domingo, 12 de janeiro de 2014

Editoras brasileiras apostam no segmento infantojuvenil, seguindo a tendência do mercado mundial

LITERATURA » Força jovem
 
Editoras brasileiras apostam no segmento infantojuvenil, seguindo a tendência do mercado mundial. Reforçada por compras do governo federal, a estratégia beneficia autores nacionais



Carlos Herculano Lopes
Estado de Minas: 12/01/2014



À frente da Editora Autêntica, Rejane Dias revela que jovens brasileiros estão se interessando por literatura policial (Maria Tereza Correia/EM/D.A Press %u2013 29/9/12  )
À frente da Editora Autêntica, Rejane Dias revela que jovens brasileiros estão se interessando por literatura policial

Não é só no Brasil que a literatura infantil e infantojuvenil vem ganhando cada vez mais força, com milhares de títulos lançados no mercado. Tem-se consumido de tudo: de série de aventuras à fantasia, passando por romances para garotas e histórias de terror e vampiros. A garotada devora livros com a avidez própria da idade, ajudando a gerar receitas da ordem de milhões de reais.

O gênero infantojuvenil veio para ficar, pelo menos durante um bom tempo – isso é consenso entre editores, livreiros e agentes literários. A carioca Lúcia Riff, por exemplo, tem negociado muitos títulos de autores brasileiros e estrangeiros dedicados ao segmento. “O sucesso da literatura infantojuvenil não ocorre apenas no Brasil, mas em vários países. Tenho observado o fenômeno durante minhas viagens para participar de feiras e eventos”, informa.

A carioca Ana Lima concorda com Lúcia. Ela é responsável pelo selo Galera, voltado exclusivamente para o público juvenil, que representa cerca de 30% do faturamento da Record, uma das maiores editoras da América Latina. Lançado em 2007, o selo emplacou diversos títulos na lista dos mais vendidos. Alguns autores ultrapassaram a marca de 1 milhão de exemplares, caso das nortes-americanas Meg Cabot e Lauren Kate e do britânico Oliver Bowden. “A tendência é o segmento continuar forte e o mercado cada vez mais competitivo”, aposta Ana.

Sucesso no país, a americana Meg Cabot bateu a marca de 1 milhão de livros vendidos no planeta (Ali Smith/divulgação)
Sucesso no país, a americana Meg Cabot bateu a marca de 1 milhão de livros vendidos no planeta


Destaque

De acordo com a editora, brasileiros têm se destacado no mercado infantojuvenil, inclusive fechando contratos fora do país. “A mineira Paula Pimenta, autora de Fazendo meu filme, que integra nossa coletânea de releituras de contos de fadas, é um bom exemplo. Carina Rissi, que escreveu Perdida, vendido para o cinema recentemente, é outro. Temos projetos com ambas para este ano”, informa Ana Lima.

Rejane Dias, responsável pelo Grupo Autêntica, afirma que o crescimento da literatura infantil e infantojuvenil se deve à ampliação das compras do governo, sobretudo de programas do Ministério da Educação.

“Em 2013, quase 300 editoras inscreveram livros no Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), contra cerca de 140 em 2012. Para continuarmos com bons resultados relativos às compras governamentais, mantivemos a regularidade de nossas publicações. Em média, a Autêntica lança de 20 a 25 títulos por ano nesses gêneros”, diz a reponsável pela editora mineira.

Rejane observa que os leitores têm dado preferência a livros de personagens, como Diário de um banana e Capitão Cueca. O público juvenil, especificamente, procura títulos de sucesso no mercado internacional, como histórias voltadas para a fantasia, chick lit (preferido das garotas) e, recentemente, obras com temáticas vinculadas a problemas da vida real. “No momento, há a sinalização de que o público teen está se interessando por literatura policial e thrillers”, revela.

De acordo com Rejane, embora o estrangeiro faça sucesso no Brasil, os selos vêm dando preferência ao autor brasileiro. “Isso ocorre, sobretudo, pela disponibilidade deles para se envolver na divulgação dos livros, principalmente via mídias sociais. A temática abordada favorece a identificação com os leitores de nosso país”, analisa Rejane. Ela cita a belo-horizontina Paula Pimenta, um dos destaques da Autêntica, que a lançou nacionalmente. Ano passado, a autora vendeu 230 mil exemplares.

