ZERO HORA - 06/03/2013
Sempre
que chega essa época do ano, prometo a mim mesma: minhas próximas
férias serão tiradas em março. Vou alugar uma choupana em Ushuaia e só
volto quando pararem de falar no Dia da Mulher. Apenas para evitar a
pergunta que tantos pedem que a gente responda: “O que é ser mulher?”.
Basicamente,
ser mulher é ter nascido com os cromossomos XX. Será que isso responde à
questão? Responde, só que de modo desaforado. Espera-se que
colaboremos: “Ser mulher é ser mãe, esposa, profissional... ”. Alguém
ainda aguenta essa churumela?
Se é para refletir sobre o
assunto, então sejamos francos: ninguém mais sabe direito o que é ser
mulher. Sofremos uma descaracterização. Necessária, porém aflitiva.
Entramos no mercado de trabalho, passamos a ter liberdade sexual e
deixamos para ter filhos mais tarde, se calhar. Somos presidentes,
diretoras, empresárias, ministras. Sustentamos a casa. Escolhemos nossos
carros. Viajamos a serviço. Saímos à noite com as amigas. Praticamos
boxe. O que é ser mulher, nos perguntam. Pois, hoje, ser mulher é
praticamente ser um homem.
Nossa masculinização é um fato. Ok,
nenhuma mulher desistirá de tudo o que conquistou. A independência é um
ganho real para nós, para nossa família e para a sociedade. Saímos da
sombra e passamos a existir de forma plena. E o mundo se tornou mais
heterogêneo e democrático, mais dinâmico e produtivo, em suma: muito
mais interessante. Mas não nos deram nada de mão beijada, ganhamos
posições no grito, falando grosso. E agora está difícil reconhecer nossa
própria voz.
“Sou mais macho que muito homem” não é apenas o
verso de uma música de Rita Lee, é pensamento recorrente de cérebros
femininos. Alguém ainda conhece uma mulher reprimida, omissa, sem
opinião, sem pulso? Foram extintas e deram lugar às eloquentes.
Nada
de errado, repito. Acumulamos uma energia bivolt e isso tem nos trazido
inúmeros benefícios – deixamos de ser um simples acessório, nos
integralizamos. Mas essa nova mulher ainda se permitirá um segundinho de
“cuida de mim”? Se os homens estão se permitindo ser frágeis, por que
não nos permitimos também, nós que temos os royalties dessa condição?
É
no amor que a mulher recupera sua feminilidade. É na relação a dois. Na
autorização que dá a si mesma de se sentir cansada e de permitir que o
outro tome decisões e a surpreenda. É através do amor que voltamos a
confiar cegamente, a baixar a guarda e a deixar que nos seduzam – sem
considerar isso ofensivo. Muitas mulheres estão desistindo de investir
num relacionamento por se julgarem incapazes de jogar o jogo ancestral:
eu, provedor; você, minha fêmea.
Os homens sabem que já não
iremos nos contentar em receber mesada e ficar em casa guardando a
ninhada, mas, na intimidade, que tal deixarmos a testosterona e o
estrogênio interpretarem seus papéis convencionais?
Um amor sem
tanta racionalidade, sem demarcação de território, sem guerra pelo
poder. Amolecer de vez em quando, com entrega, com gosto. É onde ainda
podemos ressuscitar a mulher que fomos, sem prejuízo à mulher que somos.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Diário da Dilma - Em terra de saci, qualquer chute é voleio
REVISTA PIAUÍ > Edição 78 > Março de 2013
1º DE FEVEREIRO_Pelas bengalas do Mandela! Fui dar uma olhada na agenda do mês e meu queixo caiu: o Patriota vai me mandar para a Guiné Equatorial!! Capital, Malabo! MALABO!!! O que eu fiz para esse homem me tratar assim?!
2 DE FEVEREIRO_Pé de pato, mangalô, três vezes! É o terceiro telefonema da Ideli hoje. Não atendi nenhum. Ela está se insinuando para passar o Carnaval comigo na Bahia. Disse que está com medo de ir para Santa Catarina por causa dos ataques. Já expliquei que mando a Força Nacional para lá, que ela pode ir tranquila. Para me livrar dela, despacho até o 2º Exército, e ainda pe-ço ajuda à 4ª Frota americana.
3 DE FEVEREIRO_Em viagens internacionais, o Ney Latorraca faz a mala com dez dias de antecedência. É dessa eficiência que preciso.
