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| O ator, compositor, cantor e escritor mineiro Grande Otelo, que morreu em 1993, em Paris |
Alguns
vão se lembrar dele em Macunaíma (1969), filme de Joaquim Pedro de
Andrade, em que interpretou o papel-título, do herói sem nenhum caráter;
outros do Eustáquio, o ingênuo e divertido personagem da Escolinha do
Professor Raimundo e seu inesquecível bordão, ‘‘Aqui. Que queres?’’
(atualmente no ar no Canal Viva). Os mais antigos, da inesquecível
parceria com Oscarito nas comédias dos anos 1940 e 1950.
O poeta e
compositor Vinicius de Moraes chegou a considerá-lo o melhor ator
brasileiro, que tinha ‘uma bossa fantástica para representar’. O
cineasta norte-americano Orson Welles, que o queria levar para os
Estados Unidos, foi mais longe e o tachou de o maior ator da América do
Sul. Já Chico Anysio afirmou que ele foi a primeira figura importante a
lhe dar força e a primeira com quem trabalhou num teatro.
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Realmente
ele foi grande, e não é à toa que leva o termo até no seu pseudônimo
artístico. O ator, comediante, cantor, escritor e compositor mineiro
Sebastião Bernardes de Souza Prata, o Grande Otelo, completaria um
século de vida em 2015. Mesmo 22 anos depois de sua morte, está presente
no imaginário das pessoas. O jornalista e crítico musical Sérgio
Cabral, autor de Grande Otelo, uma biografia, escrita a partir do
arquivo pessoal do artista, acredita que ele jamais poderá ser
esquecido, não só pelo talento genial, mas pelo papel que exerceu no
fortalecimento do cinema e dos espetáculos brasileiros.
“Tenho
Grande Otelo na conta de um personagem de imenso destaque na história da
cultura brasileira, como um cidadão de origem modesta, negro, feio, que
venceu tranquilamente todos os preconceitos para se transformar numa
figura indispensável na história da cultura popular do Brasil”, diz o
biógrafo.
Primogênito do ator, que teve cinco filhos, Carlos
Sebastião Vasconcelos Prata, de 59 anos, conhecido como Grande Otelo
Filho Prata, revela que fica impressionado como a todo momento é
abordado nas ruas por gente que admira a carreira do pai. “Realmente o
tempo dele passou, mas papai ainda está vivo na memória de muitos, mesmo
de quem não o conheceu. Até jovens na faixa dos 12, 13 anos vêm falar
comigo. A internet é um instrumento que facilita muito nesse sentido, e a
reprise de programas como a Escolinha do Professor Raimundo também
ajudou bastante nessa retomada e divulgação”, comenta.
No ano do
centenário de seu nascimento – que será celebrado em 18 de outubro –,
estão programadas atividades não só para lembrar o momento, como também
para resgatar a memória do uberlandense.
A primeira grande
homenagem estava prevista para ontem, na Marquês de Sapucaí, no Rio de
Janeiro, com a escola de samba Santa Cruz, do grupo de acesso, que
escolheu o enredo O pequeno menino que se tornou Grande Otelo. “Mesmo
sem patrocínio, nossa agremiação decidiu prestar este tributo, mostrando
toda a história do Otelo, desde o início de sua carreira, quando foi
embora de Minas para São Paulo com um circo, o sucesso nos cassinos, no
cinema e no teatro. Contamos com o apoio da comunidade e também da
família”, diz um dos carnavalescos da escola, Munir Nicolau.
Nicolau
diz que “Grande Otelo é admirável porque veio de uma família humilde e
virou um astro”. Segundo o carnavalesco, as pesquisas sobre a vida do
homenageado revelaram “coisas muito interessantes, como ele ser um
poliglota que aprendeu sozinho a falar vários idiomas”.
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| Grande Otelo com Chico Anysio, nos anos 1970; ambos trabalharam juntos no teatro |
Fundação
Outra plano para comemorar os 100 anos é a criação de uma sede física
para a Fundação Grande Otelo, que atualmente é detentora dos direitos
sobre o nome, imagem, obra e acervo do ator e compositor. O projeto é
encabeçado por Grande Otelo Filho. “A ideia é não só a perpetuação e a
divulgação da memória, do trabalho e da vida do maior artista negro do
nosso país, mas que seja um espaço para trabalhar a arte e a formação de
artistas também. Ainda quero fazer um documentário sobre meu pai e já
até fiz o convite para o Daniel Filho”, diz.
