quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Jogo recupera a memória em idosos‏

Pesquisadores criam videogame que retoma habilidades cognitivas perdidas ao longo do tempo. Os benefícios foram detectados seis meses após os testes com voluntários que tinham pelo menos 60 anos 


Bruna Sensêve

Estado de Minas: 05/09/2013 

Jogos de treinamento cerebral buscam melhorar habilidades mentais. Com um certo tempo de prática, a tendência é de que os jogadores se tornem ainda melhores na tarefa proposta, mas será que eles conseguem se aprimorar em outras atividades cognitivas diárias? De acordo com artigo publicado hoje na revista científica Nature, sim. É possível que um videogame desenvolvido especialmente para idosos seja capaz de aumentar controles cognitivos que decaem com o envelhecimento, como a memória e a atenção. Os experimentos mostram que o envelhecimento cerebral pode ser mais plástico que o imaginado e, dessa forma, permitir uma melhoria cognitiva — desde que sejam utilizadas estratégias cuidadosas e controladas.

Há três anos, um estudo publicado também na Nature concluiu que jogos com o objetivo de aprimorar as habilidades cognitivas não conseguiam ultrapassar os limites das tarefas executadas durante a brincadeira. Os pesquisadores recrutaram cerca de mil jovens e indivíduos de meia-idade para praticar regularmente tarefas on-line desenvolvidas para melhorar funções cerebrais, como memória, planejamento e raciocínio. Como esperado, eles realmente ficaram cada vez mais espertos nas tarefas pedidas pelo treinamento, mas não houve qualquer alteração de desempenho em outras habilidades cognitivas. Segundo Adam Gazzaley, que liderou o estudo publicado hoje, provavelmente, o resultado registrado anteriormente se deve à idade dos participantes, já que abaixo dos 60 anos a reposição da perda cognitiva talvez não seja tão evidente.

Gazzaley e sua equipe desenvolveram um jogo de computador chamado NeuroRacer. Nele, os participantes são convidados a dois tipos de atividade. No modo tarefa única, o usuário precisa apenas responder a um comando demonstrado na tela e apertar um botão ou conduzir um veículo por uma estrada utilizando um joystick. No modo multitarefa, as duas atividades são realizadas em conjunto (veja infografia). Em um primeiro momento, foram convocados 174 indivíduos, que representaram todas as décadas de vida de uma pessoa adulta, com idade variando entre 20 e 79 anos, sendo cerca de 30 para cada década. Eles foram divididos em grupos que realizavam a tarefa única e outros dedicados à multitarefa. O objetivo era diagnosticar o deficit cognitivo com o passar dos anos. 

Confirmado o decaimento de algumas habilidades com o avançar da idade, o time de pesquisadores realizou um novo experimento, dessa vez, com participantes entre 60 e 85 anos de idade e distribuídos em três grupos: os que jogaram em multitarefa, aqueles que fariam a tarefa única e o grupo de controle. Os últimos não usaram regularmente o jogo e foram usados como uma taxa de cognição de referência. Os outros voluntários deixaram o laboratório da universidade com a missão de praticar o NeuroRacer por uma hora, três vezes na semana e durante um mês. Após esse período, eles retornaram e participaram de novos exames. Eletrodos foram conectados a uma touca para monitorar a atividade cerebral dos indivíduos enquanto eles jogavam novamente.

Os resultados mostraram que a atividade cerebral foi muito aprimorada, superando a do grupo de controle e se aproximando do rendimento cognitivo observado em indivíduos de 20 anos que jogavam pela primeira vez. Os pesquisadores relatam que, seis meses depois, os participantes apresentaram o mesmo desempenho, sugerindo que esse ganho cognitivo pode ser mantido por pelo menos meio ano. Também foi registrado um aumento de atividade na região do cérebro conhecida como córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisão. Os voluntários idosos mostraram-se melhores na retenção de informação a curto prazo e na manutenção da atenção, habilidades que conhecidamente tendem a ser prejudicadas com o avançar da idade.
“Tanto a multitarefa quanto a tarefa única resultaram em melhorias equivalentes no jogo, enquanto apenas a multitarefa levou a grandes melhorias comportamentais, como diminuição de gastos mentais, melhoria de sustentação da atenção e trabalho da memória”, descreve Gazzaley. Para os cientistas, apesar de eles registrarem uma melhora em idosos, esse aprimoramento das atividades cognitivas em jovens com o uso de jogos de computador permanece obscura. No entanto, eles acreditam ser possível que uma versão mais desafiadora de NeuroRacer possa dar conta do recado.