Romance de Carina Rissi, Perdida é um dos destaques do mercado brasileiro (C. Rissi/divulgação)
Romance de Carina Rissi, Perdida é um dos destaques do mercado brasileiro

Copa  

Lourdinha Mendes é editora das mineiras Lê, Abacate e Compor, que mandam para as lojas livros voltados para o público infantil e infantojuvenil. Apesar das boas perspectivas, ela prefere a cautela. “Estou um pouco apreensiva, principalmente devido à realização da Copa do Mundo e das eleições. É um ano atípico”, pondera. As três empresas programaram 16 lançamentos para 2014.

Lourdinha aposta nas compras do governo. “Além de possibilitar o investimento em novas publicações, o programa proporciona o acesso à literatura em lugares onde isso dificilmente ocorreria sem a ação institucional”, conclui.

Lúcia Riff adverte:
Lúcia Riff adverte: "Publicar pensando só no governo é um perigo"

Três perguntas para…

Lúcia Riff
Agente literária

Por que as editoras apostam as fichas na literatura infantojuvenil?

A aposta não é apenas para este ano, veio para ficar. A literatura infantojuvenil vem ganhando força em todo o mundo, assim como no Brasil. Isso se dá especialmente no segmento crossover. Ou seja, o livro para o jovem adulto pode ser lido tanto por adolescentes e jovens quanto por adultos. Eles agradam a públicos de todas as idades.

Diante da sedução das mídias eletrônicas, o livro impresso seduz os jovens?

De modo geral, ainda se leem mais livros de papel. Não sei a proporção de jovens que já passaram para o e-book. As redes sociais têm papel importantíssimo entre essa turma, pois elas divulgam livros, estimulam a troca de informações sobre autores e sobre as obras, além de facilitar conversas diretas do público com o escritor. Mas daí à adesão ao e-book como leitura preferencial... Não sei dizer. De minha parte, posso responder: já aderi ao iPad. Atualmente, quase todas as minhas leituras se dão em via eletrônica.

Ao apostar no segmento infantojuvenil, as editoras se tornam dependentes dos programas do governo?

Publicar pensando só no governo é um perigo. As vendas passam a ser esporádicas e podem não ocorrer. A obra morre. O certo é trabalhar pensando nas vendas escolares e nas adoções por colégios, mas sem esquecer as livrarias. Deve-se fazer um trabalho de aproveitamento das vendas de governo possíveis, mas sem basear o trabalho editorial apenas nessa possibilidade.


SAIBA MAIS

Com açúcar e com afeto

 (Ben Stansall/AFP  )
Voltado para o público feminino, o gênero chick-lit fala da garota contemporânea. Com enredos ágeis e destinados ao entretenimento, a chamada “literatura para mulherzinha” compartilha anseios de jovens ligadas em blogs, marcas fashion e nas inovações do universo virtual. A matéria-prima dessas histórias, porém, é o amor. As protagonistas sempre estão às voltas com romances e corações partidos. Não é à toa que o ícone do gênero é Bridget Jones, “heroína” da série escrita pela inglesa Helen Fielding (foto), que se transformou em fenômeno cinematográfico na pele da atriz Renée Zellweger – eternamente apaixonada por Mark Darcy, interpretado por Colin Firth.

Cine resistência

Cine resistência
 
Mostra Aurora do Festival de Tiradentes destaca nova safra do cinema autoral feito em Minas. Produções selecionadas têm fronteiras com as artes visuais e mesclam influências estéticas


Carolina Braga
Estado de Minas: 12/01/2014



A mulher que amou o vento, de Ana Moravi, é filme experimental com trama baseada em um mito (Maria Caram/Divulgação)
A mulher que amou o vento, de Ana Moravi, é filme experimental com trama baseada em um mito


É notório o quanto a Mostra de Cinema de Tiradentes tem se empenhado nos últimos anos para revelar o que de mais novo e arriscado há na produção audiovisual contemporânea. E se há um segmento dentro dela que se dedica especialmente à tarefa de apostar é a Mostra Aurora. Sabe o que ela nos sinaliza este ano? Mesmo que ainda haja espaço para crescimento, o cinema produzido pela nova geração de diretores em Minas anda muito bem na fita.