4 DE FEVEREIRO_Risco de apagão, aumento da gasolina, polêmica em Belo Monte. Os deuses conspiram para me aproximar do Lobão.
Fui ao Show Rural de Cascavel, no Paraná. É isso que dá colocar Gleisi na Casa Civil.
5 DE FEVEREIRO_Gracinha me contou que vai sair na avenida. Fiz cara de paisagem. Precisa ter muito peito para sair na avenida depois dos resultados da Petrobras. Mas cada um com seu cada um. Se ao menos servir para ela prender aquele cabelo.
6 DE FEVEREIRO_Fiz uma sessão de cinema aqui em casa para os filhos e netos dos ministros. É como diz oconhecido ditado búlgaro: “Quem meus filhos agrada, minha boca adoça.” Uma gracinha de filme, Tainá. Eu adorei! Tarde fofa!
Coitado do Marco Aurélio. Foi operado do coração aqui em Brasília. É um destemido!
7 DE FEVEREIRO_Tá confirmado! Vou para a Bahia no Carnaval! A Base Naval de Aratu vai ficar pequena! Cara, caramba, cara, cara ô!
Brinquei que ia deixar a chave da Nação para o Rei Momo. Em oito minutos, apareceram dezessete parlamentares do PMDB sambando com uma coroa na cabeça. Em terra de saci, qualquer chute é voleio.
8 DE FEVEREIRO_Já está tudo arrumado para o nosso tradicional Baile do Toma Lá Dá Cá. Mamãe e titia arrumaram fantasias de Nina e Carminha. Gabrielzinho vai vestido de Pibinho. Se alguém aparecer com a máscara do Joaquim Barbosa, está demitido. Eu botei uns óculos escuros redondinhos, uma roupa branca, domei o topete e fiquei a cara do Psy. “Oppan Gangnam Style!”
10 DE FEVEREIRO_Estava dançando um frevo esperto quando vieram me dizer que o Lobão estava na linha. Fui pega de surpresa, tropecei e quebrei o dedão.
11 DE FEVEREIRO_De tédio é que eu não morro. O Gilbertinho me acorda cedo para dizer que o papa renunciou. Fiquei besta! Nunca tinha ouvido falar que papa podia renunciar. Não sei se devo me pronunciar. O que eu posso dizer? Vai com Deus, meu filho. Acho que não é esse o tom da coisa.
12 DE FEVEREIRO_Comecei a mascar chiclete. João Santana acha que me dá um ar menos intelectual, mais povão, com um toque de rebeldia.
13 DE FEVEREIRO_Tem coisa mais descolada que presidenta de Crocs vermelhos? Para melhorar, esse sapatinho furadinho, coisa fofa, não fica roçando no curativo que titia fez no meu dedão. Me apeguei.
14 DE FEVEREIRO_Aprendi, finalmente, a fazer bola com chiclete.
15 DE FEVEREIRO_Depois de tanto jornal repetir que o papa é pop, fiquei com a bela obra do Humberto Gessinger na cabeça. Hoje, num despacho com o Patriota, sapequei: “Minha vida é tão confusa quanto a América Central. Por isso não me acuse de ser irracional.” Disse que ia usar na próxima Assembleia Geral da ONU. Precisava ter fotografado a cara que ele fez.
Esse meteorito na Rússia só pode ser coisa do Zé Dirceu. O homem anda amargurado com a falta de apoio da KGB.
18 DE FEVEREIRO_A Ideli, que vive se fazendo de prestativa para provar que tem serventia, deu uma checada na Wikipédia e veio me dizer que existem três Guinés. Vão me mandar logo para a piorzinha delas! Nem português eles falam por lá. É espanhol! A princípio, pensei que fosse coisa do Joaquim Barbosa ou da Veja. Mas agora estou achando que foi o Temer mesmo. Ele deve estar doidinho para assumir logo essa porcaria e bem que se beneficiaria se eu pegasse uma boa malária. Onde estão os movimentos sociais que não saem em minha defesa? Ficam perdendo tempo com essa mala da Yoani, enquanto eu desapareço no coração das trevas?
19 DE FEVEREIRO_Vetei a pobreza extrema.
20 DE FEVEREIRO_Acordei às cinco da manhã e fiquei enrolando brigadeiro para a festa de 10 anos do PT. Lula disse que sou muito centralizadora. Mas será que a militância saberia deixar a borda crocante?
Malan fez 70 anos. Por que esses tucanos envelhecem tão bem? Será que são os bons vinhos? E eu aqui com o Guido, que a cada dia fica com mais cara de maître de restaurante de aeroporto.
