domingo, 7 de dezembro de 2014

CLÁUDIA LAITANO - Famílias imperfeitas

Zero Hora 07/12/2014

A família patriarcal pai, mãe e filhos hierarquicamente enfileirados durou tanto tempo menos porque fosse perfeita do que porque não havia muitas alternativas à disposição. Toda a revolução provocada por mulheres e jovens insatisfeitos a partir dos anos 1960 brotou exatamente das muitas rachaduras desse modelo, baseado na milenar regra do manda mais quem pode mais.
Ser apenas dona de casa não era o negócio da China para a maior parte das mulheres, assim como obedecer pais e professores o tempo todo não combinava com a energia anárquica e contestadora dos adolescentes – e vamos combinar que sustentar a casa sozinho também não devia ser bolinho para nossos pais e avós. Ou seja: dependendo do grau de frustração envolvido, famílias em que tudo parecia andar conforme o figurino podiam ser muito infelizes e sufocantes.
Se essa fórmula mais ou menos convencional, testada durante muitas gerações antes da nossa, era um caldeirão de tensões mal resolvidas, os modelos que vieram depois obviamente não instalaram o paraíso sobre a Terra.
Há hoje, claro, mais liberdade para sair do script e inventar novos arranjos familiares, o que é uma novidade muito bem-vinda. Ninguém precisa ficar casado com a mesma pessoa durante 50 anos se não quiser, e filhos fazem sexo quando acham que estão prontos, inclusive dentro da casa dos pais e com a bênção deles – o que é bem melhor, e mais seguro, do que transar no banco de um fuca estacionado numa rua escura. Beleza.
Mas a nova família tem lá seus problemas também, e não são poucos. A legislação que obriga os pais a compartilhar a guarda dos filhos depois da sepração endereça um deles: a dificuldade de conciliar os interesses (e mágoas) dos adultos com o que é melhor para as crianças.
Como muitas vezes acontece, esta é uma lei que chega para forçar um tipo de atitude (sensata, racional) que ainda não é a mais comum. Vai demorar algum tempo até que as varas de família fiquem vazias por ausência de tensão na hora do divórcio.
A separação é um processo doloroso e difícil, e quem preferia não se separar se sente duplamente traído ao ser obrigado, além de tudo, a abrir mão de parte do tempo dos filhos. Nesses momentos, é preciso convocar todas as energias de bom senso disponíveis para fazer o que é certo e justo – se não para todos os adultos envolvidos, pelo menos para as crianças.


A hamornia ideal talvez não seja mais do que uma linha fictícia no horizonte, mas não podemos abrir mão do esforço de mirar na melhor versão possível de nós mesmos – e das nossas famílias também.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Glúteos - Eduardo Almeida Reis

Detesto marimbondos depois que fui picado por uma vespa dirigindo o saudoso Opalão seis cornetas, ao ajeitar o retrovisor


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 06/12/2014




Os telejornais transmitiram a gravação do telefonema com o sofrimento de uma senhora, mãe de três filhos, que acabou morrendo depois de se submeter a uma aplicação de hidrogel nos glúteos. O adjetivo glúteo é “referente a ou próprio das nádegas” e nádega, ou nalga, é cada uma das duas partes musculoadiposas da região traseira da pelve humana, formada por cada lado dos glúteos. Informo ao caro, preclaro e assustadíssimo leitor, que o cacófato “por cada” foi transcrito do Houaiss. Em Portugal, nádegas atendem pelo substantivo masculino de duas letras, do latim cúlus,i 'ânus, traseiro' e o referido é chamado de “olho”: faz sentido. A grande filósofa Valesca Popozuda poderia ser nadeguda fazendo jus a sua obsessão nadegal, de resto muito comum entre os nativos do Deserto do Kalahari, em África, onde as nalgas monstruosas representam reserva de gordura para os meses de fome, promessa de leite para amamentar os filhos. Brasileiros também se amarram nos glúteos feminis, mas por motivos que minha notória pudicícia impede de explicar. O mesmo philosophar que não entende nem explica os quadros pavorosos de esteatopigia, hipertrofia das nádegas pelo acúmulo de gordura, que a TV nos mostra por meio das filmagens nas comunidades e nas cidades do Sul e Sudeste do Piscinão de Ramos.

