sábado, 8 de fevereiro de 2014

MEMÓRIA » Nico Nicolaiewsky dá adeus a Sbórnia‏

MEMÓRIA » Nico Nicolaiewsky dá adeus a Sbórnia
Estado de Minas: 08/02/2014


Os atores e músicos gaúchos Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez divertiram o Brasil com Tangos e tragédias   (Nó de Rosa/divulgação)
Os atores e músicos gaúchos Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez divertiram o Brasil com Tangos e tragédias

A alegria está de luto. Morreu ontem o ator, músico, compositor e humorista Nico Nicolaiewsky, de 56 anos. Ele estava internado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, para tratar de uma leucemia. O artista se tornou conhecido em todo o Brasil por sua atuação em Tangos e tragédias, no qual contracenava com Hique Gomez.

Criada em 1984, a montagem reunia música, humor e teatro, apostando na interação com o público. Com quase 30 anos de carreira, Tangos e tragédias foi apresentado várias vezes em Belo Horizonte. Devido à internação de Nicolaiewsky, a temporada de verão no Theatro São Pedro, na capital gaúcha, teve de ser cancelada.

Nico e Hique interpretavam o maestro Plestkaya e o violinista Kraunus Sang, cidadãos de um país imaginário chamado Sbórnia. O duo conquistou os brasileiros ao brincar com dramas do dia a dia, dores de cotovelo e a conjuntura política do país. Tangos e tragédias deu origem ao longa-metragem de animação Até que a Sbórnia nos separe, dirigido por Otto Guerra, que está sendo editado em 3D – a primeira produção gaúcha nesse formato. O filme deve ser lançado no circuito comercial este ano.

O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), lamentou a morte do artista nas redes sociais, assim como vários artistas, como o compositor e cantor gaúcho Humberto Gessinger, a banda Nenhum de Nós, a cantora Fernanda Takai, o humorista Rafinha Bastos e os músicos Lucas Lima e Duca Leindecker.

Saracura Nascido em Porto Alegre, Nico Nicolaiewsky construiu sólida carreira, que não se limitou a Tangos e tragédias. Na década de 1970, ele participou do musical Saracura, que mesclava o cancioneiro regional gaúcho à MPB, ao legado tropicalista e ao rock. Em 2002, integrou o elenco da ópera cômica As sete caras da verdade.

O gaúcho morou 10 anos no Rio de Janeiro, onde estudou com o maestro Hans-Joachim Köellreuter. Deixou dois discos solo: Nico Nicolaiewsky (1996), com valsas e canções líricas, e Onde está o amor? (2007), produzido pelo mineiro John Ulhôa, guitarrista da banda Pato Fu.

Casado com a atriz Márcia do Canto, o ator e músico deixa uma filha, Nina, de 20 anos.

Até que a Sbórnia nos separe: do palco para as telas de cinema (Mostra SP/divulgação)
Até que a Sbórnia nos separe: do palco para as telas de cinema


Versão em espanhol

Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez se preparavam para comemorar os 30 anos de Tangos e tragédias, que estreou em 1984. Desde 1987, a montagem fazia temporada de verão em Porto Alegre, sempre com sessões lotadas. A dupla classificava seu trabalho como “um espetáculo cult, uma espécie de vale a pena ver de novo do teatro brasileiro”. Além das principais casas do país, as turnês de Tangos... chegaram ao exterior. A dupla gaúcha criou versão em espanhol que circulou por Argentina, Equador, Colômbia e Espanha, entre outros países. Hique e Nico fizeram muito sucesso também em Portugal.

CINEMA » Humor e requinte‏

CINEMA » Humor e requinte 
 
Dirigido por Wes Anderson, filme inspirado no escritor Stefan Zweig encanta na abertura da Berlinale. Ralph Fiennes e Tom Wilkinson são protagonistas de The Grand Budapeste Hotel 


Pablo Gonçalo/Especial para o EM
Estado de Minas: 08/02/2014


Ralph Fiennes e Tony Revolori interpretam o mordomo e o boy do charmoso hotel de um país imaginário chamado Zuborwska  (Berlinale/divulgação)
Ralph Fiennes e Tony Revolori interpretam o mordomo e o boy do charmoso hotel de um país imaginário chamado Zuborwska

Berlim – Com céu límpido e pouca neve, Berlim abrigou a paleta de cores de The Grand Budapeste Hotel (2014), de Wes Anderson, filme de abertura da 64ª Berlinale. Fruto de uma coprodução entre a Alemanha e a Fox, o longa foi rodado nos estúdios de Babelsberg, em Potsdam. Lendário, esse estúdio se transformou na sede da UFA, onde alguns dos filmes de Fritz Lang e Friedrich Murnau foram feitos. Durante o governo nazista, Goebbels interferiu estrategicamente na UFA e dali coordenou a produção de películas antissemitas. Vieram a Segunda Guerra Mundial, o muro, décadas de abandono. Desde 1992, Babelsberg voltou a receber investimentos maiores, o que permitiu coproduzir obras como Bastardos inglórios (2009), de Quentin Tarantino.

