segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Churrascos - Eduardo Almeida Reis

A Lapônia é uma região da Escandinávia, que abrange territórios de quatro países: Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia


Estado de Minas: 10/11/2014



Quando vi a chamada para um programa de TV com a repórter Glória Maria na Lapônia, a jornalista usando véu para se proteger da nuvem de mosquitos a 100 metros de uma várzea coberta de gelo, me lembrei do churrasco de rena que comi em Brasília. Rena ou caribu, como aprendemos ao consultar o Houaiss, é um mamífero da família dos cervídeos (Rangifer tarandus), encontrado no Norte da Europa, Ásia e América do Norte, onde habita a tundra ártica, com galhadas presentes nos dois sexos e cascos largos e planos, adaptados para a locomoção na neve.

A Lapônia é uma região da Escandinávia, que abrange territórios de quatro países: Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia, na Península de Kola. Cerca de 70 mil lapões vivem numa área de 390 mil quilômetros quadrados, com noruegueses, suecos, finlandeses e russos.

Deu-se que o embaixador da Finlândia no Brasil, falando português, frequentava a casa de velho e querido amigo meu à beira do Lago Norte, em Brasília. Residência frequentada também por diversos políticos de uma safra mil vezes melhor que a atual. Brasileiros que bebiam. Um deles, cadeirante, tomava uma caixa (12 garrafas) de vinho branco numa única tarde.
Escusado é dizer que os relatórios do embaixador, escritos em finlandês, língua da família uraliana, ramo fino-ugriano, sub-ramo fino-permiano, grupo fino-volgaico, subgrupo fínico ou balto-fínico, falada na República da Finlândia, onde é língua oficial, devem ter sido deliciosos, porque baseados nas conversas dos trêbados que mandavam neste país grande e bobo.
Numa dessas tardes, o embaixador quis ter a gentileza de levar uma peça de carne de rena, descongelada, e todos tivemos oportunidade de provar do churrasco de caribu, que desceu muito bem. Adepto dos churrascos de carne vermelha, devo confessar que o melhor que comi foi preparado pelo sogro do compositor Gutemberg Guarabyra, Nestor Jost, presidente do Banco do Brasil, na fazenda de Candinha e Joaquim Guilherme da Silveira.

Pormenor: carne comprada no açougue da cidade mineira de Além Paraíba, terra de Zuenir Ventura, o Vô Zu, da Academia Brasileira de Letras. Perguntei ao doutor Jost sobre o segredo de seu churrasco e ele me disse que selava a carne para conservar os sucos e só a salgava na hora de servir.


Leitor

Segunda-feira, 13 de outubro, descobri que o professor Carlos Alberto Di Franco é meu leitor. Doutor em comunicação pela Universidade de Navarra e diretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais, Di Franco escreveu: “Impressiona-me o espaço destinado à violência nos meios de comunicação, sobretudo no telejornalismo. Catástrofes, tragédias e agressões, recorrentes como chuvas de verão, compõem uma pauta sombria e perturbadora. A violência não é uma invenção da mídia. Mas sua espetacularização é um efeito colateral que deve ser evitado”.
Com o respeito devido ao ilustre professor, é coisa que venho escrevendo aqui e alhures há muitos e muitos anos. Não contente com divulgar e esmiuçar os crimes, o telejornalismo brasileiro deu para exumá-los em busca de ibope. Mesmo solucionados pela polícia, o telejornalismo os retira do esquecimento inventando depoimentos e suspeitas sem cabimento. Entre muitos outros, o indecoroso procedimento tem sido repetido com aquele crime do menino paulista que matou os pais, policiais militares, a avó e uma tia-avó, foi ao colégio e voltou para casa, onde se suicidou.
Na escola, diversas vezes disse aos coleguinhas que planejava matar uma porção de gente. Seus colegas depuseram no inquérito policial, mas a rede de TV já “reabriu” o crime várias vezes. É desrespeitar o telespectador.


