sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Mutirão das letras

Bienal do Livro de Minas começa hoje com o objetivo de estimular o hábito da leitura e aproximar autores do povo. Agenda tem lançamentos, palestras e sessões de autógrafos


Mariana Peixoto
Estado de Minas: 14/11/2014



Dezenas de títulos serão lançados na Bienal do Livro de Minas, que será encerrada no dia 23



 (EULER JR./EM/D.A PRESS)
Dezenas de títulos serão lançados na Bienal do Livro de Minas, que será encerrada no dia 23


A hora do livro chegou. Pela primeira vez desde sua criação, em 2008, a Bienal do Livro de Minas é realizada em novembro. Até dia 23, o evento pretende levar ao Expominas 250 mil pessoas, que terão acesso a uma programação de debates e sessões de autógrafos. Em quatro grandes espaços – Café Literário, Conexão Jovem, Bienal em Quadrinhos e Minas de Histórias (para o público infantil) –, o evento vai receber 125 autores. Além disso, boa parte dos 160 expositores oferecerão programação própria, também destinada a lançamentos literários.

Tradicionalmente realizado em maio – a data foi mudada este ano por causa da Copa do Mundo e das eleições –, o evento, dada a proximidade do Natal, pretende suplantar os números da edição anterior. “Se nas festas literárias o momento é do autor, na bienal o livro fica sob os holofotes. Por causa do apelo do fim de ano, nossa meta é arrecadar mais de R$ 17 milhões em vendas, o valor que conseguimos da última vez”, afirma a presidente da Câmara Mineira do Livro (CML), Rosana Mont’Alverne.

Há outras razões para tal. Belo Horizonte figura no topo das cidades brasileiras com o maior número de livrarias por habitante, seguida por três gaúchas e uma mineira: Lajeado, Carazinho, Porto Alegre e Viçosa. O dado integra a pesquisa realizada pela CML em parceria com a Associação Nacional de Livrarias (ANL). Além disso, a população de BH lê 2,4 livros por trimestre, índice superior à média nacional, que é de 1,85.

“Se é garantia de mais vendas? Digamos que seja um bom indicador de uma cultura leitora que se fortalece na capital mineira. Em BH, estamos colhendo os frutos de programas governamentais de incentivo à leitura, bem como de iniciativas das próprias editoras, ONGs, bibliotecas e escolas públicas e privadas no sentido de promover o livro, o leitor e a leitura”, observa Rosana Mont’Alverne.

ENCONTROS

Essa política não seria tão efetiva se não houvesse a presença do autor. Para tal, a programação é extensa. Hoje, na abertura da bienal, haverá homenagens a escritores mortos recentemente. Às 19h, Zeca Camargo lerá textos de Ariano Suassuna. A memória do mineiro Rubem Alves será lembrada na biblioteca que leva o nome do escritor de Boa Esperança. Serão oferecidos 250 volumes para leitura, entre títulos de Alves e de outros autores.

Também hoje, outro mineiro ilustre, o escritor e crítico Silviano Santiago, participa da abertura oficial da bienal. Às 19h30, ele dá início à programação do Café Literário conversando com o público sobre o conjunto de sua obra. Também vai analisar as fronteiras entre realidade e imaginação, com direito a um passeio por sua trajetória intelectual nas últimas décadas. Vencedor do Prêmio Machado de Assis em 2013 pelo conjunto de sua obra e um dos mais brilhantes ensaístas brasileiros, Santiago é professor universitário e recebeu recentemente o Prêmio Ibero-americano de Letras José Donoso 2014, concedido pela Universidade de Talca, no Chile.

O escritor João Paulo Cuenca assina a curadoria do Café Literário, que vai oferecer debates diários sobre temas diversos. Amanhã, serão três encontros: Adriana Calcanhotto (que faz show hoje no Palácio das Artes) e Gregório Duvivier conversam sobre poesia (às 14h); Luiz Ruffato e André Sant’Anna sobre literatura e política (às 17h); e Carlos de Brito e Mello, Mário Alex Rosa e Ana Maria Martins debatem sobre a nova literatura mineira (às 19h30). Domingo, Sérgio Rodrigues fala sobre literatura e futebol (às 15h) e Lira Neto e Paulo César de Araújo sobre biografia (17h).

JOVENS

Com o boom da produção para jovens, a Bienal do Livro de Minas vai contar pela primeira vez com um espaço voltado para o encontro do público com autores que se destacam nesse segmento. A Conexão Jovem vai trazer no domingo, ao meio-dia, a norte-americana Margaret Stohl. Pela primeira vez no Brasil, a coautora da série Beautiful creatures (que deu origem ao longa-metragem 16 luas) vai autografar seu primeiro romance solo, Ícones, além de Sirena, título de nova série escrita em parceria com Kami Garcia. Autoras de best-sellers, Paula Pimenta e Thalita Rebouças também participam da bienal.

