momentos de contemplação.
    Em meados de julho, já não havendo mais mistério sobre o fim das suas atividades, a MTV estreou "O Último Programa do Mundo" --" um talk show' histérico esquizofrênico que muda de rumo o tempo todo, tudo com direito a acesso aos arquivos mais vergonhosos de uma MTV em chamas."
    Ainda que tenha se anunciado como "sem propósito, sem chefe, sem direção, sem ibope", a criação de Daniel Furlan e Juliano Enrico me pareceu uma espécie de terapia coletiva destinada a entender o que deu errado na emissora.
    No episódio de estreia, Furlan levantou uma hipótese: "Aqui não tem anão. Aqui não tem cenário. Aqui não tem esquetes, não tem externas, não tem apresentadora infantil com roupa de piranha, não tem convidado que mora em outro Estado. Eu sou muito sincero"¦"
    Em agosto, finalmente, como se não estivesse a um mês do seu fim, a MTV Brasil estreou mais dois programas interessantes --o jornalístico "Mundial na Estrada" e o seriado "Overdose".
    Mais uma vez, funcionou muito bem o artifício de escalar a "pessoa errada" para uma tarefa --no caso, o humorista Paulinho Serra foi o condutor de um documentário em capítulos sobre a Copa das Confederações. Totalmente à vontade, e distante dos cacoetes do jornalismo, Serra foi um "repórter" participativo, que procurou entender os protestos que marcaram o evento esportivo no Brasil.
    Dizem que a primeira impressão é a que fica, mas prefiro me lembrar da MTV pela última --o seriado de Arnaldo Branco, exibido até a última semana de agosto. Em formato de documentário, ele apresentou a história de uma banda de garagem da pior qualidade, naturalmente incapaz de enxergar a própria falta de talento. Com humor refinado, o programa riu dos músicos e de todos que os cercam --riu, basicamente, do próprio público-alvo da emissora.
    Ousados, iconoclastas e sempre divertidos, como tantos outros programas que a MTV Brasil exibiu ao longo de sua história, estes últimos quatro ficam como testemunho de que não basta conteúdo de qualidade para manter uma emissora no ar. Um negócio do tamanho da televisão exige, também, investidores, empreendedores e gerentes com mais visão.

      Ferreira Gullar

      folha de são paulo
      O mundo muda
      Quanto mais radical for o militante, mais dificilmente admitirá que o seu sonho acabou
      Os ideais de esquerda nasceram em meados do século 19 e ganharam corpo no começo do século 20, com a revolução de 1917. Com o nascimento da União Soviética, o ideal comunista ganhou corpo, deixou de ser mera utopia para se tornar realidade.
      O sonho de uma sociedade igualitária, em que os trabalhadores seriam os dirigentes da nação e em que a mais-valia reverteria em benefício da sociedade e não de alguns burgueses ricos, parecia enfim concretizar-se.
      É verdade que as primeiras décadas do socialismo soviético não apresentaram resultados muito positivos, mas para quem acreditava na sociedade igualitária, os problemas seriam em breve resolvidos.
      O fato é que a simples existência da URSS já provocara importantes mudanças nos países capitalistas que trataram de atender a algumas reivindicações do trabalhadores.
      A deflagração da Segunda Guerra Mundial, provocada pela Alemanha nazista, tumultuou o processo e provocou uma inesperada aliança entre os países capitalistas avançados e a União Soviética, o que adiou o conflito entre socialismo e capitalismo que, finda a guerra, levaria um mundo à chamada Guerra Fria e à beira de um conflito nuclear, o que felizmente não aconteceu.
      Nesse período, o capitalismo se desenvolveu e derrotou economicamente o socialismo, levando ao fim da União Soviética e do sistema comunista que havia surgido no pós-guerra. A partir de então, o sonho revolucionário dos partidos comunistas disseminados pelo mundo inteiro se desfez. Não era mais possível, sensatamente, continuar lutando por um ideal de sociedade que fracassara.
      Deve-se admitir, no entanto, que não é fácil abrir mão das utopias, dos projetos concebidos e aceitos como salvação da sociedade, o fim da desigualdade, o reino da felicidade sobre a Terra.
      Tais utopias equivalem a crenças religiosas, de que dificilmente as pessoas abrem mão. Elas são, ademais, tanto uma como outra, o que dá sentido à existência. Para alguns é isso, para outros, a afirmação de valores ideológicos aos quais entregaram a vida. Há aí, sem dúvida, uma mistura de autoafirmação e autoengano.
      Isso explica o que aconteceu com as esquerdas em diferentes países, inclusive o Brasil. Deve-se observar que quanto mais radical for o militante, mais dificilmente admitirá que o seu sonho acabou. Em setores da esquerda moderada, algumas mudanças na máquina capitalista aparecem como uma opção admissível, mas não para a esquerda radical que, por isso mesmo, defronta-se com um impasse: sabe que a revolução se tornou inviável mas teima em não aceitar a verdade. O que não significa que devamos aceitar os abusos do capitalismo.
      E então nasce o neopopulismo que é, no fundo, a tentativa de manter o poder, dentro do regime capitalista, mas contra ele. Como isso tornaria o governo inviável, toma decisões contraditórias, para mostrar-se de esquerda e ao mesmo tempo atender às exigências do capital.
      O que ocorre na Venezuela é exemplo disso, onde tal ambivalência conduziu o país a um impasse econômico que se agrava a cada dia. A verdade é que ou o novo governo muda de rumo ou leva o país ao caos econômico e social.
      O que sucedeu na Venezuela começa a acontecer no Brasil, claro que em escala diversa, dada a natureza distinta dos dois países, tanto histórica quanto econômica.
      Aqui, certamente, não surgirá um novo Hugo Chávez nem teremos uma sucessão presidencial tão surrealista quanto a que ocorreu ali. De qualquer modo, a atitude ambivalente do governo petista --que governa com a direita e finge que é de esquerda-- se mantém e compromete o crescimento do país.
      Esse é um aspecto da questão que envolve o que restou da esquerda radical. É que ela chega ao fim tanto pelo esvaziamento ideológico quanto pela idade de seus líderes: Lula e Dilma não têm como seguir adiante por muito tempo.
      Em suma, embora ainda haja quem teime em se dizer esquerdista, nenhum político profissional que pretenda de fato ascender no cenário nacional insistirá em repetir os chavões que saíram de moda.
      Quem pretenda fazer carreira política seguirá outro caminho. Uma geração não ideológica --que nada tem da herança utópica surgida com Karl Marx-- assumirá o poder no futuro.