O mundo é uma bola

10 de novembro de 1871: Henry Stanley encontra o explorador britânico David Livingstone em Ujiji, atual Tanzânia. O episódio deve ser curtido com calma, porque resultou numa das perguntas mais idiotas da história da civilização. Resumindo: a serviço de seu jornal, Stanley partiu para a África à procura de Livingstone, que andava sumido. Ao encontrar um europeu depois de meses de procura, fez a pergunta cretina: “Doctor Livingstone, I presume?”. Queria o quê? Encontrar o ministro Dias Toffoli?
Em 1928, começa a ser publicada a revista O Cruzeiro pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Em 1937, instauração no Brasil do Estado Novo (ditadura Vargas). Em 1945, fundação do Partido Libertador, que não tinha a mais remota ligação moral e intelectual com o PL recente.
Em 2009, um apagão deixou boa parte do Brasil no escuro. Temos tido apagões apesar da admirável gestão de Edison Lobão no Ministério de Minas e Energia, maranhense nascido para brilhar pelo bem do Brasil. Em 1483, nasceu o teólogo alemão Martin Luther (ou Luder), que foi sacerdote católico agostiniano e figura central da Reforma Protestante. Antissemita, escreveu que a sinagoga era “uma prostituta incorrigível e uma devassa maléfica”. Casou-se com a ex-freira Catarina von Bora e teve seis filhos. Hoje é o Dia do Trigo.


Ruminanças

“Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero. Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer” (Nelson Rodrigues, 1912–1980).

Capital das letras

Circuito Literário Praça da Liberdade e Bienal do Livro de Minas trazem vários autores de destaque a BH. Agendas incluem debates, sessões de autógrafos, saraus e performances

Carlos Herculano Lopes
Estado de Minas : 10/11/2014 




Gonçalo Tavares vai ministrar oficina a candidatos a escritor (Carol Reis/divulgação)
Gonçalo Tavares vai ministrar oficina a candidatos a escritor


Esta semana, a literatura vai comandar a agenda cultural de BH. A capital recebe dois eventos de peso, que oferecerão ao público programação diversificada e a oportunidade de ouvir autores do país e do exterior. Quarta-feira começa o Circuito Literário Praça da Liberdade. Na sexta-feira será aberta a Bienal do Livro de Minas, no Expominas.

A curadoria do Circuito está a cargo de Dagmar Braga, especialista em literatura brasileira; Maria Esther Maciel, professora de teoria literária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); do educador Renato Negrão, professor de arte; e de Fabíola Farias, coordenadora de promoção da leitura da Fundação Municipal de Cultura. Até domingo, o evento vai oferecer oficinas com autores experientes, saraus, mesas de debate, performances, esquetes teatrais e festival de contação de histórias. A vasta agenda inclui também programação para a criançada, shows e leituras dramáticas.

Estão previstas 15 atividades diárias e a participação de 70 autores, entre contistas, romancistas, poetas e quadrinistas. Cristiana Kumaira, gerente-executiva do Circuito da Praça da Liberdade, afirma que o evento confirma a vocação literária do estado. “É a comunhão das artes em torno da literatura”, resume.

 A curadora Fabíola Farias explica que a ideia é oferecer algo que extrapole o desenho mais comercial, próprio de feiras convencionais. “Queremos fazer a cidade se encontrar em torno da literatura e do livro. Pensamos numa programação que aproxime leitores dos autores e vice-versa”, diz ela.

Entre os convidados estrangeiros estão o angolano José Eduardo Agualusa e Gonçalo Tavares, nascido na África e criado em Portugal. Quarta-feira, a dupla participa da mesa “Diálogos literários em língua portuguesa”, com mediação de José Eduardo Gonçalves. Elogiado por José Saramago, Gonçalo ministra a oficina “Escrita, leitura e imaginação” na quinta-feira. Inscrições podem ser feitas pelo e-mail casaeconomiacriativa@sebraemg.com.br.

BRASIL Vários autores brasileiros participarão do Circuito. Entre eles estão o pernambucano Marcelino Freire, curador da Balada Literária de São Paulo; Rogério Pereira, editor do jornal literário Rascunho, de Curitiba; o paulista José Anzanello Carrascoza; o paranaense Cristovão Tezza, autor do premiado O filho eterno; o poeta carioca Eucanaã Ferraz; e a desenhista e romancista carioca Elvira Vigna.

