Zero Hora - 18/09/2013
Sei de uma moça que, aos 30 anos, trabalhava numa empresa e foi
promovida a um cargo de direção. De índio passou a cacique, e todos os
seus colegas a cumprimentaram, mas a partir dali começava sua despedida
da profissão que escolhera: logo percebeu que não sabia mandar.
Sentia-se constrangida com a liderança concedida. Não tinha voz firme
para ordenar isso ou aquilo, para lidar com subordinados. Descobriu que
estar no topo de uma hierarquia não era para o bico dela. Então, juntou
seus pertences e saiu pela porta, dando adeus ao emprego e encerrando
uma carreira que havia sido promissora até ali.
Mudou radicalmente de vida: virou colunista de jornal, passou a
trabalhar em casa e viveu feliz para sempre até semana passada, quando
leu uma reportagem sobre o lançamento de um novo smartphone que funciona
com comando de voz. Ela não é fanática por gadgets, não tem smartphone,
só um celularzinho mequetrefe, mas sabe que a tecnologia avança
rapidamente para esse novo modelo de acessibilidade: em breve não será
preciso mais nem tocar nos telefones. Bastará ordenar: “Ligar para
Mariana” ou “navegar para o aeroporto Salgado Filho”.
Em casa, a mesma coisa: “Acender a luz”. “Apagar a tevê.” “Água quente.” “Mais quente.” “Menos.” “Mais.” “Perfeito, obrigada.”
No carro: “Abrir a porta”. “Ligar o rádio.” “Arrancar.” “Frear, frear!”.
Está nascendo uma nova geração de líderes. Aos dois anos de idade, a
criança já estará dando ordens aos objetos, falando com lâmpadas,
chuveiros, geladeiras, notebooks. Aparelhos reconhecerão o nosso timbre
vocal. Assim é que vai ser.
A tal moça, que já dava como superada a questão de não saber mandar,
está ficando preocupada. Lá vem o problema da hierarquia outra vez. Ela
é alérgica a autoridade. Tocar levemente nos objetos para que funcionem
sempre lhe pareceu eficiente e educado. Até com o marido dá certo:
basta um toquezinho no seu braço e ele acorda, ele para de falar alto,
ele diminui a velocidade, ele presta atenção em quem entrou na sala. Com
os objetos, a mesma coisa. Interruptores, teclas, trincos, torneiras,
controles remotos – um toque com os dedos, e eles fazem sua parte sem
que ela precise dizer nada. A vida funcionando num silêncio respeitoso.
Porém, em breve, ela terá que falar sozinha como se fosse maluca.
“Acender.” “Apagar.” “Abrir.” “Trocar de faixa.” “Fechar as cortinas.”
“Programar despertador.” Ela espera que não seja tão rápido. Talvez
leve, sei lá, uns 10 anos para a rotina do ser humano entrar nessa
esquizofrenia, mas no fundo ela já entendeu que não há como lutar contra
o progresso – ou ela adere, ou junta seus pertences e, de novo, procura
a porta de saída.
Hoje, no comando de voz, o senhor Celso de Mello. Ao decidir se cabe
reexaminar as acusações contra os mensaleiros, ele poderá inaugurar uma
nova era no país ou manter a impunidade e a desesperança de virmos a
ser, um dia, uma nação respeitada. Basta que ele diga “Não”. Cruzemos os
dedos.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
CARAS E BOCAS » Para não perder
Estado de Minas: 18/09/2013
Parecia um filme. O primeiro capítulo de Joia rara (Globo), sem nenhum exagero, foi coisa de cinema. As chamadas da trama de Duca Rachid e Thelma Guedes, que estreou anteontem em substituição a Flor do Caribe, davam pistas do tratamento diferenciado que já caracteriza o trabalho de direção da dupla Ricardo Waddington, diretor de núcleo, e Amora Mautner, diretora- geral. Eles bebem mesmo nas águas da sétima arte e o resultado repetiu o impacto de outras novelas conduzidas pela dupla, Cordel encantado, das mesmas autoras, e Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro.
As imagens iniciais do Himalaia e sua beleza atraíram o telespectador de cara. O ritmo de cinema dita as próximas cenas. Impossível não acompanhar a escalada de Franz (Bruno Gagliasso), o mocinho, e sua turma rumo ao topo. Depois, uma sabotagem logo identifica o vilão: Manfred, vivido por Carmo Dalla Vecchia, corta a corda com que Franz vai fazer a descida. E ele despenca. Uma avalanche, em seguida, faz duas vítimas e os protagonistas se salvam sem saber um do outro. Franz vai parar em um mosteiro budista e Manfred logo está de volta à casa, no Rio de Janeiro. É o ano de 1934.