De forma sutil, a história da UFA reverbera entre o glamour e os galpões vazios que rondam The Grand Hotel, situado no país imaginário de Zuborwska. Dali, Wes Anderson narra o auge e o declínio do hotel de luxo que hospedou aristocratas, novos-ricos e soldados fascistas. É lá que reina monsieur Gustav H. (Ralph Fiennes), um charmoso e sofisticado mordomo, cuja presença é reconhecida de longe pelo olfato característico do perfume L’air de Panache.

O cerne da trama se concentra nos ensinamentos de hábitos requintados, confissões, segredos e decoro com a aristocracia que monsiuer Gustav passa a Zero Moustafa (Tony Revolori), um simples lobby-boy em início de carreira. Com química própria, a dupla de personagens funciona de forma ímpar, envolve-se na briga pela herança de família que vive no castelo Lutz e retrata a cultura de solidariedade hoteleira que se alastra por vários continentes.

Aristocracia  Com planos dinâmicos e versáteis, Wes Anderson atinge o cerne do imaginário aristocrático da Europa Oriental do início do século 20. Como quadros dentro de quadros, o filme conta as narrativas do livro The Grand Budapeste Hotel, sobre história de um escritor de meia-idade (Tom Wilkinson) que encontra o personagem Zero Moustafa já velho e milionário. É nessa sobreposição de tempos distintos que se alcança o encanto de monsieur Gustav. Anderson, habilmente, sintetiza esse universo em seu trabalho coreográfico, prenhe de detalhes, que narram a caixa rosa dos doces Muld’s, as cores renascentistas de um quadro roubado, os bigodes dos personagens.

No ambiente de abertura do festival, The Grand Budapeste Hotel soava como uma escolha certeira e os gracejos de Wes Anderson assumiam explicitamente as referências às antigas comédias da UFA. Empolgado, o cineasta citou influências de divertidas obras de Ernst Lubitsch, outro diretor que se formou em Babelsberg, como Ser ou não ser (1942) e A loja da esquina (1940).

Durante entrevista coletiva, Wes Anderson enfatizou sua admiração pelo escritor Stefan Zweig, cujas histórias lhe foram inspiradoras. Como bem diz o personagem do filme, cujo semblante lembra Zweig, a um escritor cabe apenas o papel de recolher, organizar e escutar as histórias prontas que as outras pessoas procuram compartilhar. The Grand Budapeste Hotel seduz o espectador por envolvê-lo nessa fascinante teia que remete ao prazer, singelo, de contar e ouvir uma boa história.
 (TV Brasil/divulgação)

Saiba mais

STEFAN ZWEIG

Austríaco de origem judaica, Stefan Zweig (1881-1942) é um dos nomes mais importantes da literatura mundial. Romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo, ele escreveu Amok, Angústia e Confusão de sentimentos, entre vários outros livros. Deixou uma obra-prima: a biografia de Maria Antonieta. Com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, ele e a mulher, Lotte, abandonaram a Europa. Depois de morar nos EUA, o casal decidiu se radicar em Petrópolis (RJ). Zweig (foto) é autor do ensaio Brasil, país do futuro. Inconformado com a propagação do autoritarismo e descrente do futuro da humanidade, o casal se suicidou em 1942. Stefan e Lotte estão enterrados em Petrópolis.

ARNALDO VIANA-Bom dia, cavalo (2)‏

Bom dia, cavalo (2)
ARNALDO VIANA
Estado de Minas: 08/02/2014


 (Arnaldo Viana/divulgação)

Continuo no meu posto avançado, na Avenida Cristiano Machado, ruminando o comportamento humano. Não me recriminem pelo uso do verbo ruminar, que significa remoer o alimento que volta do estômago à boca – ou mastigar de novo. Estou ruminando meus pensamentos. O “ruminando” pode ser interpretado como uma espécie de metonímia. É que os pensamentos vêm e voltam, como o capim no aparelho digestório do boi.

