sábado, 2 de novembro de 2013

Páginas da vida - João Paulo

Safra de biografias que chegou recentemente às livrarias demonstra a importância do gênero para vários campos do conhecimento e para a formação cultural do leitor não especializado


João Paulo

Estado de Minas : 02/11/2013






‘‘Que os biógrafos penem e labutem, não vamos facilitar demais para eles.” Quando Sigmund Freud escreveu essa maldição, em 1885, em carta à noiva, ela havia acabado de queimar correspondência e manuscritos que julgava menores ou indignos de sua trajetória até aquele momento, preservando apenas os escritos mais familiares. Freud, que conhecia a alma humana – inclusive a própria –, sabia que escrever uma biografia era tarefa árdua e fadada a enganos. Mas, como bom iluminista, não pensou em nenhum momento em atacar sua importância. Ele mesmo escreveu sobre a vida de seus pacientes, acerca de passagens da infância de Leonardo da Vinci, sobre a relação de Dostoiévski com o pai e sobre algumas obsessões de Shakespeare. Tratava-se sempre de momentos sensíveis das existências de seus biografados.

Pode-se argumentar que nem todo biógrafo é Freud ou que o que ele fazia era ciência. Além disso, não deve ser esquecido que ele mesmo escreveu sua autobiografia (mais que isso, baseou sua teoria em sua própria existência diurna e sonhada) e que incentivou o discípulo Ernst Jones a produzir algo próximo de uma biografia autorizada, em três grandes volumes. Não foi suficiente: a posteridade foi pródiga em biografias de Freud, que se contam às dezenas – apenas entre as muito boas. Os biógrafos devem ter penado, mas fizeram um bom trabalho, do qual até hoje nos beneficiamos.

No entanto, mesmo com todas as reservas, é bom voltar a Freud e ver que, burguês cioso de sua intimidade, em nenhum momento se julgou defeso do interesse de outros homens, seja em seus momentos públicos ou mesmo em segredos de alma. Tentou dificultar a vida de seus biógrafos queimando documentos, mas não passou por sua cabeça o recurso da censura. Na mesma carta, registra com certo humor que, ao pôr fim aos documentos que julgava chinfrins, estava “quase completando um empreendimento que algumas pessoas ainda não nascidas, mas destinadas ao infortúnio, vão sentir seriamente”. Freud sabia (coisa que Roberto Carlos nem desconfia mergulhado em seu narcisismo primário) que ninguém domina a verdade sobre a própria vida.

Em toda a polêmica sobre as biografias, um tema que tem ficado de fora são as próprias biografias, não o gênero, mas o produto em si, o livro que conta a vida de um personagem real. Por que não ir até as biografias para lhes avaliar os méritos e riscos? O gênero está bem das pernas, tem produzido excelentes trabalhos, informado muitos leitores e aberto portas para outros formatos de estudos, sejam eles históricos, literários ou científicos. As biografias, em sua articulação do geral e do particular, em sua capacidade de desenhar o contexto e mergulhar no indivíduo, são um instrumento privilegiado de acesso ao sujeito e à sociedade. Além disso, a grande tradição das biografias literárias e históricas ganhou muito com a chegada do método jornalístico, com sua obsessão pelo fato e pela apuração exaustiva. Não se pode esquecer também que esse tipo de estudo tem sido por muito tempo um modelo de acesso ao conhecimento por quem não é especialista em algum campo do saber. Quantas vocações científicas foram despertadas pelas biografias de Darwin e Einstein?

Sem esticar ainda mais a falsa diatribe entre direito à liberdade de expressão e direito à intimidade, é bom lembrar apenas um preceito lógico que defende que, em caso de pares aparentemente contraditórios, a solução possível para ambos convivam e sejam exercidos em sua integridade é dar precedência ao que não anula o outro, permitindo que as ações a posteriori corrijam os equívocos de origem. Assim, quando se parte da preservação do direito à intimidade antes do direito à liberdade de expressão, este ficou prejudicado e não poderá ser exercido. No caso inverso, a liberdade de manifestação de pensamento pode até ferir a privacidade, mas esta pode ser retomada em função de correções legais pertinentes.

Assim, há dois caminhos que devem pautar os debates na vida prática: o bom senso que previne os enganos (que só é conquistado na prática, não no silêncio) e os mecanismos de controle e ressarcimento dos erros de fato (que aponta para instrumentos legais e para mecanismos institucionais que tornem a Justiça mais rápida e eficaz, com indenizações mais significativas). Entre duas verdades, deve-se ficar com as duas. A grande questão não é filosófica, mas processual. Isso, é claro, se se trata a questão como um problema ético (em que os dois lados têm razão) e não uma questão de mercado. Se o problema é dinheiro, a questão sai do terreno da ética para adentrar no campo das conveniências. Pelo nível dos contendores – com as exceções notáveis –, até prova em contrário, ainda não chegamos lá.

