terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Edgard Scandurra e Nasi deixam os rancores de lado e recriam o Ira!‏

Amigos, amigos, negócios à parte 

 
Edgard Scandurra e Nasi deixam os rancores de lado e recriam o Ira! depois de sete anos. Banda tem sua reestreia marcada para maio, em São Paulo, durante a Virada Cultural 
 
Mariana Peixoto
Estado de Minas: 11/02/2014


Nasi (E) adianta que o novo  Ira! tem compromisso com a história da banda e vai incorporar antigos sucessos. Em carreira solo, Scandurra criou projeto de música eletrônica e gravou com Arnaldo Antunes   e Karina Buhr (Montagem sobre fotos de Kelsen Fernandes/Divulgação e SescTV/Divulgação)
Nasi (E) adianta que o novo Ira! tem compromisso com a história da banda e vai incorporar antigos sucessos. Em carreira solo, Scandurra criou projeto de música eletrônica e gravou com Arnaldo Antunes e Karina Buhr

Há quase sete anos, a roupa suja do Ira! foi lavada publicamente. Agressões na imprensa trouxeram à tona, de maneira passional, antigos rancores dos integrantes da banda, que culminaram num racha familiar – Nasi e seu irmão, Airton Valadão Júnior, então empresário do grupo. Da pior forma possível, a banda, que tem uma inegável importância no rock Brasil, anunciou seu fim em 2007. Nada como a passagem do tempo para arrefecer os ânimos. Cabeças do Ira!, Nasi e Edgard Scandurra se reencontraram em palco pela primeira vez em 30 de outubro. Nesta semana, voltam a se reunir para começar os ensaios do retorno do Ira!. O baixista Ricardo Gaspa e o baterista André Jung não vão participar da nova (velha) empreitada.

O primeiro show será em 17 de maio, na Virada Cultural de São Paulo. O vocalista e o guitarrista estarão acompanhados de Daniel Scandurra (filho de Edgard, no baixo), Johnny Boy (violão e teclados, da banda de Nasi) e Evaristo Pádua (bateria, outro que toca com o grupo do vocalista). Depois dessa primeira apresentação, a vontade é ir longe. “Estimamos uma turnê do tamanho da do Acústico (2004), o que deve cobrir uns 200 shows durante um ano e meio”, afirma Nasi, que hoje detém os direitos do nome Ira!. O repertório, por ora, não terá novidades. “O que posso dizer é que vai passar por todos os nossos discos, das músicas que foram sucesso em rádio e aquelas que são mais representativas da banda.”

O vocalista não fecha questão sobre o que essa turnê poderá gerar. “A gente vai continuar com nossa carreira solo. Em agosto, inclusive, faço a gravação de um DVD que devo lançar ano que vem. Mas digo para você, não descarto um novo disco. Esta história está me surpreendendo, o Edgard já está com umas ideias de música”, continua Nasi. Ambos nascidos em 1962, como diz a música do álbum Clandestino (1990), tanto ele quando Scandurra completaram 52 anos – o vocalista em janeiro, o guitarrista na semana passada.

O reencontro começou a ser ensaiado no ano passado. Nasi procurou Scandurra se oferecendo para cantar em show beneficente que o guitarrista estava promovendo em São Paulo para arrecadar fundos para bolsistas da escola Novo Ângulo Novo Esquema, destinada a crianças com dificuldade de aprendizagem (Lucas, filho de Scandurra, é aluno da Nane). “Após seis anos, dois amigos se encontram por uma boa causa”, dizia o flyer que rodou as redes sociais da época. Juntos, emendaram um hit no outro: Dias de luta, Envelheço na cidade, Tarde vazia, entre outras.

Pazes feitas, Nasi contemporiza sobre a turbulência de outros tempos. Além da produção musical (ver abaixo), em 2012 ele não deixou pedra sobre pedra com sua biografia, A ira de Nasi. Sobre o guitarrista, assumiu ter roubado uma namorada dele (o que teria gerado toda a tensão entre os dois). No final da banda, os dois já não se falavam, tampouco dividiam camarim. Hoje, Nasi não pensa duas vezes antes de dizer: “Quando nos encontramos, deixamos tudo para trás. Se não fosse assim, não teria clima. Nosso trabalho é maior do que os problemas que temos um com o outro. Cada um tem sua visão, suas razões. Agora, vamos viver um novo capítulo”, finaliza.

