sábado, 15 de fevereiro de 2014

Há 150 anos, tinha início a Guerra do Paraguai

Sangue no sul
 
Há 150 anos, tinha início a Guerra do Paraguai, maior conflito armado registrado na região e que ainda desafia os historiadores. Quadro de Pedro Américo sobre o conflito é tema de livro


Carlos Herculano Lopes
Estado e Minas: 15/02/2014


Em 1877, chegava ao Brasil o quadro Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1843-1905) (Museu Nacional de Belas Artes/Reprodução)
Em 1877, chegava ao Brasil o quadro Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1843-1905)


Guerra do Paraguai para os brasileiros; Guerra da Tríplice Aliança para o Brasil e seus aliados Uruguai e Argentina; e Grande Guerra para os paraguaios. Seja qual for o nome que se dê ao conflito, o maior já acontecido até hoje no hemisfério sul, e que resultou na morte de milhares de pessoas dos países envolvidos – com a destruição quase completa do Paraguai, que perdeu mais de 90% da sua população masculina –, este ano completam-se 150 anos do início da grande conflagração, que se estendeu por seis anos, até 1870.

Entre as causas imediatas da guerra, de acordo com Moacir Assunção, autor de Nem heróis nem vilões, um dos estudos mais completos sobre o período, havia desde antigas pendências de fronteira entre o Brasil e o Paraguai, na região da então província do Mato Grosso, até questões políticas envolvendo o Uruguai. (Em outubro de 1864, o Brasil invadiu o país, ajudando a depor um governo aliado do Paraguai, que considerou o ataque um ato de guerra.) Sem falar do desejo do ditador Francisco Solano López de ter mais poder de decisão e voz ativa nas questões da Bacia do Prata, já que não se sentia ouvido o suficiente.

De uma forma ou de outra, tendo também fracassado os esforços diplomáticos feitos pelos lados envolvidos para evitar a guerra, como lembra o historiador Alfredo da Mota Menezes no livro Guerra do Paraguai – Como construímos o conflito, em 13 de dezembro de 1864, o Paraguai declarou formalmente guerra ao Brasil e se preparou para invadir o Rio Grande do Sul. Duas semanas depois, as tropas de Solano López atacaram o Forte Coimbra, no Mato Grosso, e colocaram os brasileiros para correr.

Pouco tempo depois, após o presidente argentino Bartolomé Mitre, que viria a ser o primeiro comandante-chefe das tropas aliadas, ter negado a López permissão de atravessar a província de Corrientes, para invadir o Rio Grande do Sul, este declarou guerra à Argentina, que entrou na briga. O novo presidente do Uruguai, Venâncio Flores, colocado no poder pelos brasileiros, também se voltou contra o Paraguai e, em 1º de maio de 1865, é assinado o Tratado da Tríplice Aliança. Por meio dele, os signatários se aliam, segundo Moacir Assunção, “para enfrentar Solano López, derrubá-lo e garantir a livre negociação nos rios”.

O que se esperava ser uma guerra breve, como era desejo dos aliados, ávidos para se ver logo livres do “tirano do Prata”, como se referiam a López, no entanto se arrastou por seis longos anos devido à obstinada resistência dos paraguaios, que lutaram com uma bravura não esperada. Ainda de acordo com Assunção, havia anos que Solano López vinha se preparando para o conflito. Daí a resistência demonstrada por suas tropas em batalhas épicas, como Tuiuti, Avaí, Itororó, Lomas Valentinas, Curupaiti, Riachuelo, Humaitá e tantas outras.

A guerra só viria a acabar de vez em 1º de março de 1870, quando uma tropa brasileira, comandada pelo general Câmara, alcançou o já devastado Exército paraguaio, tendo López à frente, na localidade de Cerro Corá, perto da fronteira com o Mato Grosso. Intimado a se render, o ditador paraguaio, depois de ter dito uma célebre frase – “Morro com a minha pátria e com minha espada nas mãos” –, foi atingido por um golpe de lança desferido pelo cabo gaúcho Chico Diabo, e por um tiro de fuzil dado por um soldado. Foi morto também seu filho Panchito, de 15 anos, já coronel do Exército, e feita prisioneira sua mulher, a irlandesa Elisa Lynche, que López havia conhecido na França, para onde, quando mais jovem, tinha ido em missão oficial.