21 DE FEVEREIRO_Estou atrás de um mapa para ver onde fica essa Guiné Equatorial. Preciso fazer a mala e nem sei o que levar. Equatorial deve ser um calor de fritar ovo no asfalto. Meu pé incha tanto com o calor...
22 DE FEVEREIRO_Isso aqui é feio como Canapi e quente feito Maceió. O presidente é dono até da carroça de cachorro-quente. Renanzinho ia se sentir em casa. Daqui vou para a Nigéria. Patriota não chega até a próxima reforma ministerial.
24 DE FEVEREIRO_Ufa. De volta para casa. Coisa boa! É domingão de Oscar! Comprei duas caixas de Guaraviton para não dormir e um potão de sorvete de pistache. Daqui não saio nem que me digam que o Lula se filiou ao PSDB. Já pus meu pijaminha de Les Mis para torcer pelo filme. Russell Crowe cantando à beira do abismo me comoveu demais.
25 DE FEVEREIRO_Sonhei que era a Yoani e estava no meio do Congresso da UNE. Os militantes mais exaltados já me atiravam tomos de O Capitalquando Lobão apareceu. Ele vestia a boina de Che Guevara e com um só grito calou a multidão. Amanheci estremecida.
26 DE FEVEREIRO_Ideli não confessa, mas anda torcendo pelo Berlusconi nos bastidores. O homem tascou um beliscão na Merkel que quase provocou a Terceira Guerra Mundial. Ideli identificou no gesto uma virilidade sensual que só tinha visto antes no Mitt Romney.
27 DE FEVEREIRO_É a terceira vez que digo para o Sarney que não tenho nenhuma influência no Vaticano. Affe.
FERNANDO BRANT » Três estações
A simplicidade é uma coisa
difícil de buscar e alcançar
Estado de Minas: 06/03/2013
Sonhei que estava indo para Maracangalha com o chapéu de palha, o “linforme” branco e a Anália de Dorival Caymmi. Acordei em Lisboa, com as meninas do Amaranto, flores amarelas do nosso sol, cantando coisas belas sobre o rio, o mar e a terra que amamos, regidos pelo talento de Geraldo Vianna. Fazia frio ou calor lá fora? A canção move o mundo, muitos dizem e o Ronaldo Bastos não deixa de insistir. Assim, estou aqui destilando palavras e notas na noite de Portugal. O que apresentamos é singelo, delicado, de adormecer as crianças e acordar as pessoas sensíveis.
A sociedade de massas está longe daqui, não cabe nesse ambiente reservado e cuidadoso que se criou em volta dos presentes. Há canto e poesia tomando conta do ambiente. A simplicidade é uma coisa difícil de buscar e alcançar. Findo o recital, os abraços e a alegria nos trazem de volta à realidade. Estamos na cidade dos portugueses e andamos por suas ruas, ainda há pouco recheadas de um povo que clama contra o arrocho financeiro imposto pelas autoridades da Europa. No ar, a certeza de que os cidadãos não contribuíram para o impasse econômico em que a região se encontra.
E me lembro bem do que pagamos, sem culpa, pela irresponsabilidade dos que lideraram o Brasil durante décadas. Coloco-me no lugar dos portugueses, sem me esquecer de que um vento de tempos antigos começa a soprar em nosso horizonte. Há um cheiro de passado e de resultados indesejáveis no que fazem os que estão à frente dos negócios públicos brasileiros. Mãos dadas com os portugas, que voltam a cantar Grandola, vila morena, pacificamente, enquanto caminham pela Avenida Liberdade, assusto-me, rapidamente, com a possibilidade de ter que fazer o mesmo num futuro próximo.
Mas que coisa, a vida; que coisa, o mundo. Depois de dias batalhando contra o ar pesado do condicionador do hotel, consegui uma maneira, mais fácil do que esperava, de abrir a minha janela para o mundo. As narinas e a garganta não suportavam mais o ar seco do quarto fechado para a natureza. Tentara várias vezes contornar o problema, zerando o ar que não era natural. Faltava o fresco do ar puro, que respiro agora na noite de Lisboa, contemplando seus movimentos e suas luzes depois de uma tarde estupenda com meus sobrinhos, Paula e Lucas, provisoriamente estudando na cidade.
Não sei se foi a alegria da tarde, o vinho do Douro ou o sono reparador que trouxe de volta a sabedoria adormecida, que possibilitou o estalo na mente deste mineiro eternamente amante de sua casa e de sua terra. Minhas janelas agora estão abertas, respiro com prazer o ar de Lisboa. Estou voltando.
