sábado, 19 de outubro de 2013

Dedo na ferida - Sérgio Rodrigo Reis

Pesquisa com dados sobre a economia da cultura no país revela informalidade no setor e gastos públicos de apenas 0,3% das despesas consolidadas nas três esferas de governo


Sérgio Rodrigo Reis

Estado de Minas: 19/10/2013 




O Brasil não tem noção exata da cultura que produz. Por isso mesmo, entra governo e sai governo e as ações de política pública para o setor têm sido orientadas mais pela intuição do que por informações obtidas de forma confiável. A falta de dados atinge também o planejamento de artistas e produtores e até mesmo do público interessado. O quadro começa a mudar. Acaba de ser concluída pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Cultura, uma ampla pesquisa que estampa a radiografia da economia da cultura no país. Os dados são reveladores.

O estudo, batizado de Sistema de Informações e Indicadores Culturais, consolida dados cadastrais, estatísticos e documentais, já disponíveis, para assim elaborar resultados que destacam as diferentes faces da cultura brasileira, pelo lado da produção, do consumo, do emprego, dos gastos das famílias e do governo, bem como informações sobre a população ocupada. Ao cruzar as fontes, chegou-se a um painel inédito, cujo principal objetivo foi sistematizar informações para a construção de indicadores realistas do setor cultural.

A concepção de cultura adotada no estudo é ampla, relacionada às atividades econômicas geradoras de bens e serviços, e adota como referência a definição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) sobre o setor. O órgão da ONU entende a cultura como a soma das atividades relativas “à criação, produção e comercialização de conteúdos que são intangíveis e culturais em sua natureza. Esses conteúdos estão protegidos pelo direito autoral e podem tomar a forma de bens e serviços. São indústrias em trabalho e conhecimento, e que estimulam a criatividade e incentivam a inovação dos processos de produção e comercialização”.

O Sistema de Informações e Indicadores Culturais fornece a análise dos resultados dos principais indicadores econômicos da área e apresenta também um conjunto de tabelas e gráficos com informações sobre o número de empresas, pessoal, salários e outras remunerações, salário médio, custo do trabalho, receita líquida e valor adicionado. Contabiliza também os gastos das famílias e da administração pública com cultura e sintetiza as características da população ocupada em atividades relacionadas ao setor.

A pesquisa classifica ainda as ações culturais em setores. Um dos grupos de atividades reúne o patrimônio, artes performáticas, artes visuais, edição e impressão, audiovisual e mídia interativa, design e serviços criativos. Outro segmento congrega ações nas áreas de educação, patrimônio imaterial, preservação e arquivo, equipamento e material de suporte. E, por fim, estão atividades que se relacionam à cultura por meio do turismo e do esporte.

Primeira etapa

A motivação para realização do estudo surgiu em 2003, ainda na gestão do então ministro Gilberto Gil. Incomodava a ele a falta de parâmetros para calcular a participação das atividades culturais no Produto Interno Bruto (PIB) do país. Na América do Sul, Chile, Colômbia e Uruguai já conhecem seus índices, que são utilizados como subsídios para definição da política cultural.

O Brasil ainda vai ter que esperar um pouco para saber ao certo esse dado, tendo em vista que o estudo atual é apenas uma das etapas para se chegar à informação desejada pelo ex-ministro. “O que estamos fazendo agora é medir a dimensão socioeconômica da cultura. É um estudo novo e um passo inicial para desenvolvermos outras pesquisas. Partimos de um patamar em que não tínhamos nada”, afirma Cristina Lins, coordenadora técnica do Sistema de Informações e Indicadores Culturais.

Principais dados da pesquisa

» Os trabalhadores da área recebem, em média, 4,2 salários mínimos, acima da média geral do trabalhador brasileiro, que é de 3,2. Dados de 2010.

» O setor de serviços foi responsável pelo pagamento de mais de 71,6% dos salários das atividades culturais.

» O número de empresas e organizações atuando no setor passou de 370 mil (2007) para 400 mil (2010). O crescimento foi de 8,1%, aquém do desempenho nacional. As demais empresas brasileiras cresceram 16%.

» As empresas que mais impactam na atividade cultural são as da área da informação e comunicação. Nesse grupo estão as editoras, atividades cinematográficas, de rádio e televisão, e serviços de tecnologia.