Mas, o que essa guerra, que destroçou o país vizinho, que até hoje, 150 anos depois, não conseguiu se recuperar plenamente, significou para os vitoriosos? De acordo com Moacir Assunção, que esteve várias vezes no Paraguai para pesquisas que resultaram em seu livro, o conflito deixou marcas na história de todos os envolvidos. Para o Brasil, segundo ele, significou o fim da monarquia e o início da República, que seria proclamada 19 anos depois; a ascensão do Exército como ator político de peso, e a confirmação da liderança do país (em muitos momentos dividida com a Argentina) na América do Sul. E, no caso do Uruguai, a submissão ao Brasil por muito tempo. “A meu ver, foi a Argentina o país que mais se beneficiou com a guerra, pois depois dela começou um período de prosperidade que só vai se encerrar no governo Péron. O PIB da Argentina, no começo do século 20, era duas vezes maior do que o do Brasil”, destaca o historiador.



Quadro de Pedro Américo sobre a guerra do Paraguai é tema do livro  Nem heróis nem vilões, de Moacir Assunção (Museu Nacional de Belas Artes/Reprodução)
Quadro de Pedro Américo sobre a guerra do Paraguai é tema do livro Nem heróis nem vilões, de Moacir Assunção

três perguntas para...

Moacir Assunção
Autor de Nem heróis nem vilões

Em Genocídio americano: a Guerra do Paraguai, Julio Chiavenato sustentava que a Inglaterra patrocinou a guerra por não aceitar o suposto desenvolvimento do Paraguai, que contrariava os seus interesses comerciais na região. Como você avalia essa interpretação anti-imperialista, que fez muito sucesso nos anos 1970?

O que foi possível perceber, pelos documentos que obtive, foi que a Inglaterra não patrocinou ou colaborou para que a guerra eclodisse. Há registros de um representante daquele país tentando a paz. A Inglaterra, inclusive, estava de relações rompidas com o Brasil naquele momento histórico porque o Império tinha expulsado o seu embaixador, na famosa Questão Christie. O grande mérito do livro de Chiavenato, a meu ver, foi ter trazido novamente a discussão sobre a guerra à tona.

Você acha que a guerra contribuiu para a integração nacional?

Sem dúvida. No início, os gaúchos achavam que a guerra era somente deles. Depois viram que, sozinhos, sem os “baianos”, jamais conseguiriam vencer o Exército paraguaio. A guerra também foi “republicana” e antiescravista em sua essência, já que os soldados negros lutaram com muita valentia, e o conflito teve também o mérito de ajudar a sepultar a escravidão como instituição.

Afinal de contas, quais foram os heróis e os vilões da Guerra do Paraguai?

Considero o general Osório, em muitos aspectos, mais importante do que o duque de Caxias. O conde D’Eu, por sua vez, tem uma péssima imagem no Paraguai, onde ainda hoje é chamado de “la bestia rubia” por sua crueldade e pela cabeleira loira. Solano López, para mim, foi um general incompetente, que jogou o seu povo num atoleiro sem fim. Foi um déspota, não um patriota socialista, como achávamos antes.



Em 1877, chegava ao Brasil o quadro Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1843-1905) (Museu Nacional de Belas Artes/Reprodução)
Em 1877, chegava ao Brasil o quadro Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1843-1905)

Quadro de Pedro Américo sobre a guerra do Paraguai é tema do livro  Nem heróis nem vilões, de Moacir Assunção (Museu Nacional de Belas Artes/Reprodução)
Quadro de Pedro Américo sobre a guerra do Paraguai é tema do livro Nem heróis nem vilões, de Moacir Assunção

Para saber mais
. A Guerra do Paraguai – A grande tragédia rioplatense, de León Pomer, Editora Global.
. A retirada da Laguna, de Visconde de Taunay, Ediouro.
. Genocídio americano: a Guerra do Paraguai, de Júlio Chiavenato, Editora Brasiliense.
. Guerra do Paraguai – como construímos o conflito, de Alfredo da Mota Menezes, Editora Contexto.
. Imprensa em tempos de guerra: o jornal O Jequitinhonha e a Guerra do Paraguai, de Maria de Lourdes Reis, Edições Cuatiara.
. Maldita guerra – Nova história da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto, Editora Companhia das Letras.
. Nem heróis, nem vilões – Curepas, caboclos, cambás, macaquitos e outras revelações da sangrenta Guerra do Paraguai, de Moacir Assunção, Editora Record.


