quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Eduardo Almeida Reis - Noticiário‏

Noticiário
 
Direitos humanos foram pensados para humanos, coisa que os dois nunca foram

Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 06/02/2014


Jennifer McCarthy, de 48 anos, ex-mulher de 1977 a 2006 do escritor norte-americano Cormac McCarthy, Prêmio Pullitzer, estava discutindo sobre alienígenas com o seu namorado de 53 anos, quando saiu de casa e voltou vestindo lingerie, tendo como acessório uma pistola niquelada em sua vagina. Depois de usar a arma para se masturbar, perguntou ao namorado: “Quem é mais louco, você ou eu?”. Pegou o consolador, niquelado e municiado, apontando-o para a cabeça do namorado, que lutou com ela até tomar a pistola. Foi presa e sua foto na delegacia mostra que é magra, pode ter sido bonita e tem 1,68m de altura. Cormac McCarthy escreveu, entre outros, os livros A estrada e Onde os velhos não têm vez. Realmente, os velhos não podem competir com uma pistola niquelada e municiada. Esta foi uma das notícias que recebi por meio do meu provedor de internet, considerando que não leio o Huffington Post, um blog fundado em 2005 por Jonah Peretti, Andrew Breibart, Arianna Huffington e Kenneth Lerer, que tem 1.723.021 followers (seguidores) no Google. Presumo que mais de 1,5 milhão followers estejam assustadíssimos com a notícia, porque todos os norte-americanos têm armas em casa. Ainda que não seja niquelada, toda arma passou a ser um perigo perigosíssimo, não só como vibrador que atira, como também pela possibilidade de apontar o dildo para a cabeça do parceiro. Engraçado: minha bateria de dicionários é omissa quanto ao dildo, que tem no Sex Toy (brincadeira de gente grande) da internet por diversos preços, modelos comuns ou vibratórios.


Imputabilidade
Os dois brasileiros que mataram o casal de advogados na Serra do Cipó são imputáveis? Claro que não! Deveriam ter sido eliminados há vários anos. Basta ver as caras da dupla e os furos nas orelhas, dos quais a polícia deve ter retirado os brincos. Prisão, julgamento, condenação a não sei quantos anos de cadeia vão custar uma fortuna ao país, que não nada em ouro. Ressocialização? Alguém acredita que a dupla seja ressocializável? Tive grande amigo, desembargador no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que criticava a pena de morte pela possibilidade do erro judiciário, mas defendia os esquadrões da morte: “Não erram uma”. A dupla de latrocidas da Serra do Cipó, no tempo da gloriosa polícia mineira, seria feita num piscar de olhos. O verbo fazer tem um caminhão de significados, entre eles um que o leitor entendeu perfeitamente. Direitos humanos foram pensados para humanos, coisa que os dois nunca foram.


Elementar
Compartimento de uma residência onde são preparados alimentos, a cozinha costuma ter pia, armários, fogão, geladeira e outras conveniências domésticas. Quem foi que disse que uma cozinha não pode ter quadros? A minha tem duas gravuras imensas, emolduradas com vidros, ideia de uma das meninas quando viu as dezenas de quadros que sobraram com a mudança aqui para o apartamento. O atual é muito bom e grande, três quartos, duas salas, dois banheiros com bidês e um sem, cozinha grande, área e dependências descomunais. Acontece que o anterior, em BH, era dúplex e só as salas do andar de baixo tinham 18m de comprimento. Havia paredes à beça e à bessa, que foram enfeitadas com quadros nos conformes do gosto e das finanças do locatário. Quadros e móveis, alguns da melhor supimpitude, que sobraram na mudança. Dir-se-á que um apê imenso configura exagero de um philosopho que vive sozinho: sim e não. Se o pagamento do aluguel é feito com dinheiro ganho honestamente, posso morar num Maracanã, num Mineirão, que ninguém tem nada com isso. Na cozinha enfeitada com as gravuras, a próxima etapa será a pintura dos azulejos. Disseram-me que há tintas próprias para pintar azulejos, que, no caso, são horríveis para o meu gosto. Acabo de confirmar no Google que há tintas para azulejos. Estou feito! Paredes brancas, gravuras, pia e bancada inox, armários de lata e o mais importante: pinguim em cima da geladeira. É o pormenor kitsch indispensável em toda cozinha.