Estado de Minas: 06/03/2013
Sonhei que estava indo para Maracangalha com o chapéu de palha, o “linforme” branco e a Anália de Dorival Caymmi. Acordei em Lisboa, com as meninas do Amaranto, flores amarelas do nosso sol, cantando coisas belas sobre o rio, o mar e a terra que amamos, regidos pelo talento de Geraldo Vianna. Fazia frio ou calor lá fora? A canção move o mundo, muitos dizem e o Ronaldo Bastos não deixa de insistir. Assim, estou aqui destilando palavras e notas na noite de Portugal. O que apresentamos é singelo, delicado, de adormecer as crianças e acordar as pessoas sensíveis.
A sociedade de massas está longe daqui, não cabe nesse ambiente reservado e cuidadoso que se criou em volta dos presentes. Há canto e poesia tomando conta do ambiente. A simplicidade é uma coisa difícil de buscar e alcançar. Findo o recital, os abraços e a alegria nos trazem de volta à realidade. Estamos na cidade dos portugueses e andamos por suas ruas, ainda há pouco recheadas de um povo que clama contra o arrocho financeiro imposto pelas autoridades da Europa. No ar, a certeza de que os cidadãos não contribuíram para o impasse econômico em que a região se encontra.
E me lembro bem do que pagamos, sem culpa, pela irresponsabilidade dos que lideraram o Brasil durante décadas. Coloco-me no lugar dos portugueses, sem me esquecer de que um vento de tempos antigos começa a soprar em nosso horizonte. Há um cheiro de passado e de resultados indesejáveis no que fazem os que estão à frente dos negócios públicos brasileiros. Mãos dadas com os portugas, que voltam a cantar Grandola, vila morena, pacificamente, enquanto caminham pela Avenida Liberdade, assusto-me, rapidamente, com a possibilidade de ter que fazer o mesmo num futuro próximo.
Mas que coisa, a vida; que coisa, o mundo. Depois de dias batalhando contra o ar pesado do condicionador do hotel, consegui uma maneira, mais fácil do que esperava, de abrir a minha janela para o mundo. As narinas e a garganta não suportavam mais o ar seco do quarto fechado para a natureza. Tentara várias vezes contornar o problema, zerando o ar que não era natural. Faltava o fresco do ar puro, que respiro agora na noite de Lisboa, contemplando seus movimentos e suas luzes depois de uma tarde estupenda com meus sobrinhos, Paula e Lucas, provisoriamente estudando na cidade.
Não sei se foi a alegria da tarde, o vinho do Douro ou o sono reparador que trouxe de volta a sabedoria adormecida, que possibilitou o estalo na mente deste mineiro eternamente amante de sua casa e de sua terra. Minhas janelas agora estão abertas, respiro com prazer o ar de Lisboa. Estou voltando.
Frei Betto-O véu da virtude
O ser humano padece de duas limitações intransponíveis: prazo de validade e defeito de fabricação
Frei Betto
Estado de Minas: 06/03/2013
Nos próximos dias, a Igreja Católica terá novo papa. Até que ele seja eleito, os cardeais de 48 países estão reunidos em Roma debatendo, com certeza, os motivos que levaram Bento XVI a renunciar. Para a opinião pública, um gesto corajoso de humildade, sobretudo nesses tempos em que muitos políticos se julgam imortais e não concebem viver fora do poder. É o caso de Berlusconi, na Itália, que de novo busca ser primeiro-ministro, e de tantos políticos aqui no Brasil, acostumados a lotear a República e a tratar ministros e chefes de autarquias indicados por eles assim como um latifundiário trata seus capatazes.
A Igreja é uma instituição de origem divina, mas formada por seres humanos que, a cada dia, devem orar “perdoai as nossas ofensas e não nos deixeis cair em tentação”. Mas caem, e provocam escândalos, como os sucessivos casos de pedofilia.
Quem conhece a história da Igreja sabe quantos abusos e crimes foram cometidos por ela em nome de Deus. Para citar apenas o caso do Brasil, durante o período colonial, bispos e padres se mostraram coniventes com a escravatura; a Inquisição caçou e cassou suspeitos, conduzidos daqui à prisão e à fogueira em Portugal; e a expressão “santo de pau oco” evoca o contrabando de ouro e diamante recheando as imagens devocionais levadas pelos clérigos ao exterior.
