sábado, 17 de maio de 2014

Uma visão marxista da tecnociência - Ari de Oliveira Zenha

Estado de Minas: 17/05/2014 



O desenvolvimento das forças produtivas representa para o capital não só sua afirmação como sistema de produção dominante, mas também uma necessidade imperativa da sua dinâmica reprodutiva, no sentido do desenvolvimento e apropriação contínua e ambígua da tecnociência. Isso não implica que o desenvolvimento técnico-científico que se realizou e se realiza esteja desvinculado das relações sociais, produtivas e históricas da humanidade.

No atual momento do capital, a tecnociência pode parecer ter uma autonomia, independência da estrutura produtiva dominante. Mas é uma constatação aparente, pois, na realidade, existe um imbricamento entre tecnociência e estrutura produtiva, em que ambas se interligam formando um todo que proporciona ao capitalismo uma alavanca para que suas estruturas continuem em desenvolvimento, mesmo que nos leve a uma situação de impasse ou de barbárie autofágica. O potencial destrutivo que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia coloca para o mundo globalizado é uma realidade. Mas essa constatação sempre existiu em estado latente, seja qual for a forma que assuma o desenvolvimento tecnológico. Situar a análise desse desenvolvimento numa perspectiva a-histórica e moralista é extremamente questionável e polêmico.

O imperativo estrutural do dinamismo do capital sempre esteve alicerçado no desenvolvimento histórico/real das forças produtivas e das potencialidades da ciência a serviço dessa dinâmica reprodutiva do capitalismo. A engenharia genética, a evolução da informática, da eletrônica, da robótica, da inteligência artificial, da biotecnologia, da nanotecnologia e outros avanços científico-tecnológicos no mundo nos colocam frente a importantes questões: a quem serve essa tecnologia? O que representa para a sociedade o desenvolvimento e execução dessas novas tecnologias? Qual o papel da ciência no mundo do capital? Qual o sentido e significado para a humanidade do desenvolvimento tecnocienti[ifico? Que controle tem a sociedade sobre esses processos?

Diante da hegemonia do capital globalizado, da predominância da sua autorreprodução ampliada, da busca pelo aumento da produtividade, da afirmação e expansão da ideologia dominante, da divisão social do trabalho, da subordinação do desenvolvimento tecnocientífico às necessidades e interesses do complexo militar-industrial, entre tantas, tem levado a tecnociência a dar legitimidade ideológica, produtiva e social ao desenvolvimento das forças produtivo-destrutivas do capitalismo.

Ao mesmo tempo que o capital estruturalmente necessita para continuar sua reprodução, acumulação e ampliação global do desenvolvimento, contínuo e desmesurável, da tecnociência, ele introduz em seu esquema de produção novos e avançados ramos de atividades produtivas, que, dentro de sua lógica, alavanca sua estrutura de produção e reprodução, elevando suas formas de produção, exploração e apropriação, reproduzindo, em um novo patamar, suas agudas contradições estruturais.

Falar em desaparecimento da espécie humana, do surgimento de nova espécie superior, uma mutação do ser humano, enfim, o aparecimento dos cyborgs, que seriam a corporificação dessas modificações bioquímicas, fisiológicas e eletrônicas que a tecnociência pode e vem arquitetando, é uma possibilidade real. O desenvolvimento da tecnociência, de fato, mantida dentro da lógica estrutural do capital, acarreta, devido a sua perversidade e destrutividade, que, não sendo contidas e colocadas sob a hegemonia das forças sociais historicamente dominadas, exploradas e antagônicas do capital, uma perspectiva extremamente perturbadora e também desintegradora para a humanidade.

Outra questão que podemos levantar é em relação aos aspectos jurídico-institucionais. Como todo avanço tecnocientífico, essas que nos apresentam no momento têm mostrado que as instituições jurídicas, criadas como parte da superestrutura do capital, estão completamente confusas e impotentes frente a esses embaralhamentos de fronteiras e representações que a tecnociência coloca para toda a sociedade civil em nível global. Podemos constatar que as questões, dúvidas e certezas aqui apresentadas são extremamente complexas e que merecem de todos nós profundas reflexões.