Para os fãs e
admiradores do eterno Macunaíma, uma parte do acervo e de informações
sobre ele está disponível no site www.ctac.gov.br/otelo. O material
catalogado foi fundamental para o conteúdo do Projeto 90 anos de Grande
Otelo, com o patrocínio da Petrobras, fornecendo informações inéditas
sobre o ator para a biografia do escritor Sérgio Cabral.
Entre as
raridades que podem ser conferidas, encontra-se uma carta escrita para o
filho mais velho, em março de 1993. O primogênito considera o texto uma
espécie de despedida, já que Grande Otelo faleceu, vítima de um
infarto, em Paris, em novembro daquele ano. “Eu morava em Manaus, então,
a gente ficou muito tempo sem se ver. Naquele ano, não o vi, e acho que
esta carta era um adeus. Ele me falava de legado, das responsabilidades
que eu deveria assumir”, recorda.
Num dos trechos, Otelo
escreve: ‘‘Desejo que tua família esteja na paz do Senhor, que é quem
rege nossos destinos. O legado que você deve carregar e os teus, até o
fim da vida, é um legado muito difícil, eu sei, mas o que é que vamos
fazer senão cumprir a vontade do Senhor’’. E encerra com um abraço,
assinando como Sebastião Prata: ‘‘Parei, acendi um cigarro (não posso
fumar, mas o cigarro é Free e só quando fico nervoso ou preocupado...).
Continuando com este final, devo te dizer que, pelo menos, para nós e
alguns outros, a liberdade é uma utopia. Somos todos escravos das
obrigações assumidas e dos deveres. Um abraço do teu pai, para os teus e
até qualquer dia…’’
“Papai era meu grande amigo, confidente e
sinto muitas saudades. Ele foi um crioulinho irrequieto, que não parava e
sempre estava criando algo. Foi assim desde menino. E tinha aquela
coisa do mineiro, de ficar quieto, de gostar de observar. Era um ser
único.”
Samba-enredo da Santa CruzO pequeno menino que
se tornou Grande Otelo Menino pequeno sim
Gigante em seu caminhar
Sem eira, nem beira, venceu as barreiras
Correu pelo mundo pra se libertar
Em Uberlândia, a pele negra, ama a branca
Palhaço na arte seguiu no compasso
Tambores da fé, o samba no passo da vida
Um boêmio apaixonado, revista
Nesse teatro iluminado
No Cassino da Urca uma pequena notávelAo tê-lo de novo vou cantar
Otelo “o grande” legado popular
O verso indolente abraça a rima
Herói dessa gente é Macunaíma
Ôôôô
Mais um sucesso da Atlântida
Das ondas do rádio à televisão
A vida imita a arte então
Eustáquio que queres moleque
Os louros da fama, o dia de graça
És prata da noite, a estrela negra
Talento, exemplo da raça
No seu centenário o povo te abraça
Se você está feliz
Dá um grito, vem comigo e cai no samba
Com Grande Otelo eu vou, que emoção
A Santa Cruz é dona do meu coraçãoTrês perguntas para...Sérgio Cabral
jornalista, escritor, crítico musical e biógrafo de Grande Otelo
O que mais lhe chamou a atenção na trajetória de Grande Otelo?Basta
imaginar a época, tão pouco tempo depois da abolição da escravidão,
para não deixar de se impressionar com as façanhas de um negro,
baixinho, que venceu todos os preconceitos usando apenas o seu talento.
Tenho Grande Otelo na conta de um personagem brasileiro que marcou a sua
biografia pela capacidade de, apenas com o talento, vencer todos os
preconceitos que apareceram.
Quais as diferenças entre o Sebastião Prata e o Grande Otelo?Sebastião
Prata sofreu muito, mas Grande Otelo não parecia ser atingido nem mesmo
pelas tragédias. Não sei se Grande Otelo e Sebastião Prata faziam algum
esforço para se separar. Desconfio que eles mesmos se confundiram
muitas vezes.