BATALHA DO AVAÍ – A BELEZA DA BARBÁRIE: A GUERRA DO PARAGUAI PINTADA POR PEDRO AMÉRICO
De Lilia Moritz Schwarcz e outros
Editora Sextante, 174 páginas, R$ 150


A política das imagens

João Paulo

Em 1877, chegava ao Brasil o quadro Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1843-1905), vindo da Itália, depois de quatro anos de intenso trabalho do pintor e de sua equipe. A grandiosa tela, de 50 metros quadrados, foi encomendada para celebrar a campanha brasileira na Guerra do Paraguai (1864-1870). Se a princípio tratava-se de uma obra de arte sobre um tema político, em pouco tempo se tornou uma obra política em si. O que estava na tela era uma leitura acurada da história do Brasil próximo ao fim do Segundo Reinado. O livro A Batalha do Avaí %u2013 A beleza da barbárie: a Guerra do Paraguai pintada por Pedro Américo, de Lilia Moritz Schwarcz, Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Júnior, é um exercício de pesquisa e narrativa histórica a partir da célebre pintura.

O quadro impressiona. É imenso, movimentado, recheado de cenas violentas, olhares amedrontados, mortos e vivos com medo da morte. Ao retratar a batalha do Avaí, ocorrida em 1868, Pedro Américo usa todos os elementos estéticos de seu tempo. Mas vai além. Ao manipular símbolos e metáforas visuais, acaba por tecer um comentário político refinado, que não passou despercebido por seus contemporâneos. Além disso, a forma de dispor seus personagens na tela parece figurar uma análise sociológica dos vários estratos sociais.

Sem falar do tratamento dado às grandes figuras históricas, como o general Osório e o duque de Caxias, que simbolizam as duas grandes vertentes ideológicas da política brasileira imersas no conflito, os liberais e os conservadores. Caxias é retratado de maneira altiva, observando a batalha a certa distância, como quem dirige a cena sem participar dela. Osório é o herói que comanda as tropas de arma na mão e se arrisca pelo país. Todos entenderam a mensagem.

A Guerra do Paraguai foi um divisor de águas na história brasileira. Os custos da guerra, além de milhares de vidas, aceleraram a luta abolicionista e a campanha republicana. Tudo isso pode ser lido no quadro de Pedro Américo. Em cuidadosa análise do painel, os autores mostram desde o plano geral (com brasileiros fardados e paraguaios seminus e descalços, a apontar a diferença de estágio de civilização), até detalhes como a presença de escravos libertos, de saqueadores, de civis e crianças mortos no conflito.

O livro, em grande formato e com tratamento gráfico sofisticado, sob a direção de Victor Burton, permite análise de cada quadrante da obra e traz ainda uma discussão estética muito bem conduzida, passando em revista as possíveis inspirações de Pedro Américo e a iconografia de batalhas na arte brasileira e europeia. Os autores estudam ainda as acusações de plágio dirigidas ao pintor e estampam um interessante capítulo sobre o %u201Coutro lado%u201D, ou seja, a forma como os artistas paraguaios figuraram a célebre batalha.

Um livro que mostra como as imagens são capazes de contar histórias e fazer história.

