domingo, 11 de janeiro de 2015

EM DIA COM A PSICANáLISE » A pedra no sapato

EM DIA COM A PSICANáLISE » A pedra no sapato 

Vários estados de adoecimento têm raízes no narcisismo


Regina Teixeira da Costa
Publicação: 11/01/2015



Nada pode ser mais incômodo do que caminhar com uma pedra no sapato. Assim é a vida das pessoas extremamente narcisistas, que se ofendem por quase nada ou por tudo. Perto delas, devemos andar com sapatinhos de veludo. O narcisismo excessivo traz prejuízo para a própria pessoa e muito desconforto para quem com ela convive.

É fato que carecemos de boas bases. Nascemos prematuros, o instinto autoerótico está ali desde o princípio e a ele soma-se uma nova ação psíquica a fim de provocar o narcisismo primário. Trata-se, segundo Freud, do investimento libidinal do egoísmo do instinto de autopreservação, que pode ser atribuído a toda criatura viva anterior ao estabelecimento de ligações com o mundo externo.

A princípio, essa atitude libidinal de amor próprio, com a formação do eu, está restrita ao corpo próprio. Ela é a condição para que posteriormente esse amor seja redirigido para pessoas e coisas do mundo externo, possibilitando as ligações. Essas ligações, ou catexias, como dizia Freud, são emanações da libido que podem ser transmitidas e retiradas novamente.
Um exemplo esclarecedor é a antítese entre a libido do eu e a libido objetal. Quanto mais uma é empregada, mais a outra se esvazia. Assim como ocorre com dois jarros d’água, quando o líquido de um é vertido para o outro e o primeiro esvazia, sendo a libido o líquido.

Outro bom exemplo disso é a paixão. Quando ficamos apaixonados, investimos toda a libido no outro e sem ele ficamos esvaziados, desertificados. Podemos chegar ao extremo de nos anular e mesmo de desistir da vida por incapacidade de viver sem o outro. Mas esse caso é o ápice, o patológico, quando não sobra nem uma gotinha no nosso jarro.
Aliás, a palavra paixão vem de pathos, patológico, e é mesmo um estado de adoecimento do amor próprio que não deixa dúvida. A pessoa fica muito aflita com a distância entre ela e seu apaixonado; a vida só tem sentido quando está voltada para o outro, como se ele fosse seu próprio oxigênio.

Daí que muitos casais adotam como medida de manutenção do amor uma cola que sufoca o amor. Ou o desejo de um deles como se, para não haver diferença, distância ou separação, fosse necessário desejar igual, pensar igual, querer igual. Logicamente, isso é impossível entre pessoas de educação, raízes, experiências e desejos diferentes.

A experiência de tantos fracassos demonstra a impossibilidade da alma gêmea, do par perfeito ou das metades da laranja. Muitos casais vivem juntos por toda a vida porque conseguiram uma forma de amor parceira e generosa, ou até mesmo por serem neuróticos e gozarem das alfinetadas trocadas. Vai entender! Cada um se ajeita como pode.

Difícil é lidar com o narcisismo de cada um que se julga mais justificado que o outro, mais merecedor, e exige a renúncia do desejo do outro sem conseguir escutar que ali a seu lado vive outro sujeito com desejos e necessidades tão importantes quanto os seus. Desejar é a salvação do sujeito. O narcisismo em excesso é a pedra no sapato que afasta o sujeito do desejo e o atraca ao orgulho danoso.

De qualquer forma, vários estados de adoecimento têm raízes no narcisismo. Quanto mais inflados narcisicamente, menor a capacidade de laços sociais e mais sujeitos a estragos. Assim como os balões: quanto mais cheios, mais explosivos quando pressionados. 

Perfil - Eduardo Almeida Reis

Nenhum país é obrigado a lançar satélites se ainda não resolveu problemas básicos como SUS, hospitais, buracos nas estradas e educação pública

Estado de Minas: 11/01/2015



Em Mogi das Cruzes (SP), onde foi criado, Jonathan Lopes de Santana teve infância normal, era bom menino, prestativo e, ainda hoje, com 23 anos, considerado excelente vizinho na Rua Palestina, onde reside com os pais e um irmão. Obediente, trabalhador, comprou e emplacou um Astra, tudo direitinho, figura exemplar.