Entre os sete filmes que concorrerão ao Troféu Barroco e ao Prêmio Itamaraty, no valor de R$ 50 mil, quatro são realizações do estado. O que têm em comum é a faixa etária dos realizadores, ao redor dos 30 anos. Fora isso, são longas experimentais, fantásticos, comédias e documentários sobre temas variados. Os modos de fazer também são muito distintos.

Se durante algum tempo o cinema feito em Minas tornou explícita a influência das artes plásticas – vide trabalhos de Éder Santos e Cao Guimarães –, a nova safra, sem perder essa característica, avança em busca de novos caminhos. “É uma tentativa de encontrar algo além da fisicalidade de imagens. O pessoal está em busca de novas narrativas, outras formas de contar história”, resume a diretora Ana Moravi. Ela faz parte do grupo.

Aos 33 anos, estreará nas telas de Tiradentes com o longa-metragem A mulher que amou o vento. Classificado como experimental, o filme nasce de um estudo a respeito da imagem. Ao narrar uma trama inspirada no mito de Flora e Zéfico, Moravi nos diz que toda imagem carrega em si algo de invisível. Em busca de outros sentidos para o que não é visto, conta a história de uma mulher que se apaixona pelo vento. “Ele tem uma composição bem pictórica e flerta muito com essa coisa das artes plásticas”, adianta.

Já os diretores do coletivo Filmes de Plástico, de Contagem, exibirão em Tiradentes algo totalmente distinto até mesmo do que já foi apresentado em outras edições da mostra. Aliança, dirigido por Gabriel Martins, João Toledo e Leonardo Amaral, é uma comédia. Os três também são os protagonistas do longa, Pilo, Panda e Isaac, amigos de infância. Quando um deles é promovido e resolve se casar, os outros dois descobrem que a namorada dele o trai com o instrutor de ginástica.

“O filme todo se passa durante um dia, quando eles rodam Belo Horizonte tentando comprar o par de alianças. Nesse percurso, encontramos situações cômicas. A gente reflete sobre tudo: por que casar, a questão da traição e como cada um encara isso”, conta Gabriel Martins. O restante do elenco também é formado por amigos da galera da Filmes de Plástico.

Como Gabriel comenta, neste caso, não há qualquer aproximação com as artes plásticas, mas sim um interesse em descobrir outros modos de narrar. “Tem uma história que está sendo contada, com influências do cinema americano, da sessão da tarde, no bom sentido”, frisa.

Os outros dois concorrentes na Aurora são documentários. O bagre africano da Ataleia é descrito pelos realizadores Aline X e Gustavo Jardim como um roteiro de um filme de caça. O elemento central da narrativa é a existência de um peixe invasor, que afeta o imaginário da cidade. Segundo eles, o resultado reflete a criação contemporânea.

“Vivemos tempos de hibridez de linguagens e dissolução de fronteiras. Na feitura de O bagre africano de Ataleia, articulamos recursos próprios da literatura fantástica, do cinema documental, do cinema de gênero (terror e faroeste), em uma montagem rigorosa das imagens e sons captados em três etapas de filmagem”, detalham. Ao articular vários elementos, o objetivo era compor uma estrutura inusitada.

A vizinhança do tigre, de Affonso Uchoa, é um documentário sobre quatro jovens moradores do Bairro Nacional, na periferia de Contagem.

O bagre africano de Ataleia, de Aline X e Gustavo Jardim, traz referências do gênero fantástico (Bernard Machado/Divulgação)
O bagre africano de Ataleia, de Aline X e Gustavo Jardim, traz referências do gênero fantástico


Amadorismo e liberdade


Além de diretora, Ana Moravi é pesquisadora de cinema há cinco anos. Na dissertação de mestrado, que foi publicada como livro, analisou o cinema mineiro feito entre 2000 e 2010. Como observou, além das influências de outras artes e da busca por novas narrativas, trata-se de safra feita por gente que se interessa em estudar a linguagem e tem muitas referências. A cinefilia contribui para a construção de algo diferente.

“Acho que a gente vive uma profusão muito grande na produção de imagens. A primeira sensação que dá é um mito contemporâneo: se A mais B é igual a C, o negócio é misturar o que já foi feito, o que vai dar uma coisa nova”, acredita a jovem cineasta. Como ela ressalta, passada a época em que a escolha de um determinado negativo influenciava o resultado do filme, hoje a autoria se volta para outras questões.

