segunda-feira, 9 de junho de 2014

A busca da rapidez e do menor custo não pode dispensar a segurança - Mauro Ribeiro Viegas Filho

Qualidade das obras públicas 
 
A busca da rapidez e do menor custo não pode dispensar a segurança
Mauro Ribeiro Viegas Filho
Presidente do Conselho da Associação Brasileira
de Consultores de Engenharia (ABCE)

Estado de Minas: 09/06/2014


O calcanhar de Aquiles da administração pública é chegar ao equilíbrio entre a eficiência na aplicação de recursos e a missão de democratizar o bem-estar e diminuir as diferenças sociais da população, com transparência e eficácia. E o que vemos nos últimos anos é justamente esse esforço, nas diversas esferas do poder, de expurgar os entraves de uma máquina conhecida por sua burocracia e morosidade. No entanto, essa eficiência não pode e não deve dispensar a qualidade e as medidas de segurança. A Associação Brasileira de Consultores de Engenharia chama a atenção para o retrocesso que representa a aprovação da MP 630. Semana passada, em votação simbólica, a Medida Provisória 630 passou pelo crivo do Senado. Essa MP impõe restrições ao Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC) apenas para obras de presídios.

Nós, da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia, vemos com temor a adoção do sistema de “contratação integrada”, que determina que uma mesma construtora projete e construa uma obra. Para isso, seria necessário apenas um anteprojeto, dispensando a apresentação de um projeto básico. O RDC limita a aplicação da modalidade da “contratação integrada”, um dispositivo que agilizava a contratação de empresas para obras de serviços altamente especializados de engenharia, como aqueles que exigem e apliquem inovação tecnológica ou de metodologias de uso exclusivo. Nós, da ABCE e de demais entidades da engenharia, combatemos a falsa ideia de que chegar a patamares cada vez mais baixos em orçamentos de licitações de obras técnicas é uma boa prática de gestão. Ao contrário, garantir preços baixos nem sempre significa chegar à excelência. Ao invês vez disso, estaríamos estimulando uma prática danosa de mercado. Queremos, sim, garantir qualidade e eficiência, que muitas vezes custam caro pela aplicação de métodos e técnicas mais modernas e seguras. É por isso que lutamos pela alteração do RDC, a fim de impedir lances sucessivos de redução dos preços das licitações para serviços técnicos de engenharia e a falsa impressão de que estes têm necessariamente orçamentos superfaturados. A ABCE continuará combatendo essas práticas danosas para a sociedade quanto aos custos e à qualidade dos investimentos públicos. A contratação de serviços de consultoria deve ser prévia e independente da contratação das obras.

Os prazos adequados para a maturação do projeto e precificação visam a garantir riscos mínimos, custos adequados e segurança de contratos, como impõe a Lei 8.666/93 vigentes, e se pratica mundo afora. A MP 630 aprovada no Senado volta agora para a Câmara dos Deputados e caduca no dia 2 de junho. É hora de o setor voltar sua atenção ao PL 559/2013, que pretende “modernizar” a lei 8.666/93. A ABCE já encaminhou à relatora, a senadora Kátia Abreu, sua avaliação de vários dispositivos do PL. O texto deverá passar pelas comissões de Economia, Infraestrutura e Constituição e Justiça. É hora de a sociedade civil conhecer nossa luta, que interessa a todos os cidadãos de bem.

domingo, 8 de junho de 2014

EM DIA COM A PSICANÁLISE » Orates‏

EM DIA COM A PSICANáLISE » Orates
Regina Teixeira da Costa
Estado de Minas: 08/06/2014


Recém-lançado em Belo Horizonte pela Editora da Unifor – Universidade de Fortaleza, o livro Orates (contos clínicos), do psiquiatra e psicanalista mineiro Musso Greco, merece nossa atenção. Ele ganhou o prêmio de Literatura da Unifor em 2013.

A palavra orate significa indivíduo sem juízo, tresloucado, louco, doido. Deriva do catalão orat (1425), que, por sua vez, deriva do latim auratus, de aura: vento, sopro, alma. Como sugere o título, o livro é uma “casa de orates”, e, nela, psiquiatra e psicanalista se encontram reunindo um pouco da experiência de bom escutador e escritor para nesses contos conferir dignidade aos relatos de pacientes, quase sempre desacreditados.