Terapia prazerosa O que mais chamou a atenção da geriatra e conselheira da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) Elizabete Viana de Freitas é que uma atividade prazerosa e divertida pode também ter efeitos para a cognição. Ela compara o funcionamento do cérebro ao dos músculos. “Quanto mais a pessoa ativa as capacidades, ativa a memória e exercita os diversos domínios da cognição, melhor serão os resultados”, explica.
A geriatra, porém, não esperava que essa melhora mais duradoura na performance poderia acontecer com a utilização de um videogame, uma proposta lúdica. “E com efeitos muito duradouros”, completa. “Esse resultado é muito bom porque é possível reunir um grupo de pessoas em uma situação em que há a interação com o jogo lúdico e o estímulo da presença das pessoas, o que traz também a capacidade de socializar mais”, comenta a geriatra. Ela diz ainda que algumas casas de repouso para idosos já utilizam a estratégia como uma forma de atração para os hóspedes com jogos como o Wii. “É muito bom porque é mais agradável exercer uma atividade que é prazerosa que um exercício mais restrito de memória que também é bom, mas pode ser massante.”

Além dos medicamentos

“Não é uma proposta muito nova. Há pouco mais de 10 anos, na Universidade de Tóquio, no Japão, tem um grupo de cientistas que usa o videogame para estudos voltados para a área de demência e reabilitação cognitiva. Nesse artigo, os pesquisadores fazem, principalmente, uma avaliação para multitarefas em indivíduos com pessoas saudáveis. O que de melhor podemos traduzir para o uso cotidiano das pessoas é que é uma promessa futura da possibilidade de ter um ganho cognitivo de uma forma divertida. Todo o mundo pensa em medicações para melhorar essas habilidades, ter uma qualidade de vida maior, mas é possível que não se precisemos de remédio. Talvez, possamos fazer algo divertido, como jogar videogame e ter um benefício cognitivo. Agora, esse estudo sozinho não significa que as pessoas devem buscar os jogos para alcançar isso. Ainda são necessários mais estudos e esse jogo foi montado para o treinamento apenas.”

INFECÇÃO REAL » Rei Ricardo III tinha lombriga


Estado de Minas: 05/09/2013 

Ricardo III sofria de uma infecção de lombrigas. É o que mostra a última análise dos restos mortais do rei feita por pesquisadores da Universidade de Cambridge e publicada ontem na revista The Lancet. Pequenos ovos foram encontrados durante uma análise microscópica nas mostras do esqueleto e do solo onde o antigo monarca foi enterrado. Os vermes seriam o resultado de uma infecção causada por lombrigas. 

Os pesquisadores encontraram ovos de vermes intestinais a partir da pélvis do rei, local próximo aos intestinos, mas nenhum foi achado no crânio e poucos no solo. De acordo com os arqueólogos, isso indica uma possível infecção intestinal e não uma contaminação causada após o enterro. “Nossos resultados mostram que ele estava infectado com vermes no intestino, mas nenhuma outra espécie de parasita intestinal foi encontrada nas amostras estudadas”, informou o líder da pesquisa, Piers Mitchell, ao jornal britânico The Guardian. 

Para os arqueólogos, mesmo a vida nobre do rei não o protegeu da doença. “Acreditamos que os nobres daquela época comiam carnes bovina, suína e de peixe regularmente, mas não havia nenhuma evidência de vermes nessas carnes. Isso pode sugerir que a comida era cozida, o que impediria a transmissão desses parasitas”, declarou Mitchell. As infecções causadas por lombrigas acontecem quando há a ingestão de ovo por meio de alimentos contaminados. Uma vez consumidas, as larvas migram por meio dos tecidos do corpo para os pulmões. Lá, amadurecem, passam das vias aéreas para a garganta e podem ser engolidas de volta ao intestino. 

Os restos mortais de Ricardo III, que governou a Inglaterra de 1483 a 1485, foram encontrados em 2012, em um estacionamento na cidade de Leicester, no centro da Inglaterra. Os investigadores comprovaram a identidade do rei depois de um teste de DNA. Devido às marcas encontradas no crânio, cientistas apontam a causa de morte como um golpe na cabeça. Historiadores contam que Ricardo III foi morto na batalha de Bosworth Field, próximo de Leicester. Um dos reis mais desprezados da Inglaterra, Ricardo III foi imortalizado por Shakespeare. 