Vida pós-Ira!

Nasi


Desde 2006, Nasi lançou dois álbuns: Vivo na cena (2010), que registra no formato canções de outras bandas de que ele fez parte (Irmãos do Blues e Voluntários da Pátria), e Perigoso (2012), este com repertório que mistura regravações – Dois animais na selva suja da rua, de Taiguara, Tudo bem, das Garotas Suecas – e músicas autorais. Causou muito barulho também com sua biografia, A ira de Nasi (2012). No dia 21, ele toca em BH, no Circus Rock Bar.

Edgard Scandurra

Um dos guitarristas mais respeitados do rock nacional, Edgard Scandurra é também dos mais prolíficos. Fora do Ira!, enveredou numa série de projetos, além de manter carreira solo. Lançou um DVD em 2009, Ao vivo, com registro de suas músicas com e sem o Ira! – com o projeto Benzina, mantém um pé na música eletrônica. Gravou com Arnaldo Antunes, seu parceiro há duas décadas, Karina Buhr e Bárbara Eugênia. Atualmente, integra os projetos Pequeno Cidadão, este para crianças, e Les Provocateurs, tributo à canção francesa.

• Entre tapas e beijos

Black Sabbath

Fosse cinco anos atrás, ninguém acreditaria que Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler se reuniram para disco e turnê – que passou por BH em outubro. Em 2009, o vocalista e o guitarrista brigaram que nem cão e gato pelos direitos de utilizar o nome da banda. Ao longo da história, a banda teve inúmeras formações (e somente Iommi ficou como integrante efetivo durante as mudanças). Também não custa lembrar que no final dos anos 1970, Ozzy foi demitido da banda devido ao abuso de álcool e drogas.

Soundgarden
Atração do Lollapalooza em abril, o veterano grupo de Seattle chega a 2014 completando 30 anos de formação. Mas, vale dizer, durante boa parte desse tempo a banda ficou separada. Separou-se em 1997 devido a brigas internas e cada integrante foi para um lado. O vocalista Chris Cornell formou o Audioslave, que lançou três álbuns e teve repercussão no início da década passada. Foi mais bem-sucedido do que em sua carreira solo. O retorno do Soundgarden ocorreu em 2010 e rendeu um álbum, King animal (2010).

RPM
O RPM continua na ativa e cantando Olhar 43. Pois olhando para trás, parece impossível que Paulo Ricardo, Luiz Schiavon, Paulo Pagni e Fernando Deluqui consigam tocar juntos. Formado em 1983, o quarteto se separou, pela primeira vez, quatro anos mais tarde, ao final da turnê de Rádio pirata ao vivo. Depois disso, houve três álbuns de estúdio (em 1988, 1993 e 2011), muitas brigas, idas e vindas e lavação de roupa suja em público.

Mutantes
Quando foi anunciado, em 2006, que os Mutantes iriam voltar com Arnaldo e Sérgio Baptista, Dinho Leme e Zélia Duncan no lugar de Rita Lee, os fãs de primeira hora da mais cultuada banda brasileira torceram o nariz. A reunião rendeu CD, DVD e uma bem-sucedida turnê. Zélia, com carreira estabelecida, foi a primeira a cair fora terminada a temporada. Arnaldo veio logo a seguir. Com Sérgio comandando o barco, os novos Mutantes fizeram jus ao nome. Entraram na trilha da novela homônima; ganharam nova formação com uma dezena de integrantes. Em dezembro, Sérgio Dias se reuniu a Túlio Mourão, Antônio Pedro e Rui Mota para fazer show do álbum Tudo foi feito pelo sol (1974), da fase progressiva do grupo. 