Outros dois segmentos fortes do mercado livreiro, o infantil e o de quadrinhos, contam com espaços próprios. “Além da literatura jovem, houve no Brasil uma valorização do autor e do ilustrador infantil. Isso significa a reconquista da imaginação pelo livro”, conclui Rosana Mont’Alverne, presidente da Câmara Mineira do Livro (CML).

Vá ao Universo das Palavras

O Estado de Minas vai contar com um espaço na bienal, o Universo das Palavras, que oferecerá uma série de atividades para o público, principalmente o infantil. Estão programadas palestras, contação de histórias, shows e apresentações teatrais sobre os temas leitura, escrita, sustentabilidade e preservação do meio ambiente. Os leitores conhecerão os chargistas Quinho, Lelis e Son Salvador, que vão ministrar oficinas de desenhos.

Gabriela Francisco, de 11 anos, vai apresentar seu projeto Fadas do livro, que leva a leitura a crianças de creches, hospitais e comunidades carentes. A edição de amanhã do Guri será dedicada à bienal. O caderno vai divulgar a programação completa do espaço, bem como mostrar o projeto Guardião Ouro Azul, de preservação da natureza.

Assinantes do EM têm desconto de 20% na compra de um par de ingressos. Há outros benefícios para os assinantes na compra de livros das editoras Liga de Jovens Autores e Lê. Apresentando o cartão no espaço Universo das Palavras, o assinante ganha encarte da coleção As pinturas mais valiosas do mundo.

Silviano Santiago participa da sessão de abertura, no Expominas, e fala sobre sua obra
 (Maria Tereza Correia/EM/D.A Press
)
Silviano Santiago participa da sessão de abertura, no Expominas, e fala sobre sua obra


BIENAL MINEIRA

250 mil
visitantes esperados

R$ 17 milhões
em vendas

120
autores convidados

160
expositores


RAIO X

3.095
livrarias no Brasil

55%
das livrarias brasileiras ficam no Sudeste

62 mil
títulos publicados no país em 2013

480 milhões
de exemplares vendidos em 2013

1,85
livro/habitante lido no Brasil por trimestre

1,62
 livro/habitante lido em MG por trimestre

2,40
livro/habitante lido em BH por trimestre

Fontes: CML, CBL, Snel e Fipe

BIENAL DO LIVRO DE MINAS
Até dia 23. Expominas, Avenida Amazonas, 6.030, Gameleira. Abertura hoje, às 12h. De segunda a sexta-feira, das 9h às 22h; sábados e domingos, das 10h às 22h. Ingressos: R$ 10 e R$ 5 (meia). Informações: www.bienaldolivrominas.com.br

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Suspeito - Eduardo Almeida Reis

À noite, quando soube da troca das etiquetas, trepou nas tamancas: 'Eu podia ter sido presa!' e ficou furiosa durante dias, até que as coisas se revolveram no leito entre juras de amor eterno


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 13/11/2014


“A seguir, a palavra do suspeito” anunciou a senhora Patrícia Poeta Pfingstag Soares, antes do intervalo comercial. O “suspeito” era Thiago Henrique Gomes, goiano de 26 anos, depois de confessar 39 homicídios à polícia civil de Goiás e de ser reconhecido pelas vítimas nas tentativas de homicídio em que sua arma não funcionou. Releva notar que a munição assassina saiu do revólver encontrado na casa do “suspeito”, como confirmaram os exames de balística.

De minha poltrona de couro, examinei o bandido e fiquei espantado pelo fato de não configurar o tipo lombrosiano clássico, presente nos focinhos de 99,99% dos criminosos natos. Contudo, depois de acurada análise, descobri no olhar do “suspeito”, assassino confesso de 39 pessoas entre jovens trabalhadoras, moradores de rua e homossexuais masculinos, constatei que existe algo diferente no seu olhar de esguelha. Não chega a ter o focinho lombrosiano, mas o olhar de soslaio indica sua sociopatia. O advogado Huáscar, antes de abandonar o caso, disse que seu cliente é doente e deve ser tratado. Realmente, merece tratamento. Duvido que tenha cura.


Pasta
Usei pastas durante séculos e ainda tenho três guardadas nos armários, duas de couro, uma de courvin. Primeiro, eram necessárias para o meu trabalho; mais tarde, usei-as para transportar escova e pasta de dentes, charutos, jornais, essas coisas.

Certa feita, lá se vão muitos anos, fui almoçar no Rio com um amigo e elogiei sua pasta, a mais bonita que já vi. O excelente patrício ficou encabulado e me disse que a pasta tinha história triste. Fechou-se em copas. Evitei perguntar sobre a história: não gosto de histórias tristes.