A curadora Fabíola Farias reforça que autores mineiros – consagrados e da nova geração – ganham destaque no Circuito. “Será uma ótima oportunidade para eles conversarem sobre sua obra com o leitor”, diz. Entre eles estão Olavo Romano, presidente da Academia Mineira de Letras; Marilda Castanha, ilustradora e autora de livros infantojuvenis; o contista Francisco Morais Mendes; o crítico literário Sérgio Alcides; o contista e romancista Luiz Giffoni; e Ana Martins Marques, uma das revelações da poesia mineira contemporânea.

A programação inclui exposição sobre os 60 anos da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, que será aberta amanhã, às 19h; mostra sobre Augusto dos Anjos; e exibição de filmes baseados na obra de Fernando Sabino, com sessões na quinta-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil.

O poeta carioca Chacal, expoente do movimento Nuvem Cigana, participará de sarau no Memorial Minas Gerais Vale, às 11h e às 13h de sábado. No mesmo dia, às 19h, o compositor pernambucano Lirinha e o cineasta Erick Rocha fazem performance na Praça da Liberdade. Domingo, o Circuito será encerrado com outra performance: Chuva de poesia, de Guilherme Mansur, na Praça da Liberdade.

CIRCUITO LITERÁRIO

QUARTA-FEIRA

14h30 – Abertura oficial. Mesa “Augusto dos Anjos, 100 anos de morte e vida nordestina”.
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa (Praça da Liberdade, 21)
17h – Cortejo de abertura. Praça da Liberdade
19h – Debate com a escritora Ana Maria Machado. Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1.466)
19h30 – Mesa “Diálogos literários em língua portuguesa”, com José Eduardo Agualusa e Gonçalo Tavares. Sesc Palladium
(Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro)
20h30 – Sarau Vira Lata (MG) convida Allan Jonnes, do Sarau Debaixo (SE). Praça da Liberdade

QUINTA-FEIRA

10h – Mesa “A criança quer o livro infantil?”, com Nilma Lacerda e Marilda Castanha. Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa
15h – Mesa “Literatura e cultura popular”, com Olavo Romano e Ricardo Azevedo. Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa
17h – Mesa “Literatura de fantasia”, com Com Bráulio Tavares e Raphael Draccon. Biblioteca Pública Luiz de Bessa
19h –“A vida escrita”, com Cristovão Tezza, Eneida Maria de Sousa e Francisco de Morais Mendes.
Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450)
19h30 – Palestra “A literatura dos viajantes”, com Marcus Vinícius Freitas. Espaço do Conhecimento UFMG (Praça da Liberdade)
20h30 – Sarau Comum (MG) e Paz/Sarau Tagarela (RJ). Praça da Liberdade

3 Programação completa: www.circuitoculturalliberdade.com.br


Dez dias de Bienal


O escritor e educador mineiro Rubem Alves, que morreu em julho, aos 80 anos, será homenageado pela Bienal do Livro de Minas. De sexta-feira até o dia 23, o evento espera atrair 250 mil pessoas ao Expominas. Estão confirmados 160 expositores.
A abertura ficará a cargo do romancista e crítico literário Silviano Santiago, que conversará com o escritor João Paulo Cuenca, curador do projeto Café Literário. Ao longo de 10 dias, a Bienal receberá autores de destaque, como Lira Neto e Paulo César Araújo (biógrafos de Getúlio Vargas e Roberto Carlos, respectivamente), Edney Silvestre (romancista e jornalista), Pedro Bandeira (autor de best-sellers infantojuvenis) e a jornalista Miriam Leitão, entre outros. O projeto Conexão Jovem convidou escritores queridos do público teen, como Carina Rissi, Isabela Freitas, Carolina Munhóz e Pedro Gabriel. A Bienal é promoção cultural do Estado de Minas, que montou o espaço Universo das Palavras. Programação completa: www.bienaldolivrominas.com.br.

domingo, 9 de novembro de 2014

Segredos - Eduardo Almeida Reis

Segredos


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 09/11/2014



Já fui bom para guardar segredos, virtude que abandonei faz tempo. Contudo, há mais de um ano fiquei sabendo de um romance envolvendo figuras públicas do mesmo sexo, conhecidíssimas, fato que não comentei com ninguém. Não era da minha conta e me foi contado, em off, pela colega de trabalho de uma das celebridades envolvidas.