Que é aquilo? Não são glúteos, mas monumentos à imbecilidade humana: monumentos que balouçam em ridículo balouçar. Senhoras e senhoritas de glúteos normais têm hora e vez na libido dos homens sérios. Mesmo as chamadas bundas de marimbondo são muito apetecíveis, desde que não sejam da enxu ou exu (Protonectarina sylveirae), uma espécie brasileira de vespa também conhecida pelo nome de marimbondo-de-bunda-amarela. Detesto marimbondos depois que fui picado por uma vespa dirigindo o saudoso Opalão seis cornetas, ao ajeitar o retrovisor numa estrada rural de Bom Jardim (RJ). No Mato Grosso, vivi séculos entre nuvens de abelhas das mais variadas espécies e nunca fui picado. Explicação: são atraídas pela fumaça dos charutos. Por falar em bunda de marimbondo, excelente raça inglesa de gado leiteiro, a jersey, foi malvista por sua pélvis muito estreita. E só uma coisa é certa: injetar hidrogel nos glúteos visando a concorrer com a senhor Valesca Popuzuda, nascida Valesca dos Santos em 6 de outubro de 1978, no Rio de Janeiro, é uma burrice que não tem mais tamanho.

Mineiridade

A noite de 26 de outubro e os dias imediatos, com toda a mídia comentando a vitória da senhora Rousseff, deve ter sido uma delícia para aqueles que nela votaram e foi chatíssima para os derrotados, grupo que me inclui. Tenho lido e-mails de muitos mineiros dizendo-se enojados com a votação do PSDB no estado. Não sou mineiro e não fiquei enojado, mas triste. Tudo começou com um erro de cálculo: o lançamento da candidatura Pimenta da Veiga, brasileiro excelente, que seria ótimo governador, mas anda longe de Minas há muitos anos, tornando-se desconhecido por aqui. Mineiros menores de 40 anos nem desconfiavam da existência de João Pimenta da Veiga Filho, nascido em BH em 1947, “advogado com escritório em Brasília” (Wikipédia), casado com a linda morena Anna Paola. A partir do lançamento de sua candidatura e da recente falta de atenção do neto de Tancredo com o estado que governou brilhantemente durante oito anos, ficou fácil explicar a vitória do petista Pimentel e de sua amiga Rousseff, com as consequências que o claro, preclaro e assustado leitor verá. Pimentel não deve ser má pessoa. Cunhado de Olavo Romano durante muitos anos, conhecendo os segredos do Morro do Ferro, deve ter qualidades, mas sua amiga é o fim da picada.

O mundo é uma bola

6 de dezembro de 1240: os mongóis invadem e conquistam Kiev, hoje a maior cidade e capital da Ucrânia, às voltas com o presidente russo. Vladimir Vladimirovitch Putin, ex-agente da KGB soviética, não sossega enquanto não anexar toda a Ucrânia à Rússia, que se ressente da falta de território com seus modestos 17 milhões de quilômetros quadrados, o dobro do Brasil. Em 1768, publicada a primeira edição da Enciclopédia Britânica. Ali por volta de 1968, com dois séculos, era linda coleção de livros para enfeitar as estantes. Hoje cabe num clique de computador. Em 1811, no estado de Missouri, o mais terrível terremoto da história norte-americana, mas há quem diga que foi no dia 16: morreram 40 mil pessoas. Em 1877, Thomas Alva Edison, num aparelho que ele mesmo construiu, faz a primeira gravação de som de que se tem notícia. Em 1889, evento vexilológico da mais alta magnitude pátria: adotada oficialmente a bandeira do Maranhão. Vexilo vem do latim vexillum,i “bandeira, estandarte”; por extensão de sentido é sinal de poder sobre o estado que pertenceu à família Sarney. Em 1917, o barco Monte Branco, que transportava 3 mil toneladas (?) de dinamite, tromba noutro barco belga provocando a morte de 1,6 mil pessoas. Acho muita dinamite, mas tá na Wikipédia. Hoje é o Dia da Extensão Rural.

