terça-feira, 11 de março de 2014

Resiliência brasileira - Beth Penteado

Resiliência brasileira 
 
Há uma geração que não se arrepia com a palavra planejamento 
 
Beth Penteado
Consultora de negócios
Estado de Minas: 11/03/2014


Ao me deparar com os resultados da pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor, que aponta o Brasil como o país do grupo dos Brics – Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul –, que tem sete em cada 10 pessoas empreendendo por oportunidade, pergunto: o que mudou de 12 anos para cá? Hoje, depois de mais de 10 anos lidando com empreendedores dos mais diversos setores, porte e região, me permito pensar muitas outras razões que não só a necessidade nos levam a ter essa característica comportamental tão forte. Com certeza, essa resposta não tem uma única causa, e sim uma composição de fatores. A partir da experiência de lidar com mais de 2,5 mil empreendedores de diversos ramos, portes e regiões nos últimos 13 anos, acredito que a globalização, as inúmeras necessidades ainda não satisfeitas e a resiliência do nosso povo são o grande mote que nos impulsiona a abrir o próprio negócio.

Nesse mesmo período, acompanhamos o crescimento das grandes cidades, mas, sobretudo, o de cidades de pequeno e médio portes em todo o país, onde muitas necessidades ainda estavam e estão por ser atendidas. Esse crescimento por si só já seria suficiente para explicar o nosso avanço como empreendedores. No entanto, quando listamos todos os obstáculos que o empreendedor tem que ultrapassar para abrir o próprio negócio, e principalmente para viver dele, a pergunta volta: por quê? As respostas que eu mais encontro estão relacionadas ao desejo de realizar algo, de fazer melhor do que já vem sendo feito. A crença dos empreendedores brasileiros é de que, independentemente da região, as pessoas têm o direito de consumir produtos diversificados e de qualidade e de usufruir de bons serviços abre oportunidades para a abertura de novos negócios – um dos grandes benefícios que a globalização nos trouxe.

É cada vez maior o número de pessoas que têm acesso a informações globalizadas e essas informações muitas vezes “ensinam” nossos consumidores a distinguir de forma bem clara o que é bom e o que é ruim, tornando seu nível de exigência mais alto, assim como sua intolerância. De uma forma subliminar, quase inconsciente, o empreendedor brasileiro responde com seus negócios àquilo que nós, como cidadãos, não recebemos com qualidade como contrapartida aos impostos que pagamos. Por essa razão a resiliência.

A diferença hoje é que muitos dos nossos empreendedores não se lançam na abertura de novos negócios como aventureiros. Já começamos a desenvolver, ainda que de forma acanhada, uma geração que não se arrepia com a palavra planejamento e, que bem ou mal, define onde quer chegar com aquele empreendimento. Nossos “metamodelos” não são nem de longe os homens públicos que deveriam nos guiar e, sim, empreendedores de sucesso que, apesar de tudo, acreditaram e continuam acreditando que podem empreender por oportunidade, gerando emprego, renda e riqueza para si e para a sociedade em que estão inseridos.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Não temos alternância no Planalto - Renato Janine Ribeiro

Valor Econômico - 10/03/2014

Por que nossos partidos, quando deixam a Presidência do país, têm tanta dificuldade em reconquistá-la?


Uma tese fundamental da democracia é a da alternância no poder. Isso significa que duas forças políticas, ou às vezes mais que duas, disputam a hegemonia política, e a vitoriosa numa eleição pode muito bem perder a seguinte, ou uma seguinte. Pode, não. Deve. Os partidos assim se alternam, de modo que mais se "está no poder" do que se "tem" (ou "conquista") "o poder". Ninguém é dono, na democracia, do poder.

Mas temos tido alternância no poder federal, nosso poder mais forte, porque define a economia? Não exatamente. Temos tido sucessão, não alternância. Explico. Três principais partidos presidiram a República desde o fim da ditadura. O PMDB, após José Sarney, deixou de ser competitivo em termos presidenciais. O PSDB perdeu três eleições sucessivas, deixando o Planalto, e a maior parte dos analistas não prevê sucesso para ele este ano. Pior até, ele corre o risco de perder para Eduardo Campos a posição de líder da leal oposição ao PT, o que sangraria a agremiação tucana, com quadros e votos migrando para uma nova estrela da política - que, por sua vez, se posicionaria bem para a copa eleitoral de 2018.