O mundo é uma bola
6 de fevereiro de 1336: casamento por procuração de dom Pedro, o Justiceiro, herdeiro do trono português, com Constança Manuel (1318-1345), nobre castelhana, rainha de Leão e Castela, mãe de dom Fernando, rei de Portugal. Dia 24 de agosto de 1339 houve a confirmação do casamento com a presença dos noivos. A história de Constança Manuel é muito complicada para caber aqui. O certo é que no seu séquito de aias estava Inês de Castro, jovem galega, filha natural do poderoso fidalgo Pedro Fernandes de Castro. Por ela se apaixonaria o príncipe dom Pedro “homem arrebatado, brutal e com o seu quê de vesânico”. Vesânico, relativo a vesânia, é denominação genérica das diferentes formas de perturbação ou alienação mental. Resumindo: dom Pedro, o Justiceiro, o Cru, o Cruel, era pinel. Dois séculos mais tarde Camões poetaria: “Inês de Castro, a mísera e mesquinha que depois de morta foi rainha”. Em 1608 nasceu na Rua do Cônego, perto da Sé, em Lisboa, o primogênito dos quatro filhos de Cristóvão Vieira Ravasco, alentejano, cuja mãe era filha de uma africana, e de Maria de Azevedo, lisboeta, menino que foi o padre Antônio Vieira, S. J.


Ruminanças
“Quem não muda de caminho é trem” (Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o barão de Itararé, 1895-1971).

GINECOLOGIA » Identificadas moléculas ligadas à endometriose grave‏

GINECOLOGIA » Identificadas moléculas ligadas à endometriose grave



Isabela de Oliveira
Estado de Minas: 06/02/2014


Pesquisadores estimam que 10% das mulheres sofram com a endometriose, uma doença de origem desconhecida e que causa dores insuportáveis e infertilidade, dependendo da gravidade. Tanto mistério sobre a origem do problema faz com que os tratamentos se limitem a duas opções: terapia hormonal e, nos casos mais avançados, cirurgia. Resultados de estudo publicado na edição de hoje da revista Science Translational Medicine, porém, sinalizam um primeiro passo em direção a novas intervenções terapêuticas, levando, inclusive, à possibilidade de terapias personalizadas.

O endométrio reveste a parede interna do útero e é uma das regiões do sistema reprodutor feminino mais afetadas pelas alterações no ciclo menstrual. Lá, o óvulo se aloja após a fertilização e, caso a mulher não engravide, parte dessa mucosa sai durante a menstruação. Mas isso não ocorre com quem tem a endometriose. Em vez de serem eliminadas, as células seguem para os ovários ou a cavidade abdominal, onde se depositam. As duas possibilidades mais fortes para a ocorrência do problema são a de um refluxo do sangue pelas trompas.

A doença também se caracteriza pela inflamação aguda no sistema reprodutor. Por isso, muitas moléculas que participam desse processo inflamatório têm sido estudadas, uma de cada vez ou em grupos de tamanho limitado. Os cientistas tentam, com isso, identificar marcadores que caracterizem a endometriose de forma mais precisa. Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (EUA), no entanto, apostaram na investigação de um grupo maior de fatores inflamatórios do endométrio, todos ao mesmo tempo.

Para isso, mediram as concentrações de 50 moléculas presentes no fluido abdominal de 77 pacientes. Mesmo sabendo que cada mulher sofreria com um estágio diferente da doença, os pesquisadores preferiram não separá-las nos níveis 1, 2, 3 e 4 de gravidade, como os médicos costumam fazer. “Preferimos uma análise multivariada, em que identificamos conjuntos de moléculas em vez de pacientes, independentemente do grau de doença de cada uma delas”, explicou Linda Griffith, uma das autoras da pesquisa.

Durante as análises, os cientistas perceberam que um grupo de mulheres, aquelas que sentiam mais dores e precisavam ser submetidas a intervenção cirúrgica, tinha um conjunto de 12 moléculas que se modificava em um processo em cadeia. Ou seja, o comportamento de uma dependia sempre do da outra. Essa relação, segundo Linda, é orquestrada pelos macrófagos, células ligadas à defesa do organismo.

“Os colocamos em cultura e descobrimos que eles secretavam substâncias semelhantes. Depois, testamos diversas drogas e descobrimos que os inibidores de quinase reduziam substancialmente essa produção, o que nunca foi visto antes”, disse a pesquisadora.