Depois dos primeiros drinques, pois bebíamos à beça e à bessa, o amigo me contou que viu aquela pasta à venda num shopping de São Francisco, Califórnia, por 400 dólares, uma fortuna naquela época. Ao lado havia pasta idêntica anunciada por 100 dólares. Motivo: uma era de camurça finíssima e a outra de couro comum.

Num acesso de petismo, o patrício trocou as etiquetas com os preços. Passava temporada de um ano na Califórnia estudando commodities. Dois dias depois, voltando ao shopping, viu que as pastas continuavam com as etiquetas trocadas.

Chegando a casa, contou a sua santa mulher que havia visto uma pasta assim-assim, à venda por 100 dólares no shopping assim-assim, e lhe deu duas notas de US$ 50 pedindo que comprasse a peça no dia seguinte, quando estaria no curso de commodities.

Lá se foi a santa para o shopping, localizou a pasta com a etiqueta de 100 dólares, foi ao caixa, deu as duas notas de 50 e voltou para casa feliz pelo sucesso da missão de que fora incumbida por seu marido e senhor, obrigação primeira de toda mulher séria. À noite, quando soube da troca das etiquetas, trepou nas tamancas: “Eu podia ter sido presa!” e ficou furiosa durante dias, até que as coisas se revolveram no leito entre juras de amor eterno.


Óleo 20

Nascida em Goiânia, Maria Carolina Álvares Ferraz está seminova, gastando óleo 20. Isto aos 46 anos e o leitor pode imaginar a beleza de Carolina Ferraz há 25 anos, quando poderoso cavalheiro, casadíssimo, se apaixonou por ela. No embalo de sábado à noite, levou-a para jantar num restaurante recém-inaugurado no Rio, rua discreta no Bairro Leblon, comida excelentíssima. Carolina já despontava como celebridade e foi reconhecida pelo garçom. Ao trazer o cafezinho, o rapaz se atrapalhou e despejou o líquido no vestido da moça, pediu mil desculpas, ela foi muito educada e tudo terminou bem.

Ignoro a evolução do affaire, se é que houve coisa séria, mas fiquei sabendo pelo poderoso que, encantado com a comida do restaurante, resolveu levar sua velha companheira na semana seguinte. Inventou uma história de ter ouvido falar de restaurante novo, que teria comida muito boa, vestiu a mãe de seus filhos com a roupa da missa e lá se foram para o Leblon.

Até aí, tudo ótimo, não fosse pelo fato de o garçom reconhecer o acompanhante da celebridade no episódio do café derramado, comentar o fato e voltar a pedir desculpas. Deu um bololô dos diabos.


 O mundo é uma bola

13 de novembro de 1002: o rei Ethelred II (968-1016) ordena o massacre das comunidades vikings existentes na costa da Inglaterra, mesmo porque seria impossível massacrar comunidades inexistentes. Ethelred II casou-se duas vezes e deve ter tido, só em casa, 16 filhos. Sua primeira mulher foi AElfgifu da Nortúmbria, com as duas primeiras letras ligadas talqualmente a ilustre rainha deveria ligar-se ao rei aos gritos “me bate!”, “me mata!”. Que se pode esperar de uma AElfgifu?

Em 1615, fundação da cidade de Cabo Frio. Pelos padrões brasileiros, é antiga à beça. Em 1994, parece que foi ontem, Schumacher conquista seu primeiro título mundial de Fórmula 1. No ano 354, nasceu Aurelius Augustinus, dito de Hipona, bispo, escritor, teólogo, filósofo e doutor da Igreja Católica, que você conhece como Santo Agostinho.


Ruminanças
“Os montes saltam como carneiros, as colinas como cordeiros do rebanho” (Salmos, 104.4.).

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A polarização voltou - Marcos Nobre