Mas mesmo o PT que, depois do susto de meados do ano passado, quando a candidatura Dilma perdeu quase metade das intenções de voto em questão de semanas, se recuperou e agora até tem a chance de ganhar as eleições já no primeiro turno - mesmo ele corre o risco de se esvaziar até 2018 e de não ter um nome competitivo para o que seria um quinto mandato petista. Não discuto aqui se isso é melhor ou não para o país. O que quero dizer é que temos, hoje, uma situação circunstancial: um esvaziamento de nomes que sejam bons candidatos, nos dois partidos de clara vocação presidencial; e uma condição estrutural: nossos partidos, quando deixam a presidência, param de ser competitivos. Uma derrota na eleição presidencial pode significar, se não o beijo da morte, pelo menos uma anemia séria, que preserva parte dos seus ganhos políticos, mas não permite que volte aos momentos de glória.

Temos sucessão, não alternância, na Presidência

Tudo isso são hipóteses, mas que convém explorar. Começando pelos candidatos prováveis, os dois partidos que há vinte anos dividem a cena política exibem certo desgaste. A alternância de dois governadores paulistas como candidatos do PSDB se esgotou. Alckmin até teve, em 2006, menos votos no segundo turno do que no primeiro. Serra expôs sua incapacidade de crescer. Ficou como candidato Aécio Neves que, porém, segundo os analistas, não decola. Já do lado petista, o próprio nome de Dilma Rousseff surgiu depois de liquidadas as candidaturas da primeira geração partidária, Dirceu, Genoino e Palocci por escândalos, Tarso por não ter apoio no partido. Na geração deles, talvez reste Jaques Wagner, mas que não tem tido exposição nacional. O nome cada vez mais citado para 2018 é o de Fernando Haddad, mas é delicado um partido apostar num nome único (o mesmo problema do PSDB, quando conta apenas com Aécio), ainda mais porque a cidade de São Paulo é uma caixa preta, que pode muito bem levar um prefeito seu ao fracasso.

Curiosamente, é a terceira força que tem o maior estoque de nomes. A aliança entre Eduardo Campos e Marina Silva pode tanto reforçá-los quanto se estressar. Mas a soma de PSB e Rede tem um traço promissor, na medida em que propõe tirar-nos de uma cansativa polarização entre PT e PSDB. Ambos foram ministros de governos petistas, ambos hoje garimpam votos entre os tucanos. O PT adotou como estratégia desconstruí-los, apresentando-os como traidores; o PSDB prefere lisonjeá-los, vendo neles possíveis aliados para o segundo turno. Mas também o partido de Aécio tem, neles, uma ameaça. Se levarmos em conta o desgaste tucano e o apelo da aliança Eduardo-Marina, é possível que o amálgama, por enquanto mal feito, entre socialistas que não defendem o fim do capitalismo e sustentáveis que foram da ecologia para a economia, acabe dando certo.

O que temos, então? Se o PSDB ganhar, começa uma história nova. Se perder mas ficar em segundo lugar, terá que se reconstruir, para deixar de ser o perdedor constante da nossa política federal. Mas, se cair a terceiro, pode baixar para dimensões equivalentes às do atual DEM, pálido fantasma do que já foi. Para o PT, a vitória é o melhor cenário, como por sinal para os tucanos, mas coloca a questão do candidato em 2018, tema que não é trivial. Já a derrota pode ser calamitosa. O PT aprendeu a ser governo e esqueceu como é ser oposição. Não terá candidato nato para 2018, nem poderia ungi-lo a partir de uma posição de poder. Pelo menos, é improvável que o PT fique em terceiro lugar. Finalmente, o PSB+Rede é o contendor que ganha em qualquer cenário. Vencendo a eleição, isso é óbvio. Mas, se tiver o segundo lugar, desbanca o PSDB e sangra esse partido. Eduardo e Marina assim se posicionam bem para 2018. Para eles, mesmo o terceiro lugar, se for conquistado com uma votação honrosa, é positivo, porque os mantém no páreo.

Mas cabe a questão que iniciava o artigo. Parece que no Brasil os partidos são razoavelmente bons para disputar o poder mas, depois de passar por ele, perdem a garra competitiva que os fez chegar lá. O PT vive um desgaste, até natural, de ser governo por doze anos. Mas o PSDB vive o desgaste, esquisito, de ter sido governo no passado, doze anos atrás. Dá vontade de brincar, dizendo que nossos partidos, depois de passarem pela Presidência, não conseguem se desestatizar, voltar à livre concorrência... Parece que nossa política federal opera por uma série de sucessões, não pela ida e vinda característica da alternância. Por quê, é uma boa pergunta.


Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. 
E-mail: rjanine@usp.br



Uma chance às tartarugas‏ - Ana Clara Brant

Uma chance às tartarugas 

 
Estudo sobre o que as espécies comem pode facilitar a elaboração de um plano de preservação dos animais, uma vez que a dieta reflete a demanda dos micro-hábitats 

 
Ana Clara Brant
Estado de Minas: 10/03/2014


Espécie, mais comum no Sul do Brasil, é encontrada morta todos os dias nas estradas da região     (Clarissa Alves da Rosa/Divulgação)
Espécie, mais comum no Sul do Brasil, é encontrada morta todos os dias nas estradas da região


Para se preservar uma espécie, seja ela qual for, é fundamental conhecer sua fonte de alimentação. Pensando nisso, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizaram um estudo sobre a composição da dieta da tartaruga-tigre-d'água (Trachemys dorbigni).

O artigo Dietary variation and overlap in D'Orbigny's slider turtles Trachemys dorbigni (Dumeril and Bibron 1835) (Testudines: Emydidae), traduzido para o português como Variação e sobreposição da dieta na tartaruga-tigre-d'água, acaba de ser publicado pela Journal of Natural History, revista científica que tem como foco a entomologia e a zoologia, considerada uma das 100 publicações mais influentes em biologia e medicina ao longo dos últimos 100 anos, de acordo com pesquisa feita pela Special Libraries Association (SLA).

Durante quase um ano, o grupo, formado por Anelise Torres Hahn, Clarissa Alves da Rosa, Alex Bager e Ligia Krause coletou 73 tartarugas atropeladas na BR-392, próximo a Pelotas (RS), região que tem um alto índice de atropelamentos de animais. "Eu mesma coletava as tartarugas mortas na rodovia. Elas eram levadas ao laboratório para identificação do sexo, biometria e retirada do estômago. Este era preservado em formol para posterior análise no laboratório", conta a bióloga, doutora em zoologia pela PUC-RS e mestre em biologia animal pela UFRGS Anelise Torres Hahn.

Dos 73 indivíduos recolhidos, 39 tiveram o conteúdo estomacal removido, que foi uma das principais contribuições dessa pesquisa, como lembra a ecóloga e doutoranda no programa de pós-graduação em ecologia aplicada da Ufla Clarissa Alves da Rosa. Ela explica que, geralmente, os estudos são feitos por meio das fezes, o que limita os resultados, já que o processo de digestão pelo qual passam os alimentos dificulta sua identificação.

Analisar os conteúdos estomacais é mais eficiente, mas exige, muitas vezes, técnicas invasivas (abate do animal ou regurgito). "Nas fezes, muita informação se perde e fica mais difícil identificar elementos, devido ao processo de digestão acelerado. Já quando analisamos o estômago, os itens estão melhor preservados. Para você ter uma ideia, outro dia ajudei a dissecar um lagarto que foi atropelado e, quando abrimos a barriga dele, tinha um figo intacto dentro dela. Isso facilita o nosso trabalho. Por isso, acredito que uma das principais contribuições desse artigo é o método de estudo, que se utilizou de estômagos de animais atropelados, já que tais carcaças costumam ser descartadas sem aproveitamento para estudos científicos", frisa.

A tartaruga-tigre-d'água é a espécie de tartaruga continental mais comum no Sul do Brasil. No entanto, há poucos estudos sobre sua biologia. Anelise revela que o fato de ela ser a espécie mais recorrente facilita a coleta e fornece um número significativo de indivíduos que serão amostrados. Além disso, há um número grande de publicações sobre a alimentação em diferentes espécies da família (Emydidae), possibilitando a comparação da composição de dieta com outras espécies. "O conhecimento sobre a ecologia alimentar é muito importante, porque a dieta reflete a demanda dos micro-hábitats e as interações com outras espécies, principalmente no contexto atual de degradação dos ecossistemas, onde o conhecimento sobre suas características biológicas e ecológicas é fundamental para planos de conservação efetivos", frisa.

