Pesquisa mostra que brasileiro está sem
disposição, o que prejudica o desempenho sexual, a produtividade e a
prática de atividades físicas
Carolina Cotta
Estado de Minas: 01/12/2013
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| Luciana Guimarães de Morais,
coordenadora de vendas |
Acordar. Preparar o
café. Arrumar as crianças para a escola. Enfrentar o trânsito... e a
pressão do chefe. O telefone toca uma, duas, três vezes. Chamadas.
E-mails. Mensagens. Almoço corrido. Reunião. Prazos e mais prazos
apertados. Contas para pagar. Compras para fazer. Mais trânsito. O dever
de casa precisa ser acompanhado, precisa estar impecável. Ufa! Dá para
cansar só de ler, e essa é a rotina da maioria dos brasileiros. Os
mesmos que se autoavaliaram muito cansados, ou pelo menos um pouco, em
pesquisa da Conectaí/Ibope Inteligência com 1.499 pessoas das principais
capitais brasileiras .
Homens e mulheres de 18 a 64 anos, das
classes A, B, C, D... Pouco importa o perfil, estão todos cansados. No
levantamento promovido pelo Grupo Sanofi, 98% dos pesquisados revelaram
algum nível de cansaço: 37% estão muito cansados, 24% bastante e 37% um
pouco. Mulheres, jovens entre 20 e 29 anos, moradores das capitais da
Região Sudeste e membros da classe C, estão ainda mais cansados, embora
os índices variem pouco. A qualidade do sono, o desempenho sexual, a
produtividade no trabalho e a disposição para a prática de atividade
física são extremamente afetados.
Segundo o médico Alberto Ogata,
presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), a
sensação de cansaço passa pela percepção das pessoas, mas é preciso
saber distinguir cansaço de fadiga. Esta última exige diagnóstico e
acompanhamento médico, pois pode estar relacionada a problemas de saúde,
como disfunções hormonais; questões psicológicas, mentais ou
metabólicas; e mesmo alguma doença específica. “Pessoas com problemas
pulmonares, depressão e problemas na tireoide tendem a ter maior
sensação de cansaço. É preciso saber identificar se é um cansaço
excessivo e procurar um médico”, diz.
Geralmente, fadigados têm
dificuldade para exercer atividades do dia a dia, o que pode levar a
erros, esquecimentos, irritabilidade, afetando a performance e os
relacionamentos. “É um quadro que não pode ser simplesmente aceito. Se
for um cansaço exagerado, ou se investiga ou se encontram maneiras de
lidar com isso. Não dá simplesmente para esperar as férias, até porque o
descanso delas dura pouco e as causas do cansaço persistem”, alerta o
especialista, segundo o qual o primeiro passo é organizar a rotina para
evitar a sobrecarga. Cuidar do sono, da alimentação e da atividade
física também é essencial.
Mas, e quando já não dá para cortar
nenhuma atividade? Nesse aspecto, as mulheres sofrem ainda mais. É o
disseminado modelo em que ainda cabe a elas a maior parte dos cuidados
com a casa e os filhos, adicionam tarefas para além dos compromissos
profissionais. Isso, somado à rotina das grandes cidades, pode sugar as
energias. A vida urbana, com sua oferta de programas e trânsito; a
tecnologia, que leva as pessoas a estarem conectadas ao trabalho mesmo
em casa; e a exigência de um mercado que quer pessoas cada vez mais
capacitadas são alguns disseminadores do cansaço. E está difícil escapar
deles.
A coordenadora de vendas Luciana Guimarães de Morais, de
42 anos, tem uma rotina e tanto. E não é diferente da maioria das mães
que trabalham fora. O despertador toca às 5h40, só assim é possível
enfrentar o trânsito e conseguir chegar ao trabalho às 7h30. O horário
de almoço é corrido. Ela tem uma hora para se alimentar e resolver
qualquer pendência. A jornada termina às 17h30, mas ela não gasta menos
de 45 minutos para chegar em casa. São 12 horas fora de casa e ao chegar
ela quer curtir a filha Manoela, de 6 anos. Mas ainda tem que ajudá-la
com o dever de casa.
MARATONA Luciana mora com os pais, o que já
facilita sua vida. Mas cabe a ela deixar tudo da filha preparado para o
dia seguinte: uniforme da escola, do balé, material do inglês. Duas
vezes por semana ela dedica parte da noite à prática de uma atividade
física. Os fins de semana são totalmente dedicados à filha, que já na
quinta-feira começa a cobrar a programação. A sorte de Luciana é seu
relógio biológico acostumado com poucas horas de sono. “Consigo
descansar quando durmo. Sou completamente diurna, então não preciso de
muitas horas e não tenho dificuldade para levantar.”
Uma vez por
mês, quando Manoela passa o fim de semana com o pai, Luciana tem a
oportunidade de ficar literalmente de pernas para o ar. Mas como não se
permite ficar sem fazer nada e detesta bagunça, encontra nem que seja
uma gaveta para arrumar. “Eu me regenero fácil, mas estou cansada. Essa
rotina, o trânsito, o calor, tudo tira nosso tempo e nossa paz. Às
vezes, acho que a gente até se acostuma a viver assim, mas tem hora que
respiro fundo e me sinto morta”, desabafa Luciana, que está há mais de
um ano sem férias e contando as horas para os cinco dias livres que vai
ter neste mês.
Fadiga vira círculo vicioso
Cansaço nada mais é
do que falta de disposição para fazer alguma coisa. Pode ser físico ou
mental, sendo esse último ainda mais complicado, pois contra o físico
basta parar para se recompor. O cansaço mental exige outras estratégias,
além de também levar ao cansaço físico. Fato é que a pessoa cansada
tende a ficar cada vez mais sem disposição, entrando em um círculo
vicioso. Quanto mais cansada uma pessoa está, menos disposição ela tem
para fazer qualquer coisa, inclusive coisas que poderiam amenizar a
sensação de cansaço. Assim, vão seguindo cansadas.
Segundo
Gerseli Angeli, doutora em fisiologia do exercício pela Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), o aumento da solicitação física ou
mental não dá ao corpo, ou à mente, tempo de se recuperar.
“Sente-se
o cansaço e não se recupera. No dia seguinte a pessoa também não rende e
assim passa a render cada vez menos. O corpo percebe esse movimento e
começa a se defender. A falta de disposição, também chamada astenia,
nada mais é que uma defesa do corpo. Depois de uma atividade cansativa, o
corpo cria uma memória da exigência acima do seu condicionamento, e vem
a falta de disposição”, explica.
A ideia, então, é burlar essa
falta de disposição. Mas o corpo do homem moderno está acostumado a ser
pouco solicitado. Afinal, há um dispositivo tecnológico para facilitar
qualquer coisa. “O homem foi trocando seu condicionamento pelo conforto,
e quanto menor é o condicionamento, menor é o nível de solicitação
física necessária para que a pessoa se sinta descansada. É por isso que
as pessoas ativas se sentem menos cansadas e têm mais disposição. A vida
ativa defende o corpo dos malefícios do sedentarismo”, alerta. Contra o
cansaço, então, a receita é não ceder.