A equação é simples: uma cultura de biografias gera um mercado mais responsável, editores mais zelosos e biógrafos mais equilibrados. Por outro lado, cria um aparato jurídico mais eficiente, justo e célere. Como em todo setor, a liberdade é instrumento de aprimoramento e as restrições apenas reforçam a regressão e a desconfiança.

Por fim, há uma questão social relevante. As biografias não miram apenas artistas – que hoje se agrupam em defesa do direito da intimidade e parecem se julgar os mais interessantes tipos humanos sobre a Terra –, mas todas as pessoas, como políticos, filósofos, cientistas, esportistas, ladrões, celebridades, generais, ditadores, empresários, escritores, revolucionários, entre outros. O que, legalmente, valer para um, vale para todos, como é próprio da impessoalidade da lei. Portanto, sob o argumento de dar ao biografado ou à sua família o direito de veto de conteúdos, a sociedade não fica apenas sem informações banais ou íntimas, como por exemplo sobre a vida sexual de seus personagens, mas sem a substância histórica inegociável – inclusive acerca de situações que precisam ser denunciadas.
 
Revoluções O melhor argumento em favor das biografias encontra-se nas livrarias e prateleiras de bibliotecas. Apenas a título de exemplo, seguem algumas indicações de livros lançados nos últimos meses, que merecem ser lidos e refletidos pelo seu valor intrínseco e pelo que simbolizam como forma de ampliação do universo de referências do leitor. Ao ler sobre a vida de Tolstói, Jango, Malcolm X e Zhang Dai, aprendemos sobre a Rússia do século 19, sobre a política brasileira e o tabu em torno da morte suspeita de um presidente, sobre a resistência dos negros americanos e sua luta pelos direitos humanos no país, e acerca da dinastia Ming na China clássica do século 17.

Sobre a vida de Tolstói foram lançados nos últimos meses no Brasil dois livros importantes. O primeiro é Tolstói – A biografia, de Rosamund Bratlett (Biblioteca Azul, 640 páginas, R$ 69,90), um trabalho soberbo, que articula a vida e obra do escritor russo. A autora retrata a infância do romancista numa família aristocrática, a juventude impulsiva e o início de sua vida literária. A obra estuda ainda a concepção dos grandes romances, como Guerra e paz e Anna Kariênina, além de mostrar a estreita vinculação com a sociedade russa, da qual se tornaria a figura arquetípica. O livro trata ainda das ideias sociais e religiosas de Tolstói e de como elas, mais que construções ideológicas, ganharam carne em sua vida e se tornaram modelo para o mundo.

Outra excelente biografia sobre Tolstói recém-lançada no Brasil é Tolstói – A fuga do paraíso, de Pável Bassinski (Editora Leya, 480 páginas, R$ 59,90). Nesse caso, o autor partiu dos 10 últimos dias do escritor, depois que ele, aos 82 anos, em 1910, abandona suas propriedades e a família e parte em busca de sua verdade derradeira. Uma atitude tolstoiana, de fuga disparada por uma crise espiritual, que leva o homem, já combalido pela existência de dissipações, a sair para conquista de uma nova vida, mais pura e consciente. O biógrafo, no entanto, não faz uma leitura literária do gesto de Tolstói, construindo sua obra com cuidadosa pesquisa em cartas e diários do escritor e de seus seguidores na viagem final. Curiosamente, o próprio escritor se dava conta da dimensão pública de sua vida, não fazendo questão de esconder de ninguém suas ambiguidades às portas da morte. Um gigante até o último momento, capaz de viver e morrer como um homem que não teme o juízo de outros homens, já que prestava contas apenas a si mesmo.

Teria sido Jango assassinado? Jango – A vida e a morte no exílio, de Juremir Machado da Silva (Editora L&PM, 372 páginas), é outra biografia de “últimos dias”, marcada por muito mistério e capacidade de derrubar mitos. O autor, que já havia publicado uma biografia romanceada de Getúlio Vargas (Getúlio), retorna à política nacional numa investigação eletrizante sobre a vida no exílio e a morte de Jango. O presidente deposto em 1964 morreu na Argentina, com saudades do Brasil, e em circunstâncias que ainda hoje geram dúvidas. Juremir vai atrás de milhares de documentos e dos arquivos de dois personagens uruguaios, Foch Diaz e Neira Barreto, que lançaram dúvidas sobre a morte natural do ex-presidente e revelaram um complô para matá-lo. Uma investigação que se lê como um romance policial, mas que deixa o travo da verdade ainda a ser revelada à nação.