daqui

A polarização voltou

A disputa pela riqueza e a nova face do conservadorismo democrático
por Marcos Nobre
Um espectro rondou a eleição: a luta de classes. Foi assim que uma disputa presidencial rotineira se transformou em batalha épica. A campanha do medo foi feita pelos dois lados, mas os rituais de exorcismo foram bem diferentes. No imaginário eleitoral de oposição, Dilma Rousseff representou o projeto de uma redistribuição de renda e de riqueza para quem está embaixo à custa de quem está em cima. Era a ameaça de uma redistribuição de fato – e não apenas a melhoria geral dos padrões de vida sem concentração de renda, o pacto estabelecido por Lula. Do lado governista, a oposição foi carimbada como um retrocesso, uma ameaça de perda dos avanços dos últimos dez anos. O imaginário eleitoral da situação grudou em Aécio Neves a pecha de “playboy” e “filhinho de papai”, representante secular da exclusão.
O que está em jogo é uma conta simples de fazer. Não está mais à vista a possibilidade de que alguém melhore sem que alguém piore. A economia mundial patina. E o governo não tem mais condições de continuar se endividando para compensar a falta que faz um pibão. No grande acordo estabelecido no governo Lula, alguém só pode ganhar se todo mundo ganhar. E agora? Se esse acordo foi inviabilizado, o que garante que uma ex-guerrilheira não vá querer “quebrar o contrato” e alterar na marra a grade de classes? Esse o medo real que alimenta as fantasias delirantes de cubanização do país.
Enquanto não for possível que todo mundo melhore ao mesmo tempo, então que todo mundo fique parado onde está, sem perdas nem perdedores. Foi essa a diretriz que sustentou o imaginário oposicionista. Melhorias adicionais de padrão de vida nessas condições adversas não devem vir mais do Estado, mas unicamente da conquista individual, continua o discurso. A obrigação do Estado de melhorar a saúde, a educação e a segurança tem aí o sentido de produzir “igualdade de oportunidades”, exatamente para que “o esforço e o mérito” se sobressaiam e sejam recompensados. Nasceu, enfim, um liberalismo pós-Lula, com discurso e base social próprios: o liberalismo que o país foi capaz de produzir. Essa a grande novidade da eleição. Não por acaso, Aécio foi o primeiro candidato do PSDB, desde 2002, a enaltecer o período de governo de Fernando Henrique Cardoso.
O que não quer dizer que o eleitorado de Dilma tenha votado a favor de um acirramento da luta de classes e de um novo padrão de distribuição de renda. Isso em nenhum momento esteve em causa, não dessa maneira. O eleitorado de Dilma se divide em dois grandes grupos. Quem a escolheu o fez porque apostou na manutenção do pouco que tem (são os eleitores que formam o “rochedo lulista”, na expressão de André Singer) ou porque acreditou que a candidata poderia lhe dar condições para consolidar sua recente ascensão social (caso do andar intermediário, a chamada classe emergente). Também o imaginário situacionista do medo tem sua lógica e sua base material. Foi o trabalhismo que o país conseguiu produzir.

A divisão radical entre as candidaturas aconteceu de cima a baixo. A cisão mais visível foi a das redes sociais, entre os pitboys do Leblon e os pichadores do prédio da Veja. Mas nesse front o que houve foi apenas uma guerra de posições, cada trincheira convencendo suas próprias tropas da justeza de abater o inimigo. As batalhas decisivas para o resultado ocorreram de fato ali pelo meio da tabela de classes, na faixa do eleitorado que está além do Bolsa Família e aquém da segurança em relação à posição social recém-conquistada. É uma faixa do eleitorado que o Datafolha classifica como “classe média intermediária”, estimada em algo como um terço do eleitorado.
Não são poucas as pessoas desse meião que se sentem presas em uma espécie de armadilha social. As escolas e universidades que frequentam dão diplomas que não significam avanços reais; o emprego que têm não significa abertura de perspectivas futuras no mercado de trabalho; os salários que recebem não correspondem ao esforço que fizeram por eles. Mais grave, sabem que a melhoria de seu padrão de vida tem bases frágeis. Muitas vezes veem a si mesmos (e assim são vistos pelo andar de cima) como intrusos, exercendo funções para as quais não têm preparo, como se ocupassem uma posição social que não têm qualificação para sustentar.
A parcela desse eleitorado que aderiu à oposição tem uma visão muito particular da ameaça de regressão na escala social. Em termos de despesa do Estado, defendem que a melhoria da qualidade dos serviços públicos tenha prioridade em relação a qualquer outra despesa, inclusive em relação à ampliação de programas de distribuição de renda. O raciocínio é: se mais pessoas continuarem chegando ao lugar em que estão sem que elas mesmas consigam subir, vai haver um brutal aumento da concorrência – pelos mesmos empregos, pelas mesmas vagas na universidade – sem que novas perspectivas reais se abram. O voto pelo congelamento da grade de classes foi essencialmente defensivo, contra um novo tipo de competição social, visto como potencialmente predatório.
A parcela desse mesmo eleitorado que escolheu Dilma interpretou como ameaça mais iminente um ajuste recessivo forte e imediato, identificado com a candidatura tucana. Como seu problema não é o da subsistência – como se pode dizer do “rochedo lulista” –, mas o da fragilidade de sua ascensão social recente, o voto aqui foi orientado pelo temor de que políticas econômicas restritivas comprometam os empregos e diminuam ou eliminem programas que podem significar a única chance de consolidar a posição recém-alcançada. Foi um eleitorado que mirou diretamente alvos tão diferentes quanto a continuidade dos concursos públicos, o Pronatec, a melhoria do ensino médio e do ProUni, a manutenção do fluxo de crédito oferecido pelos bancos públicos, o Minha Casa, Minha Vida incluído.
As duas metades desse mesmo eleitorado enfrentam problemas bastante semelhantes. Mas interpretam suas dificuldades e vislumbram soluções de maneiras muito diferentes. Não por acaso, também essas duas metades irreconciliáveis estiveram lado a lado nas ruas durante as revoltas de junho de 2013. Representá-las como uma unidade, porém, não está à vista. Foi o que tentou, sem sucesso, Marina Silva.
Como a Constituição Federal, também as revoltas de junho podem ser reivindicadas por qualquer das forças políticas em disputa. Desde que se tenha em mente que só é possível representá-las como unidade se for de maneira metafórica. É preciso escolher qual “Junho” se pretende defender. As ruas revelaram polarizações que há muito tinham deixado de existir de fato no sistema político. Mostraram à esquerda a possibilidade de mobilizações de massa que pareciam improváveis; à direita, que a rua também é dela. A mesma direita que foi presença pública ostensiva na eleição, como é de se esperar de uma direita democrática.
Tudo somado, o fiel da balança foi o eleitorado que mais ascendeu em anos recentes. Tendo ou não escolhido Dilma, será um segmento crítico para o destino do próximo governo. Tem uma fatura especial a cobrar. É a faixa do eleitorado que mais facilmente poderá aderir à oposição em 2018, caso não seja convencida de que foram pagas as parcelas possíveis das promissórias feitas pela candidata. É uma faixa do eleitorado que pode vir a aderir seja ao liberalismo repaginado de Aécio, seja a uma versão reciclada de Marina. Ou a uma eventual aliança entre as duas forças.