Justamente por ser obediente e cumpridor de ordens, detestando os sonegadores dos impostos que fraudam este belo país, passou a obedecer às ordens do diabo para matar 31 moradores de rua, que, morando nas ruas, não pagam os impostos que fazem a felicidade da nação e permitem que o governo compre a base aliada para apresentar os excelentes resultados do PIB-Rousseff, matando de inveja o resto do planeta.

Ninguém sabe ao certo quantos moradores de rua e alguns transeuntes Jonathan matou a machadadas, degolando depois as vítimas com um facão, inspirado nas proezas do Estado Islâmico. Um cavalheiro, que assistiu de longe a uma dessas decapitações, anotou a placa do Astra e Jonathan foi preso em sua casa, carro e roupas ainda manchados de sangue, confessou muitos crimes à polícia e foi reconhecido por um sujeito que escapou por pouco de suas machadadas. Creio desnecessário dizer que a repórter do telejornal se referiu ao assassino confesso como “suspeito”. Com o passar dos meses, vamos ver se Jonathan será condenado ou absolvido, considerando que não fazia mais que obedecer às ordens do diabo, anjo rebelde caracterizado por suas diabruras.

Midiáticas
No abjeto pessimismo que a caracteriza, nossa mídia fez reparos ao PEB, Programa Espacial Brasileiro, que encerrou 2014 com orçamento insuficiente, adiamento de projetos e falta de notícias do VLS, o Veículo Lançador de Satélites que completa 30 anos sem sair do chão.
O PEB precisa de uma revisão estratégica, diz Aydano Carleial, presidente da Associação Aeroespacial Brasileira e ex-diretor do programa de satélites do INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Carleial, pós-graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Stanford, nos EUA, acha que os projetos de engenharia espacial do governo se arrastam anos a fio sem perspectivas de conclusão com sucesso e que o momento atual do desenvolvimento espacial brasileiro é de frustração.

Comparado com os BRICS, o Brasil é o único pais que não conseguiu conquistas expressivas na área espacial. A Índia lançou uma sonda orbital que chegou a Marte, e os chineses, em 2003, tornaram-se o terceiro país a levar um homem ao espaço. A primeira tentativa brasileira de voo do nosso Veículo Lançador de Satélites, o VLS-1, ocorreu em 1997, quando foi necessário acionar o comando de autodestruição devido a uma falha na ignição. Outra falha ocorreu em 1999. Em 2003, na terceira tentativa, a ignição prematura fez o foguete explodir ainda na plataforma de lançamento, matando 21 profissionais.

A julgar pelas amostras, diz aqui o philosopho, o programa deveria ser esquecido. Custa uma fortuna e pode matar centenas ou milhares de brasileiros. Nenhum país é obrigado a lançar satélites se ainda não resolveu problemas básicos tais como o SUS, os hospitais, os buracos nas estradas, a educação pública, a espantosa violência e a ladroeira que vai por aí.

Talvez fosse o caso de começar pelos baloeiros, autorizando-os a soltar seus balões no tempo das chuvas, sem risco de incêndio nas matas, longe das rotas aéreas mais usadas. Os baloeiros ficariam felizes e o país continuaria tentando viabilizar o mínimo que se pede de um povo civilizado.

Pauta
O programa GloboNews em Pauta dura 60 minutos. Com um ou dois intervalos rápidos, digamos que sejam 55 minutos. Em dezembro, andou perdendo por programa cerca de 18 minutos para solucionar, a partir do Rio, São Paulo e Brasília, contando com a ajuda de um(a) jornalista residente em Nova York, todos os problemas raciais norte-americanos, policiais brancos que matam a tiros ou numa gravata anjinhos de cor, um com 1,98m e 135 quilos, outro com diversas passagens pela polícia, cavalheiro que deve beirar os 200 quilos.

Parece-me, e o leitor dirá se tenho razão, que o Brasil tem problemas e pautas suficientes para manter ocupados os quatro comentaristas daquele programa durante os 55 minutos de cada noite em que é exibido. Até se entende que noticie os problemas raciais norte-americanos em um ou dois minutos, mas gastar o fosfato de seus ilustres comentaristas com os problemas norte-americanos, durante boa parte do programa, é um exagero e uma tolice.