 “Vira um desafio para quem é pesquisador e realizador fugir dos padrões. O cinema mineiro sempre buscou isso”, afirma. “As produções mineiras são viabilizadas de forma independente, com recursos próprios ou com baixos orçamentos dos editais governamentais. Fazer filmes em Minas é uma forma de resistência. Há uma liberdade que vem deste amadorismo, não há necessidade de concessões de nenhum tipo, não se busca o mercado, se faz arte como necessidade expressiva e com os recursos disponíveis”, resumem Aline X e Gustavo Jardim.

Mostra de cinema de Tiradentes 

De 24 de janeiro a 1º de fevereiro, em Tiradentes. Entrada franca. Informações: www.mostratiradentes.com.br

A comédia Aliança é dirigida e estrelada por Gabriel Martins, João Toledo e Leonardo Amaral (Filmes de Plástico/Divulgação)
A comédia Aliança é dirigida e estrelada por Gabriel Martins, João Toledo e Leonardo Amaral


Mostra Aurora

» A mulher que amou o vento, de Ana Moravi
» A vizinhança do tigre, de Affonso Uchoa
» Aliança, de Gabriel Martins, João Toledo e Leonardo Amaral
» O bagre africano de Ataleia, de Aline X e Gustavo Jardim

Mostra Autorias


» O homem das multidões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes


Meu cinema é...

“Experimental, independente e poético”
Ana Moravi
diretora de A mulher que amou o vento

“Diversão, em todos os sentidos possíveis”
Gabriel Martins
diretor de Aliança

“Caça”
Aline X e Gustavo Jardim


Curtas mineiros marcam presença



Curta Nossa pintura, de Fábio Nascimento, se aproxima da cultura indígena de forma direta e sem clichês

A programação de curtas-metragens da Mostra de Cinema de Tiradentes terá 98 trabalhos este ano. Destes, 25 são filmes produzidos em Minas Gerais. O cinema assinado por novos diretores do interior do estado também mostra a cara em Tiradentes. Natural de Ipatinga, ex-aluno da Universidade Federal de Juiz de Fora, com formação na França, Fábio Nascimento mostrará Nossa pintura na competitiva Foco. Rodado no Sul do Pará, o filme de 24 minutos mostra a tradição da pintura dos corpos dos índios mebêngôkre-kayapó.

Pela segunda vez entre os selecionados para Tiradentes, Fábio, atualmente radicado em São Paulo, acredita que as diferenças de produzir cinema na capital ou no interior são cada vez menores. “Comecei trabalhando quando estava no interior. Isso não seria uma peculiaridade, porque não é um mercado muito fácil”, diz. Para Fábio, Nossa pintura é uma tentativa de filmar o povo indígena sem clichês. “A gente tentou de alguma maneira documentar como qualquer pessoa”, explica.

Mineiro de Cruzeiro da Fortaleza, mas radicado em Uberlândia, Cássio Pereira dos Santos terá seu quinto trabalho, Marina não vai à praia, exibido em Tiradentes. Ele, que já morou em Brasília, é realizador resistente no interior de Minas. “Quando voltei para o interior, já tinha algumas portas abertas em diversas cidades, por já ter trabalhado com audiovisual por alguns anos. Mas na hora de filmar as coisas se complicam um pouco, porque a logística fica mais cara e complicada, pois há longos deslocamentos de equipamento e equipe”, conta.

O negócio de Cássio é essencial: contar uma história simples. “No meu primeiro curta, que passou em Tiradentes nove anos atrás, lembro que a primeira conversa que tive com o fotógrafo foi que não usaríamos plano e contraplano, porque achava isso muito careta, com cara de televisão. Neste novo projeto trabalhei com o mesmo fotógrafo, meu amigo Leonardo Feliciano, e o que o filme mais tem é plano e contraplano. Esse negócio de pesquisa de linguagem às vezes vira um tédio e aí dá uma vontade de contar uma história simples, sem ficar preocupado com inovação”, completa. (CB)