Sequestradas na Nigéria‏

Nenhuma pessoa pode agredir ou subjugar outra. Isso é crime e deve ser punido com rigor em todo o mundo



Vivina do C. Rios Balbino
Psicóloga, mestre em educação, professora da Universidade Federal do Ceará e autora do livro Psicologia e psicologia escolar no Brasil
Estado de Minas: 17/05/2014

Absurdamente, em pleno século 21, e com tantas leis e tratados internacionais sobre direitos humanos com penalidades para homens agressores, as violências contra mulheres chocam o mundo. No Brasil e em muitos países como Egito, Indonésia, Irã, México, Filipinas, Japão e Índia existem vagões exclusivos para as mulheres nos trens e metrôs por causa dos abusos. Em Brasília, coletivos param fora das paradas oficiais para as mulheres após as 22 horas pelo alto risco. Os perversos estupros coletivos na Índia e Paquistão estarrecem o mundo. Infelizmente, barbáries que acontecem em todo o mundo, mas na África e parte da Ásia os índices são alarmantes. Prostituição e turismo sexual com meninas, estupros, agressões e o não direito de frequentar escolas. No Paquistão, violências brutais como a da menina Malala, agredida perversamente por defender a educação de meninas e, recentemente, a morte de uma adolescente que ateou fogo no próprio corpo após ser estuprada por quatro homens e o tribunal retirar as acusações comovem. Como conceber tamanha selvageria e impunidade? Terrível ter a morte como indignação diante de tribunais desumanos.

A mais recente barbárie na Nigéria estarrece o mundo. Quase trezentas adolescentes foram brutalmente sequestradas de escolas para local até agora ignorado e com a ameaça cruel do líder extremista Boko Haram de vendê-las. Tráfico de meninas e mulheres em pleno século 21? Que os organismos internacionais e os grandes líderes mundiais resgatem rapidamente essas sofridas meninas e as mantenham sob segurança. Violências históricas contra mulheres por fanáticos religiosos, preconceitos sociais e guerras pelo poder. Meninas e mulheres usadas como escravas sexuais em redes mundiais de prostituição deportadas para outros países, ou no próprio país em redes domésticas de prostituição e pedofilia. Sofrem mais as vítimas de países e regiões pobres. Segundo dados da ONU, 1 em cada 4 mulheres do mundo foi ou será estuprada ao longo de sua vida. Infelizmente, ainda há um longo caminho de lutas a percorrer, e são fundamentais todas as medidas preventivas e punitivas exigidas para preservar a integridade física e psicológica de meninas e mulheres contra essas atrocidades no mundo.

 O Brasil é a 7ª potência econômica mundial, mas ocupa também o 7º lugar no ranking de assassinatos de mulheres (feminicídio). A Lei Maria da Penha, criada em 2006, infelizmente não conseguiu conter as violências. A taxa de mortalidade foram de 5,28 por 100 mil mulheres no período de 2001 a 2006, e de 5,22, de 2007 a 2011 (depois da lei). Conforme o Ipea 2012 houve apenas um “sutil decréscimo da taxa no ano de 2007, imediatamente após a vigência da lei”, mas depois ela voltou a crescer."Em média ocorrem 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia”, diz o estudo. O Nordeste tem a maior taxa de mortes, e o Sul, a menor. A maior parte das vítimas é negra e tem baixa escolaridade. Por Estado, as maiores taxas ocorrem no ES, BA, AL, RO e PE, e as mais baixas estão no PI, SC e SP. Segundo dados de 2013 da Secretaria de Políticas para as Mulheres, estima-se que, absurdamente, a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil. Levantamento do Ministério da Saúde aponta que entre 2009 e 2012 o registro em hospitais e redes de atendimentos para casos notificados como estupro aumentou 157%. Altíssimas taxas de horrores nem sempre denunciadas por medo ou vergonha.

Lutamos por uma sociedade democrática, com igualdade de direitos para todos. Nenhuma pessoa pode agredir ou subjugar outra. Isso é crime e deve ser punido com rigor em todo o mundo. A “Campanha Acabar com a Violência contra as Mulheres” foi a primeira campanha global temática de longo prazo da Anistia Internacional e ocorreu de 2004 a 2010. Ambiciosa nos seus objetivos, impulsionou grandes mudanças na forma de atuação da Anistia Internacional nessa temática. A Anistia Internacional é um movimento global com mais de 3 milhões de apoiadores, membros e ativistas que atuam para proteger os direitos humanos. No caso da Nigéria, a AI se destaca na defesa dos direitos das meninas. É fundamental que todos os países cumpram os tratados nacionais e internacionais de direitos humanos, e que conteúdos de educação em direitos humanos sejam obrigatórios em todos os currículos escolares de todo o mundo, para formar novas gerações de homens respeitadores dos direitos das mulheres.