Orgulhoso de ter sido escolhido como depositário do tal segredo, honrei a confiança e passei uma porção de meses sem comentar o assunto com ninguém. Até que ontem, isto é, véspera do dia em que componho estas bem traçadas, procurando algo do Google, dei com este venerando costado no verbete sobre uma das senhoras célebres e descobri que o meu segredo, criteriosamente guardado tanto tempo, é do conhecimento universal.

São dezenas de milhares de entradas sobre o relacionamento homoafetivo das celebridades, com milhares de desvios, rompimentos, brigas e romances lésbicos paralelos. Perdi boa meia hora lendo as fofocas e vendo as fotos, quando acabei descobrindo um site de bicicletistas em que sou odiado pelos leitores que amam bicicletas. Já é alguma coisa.

Gaveta?

Do latim gabàta 'tigela', através do provençal gaveda, o substantivo gaveta, ortoépia /ê/, pintou no pedaço em 1563 e tem um monte de significados curiosos, como por exemplo: cavalo arisco, pontapé, cadeia e ângulo, este último na rubrica futebol. Na mídia, quando se diz que um profissional está na gaveta é porque se vendeu a alguém, pessoa física ou jurídica. É triste, mas acontece.

Durante anos admirei na tevê o trabalho de uma comentarista política e vou logo avisando que não é a goiana Cristiana Lobo, jornalista que conheci pessoalmente numa fazenda mineira e continuo admirando. A outra fazia bom trabalho, mas me decepcionou nos primeiros comentários sobre o segundo turno das eleições presidenciais. Tive a nítida impressão de que a moça foi guardada na gaveta petista. Pode ser que me engane, mas o fato é que comecei a mudar de canal durante suas falas para não ficar tentado a escrever seu nome aqui.

Ter gaveta, na mídia, também significa ter muitos textos arquivados para reaproveitar em determinadas circunstâncias. Antigamente nos recortes guardados na gaveta, hoje nos arquivos de computador. Assustado com a imensa produção diária de Nelson Rodrigues, falei do meu espanto ao Dr. Moacyr Padilha, diretor de redação no Globo. O excelente amigo e chefe explicou: “O Nelson tem gaveta”. Pois é: no tempo de antigamente, chefe era senhor ou doutor. O clima das redações se avacalhou com esta mania de chamar chefe de você.

O mundo
é uma bola

9 de novembro: faltam 52 dias para acabar o ano. Em 1802, Alexander von Humbolt observa em Callao o trânsito do planeta Mercúrio. Pensei que Callao ficasse na Espanha, mas parece que fica no Peru. Em 1823, dom Pedro I fecha a Assembleia Constituinte, episódio divertidíssimo que não cabe aqui. Resumido, ocupa uma página inteira num dos meus livrinhos. Em 1888, Jack, o Estripador, mata Mary Jane Kelly, sua quinta vítima. Em 1889, Rui Barbosa escreve o artigo “Plano contra a Pátria”, inflando os ânimos dos que proclamaram a República dia 15 de novembro, motivo de feriado nacional e origem do mensalão articulado pelo Analfaboquirroto que vocês elegeram duas vezes. Hoje é o Dia do Radiologista, do Hoteleiro e do Manequim.

Ruminanças

“Entre homens, a pretensão dos burgueses mais castos é a de parecerem assanhados” (Balzac, 1799-1850).

