sábado, 1 de fevereiro de 2014

A luta continua - Carolina Braga

A luta continua 
 
Militantes do cinema marginal, os diretores Andrea Tonacci e Luiz Rosemberg Filho defendem mais inteligência nas telas. Para a dupla, filmes ainda têm a missão de reinventar o mundo 

 
Carolina Braga
Estado de Minas: 01/02/2014


Luiz Rosemberg Filho e Andrea Tonacci: 40 anos de dedicação ao cinema de invenção e à experimentação de linguagens (Túlio Santos/EM/D.A Press  )
Luiz Rosemberg Filho e Andrea Tonacci: 40 anos de dedicação ao cinema de invenção e à experimentação de linguagens

Tiradentes – “Está bonito, com cabelão e bigode”, diz o cineasta Andrea Tonacci ao amigo Luiz Rosemberg Filho. O diretor carioca retribui com um sorriso e muito afeto – afinal, lá se vão 40 anos de camaradagem e infinitos papos sobre o ofício. Representante da geração do cinema de invenção – conhecida também como produção marginal –, a dupla fará dobradinha hoje, no encerramento da mostra de Tiradentes. A escolha é apropriada para um evento que se propõe a ser vitrine das investigações audiovisuais, destacando a produção autoral de jovens criadores.

Vem dos veteranos uma lição de humildade. Enquanto alguns novos cineastas exibem ares de “todo-poderosos” em Tiradentes, Rosemberg, de 70 anos, e Tonacci, de 69, avisam: não há glamour neste ofício. Ambos se mostram descrentes e até revoltados com o que se vê nas salas comerciais do país.

“Não se faz cinema hoje, mas produto de mercado, objeto. Cinema é atenção ao imaginário, é descoberta, uma forma de conhecer o mundo – não uma forma de dizer como ele é”, defende Tonacci. O polêmico Rosemberg se mostra mais enfático. “Hoje, o pensamento não tem a menor importância. Basta ver os filmes de sucesso, eles são imposições. Minha geração achava que mudaria o mundo com cinema e já está morrendo. A coisa só piorou”, radicaliza Rô, como é chamado pelos amigos.

Com 56 filmes no currículo, Luiz Rosemberg Filho já passou por telas dos festivais de Berlim e de Cannes. Assinou Crônicas de um industrial (1978) e Assuntina das Américas (1976), entre outros trabalhos. Absolutamente descrente da influência de festivais sobre a carreira de longas, médias e curtas, o diretor analisa com frieza o papel de eventos dessa natureza. Para ele, Tiradentes ou Toronto – é tudo igual.

 “A função do festival é incorporar uma política de transformação sobre o que é fazer cinema no Brasil. Você vem, mostra o filme, mas depois ele não passa em lugar algum. É como se amputassem a sua perna e lhe dessem muleta”, critica. Linguagem, curta de Rosemberg que será exibido no Cine Tenda esta noite, é assumidamente uma provocação. A peça de divulgação traz colagem com a frase “você quer fazer cinema?”. Logo acima vê-se a imagem de um morto.

Para Rosemberg, a linguagem é – e sempre será – questão fundamental. Talvez falte à nova geração de criadores aprender essa outra lição. “Ela está relacionada com o que você não domina. É como o afeto. O filme tem duas vertentes: começa com a potencialização dos afetos e termina na guerra”, analisa. O veterano deixa claro: sim, há experimentação, mas também pensamento e consistência no discurso.

Andrea Tonacci mostrará um filme que, de certa forma, aborda afeto e memória. Já visto jamais visto traz apenas imagens guardadas por ele, rodadas há 40, 30 e 20 anos. “Ele foi montado agora, mas pertence à fase de quando eu era nova geração”, brinca o criador dos consagrados Bang bang (1970) e Serras da desordem (2006). “Tentei fazer uma ficção desse passado, mas atual. É muito pessoal, com meu filho, meu pai e ex-mulheres. São pequenas representações do dia a dia”, resume.

Rilke Para Tonacci, mais que cinema de invenção, as obras que marcaram sua geração surgiram de intuição, espontaneidade, afetividade e do encontro. Avesso a festivais, Rosemberg deixa escapar o desejo de exibir um de seus novos trabalhos em Tiradentes no ano que vem. Cartas a uma jovem cineasta, em vias de ser montado, inspira-se no clássico Cartas a um jovem poeta, do escritor Rainer Maria Rilke. Deles vem outra lição: a obra de arte só é importante se ela for fundamental para você.