Robôs cupins‏

Robôs cupins 
 
Inspirados no comportamento dos insetos, cientistas de Harvard criam máquinas capazes de construir pilhas de blocos em equipe 
 
Roberta Machado
Estado de Minas: 15/02/2014


As pequenas máquinas em ação: sem receberem dados prévios sobre o projeto, elas agem de maneira praticamente instintiva (Eliza Grinnell/ Harvard/ Science)
As pequenas máquinas em ação: sem receberem dados prévios sobre o projeto, elas agem de maneira praticamente instintiva

Brasília – Para muitas pessoas, cupins podem ser sinônimo de destruição. Afinal, esses pequenos insetos são capazes de derrubar fundações de casas sólidas, sumir com árvores inteiras e transformar coleções de livros em poeira. Essas criaturas, no entanto, também têm um talento para criar. Unidas, colônias de cupins têm a força e a habilidade para construir enormes montes de terra, por vezes com muitos metros de altura. Dentro dessas casas naturais, complexos sistemas de túneis são a prova do trabalho de uma espécie que nasceu para agir em equipe.

Tamanha eficiência serviu de inspiração para uma equipe de pesquisadores de Harvard, que traduziu o comportamento coordenado dos bichinhos em complexos algoritmos que servem de guia para robôs construtores. Assim como os térmites, as máquinas feitas pelos cientistas norte-americanos podem, juntas, montar complexas estruturas por conta própria, sem precisar de um plano de ação. Os robôs não se comunicam entre si, nem contam com as ordens de uma rainha. Mas, graças à inteligência reproduzida do mundo animal, sabem o que fazer para levantar grandiosos conjuntos projetados pelo homem.

Por enquanto, essas máquinas foram testadas construindo torres de blocos de espuma com pontos magnéticos que se encaixam como um brinquedo de montar. Mas, em breve, a equipe espera usar o mesmo princípio em tarefas bem mais úteis à humanidade, desenvolvendo modelos fortes o suficiente para levantar barreiras de sacos de areia em áreas de enchente, ou até mesmo para criar bases de pesquisa em outros planetas sem a ajuda de humanos.

Qualidade A chave para o funcionamento bem-sucedido das máquinas construtoras, explica um artigo publicado ontem na revista Science, está em um conceito chamado estigmergia, um tipo de comunicação implícita. Os robôs se dirigem automaticamente para a pilha principal de blocos e recolhem uma peça sem saber o que farão com eles. Mas, conforme retornam para a construção, eles notam onde seus colegas estão e qual local precisa de uma nova peça. “Ele vai tentar completar a estrutura, no caso com os blocos. Pegará material onde nós o colocamos, andará sobre a estrutura até achar algo que precise ser feito e o fará”, explicou em uma teleconferência à imprensa Kirstin Peterson, pesquisadora do Instituto Wyss de Engenharia Bioinspirada, de Harvard, e uma das responsáveis pela criação dos robôs insetos.

Durante o processo, as máquinas não têm noção do que as outras estão fazendo nem de quanto falta para concluir a construção. “Nos perguntam como um robô sabe que terminou a tarefa. Ele não sabe. Continua controlando a estrutura, arrumando o que precisa. E, se nada precisar ser arrumado, ele só vai andar”, esclarece Peterson. Uma estrutura pode ser construída por um robô ou por uma dezena deles, sem que isso afete a qualidade do trabalho.

O projeto levou quatro anos para ser concluído e exigiu que a equipe criasse um hardware capaz de cumprir a tarefa de construir uma complexa estrutura tridimensional, mas com a maior simplicidade possível. As máquinas só  se movem para a frente e para trás, e rodar em torno do próprio eixo. Ao pegar um bloco, elas têm a habilidade de carregá-lo e depositá-lo, no máximo, um nível acima, o que as obriga a montar as estruturas em forma de escada que pode ser sempre subida e aumentada.

A referência para esses robôs é um bloco principal, de onde as máquinas iniciam um fluxo contínuo. Eles seguem um conjunto de regras de “tráfego” e circulam a construção sempre na mesma direção, para não atrapalhar os outros. “Para garantir a segurança, eles olham para onde os blocos não foram colocados e se certificam de que certas condições foram cumpridas. Isso permite provar que nenhuma situação com a qual os robôs não possam lidar vá ocorrer ”, aponta Justin Werfel, pesquisador da Universidade de Harvard e principal autor do trabalho.