Carro, tevê e computador, as ameaças à boa forma‏

Carro, tevê e computador, as ameaças à boa forma Estudo canadense feito em 17 países, com mais de 150 mil adultos, indica que, ao mesmo tempo em que adquirem mais bens, habitantes de nações pobres estão engordando 
 
Bruna Sensêve e Paloma Oliveto
Estado de Minas: 11/02/2014


O motivo da barriga e dos quilos sobressalentes pode estar no clique do controle remoto ou nas teclas do computador. O desenvolvimento econômico da população levou ao incremento das horas de “descanso” com longos períodos passados em pleno sedentarismo frente à televisão e/ou navegando por redes sociais. O impacto desse comportamento pode ser percebido na propagação das epidemias de obesidade e diabetes tipo 2 em países de baixa e média rendas, que, em breve, poderão enfrentar os mesmos graves problemas de saúde das nações mais abastadas. Os resultados são de um estudo internacional publicado no Jornal da Associação Médica Canadense, que analisou mais de 150 mil adultos em 107 mil famílias de 17 países.

Os dados assustam. Os indivíduos que têm os três equipamentos estudados – televisão, computador e carro – apresentam também 9cm a mais na cintura. A posse de bens materiais, especialmente os eletrônicos, que, até então, são vistos como sinônimo de boa situação econômica, mudará de lado nos próximos anos. De acordo com os dados recolhidos pelo grupo liderado por Scott Lear, da Faculdade de Ciências da Saúde, da Universidade Simon Fraser, a prevalência da obesidade aumentou de 3,4% em famílias com nenhum dos dispositivos estudados para 14,5% nos lares com os três aparelhos. A prevalência de diabetes também cresceu, de 4,7 % para 11,7%, respectivamente.

“Com o aumento da captação de conveniências modernas, países de renda baixa e média podem ver as mesmas taxas de obesidade e diabetes como as dos de alta renda. Elas são o resultado de se sentar demais, de menos atividade física e do aumento do consumo de calorias”, conclui Lear. “Isso pode ter consequências potencialmente devastadoras para a saúde social desses países.” A mesma relação não existia nos países desenvolvidos, sugerindo que os efeitos nocivos dessas máquinas na saúde já se refletem em taxas elevadas de obesidade e diabetes.

Panorama  Os países de alta renda investigados foram Suécia e Emirados Árabes. O Brasil está incluído no grupo de país de renda média-alta, com a Argentina, o Chile, a Malásia, a Polônia, a África do Sul e a Turquia. Entre os de renda média-baixa, estão China, Colômbia e Irã. Os países considerados de baixa renda pesquisados foram Bangladesh, Índia, Paquistão e Zimbábue. Os participantes foram questionados quanto a prática de atividade física, o tempo que ficam sentados, a dieta seguida, se tinham diabetes e se eram proprietários de carro, televisor e computador.

As televisões foram o dispositivo mais comum. Quase 80% dos entrevistados tinham pelo menos uma, seguida por 34% que tinham um computador e 32%, um automóvel. Em países de baixa renda, possuir todos os três dispositivos foi associado a uma redução de 31% na atividade física e a um aumento de 21% no período sentado. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, 87,2% dos domicílios brasileiros tinham televisores. Dez anos depois, esse número subiu para 95,1%, superando o rádio que, em 2000, estava presente em 87,9% das casas e, em 2010, em 81,4%. Os computadores também não ficam para trás. Os micros são encontrados em 27,7% mais domicílios brasileiros em 2010 que 10 anos antes. Do total de residências, 30,7% tinham acesso à internet em 2010.

Nessa mesma direção, a mais recente pesquisa sobre obesidade no Brasil, referente aos dados de 2012 coletados pela Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), mostra que 51% da população tem excesso de peso. Pela primeira vez, o índice de sobrepeso atingiu mais da metade dos brasileiros. A mesma pesquisa referente ao ano anterior já apontava a epidemia se formando, indicando 48,5% da população com excesso de peso. O índice de obesidade também se agravou nesse período. Em 2012, 17,4% dos brasileiros são obesos, contra 15,8% no ano passado.

Risco de diabetes 

A combinação entre uma dieta pouco saudável e a falta de exercícios físicos é apontada por Maria Angélica de Lima Oliveira, de 54 anos, como desencadeadora da diabetes tipo 2, doença que ela precisa controlar com medicamentos de uso contínuo. Até os 40 anos, a servidora pública frequentava academia, mas, depois do casamento, se tornou sedentária. “Quando engravidei, aos 43 anos, fiz todos os exames. Aí, apareceu o diabetes”, conta. A glicemia da servidora, contudo, voltou a níveis normais após o nascimento de Bruna. Ela nem se lembrava mais do problema quando ele ressurgiu, há seis anos.