O ser humano padece de duas limitações intransponíveis: prazo de validade (todos haveremos de morrer) e defeito de fabricação (trafegamos entre luzes e sombras). É o que a Bíblia chama de pecado original. Ao transpor sua origem divina ao caráter da instituição, a Igreja comete o erro de tentar cobrir com o véu da virtude os frutos do pecado. Por que chamar o papa de Sua Santidade se até ele é pecador e roga pela misericórdia de Deus? Por que qualificar de “sagradas” as congregações do Vaticano que atuam como ministérios de uma monarquia absoluta?
Quanto maior a altura, maior o tombo. O véu da virtude rasgou-se diante dos escândalos de pedofilia mundo afora e, nesses dias, com a revelação da rede de prostituição que opera em Roma para oferecer serviços sexuais de seminaristas. Nada disso diminui o mérito de tantos membros da Igreja Católica que dão as suas vidas para que outros tenham vida, como é o caso dos bispos Pedro Casaldáliga, Paulo Evaristo Arns, José Maria Pires, e inúmeros padres e religiosos(as) que, despojados de ambições e conforto, se dedicam aos doentes, aos mais pobres, aos dependentes químicos, aos encarcerados.
O grave é a Igreja não se abrir ao debate às candentes questões que concernem à condição humana. “Nada do que é humano é estranho à Igreja”, dizia o papa Paulo VI. Infelizmente, não é verdade. Criou-se em torno da sexualidade uma espessa cortina fechada pelo cadeado do tabu e do preconceito.
Embora na prática o tema seja debatido no interior da instituição eclesiástica, a rigor está oficialmente proibido colocar em questão o celibato obrigatório; a ordenação de mulheres; o uso de preservativos para evitar Aids e outras doenças; a sexualidade por prazer (e não para procriar); o aborto em situações singulares; a união de homossexuais etc.
O novo papa não poderá fugir dessas questões, sob pena de ver a Igreja se esvaziar ou seguir convivendo com a hipocrisia de uma moral contida na doutrina em contradição com a moral vivida pelos fiéis. Além de despir-se do véu da virtude, a Igreja deveria se perguntar que sentido faz o papado proclamar que a Igreja não se mete em política e, no entanto, o Vaticano arvorar-se em Estado soberano, com representação na ONU e núncios como embaixadores em diversos países.
O papa merece ser apenas o pastor dos fiéis católicos, o bispo de Roma, que serve de parâmetro à comunhão universal na fé, e não um monarca absolutista com poderes de intervenção em todas as dioceses do mundo. O Concílio Vaticano II propôs à Igreja um governo colegiado, o que não foi implementado por Paulo VI nem aceito por João Paulo II e Bento XVI. A mosca azul parece picar também o papado. Essa “embriaguez da vitória”, como dizia Toynbee, fez com que a cegueira impedisse o pontífice de evitar a corrupção no banco do Vaticano; o vazamento de documentos sigilosos na Cúria Romana; a traição de seu mordomo; e tantos outros escândalos que, agora, arranham profundamente a imagem da Igreja.
Jesus não se fez acompanhar por um grupo de perfeitos ou santos. Pedro o negou, Tomé duvidou, Judas traiu, os filhos de Zebedeu ambicionaram o poder temporal. Nem eram todos castos e angélicos. No primeiro capitulo do evangelho de Marcos consta que Jesus curou a sogra de Pedro. Se tinha sogra é porque tinha mulher. Nem por isso deixou de ser indicado como líder da comunidade de apóstolos. Quem caminha sem salto alto tropeça menos. É hora de o papa calçar as sandálias do pescador, abdicar dos títulos honoríficos herdados do Império Romano e assumir, em colegiado com os cardeais de todo o mundo, o mais evangélico de todos os seus títulos: servo dos servos de Deus.
Frei Betto
Estado de Minas: 06/03/2013
Nos próximos dias, a Igreja Católica terá novo papa. Até que ele seja eleito, os cardeais de 48 países estão reunidos em Roma debatendo, com certeza, os motivos que levaram Bento XVI a renunciar. Para a opinião pública, um gesto corajoso de humildade, sobretudo nesses tempos em que muitos políticos se julgam imortais e não concebem viver fora do poder. É o caso de Berlusconi, na Itália, que de novo busca ser primeiro-ministro, e de tantos políticos aqui no Brasil, acostumados a lotear a República e a tratar ministros e chefes de autarquias indicados por eles assim como um latifundiário trata seus capatazes.