O mundo é uma bola
11 de janeiro de 630: Maomé, o profeta fundador do islamismo, destrói os ídolos do santuário de Kaaba em Meca. Kaaba ou Caaba é uma construção cúbica de 15,24 metros de altura cercada por muros de 10,67m e 12,19m. Ela está permanentemente coberta por manta escura com bordados dourados, que é regularmente substituída. É o centro das peregrinações (hajj) e é para onde o devoto se volta para as suas preces diárias (salat). É o lugar mais sagrado do Islã. Quando o profeta repudiou todos os deuses pagãos e proclamou um deus único, Alá poupou a Caaba.
Hoje é o Dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos.

Ruminanças

“Para aparecer no jornal, há assassinos que assassinam” (Eça de Queiroz, 1845-1900).

ENTREVISTA/RONALDO BASTOS, COMPOSITOR » Pop fino

ENTREVISTA/RONALDO BASTOS, COMPOSITOR » Pop fino Fundador do Clube da Esquina lança CD com repertório romântico e MPB para tocar no rádio


Ana Clara Brant
Estado de Mnas: 11/01/2015




 (Marcos Ramos/AG)


Boa parte dos fãs do compositor fluminense Ronaldo Bastos admira suas canções O trem azul, Nada será como antes, Cais ou Fé cega, faca amolada. Entretanto, o álbum que chegou ao mercado recentemente, Alta costura – O prêt-a-porter pop romântico de Ronaldo Bastos (Dubas), mostra outra faceta do sócio-fundador do Clube da Esquina.

Um dos letristas mais importantes do país, Ronaldo Bastos diz que esse disco é oportuno, com sua MPB para tocar no rádio. E avisa: “Musicalidade e poesia não faltam neste país. Hoje se produz muito bem música pop no Brasil, mas nem tudo que faz sucesso é bom”.

Por que você fez um disco com canções mais românticas?
A ideia foi de Leonel Pereda, produtor que vem pesquisando música brasileira há pelo menos uns 15 anos. O disco surgiu da vontade dele de chamar a atenção para um estilo que não chegou a configurar um gênero, mas predominou na década de 1980 e rendeu grandes canções. O repertório romântico dessa época ainda tinha a qualidade das décadas anteriores e, embora seguisse uma estética já mais orientada pelas necessidades de mercado, ainda não havia caído na mediocridade, que, de modo geral, observamos de lá pra cá. É MPB feita para tocar no rádio, mas com canções fortes. Não por acaso, muitas delas tocam até hoje.

Como você define esse trabalho?
Alta costura... é um disco novo feito de canções já existentes. É oportuno porque aparece num momento em que a música predominante nos veículos de comunicação reflete a pobreza cultural a que querem nos fazer acreditar que chegamos. O disco traz a música de um tempo em que as canções falavam a todos, chegavam a todos e conservavam a essência da canção bonita brasileira. Por ter sido música que na época foi desprezada pelas chamadas elites intelectuais, o contraste entre elas e o que se divulga hoje torna maior o abismo. Lógico que nesse disco estamos falando do meu repertório, mas a quantidade de canções maravilhosas feitas nesse período por outros compositores é muito significativa.

Por que o título do CD remete à moda?
Quando fiz Chuva de prata com o Ed Wilson, tive que responder a um crítico preconceituoso com a seguinte expressão: mesmo quando faço prêt-à-porter, é alta costura. Quando o Leonel me apresentou a ideia do disco, logo me lembrei dessa história, que, de certa forma, resume uma questão importante da música popular e esse disco vem a esclarecer, espero que definitivamente. Por outro lado, sempre admirei artistas do mundo da moda. Com o passar do tempo, comecei a usar elementos dessa arte para confeccionar as canções. Não vejo diferença entre um escultor que vê o que está contido num bloco de mármore e um costureiro quando esculpe um vestido no corpo de uma mulher. A partir de certa época, o que era um modelo único passou a ser oferecido em grande escala. É o que eu e outros compositores procuramos fazer a partir das melodias. Cada canção é esculpida como uma peça única acessível a todos.

Como foi a seleção do repertório?
O repertório é derivado de dois discos que o Leonel fez com minhas canções românticas para circular só entre amigos. Ele já tinha se dedicado a outros projetos com canções da minha autoria, sempre orientadas ao meu repertório mais “sério”. Foi do Leonel a ideia de revisitar Paradiso, disco meu em parceria com Celso Fonseca que deu origem ao hoje cultuado Liebe paradiso. Depois, ele fez o Nuvem cigana, que reunia alguns de meus standards dos anos do Clube da Esquina e canções menos conhecidas daquela época. Este projeto contemplou repertório romântico que teve a força de atrair a atenção e o gosto do grande público.