Como define Grande Otelo?Tenho
Grande Otelo na conta de um grande cidadão brasileiro, um exemplo para
todos nós. Era um brasileiro exemplar. É realmente difícil imaginar que
aquele negro baixinho, apenas com o seu talento, tenha derrotado todos
os preconceitos, numa época em que os preconceitos pareciam
permanentemente vitoriosos.
Relação com a cidade é de atração e repulsa
Orgulho pela fama do filho ilustre não
impede manifestações de preconceito racial e de desdém pela origem
humilde do artista, que escolheu ser sepultado em sua terra natal
Ana Clara Brant/Enviada especial
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| Grande Otelo, em imagem de 1957, quando Uberlândia ensaia projeção nacional usando a figura do ator de rádio e TV |
Uberlândia
– Quando Grande Otelo nasceu, no começo do século 20, em Uberlândia, no
Triângulo Mineiro, a cidade ainda se chamava São Pedro do Uberabinha.
Filho da empregada doméstica Maria Abadia de Souza e de Francisco
Bernardo da Costa, conhecido como Chico dos Prata por ser empregado da
fazenda da família Prata, segundo a biografia de Sérgio Cabral,
Sebastião Bernardes de Souza Prata teria ido embora de sua terra natal
ainda menino.
O Circo Serrano, de São Paulo, estava na cidade,
quando convidou o garoto para participar de um espetáculo. Isabel e
Abigail Parecis, mãe e filha e responsáveis pela companhia, gostaram
tanto dele que pediram à sua mãe para adotá-lo. Otelo foi entregue a
elas e levado para a capital paulista.
O biógrafo afirma que o
artista mineiro sempre falava de Uberlândia com afeto, porém não pôde
estar tantas vezes lá como gostaria. O filho Carlos Sebastião diz que o
pai nunca se esqueceu de sua origem e esboçou desejo de morar lá nos
últimos anos de vida, o que acabou não se concretizando. “Mas
conseguimos atender sua vontade de ser enterrado na cidade natal. Ele
tinha orgulho de lá”, diz seu primogênito.
Além do mausoléu com
os restos mortais de Sebastião Prata e de um busto seu em uma das
principais praças da cidade, a Tubal Vilela, hoje Uberlândia abriga uma
creche, uma rua e um teatro com o nome do artista.
Mas o teatro
está fechado e é alvo de um imbróglio judicial. O secretário de Cultura
de Uberlândia, Gilberto Neves, afirma que a administração anterior quis
derrubar a construção. No entanto, o Ministério Público embargou o
prédio. “Há dois anos, o município tentar reaver a posse para
reconstruir o teatro. Temos um projeto que quer não só reformá-lo, mas
transformá-lo num memorial e num cinema”, diz o secretário.
A
prefeitura da cidade planeja uma série de atividades para o segundo
semestre em comemoração ao centenário de nascimento de um dos seus
filhos mais ilustres. Além de reaver e reconstruir o teatro, a ideia é
realizar mostra de filmes, de cartazes e fotos, um concurso de redação
em escolas com direito à premiação, o lançamento de uma revista sobre o
artista e ainda encomendar uma escultura em tamanho natural de Otelo.
“Como
não temos muitos recursos, estamos tentando captar, em parceria com a
Fundação Rádio e Televisão Educativa da Universidade Federal de
Uberlândia (UFU), via lei de incentivo”, afirma Neves.
Conflito
Mas a relação de Grande Otelo com Uberlândia não foi livre de
conflitos. O historiador Tadeu Pereira dos Santos, doutorando em
história pela UFU, tem realizado pesquisa nas áreas de cidade, memória e
biografia. Desde 2002, analisa a trajetória do ator, compositor e
comediante, sobretudo sua ligação com a terra natal e com o racismo.
Tadeu
define como conflituoso o relacionamento do artista com a cidade pelo
fato de uma parte da população local ser extremamente elitista e
conservadora. Sebastião Prata deixou Uberlândia em 1925, como um ‘joão
ninguém’ e 20 anos depois, apareceu numa tela de cinema, protagonizando
Moleque Tião. “A partir daí, começa a despertar os olhares e interesses
da localidade. Uberlândia tenta trazer Grande Otelo e Linda Batista para
se apresentarem, mas o Cassino da Urca acaba barrando, por outros
compromissos. E então a imprensa e a opinião pública começam a tratá-lo
com desdém”, cita Santos.