Prêmio Pulitzer de 2012, a biografia Malcolm X – Uma vida de reinvenções, de Manning Marable (Editora Companhia das Letras, 650 páginas), acompanha as metamorfoses vividas por Malcolm Little até assumir o papel de porta-voz da revolta dos descendentes de escravos no país mais rico do mundo. O historiador americano, com elegância e erudição, segue de perto o homem que foi chamado de Homeboy, Jack Carlton, Detroit Red, Big Red e Satan, até assumir a identidade islâmica como Malachi Shabazz, Malik Shabazz e El-Hajj Malik. A ligação com os movimentos de esquerda, o ativismo político e encontro definitivo com o Islã não passam por cima das dificuldades da vida de Malcom X, que o levaram a agir como ladrão, explorador de prostitutas e viciado em drogas. Uma aula de história americana contemporânea a contrapelo, mostrando o avesso de uma sociedade e a força moral de um homem capaz de se reinventar para se tornar um gigante na luta pelos direitos humanos.

O Ocidente tem o hábito de virar as costas para o Oriente. Por isso, de tempos em tempos, é surpreendido por uma cultura antiga, rica e sofisticada, que sua ignorância voluntária ajudava a esconder. Ou então, como ocorre hoje em dia, se assusta com a força econômica capaz de mudar todas as certezas dos autodenominados países do capitalismo central. Por isso é tão rica a leitura de O retorno à Montanha do Dragão, de Jonathan Spence (Editora Record, 280 páginas, R$ 40). Especialista na cultura chinesa, Spence escolhe como personagem o escritor e historiador Zhang Dai, um dos mais importantes nomes da Dinastia Ming, nascido em 1597. Há mais de 200 anos no poder, sua dinastia, marcada pela estabilidade econômica e força cultural, começava o processo inevitável de decadência, que se completa com a invasão dos manchus, em 1644. O aristocrata Zhang Dai, depois de perder a fortuna, passa a registrar sua vida, reconstruindo o que seu país via submergir com as mudanças. São esses escritos a base do trabalho de Spence. O leitor, além de aprender sobre uma cultura sofisticada, passa a compreender o sentido da mudança na China do século 17 e o papel das transformações numa escala de tempo que vai além das ideologias.

O que os adeptos do Procure Saber precisam saber é aquilo que Freud explica. Não somos os melhores juízes de nossos atos nem os melhores narradores de nossa história. O outro nome para esse reconhecimento pode ser chamado simplesmente de humildade.

Rubens Goyatá Campante-Terceirização e direitos sociais‏

Tramita no Congresso projeto que modifica profundamente as regras de contratação de mão de obra no país. Na contramão dos protestos de junho, a proposta ameaça o emprego do brasileiro


Rubens Goyatá Campante

Estado de Minas: 02/11/2013 






O seu emprego corre perigo. Tramita no Congresso Nacional uma proposta que traz séria ameaça aos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários de milhões de brasileiros. O Projeto de Lei nº 4.330-A, apresentado em 2004 pelo deputado Sandro Mabel (PMDB-GO), permite ampliar as hipóteses de terceirização do trabalho para todos os segmentos econômicos – públicos e privados – e para todas as atividades das empresas e órgãos públicos, tornando regra o que era exceção no ordenamento jurídico brasileiro. A proposta se encontra na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Se aprovada, será posta em votação na casa. Já foi requerido regime de urgência para sua tramitação.

A terceirização permite que o empregador, público ou privado, beneficie-se do labor de funcionários sem vínculo empregatício formal com ele, mas com uma empresa fornecedora de mão de obra. Há situações específicas em que ela é permitida no Brasil: na contratação por empresa de trabalho temporário; de prestadores de serviços de vigilância, conservação e limpeza; e de trabalhadores que prestam serviços nas chamadas atividades-meio – e não nas atividades-fim.

Atividade-fim é aquela diretamente ligada ao objeto social da empresa. Já a atividade-meio auxilia a consecução desse objeto social. Assim, uma escola particular, cujo objetivo e fonte de lucro são a prestação de ensino, não pode contratar professores terceirizados, mas isso é permitido em relação ao vigia, a faxineiros, secretários, etc.