No reino da boçalidade - Cora Rónai

No reino da boçalidade - Cora Rónai

O aeroporto internacional Eldorado, de Bogotá, bota no chinelo o patético Galeão

E aí, um dia, a gente recebe uma carta como esta:
“Peço-lhe desculpas por chateá-la com assunto dessa natureza. Infelizmente ainda há pessoas que acreditam que não pode acontecer com elas passar por tanto constrangimento quando precisam da ‘nossa’ polícia.
“Meu sobrinho vem, há alguns anos, meio perdido na vida. Sou professora, graduada e pós-graduada, crio-o desde os sete anos (hoje está com 29) porque a mãe sumiu no mundo e o pai, meu irmão, morreu quando o menino contava apenas dois meses. Temperamento difícil somado à revolta pelo abandono levaram-no às drogas; para manter o vício, foi levado aos assaltos.
“Imagine como sofro, pois tentei dar-lhe carinho e educação. Quando pequeno, levei-o a vários médicos e terapeutas. Crescido, dizia que não tinha problema e vivia a sua maneira. Está preso, pela segunda vez. Condenado, aguarda sua transferência para Bangu em uma casa de custódia em Engenheiro Pedreira, distrito de Japeri, interior do Rio de Janeiro.
“Cheguei há pouco de lá. Estou arrasada. Não consigo entender por que alguns funcionários (infelizmente, maioria) do Sistema de Administração Penitenciária tratam-nos, parentes dos presos, com tanto sarcasmo e desrespeito. Imagino como os presos são tratados. Sei que violaram as leis, sei que muitos oferecem perigo à população, sei que não devem ter mordomias. Não deveria haver mordomia para ninguém que violasse as leis, inclusive os políticos corruptos, os criminosos de colarinho branco. Apenas acredito que, como cristãos, devemos tentar ajudar essas pessoas a viver de forma diferente. Acredito que educando, orientando para o trabalho, ocupando esses jovens, tornando-os úteis, chegaremos a uma realidade tão desejada, ou seja, construiremos e investiremos em escolas e universidades e não precisaremos construir mais presídios.
“Levei para meu sobrinho uma manta de fibra sintética, cor cinza exigida pela casa de custódia. O inspetor disse que não poderia ser entregue. Eu perguntei por quê. Ele, rindo e caçoando, recomendou-me passar pelas ruas à noite, observar bem os mendigos e roubar de um deles um dos cobertores que usam, bem ‘vagabundinhos’, que é o que pode entrar para o preso.
“Você talvez dirá que eu deva procurar a corregedoria. Não é a primeira vez que passo por constrangimentos ou que os testemunhe. Você faz ideia do que pode acontecer ao meu sobrinho se eu fizer a reclamação? Precisa responder? Que país é esse em que não se pode confiar na força policial? Em todo esse tempo de luta (mais ou menos 15 anos) tentando recuperar esse jovem, encontrei apenas alguns poucos policiais que mereciam confiança.
Apenas alguns poucos, Cora. Apenas.
Sou professora. Acredito na Educação. Sou cristã. Não desisto. Perdoe-me o desabafo. Abraços,
Norma Suely”
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Não sei o que dizer para a Norma Suely. Não sei o que responder a uma carta assim. Não tenho coragem de recomendar que tenha paciência, porque eu não teria. Não tenho como pedir que tenha fé, porque eu não acredito. Não posso insinuar que as coisas vão melhorar, porque eu estaria mentindo: o Brasil que vejo piora a cada dia. Fizemos alguns progressos na área social, dizem que há menos miseráveis, e é possível que isso seja verdade, mas nunca tivemos uma população tão mal preparada, tão mal-educada, tão boçal. Um guarda que destrata os parentes dos presos é reflexo disso. Uma diretoria de presídio que permite este tipo de achincalhe também.
Não basta o país ter a capacidade de transformar miseráveis em pobres. Mais importante do que isso é pensar a longo prazo, é criar uma escola que funcione, da qual os jovens saiam com ferramentas de real progresso nas mãos, em vez de diplomas que, cada vez mais, valem cada vez menos. É entender que educação é, também, um conjunto de valores que forma pessoas melhores e mais humanas. O guarda que fez troça da Norma Suely aprendeu a ler e escrever, mas não sabe nada.
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Escrevo de Bogotá. Quando o avião decolou do Rio, o comandante da Avianca fez uma homenagem emocionada à equipe de judô que participou do mundial do Rio, e que voltava para casa naquele voo. Concluiu dizendo que jovens como aqueles reafirmavam o seu orgulho de ser colombiano. O casal brasileiro que ia à minha frente deu uma risadinha: “Orgulho de ser colombiano? Ha ha!”
Espero que, ao desembarcarmos, tenham mordido a língua com bastante força: o aeroporto internacional Eldorado bota no chinelo o patético Galeão, cada vez mais deprimente. E não é só a porta de entrada que impressiona. Os anos negros da guerrilha ficaram para trás (Farc e governo estão em negociações para pôr fim ao conflito), a produção de drogas caiu drasticamente, e o país, que vive um bom momento econômico, é uma grata surpresa: Bogotá é uma cidade ao mesmo tempo sofisticada e acolhedora, que sabe preservar a sua cultura. Tem museus de padrão internacional, bibliotecas públicas de cair o queixo e ruas limpas e seguras, patrulhadas por duplas de policiais e lindos cães de todas as raças. Acima de tudo, porém, tem uma população supergentil e educada, que capricha na cortesia como estilo de vida. Eles têm mais é que ter orgulho, muito orgulho, do seu país.