É frequente dispensar as palavras dos psicóticos por carecerem de um sentido comum, lógico ou racional. Por seu conteúdo delirante, acredita-se que não merecem atenção e escuta. Um equívoco desastroso, já que é da reunião entre escuta do delírio e medicação apropriada que se alcançam melhores resultados.

A psiquiatria biológica dispensa a escuta, visando apenas o controle através de medicação, apostando na regulação das funções cerebrais. O autor, porém, aponta para a importância de uma clínica voltada para o sujeito e para uma determinação inconsciente no delírio. Greco não pretende a teorização, nem mesmo tem alguma pretensão pedagógica. Numa busca pessoal, escreve para curar-se.

O trabalho mostra grande sensibilidade do autor. Aqui a direção é outra. Como se pode ler a cada capítulo nos quais se nos oferecem estranhos delírios. Os contos clínicos demonstram que escutar os delírios é um importante recurso, que busca algum sentido ao que não tem nenhum. Delírio que dá uma forma ao que surge como um inconsciente a céu aberto, tal como é o vivido do psicótico.

O autor apresenta sua obra como uma espécie de vazadouro para a contradição. Toma as palavras e imagens que, como ele próprio diz, se ofereciam como imperativos exigentes e invocantes ordenando: escreve-nos! Tomou o imperativo para si e captura cada letra. Eu sou os outros fabricado em santidade, confessa o autor, tomando de empréstimo uma das significativas falas de um paciente.

Consultórios, centros de convivência, hospitais, livros, internet ou até das ruas, Musso colhe o alfabeto dos desarrazoados, persegue o ritmo e o esforço de estilo, o verso que subjaz na língua. Da loucura faz arte e poesia.

Nesta obra, casa de palavras, coube de tudo: célebres anônimos, pseudônimos e muitos outros orates: o messias, a santa, herodes, o príncipe, a macabéa, o poeta das coisas contrárias, a mendiga, o espião, o pichador, o suicida e ele mesmo.

Da miscelânea de narrativas faz seu projeto acompanhado de escritores que visitam sua escrita tais como Machado de Assis com O alienista, Gautier, Clarice Lispector, James Joyce, Antonin Artaud, Anais Nin, Ovídio, e toda fonte de escuta que recebe das ruas, clínica e diversas fontes atuais.

O livro prende a atenção do leitor interessado na diversidade assumida pela loucura, exposta através de fragmentos de relatos e das tantas formas como se apresentam os loucos para se fazerem minimamente entender, em sua capacidade de transmitir por onde andam em sua viagem através de um real tão raro e incomum.

Musso se apresenta: “Guardião das palavras dos outros, depositário de sonhos e delírios, uma espécie de Funes, compelido a purgar a memória, busquei, no escrito, a cura. Atrás de mim, o destino do escritor, farkóviskianamente, seguia meus passos, como um louco de navalha na mão...”.

Vale a pena conferir.

>>  reginacosta@uai.com.br

Música legal - Carolina Braga

Serviços que garantem o direito autoral conquistam cada dia mais adeptos entre público e artistas. Spotify, Deezer e Rdio permitem baixar faixas com qualidade, de graça ou pagando pouco


Carolina Braga
Estado de Minas: 08/06/2014



Sempre contestador, Lobão não sabia das novidades da tecnologia digital, mas é favorável, desde que sejam pagas       (Rui Mendes/Divulgação)
Sempre contestador, Lobão não sabia das novidades da tecnologia digital, mas é favorável, desde que sejam pagas


Para quem costumava entrar em todas as polêmicas, Lobão está até muito calmo. “Não tenho a menor ideia do que é isso”, diz sobre a chegada do Spotify ao Brasil. Não que seja exatamente uma polêmica, mas o serviço de áudio em streaming mais popular do mundo é uma força importante para a mudança da forma como consumimos música na atualidade. “Não sabia dessa novidade, se for pago eu acho legal. Se for normatizada, que dê dinheiro para o compositor ou o músico, é bacana”, opina. Vai mais ou menos por aí, Lobão.