A Igreja é uma instituição de origem divina, mas formada por seres humanos que, a cada dia, devem orar “perdoai as nossas ofensas e não nos deixeis cair em tentação”. Mas caem, e provocam escândalos, como os sucessivos casos de pedofilia.
Quem conhece a história da Igreja sabe quantos abusos e crimes foram cometidos por ela em nome de Deus. Para citar apenas o caso do Brasil, durante o período colonial, bispos e padres se mostraram coniventes com a escravatura; a Inquisição caçou e cassou suspeitos, conduzidos daqui à prisão e à fogueira em Portugal; e a expressão “santo de pau oco” evoca o contrabando de ouro e diamante recheando as imagens devocionais levadas pelos clérigos ao exterior.
O ser humano padece de duas limitações intransponíveis: prazo de validade (todos haveremos de morrer) e defeito de fabricação (trafegamos entre luzes e sombras). É o que a Bíblia chama de pecado original. Ao transpor sua origem divina ao caráter da instituição, a Igreja comete o erro de tentar cobrir com o véu da virtude os frutos do pecado. Por que chamar o papa de Sua Santidade se até ele é pecador e roga pela misericórdia de Deus? Por que qualificar de “sagradas” as congregações do Vaticano que atuam como ministérios de uma monarquia absoluta?
Quanto maior a altura, maior o tombo. O véu da virtude rasgou-se diante dos escândalos de pedofilia mundo afora e, nesses dias, com a revelação da rede de prostituição que opera em Roma para oferecer serviços sexuais de seminaristas. Nada disso diminui o mérito de tantos membros da Igreja Católica que dão as suas vidas para que outros tenham vida, como é o caso dos bispos Pedro Casaldáliga, Paulo Evaristo Arns, José Maria Pires, e inúmeros padres e religiosos(as) que, despojados de ambições e conforto, se dedicam aos doentes, aos mais pobres, aos dependentes químicos, aos encarcerados.
O grave é a Igreja não se abrir ao debate às candentes questões que concernem à condição humana. “Nada do que é humano é estranho à Igreja”, dizia o papa Paulo VI. Infelizmente, não é verdade. Criou-se em torno da sexualidade uma espessa cortina fechada pelo cadeado do tabu e do preconceito.
Embora na prática o tema seja debatido no interior da instituição eclesiástica, a rigor está oficialmente proibido colocar em questão o celibato obrigatório; a ordenação de mulheres; o uso de preservativos para evitar Aids e outras doenças; a sexualidade por prazer (e não para procriar); o aborto em situações singulares; a união de homossexuais etc.
O novo papa não poderá fugir dessas questões, sob pena de ver a Igreja se esvaziar ou seguir convivendo com a hipocrisia de uma moral contida na doutrina em contradição com a moral vivida pelos fiéis. Além de despir-se do véu da virtude, a Igreja deveria se perguntar que sentido faz o papado proclamar que a Igreja não se mete em política e, no entanto, o Vaticano arvorar-se em Estado soberano, com representação na ONU e núncios como embaixadores em diversos países.
O papa merece ser apenas o pastor dos fiéis católicos, o bispo de Roma, que serve de parâmetro à comunhão universal na fé, e não um monarca absolutista com poderes de intervenção em todas as dioceses do mundo. O Concílio Vaticano II propôs à Igreja um governo colegiado, o que não foi implementado por Paulo VI nem aceito por João Paulo II e Bento XVI. A mosca azul parece picar também o papado. Essa “embriaguez da vitória”, como dizia Toynbee, fez com que a cegueira impedisse o pontífice de evitar a corrupção no banco do Vaticano; o vazamento de documentos sigilosos na Cúria Romana; a traição de seu mordomo; e tantos outros escândalos que, agora, arranham profundamente a imagem da Igreja.
Jesus não se fez acompanhar por um grupo de perfeitos ou santos. Pedro o negou, Tomé duvidou, Judas traiu, os filhos de Zebedeu ambicionaram o poder temporal. Nem eram todos castos e angélicos. No primeiro capitulo do evangelho de Marcos consta que Jesus curou a sogra de Pedro. Se tinha sogra é porque tinha mulher. Nem por isso deixou de ser indicado como líder da comunidade de apóstolos. Quem caminha sem salto alto tropeça menos. É hora de o papa calçar as sandálias do pescador, abdicar dos títulos honoríficos herdados do Império Romano e assumir, em colegiado com os cardeais de todo o mundo, o mais evangélico de todos os seus títulos: servo dos servos de Deus.
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