A maioria dessas canções foi composta numa época em que a MPB não tinha medo de ser pop, como está escrito no encarte do disco. A MPB, ainda hoje, tem medo de ser pop?
Talvez sim. Mas é muito difícil generalizar quando se fala em música popular feita no Brasil. Tem muita gente jovem querendo reproduzir as harmonias de Edu Lobo ou as canções de Chico Buarque, mas sem o apelo popular que esses artistas tinham de fato em seu momento. Hoje, vemos surgir várias vertentes de música feita para as massas que servem a esse projeto de achatamento do gosto popular e à alienação cultural. Em Alta costura, você tem o melhor dos dois mundos: música brasileira sofisticada, mas sem preconceitos, com romantismo, humor, suingue, espontaneidade. É pop, rico, divertido e bem brasileiro.

O que é ser pop, sobretudo no Brasil?
A gente não pode reduzir tudo o que é pop ao que vemos na TV ou que toca no rádio mediante jabá. O Brasil é um país pop por natureza. Tem muita gente fazendo música boa, de Belém ao Rio Grande do Sul. Infelizmente, poucos desses artistas conseguem ter a visibilidade que teriam na época em que a música brasileira era popular e tocava no rádio e na televisão. Musicalidade e poesia não faltam neste país. Hoje se produz muito bem música pop no Brasil, mas nem tudo que faz sucesso é bom.


Há quem estranhe esse seu lado pop romântico, já que sua faceta mais conhecida é a de letrista do Clube da Esquina?
Clube da Esquina não é museu e nem só um episódio da música de Minas. Todas as canções feitas no mundo são basicamente variações sobre os mesmos temas. As canções românticas são tema recorrente para a maioria dos compositores. Se você pegar uma canção de estrada como Nuvem cigana, por exemplo, vai ver que ela é romântica também. As melodias mandam em mim, assim como o amor deveria governar o mundo. Sou livre para fazer as canções que me derem na veneta e tenho muito orgulho das minhas canções românticas.

O que você espera do mercado fonográfico em 2015?
Nunca espero muito, eu trabalho. Mas sonho com um mundo mais justo, em que os criadores sejam respeitados, em que a política cultural não seja baseada na intervenção do Estado em assuntos que só competem à classe artística. Quero que a música volte a tocar sem depender de artifícios financeiros, que os produtores se voltem para a canção e que intérpretes voltem a se relacionar intimamente com os compositores. Espero um Brasil em que a educação pública seja mais do que uma promessa de campanha e que a música volte a ser o nosso alimento de cada dia.

Love stories - Kiko Ferreira


Dois anos depois de lançar um dos discos mais bem produzidos da música brasileira recente, o sofisticado Liebe paradiso, Ronaldo Bastos revisita sua faceta mais popular em Alta costura..., compilação de 21 temas românticos de sua lavra. Demonstrando a variedade de espectro de parceiros e intérpretes que compõem seu ciclo de sócios de criação, a seleção, feita pelo produtor Leonel Pereda, vai de nomes bastante populares, como José Augusto (Castelo de areia) e Joanna (Mal nenhum) a estrelas de prestígio inabalável como Maria Bethânia (Sei de cor) e Celso Fonseca (Linda).

Não por acaso, a foto de Ronaldo na parte interna do CD tem como fundo o letreiro do Love Story Motel. Praticamente todas as faixas são aquelas músicas ouvidas nas madrugadas de boemia e nos casos (antes, durante, depois) de amores mais típicos e explícitos. Já na abertura, fica clara essa intenção com Todo azul do mar, dobradinha com Flávio Venturini e hit do 14 Bis em 1983. A visão do ser amado é ponto de partida de Um certo alguém, feita para o álbum O ritmo do momento (1983), de Lulu Santos.

Sorte, o primeiro grande sucesso de Ronaldo com Celso Fonseca, era o ponto fora da curva e hit de rádio do sofisticado álbum Bem-Bom (1985), que Gal Costa gravou em dueto com Caetano Veloso. Do animado Manual prático para festas, bailes e afins, vol.1 (1997), em que Ed Motta procurava voltar ao pique dançante do início de carreira, saiu Vendaval, sobre um fim de caso mais do que tradicional.