Falar em direito autoral nos meios digitais ainda é transitar por terreno de indefinições. As transformações tecnológicas são rápidas demais para que as leis acompanhem. O fato é que, pouco a pouco, a transição do modelo de propriedade, quando você compra um CD, por exemplo, para a do acesso aparece como a luz no fim do túnel para a remuneração de quem é atacado diretamente pela pirataria. Com a indústria fonográfica interessada em fatias desse bolo, a roda tem girado mais rápido.

“O Spotify nasceu para ser melhor alternativa. Em termos de produto, a pirataria é grátis e todo mundo adora. O problema é que o modelo de negócio não fecha. Não adianta combatê-la somente do ponto de vista jurídico. É preciso criar um produto melhor”, explica Gustavo Diament, diretor-geral do Spotify para a América Latina. Surfam nessa onda não apenas o Spotify mas também o YouTube e serviços como Deezer ou Rdio, também especializados em música em streaming.

A Music Post disponibiliza o trabalho da banda Manitu em todas as plataformas   (Ricardo Adam/Divulgação)
A Music Post disponibiliza o trabalho da banda Manitu em todas as plataformas


Liderança

Consumir áudios desse jeito significa que você não precisa baixar para o seu computador, seja de forma legal ou não. Por meio de uma rede de internet você consegue ouvir de onde estiver, apenas contando com uma conexão em banda larga satisfatória. Os serviços têm em comum o fato de poderem ser acessados via computador ou dispositivos móveis como telefones celulares e tablets. As variações estão na interface dos aplicativos e preços de assinatura, já que o acervo é crescente em todos os casos.

O Deezer e o Spotify surgiram em 2006. O primeiro na França, criado por Daniel Marhely, então com 20 anos. O segundo foi lançado em Estocolmo, na Suécia, implementado por Daniel Ek. A expansão do sueco pela Europa foi rápida, mas gradual. De acordo com dados apresentados pela empresa, atualmente detém a liderança entre os concorrentes com 40 milhões de usuários cadastrados.

O francês chegou primeiro em terras brasucas, em meados de 2013. Este é o primeiro mês de operação do Spotify por aqui. De acordo com Gustavo Diamet, a demora do lançamento foi porque faz parte da filosofia da empresa se preparar para encarar mercados diferentes. “Existe uma preparação para que ele seja relevante no país de lançamento. Há todo um catálogo licenciado e um trabalho editorial de curadoria”, diz. Na estreia brasileira são 30 milhões de músicas no acervo. O diretor não consegue precisar o quanto disso é dedicado à produção nacional.

A Constantina foi surpreendida com o depósito dos royalties dos fonogramas na Europa     (Letícia Marotta/Divulgação)
A Constantina foi surpreendida com o depósito dos royalties dos fonogramas na Europa


Liberdade

É possível ouvir música de graça pelo Spotify ou pagar pelo serviço. Aqueles que optam pela assinatura de US$ 5,99 (a previsão é que logo a cobrança se converterá para reais no valor fixado em R$ 14,90) tem direito de baixar as faixas para o dispositivo e ouvir sem conexão à internet, melhor qualidade do áudio e também ausência de publicidade. O acesso ao banco de dados é exatamente o mesmo para quem paga ou não. A diferença é que vez ou outra aparecem as propagandas. É por isso que o diretor insiste em dizer que o Spotify enfrentou a pirataria de igual para igual.

A legalidade é o pulo do gato. Não são os usuários que alimentam o banco de dados. São os chamados agregadores, que podem ser as gravadoras ou editoras. Cada vez que uma música é executada em mais de 30 segundos os autores recebem um percentual. “Tudo o que o Spotify gera de receita, 70% é pago em direito autoral. Em menos de seis anos já pagamos US$ 1 bilhão sendo metade disso somente no ano passado”, informa Gustavo.

Na prática, para cada artista, o valor ainda é pouco, mas representa alguma coisa diante da pirataria. A banda mineira Constantina, por exemplo, foi recentemente surpreendida com o depósito dos royalties das execuções dos fonogramas na Europa. Como tem parceria com o selo inglês Dry Cry Records, as canções foram cadastradas no aplicativo europeu. No início deste ano, o Constantina fez uma turnê de cerca de um mês pelo velho continente e, agora, o rastro do Spotify pingou na conta: 80 libras, o que equivale a cerca de R$ 200 pelas execuções no serviço de streaming. “Acho que lá fora já existe um pensamento de consumo de música. Aqui ainda não tem essa cultura”, observa Daniel Nunes, um dos integrantes do Constantina.