O historiador acrescenta que, a partir
de 1956, há uma tentativa de projetar Uberlândia no cenário nacional, e a
figura de maior expressão da terra, naquele momento, é justamente um
artista negro e de origem humilde. “Então, é preciso justificar que esse
sujeito é daqui. Precisam enraizá-lo e mostrar que aqui é a terra do
Grande Otelo. Até 1970, há esse processo de namoro, de valorizar o
sujeito. Com isso aconteceram a inauguração do busto, a iniciativa de
batizar o teatro com o nome dele. Ficam nesse jogo o tempo todo. De
namoro e rompimento”, pontua.
Tentou-se vincular à cidade mineira
até o pseudônimo artístico de Grande Otelo, conforme diz Santos, já que
Sebastião Prata trabalhava na porta do Grande Hotel da cidade vendendo
jornais e convocando as pessoas para se hospedar lá e vivia gritando:
Grande hotel, Grande hotel.
“Uma das teorias sobre o apelido dele vem daí. A cidade reclama essa ‘paternidade’ e quer associá-lo à ela de qualquer jeito.”
Na
década de 1980, o conflito se aprofunda quando ocorre a campanha de
separação do Triângulo Mineiro, e Grande Otelo fica do lado de Minas
Gerais. “No fim da vida, ele expressou o desejo de morar em Uberlândia,
passar o restante da vida aqui. Mas quando decide ser enterrado na terra
natal, Otelo imputa à cidade essa coisa da preservação da sua memória.
No Rio, ele seria mais um. Agora, a cidade tem a obrigação de celebrar
esse centenário. Essa história dele com Uberlândia é como se fosse uma
fratura, algo que nunca se fecha”, resume o pesquisador.
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Fachada do teatro em Uberlândia que leva o nome do ator e está sob disputa judicial; prefeitura diz querer reformá-lo
Apelido é referência a Shakespeare
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| Busto de Grande Otelo instalado numa das principais praças de Uberlândia |
Embora
não se tenha uma confirmação exata do ano em que Grande Otelo nasceu,
devido a problemas de documentação, tudo leva a crer que Sebastião
Bernardes de Souza Prata nasceu no dia 18 de outubro de 1915, em São
Pedro do Uberabinha (hoje Uberlândia). Depois de se mudar para
São Paulo com uma companhia de circo, integra, nos anos 1920, a
Companhia Negra de Revistas, cujo maestro era Pixinguinha. Em
1932, entra para a Companhia Jardel Jércolis, do pai de Jardel Filho e
um dos pioneiros do teatro de revista. É lá que ganha o apelido de
Pequeno Otelo, pelo fato de saber declamar vários sonetos de
Shakespeare, mas ele prefere ‘The Great Otelo’. Depois, traduz a
expressão para o português, tornando-se Grande Otelo. Em 1935,
estreia no cinema, com o filme Noites cariocas. Seria o primeiro de
muitos títulos, como Moleque Tião, Macunaíma, Rio Zona Norte e Assalto
ao trem pagador. Nos anos 1940, já no Rio, começa a fazer shows nos
cassinos cariocas e também a compor músicas, como o célebre samba Praça
Onze, em parceria com o eterno amigo Herivelto Martins. Em 1949,
uma tragédia abala a vida do ator. Sua primeira mulher mata o filho
menor e suicida-se. Ele se casa novamente com Olga Vasconcelos de Souza,
com que tem mais quatro filhos, incluindo o ator José Pratinha. Nos
anos 1950, passa a trabalhar na rádio e na televisão. A partir dos anos
1960, Otelo é contratado da TV Globo, onde atuou em várias telenovelas
de sucesso, como Uma rosa com amor. Também trabalhou no humorístico
Escolinha do Professor Raimundo, nos anos 1990. Seu último
trabalho foi uma participação na telenovela Renascer, pouco antes de
morrer. Grande Otelo morreu em 1993, com 78 anos, de um ataque do
coração, quando viajava para Paris para uma homenagem que receberia no
Festival de Nantes.
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