Franz tem o seu primeiro encontro com o líder espiritual do templo, Ananda (Nelson Xavier). E ali vê muitas de suas crenças caírem por terra. No Rio, as imagens, agora escuras, fazem sentido: afinal, a fotografia quer retratar o Rio antigo e seu passado. Ernest (José de Abreu), pai de Franz, acredita que o filho querido morreu. Dono de uma fábrica de joias, comunica aos funcionários que agora quem vai dirigir os negócios é Manfred, que ninguém sabe tratar-se de seu filho bastardo. Mas o rapaz e sua mãe Gertrude, a como sempre impecável Ana Lúcia Torre, comemoram. Na fábrica, em tom mais escuro ainda, já se desenha quem são os líderes dos operários: Mundo (Domingos Montagner) e Toni (Thiago Lacerda). Um homem quase morre e eles questionam a falta de assistência do patrão. Também está na luta a mocinha, Amélia, personagem de Bianca Bin, que decide tirar satisfações com o dono da fábrica. Corta. Franz, recuperado, chega ao Brasil, para alegria da família. Menos de Manfred, claro. No caminho de volta à casa, ele e o pai são surpreendidos por, Amélia, que, debaixo de chuva, tenta ser ouvida, já despertando a atenção do jovem.
Quando o seu carro a atinge e ela vai parar no chão, Franz a socorre. Ela se levanta e vai embora. Mas ele a chama pelo nome. Amélia era o objeto da paixão de um dos rapazes que morreram no Himalaia e havia mostrado uma foto dela para Franz. Começa aí a história de amor dos protagonistas. Joia rara deu mostras de trazer uma boa trama, um elenco de peso – Marcos Caruso como Arlindo, dono de um cabaré, já mostrou a que veio –, apelo cinematográfico e ritmo dinâmico. A abertura é linda, embalada pela faixa Joia rara, cantada por Gilberto Gil, retratando os principais acontecimentos da novela.
Assim como foi em Cordel encantado. Aliás, no geral, a trilha é primorosa.Como cinema, parece uma ótima novela. Que venham os próximos capítulos.
HEIDI KLUM CURTE PREMIAÇÃO INÉDITA
A top model Heidi Klum recebeu um Emmy, premiação dos melhores da TV, realizada, no domingo, em Los Angeles, nos Estados Unidos. A cerimônia distribuiu os prêmios técnicos, o Creative Arts Emmy Awards. Ela levou como Melhor apresentadora. Heidi comanda o reality show Project runaway.
É FILHO DE QUEM?
Pois é, Niko (Thiago Fragoso) não sabe, mas o filho que carregará nos braços, em breve, no salto em que Amor à vida (Globo) dará no tempo, é fruto de uma transa entre seu companheiro, Eron (Marcello Antony), e sua melhor amiga, Amarilys (Danielle Winits), a barriga de aluguel que ele mesmo encomendou.
E como ela não conseguirá ficar longe da criança, os dois viverão às turras sobre a educação do menino,
batizado de Fabrício. Quando ela o repreender por excesso de mimo, ele rebaterá que não a quer censurando-o na criação do filho. Mas Amarilys dirá que por ser mulher entende melhor do assunto. Pronto: o bate-boca é inflamado e Eron é chamado para apaziguar os ânimos. Imagine, quando Niko souber quem é a verdadeira mãe de Fabrício.
VIVA
Sophie Charlotte, que segura muito bem as cenas densas e emotivas ao extremo de Amora, em Sangue bom (Globo).
VAIA
Excesso de Joia rara em outras atrações da Globo, como Globo repórter e Encontro com Fátima Bernardes.
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| Nelson Xavier interpreta o líder espiritual budista Ananda, em Joia rara |
Parecia um filme. O primeiro capítulo de Joia rara (Globo), sem nenhum exagero, foi coisa de cinema. As chamadas da trama de Duca Rachid e Thelma Guedes, que estreou anteontem em substituição a Flor do Caribe, davam pistas do tratamento diferenciado que já caracteriza o trabalho de direção da dupla Ricardo Waddington, diretor de núcleo, e Amora Mautner, diretora- geral. Eles bebem mesmo nas águas da sétima arte e o resultado repetiu o impacto de outras novelas conduzidas pela dupla, Cordel encantado, das mesmas autoras, e Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro.