De olho no futuro


Para o responsável pela área digital da gravadora Biscoito Fino, Miguel Gonzalez, a adaptação será uma questão de tempo. “O CD matou o vinil? O digital matou o vinil? Os serviços de streaming matariam o CD? Difícil responder essas questões. É certo que os serviços de streaming vão crescer muito, e a venda de CDs deve continuar na tendência de queda que vem sendo registrada nos últimos anos”, afirma. Segundo ele, o momento é mesmo de recuperação para a indústria. “Não só para a Biscoito Fino, mas para todas as gravadoras. O consumidor não vai se incomodar de pagar um valor justo para consumir música de forma legal.”

“A venda do CD ocorre apenas uma vez, no ato da compra e os royalties são passados. A pessoa ouvirá o álbum centenas de vezes e não será pagará por essas novas execuções. Já no streaming o consumidor paga mensalmente, então os pagamentos se perpetuam ao longo dos meses, de acordo com o consumo das músicas. É como se comparássemos o modelo de venda com o de aluguel. Na venda, você ganha apenas uma vez e, no aluguel, você ganha menos, porém de maneira frequente. Além dessa mudança de modelo de geração de receitas, é importante participar desses serviços pelo ganho promocional de engajamento e proximidade que trazem com os fãs do artista”, explica Cláudio Vargas, vice-presidente de marketing, digital, vendas e novos negócios da Sony Music.

Tendências


Como Miguel Gonzalez ressalta, não estar em serviços de streaming significa que o artista está ausente das novas tendências de consumo. “O futuro da música é o consumo por meio de plataformas digitais”, garante. Apesar dessa segurança, a transição entre os modelos de capitalização não é simples. “Para os provedores de conteúdo, as gravadoras que estavam acostumadas a vender CD, é uma transformação abrupta e adaptação intranquila”, aponta o consultor Felippe LLerena, diretor da Music Post. Especializado no mercado digital, ele atua como agregador, cadastra acervos musicais. É ele, por exemplo, quem disponibiliza o trabalho dos mineiros da banda Manitu em todas as plataformas.

Segundo Felippe a intranquilidade está principalmente no fato de artistas e gravadoras perderem o controle do quanto receberão no fim do mês. Se nos tempos de venda de CDs era possível acompanhar como andavam as vendas, pela lógica do acesso somente terminado o período de 30 dias é que saberão a possível receita.

Gustavo Diament, do Spotify, lembra que a lógica agora é a do acesso e não da propriedade. “Do ponto de vista do usuário não precisa ser dono de nada. Do ponto de vista do artista existe a meritocracia: se o escutarem muito, você vai ganhar”, sintetiza. A avaliação de Felippe é de que os serviços de streaming oferecem mais oportunidades para os músicos independentes. “A diferença é que no inconsciente coletivo das pessoas são menos conhecidos, mas o espaço que ocupam dentro da nuvem é igual ao do Coldplay”, diferencia.

saiba mais

NO YOUTUBE


Primeira plataforma de vídeos a alcançar a popularidade, o YouTube é hoje um importante player de música. Segundo Felippe Llerena, o site tem sido um dos grandes monetizadores dos artistas. Funciona mais ou menos assim: o dinheiro da publicidade é distribuído para os autores das músicas executadas ali. O portal tem um sistema capaz de identificar o fonograma utilizado em qualquer tipo de vídeo. Seja um registro caseiro de aniversário, casamento ou qualquer outra cena. Feito isso, o dinheiro da publicidade é usado para o pagamento dos direitos autorais.

os serviços
» Spotify
Mais famoso serviço de streaming, o Spotify tem origens suecas. Os usuários podem procurar por canção, artista ou acessar playlists previamente elaboradas pelo aplicativo. A versão gratuita tem audição ilimitada, mas vez ou outra aparecem anúncios que não podem ser excluídos. Os assinantes premium ficam livres das propagandas, podem ouvir off-line e com uma qualidade superior. O aplicativo está disponível para as plataformas Windows, Mac, web, iOS, Android, Windows Phone e BlackBerry. Preço da assinatura:
US$ 5,99 por mês.