Da safra mais radiofônica de Stevie Wonder surgiu Lately, transformada em Nada mais, aqui na versão mais energizada de Sandra de Sá. Imortalizada por Beto Guedes no disco Viagem das mãos (1984), a versão de Till there was you, sucesso dos Beatles composto por Meredith Wilson, soa mais sofisticada, principalmente pelo belo arranjo de Wagner Tiso. Outro clássico de Beto, Meu ninho, música de Wagner e Ronaldo, ganhou versão que une Simone ao Roupa Nova.

O gigante gentil Erasmo Carlos soa como crooner de música lenta em Recordação (Ed Wilson/Ronaldo Bastos), de 1987. Feita para a trilha da novela Renascer, em 1993, Dois corações (André Sperling/Ronaldo Bastos) coloca Nana Caymmi em situação semelhante, assim como Fafá de Belém em Coração aprendiz (Erich Bulling/Ronaldo Bastos) com seus versos de folhetim do SBT: “O princípio do prazer é tão simples de entender/ para quem tem coração aprendiz”.

Talvez a faixa mais marcante, que consegue ser romântica sem parecer datada ou brega, seja Noites com sol, nome do disco lançado por Flávio Venturini em 1994. Por sua vez, Sei de cor (Celso Fonseca/Ronaldo Bastos) representa a MPB atemporal que Bethânia simboliza bem. Gravada no disco Dezembros (1986), ganhou arranjo e o violão de um certo Toninho Horta garantindo harmonia ao drama romântico.

Viver é fácil - Ana Clara Brante

"Viver é fácil" Às vésperas de festejar seus 100 anos, a intelectual Elza de Moura exige mais atenção à educação e à cultura. Discípula de Helena Antipoff, ela diz que a escola pode salvar o país


Ana Clara Brant
Estado de Minas: 11/01/2015




Elza de Moura guarda o retrato da mestra Helena Antipoff em sua biblioteca, no Santa Efigênia (Beto Novaes/EM/D.A Press)
Elza de Moura guarda o retrato da mestra Helena Antipoff em sua biblioteca, no Santa Efigênia


Num casarão da Rua Tenente Anastácio de Moura, antiga Rua Rio das Velhas, no Bairro Santa Efigênia, a professora, musicista, cientista e regente Elza de Moura vive desde que nasceu. Em agosto, ela vai completar 100 anos. Elza é a única colaboradora viva da pedagoga russa Helena Antipoff, que revolucionou a educação mineira a partir dos anos 1930.


Cheia de saúde e disposição, Elza conta que a rua onde mora leva o nome do pai, militar morto com apenas 42 anos, durante a Revolução de 1932. Nascida numa época em que as mulheres, quando muito, só podiam ser professoras, ela se formou no grupo Henrique Diniz. Em seguida, o tenente Anastácio a matriculou na Escola Normal Modelo, onde hoje está o Instituto de Educação, que preparava moças para o magistério. “Papai nem me perguntou se queria ser professora, mas acertou. Fiz um curso maravilhoso”, recorda.

Diretora de colégio durante 25 anos, a professora lamenta a forma como o ensino brasileiro degringolou – palavra dela – e critica os atuais cursos de pedagogia. “Há um erro tremendo neles. Gente que nunca viu uma sala de aula vai fazer pedagogia e depois se gaba de ser muito importante, mas não é. Não sabem nada, está tudo tão teórico. De vez em quando dou palestras para alunos da Universidade Federal de Minas Gerais e a gente vê aquelas moças que trabalham o dia todo chegando à noite na sala, comendo sanduíche. A que horas elas vão ter cultura? Quando vão estudar? Deveriam modificar a legislação. Não condeno quem trabalha e estuda, mas essas pessoas deveriam dedicar pelo menos um dia da semana à literatura e à cultura dentro do próprio estabelecimento de ensino”, sugere.

Elza credita sua formação aos educadores com quem conviveu: Abgar Renault (que chegou a ministro da Educação e da Cultura), Mário Campos e, claro, Helena Antipoff. As duas se conheceram em meados dos anos 1940. “Dona Helena aplicou uma psicologia completamente diferente daquela que a gente via e ouvia por aí. Ela não adotava livro, mas colocava as alunas em situações de descoberta. Um dia, perguntou: ‘Sabe quantos degraus as senhoras sobem aqui na escola?’. Ninguém sabia. Essas coisas que escapam da gente, as coisas miúdas, transformam-se em grandes. Ela nos colocava em situações de pensamento, de observação”, relembra.