Com o controle da inflação pelo Plano Real, a desigualdade enfim ocupou o centro da agenda política. No governo Lula, houve crescimento sem concentração de renda (ao contrário do que havia ocorrido nos anos de crescimento econômico acelerado da ditadura, por exemplo), o que favoreceu sobretudo a melhoria do padrão de vida dos mais pobres. A partir de agora, o que está em jogo é a própria grade de classes, a estrutura distributiva. Exceto em condições econômicas excepcionalmente favoráveis, melhorar o padrão de vida de quem está embaixo envolve mexer nas distâncias entre os andares sociais. Ou não. Essa é a luta de classes que o país conseguiu produzir. Junho de 2013 foi o marco inaugural dessa nova fase.
Assim como em junho de 2013, ao longo de 2014 muita gente se espantou com a virulência dos ataques e das defesas das diferentes posições. Muita gente se espantou com a própria virulência, aliás. Talvez essa agressividade toda encontre formas de expressão menos brutais do que se viu nessa eleição. Seria um grande avanço na convivência democrática. O que não dá para esperar é que a virulência desapareça, dada a dimensão e a agudeza dos conflitos envolvidos. E, vamos e venhamos, o que aconteceu foi que o país da cordialidade finalmente resolveu abrir seu coração em público. Pode-se não gostar da própria imagem no espelho. Mas é um sinal inequívoco de vitalidade democrática. A presença pública ostensiva da direita aí incluída.
Marina ainda quis convencer na base da “união das pessoas de bem”. Mas, quando o espectro da luta de classes assombra as escolhas, Mahatma Gandhi é só um retrato na parede. Marina apostou no retrato. E ficou fora do segundo turno. Foi Aécio quem se mostrou à altura da tarefa. Bateu quando e como foi necessário. À diferença de Alckmin em 2006 ou de Serra em 2010, teve de disputar com Marina um lugar no segundo turno. Não hesitou em participar da pancadaria contra a candidata do PSB, de maneira a mostrar que era ele o adversário à altura de Dilma. Claro que abusou do perfil clássico do conservadorismo brasileiro, sem classes nem luta; abusou da conversa de fio de bigode do “conciliador”. Mas mostrou ser um político que entendeu muito bem que esse figurino é apenas uma parte do papel, aquele que embrulha para presente o cerne racional da virulência atual, que é distributivo.