Eduardo Almeida Reis - Amigos‏

Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 12/01/2014 


Amigos

Guilherme de Figueiredo, saudoso amigo, escreveu o Tratado geral dos chatos, obra impossível de ser completada, como pedem os tratados, pela inimaginável quantidade de chatos que surgem no pedaço. Ando pensando escrever um Tratado geral dos amigos para falar dos muitos que tive e ainda tenho, com as suas diversas especialidades. Cícero disse que “o amigo certo se reconhece numa hora incerta”. Como não escrevia em português, língua que só passaria a existir 14 séculos depois de sua morte, caprichou no latim que manejava muitíssimo bem: Amicus certus in re incerta cernitur. Soares da Cunha, também saudoso amigo e confrade na Academia Mineira de Letras, definiu à maravilha certos amigos da onça: “Amigos são todos eles/ Como aves de arribação/ Se faz bom tempo eles vêm/ Se faz mau tempo eles vão”. Há milhares, milhões deles rodeando as pessoas que ocupam altos cargos. Lauro Müller (1863–1926), meses depois de deixar o ministério, encontrou no bonde um sujeito que vivia frequentando seu gabinete e nunca mais o procurou. O sujeito se desculpou pelo sumiço, mas foi tranquilizado pelo engenheiro, militar, político e diplomata nascido em Santa Catarina: “Não se preocupe, meu caro. Quando passei a pasta, passei com você dentro”. Vivenciei casos muito parecidos com parentes meus, que deixaram de ocupar altos cargos e foram abandonados pelos “amigos” que não saíam lá de casa, com exceção de uns poucos amigos de fatos. E os há, podem crer no anoso philosopho. Nas muitas vezes em que andei apertado, nunca me faltaram amigos que ofereciam empréstimos sem juros e sem prazo. 

Felizmente, em pouco tempo pude devolver o dinheiro emprestado. Claro que não vou revelar, aqui e agora, os tipos amigos que pretendo listar no tratado. Limito-me a um só deles: o amigo eficiente. É utilíssimo. Aparece nas horas complicadas, não necessariamente pela falta de dinheiro, mas nas doenças, nas complicações familiares, em todas as complicações – e resolve, porque é eficiente, descobre o caminho das pedras, parece ter nascido para isso. Os dicionários de citações incluem milhares nos verbetes amigo e amizade, que gosto de transcrever nas ruminanças de Tiro e Queda. Uma de cada vez, porque é humanamente impossível analisar e curtir, ou não, todas aquelas que certas revistas transcrevem numa página. Encerro este belo suelto com Shakespeare: “No que me tenho por mais feliz / É numa alma que se lembra dos bons amigos”.

Maluquearam 

Com as restrições feitas às internações manicomiais, que deram de ganhar bom dinheiro a diversos conhecidos meus, os brasileiros malucos foram às compras no exercício do seu esplendoroso malucar. Fico abismado com os preços que vejo nos jornais, sinal de que há gente comprando os produtos anunciados. Vejamos: pulseira Sara Joias, R$ 54,9 mil; saia R$ 2,1 mil e cinto Anne Fontaine, R$ 1.895; brincos Luli Martins, R$ 11 mil; brincos, R$ 51 mil; pulseiras a partir de R$ 51,3 mil; e anel por R$ 33,6 mil, tudo na Sara Joias. O vestido Dolce e Gabanna é baratinho: R$ 5,9 mil, talvez porque os dois rapazes romperam casamento de 20 anos, mas continuam muito amigos e sócios, dando uma lição de civilidade aos homens e mulheres que se divorciam e saem dizendo cobras e lagartos uns dos outros. Vestido Saint Laurent Paris na NK Store: apenas R$ 27.990. Que me diz o caro, preclaro e pacientíssimo leitor de um par de tênis por R$ 2.150? Pois é, existe e tem a grife Louis Vuitton. Há outro, baratinho, da mesma marca: R$ 1.540 – e ambos são feios à beça. Sabe aqueles armários comprados e montados em sua casa? Tenho um de R$ 890, que me parece da melhor supimpitude, mas você pode encontrar outros na Florence Barra a partir de R$ 45 mil. Combinam com a geladeira Smeg amarela, uma porta, à venda na Freicon por R$ 12.569. Isso mesmo: R$ 12.569, que é para você economizar um real e sair todo satisfeito ou toda satisfeita da loja, na hipótese de ter comprado uma penteadeira horrível, também amarela, por R$ 5,5 mil na Arquivo Contemporâneo.