BENEFICIÁRIOS - Eduardo Almeida Reis‏

Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 17/05/2014 

O apresentador e âncora Ricardo Eugênio Boechat (Buenos Aires, 13 de julho de 1952), no Jornal da Band, de 16 de abril, estranhou o fato de o PCC, Primeiro Comando da Capital, uma das maiores organizações criminosas das Américas, contar com um grupo de advogados assalariados, perfeitamente identificados, e a OAB achar muito normal. Com todo o respeito, é o que venho escrevendo neste espaço a cavaleiro de velho e bom diploma de bacharel: advogado de ladrão é beneficiário do roubo, talqualmente a esposa do ladrão, os filhos do ladrão e os demais funcionários da quadrilha.

Bandido não tem mulher, não tem companheira: tem esposa. Não por acaso, esposas, substantivo feminino plural, diacronismo antigo, era sinônimo das algemas que os bandidos merecem, bem como os seus advogados. Implico solenemente com o substantivo feminino esposa, do latim sponsa,ae, “mulher casada, em relação ao seu marido”. Em linguagem civilizada, marido tem mulher e mulher tem marido, sem essa de “meu esposo” ou “minha esposa”. Pior que esposo (a), só “benhê”.

Paulo e Mauro – Paulo Roberto Costa, o ex-todo-poderoso diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras, amigo do peito do ex-presidente José Sérgio Gabrielle, está preso. Aquele que a engenheira Graça Foster chama carinhosamente de “o Paulo”, mandou filhas e genros ao seu escritório da Barra da Tijuca. A mídia faz questão de explicar que a Barra fica na “zona oeste do Rio”, como se isso tivesse importância e alguém soubesse onde fica a zona oeste daquela cidade. Filhas e genros foram filmados retirando pacotes de documentos do escritório, o que os transforma, salvo melhor juízo, em cúmplices dos roubos do pai e sogro.

José Sérgio Gabrielli deve ser candidato a governador da Bahia. Nomes incríveis têm sido falados como candidatos aos governos de vários estados. Gleise Helena Hoffmann, que pronuncia “repuguina” , é candidata ao governo do Paraná.

O senador Édison Lobão Filho, autor da frase: “o que é ética para você pode não ser para mim”, deve governar o Maranhão, dando continuidade às admiráveis administrações que fizeram daquele estado motivo de inveja internacional. O Rio de Janeiro, que é useiro e vezeiro em Brizolas, Cabrais, Rosinhas e Garotinhos, o Rio Grande do Sul, o Ceará, o Pará – o Brasil inteiro: só fechando e reabrindo com outro nome.

O negócio é de tal ordem que o dr. Mauro Arce, secretário de Recursos Hídricos de São Paulo, novo “general da água” do estado líder da federação, em entrevista à Rádio CBN, afirmou que 75% dos moradores da capital do estado atenderam ao seu pedido de economia de água, enquanto 35% aumentaram o consumo. Até ontem, 75% + 35% significavam 110%, maneira inteligente de falar sobre o excesso de gente naquela região metropolitana, pois do dr. Arce é engenheiro, atividade que antigamente ensinava seus profissionais a somar, enquanto “o Paulo” só aprendeu a subtrair.


Difícil – A não ser que o cronista se limite ao seu mundinho – quantas horas dormiu, quantos chopes bebeu – está ficando difícil acompanhar o noticiário para escrever sobre o que está acontecendo. Leitores sérios não aguentam cronistas que se limitam aos seus mundinhos; cronistas sérios acham difícil acompanhar o noticiário. É um avião que desaparece com 229 passageiros e tripulantes, é um barco que afunda matando 300 pessoas, em sua maioria estudantes. Sem falar dos esquartejamentos, dos filhos que matam pais, de pais que matam filhos. A cereja do bolo pode ser um ônibus que tomba e mata seis crianças no Afeganistão, como se o telespectador soubesse onde fica o Afeganistão.

Quando se tem, ao vivo e em cores, um programa de televisão divertido para os que detestamos sair de casa – os engarrafamentos monstruosos da tarde/noite de uma quinta-feira, véspera de feriadão, que no Rio incluiu a quarta-feira, 22 de abril –, Gabriel García Márquez nos faz o desfavor de morrer na Cidade do México, às 4 da tarde, hora de Brasília. O Prêmio Nobel bem que podia esperar o fim do feriadão para passar desta para a pior. Perdi a curtição dos 258 quilômetros de retenção do tráfego em São Paulo, até então o recorde do ano.