Convidado a encerrar a mostra mineira, famosa como paraíso dos novos realizadores, qual seria a mensagem dele para os jovens colegas? “A melhor resposta é o silêncio. No cinema novo, todo mundo queria linguagem, expressão, poesia, rompimentos e avanços, mas acabou virando isto que está aí: a Rede Globo mandando no país, um processo industrial podre. Não sou contra o cinema comercial, mas o que entendo como cinema comercial é a obra-prima Macunaíma, de Joaquim Pedro. Na verdade, houve prostituição tanto da observação e da análise do país quanto da linguagem cinematográfica. Montaram uma zona.” Esse é o Rosemberg.


ROSEMBERG POR TONACCI
“Antes de tudo, o Rô é um professor. Ganhei dele o que tenho de literatura sobre cinema e, às vezes, literatura essencial. Filmes também. Se há alguém com quem eu faria uma analogia, é com o Walter Benjamin. Com eles aprendo mais”.


TONACCI POR ROSEMBERG
“Tonacci é um homem que acredita. Ele crê que o Brasil tem jeito. Isso é legal. Nesse ponto, é mais marxista do que eu, pois acredita que o homem ainda pode ser dono da sua história. Não é demagogia. É um ato de fé. Ele está para o cinema brasileiro como o Rosselini está para o italiano”.


Mostra de Tiradentes
» HOJE
CINE TEATRO SESI
10h – Debate: Branco sai preto fica
11h15 – Debate: Aliança
12h30 – Debate: O homem das multidões
18h – Sessão de curtas

CINE TENDA
10h30 – Sessão de curtas mostrinha
15h – Sessão de curtas
17h – O rio nos pertence
18h30 – O uivo da gaita
20h30 – Sessão de curtas
22h30 – Cerimônia de encerramento

CINE BNDES NA PRAÇA
13h – Show de Érika Machado e Fernanda Takai

CINE BAR SHOW
0h30 – Show de Túlio Mourão

 (Arquivo EM)


Saiba mais
Cinema marginal

O cinema marginal, ou cinema de invenção, surgiu nos anos 1970. Vindos da geração posterior à do cinema novo, diretores defendiam filmes sem concessões. Entre seus representantes estão Rogério Sganzerla (O bandido da luz vermelha e A mulher de todos), Julio Bressane (Matou a família e foi ao cinema, foto), João Silvério Trevisan (Orgia), Geraldo Veloso (Perdidos e malditos) e Ozualdo Candeias (A margem e A herança). Esses autores buscaram subverter a linguagem cinematográfica.

Eduardo Almeida Reis - Delírios‏

Delírios 
 
Todos conhecemos senhoras e senhoritas que trocam diversas fronhas por dia 
 
Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 01/02/2014

Concurso de carros antigos na Inglaterra. Primeiro prêmio: 20 mil libras. Pena que não realizem concursos de homens antigos, mas vou falar de outra coisa, a meu ver seriíssima. A psiquiatria tem estudado o delírio ambulatório, isto é, deambulatório: que deambula, passeia sem rumo, desnorteado, erradio. É a dromomania, que na rubrica psicopatologia significa impulso incontrolável e mórbido para viajar, especialmente abandonar os lugares onde golpes emocionais foram sofridos. Se o sujeito é rico, vive metido nos aviões e navios para deambular por Ceca e Meca, sem esquecer os olivais de Santarém e a Turquia, que está na moda. Paris, então, nem se fala. Se o sujeito é pobre deambula sem rumo e sem banhos, a esmo, descalço, pelos acostamentos das estradas: é o andarilho. Dia desses, tive notícia de um sujeito que sempre foi maluco: “Ele está muito bem, só que não saí de casa”. Pronto: aí temos outro quadro psiquiátrico. Qual seria o antônimo de andarengo, de andeiro? De errante é fixo, sedentário. Portanto, o caseiro padece de um delírio sedentário, meu caso de uns anos a esta parte. Sair por quê e para quê? Trabalho em casa muitas horas por dia, todos os dias da semana. Hoje é domingo, faltam 10 minutos para as quatro da tarde e estou agarrado ao computador. Já escrevi 657 palavras e teria escrito mais que 2 mil se não estivesse lendo um livro muito bom e não fosse obrigado a esquentar o almoço no belo micro-ondas Cuisinart. Durante séculos saí de casa todos os dias para estudar, estudar e trabalhar, trabalhar, viajar trabalhando, fazer turismo, jantar fora, namorar – essas coisas. Hoje, sair para quê? As ruas estão perigosíssimas, as conversas (geralmente) muito cacetes, tenho bebido pouquíssimo, em domicílio há comida ótima, computador, jornais, televisor grande, chuveiro, cama de viúva, livros a montões, charutos. E água mineral gelada. Faz calor. Vou tomar um copo grande e talvez volte para continuar nossa conversa.