As imagens iniciais do Himalaia e sua beleza atraíram o telespectador de cara. O ritmo de cinema dita as próximas cenas. Impossível não acompanhar a escalada de Franz (Bruno Gagliasso), o mocinho, e sua turma rumo ao topo. Depois, uma sabotagem logo identifica o vilão: Manfred, vivido por Carmo Dalla Vecchia, corta a corda com que Franz vai fazer a descida. E ele despenca. Uma avalanche, em seguida, faz duas vítimas e os protagonistas se salvam sem saber um do outro. Franz vai parar em um mosteiro budista e Manfred logo está de volta à casa, no Rio de Janeiro. É o ano de 1934.
Franz tem o seu primeiro encontro com o líder espiritual do templo, Ananda (Nelson Xavier). E ali vê muitas de suas crenças caírem por terra. No Rio, as imagens, agora escuras, fazem sentido: afinal, a fotografia quer retratar o Rio antigo e seu passado. Ernest (José de Abreu), pai de Franz, acredita que o filho querido morreu. Dono de uma fábrica de joias, comunica aos funcionários que agora quem vai dirigir os negócios é Manfred, que ninguém sabe tratar-se de seu filho bastardo. Mas o rapaz e sua mãe Gertrude, a como sempre impecável Ana Lúcia Torre, comemoram. Na fábrica, em tom mais escuro ainda, já se desenha quem são os líderes dos operários: Mundo (Domingos Montagner) e Toni (Thiago Lacerda). Um homem quase morre e eles questionam a falta de assistência do patrão. Também está na luta a mocinha, Amélia, personagem de Bianca Bin, que decide tirar satisfações com o dono da fábrica. Corta. Franz, recuperado, chega ao Brasil, para alegria da família. Menos de Manfred, claro. No caminho de volta à casa, ele e o pai são surpreendidos por, Amélia, que, debaixo de chuva, tenta ser ouvida, já despertando a atenção do jovem.
Quando o seu carro a atinge e ela vai parar no chão, Franz a socorre. Ela se levanta e vai embora. Mas ele a chama pelo nome. Amélia era o objeto da paixão de um dos rapazes que morreram no Himalaia e havia mostrado uma foto dela para Franz. Começa aí a história de amor dos protagonistas. Joia rara deu mostras de trazer uma boa trama, um elenco de peso – Marcos Caruso como Arlindo, dono de um cabaré, já mostrou a que veio –, apelo cinematográfico e ritmo dinâmico. A abertura é linda, embalada pela faixa Joia rara, cantada por Gilberto Gil, retratando os principais acontecimentos da novela.
Assim como foi em Cordel encantado. Aliás, no geral, a trilha é primorosa.Como cinema, parece uma ótima novela. Que venham os próximos capítulos.
HEIDI KLUM CURTE PREMIAÇÃO INÉDITA
A top model Heidi Klum recebeu um Emmy, premiação dos melhores da TV, realizada, no domingo, em Los Angeles, nos Estados Unidos. A cerimônia distribuiu os prêmios técnicos, o Creative Arts Emmy Awards. Ela levou como Melhor apresentadora. Heidi comanda o reality show Project runaway.
É FILHO DE QUEM?
Pois é, Niko (Thiago Fragoso) não sabe, mas o filho que carregará nos braços, em breve, no salto em que Amor à vida (Globo) dará no tempo, é fruto de uma transa entre seu companheiro, Eron (Marcello Antony), e sua melhor amiga, Amarilys (Danielle Winits), a barriga de aluguel que ele mesmo encomendou.
E como ela não conseguirá ficar longe da criança, os dois viverão às turras sobre a educação do menino,
batizado de Fabrício. Quando ela o repreender por excesso de mimo, ele rebaterá que não a quer censurando-o na criação do filho. Mas Amarilys dirá que por ser mulher entende melhor do assunto. Pronto: o bate-boca é inflamado e Eron é chamado para apaziguar os ânimos. Imagine, quando Niko souber quem é a verdadeira mãe de Fabrício.
VIVA
Sophie Charlotte, que segura muito bem as cenas densas e emotivas ao extremo de Amora, em Sangue bom (Globo).
VAIA
Excesso de Joia rara em outras atrações da Globo, como Globo repórter e Encontro com Fátima Bernardes.
Tv Paga
Estado de Minas: 18/09/2013
Esquadrão da moda?