DESCOBERTAS

Entre outros resultados, os pesquisadores descobriram que a dieta desses animais envolvia 26 itens alimentares, sendo que entre as fêmeas a variedade é maior. A bióloga Anelise comenta que, no Sul do país, as tartarugas são animais onívoros, ou seja, se alimentam tanto de animais quanto de vegetais. Entre os itens de origem animal, a pesquisadora diz que foi registrado desde moluscos e insetos até peixes.

Chamou a atenção ainda o fato de que, mesmo tendo sido feito em época de desova, a pesquisa identificou conteúdos nos estômagos de todas as fêmeas, contrariando resultados de estudos anteriores, que indicavam que as fêmeas dessa espécie não se alimentavam no período. A ecóloga Clarissa Alves da Rosa diz que todas as tartarugas fêmeas recolhidas estavam grávidas e que a variedade de itens encontrados no estômago delas era bem maior do que a encontrada no estômago dos machos. Clarissa salienta que a principal importância do estudo é justamente a questão da conservação dos animais. Ela explica que no Brasil há pouco conhecimento sobre a ecologia das nossas espécies e que, se queremos preservá-las, é necessário nos concentrarmos nessa questão. "Para preservar, tem que se saber que tipo de ambiente o animal precisa para viver, o que ele consome. No caso das tartarugas-tigre-d'água, que se alimentam basicamente de plantas aquáticas, já que vivem em zona de pântanos e banhados, essa região vem sendo afetada não só pela BR-392, como pelo cultivo de arroz que está drenando e, consequentemente, prejudicando a área. Se nosso foco é a conservação, há que se focar também nos recursos e no ambiente", enfatiza. 

Maconha terapêutica - Luciane Evans

Maconha terapêutica 

Pesquisadores brasileiros se dedicam a estudos da Cannabis sativa, planta que pode auxiliar no tratamento de doenças como ansiedade e depressão
 
 
Luciane Evans
Estado de Minas: 10/03/2014 


Planta ganhou espaço em vários lugares do planeta como aliada dos   tratamentos médicos (Istockphoto)
Planta ganhou espaço em vários lugares do planeta como aliada dos tratamentos médicos

Os acidentes de trânsito não aumentaram. As pessoas não saíram enlouquecidas pelas ruas. A criminalidade e a violência não cresceram nem diminuíram. Pouca coisa mudou nos países que passaram a usar maconha para uso medicinal. O Canadá foi o primeiro país a permiti-la para uso terapêutico e, mais de 10 anos depois, a planta, conhecida como Cannabis sativa, ganhou espaço em outros lugares do mundo como aliada dos tratamentos médicos. Mas no Brasil, onde 1,5 milhão de pessoas usam a erva diariamente, ela ainda é vista como "fora da lei". Porém, por trás de toda a fumaça, a medicina brasileira já levanta a principal questão encarada mundo afora: quais seriam os benefícios e malefícios da maconha para a saúde?

Não se trata de defender o consumo nem de sacudir a bandeira contra a erva. Segundo os pesquisadores, a intenção é estudar e comprovar os usos e efeitos terapêuticos de algumas substâncias que a compõem. Para isso, há um esforço conjunto de grandes centros acadêmicos e da indústria farmacêutica no mundo inteiro. Mas, por aqui, as pesquisas na área estão mais lentas. "Ao colocar a Cannabis e seus derivados no mesmo nível de proibição, a legislação brasileira dificulta a obtenção desses produtos para a pesquisa. O uso medicinal de derivados da planta poderia ser liberado no Brasil, sendo esse uso regulado por uma agência brasileira da Cannabis medicinal", palpita o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade Federal de São Paulo (USP), Antônio Zuardi.

 Sem entrar na discussão que ronda o Senado brasileiro sobre a descriminalização da droga, o Estado de Minas entrevistou médicos e pesquisadores do Brasil sobre os efeitos que a Cannabis pode causar. Muitos estudos já comprovaram que ela pode não ser um bicho de sete cabeças. Tanto é que, do ponto de vista científico, ainda não está claro que a maconha pode provocar dependência química e não existe consenso popular da existência dessa dependência.

Por outro lado, em pacientes com glaucoma – mal que pode levar à perda da visão –, a erva ajuda a reduzir a pressão ocular. Auxilia também no alívio da dor crônica, combate náuseas e vômitos em pacientes que enfrentam quimioterapia contra o câncer e ajuda a estimular o apetite em pessoas que têm o vírus HIV. Há também quem diga que substâncias da planta podem controlar o Alzheimer e auxiliam no tratamento da depressão (veja quadro com pesquisas mundiais). Será que os benefícios sobrepõem os malefícios?