Ruminanças

“Sendo inteligente, depois de oito anos de casada a esposa amantíssima não se importa com as namoradas do deus do lar.” (R. Manso Neto).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Flechadas - Eduardo Almeida Reis

 Trouxeram os arcos, botaram bom pedaço de madeira a cerca de 15m e não acertaram uma só flechada. Explicação: fazia tempo que aderiram às espingardas


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 05/12/2014



Edgar Flexa Ribeiro, o Flexinha, educador e comunicador brilhante, é homem digno e tem dedicado toda as sua atenção, nos últimos anos, ao tratamento e à cura de sua mulher Lúcia Hippolito, historiadora e cientista política, recuperando-se da terrível síndrome de Guillain-Barré. O único defeito do Flexinha é complicar a vida dos que escrevemos para fora, porque a flecha, do arco e flecha, não é com xis.

Faz tempo que as flechadas viraram esporte e Minas tem uma Federação Mineira de Arco e Flecha há mais de 25 anos. Na Arqueria Hobby e Lazer da internet, você pode comprar arcos e flechas de todos os tipos e preços. Pensei dar aos netos, porque é esporte silencioso, mas desisti quando estudei as precauções que devem ser tomadas pelos atletas.

Na rubrica armamento do Houaiss, a explicação para o esporte do arco e flecha é uma delícia: arma perfurante e de arremesso constituída de arco, com uma corda flexível que liga e prende os seus dois extremos, e de haste, com flecha na ponta. O atirador encaixa a haste no ponto médio da corda, e esta, puxada para trás e retesada ao máximo, gera a força propulsora que arremessa a flecha em direção ao alvo.

Há muitos e muitos anos, trabalhando para um grupo europeu, que havia comprado terras horríveis disputadas pelos xavantes, tive oportunidade de visitar uma aldeia. Visita divertidíssima com os xavantes dispostos em semicírculo grunhindo algo na língua do ramo aquém, falada por eles, quando apertavam minha mão. Até que um deles, dos últimos do semicírculo, disse: “Muito prazer. Como tem passado o senhor?”. Fui apurar e descobri que o guerreiro estivera três vezes na Europa levado pelos antropólogos.

Encontrei os guerreiros jogando futebol em campo de terra, balizas sem redes. Jogavam o dia inteirinho, pouco importando o resultado porque só contavam os gols até 10. Pedi aos mais velhos que me mostrassem como funcionavam suas flechadas. Trouxeram os arcos, botaram bom pedaço de madeira a cerca de 15 metros e não acertaram uma só flechada. Explicação: fazia tempo que aderiram às espingardas.

Educadíssimos, quando vinham discutir com os europeus sobre as divisas daquelas terras inservíveis, quatro ou cinco metros antes do lugar em que os estrangeiros e o philosopho estávamos sentados, os guerreiros abriam suas espingardas e guardavam os cartuchos nos bolsos dos calções. E dizer que aquela foi uma das muitas aventuras em que andei metido no Mato Grosso.

Tentação

Posso imaginar, caro leitor consumista, sua tentação diante das ofertas que circularam na mídia numa destas manhãs primaveris. O frio de 2014 já acabou, mas o inverno de 2015 vem aí e você ainda não tem meias de lã de vicunha, mamífero artiodátilo, da família dos camelídeos (Vicugna vicugna), encontrado nos Andes do Peru, Bolívia, Argentina e Chile; tem lã macia e delicada, e é semelhante ao guanaco, de quem difere pelo menor porte, pela coloração mais clara e pelas faces esbranquiçadas.

Por isso, você aproveita para encomendar 10 pares a um amigo que vai a Londres. Dez pares são o mínimo que um consumista deve ter para se acostumar com as melhores meias de lã do mundo. Na Selfridges londrina seu amigo pode comprar os 10 pares por R$ 20 mil, considerando que cada par custa 495 libras.

É uma pechincha para meias fabricadas pela Falke na Alemanha. Cada vicunha leva um ano para produzir cerca de meio quilo de lã, é protegida por lei e só pode ser deslanada de três em três anos. Tem a mais fina de todas as fibras naturais com seus 12 micrômetros de diâmetro. Um micrômetro, como informa o Houaiss, é unidade de medida de comprimento que equivale à milionésima parte do metro.

Com suas peúgas de vicunha, é justo que você tenha televisor de boa qualidade. Portanto, deve aproveitar para comprar um Samsung de 105 polegadas com tela curva, resolução de 5120x2160 e 11 milhões de pixels, preço sugerido de R$ 499 mil. Aí, você assina uma destas tevês a cabo e não consegue assistir aos programas pelo frequente sinal fraco.