A polarização voltou. Vai haver oposição de verdade, tanto da parte do PSDB quanto de Marina. Isso não acontecia pelo menos desde 2006, quando a oposição passou a ser só para inglês ver, atuante apenas em períodos eleitorais. O que não quer dizer que o sistema político tenha mudado radicalmente e que o Congresso agora se divida em dois blocos de partidos claramente contrapostos. A virulência da disputa social ainda não rearranjou o sistema político no sentido das ruas. No mundo da política oficial, o superbloco de apoio ao governo – de qualquer governo – continua onde sempre esteve, continua onde o PMDB sempre está. A eleição ainda está restrita ao síndico do superbloco de apoio parlamentar. Em um sistema político pemedebizado, polarização quer dizer simplesmente que a disputa pelo cargo de síndico é para valer e não só para constar.
Na reta final do primeiro turno, Marina perdeu algo como quinze pontos percentuais. Perdeu o voto útil que num primeiro momento a considerou como a única candidatura capaz de vencer Dilma. Mas manteve a votação expressiva que tinha obtido na eleição de 2010, o que é uma novidade na história das eleições presidenciais a partir de 1994. E reforçou sua determinação oposicionista ao apoiar Aécio no segundo turno. Resolveu descer do muro do seu próprio eleitorado, os 20% que não querem ver sua escolha restrita à alternativa PT ou PSDB.
A aliança com Eduardo Campos em outubro de 2013 já indicava essa mudança. Marina começou um movimento que o PT levou vinte anos e quatro eleições presidenciais para realizar: passar da “ética na política” para a “política como ela é”. Com a morte de Campos, ela foi obrigada a fazer essa travessia em menos de dois meses, sem dispor de nada parecido com a base social e a história do PT. Não conseguiu. Mas o fato de não ter passado ao segundo turno não tira a sua enorme importância política. A questão é que destino vai dar a seu cacife eleitoral.
A novidade no campo oposicionista é a convivência de duas forças políticas de relevância. O que permite prever que haverá oposição constante e efetiva ao longo do segundo mandato de Dilma é menos o histórico do PSDB nesse quesito – que é pífio – e muito mais o fato de que, se o partido não ocupar esse espaço, Marina irá fazê-lo. Vai haver competição pela liderança da oposição, o que tende a acirrar a pancadaria contra o governo a partir do segundo ano de mandato. Além disso, tanto Marina quanto Aécio não vão ocupar cargos executivos nos próximos quatro anos nem terão compromisso direto com nenhum governo. Terão muito mais margem de manobra para fazer oposição, já que reduziram consideravelmente sua dependência do governo federal.

O segundo mandato de Dilma vai sofrer o pão que o Judiciário amassou com os desdobramentos do escândalo da Petrobras. Não bastasse isso, vai ser um tempo de vacas magras, com uma economia mundial claudicante e sujeita a instabilidades crônicas. Para não falar da série de promissórias sociais que a candidata assinou durante a campanha, muito difíceis de quitar. As agruras que passará com o PMDB e com o pemedebismo do sistema político merecem um capítulo à parte.
E, no entanto, nem só de Aécio e Marina vai viver a oposição. O PSDB tem ainda Geraldo Alckmin – sem contar o indefectível José Serra, sempre alerta. Para entregar o que prometeu, Alckmin vai precisar do governo federal. Mas governa São Paulo. Porque perdeu Minas Gerais, Aécio ficou com as mãos mais livres para ser oposição. Mas também com os braços mais curtos. Sem São Paulo, está de mãos atadas. Os bastidores da formação de um novo governo são sempre interessantes de acompanhar. Mas do ponto de vista da formatação da disputa de 2018, os movimentos de bastidores decisivos serão realizados no campo oposicionista.
Marina vai negociar sua adesão a uma frente de oposição? Ou, ao contrário, vai firmar-se em raia própria, explorando as fraturas internas do PSDB? Firmará acordos com que forças? Vai usar o novo partido, o Rede Sustentabilidade, para tentar produzir um novo arco de alianças? Ou vai apostar em uma frente de oposição alternativa, a ser construída a partir do PSB?
Aécio vai tentar negociar desde já um acordo com Alckmin? Vai procurar Marina? Sem o governo de Minas Gerais, onde vai conseguir espaço para seu grupo político mais próximo? São algumas das dúvidas que só as movimentações concretas dos personagens envolvidos irão dirimir. Mas formular as perguntas corretas é essencial para procurar entender os rearranjos que o próximo mandato presidencial vai produzir. Uma coisa é certa: do ponto de vista da oposição, o risco maior está agora em uma guerra interna autodestrutiva. É uma possibilidade que não deve ser desprezada.
Do lado da situação, a principal dúvida é a relação entre Dilma e Lula. Dados os desafios listados, a presidente tem a alternativa de dividir seu governo com Lula desde já, ou ser obrigada pelo sistema político a fazê-lo, mediante as chantagens de praxe. Mas o que Lula tem a oferecer é bem mais do que um seguro contra as desestabilizações da base parlamentar, colaborando na construção do megabloco de apoio congressual que considera necessário para governar. Se a perspectiva de reeleição garantia alta governabilidade no primeiro mandato, sua impossibilidade agora reduz consideravelmente a margem de manobra no segundo. Contar desde já com o esteio de um candidato altamente competitivo para 2018 pode funcionar como substituto da perspectiva de uma recandidatura e garantir a Dilma a governabilidade que não terá de outra maneira.