Toda a ação é feita de forma quase instintiva, algo pouco comum em máquinas. Se o mesmo projeto for submetido aos robôs em várias situações, a probabilidade é de que eles tomem diferentes caminhos para concluí-lo a cada vez, se adaptando ao ambiente em que estão. Se uma máquina for retirada do grupo, se os blocos estiverem em um local diferente ou se algum deles cometer um erro, tudo pode influenciar nas decisões que os pequenos construtores tomam para levantar a estrutura pedida.

O resultado, no entanto, será sempre parecido. O projeto une a inteligência da natureza à precisão das máquinas. “Os detalhes de como cupins de verdade constroem montes são diferentes da forma como os robôs montam estruturas”, ressalta Werfel,  acrescentando:  “Uma razão para isso é que os objetivos são diferentes. Cupins não tentam construir uma estrutura específica, afinal não existem dois montes de cupins que sejam exatamente iguais”.

Cada robô cupim é equipado com um sistema de rodas híbridas com pequenas pernas cada uma, projetadas para escalar degraus com estabilidade. A orientação dessas máquinas é baseada num conjunto de sete sensores infravermelhos que geram imagens em preto e branco do que os cerca, um acelerômetro que os ajuda a saber o ângulo de inclinação da subida e cinco unidades de sonar. O braço mecânico é simples, com formato para recolher blocos, levá-los em segurança e encaixá-los no local correto.

Biologia As pesquisas tecnológicas com inspiração biológica têm ganhado popularidade nos últimos anos, e o trabalho de Harvard é um bom exemplo de como cientistas olham para a natureza para criar um sistema artificial mais eficaz. “Pequenas regras microscópicas dão origem a uma riqueza de comportamento que a ciência e a tecnologia tentam trabalhar em cima”, observa Sílvio Queiroz, pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

“Começamos a construir coisas e a adaptar sistemas que conhecemos há muito pouco tempo, se compararmos com os 3,5 bilhões de anos de vida na Terra. E, ao longo desse período, a natureza otimiza sistemas que permitem ser altamente eficientes e que os humanos não têm capacidade de fazer”, diz Queiroz, que atualmente estuda os mecanismos de voo dos pássaros. 

Eduardo Almeida Reis - Capistas‏

Capistas
Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 15/02/2014




Se você pensa num capista pode estar pensando no clérigo que assiste o oficiante e porta uma capa, mas também pode pensar no profissional que projeta e/ou desenha capa de livro ou qualquer outra publicação, inclusivamente jornais e revistas. Capa vende? Claro que vende: ajuda a vender o recheio encapado. Tive ganas de escrever à revista Veja, com todo o respeito, naturalmente, perguntando se capa com foto do doutor MC Guimê vende revista. MC Guimê, tatuadíssimo, fez um clipe visto 42 milhões de vezes na internet. Sua foto saiu na edição 2358, que foi comprada na banca pela operadora de forno e fogão. O patrão da operadora não compraria. Na página 58 vejo que a figurinista Thaís Almeida, de 27 anos, está fazendo um curso de artes cênicas: “Sonho em trabalhar com teatro, mas não pedirei favor a ninguém. Quero tudo de mérito próprio”, disse a figurinista, que namora o ator Francisco Cuoco, de 80. Thaís tem pelo menos o ombro esquerdo e a perna direita tatuados, o que me deixou num diadema retrós, como dizia aquele empresário mineiro muito ignorante, que ficou muito rico. E o dilema atroz é o seguinte: falo das idades dos pombinhos ou das tatuagens da pombinha? As idades talvez não sejam problema, depois que telefonei a um amigo pelo seu octogésimo aniversário e ele me disse que sua jovem namorada vive repetindo: “Você me surpreende”. Tatuagem, sim, é um problemão difícil de explicar. Entende-se que milhões de pessoas tenham smartphones (preciso comprar o meu), tablets e outras novidades, mas tatuagem... Tentei estudar a dermopigmentação (“dermo” = pele / “pigmentação” ato de pigmentar ou colorir), mas é assunto muito vasto e antigo, que deve remontar a 4 mil a.C. O mórmons proíbem, no islamismo os sunitas proíbem e os xiitas permitem, no judaísmo as tatuagens são proibidas com base no Levítico do Torá (19:28). Pelo menos é o que diz a Wikipédia, mas Francisco Cuoco gosta, ou, quando menos, não se importa.