A pedagoga russa se interessou por alunos e docentes da roça, criando uma escola rural em Ibirité, na Região Metropolitana de BH, o famoso Complexo Educacional Fazenda do Rosário. Elza foi uma das ex-alunas convidadas para lecionar lá. Era professora de canto. “A Escola Normal Rural foi uma coisa extraordinária. Dona Helena tinha visão. As meninas vinham de escolas fracas da zona rural, mas passavam por baterias de testes e dona Helena sempre acertava na hora de selecioná-las. As moças tinham acesso à formação completa antes de se tornar professoras”, acrescenta.

Elza diz que nunca teve fama de brava, mas se irrita com a falta de interesse e a ignorância. Ela tem se decepcionado com boa parte das crianças e dos jovens do século 21. “A educação brasileira está no fundo do poço. Precisamos de bons educadores, de mil Helenas Antipoffs, de mil Abgares Renault, mil Mários Casasantas. Dona Helena costumava dizer: quando tudo está perdido, existe a escola. É uma grande verdade”, reitera.

ÓPERA A música teve papel especial na trajetória de Elza. Influenciada pelo pai, que tocava vários instrumentos, desde menina ela ouviu o que havia de melhor. Estudou canto e piano, regeu corais, chegou a cantar ópera ao lado da Orquestra Sinfônica da Polícia Militar. “O piano já foi muito útil, mas virou objeto de decoração. Não tenho tempo para estudar. Dou palestras, escrevo artigos, cuido da casa e, há pouco tempo, fiz um curso de cinema. E olha que sou aposentada, hein?”, conta.

Ela não abre mão das reuniões mensais da Arcádia de Minas Gerais. Nessa academia de letras, artes e ciências humanas, que funciona no Edifício Maletta, médicos, escritores, advogados, arquitetos e pintores se encontram para debater os mais variados assuntos. Elza publicou livros de ciências para as crianças, além de ensaios sobre literatura, música e educação.
A mestra não planeja nada de especial para 4 de agosto, quando vai completar um século de vida. Está pensando até em fugir para o Mato Grosso, onde moram os sobrinhos. “Isso é uma tremenda bobagem. Todo dia é dia de aniversário, é mais um dia de vida”, diz. A professora não se casou. “Tenho mais de mil filhos. São os meus ex-alunos, que até hoje me procuram”, explica. E diz não ter segredos para chegar tão bem aos 100 anos. “Trabalhei no que gosto, defino a hora para almoçar, jantar, dormir e o que comer. Essa coisa de falar que isso e aquilo fazem mal é bobagem. Adoro torresmo e coisas gordurentas, tomo uma latinha de cerveja de vez em quando. A maioria das pessoas acha que velho só pensa em doença. Eu não. Discuto filosofia e literatura. Viver é fácil”, conclui.

Minha madrinha

Affonso Romano de Sant’Anna

“Meu pai, Jorge Sant’Anna, e o pai de Elza, o tenente Anastácio de Moura, eram oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais, vizinhos em Santa Efigênia. Tornaram-se amigos, por isso a escolha da Elza como minha madrinha. Desde menino, ela me mandava livros, cartões nos aniversários e sempre esteve presente. Todas as semanas ligo para ela. Nos anos 1960, morei com a Elza e foi um período ótimo na minha vida. Ela desenvolvia seu trabalho na mítica Fazenda do Rosário com dona Helena Antipoff, que conheci. Minha madrinha é uma pessoa única, extremamente generosa, meio renascentista, com uma cultura impressionante. Sabe tudo de música, de ópera, e, curiosamente, nunca viajou para fora do país. Até hoje é uma pessoa extremamente ativa. Dá palestras, participa de encontros e não para em casa. Elza de Moura é a última sobrevivente de uma época que, infelizmente, não existe mais, e de toda uma geração que revolucionou a educação em Minas Gerais.”


A PIONEIRA

A psicóloga e pedagoga russa Helena Antipoff se mudou para o Brasil em 1929, a convite do governo de Minas Gerais. Na época, articulava-se a Reforma Francisco Campos/Mário Casasanta, que revolucionou o ensino do estado. Pesquisadora atenta à criança portadora de deficiência, foi pioneira na introdução da educação especial no Brasil. Ela fundou a primeira Sociedade Pestalozzi.
A Fundação Helena Antipoff, com sede em Ibirité, na Grande BH, dá prosseguimento às suas ideias.