Ética para a credibilidade - Samuel Antenor

Especiais Fonte

Ética para a credibilidade

Agência Fapesp
05/09/2013
Por Samuel Antenor
Agência FAPESP – O bom jornalismo é resultado da ética, que só pode se materializar no texto jornalístico quando há qualidade, técnica e credibilidade envolvidas em sua produção.
Esses são conceitos essenciais para o que se convencionou chamar de bom jornalismo, nas palavras de Eugenio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), em sua apresentação sobre o livroJornalismo, ética e qualidade, de Carlos Alberto Di Franco.
Bucci falou no quarto encontro do ciclo de conferências “50 anos das Ciências da Comunicação no Brasil: a contribuição de São Paulo”, na última sexta-feira (30/08), na sede da FAPESP. O ciclo teve início em 9 de agosto e acontece às sextas-feiras até o dia 4 de outubro.
Em sua apresentação, Bucci destacou aspectos no livro que revelam a coerência e a conduta apartidária do autor, por meio da consistência de suas análises, que envolvem ética na imprensa. Para Bucci, a ética permite fazer um jornalismo de qualidade e a técnica garante a credibilidade. “Esse é o eixo ordenador do pensamento de Di Franco”, disse.
Para o professor da ECA/USP, Di Franco demonstra, em seu livro, como a imprensa deve primar pela independência, buscando a veracidade sem incorrer em outros interesses.
“A independência editorial resulta de um distanciamento necessário do jornalista das esferas de governo, pois, caso haja essa proximidade, podem ser suscitadas indefinições jornalísticas”, afirmou.
Se, por um lado, Bucci disse que, em uma democracia, a profissão deve ser exercida de maneira apartidária, por outro, ele afirmou ser incompatível, com um jornalismo saudável, governos que soneguem informações em plena democracia.
“Por isso, o jornalismo deve necessariamente fazer uma apuração rigorosa dos fatos e apresentá-los à sociedade com uma linguagem aberta a múltiplos olhares, inclusive lançando mão de recursos gráficos atualizados, para realçar detalhes e destacar seu processo investigativo.”
Bucci afirmou que – mesmo havendo um distanciamento entre ele e o autor com relação a questões de cunho moral, como por exemplo o direito ao aborto – considera Di Franco um “iluminador” dos processos jornalísticos no Brasil.
Segundo ele, conforme preconiza Di Franco em seu livro de 1995, as empresas jornalísticas estão estruturadas em três níveis, dentre os quais a reportagem deve ter independência em relação à articulação e à publicidade.
“A reportagem deve caminhar sem se deixar levar pelas predileções do veículo em que será veiculada. Seria bom se a opinião dos veículos fosse mais clara, o que realçaria o nível de independência de suas reportagens”, afirmou.
Com base em sua análise do livro de Di Franco, Bucci também questionou o conflito de interesses presente muitas vezes na relação entre as assessorias de imprensa e os veículos de comunicação, além da independência da mídia.
“No caso da cobertura feita pela Mídia Ninja das manifestações populares no Brasil, suas ‘narrativas independentes’ são diferentes da independência preconizada por Di Franco. Eles falam de independência da indústria da mídia, mas não de interesses políticos, pois eles têm e expõem claramente seu posicionamento político.”
Para Bucci, também o ensino de jornalismo no Brasil deveria ser menos opinativo, o que, segundo ele, permitiria preparar os jovens jornalistas sem ditar posicionamentos exacerbados em questões político-ideológicas. “Assim, os jornalistas poderiam trabalhar mais livremente, sem que a orientação política de determinados veículos interferisse no exercício da profissão.”
Posicionamentos distintos
As apresentações durante o quarto dia do Ciclo de Conferências “50 anos das Ciências da Comunicação no Brasil: a contribuição de São Paulo” contemplaram outros autores, em temas complementares ou díspares.