Se aprovado, o PL 4.330 permitirá que o empregador utilize o labor terceirizado em todas as atividades da empresa. Ou seja, a escola poderia dispor não só de vigias, faxineiros e secretários terceirizados, mas também dos próprios professores, caso julgasse conveniente. Boa parte dos empresários julga a terceirização conveniente. Afinal, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a média salarial dos terceirizados no Brasil é 27,1% inferior à dos trabalhadores com vínculo direto de emprego. Sua jornada semanal tem três horas a mais que a dos trabalhadores diretos; sua permanência no emprego é de 2,6 anos, enquanto a dos trabalhadores diretos é de 5,8 anos; e, o dado mais perverso de todos: de cada 10 acidentes de trabalho no Brasil, oito ocorrem com funcionários terceirizados.

Não é difícil, portanto, prever o que ocorrerá no Brasil se a terceirização for amplamente liberada. É de tal monta a gravidade da ameaça que o próprio Tribunal Superior do Trabalho (TST) enviou ofício ao presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, assinado por 19 dos 27 ministros. O documento afirma que o PL 4.330, ao permitir a generalização da terceirização para toda a sociedade e a economia, “certamente provocará gravíssima lesão social de direitos sociais trabalhistas e previdenciários no país, com a potencialidade de provocar a migração massiva de milhões de trabalhadores, hoje enquadrados como efetivos de empresas e instituições tomadoras de serviços, em direção a um novo enquadramento como terceirizados, deflagrando impressionante redução de valores, direitos e garantias trabalhistas e sociais”.

Vácuo Defensores do projeto lembram que há um vácuo normativo no país em relação a algo que representa a realidade econômica e social, sendo necessária, portanto, sua regulação. O vácuo normativo existe. A questão crucial da terceirização nas atividades-meio de empresas e instituições não é definida por lei, mas por uma súmula do TST que veda a terceirização nas atividades-fim. Súmulas são orientações jurisprudenciais, que, em nosso ordenamento jurídico, não são impositivas, mas sinalizam que, se o caso for submetido ao Judiciário, fatalmente tribunais superiores o julgarão de acordo com o entendimento que seguem sobre o tema.

Além de ser mencionada por uma súmula do Judiciário, e não por um dispositivo legal que obrigue formalmente os empregadores, a distinção entre o que sejam atividades-meio e atividades-fim das empresas e instituições é nebulosa e controversa. É justamente nas brechas dessa indefinição e desse vazio legal que a terceirização tem se expandido no Brasil, trazendo, via de regra, a precarização dos direitos sociais e trabalhistas.

Mesmo quando a terceirização é amparada por leis específicas, caso dos serviços temporários e de vigilância, limpeza e conservação, tal precarização também ocorre. E não só porque esses setores são formados por trabalhadores de condição social vulnerável, mas pela forma como se efetivam os contratos de terceirização. Na administração pública, cada vez mais premida por imperativos de contenção e rígido controle de gastos, tais contratos são, muitas vezes, definidos somente pelo parâmetro do menor preço proposto pelas fornecedoras de mão de obra, sem se levar em conta sua capacidade técnica de adimplir os serviços contratados e sua idoneidade moral.

Vencendo as licitações pelo menor preço, às vezes até com preços inexequíveis, fornecedoras de mão de obra garantem seu lucro com o menor gasto possível com funcionários. Isso, quando não fecham as portas e desaparecem, deixando centenas de trabalhadores sem seus direitos. O próprio Judiciário trabalhista conta com milhares de terceirizados nas atividades de limpeza, vigilância e conservação. Em 2011, cerca de 300 funcionários da copa e limpeza do Palácio do Planalto enfrentaram meses de dificuldades para receber verbas de sua rescisão quando a contratante deixou de atuar junto à Presidência da República.

Capitalismo Assim, também é fato incontroverso que a terceirização é uma realidade econômica e social, triste realidade para os trabalhadores. O discurso liberal a apresenta como algo inevitável, fruto de inescapáveis tendências de desenvolvimento tecnológico e de métodos mais modernos e eficazes de gestão institucional e empresarial. Na verdade, a terceirização, enquanto inegável desorganização do mercado de trabalho e derruimento dos patamares mínimos de direitos dos trabalhadores, é fruto de escolhas macropolíticas, tomadas ao nível dos principais centros de poder do capitalismo internacional.

A principal questão foi a maneira como os Estados Unidos reafirmaram sua hegemonia mundial a partir da década de 1980, ameaçada pela crise energética dos anos 1970 e, principalmente, pelo imenso déficit interno no balanço de pagamentos, gerado por gastos militares excessivos com a corrida armamentista da Guerra Fria e pela política fiscal ultraliberal que se recusou a taxar o grande capital e a propriedade.

