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| Aleppo, uma das mais antigas cidades ainda
habitadas pela humanidade, é uma das mais atingidas pela guerra:
construções de 4 mil anos destruídas |
Uma
guerra que já ceifou quase 200 mil pessoas também é responsável por
varrer do mapa tesouros arquitetônicos e históricos que pertencem a toda
a humanidade. Imagens de satélite em alta resolução analisadas por
cientistas da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS),
organização não governamental e sem vínculos políticos, revelou que
somente um dos seis patrimônios mundiais localizados na Síria não foi
seriamente danificado pelo sangrento conflito civil, em curso desde
2011. Algumas estruturas históricas de locais como Aleppo, uma das mais
antigas cidades do mundo, foram reduzidas a pó.
A análise da AAAS
é a primeira a se aprofundar sobre a extensão dos danos aos patrimônios
culturais sírios e foi realizada em conjunto pela Universidade da
Pensilvânia, pelo Instituto Smithsonian e pela Força-Tarefa do
Patrimônio Sírio. As imagens feitas do espaço comprovam o que
pesquisadores já haviam constatado em visitas in loco a alguns dos
sítios. Susan Wolfinbarger, diretora de Tecnologias Geoespaciais e do
Projeto Direitos Humanos da AAAS, diz que apenas a Cidade Antiga de
Damasco (parte da capital que inclui o mercado e os bairros muçulmano,
cristão e judeu) parece não ter sofrido avarias. Estruturas históricas
de outros cinco locais, incluindo mesquitas, escolas e prédios
governamentais e civis, foram afetadas e, em alguns casos, destruídas.
“A cidade antiga, porém, também pode ter sofrido danos que não foram
capturados pelas imagens por satélite”, observa Wolfinbarger.
Um
dos locais mais abalados pela guerra civil é Aleppo, cidade que não sai
do noticiário internacional por ser a segunda maior do país e ter uma
posição estratégica no mapa sírio, sendo um ponto de passagem para a
Turquia. Fundado no segundo milênio antes de Cristo, esse é um dos mais
antigos centros urbanos ainda habitados da humanidade e, até 2011,
encantava turistas com seus bazares, mesquitas e igrejas cristãs, além
de um muro finalizado no século 12, mas iniciado muito tempo antes: há
pelo menos 4 mil anos.
Tudo isso, agora, é escombro. “Nas imagens
de satélite, a destruição massiva é óbvia por toda a cidade,
especialmente na Cidade Antiga, Patrimônio Mundial da Humanidade”,
lamenta Wolfinbarger. Entre as estruturas destruídas, estão mesquitas e
madrasas (escolas do Corão), incluindo a Grande Mesquita, uma belíssima
edificação fundada em 715. O majestoso Hotel Carlton, o caravançarai
(estabelecimento típico de hospedagem do Oriente Médio) Khan Qurt Bey, a
Mesquita de Khusruwiye e o mercado Suq al-Madina, entre muitos outros
prédios e construções históricas ao norte e ao sul da citadela, também
sucumbiram.
As imagens capturadas em 2011 e 2014 revelam danos
severos particularmente na Grande Mesquita, no mercado e na área
adjacente. O minarete do templo, construído por volta do ano 1000, foi
abaixo, assim como o teto da mesquita. É possível visualizar também duas
crateras na parede leste. Embora as piores avarias sejam vistas ao sul,
a destruição também é evidente na parte alta da cidade, uma área que
concentra edificações que vão do período mamluk ao otomano (séculos 13 a
19).
Extensão Nos outros Patrimônios Mundiais da Humanidade
localizados na Síria — Cidade Antiga de Bosra, parte antiga de Palmyra,
antigas vilas do Nordeste sírio e castelos de Crac des Chevaliers e
Qal’at Salah El-Din — houve danos diversos. Um antigo anfiteatro romano
de Bosra foi atingido por morteiros, e em sítios arqueológicos
anteriormente intocados os militares abriram estradas, cortando,
inclusive, o centro de uma necrópole romana em Palmyra. Segundo a
Unesco, Palmyra, localizada no deserto ao norte de Damasco, “contém
ruínas monumentais de uma grande cidade que já foi um dos mais
importantes centros culturais do mundo antigo”, com influência da arte
greco-romana e persa.
Já no castelo de Crac des Chevaliers, um
dos mais conhecidos exemplos de uma fortificação das Cruzadas, as
imagens mostram danos estruturais moderados, como um talho de 6m na
torre sul e crateras no solo. No vilarejo de Jabel Barisha, um dos mais
antigos da Síria, o satélite revelou três fortes militares novos,
construídos depois do início da guerra, sendo dois dentro dos limites do
parque arqueológico. “Dos nossos contatos e fontes na Síria, sabíamos
que havia danos aos patrimônios mundiais”, diz Brian I. Daniels, diretor
de Pesquisa e Programas do Centro de Patrimônio Cultural do Museu da
Universidade da Pensilvânia. “Mas esses dados nos surpreenderam por
revelarem exatamente o quão extensiva foi a destruição.”
Corine
Wegener, do Instituto Smithsonian, acredita ser preciso organizar um
grupo internacional de pesquisadores para estudar os danos e investigar
formas de intervir na Síria. “Há esperança, e ela reside em nossos
colegas sírios, porque eles são os cuidadores desses locais, sabem do
valor de preservar e protegê-los para futuras gerações”, diz Wegener. “O
que eles precisam de seus colegas estrangeiros é alguma ajuda para
fazer isso — treinamento, materiais e outros suportes da arena
internacional. É possível mitigar e prevenir danos para o patrimônio
cultural mesmo no meio de conflitos.”
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| Militar observa danos causados na citadela de Crac des Chevaliers, um dos patrimônios da humanidade |
Estado Islâmico depreda a memóriaA
situação do Iraque também preocupa a Unesco. Desde junho, a antiga
Babilônia vem sendo depredada pelo grupo Estado Islâmico, que assumiu o
controle de várias faixas do território iraquiano, destruindo templos,
igrejas e manuscritos em Mossul, Tikrit e outras localidades do país,
por considerá-los idolátricos ou heréticos. Os jihadistas também fizeram
escavações em sítios arqueológicos para vender objetos ao exterior.
Funcionários de inteligência calculam que o grupo tenha obtido US$ 36
milhões vendendo artefatos roubados.
A diretora-geral da Unesco,
Irinia Bokova, condenou no domingo passado, em Bagdá, a destruição
“bárbara” do patrimônio cultural. “O Iraque possui milhares de templos,
edifícios, sítios arqueológicos, objetos que são um tesouro para toda a
humanidade”, disse. “Não podemos aceitar que esse tesouro, essa herança
da civilização, seja destruído da forma mais bárbara”, completou. “Temos
que agir, não há tempo a perder, porque os extremistas estão tentando
apagar a identidade, porque sabem que sem uma identidade não existe
memória, não há história. Pensamos que isso é uma aberração, não é
aceitável”, insistiu.
Berço da civilização, com uma história que
remonta a 5 mil anos, o Iraque é, com o Egito, o país que abriga os mais
antigos resquícios da civilização. Bagdá foi a primeira cidade
planejada do planeta, onde surgiu a escrita cuneiforme; a irrigação; a
biblioteca Casa da Sabedoria, do ano 832 d.C.; e a primeira universidade
árabe.