Como eles vêm e voltam, lembro-me de reportagem publicada neste jornal, feita por meninos e meninas do caderno Gerais, sobre a presença de animais nas ruas. Um cidadão, se não me engano do Bairro Buritis, exclama com todos os verbos, adjetivos, substantivos e afins: “Como podem deixar esses bichos à solta? E se eles atacarem a gente?”. Olhe aqui, mano, ou melhor, olhe à sua volta. Veja exatamente quem o ameaça. É alguém à sua imagem e semelhança, meu caro. Ninguém bota cerca elétrica no muro nem câmera na porta de casa por causa de cavalo, jumento ou cachorro à deriva urbana. Eu nem deveria usar a locução “por causa”. A moda agora, na contradição humana, é usar “por conta”, que significa outra coisa.

Vamos voltar ao que interessa. Não preciso ir longe para comprovar a irracionalidade entre humanos. Vejo exemplos claros disso nas pistas da tal Linha Verde, que não tem nem sequer um tufo de capim ou de grama fofa para um rápido lanche. O trânsito, na lentidão ou na velocidade, carrega mazelas, mas tem uma face reveladora. É aqui no alfalto que cai a máscara da hipocrisia. Aquele negócio de social e politicamante correto funciona muito bem na mídia ou quando o cidadão está de cara com o outro. Aí, mano, rola o medo de ação na Justiça, de processo. Mas quando o cidadão pode se esconder, como ocorre nas redes sociais ou a 80km/h atrás de um volante, a gentileza some.

Na hora do pico, por uma fechadinha de nada, uma buzina mal tocada, uma freada no lugar e na hora errados, negro vira “'crioulo safado”, senhora de bom trato é chamada de “vaca tonta”, idoso recebe a alcunha de “velho roda-dura”, o branco branquinho não escapa de ser chamado de “picolé de queijo derretido”. Xingamentos de horrorizar o mais dos experientes cavalos. Não vou aqui declinar os nomes que a galera ao volante dão a meu dono, quando estamos na avenida transportando areia, tijolo ou mudança de pobre, porque o respeito muito. A mim cabe no mínimo o “pangaré faminto”. Certo dia, um malcriado gritou: “Quem está puxando a carroça?”.

Falta de educação e avessidade andam à solta, mano. E elas não vêm da boca de cavalo, de jumento ou de cachorro. Li também nos jornais que Belo Horizonte é considerada ótima cidade para crianças e adolescentes. Sei... Provem que quero ver! Adoro crianças. Não fiz filhos. Não tenho capacidade para fazê-los. Por decisão unilateral do meu dono, caí nas mãos de um sádico indivíduo num muquifo de curral lá pelas bandas de Venda Nova. Ele fez o serviço. Doeu, mano, como doeu! O cara ainda jogou creolina em cima da ferida, mal costurada, para evitar infecção. Dói só de pensar. Mas isso é coisa minha, só minha. Vou ver se acho um tufinho que seja de grama por aí. Deu fome. A gente conversa mais depois.

Eduardo Almeida Reis - Ainda hoje...‏

Ainda hoje...
 
Divertia-me assistindo ao telejornal nipônico, que me deixava informado das últimas notícias sem entender absolutamente nada


Eduardo Almeida Rei
Estadode Minas: 08/02/2014

Adoro quando a GloboNews anuncia: “Ainda hoje, 21h30, Navegador”. É sinal de que terei meia hora para escrever aqui no computador. Tentei assistir ao programa duas vezes: não entendi absolutamente nada. É programa feito para telespectador inteligente, o que me exclui da lista. Vi que é feito por quatro cavalheiros, uns mais, outros menos cabeludos, todos com dentes muito brancos, que se divertem sobre uma tela que faz as vezes de mesa, passam a mão na mesa-tela e aparecem números, fatos, figuras, lembrando vagamente certas mesas do kardecismo, doutrina reencarnacionista formulada por Allan Kardec (pseudônimo de Hippolyte Léon DenizardRivail, escritor francês, 1804-1869), que pretende explicar, segundo uma perspectiva cristã, o movimento cíclico pelo qual um espírito retorna à existência material após a morte do antigo corpo em que habitava, o período intermediário em que se mantém desencarnado, e a evolução ou regressão de caráter moral e intelectual que experimenta na continuidade deste processo. Navegador me lembra, também, a tevê a cabo decente que tive em BH. Havia telejornal de emissora japonesa, em japonês, com os japonismos próprios daquele povo. Divertia-me assistindo ao telejornal nipônico, que me deixava informado das últimas notícias sem entender absolutamente nada. Muito melhor do que os nossos telejornais, que nos entopem de mortes e tragédias no mundo inteiro, sem exclusão do Paquistão e do Afeganistão.