Os ajustes macroeconômicos empreendidos pelos EUA para fazer frente a essas ameaças, por meio de flutuações das taxas de câmbio e juros, trouxeram a expansão descontrolada do sistema financeiro privado internacional. O sistema econômico internacional, definido em Bretton Woods depois da 2ª Guerra Mundial, pretendia a “domesticação” do sistema financeiro e sua submissão aos interesses da produção e do comércio: o capital financeiro era importante, mas não essencial, sua função seria incrementar a produção e o comércio. Essa hegemonia da produção e do comércio estava umbilicalmente ligada à assunção, pelo Estado, da função de promover, dentro do capitalismo avançado, o bem-estar e a regulação da sociedade civil – algo que o mercado, por si, não cumpre. Os corolários dessas políticas de bem-estar eram o crescimento econômico e a busca do pleno emprego, tido como direito do cidadão – para tanto, o câmbio controlado e os juros baixos eram cruciais.

A questão é que os EUA nunca aderiram plenamente a esse esquema, e a “domesticação” do sistema financeiro foi sendo solapada desde a década de 1970, até se acabar de vez nos anos 1980. Com os bancos hegemônicos e os juros nas alturas, as condições de financiamento dos Estados ficaram dramáticas, agravadas pela evasão tributária estimulada por paraísos fiscais – que concentram hoje, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), metade do fluxo financeiro internacional, numa combinação perversa de evasão fiscal das grandes empresas e de dinheiro da criminalidade. O setor produtivo foi afetado pelo aumento da competitividade internacional e pela prevalência da renda financeira sobre a produtiva. A resposta foi a transformação gerencial e tecnológica na qual a desestruturação trazida por fenômenos como a terceirização se insere.

Equidade Seria inevitável, então, que as empresas, sob o peso da competitividade e da pressão financeira, aderissem a uma reestruturação produtiva que fatalmente corta postos e direitos trabalhistas? Não. É possível, sim, que a modernização produtiva e tecnológica da economia se mantenha compatível com padrões de equidade distributiva na sociedade. Alemanha, Coreia e Japão (de onde, aliás, saiu o toyotismo, modelo produtivo alternativo ao fordismo/taylorismo típico do Estado de bem-estar, sem que isso acarretasse desequilíbrios sociais como em outras partes) são países em que a presença de políticas financeiras e econômicas determinadas a partir da integração e negociação, dentro do aparelho do Estado, de bancos, grandes empresas e sindicatos, tem logrado tal compatibilização. São países de capitalismo organizado e não de capitalismo selvagem, como o Brasil.

A consequência da aprovação de um projeto como o PL 4.330 será o aprofundamento do capitalismo selvagem. Se é necessário, realmente, regular a terceirização, é para estabelecer-lhe limites mais estritos e não para transformá-la em regra. Mas tudo indica que liberá-la completamente é o objetivo de boa parte do grande capital, que, como tal, tem grande disponibilidade para financiar campanhas políticas e, assim, garantir apoio parlamentar seguro a seus interesses.

O PL 4.330 vem tramitando sob parca divulgação da grande mídia, malgrado seu potencial de impacto na sociedade. Isso num momento em que a velha e mal resolvida questão dos direitos sociais, da desigualdade social e da insatisfação que ela gera foi dramaticamente colocada em pauta pelas recentes manifestações de protesto em todo o país. Ou seja, apesar de você ter ido às ruas protestar por melhores condições de vida, o seu emprego corre perigo, e muita gente não quer que você saiba disso.

Rubens Goyatá Campante é doutor em sociologia e pesquisador do Núcleo de Pesquisas do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT/MG)

Gilda Vaz Rodrigues-Real, simbólico e imaginário‏

Seminário do psicanalista francês Jacques Lacan, ainda inédito em português, reflete sobre os três registros que constituem a estrutura do inconsciente


Gilda Vaz Rodrigues

Estado de Minas: 02/11/2013 



Para o francês Jacques Lacan, o trabalho do psicanalista pode ser comparado ao do cirurgião, com seus cortes e suturas   (L%u2019Arc/Reprodução)
Para o francês Jacques Lacan, o trabalho do psicanalista pode ser comparado ao do cirurgião, com seus cortes e suturas

O livro Cortes e suturas na operação psicanalítica – Uma leitura do ‘Seminário R.S.I., Livro 22 de Jacques Lacan’ é uma leitura comentada sobre um dos seminários do psicanalista francês Jacques Lacan, que ainda não foi editado em português, mas ao qual se tem acesso por várias vias, inclusive pela internet. Embora seja um livro teórico, não se trata de um escrito acadêmico, e sim psicanalítico.

R.S.I. é uma sigla para dizer dos três registros que constituem a estrutura do sujeito do inconsciente: imaginário, simbólico e real. Lacan formaliza essa estrutura com a ajuda da topologia, pois se trata de um campo além da linguagem, em que a matemática oferece instrumentos mais de acordo para abordá-lo.