O principal pulo da ciência para o assunto veio com as descobertas das substâncias que compõem a Cannabis, entre elas o THC (tetrahidrocanabinol), princípio ativo da planta, descoberto na década de 1960. Em 1990, um grupo de farmacologistas dos Estados Unidos clonou, pela primeira vez, um receptor canabinoide do cérebro. A esse feito seguiu-se a descoberta dos endocanabinoides, compostos gordurosos produzidos por neurônios e capazes de ser reconhecidos pelos mesmos receptores da maconha, posicionados na membrana de outros neurônios.

COMPOSTOS
Segundo destaca Zuardi, foi na década de 1970, pouco tempo depois que os principais componentes da Cannabis foram identificados, que um grupo brasileiro liderado pelo professor Elisaldo Carlini passou a estudar esses compostos na Escola Paulista de Medicina (Unifesp). "Uma das primeiras descobertas foi que um dos componentes da planta, o canabidiol (CBD), que não produzia os efeitos típicos da erva, tinha efeito antiepiléptico em animais, o que foi posteriormente verificado pelo mesmo grupo em humanos", diz. Nessa época, como parte do doutorado de Zuardi, começou-se a estudar a interação entre esse componente e o THC, que é o responsável pelos efeitos mais conhecidos da Cannabis. "Verificamos que doses elevadas de THC produziam muita ansiedade e alguns sintomas psicóticos. Porém, quando os voluntários tomavam o THC junto com o CBD, esses sintomas eram atenuados, sugerindo que o CBD poderia ter efeitos ansiolíticos e/ou antipsicóticos."

 Estudos posteriores na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto confirmaram, em animais e humanos, os efeitos ansiolíticos e antipsicóticos do CBD. "Recentemente, publicamos um estudo preliminar, mostrando que pacientes com a doença de Parkinson e que apresentavam sintomas psicóticos tinham esses sintomas atenuados pelo CBD." Ainda de acordo com o psiquiatra, atualmente já é sabido que no sistema nervoso central há uma forma de neurotransmissão que usa canabinoides produzidos pelo próprio organismo.

"Esse sistema está envolvido na regulação de um grande número de funções, o que justifica o uso de canabinoides produzidos pela Cannabis com finalidade terapêutica. Dessa forma, muitos efeitos benéficos para a saúde podem ser obtidos com os canabinoides. A dificuldade é que a planta produz mais de 80 substâncias e algumas delas com efeitos opostos, como é o caso do THC e do CBD. A concentração relativa desses canabinoides vai depender da parte da planta que está sendo usada (flores, folhas ou galhos), do solo onde essa planta foi cultivada, da temperatura, entre outros." Ainda segundo Zuardi, os efeitos da maconha obtida na rua são muito pouco previsíveis e ela não deve ser usada com finalidade terapêutica. "Há evidências de que amostras da planta, muito ricas em THC, podem produzir alucinações, delírios e outras manifestações indesejáveis. O uso pesado de ervas desse tipo, especialmente na adolescência, aumenta o risco para quadros psicóticos mais duradouros", alerta.

Personagem da notícia
Lucas, faz uso medicinal da maconha para o TDAH


Melhor qualidade de vida


Sofrendo de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Lucas, que não divulga o sobrenome, conta que recebeu o diagnóstico da doença quando tinha 17 anos. "Receitaram-me remédios, como a ritalina. Tomava 10 comprimidos por dia, com autorização médica. Tive insônia e ficava muito nervoso." Quando soube pela internet sobre o uso medicinal da maconha para o TDAH, Lucas pesquisou tudo a respeito. "Na proporção certa, balanceando o THC e o CBD, vaporizo a planta até que atinja o ponto de ebulição, para que ela não perca seus princípios ativos. Assim, a uso com a aspiração. Melhorou a minha vida", conta. Sem uso diário, a Cannabis, segundo ele, lhe trouxe qualidade de vida. "Minha hiperatividade diminuiu. Estou menos ansioso", diz. Porém, para a falta de foco, sintoma típico do TDAH, Lucas afirma que a Cannabis não o ajudou e conta com acompanhamento psicológico.