Sobre a imprensa operária e a importância da comunicação proletária – tema do livro A imprensa operária no Brasil, de Maria Nazareth Ferreira –, o professor Denis de Oliveira, também da ECA/USP, destacou a necessidade de engajamento político em determinadas mídias, para que se chegue a um patamar menos defasado em relação à grande imprensa.
Para ele, a mídia ligada a minorias necessita ter um posicionamento claramente político e engajado para alcançar igualdade de vozes. “A diferença é que a mídia tradicional trata o leitor como consumidor, não como cidadão, o que mostra o quão tênue pode ser a fronteira entre o jornalismo e a publicidade”, afirmou.
Em sua apresentação sobre o livro lançado em 1978, Oliveira destacou que a imprensa sindical busca, ainda hoje, um estreitamento com o seu leitor, pois sabe que este tem condições de avaliar o conteúdo de suas publicações. “Até porque os leitores desses veículos também leem a grande imprensa e têm a possibilidade de fazer análises de ambos.”
Para ele, o livro de Ferreira aponta também para o fato de que a imprensa vinculada a sindicatos e a outras instituições deve estar atenta para tratar seus temas jornalisticamente, evitando atuar como meros porta-vozes institucionais.
A interferência da publicidade no jornalismo também foi observada por Rosalba Facchinetti, pesquisadora da ECA/USP, durante sua análise do livro Rock, nos passos da moda, de Tupã Gomes Correa.
Lançado em 1989, o livro mostra como, desde os movimentos hippie e punk, os gostos musicais e outras variáveis ditaram a moda, enquanto fatores determinados contribuíram para a formação do gosto das audiências.
A moda como decorrência do rock, que ditou os comportamentos entre os anos 1960 e 1970, não era, na visão do autor, apenas o que se vestia. “O autor busca explicação nesses movimentos para o estabelecimento de um gosto alternativo, surgido em reação ao padrão estabelecido pelas gravadoras. Contudo, essa alternativa, ao ser absorvida pelo mercado fonográfico, torna-se também moda”, disse.
Facchinetti lembrou que, em pesquisas anteriores, o autor já determinara que as chamadas “paradas de sucesso” se valiam da manipulação de pesquisas sobre o gosto musical dos ouvintes das rádios para direcionar o consumo de discos no Brasil. “O papel de publicidade exercido pelas pesquisas, que se antecipavam às vendas, fazia com que houvesse um direcionamento de vendas, do qual o mercado fonográfico se beneficiava.”
Outro ponto destacado foi a questão da mídia regional no Brasil, na análise do professor Marcelo Briseno, da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), sobre o livro Mídia e região na era digital, organizado por Anamaria Fadul e Maria Cristina Gobbi.
Resultado dos trabalhos apresentados no 11º Colóquio Internacional de Comunicação para o Desenvolvimento Regional (Regiocom2006), na Umesp, o livro, lançado em 2007, conta com artigos escritos por 26 autores, que analisam a mídia regional brasileira a partir de dados demográficos e econômicos.
De acordo com Briseno, o livro destaca o fato de o Brasil midiático ser muito menor do que o Brasil real, questionando o quanto as emissoras de TV regionais representam seu público. “Na programação das emissoras regionais, o bloco publicitário é o que mais representa o público regional, a comunidade, que se vê e se reconhece muito mais nos anúncios do que na programação”, analisou.
Para ele, mesmo quando o conteúdo dessas emissoras é produzido localmente, o teor do que é mostrado reflete muito mais o que se passa nos grandes centros do que o cotidiano regional. “Acreditar que, por ser produzida localmente, a programação é regional é um erro, pois para isso seria necessário deixar de lado o padrão e estilo típicos das emissoras nacionais”, disse.
Ainda na parte da manhã, foram apresentados e debatidos outros dois livros, de autores que se tornaram referências no campo da comunicação e do jornalismo.