“Minha taxa de triglicerídeos estava altíssima, mas fui deixando e não tratei”, confessa. Salgadinhos, frituras, sanduíches, maionese, doce, pão e macarrão têm grande parcela de culpa no diagnóstico, acredita Maria Angélica. “Antigamente, a gente comia coisas mais saudáveis. Hoje, com a facilidade da comida industrializada, não é mais assim”, reconhece. O endocrinologista Mário Carra, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, explica que existe uma relação direta entre mais de duas horas em frente ao computador, televisão ou videogame com o aumento de peso.

“Ao ter mais acesso a esses dispositivos, há uma condição de vida melhor, mas não significa necessariamente que o grau de informação é melhor. A tendência é o aumento de peso”, garante Carra. Isso porque as pessoas costumam diminuir a mobilidade física e o padrão alimenta, e tendem a utilizar esses dispositivos comendo ou bebendo, sem dar atenção à qualidade ou à quantidade. “Um trabalho feito pelo Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia do Rio de Janeiro há alguns anos contabilizou a economia de calorias com o controle remoto e telefone sem fio. São poucas, mas, ao somar tudo no fim do ano, dá uma quantidade considerável.” (BS e PO) 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A inclusão social pela cultura - Renato Janine Ribeiro

Valor Econômico 10/02/2014

A cultura é a educação fora de ordem e, por isso mesmo, vitaminada pelo prazer. Ela emancipa



Comentei nas últimas colunas a inserção social realmente realizada, convertida pelo PT em política de Estado, e que integrou dezenas de milhões de ex-miseráveis no mercado; e a inclusão social que é necessária e se dará pela educação. Alertei para os problemas que o consumismo traz, numa sociedade fortemente hedonista. Agora, pode a inclusão social necessária - que, repito, deve passar pela renda e consumo e ampliar-se graças à educação - ser reforçada, upgraded, pela cultura?

Há muitas definições de cultura. Proponho uma: ela é a educação fora de ordem. A educação normalmente se dá numa sequência ordenada. Aprende-se a ler, a fazer as operações matemáticas, depois vai-se conhecendo cada vez mais, até o curso superior, o doutorado... Mudar essa ordem pelo avesso - ou simplesmente fazer as coisas fora de ordem - não é impossível, mas é difícil. Contudo, em tudo o que já escrevi sobre educação, sempre defendi maior desordem na educação. Ela, em ordem unida, corre dois riscos: pode tornar-se muito chata, pode inibir a criatividade. Mesmo assim, uma certa ordem é necessária na educação. Já na cultura, não.

Comparemos uma aula sobre a escravidão e um filme sobre o mesmo tema. A aula precisa ter ordem: as navegações portuguesas, a colonização das Américas, o apresamento dos africanos, sua mortalidade maciça nas plantações, quilombos, a abolição, o racismo que persiste. O filme não precisa. Ele pode começar com um episódio, digamos, o apresamento do navio negreiro "Amistad", na costa dos Estados Unidos, em 1839 (estou falando do filme de mesmo nome, de Spielberg, mas poderia falar de seu "Resgate do soldado Ryan" ou de "Lincoln", os três tratam de acontecimentos históricos significativos). Daí, vamos aprendendo uma quantidade de coisas sobre a escravidão, que não incluirão seus começos, suas causas históricas, o número de mortos, mas mostrarão o racismo, a perseguição, a luta pela liberdade. Não aprendemos a mesma coisa, mas aprendemos.
Vivenciamos. Um único filme não substitui uma aula de História. Mas se, ao longo de um tempo, virmos vários filmes sobre a escravatura - um deles, o "Lincoln" que mencionei - havemos de adquirir um conhecimento de boa qualidade. Dados mais objetivos, posso complementar até mesmo pela Internet. Que, por sinal, é incrível para conhecer fora de ordem, tanto assim que, quando apareceu no Brasil, o que hoje chamamos de "navegar" se dizia "surfar", como se fosse algo físico, divertido, radical.