O mundo é uma bola 

12 de janeiro de 1431: tem início em Rouen o processo contra Joana D’Arc, acusada de bruxaria. Em 1616, Francisco Caldeira Castelo Branco, nascido no Crato, distrito de Portalegre, Portugal, funda a cidade de Belém do Pará. Em 1759, Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de Estado do rei dom José I, manda expulsar os jesuítas de Portugal. Em 1807, parte da cidade de Leyden, na Holanda, é destruída pela explosão de um navio mercante que transportava pólvora. Em 1816, por lei do governo francês, toda a família Bonaparte é afastada da França. Em 1865, o marquês de Caxias assume o comando supremo das forças aliadas na Guerra do Paraguai. Em 1896, o médico Henry Louis Smith faz o primeiro exame de raios X depois de dar um tiro na mão de um cadáver. A chapa mostrou a bala alojada no defunto. Em 1923, lançamento nos Estados Unidos da revista Time.

Ruminanças
“A experiência é uma escola muito cara, mas é só nela que os tolos aprendem” (Benjamin Franklin, 1706–1790).

Supremo tem função política‏ - Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr.

Supremo tem função política
 
Fenômeno veio para ficar e pode contribuir para a democracia


Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr.
Advogado, especialista do Instituto Millenium
Estado de Minas: 12/01/2014


É público e notório que o egrégio Supremo Tribunal Federal (STF) vem ampliando sua função política na atual quadra evolutiva da democracia brasileira. Sem cortinas, o fenômeno veio para ficar e, se bem executado, poderá contribuir em muito para o progresso institucional da Nação. Todavia, como todo fato complexo, há desafios e limites jurídicos a serem observados, sob pena de desnaturar a obrigatória legalidade da decisão jurisdicional em simples ato de discricionariedade política. Nesse contexto de transformações importantes, é oportuno indagar: por que a função política do Supremo tem se destacado no atual panorama institucional brasileiro?

Os motivos são plurais e de diversos matizes; começam por uma saudável estabilidade normativa da Constituição de 1988, passam por um necessário e contínuo aperfeiçoamento hermenêutico das regras constitucionais, chegam a uma sociedade economicamente mais organizada e potencialmente mais capaz de enxergar a vida com o auxílio de atuantes ferramentas tecnológicas, vindo, ao final, a desaguar em uma dramática apatia parlamentar do Congresso Nacional, que, por interesses pequenos, aceita, sem rodeios, os acenos fúteis de um Executivo cada vez mais ganancioso pelo poder. Na outra ponta, temos uma oposição calada, com raras lideranças eminentes, e completamente desarticulada em sua tímida ação política. Com isso, o Congresso desce e o Judiciário sobe como instância pública de dialética e solução de assuntos de interesse da coletividade. Aqui, chegamos ao coração pulsante da questão: até onde o Supremo poder ir no desempenho de sua inata função política? Bem, entramos em um território em que não há fronteiras fixas, pois cabe à técnica e à sensibilidade do juiz constitucional avaliar as circunstâncias concretas e decidir se o momento é de avanço ou de cautela. Para tanto, não será a inteligência individual, mas a sabedoria colegiada dos “11 velhinhos do Supremo Tribunal”, expressão do bom e velho Baleeiro, e de toda a comunidade jurídica do Brasil, que deverão, juntos, desenvolver os limites para a ação construtiva e vivificante da jurisprudência pátria.

Em sua dimensão constitucional, o Supremo é a ponte que liga o político ao jurídico. Nas clássicas lições de filosofia do direito de 1912, o inigualável Pedro Lessa ensina que “são de mútua dependência e subordinação as relações do direito com a política”. A justa medida está na compreensão de que a Constituição precisa da lei e a lei, para valer e ser respeitada, precisa de uma jurisdição atuante. Em outras palavras, a Constituição precisa de um Congresso e de um Judiciário que ajam com segurança e firmeza em suas respectivas e complementares áreas de atuação. O Supremo Tribunal Federal tem feito muito, talvez até demais. Por outro lado, o que tem feito o Congresso Nacional para dignificar sua alta responsabilidade política? A resposta é o começo de um ajuste institucional necessário. O Supremo pode muito, mas não pode mudar a política partidária. Que tal, então, começarmos a fazer a nossa parte?