Copa

Eleita por vocês, dona Dilma vive dizendo que será a Copa das Copas, enquanto em São Paulo o rolezinho black bloc abriu a temporada do “não vai ter Copa”. Compete ao leitor do EM dizer o que acha da Copa, pois tenho opinião formada há muito tempo: acho uma besteira. Custa uma fortuna, que poderia ser aplicada em coisas fundamentais para o povo brasileiro – escolas, hospitais, estradas, creches – e vai deixar uma porção de elefantes brancos, que só podem ter serventia para eventuais shows do jovem Justin Drew Bieber, nascido em London, Ontário, Canadá, em 1º de março de 1994. A exemplo do cantor, a Wikipédia pirou: “London é uma cidade da província canadense de Ontário. Está situado (sic) no extremo Sudoeste da província. Sua população é de 336 mil habitantes, com mais de 432 mil em sua zona metropolitana”. Os fãs de Biber talvez possam explicar como 432 mil podem caber em 336 mil. Em inglês, a Wikipedia informa: Population (2011) City 366,151 (15th) Density 870.6/km2 (2,255/sq mi) Metro 474,786 (11th). Burro que sou, só agora entendi que a cidade canadense de London, em 2011, tinha 366.151 habitantes e sua região metropolitana, a grande London, 474.786 habitantes. Confundi metropolitana com urbana, mas ainda fiquei em dúvida. Tanto assim que fui ao dicionário do doutor Bill Gates e vi que metro, em inglês, é igual a metropolis, e no Canadá significa “the government of a large city”. Donde se conclui que é melhor não concluir nada, ressalvando o fato indiscutível de que o dinheiro gasto com a Copa tem sido jogado fora, mas está enchendo os bolsinhos de muita gente.

O mundo é uma bola

15 de fevereiro: que adianta falar da eleição do papa Eugênio III em 1145, da assinatura do Tratado de Hubertusburgo entre a Prússia e a Áustria em 1763; da descoberta da Nebulosa Olho de Gato, em 1768, por William Herschel; da eleição do papa Pio VI, em 1775; da Batalha de Nive, em 1814, se o leitor do EM, em 2014, está se lixando para esses fatos, a exemplo do seu philosopho. Vivemos preocupados com a Copa 2014, as manifestações de rua, as atividades dos black blocs, o estado catastrófico da maioria das nossas estradas federais, os eleitos em outubro próximo, iguais ou piores que os atuais, a violência generalizada e tudo mais que se vê por aí. Acontece que preciso preencher este espaço imaculado de nossa mídia impressa, motivo pelo qual peço licença para falar dos nascimentos em 15 de fevereiro. Em 1564, Galileu Galilei; em 1710, Luís XV de França; em 1811, Domingo Faustino Sarmiento, que foi presidente da Argentina e deve ter sido muito melhor do que os peronistas, até porque igual ou pior seria impossível; em 1841, Campos Salles, presidente do Brasil; em 1877, Louis Renault, o fundador da fábrica de automóveis, magro, bigodudo, que morreria aos 67 anos.

Ruminanças

“Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados” (Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o barão de Itararé, 1895-1971).

Ramona Rodriguez vai à Justiça do Trabalho e requer indenização de R$ 149 mil

Cubana cobra fatura por danos 
 
Depois de abandonar o Mais Médicos, denunciar que recebia apenas US$ 400 e pedir asilo no Brasil, Ramona Rodriguez vai à Justiça do Trabalho e requer indenização de R$ 149 mil

Estado de Minas: 15/02/2014


A ação movida por Ramona pode abrir brecha para que outros cubanos questionem os valores que recebem no programa do governo   (Beto Barata/AFP - 10/2/14)
A ação movida por Ramona pode abrir brecha para que outros cubanos questionem os valores que recebem no programa do governo

Brasília – A médica cubana Ramona Rodriguez, que abandonou o programa Mais Médicos e pediu refúgio no Brasil, quer uma indenização do governo brasileiro de R$ 149 mil. Assessorada pelo DEM, ela entrou ontem com uma ação na Justiça do Trabalho do Pará pedindo R$ 69 mil por questões trabalhistas e R$ 80 mil por danos morais. Se o pedido for acolhido, pode abrir brecha para que outros médicos cubanos questionem na Justiça os valores que recebem do programa, uma das principais vitrines eleitorais da presidente Dilma Rousseff.