» Deezer
Atualmente, tem mais de 12 milhões de usuários cadastrados. Tem acordos com gravadoras e sociedades de gestão de direitos autorais e hoje conta com mais de 2 mil selos independentes. Existem três planos em operação no Brasil. O Discovery garante acesso gratuito ao banco de dados; o Premium dá acesso via computador; e o Premium +, acesso ilimitado a partir de diversos suportes (computador, celular, tablet, etc.), mesmo sem conexão à internet. O valor dessa assinatura está em promoção por tempo limitado por R$ 7,49.

» Rdio
O diferencial desse aplicativo é que ele conta com rebuscado sistema para procurar conteúdo novo. Assim como os outros, conta com playlists e rádios pré-definidas. São 25 milhões de músicas. Para escutar músicas sem limite em qualquer lugar, faça a assinatura por R$14,90 por mês. Na opção de assinatura familiar, o preço cai pela metade para quem entrar no pacote.

Love story 2.0 - A culpa é das estrelas

Love story 2.0

A culpa é das estrelas chega ao cinema depois de vender mais de 1,2 milhão de livros no Brasil e consagra John Green como o autor mais lido no país em 2014


Carolina Braga
Estado de Minas: 08/06/2014
Manuella Garzon, Maria Eduarda, Luana Abreu, Laura Costa e Bruna Mendes, fãs do livro de Green, criaram um clube de leitura   (Euler Júnior/EM/D.A Press)
Manuella Garzon, Maria Eduarda, Luana Abreu, Laura Costa e Bruna Mendes, fãs do livro de Green, criaram um clube de leitura


A primeira tentativa foi pelo Twitter. Ficou nisso, mas a estudante Luana de Abreu Cavalcanti, de 11 anos, ainda não perdeu as esperanças de receber do escritor John Green uma mensagem, nem que seja um simples ok. Seria tudo para a menina que tem na mão nuvens desenhadas com os dizeres “Okay Okay”, os mesmos estampados na camiseta. Ela quer ir à Indianápolis, nos Estados Unidos, onde o autor mora com a família. Mera semelhança com Hazel Grace e Augustus Waters, os protagonistas de A culpa é das estrelas?

Foi também movido por idolatria que o casal de protagonistas do romance baixou em Amsterdã para conhecer o escritor favorito, o emburrado Peter Von Hauten. E Luana não está sozinha em seu desejo. Manuella Garzon, Maria Eduarda Gontijo, Bruna Mendes, Laura Costa e outras tantas pré-adolescentes no Brasil certamente sonham com uma ida à Holanda. “Meu pai foi e não me levou”, reclama uma delas. A adaptação cinematográfica do livro, que chegou esta semana às telas brasileiras, coloca as jovens em contato com as personagens que tanto amam e com os cenários que até então apenas imaginavam. É prenúncio de altas bilheterias. Não só porque existe o culto em torno do livro, mas porque o resultado é surpreendente.

Aos 36 anos, com seis romances no currículo e a marca de 20 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, John Green é a nova bola da vez. Um fenômeno. As meninas sabem de cor passagens de A culpa é das estrelas, conhecem detalhes da trama. Já os garotos, por pirraça, se recusam a ler. Elas não se importam com essa falta de diálogo. Algumas leram o romance mais de uma vez e têm as frases preferidas na ponta da língua. “Aparentemente, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos”; ou: “Alguns infinitos são maiores do que outros”, são algumas delas.

O que chama atenção é que a história não tem nada das fantasias criadas por J. K. Rowlling, autora da série Harry Potter, e muito menos do clima gótico da saga Crepúsculo, outros sucessos dedicados ao público jovem. Em A culpa é das estrelas, Hazel e Gus são adolescentes que enfrentam o câncer. Por insistência dos pais, a garota, prestes a completar 17 anos e desde os 13 diagnosticada com a doença, passa a frequentar um grupo de apoio. É onde conhece Augustus Waters, de 18 anos, que perdeu uma das pernas no tratamento de osteorsarcoma. Ficam amigos, se apaixonam tendo sempre por perto o que Hazel chama de efeito colateral do câncer: a possibilidade da morte.