Sinonímia
Tenho sido “removido com sucesso”, depois que aprendi a procurar na lista imensa de e-mails recebidos um lugar em que, clicando, me dizem que fui removido com sucesso. O leitor, que me conhece de outros carnavais, sabe que sou educadíssimo e incapaz de escrever aquela palavra de quatro letras, que começa com pê. Por isso recorro à sinonímia, que retirei de um livro de Eduardo Frieiro, para lhes dizer que o meu endereço eletrônico particular foi vendido por um filho de berregã, messalina, vênus vaga, afrodita mercenária, frineia de sarjeta, Dalila barata, zabaneira, peripatética, horizontal, rascoa, galdrana, michela, trintaques, franjoca, fúcia, forpela, fregona – foi vendido a um comprador de listas de endereços, que, por seu turno, não passa de um filho da ambubaia, ganirra, malunga, comborça, calona, patragona, cambonda, boneja, bagacha, polha, rebombeira. Há mais, muitos mais nomes para qualificar quem vende e quem compra as tais listas.


Dificuldade
É claro, como também é óbvio e evidente, que deve haver um jeito para enfronhar um travesseiro. O adjetivo enfronhado, que se enfronhou, significa tornar(-se) versado, instruir(-se), tomar conhecimento pleno de um assunto, coisa que não consigo na hora de enfiar meu travesseiro numa fronha compatível. Não deve ser difícil, mas prefiro escrever 800 palavras: acho mais fácil e mais divertido do que enfiar o travesseiro no saco que tricoline que retiro do armário. Todos conhecemos senhoras e senhoritas que trocam diversas fronhas por dia. Se exerce a função de arrumadeira de motel, a brasileira troca dúzias por hora, além de limpar os apartamentos. Falta ao operário brasileiro, com raras exceções, a eficiência da arrumadeira de motel. Até aqui foram 120 palavras e não tive a milésima parte do trabalho de ontem, quando fui obrigado a trocar a fronha do travesseiro lá do quarto.


O mundo é uma bola
1º de fevereiro de 1718: erupção da Montanha do Pico, na Praia do Almoxarife, nos Açores. Em rigor, a notícia não teria o menor interesse nestas Minas e neste ano de 2014, não fosse o fato de o Pico ser a terra natal do meu bom amigo Artur T. Bettencourt, advogado em Pouso Alegre. Em 1908, o rei Carlos I de Portugal e o seu filho mais velho Luís Filipe, duque de Bragança, são assassinados no Terreiro do Paço, em Lisboa, por Manuel Buiça e Alfredo Costa, membros da Carbonária. No mesmo dia, Manuel II ascende ao trono. A Carbonária foi uma sociedade secreta que atuou na Itália, França, Espanha e Portugal nos séculos 19 e 20. Em 1918, a Rússia adota o Calendário Gregoriano. Em 1924, o Reino Unido reconhece a União Soviética. Em 1924, enquanto o Reino Unido reconhecia a URSS, o papa Pio XI elevava a diocese de Belo Horizonte à categoria de arquidiocese. Em 1952, no Rio de Janeiro, inauguração do Aeroporto Internacional do Galeão, que hoje luta para ser reinaugurado antes da Copa. Em 1974, incêndio no Edifício Joelma, em São Paulo, mata 179 e fere 300 pessoas. Hoje é o Dia do Publicitário.


Ruminanças
“É afinal o Rio de Janeiro a única cidade brasileira em que vale a pena morar” (Eduardo Frieiro, 1889-1982).

A saúde, as namoradeiras e a rua‏ - Aristides José Vieira Carvalho

A saúde, as namoradeiras e a rua


Aristides José Vieira Carvalho
Médico, mestre em medicina, especialista em medicina de família e comunidade e clínica médica

Estado de Minas: 01/02/2014



Andando pelas ruas de uma cidade do interior de Minas Gerais vi nas janelas de várias casas as famosas namoradeiras, bonecas do artesanato mineiro, que “esperam pelo amor perfeito”. Dizem os estudiosos e artistas que elas são mulatas e negras para denunciar o preconceito que existe contra essas mulheres. Pois é, fiquei pensando: o que olham? São olhares doces, ora distantes, ora penetrantes, ora fantasiosos, ora reais. De longe são mulheres na janela, de perto são criações humanas, obras de arte.