Durante algum tempo a psicanálise ficou conhecida como um tratamento longo, caro e de resultados pouco evidentes, ou seja, de efeitos sutis.

A meu ver, isto foi apenas uma primeira impressão, apressada, de um tratamento que floresceu no século 20 e que foi se firmando aos poucos, à medida que avançava teoricamente e demonstrava sua eficácia. A psicanálise, como a vejo hoje, é mais do que um tratamento para distúrbios emocionais: ela vai se firmando como um operador da constituição de um novo sujeito que advém como efeito desse trabalho. Quando digo um novo sujeito, quero dizer de uma nova posição de cada um nos laços que se faz com os objetos deste mundo.

A psicanálise trata essas relações como laços de discurso, uma vez que o ser humano é um ser de linguagem e o campo do psíquico se estrutura como tal. Daí ser preciso pôr as pessoas a falarem, a dizerem o que lhes vem à cabeça, num trabalho que ficou conhecido como associação livre, termo freudiano para definir o processo que coloca o inconsciente em cena.

Freud nos deixou muitas referências sobre sua técnica e o manejo para extrair dessas falas os elementos do inconsciente que detém cada um de nós no acesso a essa outra posição nas relações com o mundo, incluindo aí não só as pessoas, como também o trabalho, as ideias, sentimentos, desejos, fantasias, a cultura, enfim, um campo simbólico organizado que Lacan definiu como “o grande Outro”.

Cabe ao psicanalista a escuta desses elementos inconscientes para extrair da fala do analisante o saber do: “em que cada um se amarra”.

Análise e síntese Há uma resposta de Freud à pergunta de um jornalista em Londres, já no fim de sua vida, de que gosto muito e expressa bem esse trabalho: “A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa para fora do labirinto do seu inconsciente”.

Vejam que a ideia de um fio, de amarrar e soltar, de corte e sutura já se insinua.

Tanto Freud como Lacan compararam o trabalho do analista ao do cirurgião, que opera por cortes e suturas, e que, para isso, é preciso reconhecer as estruturas do campo em que se vai operar. Em seu Seminário R.S.I., Lacan faz um estudo dessas estruturas constituídas de três registros: imaginário, simbólico e real.



Gilda Vaz Rodrigues é psicanalista, autora de Percursos na transmissão da psicanálise, primeiro livro da coleção Obras incompletas e A psicanálise pelo avesso – uma leitura do seminário ‘O avesso da psicanálise’ de Jacques Lacan.



CORTES E SUTURAS NA OPERAÇÃO PSICANALÍTICA – Uma leitura do seminário R.S.I
., livro 22 de Jacques Lacan
• De Gilda Vaz Rodrigues
• Editora Ophicina de Arte e Prosa
• Lançamento dia 9, das 10h30 às 13h, na Livraria Ouvidor Savassi, Rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi

Importante e interessante - João Paulo

Livro reúne artigos sobre história do Brasil escritos por especialistas, mas voltados ao leitor não acadêmico. Trabalho faz parte de onda de valorização do conhecimento sobre o passado



João Paulo

Estado de Minas: 02/11/2013 
Um jantar brasileiro, de Debret: a história que vai além dos grandes fatos e entra nas casas para revelar o modo de ser nacional   (Debret/Reprodução)
Um jantar brasileiro, de Debret: a história que vai além dos grandes fatos e entra nas casas para revelar o modo de ser nacional


Num país que sempre foi considerado sem memória, a história está em alta. O interesse pelo conhecimento sobre o passado tem deixado a academia para ganhar as ruas. O que é muito bom, mas exige dos profissionais uma atenção especial ao novo público. Além de filmes, peças de teatro e narrativas ficcionais de fundo histórico, os livros de história começam a conquistar mercado e atenção do leitor. Com isso, ao lado dos profissionais da academia, jornalistas, biógrafos e escritores têm mergulhado no tema, com qualidade cada vez mais notável.

Os historiadores, percebendo o interesse, também se prepararam para atender à demanda vinda da sociedade e passaram a ocupar um território novo, com volumes de história narrativa e artigos em revistas e jornais. Além disso, publicações mais populares dedicadas exclusivamente à história – que são comuns em outros países há décadas – começaram a ser editadas no Brasil e vendidas nas bancas. E é esse cenário que recebe o livro História do Brasil para ocupados: os mais importantes historiadores apresentam de um jeito original os episódios decisivos e personagens fascinantes que fizerem o nosso país. A coletânea é organizada por Luciano Figueiredo, professor associado de história da Universidade Federal Fluminense, estudioso da história de Minas Gerais, sobretudo de temas como mulheres, família e revoltas.