Ou seja, embora tenha passagens cômicas e românticas, A culpa é das estrelas é um drama. O que faz uma adolescente a ler mais de uma vez – e chorar em todas – uma história dessas? “Ao mesmo tempo que é triste é bonito”, diz Manuella Garzon, de 12 anos. “Comecei a ler e logo fui recomendando para outras colegas. Apesar de ter muitas partes tristes, tem outras felizes e engraçadas. Fala que apesar de todos os problemas você pode, sim, curtir a vida”, completa Luana Cavalcanti. “Há um equívoco em achar que felicidade está ligada à alegria. Existe felicidade na tristeza. Ela está ligada à vida interior”, defende a psicanalista Inez Lemos, que vê no livro uma prova de que os jovens não se satisfazem apenas com consumo e superficialidade. “Isso é uma mentira”, protesta.

A identificação das jovens leitoras não fica restrita ao livro A culpa é das estrelas. Luana, Laura, Manuella, Bruna e Maria Eduarda montaram uma espécie de clube de leitura. Fazem revezamento dos seis romances do autor. “John Green escreve com respeito e franqueza, sem subestimar a capacidade de um adolescente de pesar e pensar sobre as grandes questões da vida. E também sobre as pequenas, sobre livros, música, internet, games. E ainda sobre amor, amigos, atitudes e engajamento. O mais importante é que é uma comunicação que vem naturalmente”, afirma Danielle Machado, editora de livros jovens da Intrínseca, responsável pela publicação das obras do autor no Brasil.

Redes sociais

Os direitos cinematográficos de A culpa é das estrelas foram adquiridos antes mesmo de o livro chegar ao mercado americano, dada a expectativa gerada pelo sucesso do autor. “Acho que o viés do reconhecimento de todos romances de John Green é esse poder imenso que ele tem de se comunicar francamente com os jovens, como eles próprios se comunicam. Não só pela literatura, mas nas redes sociais, pelo YouTube. Para os leitores, ele poderia ser o vizinho de porta que puxa papo no elevador”, comenta a editora.

Esperar por uma mensagem de John Green, então, não é uma fantasia. Pelo que ele demonstra nas redes sociais que mantém ou mesmo no canal no YouTube que divide com o irmão, o comportamento do americano defensor dos nerds não tem nada a ver com o alter-ego que ele criou em A culpa é das estrelas, o carrancudo escritor Peter Von Hauten. Green é aberto, engraçado e brincalhão.

Em uma rápida passagem pela timeline do escritor no Twitter tem gozação com Bill Gates, que compartilhou um vídeo dele (“agora posso me aposentar”) além de inúmeras críticas internacionais ao filme, combinadas com mensagens aos fãs: “O USA Today chama o filme de ‘quase perfeito’. Claro que o que principalmente me importa é o que você pensa”, publica. Ele sabe mesmo como a coisa funciona.

Atualmente, John Green tem três livros entre os 10 mais vendidos no Brasil em 2014. A culpa é das estrelas é o primeiro da lista, seguido por Cidades de papel (que também vai virar filme em 2015) e O teorema de Katherine. O livro de estreia, Quem é você, Alaska?, que chegou por aqui no rastro do maior sucesso de Green, também caiu nas graças dos leitores e frequenta a lista dos mais vendidos nas últimas semanas. Se ficar assim, até o fim do ano, Green, sozinho pode ser responsável por quatro dos 10 livros de ficção mais vendidos no país.

“Quanto mais John Green se torna próximo de seu público, mais o público também se aproxima dele. Junte a isso o carisma e o poder de comunicação incríveis do autor e pronto. Acho que só podemos esperar coisas ainda mais grandiosas”, aposta Danielle Machado. John, no entanto, ainda não assumiu estar escrevendo nada de novo. É hora de aproveitar e, como um nerd já maduro, zombar do glamour hollyoodiano.