A cultura é a educação fora de ordem

Isso que descrevi é educação ou é cultura? Quanto mais fora de ordem e descompromissado, mais será cultura. Posso ir a todas as exposições de arte e com elas aprender muito sobre pintura. Ficarão brechas, essa é a diferença no confronto com a educação, que procura evitar vazios e completar a formação da pessoa. Mas no tempo de hoje, dá para "completar" uma formação? Em nossa sociedade, a mais complexa da história, necessariamente seremos incompletos. Dizer que, ao terminar um curso, completamos a formação é um erro. Um estabelecimento de ensino bom, seja do nível que for, infantil ou doutorado, não deve acenar com a promessa de completude. A educação tem muito uso a fazer da cultura.

Em outras palavras: para a educação, há matrícula e às vezes até vestibular, termo que vem de "vestíbulo", o local certo de entrada. Na cultura se entra por onde se quiser, quando se quiser, sem inscrição, sem nada. Essa liberdade de entrar - e sair - aumenta seu prazer, justamente porque não é da ordem da obrigação. E por isso mesmo eu poderia dizer que a cultura é a educação vitaminada pelo prazer. Educação e cultura expressam o que o ser humano é capaz de criar. São o que mais dá poder ao indivíduo, ao ser humano, à pessoa. A cultura emancipa. Por isso é tão importante não ficarmos na posição passiva do consumidor. Consumir se opõe a produzir. Ambos são necessários, é claro, mas a produção é mais ativa, o consumo mais passivo. Agora, se a perspectiva da produção é essencial, não é pelas coisas - ou mercadorias - que fabricamos. É porque, produzindo, criamos a nós mesmos. A principal obra do ser humano é o próprio ser humano. Educação e cultura são duas ferramentas essenciais para chegar lá.

A questão que se coloca é: estamos formando nossos jovens para serem inquietos culturais? Porque a cultura tem ainda um traço importante, ela modifica. Ela abre perspectivas. Uma pessoa sem acesso a ela só conhece o que está em seu imediato entorno. Uma criança que nasce num fim de mundo pode, descobrindo a música, a arte, a ciência, encontrar uma vocação que vá muito além de seu bairro. A cultura é mais preciosa quando é descoberta, revelação. Lembro um filme polonês que fez sucesso, "Madre Joana dos Anjos", sobre um padre que é chamado para exorcizar um convento em que as freiras estão possuídas pelo diabo. O próprio padre acaba cometendo um crime horrível - diz - "para que eu chame a mim os demônios e Madre Joana possa ser santa". O diretor, Jerzy Kawalerowicz, explicava: os dois se apaixonaram mas, como não tinham linguagem para chamar seu sentimento de "amor", achavam que era possessão demoníaca. A incultura pode levar à infelicidade.

Poderemos ampliar a liberdade das pessoas pelo acesso à cultura? Certamente. Mas não podemos esquecer essa sua natureza fora de ordem. Para lembrar uma série de sucesso, pode haver "1001" filmes, livros ou lugares a conhecer "antes de morrer", mas esse número - como nas "1001 Noites" - é apenas um sinal de que a aventura do conhecimento é inesgotável.


Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. 
E-mail: rjanine@usp.br


Eduardo Almeida Reis-Propinquidade‏

Propinquidade
Eduardo Almeida Reis - eduardo.reis@uai.com.br
Estado de Minas: 10/02/2014





Ninguém precisa de um ph.D. em psicologia para perceber que a atração pelo risco tem fundo sexual. Os exemplos estão aí em todos os países, todos os dias, nos esportes e nas atividades em que o praticante, mesmo equipado, sente o gostinho da morte próxima. Escrevi “próxima” para evitar iminente, que a rapaziada confunde com eminente.
Eminente deveria ser a figura do presidente do Senado; iminente é a nova besteira que o senador Renan Calheiros vai fazer com os jatos da FAB. Mas há pior. Admitamos que o leitor more no apartamento 304. Pergunto: você gosta do propínquo do 303?. Pois é: propínquo é vizinho, é puro latim e entrou em nosso idioma no ano de 1265.

A propinquidade, que só entrou em 1589, existiu desde sempre: significa proximidade. Nossa espécie, que se diz sapiens, conviveu com os neandertais durante 30 mil anos, não raras vezes transando no maior entusiasmo, di-lo a ciência, em baladas pré-históricas que envolviam até os denisovanos e uma outra espécie ainda não identificada.