A ação leva em consideração a posição preliminar do Ministério Público do Trabalho de que o Mais Médicos institui uma relação de trabalho – e não uma bolsa de especialização – e que é necessário equiparar o salário dos cubanos ao dos demais profissionais contratados por meio do programa (R$ 10 mil mensais).

O número de cubanos selecionados para o programa chega a 7.400. Parte deles começa a trabalhar em março, quando 2.891 profissionais se somarão aos 6.658 já em atuação. Diante dos números, o líder do DEM na Câmara, Mendonça Filho (PE), afirmou que a ação movida por Ramona "tem potencial para provocar um rombo nas contas do governo”. E completou: “É preciso reconhecer os direitos desses médicos”. Segundo relato de Ramona, os cubanos recebem US$ 400 no Brasil e outros US$ 600 seriam depositados em uma conta em Cuba, à qual só terão acesso quando retornarem à ilha. O governo cubano recebe R$ 10 mil por mês (cerca de US$ 4.170), por médico que está no Brasil trabalhando no programa, mesmo valor pago individualmente aos profissionais de outros países no Mais Médicos.

A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) intermedeia o acordo com Cuba. O salário pago efetivamente aos médicos cubanos era um mistério até o caso de Ramona vir a público. Falava-se em um pagamento de 25% a 40% do total repassado pelo Brasil ao governo cubano.

De acordo com o Ministério da Saúde, 22 cubanos deixaram o Mais Médicos formalmente e voltaram para a ilha caribenha. Além deles, o ministério admite que outros cinco cubanos abandonaram o programa, dentre eles Ramona, que está em Brasília, e Ortelio Jaime Guerra, que foi para os Estados Unidos. A pasta não tem informações sobre o paradeiro dos outros três profissionais.

Diante da polêmica, o Planalto avalia negociar com o governo cubano um aumento no salário pago aos profissionais da ilha que estão no Brasil participando do Mais Médicos. O objetivo do reajuste seria evitar novas debandadas de profissionais do programa que possam comprometer não só a sua execução como também gerar prejuízos políticos para a presidente Dilma Rousseff, que tentará se reeleger no pleito de outubro. O valor do reajuste para os médicos cubanos ainda não foi definido e depende de a presidente aprovar a ideia.

Sem fiscalização As consultas dos profissionais do Mais Médicos formados no exterior ocorrem desde setembro nas periferias das grandes cidades e no interior do país sem nenhuma fiscalização dos conselhos regionais de medicina. O que tem havido é apenas um monitoramento interno desses médicos, realizado por tutores e supervisores indicados por universidades federais e contratados pelo próprio governo federal. Já a fiscalização da atuação médica, com vistorias nas unidades – que, segundo a legislação, cabe aos conselhos regionais de medicina –, ainda não saiu do papel.

Para o conselho federal, é o ministério que impede o início da fiscalização in loco dos estrangeiros. Segundo o CFM, o governo se nega a informar onde trabalham os estrangeiros e quem os supervisiona. Já o governo reafirma que cumpre seu papel e que cabe aos conselhos fiscalizar.

Um problema aqui e outro ali

Em entrevista a rádios de Manaus, a presidente Dilma Rousseff fez uma avaliação positiva do programa Mais Médicos e ignorou as recentes desistências dos profissionais, sobretudo cubanos. "Esse é um programa do meu coração, eu cuido dele todo dia, fico olhando. Óbvio que você tem, sempre vai ter, um problema aqui e outro ali. Mas sobretudo é isto: um programa feito para pessoas", afirmou. "O Norte é a região mais beneficiada pelo Mais Médicos. Não só não havia médicos mas, quando havia, não ficavam permanentemente. O Mais Médicos, para mim, está sendo um sucesso por resolver uma série de problemas", disse a presidente.