7 milhões de exemplares de
7 milhões de exemplares de "A culpa..." foram vendidos nos Estados Unidos


John Green em milhões

1,25
milhão de exemplares de A culpa é das estrelas vendidos no Brasil

7 milhões
de exemplares vendidos nos Estados Unidos

2,5 milhões
de seguidores no Twitter

1,5 milhão
de fãs no Facebook

2,1 milhões
de inscritos no YouTube

Obra completa

Quem é você Alaska (2005)
O teorema de Katherine (2006)
Deixe a neve cair (2008)
Cidades de papel (2008)
Will e Will, um nome, um destino (2010)
A culpa é das estrelas (2012)

* Todos já lançados no Brasil


Receita do sucesso Mesmo com história previsível, A culpa é das estrelas mantém o interesse do espectador com roteiro bem amarrado e interpretações sensíveis de Shailene Woodley e Ansel Elgort


Carolina Braga

Shailene e Ansel, que já foram vistos juntos em Divergente, têm tudo para se tornar o casal jovem da vez em Hollywood     (Fox/Divulgação)
Shailene e Ansel, que já foram vistos juntos em Divergente, têm tudo para se tornar o casal jovem da vez em Hollywood


Ainda bem que a adaptação de A culpa é das estrelas não cai na armadilha do final feliz e nem da pieguice que costuma empacotar as produções hollywoodianas. A literatura de John Green não é assim. É por isso que por mais que a trama seja de tristeza notória, há muito espaço para humor, romantismo e reflexão.

Todos os envolvidos na produção têm experiências no cinema indie americano. A dupla de roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber, por exemplo, é a mesma de 500 dias com ela, uma comédia romântica sem final feliz. Inclusive os dois filmes até começam de forma parecida. Desta vez, porém, é Hazel (Shailene Woodley), deitada em um gramado, quem de cara avisa ao espectador que as coisas não duram para sempre. Ela se refere ao romance com Augustus, o Gus (Ansel Elgort).

Em sua segunda incursão cinematográfica, o diretor Josh Boone nem tenta reinventar a roda. Conta a história de forma convencional, como numa novela ou num seriado. O que prende é mesmo a força dos personagens e o modo como encaram a situação-limite. Assim como no livro, os personagens do filme não se posam de vítimas. Até debocham da doença. Os méritos, no caso, se dividem entre um roteiro bem amarrado e um elenco em sintonia.

Ao encarar com lucidez o câncer e seus efeitos colaterais, a dupla de protagonistas cativa o espectador. Na órbita deles estão coadjuvantes divertidos, como o amigo Isaac (Nat Wolff ), ou o atormentado escritor Peter Van Houten (Willem Dafoe), que garante o contraponto. É a representação da imaturidade, da derrota, da desilusão. O oposto de Hazel, Gus e mesmo de Isaac.

Shailene Woodley e Ansel Elgort estiveram juntos na ficção científica Divergente (2014). Mesmo que esse filme tenha aparecido por aqui com vocação para grandes plateias, os atores ainda não figuram no primeiro escalão das estrelas teen. Por enquanto. Como Hazel e Gus, Shailene e Ansel demonstram talento e potencial para muito mais.

A culpa é das estrelas, o livro, ganhou notoriedade entre os adolescentes, mas não é uma história restrita a essa faixa etária. É sobre como aprender a lidar com expectativas, com amadurecimento, com perdas, com sentimento, com decepção, com desejo, com descoberta. Isso não tem idade.


Palavra de especialista

Inez Lemos Psicanalista

Contato com a falta

Nosso mundo está frágil e superficial. A sedução do livro A culpa é das estrelas vai um pouco por aí. O romance ensina o contato com a falta, com a incompletude da vida. Os personagens estão aprendendo a lidar com o sofrimento, a não ter tudo. A emoção está muito ligada a tocar as entranhas para a transcendência. O livro transcende essa vida idiota convencional; transcende os shoppings e a estupidez do consumo. Muita gente diz que os adolescentes gostam de superficialidade. É mentira. O que buscam é a verdade, estão cansados de propagandas. Nosso mundo está muito desidratado, sem graça e superficial. O livro é um mergulho em uma situação existencial extrema. O jovem casal é colocado diante de uma relação sem fantasia. Não há espaço para fugas ou jogatinas estratégias. Como na vida real.