Esporte
Que é esporte? Temos o Ministério do Esporte, jornalistas esportivos, editorias de esportes, mas implico solenemente com o fato de o pôquer ser considerado esporte. Vejamos a definição de esporte no Houaiss: “Prática metódica, individual ou coletiva, de jogo ou qualquer atividade que demande exercício físico e destreza, com fins de recreação, manutenção do condicionamento corporal e da saúde e/ou competição”. Será que o pôquer está incluído em “recreação”? Soube que foi incluído como “esporte mental” pela Federação Internacional dos Esportes da Mente (Imsa), que já tem xadrez, bridge, damas, go e outros “esportes” mentais de estratégia e habilidade. José Damiani, presidente da Imsa, disse que ficou muito feliz com a inclusão do pôquer nessa lista. Quanto ao go, que ninguém conhece, é jogo nacional japonês de origem chinesa em que dois contendores dispõem alternadamente 180 pedras cada um, pretas e brancas, sobre um tabuleiro dividido em quadrados por 19 linhas horizontais e 19 verticais, procurando conquistar território. Se é assim, acho que escrever é esporte e o sujeito que escreve deve ser considerado esportista, sobretudo o cronista, que vive na corda bamba, porque desempenha função remunerada quando há milhares, milhões de candidatos dispostos a escrever de graça. Que me diz o leitor do sexo? Exige exercício físico e destreza, além de contribuir para o condicionamento corporal e a saúde. Só aí temos a inclusão de todos os meus amigos, maiores de 60, na lista dos atletas olímpicos, se fazem a milionésima parte do que dizem fazer. Tiro é considerado esporte olímpico e o Brasil teve um medalhista há muitos anos. Cá entre nós: é esporte? Sempre atirei razoavelmente e tive companheira que não errava um tiro: mosquetão, fuzil, revólver 357 magnum. Serpentes rastejando no terreiro ou no alto de uma jabuticabeira eram abatidas com um tirinho nas respectivas cabecinhas. Um dom, aptidão natural sem qualquer treinamento – e os treinos são pressupostos das atividades esportivas.

Cheiro de charuto
Afamanado jornalista festejou a redução do número de fumantes de charutos no Brasil. De repente, não gosta de cheiro de charuto e arrumou um namorado que charuteia. É verdade que o cheiro varia bastante, considerando que há charutos vendidos a R$ 1 e outros que custam mais que R$ 100 cada um. Importantes jornais têm publicado artigos com mapas coloridos mostrando que vem diminuindo o número de fumantes de cigarros neste país grande e bobo. Ótimo! Dia virá, e não deve estar distante, em que o Piscinão de Ramos, com hino, bandeira e constituição, imitará o estado norte-americano do Colorado, permitindo a venda de cigarros para “uso recreativo”. E a gente se diverte, até porque de amargo já basta o noticiário televisivo.

O mundo é uma bola
8 de fevereiro de 1314: Ismail I ibnFaraj torna-se o quinto rei nasrida de Granada, sucedendo ao seu tio Abu al-JuyuchNasr, deposto por uma rebelião. Ismail reinará até 1325 e o vosso philosopho, do tanto que tem falado da dinastia nasrida, não aguenta mais copiar o que diz a Wikipédia, mesmo porque ninguém se interessa pelos nasridas. Em 1725, com a morte de Pedro, o Grande, Catarina I assume o trono da Rússia, hoje ocupado por Vladimir Putin, que está fazendo história. Em 1919, primeira viagem aérea turística. Um avião adaptado com assentos voa de Paris para Londres levando 12 malucos novidadeiros. Em 1953, criação do Exército Popular da Coreia do Norte, que tem prestado bons serviços à família que comanda aquele país. Em 1957, o rei Saud, da Arábia Saudita, visita os Estados Unidos e obtém do governo norte-americano promessa de ajuda militar. Ainda bem que os EUA não sugeriram que as mulheres sauditas pudessem conduzir veículos automotores.

Ruminanças
“O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato” (Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o barão de Itararé, 1895-1971).