» Os gastos governamentais com a cultura nas três esferas – federal, estadual e municipal –, saltaram de R$ 4,4 bilhões (2007) para R$ 7,3 bilhões (2010). Eles totalizam 0,3 % das despesas consolidadas na administração pública.

» O governo federal ampliou o volume de gastos na área de R$ 824,4 milhões (2007) para R$ 1,5 bi (2010). Os dados se referem apenas às despesas orçamentárias e não incluem a Lei Rouanet.

» As famílias gastaram em média, por mês, em produtos e serviços relacionados à cultura, no período de 2008 a 2009, em torno de 5% do total de despesas.

» Houve redução da população ocupada na cultura. Em 2007, eram 4,2 milhões e o número caiu, em 2012, para 3,7 milhões de trabalhadores vinculados a ocupações e atividades. A queda coincide com a crise de 2009, provocada pela turbulência internacional dos mercados.

» A redução de pessoas ocupadas caiu em quase todo o país. A maior diminuição foi no Ceará: de 6,4 % para 4%. Em Minas, saiu de 4,4% para 3,4%. Em São Paulo, era 6,2% e chegou em 5,1%.

» Existe um predomínio de trabalhadores do sexo masculino na área. De 2007 para 2012, houve aumento da participação de 51,5% para 53%. Já em relação às mulheres, a queda foi de 48,5% para 47% no mesmo período.

» O número de trabalhadores com carteira assinada ampliou. Saiu de 34,4% para 39,8% de 2007 para 2012. Com isso, houve aumento da contribuição da arrecadação da Previdência Social de 46,3% para 55,8%, refletindo a profissionalização do setor. A informalidade, no entanto, ainda é alta.

» O estudo cruzou dados do Cadastro Central de Empresas (Cempre), da Pesquisa Industrial Anual-Empresa (PIA Empresa), da Pesquisa Anual de Comércio (PAC), da Pesquisa Anual de Serviços (PAS) e dos gastos públicos com a cultura. Ainda serviram de base a Pesquisa de Orçamentos Familiares (de 2008 a 2009) e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (de 2007 a 2012).

Opinião dos gestores

Saber para mudar

“Sem conhecer a realidade é impossível realizar intervenções sobre ela. Está fadado ao erro. As questões analíticas ou assembleias públicas são fundamentais para se conhecer a realidade para, enfim, propor as políticas públicas. Preocupa-me o dado que mostra a profissionalização do setor. Em nossos editais públicos em BH, cerca de 80% dos inscritos são pessoas físicas, o que mostra uma dificuldade da classe artística de formalização das suas ações. A situação acarreta problemas, pois diminuiriam-se os ganhos em razão dos altos impostos para as pessoas físicas. Conhecer a realidade é importante para que possamos propor ações primordiais.”
. Leônidas Oliveira é presidente da Fundação Municipal de Cultura de BH

Economia criativa

“A sistematização de informações sobre a importante e crescente economia advinda do setor cultural no país é imprescindível para a consolidação de políticas públicas culturais mais efetivas e assertivas. O Governo de Minas dedica especial atenção às questões da economia criativa, em suas diversas pastas. Na Secretaria de Cultura, vivenciamos, diariamente, a criação de valor por meio da riqueza e diversidade cultural mineira. A pesquisa vem se somar aos nossos esforços para crescimento das macrorregiões de nosso estado.”
. Eliane Parreiras é secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais

Saiba mais


O estudo completo está disponível no link:
 http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/indic_culturais/2010/default.shtm

 Informações: 0800 721 8181.

ARNALDO VIANA » Bem-te-vi‏

Estado de Minas: 19/10/2013


 (Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

O bem-te-vi sai dos galhos da pata-de-vaca florida, na Avenida Getúlio Vargas, no Bairro Funcionários, e dá um voo rasante sobre a boina preta. Emite um som de alerta, como se fosse um grito de guerra. Volteia e dá outro rasante. Podem dizer que rasante é propício quando é rente ao chão. Mas é aplicável ao caso. O pássaro volta para a galhada e fica lá, vigilante, numa pose, digamos, de inocente arrogância. Dono do pedaço. Vem à mente Os pássaros, filme de Alfred Hitchcock que conta a revolta dos penosos e os ataques a moradores e visitantes de Bodega Bay, balneário californiano.