De acordo com Linda Griffith, a análise multivariada de redes inflamatórias permitiu identificação de subgrupos de pacientes mais graves. “E também em quais mulheres os tratamentos hormonais não têm eficácia”, completa.

dor amenizada O ginecologista e obstetra Jurandir Passos, explica que as quinases são enzimas envolvidas em diversos processos inflamatórios. “Esses pesquisadores descobriram que, quando utilizam os inibidores de quinase, é possível impedir a produção dessas substâncias inflamatórias. Assim, pode-se acabar com a dor sofrida pelas pacientes”, diz. O especialista ressalta que o tratamento proposto é para amenizar os sintomas da endometriose, não para curar o problema.

Segundo Passos, ainda é cedo para apostar em um novo tratamento, ainda que a pesquisa tenha aberto o caminho no desenvolvimento de novas possibilidades de intervenção. “Os pesquisadores, além de proporem uma maneira diferente de classificar as pacientes, sugerem outro tipo de tratamento. É um estudo sério e muito promissor, mas ainda precisamos aguardar mais pesquisas com um grupo maior de mulheres para realmente afirmarmos alguma coisa”, pondera.

Sensibilidade recuperada‏ - Vilhena Soares

Sensibilidade recuperada 
 
Prótese desenvolvida por cientistas da Itália e da Suíça permitiu que paciente diferenciasse o peso e o formato de objetos quase 10 anos depois de ter tido a mão amputada 
 
Vilhena Soares
Estado de Minas: 06/02/2014


Conseguir recuperar o movimento de um membro do corpo é um desafio que há muitos anos intriga cientistas. Pesquisadores da Suíça e da Itália divulgam, hoje, resultados de um trabalho promissor na área. Eles criaram uma prótese que, depois de instalada na mão esquerda de um paciente, permitiu que ele recuperasse a sensibilidade do tato com a precisão e o equilíbrio do toque perdidos há 10 anos.

O protótipo foi testado em Dennis Aabo Sorensen, de 36 anos. O dinamarquês teve a mão amputada depois de um acidente com fogos de artifício. Silvestro Micera, cientista da Escola Politécnica Federal de Lausana (Suíça) e um dos responsáveis pelo trabalho, destaca o ineditismo dos resultados, divulgados hoje na revista científica Science Translational Medicine. “Esta é a primeira vez em que uma neuroprótese sensorial foi restaurada e usada por um amputado em tempo real para controlar um membro artificial”, declarou em comunicado de imprensa.

Os pesquisadores instalaram eletrodos ultrassensíveis no braço de Dennis. Por meio de algoritmos de computador, conseguiram transmitir as respostas do sistema nervoso do voluntário para a prótese, fazendo com que ela mexesse os tendões com movimentos semelhantes ao do braço humano. Um dos desafios era descobrir a intensidade elétrica necessária para esse efeito, já que os impulsos iniciais, muito fortes, precisaram ser “afinados” para resultar em movimentos suaves.

Outra preocupação era como o organismo do paciente reagiria à intervenção. “Estávamos preocupados com diminuição da sensibilidade nos nervos de Dennis, já que eles não haviam sido utilizados em mais de nove anos”, destacou Stanisa Raspopovic, primeiro autor do estudo. O voluntário já havia participado de testes com outra prótese, mais simples. Utilizando a nova, conseguiu segurar objetos e diferenciar a forma e a consistência deles, além de controlar a intensidade da força para a realização dos testes.

Aperfeiçoamento Os eletrodos foram retirados de Sorensen depois de um mês de experimento, mas os pesquisadores acreditam que a tecnologia poder ser usada por anos sem nenhum dano ao organismo de pacientes. Por isso, trabalham agora no desenvolvimento de uma prótese mais portátil. A intenção é reduzir o tamanho da parte eletrônica do dispositivo, a responsável pelo feedback sensorial.

Marcelino Andrade, professor de engenharia eletrônica da Universidade de Brasília (UnB), acredita que, além de trabalhar em um dispositivo portátil, os cientistas devem buscar uma forma de fazer com que a intervenção seja menos agressiva ao corpo humano. “Trata-se de um processo invasivo, no qual precisamos da implantação cirúrgica dos eletrodos para que o sistema funcione. É bastante eficaz, porém trabalhoso. No futuro, seria muito mais interessante tornar esse processo mais simples e prático”, destaca.