O livro reúne artigos de 66 historiadores de várias universidades brasileiras, que escrevem pequenos ensaios sobre os temas de sua especialidade. Os textos são produzidos sempre de olho no leitor comum, interessado e inteligente, mas não especialista, sem jargão técnico ou querelas metodológicas. Não há notas de pé de página nem aparato acadêmico. O esforço para proporcionar uma leitura fácil é perceptível, mas não cede à simplificação. A organização é temática e não cronológica, o que evita certo risco positivista de compreender a história como uma sucessão progressiva de fases em direção ao presente.

Luciano Figueiredo dividiu o livro em seis partes: “Pátria”, que trata dos pecados de origem do país, sobretudo a violência, que marca as primeiras relações com outros povos e civilizações, como tráfico negreiro, as invasões e as bandeiras; “Fé”, que traz trabalhos sobre as cosmogonias e a religiosidade, inclusive em suas manifestações populares e de resistência; “Poder”, que reúne ensaios sobre a ordem econômica e política nacional. Os demais capítulos são “Povo”, com artigos sobre reis, sexualidade e gente comum; “Guerra”, sobre os principais conflitos nacionais e seus personagens; e “Construtores”, série de perfis de presidentes, escravos, artistas e anônimos que ajudaram a dar cara ao que chamamos hoje de Brasil.

O organizador teve a boa ideia de selecionar textos que propõem sempre um olhar diferente, trazendo lições do passado em diálogo com a sensibilidade contemporânea. Pode ser que algum leitor sinta falta de temas mais canônicos, o que se explica pela intenção de renovar o ambiente dos estudos mais convencionais. Os artigos e pequenos ensaios (entre três e 12 páginas) são sempre autônomos, o que permite uma leitura mais fluida, seguindo o interesse do leitor, como uma coleção de revistas antigas. Aliás, todos os textos foram publicados anteriormente em revistas, com destaque para a Nossa História e Revista de História da Biblioteca Nacional, que foram criadas e dirigidas por Luciano Figueiredo.

Só para dar uma ideia dos temas e autores responsáveis pelo conteúdo de História do Brasil para ocupados, podem ser destacados: “O traficante Chachá”, por Alberto da Costa e Silva; “Candomblé para todos”, de João José Reis; “Exércitos de Cristo”, de Ronaldo Vainfas; “Nos porões do Estado Novo”, por José Murilo de Carvalho; “1964; golpe militar ou civil?”, de Daniel Aarão Reis; ‘1968: um ano-chave”, de Lucília de Almeida Neves Delgado; “O indiscreto ‘Demonão’”, de Mary del Priore, “Santo ofício da homofobia”, de Luiz Mott; “Maurício de Nassau”, de Evaldo Cabral de Mello; “A invenção da MPB”, de João Máximo; e “O herói da floresta”, de Kenneth Maxwell, entre dezenas de outros textos.

Livro que pode se tornar porta de entrada para estudos mais aprofundados, História do Brasil para ocupados só teria a ganhar se, ao fim de cada artigo, trouxesse uma sucinta lista de indicações para quem queira ir adiante. Como os trabalhos são também oriundos de revistas que primam pela qualidade da pesquisa iconográfica, seria igualmente interessante trazer algumas reproduções de imagens que dialogassem com a leitura, ainda que isso apontasse para novo projeto, certamente mais caro para o leitor.

Por fim, em meio a tanta celebração da história (sobretudo em meio à polêmica das biografias no Brasil), com a incorporação de jornalistas, cineastas e escritores no segmento, a melhor notícia que História do Brasil para ocupados traz é a disposição dos historiadores profissionais em ir ao encontro do público. Ao se preocupar em escrever de maneira direta e saborosa, sem deixar de lado o rigor mas atentos às curiosidades, eles estão apresentando um convite que tem tudo para dar certo. Em matéria de conhecimento, os dois lados – a academia e a sociedade – só têm a ganhar com o diálogo.


 (Túlio Santos/EM/D.A Press)
Entrevista/Luciano Figueiredo/historiador

‘‘Temos o direito de saber’’

Como você analisa o grande interesse do público pela história no Brasil, revelado no sucesso de obras de divulgação, filmes e outros produtos culturais que se nutrem do passado?