Ao contrário dos corvos, gaivotas e representantes de outras espécies de pássaros e aves astros da obra do mestre do suspense, o indivíduo da Avenida Getúlio Vargas não estava iniciando uma insurgência contra a controversa raça humana. O bem-te-vi bem faz por merecer desconfiança. É mal-humorado e contra tudo e todos em defesa do seu território. Está aniquilando a população de pardais de BH. E não trava uma guerra limpa, de homem para homem. Não. Vai ao ninho do pardal e o destrói, depois de matar os filhotes. Mina o inimigo pela raiz. Essa agressividade é característica da família dos tiranídeos, à qual pertence.

Imaginou-se ainda que a boina preta fê-lo lembrar-se de outro inimigo, bem mais perigoso para os passarinhos. É o mico. O pequeno primata vagueia pelas árvores caçando os ninhos dos pássaros. Delicia-se com os ovos. Tarde dessas, pelo menos seis bem-te-vis perseguiam um mico, que fugia agarrado aos fios de telefonia da Rua Gonçalves Dias. Parecia apavorado. Tentava se refugiar entre os galhos de árvores, mas era pior. Só conseguiu se salvar quando achou uma marquise. Encostado na parede do prédio, ficou imune aos voos rasantes e livre das bicadas.

Na Avenida Getúlio Vargas não havia início de revolta. O ataque à boina não tinha nada de confusão com mico. Era apenas um casal de bem-te-vis desesperado, aflito. O filhote saiu do alto de uma paineira vizinha à pata-de-vaca, ciente de que alçaria voo pela primeira vez. A mãe, cansada de alimentá-lo e disposta a seguir o ciclo da espécie, o estimulava. O coitado não estava pronto e caiu sobre a grama do canteiro central da avenida. Estufava o peito, tentava abrir as asas e não conseguia o suficiente para voar. Estava ali, supostamente, sozinho, indefeso.

Indefeso nada. Os pais estavam no alto, vigilantes. Quem passasse sob a árvore era atacado. A mãe bem-te-vi parecia dizer: “Não toquem no meu bebê”. Ao lado, em duas pistas, a vida urbana seguia entre buzinas, aceleradas, freadas e impropérios de motoristas e motoqueiros insatisfeitos com a pressa bloqueada pelo tráfego intenso e insano. E o menino bem-te-vi tentando voar para longe dali.

Em tempo: Por falar em bem-te-vi, vem à mente a cantoria do sabiá-laranjeira nas árvores de São Paulo. Moradores estão se mobilizando para expulsá-lo da cidade. Cantar na rua não pode. Nem sabiá nem gente. Nos tempos do governo militar, jovens se reuniam no meio-fio, ligavam uma radiola a pilha para ouvir Beatles, Rolling Stones, Credence e dançar. Rapazes passavam a mão em um violão e iam para a esquina fazer serenata para as moças. Hoje não pode. Dá multa. As leis da democracia são mais rigorosas que os guardas da esquina na ditadura. Sabia disso, Confraria São Gonçalo?

Arranhou? Use tinta autocicatrizante‏

Arranhou? Use tinta autocicatrizante 


Inaugurado no Paraná o primeiro Instituto Senai de Inovação do Brasil. Até 2015, país deverá ter 25 unidades em 14 estados. Objetivo é incentivar pesquisas que gerem soluções para a indústria 

Augusto Pio

Estado de Minas: 19/10/2013


Luiz Carlos Ferracin faz testes no laboratório de eletroquímica,   em Curitiba (Gelson Bampi/Laboratório ISI/Divulgacão )
Luiz Carlos Ferracin faz testes no laboratório de eletroquímica, em Curitiba


Uma unidade recém-inagurada do Sistema da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) – o Instituto Senai de Inovação (ISI-PR), o primeiro do Brasil – já nasce com as pesquisas em alta. Uma delas chama a atenção: é uma tinta "autocicatrizante", inédita no país por usar nanocápsulas contendo tinta e um catalisador, liberadas apenas quando a pintura do objeto é riscada. De acordo com os pesquisadores envolvidos no trabalho, a recuperação pode alcançar até 75% dos danos. A nova tecnologia permitirá que a pintura de carros, eletrodomésticos e até móveis se autorregenere quando riscada, bastando uma aplicação da tinta. A tecnologia libera uma tinta internamente e, depois de alguns segundos após riscado, o objeto estará novamente como antes, sem o risco, que desaparece rapidamente.