Chama-me a atenção o fato de que cada namoradeira tem o seu ângulo de visão. Nenhuma delas vê a rua inteira. Quando me vem a imagem das namoradeiras na janela olhando a rua, penso nas diferentes ruas dos vários “Brasis”, com seus encantos e desencantos. As namoradeiras de Minas Gerais me fazem viajar na imaginação e ancorar meus pensamentos na área da saúde.

Muitos olhares que se voltam para a área da saúde têm a limitação do olhar da namoradeira. Conseguem ver uma parte da rua, mas não veem a rua por inteiro. Penso na beleza e no desafio da gestão dos serviços de saúde. Uma gestão benfeita, compartilhada e participativa, que utiliza o que há de mais novo e conhecido no planejamento em saúde em seus componentes estratégico-situacional e participativo, poderá trazer um novo colorido à atenção à saúde da população. Essa constatação reforça a ideia de que a construção de serviços de saúde capazes de atender de forma digna o cidadão precisa de um olhar capaz de captar os vários olhares que veem a rua.

Pois é, quando passei pela janela, percebi que estava em um ângulo que a namoradeira não mais me via. Se ela quisesse notícias minhas, teria que conversar com a namoradeira da janela ao lado. Mas as namoradeiras não conversam. Pensei comigo mesmo: se, na saúde, não buscarmos os olhares que veem ângulos que não vemos, ficará difícil dar respostas aos problemas que se apresentam. E se não houver uma abertura ao diálogo, uma humildade (tanto do “eu” quanto do “tu”) para perceber que o outro consegue ver algo que não é percebido, o olhar será limitado, sem brilho e inventará necessidades e justificativas para aqueles que estão fora do ângulo que se pode ver pela janela.

Infelizmente, interesses de alguns grupos colocam viseiras que impedem ver o entorno e as casas que fazem parte da rua. Isso acontece quando os serviços de saúde são “organizados” sem um diagnóstico criterioso e dinâmico da situação de saúde e/ou as intervenções são incoerentes, fragmentadas e deslocadas do contexto sociopolítico, econômico e cultural.

Quando reflito sobre o olhar do programa Mais médicos, penso que ele traz à tona uma preocupação real da gestão dos serviços de saúde e uma demanda antiga da população: faltam médicos em várias cidades brasileiras. É preciso agir. Mas a implementação do programa, reproduz o olhar da namoradeira. Viu por um ângulo da janela. Não viu a rua inteira. Não conseguiu ir ao fundo da questão, porque o problema não é só a falta de médicos. Vai além. A implementação do programa fez uso de um olhar que não viu as condições de trabalho, a remuneração profissional, feriu critérios, atropelou acordos e avanços costurados no decorrer dos anos. Não compartilhou com os olhares de outras namoradeiras e viu apenas uma parte da rua.

É inegável a complexidade da atividade do gestor em suas dimensões técnicas, administrativas e políticas. Tal complexidade nos leva a pensar que com um olhar isolado, que não compartilha com outros olhares a sua visão e não se permite crescer com o olhar do outro, o gestor poderá abrir frentes, mas, provavelmente, não obterá os melhores resultados. Fazer o “movimento” para que aconteça a partilha dos olhares e buscar mais saúde para o cidadão é o desafio e a beleza da gestão.

Sou um apaixonado pela arte mineira. Gosto da namoradeira. Para mim ela representa a ousadia e a criatividade de um povo que romanceia a vida e faz denúncias com sua criação artística. Desculpem-me por apresentar a limitação do olhar da namoradeira e não destacar as tantas belezas que possui.

A gestão em saúde, assim como as namoradeiras, espera o “amor perfeito”. Na perspectiva da saúde, o amor perfeito pode ser traduzido por um serviço acolhedor, humanizado, digno, resolutivo, que busca sempre mais atender as necessidades das pessoas. Já avançamos muito. Aprendemos a olhar a rua e trocar informações sobre os nossos olhares. Crescemos. Mas, como qualquer ser humano, ainda atropelamos processos. Oxalá, nessa caminhada, feita com erros e acertos, tenhamos humildade e coragem para rever os passos equivocados, fortalecer as opções corretas e abraçar olhares construídos na partilha. Assim, enxergaremos um pouco mais a rua e conquistaremos mais saúde para a nossa população.