À base de ervas


 (Beto Magalhães/EM/D.A Press)

Atualmente, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisadores estão debruçados sobre seis projetos – com a colaboração de outras universidades federais – que têm como objetivo o desenvolvimento de medicamentos à base da maconha. "Há efeitos do THC que podem ser terapêuticos, como são aqueles para o tratamento de dor, epilepsia e depressão. Porém, o THC tem sequelas negativas, como a perda da memória e de coordenação motora. A ideia é desenvolver medicações que não trazem esses efeitos negativos", comenta o pesquisador e professor do Departamento de Farmacologia da UFMG Fabrício Moreira, ressaltando que há registros que mostram que, desde as civilizações mais antigas, os chineses e outros povos usaram a erva para tratamentos de doenças.

Fabrício diz que o THC faz alterações no funcionamento do cérebro e, se usado por muito tempo e por várias vezes, pode haver alterações nas células, o que pode levar a doenças e transtornos psiquiátricos. No caso da dependência, ele explica que é como se o cérebro fosse se acostumando com essa presença do THC. "Quando a pessoa começa a usar, elA vai se adaptando. Todo medicamento tem dois lados, sempre. Não quer dizer que a maconha vá ser indicada para determinado tratamento. O que vai justificar seu uso é o contexto desse paciente."

POTENCIAL "Por outro lado, há regiões específicas do cérebro em que o THC pode modular o estado de humor e, com isso, auxiliar no tratamento de doenças como ansiedade e depressão." Entre 2005 e 2007, o biólogo Rodrigo Guabiraba fez mestrado, pela UFMG, em canabinoides e inflamação, com o objetivo de pesquisar o potencial de drogas que atuam nos mesmos sítios de ação do THC. "Usamos dois compostos fornecidos por uma indústria farmacêutica que bloqueavam os efeitos da maconha. Eles se 'ligam' aos mesmos receptores a que se 'liga' o THC, porém com mais intensidade", relata.

Ao ativar ou bloquear esses receptores, Rodrigo concluiu que, além do controle da inflamção em camundongos, foi possível diminuir as dores e, em casos de câncer, controlar o crescimento de tumores. "Mas é possível entender quais as etapas das respostas e onde o THC e os canabinoides podem ser ativados porque, ao ativar esses receptores, há riscos de efeitos psicológicos", diz Rodrigo, que hoje mora na França e conta que, por lá, as discussões em torno da erva usada em prol da saúde têm menos preconceito em nível científico do que no Brasil.

Estudos pelo mundo apontam benefícios da erva para doenças como:

» OBESIDADE
Dois componentes da folha da maconha podem aumentar a quantidade de energia queimada pelo corpo humano. A descoberta pode fazer da Cannabis sativa um remédio contra doenças ligadas à obesidade, segundo informações do jornal britânico The Telegraph.

» DORES
Pesquisadores da Universidade de Oxford concluíram que a maconha pode reduzir o incômodo da dor. O THC seria o responsável por tornar a dor mais suportável. No entanto, o alívio não foi comprovado em todos os pacientes analisados. Os resultados foram publicados no jornal científico Pain.

» DEPRESSÂO

Um estudo realizado no Centro Médico da Universidade de Utrecht, na Holanda, mostrou que o consumo de maconha pode ajudar no tratamento da depressão. Os resultados da pesquisa mostraram efeito benéfico do THC em regiões de processamento de emoção.

» TRAUMAS

Pesquisa brasileira, feita na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mostrou que um componente químico da maconha pode ajudar no tratamento das sequelas emocionais deixadas por traumas.

» ESCLEROSE MÚLTIPLA

Estudos no mundo têm comprovado que o extrato da maconha possibilita atenuar a rigidez muscular em pacientes afetados por esclerose múltipla. No entanto, outra pesquisa elaborada pela Escola de Medicina Peninsular, de Plymouth (Sul da Inglaterra), mostrou que o consumo de Cannabis não reduz a progressão da esclerose múltipla, mas alivia alguns sintomas.

» CÂNCER DE MAMA
Pesquisadores da Universidade Autônoma de Madri (UAM), da Universidade Complutense de Madri e do Centro Nacional de Biotecnologia acreditam que os componentes ativos da maconha e seus derivados poderiam reduzir o crescimento do câncer de mama e a aparição de metástases. Eles constataram que os canabinoides podem deter e acabar com as células derivadas de tumores de mama.