Luiz Carlos Ferracin, coordenador do laboratório de pesquisa do ISI-PR, explica que são tintas que, de forma autônoma, fazem a reparação de fissuras em pinturas e superfícies, com potencial de aumentar significativamente a longevidade dos materiais. “Quando há um risco, microcápsulas, contendo pigmentos, são liberadas de dentro da pintura, reparando-a imediatamente. Algumas montadoras estrangeiras, como a japonesa Nissan, já fazem uso dessa tecnologia em carros de luxo, desde 2005. No exterior já há uma tinta com comportamento similar à que estamos pesquisando”. Ele diz que o estudo encabeçado pela equipe do ISI-PR está em fase inicial e que o projeto terá a duração de 20 meses.

Ferracin esclarece que esse sistema de "autocicatrização” inclui material contendo partículas sólidas e nanocápsulas com a tinta incorporada numa matriz epóxi. “Quando uma fenda ou risco se propaga por meio do material,  rompe as microcápsulas contidas na tinta, que liberam pigmentos para dentro do plano da fenda. A tinta, em seguida, misturada ao catalisador, é submetida à polimerização e ‘cura’, para assegurar a continuidade estrutural do local onde ocorreu inicialmente a fenda”. Luiz Carlos salienta que a eficácia da tinta pode chegar até a 75% de reparação. “Não há nenhum perigo de ocorrerem manchas, pois os componentes serão os mesmos da tinta aplicada. Agora, é importante esclarecer que a tinta original deve ter base epóxi, onde as nanocápsulas são adicionadas aos pigmentos normais”, esclarece Ferracin.

O pesquisador acredita que a tinta pesquisada pelo ISI-PR deverá estar disponível no mercado em dois ou três anos. “Tudo dependerá, em parte, de a indústria montadora se adequar e inserir a tinta em sua linha de produção. Falta apenas a aprovação do projeto pelos órgãos de fomento, mas as solicitações já foram feitas e o projeto começa a ser desenvolvido em março de 2014. Quanto ao preço da tinta, esse levantamento de custo deverá ser feito pelas montadoras, mas o que se vê em mercados europeus é que, financeiramente, o valor é viável somente em carros de luxo. Portanto, tudo dependerá do desenvolvimento e inovação para obtermos um comportamento similar, com baixo custo. A rede de laboratórios permitirá que o conhecimento de testes e serviços de alto valor agregado fiquem no Brasil. As nanocápsulas contendo pigmento e catalisador serão misturadas à tinta normal”, ressalta o pesquisador. 

A tinta deverá ser aplicada pelas montadoras sem nenhuma alteração no processo de pintura hoje adotado. “O processo demora de duas horas a uma semana, dependendo das condições climáticas às quais a pintura está submetida”. Além de Luiz Carlos, integram o laboratório os pesquisadores Marcos Antonio Coelho Berton, Paulo Roberto Dantas Marangoni e Nerio Vicente Junior, todos do Instituto Senai de Inovação de Eletroquímica, no Paraná.

No caso do ISI-PR, seu foco é em eletroquímica, com o objetivo de fortalecer a competitividade e a produtividade nos segmentos petroquímico, mineral, metal-mecânico, cosméticos, energia e construção civil. 

O ISI-PR foi inaugurado durante a realização do 1º Seminário Internacional de Inovação Industrial em Eletroquímica. Nesta primeira fase, o ISI-PR terá 300 metros quadrados (m2)de laboratórios e investimentos de R$ 8 milhões. Até 2015, a infraestrutura deverá ser ampliada, com um novo edifício de 10 mil m2, orçado em mais de R$ 50 milhões.


Soluções práticas

O primeiro Instituto Senai de Inovação (ISI) do país foi inaugurado em 17 de setembro, em Curitiba (PR). Até o final de 2014, serão inaugurados 25 ISIs em 14 estados. Com equipamentos exclusivos, os
ISIs oferecerão soluções inéditas, ou que até então eram importadas pelas empresas, quando necessárias. Além dos
25 ISIs, o Senai deverá inaugurar 63 institutos de tecnologia no país, totalizando R$ 1,9 bilhão em investimentos – sendo que
R$ 1,5 bilhão são recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes). Os ISIs estão sendo estruturados a partir de parcerias estratégicas com o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e o Instituto Fraunhofer, da Alemanha. As estruturas servirão para
atender demandas específicas de empresas e indústrias de pequeno, médio e grande portes. 