O mundo é uma bola – 17 de maio de 1383: casamento da princesa Beatriz de Portugal com João I, rei de Castela e Leão entre 1379 e 1390, o segundo da Dinastia de Trastâmara.

Em 1375, João casou-se com Leonor de Aragão e teve os filhos Henrique e Fernando. Viúvo, casou-se com Beatriz de Portugal, única filha legítima e presumível herdeira do rei dom Fernando. Portuguesas, sendo ou não princesas, têm aquele suspiro em que dizem “estou-me a vir”. Reis não resistem à confissão orgástica, e dom João I, coitado, bateu o pacau no dia 9 de outubro de 1390 com 32 aninhos.

Em 1814, foi instituído o Dia Nacional da Noruega, país em que muitos começaram o feriadão God Páske, sexta-feira, 11 de abril, para voltar ao trabalho no dia 22. Desculpem-me, mas tenho leitora na Noruega.

Ruminanças – “Um escritor chega à velhice quando suspeita que o artigo que está escrevendo já o escreveu uma vez” (Ramón Gómez de La Serna, 1888-1963).

ARNALDO VIANA » Feijão sem tempero‏

ARNALDO VIANA » Feijão sem tempero
Estado de Minas: 17/05/2014



Está na placa, na entrada da casa de forró, lá pelos lados de Santa Luzia, no caminho para Jaboticatubas: “É proibido dançar encostando o… (o irmão mais novo do frango) na mulher”. Assim, curto e grosso. O cliente chega, com roupa de domingo, na noite de sábado. Moreno, estatura mediana, calça de brim (não jeans), camisa quadriculada no estilo country, gel no cabelo, botas da cano baixo brilhando nos pés e água de cheiro espalhada pelo corpo. Botou olho na placa quando se preparava para enfiar a mão no bolso e pagar o ingresso. Expressão indignada, foi ao porteiro.

– Mas como é isso? Pode explicar?

– Isso o quê?

– Olhe a placa…

– Ah, sim! Ordens do gerente.

– Até parece que ele nunca dançou. Isso é discriminação! Pode dar até processo.

– Discriminação? Como assim?

– Numa dança, fico de frente para a mulher, vendo-a inteira. Meu nariz capta o cheiro de fêmea e minhas mãos sentem o contato macio da pele feminina. Geralmente, nos cumprimentamos no salão com beijinho no rosto, que meus lábios degustam com prazer. E quando começamos a dançar, meu peito, inevitavelmente, roça no dela. Vê? Meu corpo se envolve, involuntariamente, digamos assim, numa onda de prazer. E só ele, o dito cujo, escondidinho debaixo das calças, é assim violentamente excluído?

– Não posso fazer nada. Já disse, é ordem do gerente. Se dançar encostado, o segurança bota na rua…

– Querem que eu faça o quê? Mandar o, o o… ficar quieto? Ele é incontrolável. Indócil Não sei se o gerente tem um igual, ainda ativo. Se tiver, vai entender o que digo. Não há como, simplesmente, mandar o, o, o… ficar quieto, como se faz com um menino, um cachorro. Eu, hein!

– Deixe-o em casa… ou guarde-o no bolso.

– Isso não é uma brincadeira, meu amigo. Não se trata de uma ferramenta, um relógio, que você descarta quando quer. Faz parte do corpo. E se eu fosse casado e viesse com a minha mulher? Podia encostar nela? Podia?

– Não! Em ninguém.

– Gente! Mas as mulheres não reclamam desse contato quase inocente das coxas com o, o, o… Algumas até o provocam. É uma espécie de jogo, gostoso.

– Isso do seu ponto de vista. Do gerente é indecência pura…

– E como vamos dançar? Com as partes de baixo para trás, numa postura ridícula, só para não permitir o contato?

– Faça como quiser, mas não encoste.

– E as mulheres, o que estão pensando dessa proibição?

– Duas já disseram que dançar sem encostar é como comer feijão sem tempero.

Pergunta do Negão: Olhando o noticiário, daqui, dali e de acolá, não lhe dá um estranho cansaço?

>> arnaldoviana.mg@diariosassociados.com.br