Andrade, que não participou do estudo, diz ainda que o fato de Dennis Sorensen ter tido experiência anterior com uma prótese pode ter interferido nos resultados. “A vivência com o aparelho foi essencial para o bom desempenho, já que saber utilizar um material como esse é uma tarefa um pouco complexa e que exige muito treino”, explica.

Para o especialista, o biofeedback sensorial, que permitiu ao usuário da prótese identificar a textura e o peso de objetos, é o grande avanço conquistado pelos cientistas. “Porém, é somente um primeiro passo. A sensibilidade do tato precisa de mais aperfeiçoamento para preencher esse sentido do corpo humano por completo”, pondera.

Saiba mais
Dispositivos em evolução

As primeiras próteses se limitavam a reproduzir a anatomia do membro perdido. Com o avanço da tecnologia, elas têm se sofisticado e buscam cada vez mais substituir as funções perdidas. Os implantes cocleares, por exemplo, ao serem implantados no ouvido humano, auxiliam a recuperação da audição. As próteses de pernas têm sido usadas com sucesso principalmente por atletas paralímpicos. Em abril do ano passado, Patrick Kane, um estudante inglês de 16 anos, começou a testar uma prótese de mão que pode ser configurada e ativada com um aplicativo de iPhone. O programa tem ícones para combinar os dedos de 24 maneiras diferentes, imitando gestos, como, por exemplo, deixar os dedos artificiais adequados para digitar.  

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Depois daquele beijo - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 05/02/2014

Quase todas as novelas acabam virando o samba do crioulo doido da metade para o final. Os autores precisam esticar a trama e aí personagens que no início eram interessantes tornam-se patéticos e a história que fazia sentido passa a não fazer mais sentido algum, a lógica vai para o espaço. Salva-se quem tiver talento acima da média, caso de Mateus Solano, que defendeu seu Félix com bravura e humor, virando o grande destaque de Amor à Vida.

Coube a ele e a Thiago Fragoso a cena histórica da tevê brasileira: o primeiro beijo de amor entre dois homens. Quem vinha acompanhando o desenrolar do relacionamento dos personagens Félix e Niko certamente não se chocou. Se houvesse uma palavra para traduzir aquela relação, seria ternura. O oposto de depravação.

Eu não esperava que o beijo ocorresse. Pega de surpresa, meu senso crítico (bem crítico!) em relação à novela desapareceu e me vi emocionada e feliz por todos os homens e mulheres que vivem um amor homossexual, e por seus pais, e por todos nós. Uma nova sociedade começava ali a sair do armário.

Não se pode desmerecer o alcance de uma novela das nove, ainda mais em seu capítulo final. Dezenas de milhões de pessoas assistiram dentro de suas casas a uma realidade que a cada dia se torna menos secreta. Ouvi de alguém uma comparação espantosa: que assim como os telejornais não mostraram as cenas de cabeças cortadas na penitenciária de Pedrinhas, no Maranhão, as novelas também deveriam se abster de mostrar o beijo gay, bastaria uma insinuação. Se entendi bem, o beijo estaria sendo considerado violento.

Os beijos podem ser românticos, eróticos, indecentes (os melhores), mas só são violentos quando acontecem contra a vontade. Afora isso, são detonadores de histórias de amor – ou de ilusões de amor, que seja. A partir deles, sempre começa alguma coisa (o.k., não nesta era de ficações banais, mas permita-me ser nostálgica). Assim como na vida real, os beijos do cinema, do teatro e da televisão ajudam a construir uma narrativa. E o que a história de Félix e Niko contou foi que homens enamoram-se entre si, sentem ciúme, ficam inseguros, reatam, tudo como ocorre entre héteros. Mesmo ainda não sendo considerados casais convencionais, podem ser tão amorosos quanto. Há alguma obscenidade no amor? Nenhuma. Não há obscenidade nem no sexo, não quando consentido e entre maiores de idade.

Obscenidade é quando a grosseria nos remete ao nosso estado mais primitivo, mais irracional. Não fazemos questão de ver cabeças cortadas na tevê porque nos dói admitir o quanto o ser humano é descontrolado e feroz. Em contrapartida, nunca haverá razão para cortar cenas de afeto que nos façam lembrar o quanto podemos ser doces, estejamos em cena ou simplesmente aplaudindo de fora.