Cristina Costa, da ECA/USP, apresentou e debateu o livro A moderna tradição brasileira, escrito em 1988 por Renato Ortiz, destacando seus relatos sobre censura, e Graça Caldas, da Unicamp, apresentou sua visão do livro Divulgação Científica, de Isaac Epstein, lançado em 2002, ressaltando sua contribuição para a divulgação científica, com destaque para a área da saúde, no Brasil.
Diferentes realidades
Na parte da tarde, o evento contou com a análise de mais dez livros, feitos por pesquisadores de diferentes instituições de ensino e pesquisa em comunicação.
Claudia Lago, da Universidade Anhembi Morumbi, analisou o livro Revista Realidade: tempo de reportagem, de José Salvador Faro, publicado em 1999, que tem como foco um período específico do jornalismo brasileiro – 1966 a 1968 – e um veículo que até hoje, segundo ela, é “um mito”.
“Era o jornalismo engajado, transgressor e revelador. A Realidade tinha uma equipe antenada com seu tempo e criou uma narrativa necessária para o momento”, afirmou, lembrando que “Faro atribui o sucesso da revista ao fato de a informação ter ganhado uma perspectiva globalizadora, tornando-se uma categoria de análise do cotidiano”, disse.
O livro Imprensa em Questão, organizado por Alberto Dines e Carlos Vogt, foi analisado por Mariluce Moura, diretora de redação da revista Pesquisa FAPESP. Publicado em 1997, o livro traz os principais debates de seminário realizado três anos antes, com o objetivo de avaliar os caminhos possíveis para a imprensa brasileira.
“O seminário foi o marco fundador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que, ao longo dos últimos anos, contribuiu para a formação de recursos humanos e a ampliação do conhecimento na área”, afirmou Moura.
A série de conferências do ciclo no dia 30 de agosto teve ainda a análise midiática do rádio e do cordel.
Helena Corazza, do Serviço Pastoral à Comunicação (Sepac), analisou o livro O rádio dos Pobres, de Maria Immacolata Vassalo de Lopes, publicado em 1982. No livro, a autora estuda a repercussão de três programas de grande audiência na Rádio Record nos anos 1970 – Zé Bettio, Gil Gomes e Silvio Santos – na periferia de São Paulo. “Ela trabalha a abordagem comunicacional, política e econômica na produção de conhecimento a respeito dos processos ideológicos de comunicação de massas que, na época, tinha contornos próprios”, afirmou Corazza.
Em A literatura de cordel em São Paulo, de Joseph Luyten, publicado em 1981, Isabel Amphilo, da USP, discorreu sobre como o autor faz uma espécie de “mestiçagem teórica” – utilizando o funcionalismo, estruturalismo, marxismo e semiótica – para compreender o formato e o papel de uma manifestação típica do Nordeste em São Paulo.
Também foram analisados os livros Palavra e Discurso: história e literatura (2000), de Maria Aparecida Baccega, por Elizabeth Gonçalves, da Umesp; Mulher de papel (1981), de Dulcilia Buitoni, por Gisely Hime, das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU); A Pragmática do Jornalismo (1994), de Manuel Carlos Chaparro, por Marly dos Santos, da Umesp; Jornalistas e Revolucionários (1991), de Bernardo Kucinski, por José Arbex, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Tudo acaba em festa (1993), de Cristina Giácomo, por Manuel Carlos Chaparro; e Relações Públicas: teoria, contexto, relacionamentos (2009), de Maria Aparecida Ferrari e Fábio França, por Cristina Giácomo.
Promovida pela FAPESP e pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), a série de oito encontros semanais – que serão realizados até o dia 4 de outubro, sempre às sextas-feiras – tem como objetivo discutir alguns dos principais aspectos da comunicação no Brasil nas últimas cinco décadas.
O próximo encontro do ciclo de conferências “50 anos das Ciências da Comunicação no Brasil: a contribuição de São Paulo”, com foco nas pesquisas realizadas no século 21, será no dia 13 de setembro, com o tema “Atualizadores das ciências da Comunicação”. Este e todos os demais encontros do ciclo serão realizados no Auditório Paulo Emílio, na ECA/USP.
Mais informações sobre o ciclo: www.fapesp.br/7888