E tem mais uma coisa: cada par de meias vem numa caixa de madeira finíssima, trem danado de chique. O diabo é a cor de caramelo, pois a lã é tão fina que não aceita tinturas.

O mundo é uma bola

5 de dezembro de 1496: o rei Manuel I assina o decreto de expulsão dos hereges de Portugal. Herege, na Wikipédia, ocuparia todo este caderno Gerais. Vejamos sua sinonímia no Houaiss: ateísta, ateu, céptico, descrente, gentio, heresiarca, herético, heterodoxo, idólatra, ímpio, incrédulo, incréu, infiel, mouro, pagão. Deu para entender?

Em 1812, Napoleão Bonaparte regressa a Paris depois de abandonar seus exércitos em difíceis condições na Rússia. Em 1889, a família imperial brasileira chega a Lisboa expulsa do Brasil pela proclamação da República, feriadão comemorado em novembro. Hoje é o Dia da Pátria na Tailândia, onde tenho bom amigo.


Ruminanças
“Ao inteirar 60, todo homem sério deve trocar a namorada pela cuidadora de idosos” (R. Manso Neto). 

O silêncio está no ar - Carlos Herculano Lopes

Estado de Minas: 05/12/2014



A não ser a natural descontração comum aos botecos da vida depois de o álcool começar a fazer efeito, ou atingir poderes supremos, conforme consta em As mil e uma noites (o grande clássico da literatura árabe), o brasileiro está ficando mais calado e perdendo a verve falante, que sempre foi uma de nossas marcas registradas. Pelo menos essa é uma observação que, de alguns tempos para cá, o homem tem feito em suas andanças por aí.

 Contumaz usuário dos transportes públicos, pois nunca teve carro nem aprendeu a dirigir, ele sabia: há algum tempo, era comum uma pessoa, ao se sentar ao lado da outra no ônibus ou metrô, logo entabular conversa, fosse para falar do tempo, do alto preço das coisas, de política ou futebol. Mas de repente as coisas mudaram, e o homem, para sua própria surpresa, só começou a perceber isso recentemente, quando tomou o Move em direção ao Bairro Ipiranga, em Belo Horizonte.

Ele passou a observar que grande parte das pessoas a não ser uma ou outra exceção, viajavam em completo silêncio, entregues aos próprios pensamentos. Algumas estavam com os olhos fechados, fingindo tirar um cochilo; outras seguiam com a cabeça baixa; umas mais, com expressão triste, iam agarradas aos telefones celulares. Conversa que é bom, nada.

“Será que esse silêncio é meu? Estarei mais desencantado com a vida, sem aquele impulso comum da juventude de se aproximar do semelhante?”, o homem se perguntou ali dentro do coletivo, sem conseguir chegar a uma conclusão, mas também sem deixar de refletir a respeito.

Certeza mesmo de que o silêncio está no ar ele teve na semana passada, quando voltava de avião de Salvador, onde não ia há anos. Entre dois passageiros como ele espremidos numa daquelas poltronas cada vez mais estreitas da classe econômica, de repente, sabe-se lá por que, ele se lembrou da viagem no Move e olhou para a mulher à esquerda. Morena, de cabelos encaracolados, ela olhava para a frente como se mirasse o nada. Um senhor de terno azul-claro, que estava à sua direita, lia a revista da empresa aérea. Ninguém dizia palavra.

Incomodado com aquilo, o homem, que sempre gostou de um bom dedo de prosa, costume adquirido nos perdidos dias da infância no interior de Minas, mas que de uns meses pra cá, vá saber por que, também andava meio macambúzio, voltou a atenção para as poltronas ao lado e à frente. Pensou novamente que aquele silêncio pairando à sua volta poderia ser apenas uma coincidência.
Mas a situação era a mesma. Quase todos viajavam calados; estavam lendo alguma coisa ou entregues a smartphones, iPods, tablets ou notebooks da vida, como se nada mais interessasse. Resolveu ir ao banheiro para estender um pouco a investigação. A mudez imperava.

Minutos depois, quando começou o serviço de bordo, a morena à esquerda agradeceu o lanche com um balançar de cabeça, enquanto o senhor de terno acenou para a água mineral, gesto seguido pelo homem. O silêncio só seria quebrado de forma bem engraçada, provocando alguns sorrisos, quando, quase chegando a Confins, uma criança perguntou, aos gritos: “Mãe, o avião já está com os pés no chão?”.