A nomeação para o Ministério da Fazenda será o indicador mais importante de todos. É sabido que Dilma manteve Guido Mantega porque assim pôde prescrever diretamente a política econômica. É difícil imaginar que vá abrir mão de comandá-la. E é esse o caldo que pode entornar de maneira terminal para o lado do candidato Lula. A luta de classes que a eleição explicitou bate direto na canela do andar de cima do eleitorado, aquele do bordão da “credibilidade” e da “previsibilidade” para “o investimento privado”. Para um governo acusado de tentar mandar na economia, de praticar “capitalismo de Estado” e “nacional-desenvolvimentismo”, a gestão Dilma foi de um economicismo cândido. Viu o empresariado embolsar as desonerações que recebeu sem a contrapartida de aumentar em nada o investimento. Assistiu da arquibancada a um movimento mais ou menos coordenado de congelamento do investimento. Perdeu feio a queda de braço em relação às taxas de retorno de concessões de serviços públicos, depois de longos e desgastantes embates. E tudo o mais que se conhece.
Não adianta contar só com a caneta. Ou com a maturação das novas concessões e dos investimentos públicos realizados ainda no primeiro mandato, mesmo que sejam de grande relevância. Também não é suficiente saber que o movimento mais ou menos coordenado de resistência à política econômica tem limite e que não poderá continuar no segundo mandato, pelo menos em um primeiro momento. Porque a divisão de 2014 não vai se dissipar com o fim da eleição. A começar pela oposição à política econômica. É aqui que a relação entre Dilma e Lula vai ser decisiva.
No imaginário de futuro projetado por Lula a partir de seu segundo mandato, é estratégico manter a liderança do PT até 2018 por uma razão muito especial: é a partir dali que se espera que o país se torne de fato exportador líquido de petróleo. O paraíso prometido da riqueza do pré-sal continua a guiar o projeto de longo prazo do partido. É conhecida a disciplina de Dilma, sua disposição de “servir a um projeto”, de “cumprir uma missão”. Desde cedo ela teve claro que faria um governo “de transição”, que deveria servir a um projeto maior. Mas as escolhas táticas agora serão divididas com Lula. É dessa acomodação que vai depender a cara do próximo mandato.

A última piauí publicou carta de Cássio Loredan Barbosa com um simpático pedido de atualização de análises que apresentei aqui mesmo, em novembro de 2013 (“A volta da polarização?”). Como bem lembrou o leitor, propus ali a ideia de que a nova oposição representada pela aliança entre Eduardo Campos e Marina deveria ser entendida pelas lentes de uma nova tática eleitoral do PT. O partido lançava candidaturas próprias ao governo nos seis maiores colégios eleitorais do país, com nomes novos, muitos deles em consonância com a diretriz de uma troca de guarda geracional. Alexandre Padilha em São Paulo era o maior exemplo disso.
A tese do texto era simples: o PT pretendia dar um abraço de tamanduá no PMDB. Cabeças de chapa fortes em eleições estaduais puxam votos para deputados federais e senadores. O PT tinha a expectativa de eleger uma grande bancada na Câmara – falava-se em números assombrosos, 110 deputados – e pelo menos manter o equilíbrio de forças no Senado. Tudo isso, se possível, com redução da bancada do PMDB na Câmara. Se desse certo, o PT transformaria todos os demais em partidos médios, o PMDB em especial, e seria o único partido considerado grande.
O movimento complementar veio da novidade própria do governo Dilma, que jogou gasolina na fogueira de um sistema político não apenas fragmentado, mas tendente à fragmentação. O governo estimulou abertamente a formação do PSD e do PROS, com a expectativa não apenas de abrir caminho para a adesão de quadros antes identificados com a oposição, mas também, se possível, para diminuir a força do PMDB – além de, em alguma medida, tentar neutralizar a candidatura de Eduardo Campos.
A jogada consistia menos em atrair deputados do PMDB para os novos partidos do que tentar diluir sua zona de influência, bem mais ampla do que a própria base partidária. Simultaneamente, o governo procurou estimular as dissensões internas do PMDB, especialmente entre as bancadas da Câmara e do Senado. Fez acordos financeiros e eleitorais com peças importantes do PMDB no Senado, por exemplo, às costas do vice-presidente Michel Temer, que, ao perceber as manobras, imediatamente reassumiu o posto de presidente do partido, posição da qual se encontrava licenciado.
O resultado foi um fiasco eleitoral sem precedente para o PT em eleições proporcionais. E um aumento da fragmentação partidária no Congresso, sem que sequer tenha havido fortalecimento das bancadas dos maiores partidos. O Senado ficou mais ou menos igual. Em termos de governos estaduais, o PT alcançou um saldo ligeiramente positivo, dada a conquista de Minas Gerais. Mas, em Minas, o PT não apenas não enfrentou o PMDB como se aliou a ele. Levou. Nos seis maiores colégios estaduais – algo como 60% do eleitorado –, o único em que o PT enfrentou o PMDB e mesmo assim ganhou foi a Bahia. No geral, a divisão dos colégios eleitorais por partido também está mais fragmentada.
O PMDB devolveu o abraço de tamanduá do PT com um beijinho no ombro. Não só continuou no mesmo lugar, em sua posição de rochedo do pemedebismo do sistema político, como fortaleceu sua posição de polo de aglutinação do superbloco de apoio ao governo, de comissão de frente do pemedebismo generalizado. Não é de espantar que se tenham fortalecido as bancadas disso e daquilo – da bala, da bola, ruralista, evangélica, religiosa e assim por diante. Ou que sejam tão ou mais conservadoras que as anteriores, independentemente dos nomes dos partidos pelos quais se elegeram.
Fazer com que a disputa da eleição de síndico do condomínio seja para valer é melhor do que uma disputa encenada, pelo menos dá um alento para uma democracia ainda pouco democrática. Mas não resolve a questão de fundo do conservadorismo de um sistema político pemedebizado. A oposição nem sequer consegue manter uma bancada congressual que não seja mera franja de uma megabancada de apoio ao governo. É aí que a volta da polarização para a eleição de síndico pode não significar nada além de um novo impulso e de uma nova máscara para a geleia geral do pemedebismo.