Ao contrário do que se passou no início do século 20, com a civilização orgulhosa de suas realizações e confiante no futuro, o nascimento do século 21 assiste a uma desconfiança generalizada com o que vem pela frente. A impressão é que o futuro não promete muito: escassez, agressões ao meio ambiente, intolerância, conflitos étnicos e religiosos. Nesses ambientes é natural que o passado vire uma espécie de zona de conforto, uma experiência para onde se olha a fim de encontrar um território de coisas organizadas. Além disso, no Brasil houve nesse mesma temporalidade uma afirmação econômica e social de grupos até então fora do mercado de consumo de bens simbólicos e de conhecimento, item valorizado como capital dessa alargada mobilidade social. Surgiu um mercado de história, uma verdadeira inflação de memória. Isso é gratificante. Mas é preciso, na condição de historiador, distinguir popularização e divulgação científica, ainda que ambas cheguem ao grande público sem distinção muitas vezes. A popularização não envolve a atuação direta do especialista, quando muito como fonte de conteúdo, ao passo que a divulgação científica envolve o “cientista”, ele próprio fazendo a mediação. Considero ambas importantes mas imperioso que os acadêmicos atuem fortemente nesse processo. Inclusive para alertar falsificações grosseiras, interpretações tendenciosas do passado que são um risco à vida democrática.

De que forma o estudo da história contribui para o aprimoramento da cidadania? Como você tem acompanhado o trabalho da Comissão da Verdade?

As leituras do passado são sempre o que trazemos de mais forte. A razão de ser da história é fixar na consciência coletiva referenciais da identidade, considerados como virtudes ou não, que podem nos posicionar para agir no presente. Por isso história é disciplina obrigatória, dentro e fora da escola. O trabalho da Comissão da Verdade é um mergulho em um passado tenebroso, ao abrir uma ferida amarga que, em nossa história recente, se tentou silenciar. A maneira pública e corajosa como isso vem sendo feito, com a convocação de todas as pontas da máquina de repressão, a aproximação franca entre vítimas e algozes, sob a garantia democrática da ordem institucional, é um momento fundamental. Esconder não resolve, simular tampouco; logo, trazer para a cena pública o horror ajudará indivíduos e famílias a superar a violência à qual foram dragados e a consolidar um posicionamento para os que vivem hoje sobre o que nunca mais se quer viver.

Qual a sua opinião sobre a polêmica em torno das biografias não autorizadas?

De certo modo, assim como a Comissão da Verdade, o capricho de artistas em torno do grupo Procure Saber promoveu uma outra forma de revelar a experiência pública com a nossa história. Historiador algum pode estar de acordo com a exigência de se autorizar biografias. A Ana de Holanda, ex-ministra da Cultura, foi certeira: “Sou filha de historiador, não posso estar de acordo”. Paulo César Araújo, surrado pelos advogados do Rei que impediram a publicação de seu livro, acabou divulgando um texto-resposta registrando: “Sou historiador”. A sociedade brasileira vem também nesse processo revelando uma maturidade impressionante em seu compromisso com o valor da história. Reivindica o direito ao passado, não poupa a Justiça lenta, que deixa expostos aqueles que são vítimas da infâmia e da calúnia e denuncia aqueles que querem apenas as benesses da vida de vip. Todos queremos ver as imagens de Manuel Bandeira, ler Guimarães Rosa sem limites. Temos esse direito. Quem trabalha em outra direção será atropelado por esse trem doido. Afinal, Chico Buarque cantava em uma velha música: “A história é um carro alegre que atropela indiferente toda aquele que a negue”.

Qual é o papel da academia nesse cenário de interesse pela história? Como você vê o desafio de dialogar com a sociedade?

Professores e pesquisadores da área das ciências sociais deveriam ocupar papel dos mais relevantes, estimulando, debatendo, produzindo. Mas não é isso que ocorre. Os casos daqueles que atuam são raros. A comunicação pública de história por parte dos historiadores é precária e não faz parte do metier do historiador no Brasil. Ainda é uma convivência estranha. As políticas públicas de popularização também não dão muita bola para as ciências sociais, pois a história da divulgação científica, desde o Correio Braziliense, no início do século 19, privilegia as ciências associadas à produção de riquezas materiais. O diálogo é difícil, pois historiadores são formados para conversar com eles mesmos e lecionarem. O público mais amplo já tem professor na escola. As universidades e centros de pesquisa em nossa área precisavam ser dotadas de núcleos de divulgação, experimentarem projetos, formando junto com jornalistas, educadores e artistas uma geração sensível ao diálogo fora da sala de aula. Estamos também despreparados para lidar com o fato de a história ter se tornado uma commodity. Há aspectos éticos de que os historiadores precisam cuidar, pois ao agirem em um plano cultural mais amplo estão sujeitos a pirataria e a má-fé.


 (Casa da palavra/reprodução)
HISTÓRIA DO BRASIL PARA OCUPADOS
. Organizado por Luciano Figueiredo
. Editora Casa da Palavra, 504 páginas, R$ 49,90