EM DIA COM A PSICANáLISE » A última esperança

Outro tipo de ansiedade surge como medo da punição em consequência de algum desejo inconsciente


Regina Teixeira da Costa
Estado de Minas: 09/11/2014



Acredito que muitas pessoas talvez não tenham se dado conta ainda de que criar expectativas em relação ao que vivemos produz grande ansiedade. Quanto mais expectativas criamos em torno de alguma situação almejada, mais sofrimento experimentamos.
A ansiedade é um sentimento extremamente desagradável de mal-estar psíquico e físico associado a algum perigo real ou imaginário. Quanto mais criamos historinhas sobre o futuro, as dúvidas, o medo de tudo que pode ocorrer, mais ansiedade virá. Querer controlar tudo do agora e ainda mais do futuro, como se isso fosse possível, causa esse tipo de reação.
A ansiedade funciona como um alerta contra os perigos que nos ameaçam. Nosso peito aperta, nossas mãos transpiram, falta o ar, vem a taquicardia e já não temos lugar. Esperamos que alguma coisa ruim possa ocorrer tanto a nós quanto aos que amamos. Sofremos por antecipação por causa das coisas que imaginamos.

Freud descreveu uma ansiedade objetiva, que surge do medo diante de perigos reais. Diante de catástrofes, adoecimento, perda de emprego, falta de dinheiro, entre outras perdas significativas que podem ocorrer ou que já aconteceram, se evocadas.

Outro tipo de ansiedade surge como medo da punição em consequência de algum desejo inconsciente proibido pela consciência, porém mantido vivo fora dela. E a cada vez que algo toca pontos ligados a esse desejo, o sujeito sofre uma crise de ansiedade. A análise revela o quanto são frequentes esses episódios.

Em um de seus casos clínicos, Freud relata a fobia de uma criança tomada de ansiedade quando tinha que sair, até mesmo para lugares que adorava, porque imaginava ser atacado e mordido por um cavalo. Tinha toda uma razão criada imaginariamente e, quando tratada, cedeu. De fato, a presença paterna ajudou bastante nesse processo de cura.

Em outro, o paciente relata os rituais de uma adolescente tomada por grande ansiedade antes de se deitar. Não poderia dormir se não parasse todos os relógios, conferisse várias vezes debaixo da cama, afofasse de maneira singular seus edredons e colocasse a cabeça no centro do travesseiro como se fosse um diamante incrustado. As portas abertas, impedindo assim qualquer intimidade entre os pais por causa do controle neurótico da filha. Isso é muito mais comum do que se imagina.

Uma forte ansiedade pode causar fracasso e prejuízo para o sujeito por não saber lidar com a espera (o tempo! não anda ou não para!) e, por isso, aborta seus projetos. Uma entrevista de emprego importante e muito ansiada pode causar inibição e piorar muito o desempenho. Uma prova de concurso pode fazer com que a pessoa erre muito mais do que quando realiza seus exercícios em casa.

Outro exemplo comum é no amor. Quando interessados demais em alguém ou apaixonados, adoecemos de ansiedade. A demora e a distância da pessoa amada são sofridas. Cada minuto de incerteza é um tormento e o simples pensamento de rompimento ou não realização do encontro produz grande ansiedade.

É como se precisássemos de uma garantia e não suportássemos fazer uma aposta porque nunca sabemos de antemão qual será o resultado. Esperar um resultado qualquer é um terrível sentimento experimentado pelos ansiosos Por isso, quanto menos esperança, menos sofrimento. O ansioso sofre por antecipar coisas (que nem sempre ou quase nunca se realizam) e pela coisa real que ocorre.

No mito de Pandora, a caixa a ser presenteada, se aberta, espalharia todas as desgraças sobre a humanidade (o trabalho, a velhice, a doença, as pragas, os vícios, a mentira, etc.). O que restava nela por último como grande mal foi a ilusória esperança. E ninguém pode passar a vida esperando não se sabe o quê, mas pensando em tudo.

O poeta italiano Dante Alighieri descreveu o portal do inferno com sábias palavras: “Deixai, ó, vós, que entrais, toda a esperança!”, avisando logo de cara que melhor é adentrar sem expectativas, pois de nada adianta inquietar-se diante de um real inevitável.