A arte de suprimir - Martha Medeiros

Estava lendo uma longa entrevista com o escritor argentino Julio Cortázar e deparei com sua inspirada declaração sobre “literatura com franjas”, que é aquela cheia de rococós desnecessários. Segundo ele, escritor bom é escritor que se dedica a limpar o texto até chegar a uma estrutura medular. Por isso é tão importante não se dar por satisfeito e reescrever quantas vezes for preciso (para mim, atualmente, tem sido a melhor parte do ofício).
É quando temos aquele monte de palavras na nossa frente e começamos a depurar, polir, retirar tudo o que não agrega, tudo o que não serve. Não raro, é um processo dolorido, pois costumamos nos apegar a uma determinada frase ou a alguma gracinha, mas não devemos mantê-la apenas por capricho: ela pode distrair o leitor e interromper o ritmo da leitura.
É preciso severidade consigo próprio, desapegar daquilo que, mesmo que nos apaixone, compromete o resultado final. Diz Cortázar, e eu humildemente endosso: “Quando corrijo, só uma vez em 100 acrescento algo. Nas outras 99, corrigir consiste em suprimir. Qualquer um que veja um rascunho meu pode comprovar isso: muito poucos acréscimos e enormes supressões”.
Faxinar é uma arte. Vale para textos, armários, gavetas, e também para manias, lembranças, rancores. A maturidade tem muitas vantagens, entre elas a de deixarmos de ser tão sentimentais com nosso passado e promovermos um arrastão em tudo o que é excessivo. Não há mais tempo para delongas: uma vez conhecendo melhor a nós mesmos, hora de priorizar a essência – a nossa e a de tudo.
O que não impede que pessoas mais jovens comecem a se habituar desde cedo a não colecionar inutilidades, como amigos falsos, preconceitos e dramalhões. Hoje, considera-se rico aquele que tem 1 milhão de seguidores no Twitter e curtidas no Face, ou aquele que acredita que um sem-número de sapatos, bolsas e tênis acalmará sua ansiedade, afugentando o vazio. Será mesmo preciso gastar metade da vida até perder essa ilusão? O que nos dignifica não é um guarda-roupa abarrotado ou uma cabeça lotada de neuras. Simplificar, ao contrário do que se pensa, nunca foi provinciano, e sim um luxo que poucos conseguem bancar.
Acumular é que é provinciano. Nem mesmo quando relaciono esse verbo a afeto e dinheiro consigo dar a ele algum crédito, pois acúmulo nada tem a ver com suficiência. Se temos afeto e dinheiro suficientes para viver bem, com paz, conforto e alegria, para que correr atrás de mais e mais? O excesso pode conspirar contra, nos exigindo um esforço extra para manter a roda girando. O suficiente faz a roda girar sozinha.


Tempo esgotado, hora de enviar o texto para o jornal. Desconfio que ele segue com algumas franjas, mas prometo apará-las numa próxima versão.