Mulheres e a economia

Elas já são responsáveis por 85% das decisões econômicas em casa e, segundo o IBGE, 37% das brasileiras são chefes de família


Eduardo Ferreira

Doutor em administração de empresas,
superintendente do Itaú Unibanco

Frederico Celentano
Mestre em ciências políticas, psicanalista, consultor
especializado em comportamento financeiro

Estado de Minas: 19/10/2013



São cada vez mais frequentes iniciativas de apoio ao empreendedorismo feminino no mundo todo. Organizações multilaterais, órgãos de fomento, governos e instituições financeiras demonstram engajamento e apoio a um movimento que cresce exponencialmente dia após dia e que mostra sinais claros do quão acertado é este caminho.

Não é para menos. As mulheres sempre ocuparam papel fundamental nas famílias e hoje buscam, também, ainda mais sucesso profissional. Elas já são responsáveis por 85% das decisões econômicas das famílias e, segundo o IBGE, 37% das brasileiras são chefes de família. Emancipadas e totalmente integradas ao mercado de trabalho, elas têm grande poder econômico. No Brasil, elas representam uma massa de renda de R$ 1,1 trilhão, maior do que a de toda a classe C, e somam aproximadamente 13 milhões de mulheres à frente de empresas – equivalente a 49% dos empreendedores no país.

Pesquisa qualitativa inédita realizada pelo Itaú Unibanco dentro do projeto Women Entrepreneurship Banking (WEB), com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ajuda a compreender as aspirações, esperanças, angústias e desafios que as mulheres empreendedoras encaram no Brasil. O trabalho aponta a existência de um conjunto de conflitos que podem ser resumidos numa oposição entre o “velho” e o “novo” papel da mulher e do homem na sociedade.

Um dos aspectos destacados nesse trabalho mostra que há um conflito entre razão e emoção para as empreendedoras, já que se espera delas empatia, compreensão e acolhimento, ao passo que de um “chefe de empresa” espera-se a liderança por hierarquia e relações impessoais. No entanto, as mulheres estão revolucionando os ambientes de trabalho porque lidam com essa oposição, afirmando sua identidade, trazendo paixão para o negócio, que tem que ser “a cara delas” e com “o jeito delas”.

Outro fator importante desse estilo de gestão feminina constatado pela pesquisa está no uso de atributos intuitivos, como o conhecimento e a percepção, e na constituição de redes informais, de amigos, parentes e fornecedores, pelas quais adquirem o conhecimento necessário sobre o mercado e sobre novas técnicas de gestão ou de produção.

Todas essas características, muito ligadas aos anacronismos das velhas referências, vêm se manifestar na gestão das empresas. Resultam em tendências de uma gestão participativa em contraposição às exigências de uma liderança mais vertical para a tomada de decisões. Tendem a organizar e a cuidar do negócio, mas com um olhar menos estratégico, levando a uma aversão maior ao risco, demonstrando insegurança nas áreas que não dominam tão bem – em geral, ligadas à organização financeira e contábil —, e têm dificuldades em equilibrar centralização e delegação de responsabilidades.

Ainda que de forma embrionária, as mulheres empreendedoras estão dizendo que precisam de parceiros de negócios e de empresas que proponham serviços que as permitam ocupar um posicionamento na família e no trabalho sem que se sintam sobrecarregadas. Isso inclui tratamento que reconheça as especificidades delas e as apoiem na tomada de decisões que permitam exercer uma liderança positiva e humana, mantendo os controles necessários para o crescimento da empresa. E que precisam de referências propriamente femininas para que tenham mais segurança no que estão fazendo.

O desafio das instituições ao focar nesse público está, portanto, em construir um relacionamento que auxilie as mulheres empreendedoras a articular quatro faces do cotidiano: conquistar espaço em casa e no trabalho; organizar o tempo; equilibrar as vidas profissional, familiar e pessoal; e cuidar de familiares, funcionários e empreendimentos enquanto mantêm uma posição de liderança democrática e positiva. Trata-se de uma realidade que implica necessidade de se criar um novo modelo de relacionamento para essa mulher, que é fundamental para o crescimento sustentável da economia no Brasil e no mundo.