Este suelto resulta do acidente com Schumacher. Na tevê falaram de “paixão pela adrenalina”. Ora, o apaixonado não precisa correr tantos riscos: basta tomar uma ampola de adrenalina. Vi no Google que existe adrenalina injetável. Deve ser barata e muito menos perigosa do que esquiar em pistas não demarcadas, saltar de paraquedas em desafios complicados, meter-se em corridas de motocicletas – e tudo isso Schumacher fez depois que saiu da Fórmula 1 com sete títulos mundiais. Pouco antes do acidente na neve francesa, fez 18 saltos de paraquedas de alta performance, num só dia, em Dubai. Salto de alta performance é muito mais performático do que um salto comum, que já é um salto de paraquedas. Daí minha conclusão indiscutível: a propinquidade com o risco tem conotação sexual.

Tendências
Jornal de sábado, segundo caderno, fotos coloridas e resenhas. Entre os melhores filmes se destaca Um estranho no lago e sou informado de que “pouco conhecido, o francês Alain Guiraudie filma o desejo entre homens numa praia de nudistas”. Mais adiante, em Azul é a cor mais quente, aprendo que “Abdellatif Kechiche filma o desejo entre mulheres para retomar com Léa Seydoux e Adèle Axerchopoulos seus grandes temas – o voyeurismo e a linguagem”. Na seção de tevê me dizem que Letícia Persiles, acostumada a papéis de destaque, volta à telinha no papel de uma prostituta que manterá um romance lésbico com a personagem de Monique Alfradique.

Pronto: a partir das três informações, passo a desconfiar de todas as fotos de duas moças, ou dois rapazes, publicadas no tal caderno. Destaco o fato de que os jornalistas, se têm ouvidos, não podem escrever “pouco conhecido” e “lésbico com”, porque em matéria de cocô já nos basta a história contada por Vargas Llosa sobre a exibição “artística” – parece que o nome é performance – de um cavalheiro colombiano. Diante da plateia interessada na “arte” que vem sendo feita por aí, o artista defecou e, com pompa e circunstância, comeu suas fezes.

Da leitura do jornal de sábado restou-me a convicção de que em dois anos, no máximo três, notícia escandalosa vai ser a de um filme ou de uma novela em que homem goste de mulher e vice-versa.

O mundo é uma bola

10 de fevereiro de 1763: Inglaterra e França assinam o Tratado de Paris, que põe fim à Guerra dos Sete Anos, conflito internacional que ocorreu de 1756 a 1763, durante o reinado de Luís XV, entre a França, a Áustria e seus aliados (Saxônia, Rússia, Suécia e Espanha) contra a Inglaterra, Portugal, a Prússia e Hanover. Potências europeias ficaram preocupadas com o prestígio e o poderio de Frederico II, o Grande, rei da Prússia – e a situação pegou fogo.

Em 1840, casamento da rainha Vitória, do Reino Unido, com Alberto de Saxe-Coburg-Gotha, de 20 anos, seu primo e pai de seus nove filhos. Alberto morreu aos 42 anos e deixou a rainha de luto pelo resto dos seus dias, pois amava o primo e marido, naquele tempo em que as mulheres gostavam dos seus maridos. O nome completo do primo era Francisco Alberto Augusto Carlos Emanuel. Parece que morreu da doença de Crohn, mais frequente na Inglaterra, nos EUA e nos países escandinavos.

Em 1931, Nova Délhi torna-se capital da Índia. Em 1965, fechamento da Panair do Brasil, num episódio até hoje pouco explicado. Em 1980, fundação do Partido dos Trabalhadores, o PT, de relevantes serviços prestados a inúmeros petistas e um sem conto de desserviços a um país grande e bobo.

Em 1890, nasceu Boris Pasternak, poeta e romancista russo, Nobel de Literatura em 1958. Em 1893, veio ao mundo Jimmy Durante, músico norte-americano, e em 1893, Mãe Menininha de Gantois, a mais famosa iyalorixá brasileira. Em 1931, foi a vez de Cauby Peixoto e em 1950 nasceu Mark Spitz, nadador americano, campeão olímpico.

Hoje é o Dia do Atleta Profissional.

Ruminanças
“Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está” (Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé, 1895-1971).