Beijo gay faz história - Ângela Faria

Beijo gay faz história 
 
Pela primeira vez, casal homossexual masculino se beija em telenovela brasileira. Cena precisou ser regravada para ir ao ar
 
Ângela Faria

Estado de Minas: 01/02/2014


Atores torceram para o final feliz dos personagens que ganharam a simpatia dos telespectadores    ( Marcos Vieira/EM/d.A Press/Reprodução)
Atores torceram para o final feliz dos personagens que ganharam a simpatia dos telespectadores


O final feliz do casal formado pelos personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), em Amor à vida , significou também um marco para a história das novelas no país. Pela primeira vez, foi exibida na televisão brasileira um beijo entre dois gays masculinos. O momento foi marcado por muita delicadeza e declarações de amor. Félix, o vilão redimido, se declarou ao companheiro: “Você mudou a minha vida”. E ouviu como resposta: “Félix, eu não vivo sem você!”. Foi nesse clima de cumplicidade, que os dois se beijaram numa cena que exigiu regravação até ser liberada pela Rede Globo.

Logo após o fim da novela, a Rede Globo divulgou uma nota sobre a trama. “Toda cena de novela é consequência da história, responde a uma necessidade dramatúrgica e reflete o momento da sociedade. O beijo entre Felix e Niko selou uma relação que foi construída com muito carinho pelos dois personagens. Foi, portanto, o desdobramento dramatúrgico natural dessa trama. A pertinência desse desfecho foi construída com muita sensibilidade pelo autor, diretor e atores e assim foi percebida pelo público. É importante lembrar que o relacionamento homossexual sempre esteve presente nas nossas novelas e séries de maneira constante, responsável e natural. A cena esteve de acordo com essa premissa e com a relevância para a história.”

Personagens de novelas brasileiras “saem do armário” há tempos, mas o primeiro beijo gay feminino só rolou em maio de 2011, em Amor e revolução, folhetim exibido pelo SBT/Alterosa. Não foi um selinho: a cena durou nada menos de 40 segundos – e com direito a pezinho levantado! Luciana Vendramini e Giselle Tigre interpretaram a advogada Marcela e a empresária Marina, dona de um jornal de oposição à ditadura militar.

Em seu blog, Aguinaldo Silva, novelista da Rede Globo, bateu palmas para Silvio Santos, proprietário do SBT. “Ele deve ter visto a cena, soltado um ho-ho-ho daqueles e decretado: libera!”, escreveu o pioneiro do movimento gay brasileiro.

Mês passado, a Rede Globo quebrou um “autotabu” ao exibir a modelo Vanessa, de 27 anos, e a empresária Clara, de 25, beijando-se em Big brother Brasil. Com isso, aumentaram as especulações sobre cenas gays mais calientes na despedida de Amor à vida.

A Globo até destrancou armários, mas foi uma verdadeira “Odete Roitman” com seus belos gays. O adolescente Júnior (Bruno Gagliasso) e o peão Zeca (Erom Cordeiro), casal da novela América (2005), ficou “na seca”. Horas antes de o capítulo ir ao ar, a emissora vetou a cena já gravada do beijo. A autora Gloria Perez expressou publicamente sua frustração com a censura interna.

Em Senhora do destino, antecessora de América e escrita por Aguinaldo Silva, Jennifer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie) moravam juntas e até tiveram filho adotivo, mas beijo nunca rolou. Em Paraíso tropical (2007), de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, os namorados Rodrigo (Carlos Casagrande) e Tiago (Sérgio Abreu) conviveram sem neuras com outros personagens – mas nada intimidades explícitas.

Casamento Em Insensato coração (2011), foi a vez de Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo): eles se casaram, mas sem um beijinho sequer diante do juiz de paz. Sorte muito pior tiveram Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska) em Vale tudo (1988/1989): Cecília morreu em acidente de carro. Mas tragédia, mesmo, sobrou para as lesbian chics Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer) em Torre de Babel (1998), de Sílvio de Abreu. As duas se desintegraram, literalmente, na explosão de um shopping center! Três anos antes, o branco Sandrinho (André Gonçalves) e o negro Jefferson (Lui Mendes) foram brindados com final mais feliz em A próxima vítima – sem beijo, claro.

Em Mulheres apaixonadas (2003), Manoel Carlos mandou para a telinha um casal de adolescentes: Clara (Paula Picarelli) e Rafaela (Alinne Moraes). No último capítulo, até rolou um selinho sem sal, enquanto a dupla encenava uma peça de teatro. Segunda-feira, o autor volta à Globo com a missão de substituir Félix e Nico de Amor à vida. Giovana Antonelli interpreta a mãe de família Clara, que vai se apaixonar pela jovem fotógrafa Marina (Tainá Müller). Beijo de língua à vista? Pode ser, mas, por via das dúvidas, é bom lembrar: o nome da novela é Em família...