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O Discovery Home & Health estreia hoje, às 22h, o programa Laboratório de estilo, produção brasileira que a cada semana vai transformar o visual de uma participante, a partir da orientação de especialistas – na foto, da esquerda para a direita, Chris Francini, Felipe Montanari, Paula Ferrary (em pé), Sadi Consanti e Paula Martins (sentados). Ou seja, vão dar dicas acessíveis de moda, cabelo e maquiagem. Formatos semelhantes já existem em outras emissoras, então é algo a conferir.
Canal Nat Geo dá bonsexemplos de cidadania
Novidade também no Nat Geo, com mais uma temporada de Vivendo positivamente, série que documenta histórias de verdadeiros heróis que trabalham todos os dias para fazer do mundo um lugar melhor, em áreas do Brasil, Colômbia, Equador, Honduras, México, Paraguai, Peru e Uruguai. Entre os cineastas convidados a conduzir as gravações, o mexicano Gustavo Loza, o argentino Carlos Sorín e a brasileira Kátia Lund, além do ator chileno Gonzalo Valenzuela, estreando no papel de diretor. No ar às 19h.
Yoná Magalhães fala da carreira em Damas da TV
Grande nome do teatro, cinema e televisão, Yoná Magalhães é a convidada do programa Damas da TV desta noite, às 21h, no Canal Viva. Outra atração interessante é a série Enciclopédia do samba, às 18h45, no Canal Brasil, hoje com Neguinho da Beija-Flor. E às 21h30, no SescTV, a série Artes visuais apresenta um especial sobre a 2ª Bienal Internacional Graffiti Fine Art, realizada em 2012 no MuBE (Museu Brasileiro da Escultura), em São Paulo.
Continua a festa dos 15 anos do Canal Brasil
A festa dos 15 anos do Canal Brasil será coroada hoje com o anúncio do vencedor do 8º Grande Prêmio Canal Brasil de Curtas-Metragens. Ainda hoje será aberta uma seleção de filmes coproduzidos pelo canal, começando com Loki – Arnaldo Baptista, às 22h. A mostra continua com Canções do exílio, a labareda que lambeu tudo (amanhã), Waldick – Sempre no meu coração
(sexta-feira), Dzi Croquettes (sábado) e Rock Brasília – Era de ouro (domingo).
Muitas alternativas na programação de filmes
Outro destaque de hoje é a Mostra internacional de cinema da Cultura, também às 22h, com o filme Encontro com o passado, produção francesa dirigida por Marina de Van e estrelada por Sophie Marceau e Monica Bellucci. Na mesma faixa das 22h, o assinante tem mais 10 opções: Escola de rock, no Studio Universal; A lenda do tesouro perdido – Livro dos segredos, no Space; 88 minutos, no ID; A. I. – Inteligência artificial, na MGM; Amizade colorida, na HBO Plus;
O artista, na HBO; 007 – Operação Skyfall, no Telecine Premium; Valente, no Telecine Pipoca; Gigantes de aço, no Telecine Action; e Febre do rato, no Telecine Cult. Outras atrações do pacotão de filmes: Irmãos de sangue, às 19h40, no Telecine Cult; Laranja mecânica, às 21h, no Cinemax; A vida é bela, às 21h30, no Arte 1; Lutador de rua, às 21h45, no Megapix; e A volta da família Sol, Lá, Si, Dó, às 23h, no Comedy Central.
FERNANDO BRANT » O tempo não passa
Minha jornada é lenta e me socorro da capacidade de pensar a vida e o mundo
Estado de Minas: 18/09/2013
Estado de Minas: 18/09/2013
Gostei muito de um
texto que li nos jornais, de autoria de Carlos Heitor Cony. Para ele,
os ministros novos do Supremo, que não participaram do julgamento do
mensalão e agora querem influir em suas consequências, estariam
emendando um soneto que não escreveram. Esse e outros escritos
frequentam meu olhar enquanto curto um período de repouso forçado em
casa. Ao contrário do que cantava o Cazuza, “o tempo não para”, o meu
escorre devagar, manso, gota a gota. Não me sinto um observador de
ampulheta exatamente porque busco preencher meus dias com leituras,
noticiários repetidos de tevê e jogos de futebol. Vejo todas as séries,
de todos os lugares, todos os esportes.
Mesmo assim minha jornada é lenta e me socorro da capacidade de pensar a vida e o mundo. Qualquer estímulo exterior me atiça. E a mente surpreende com ideias, algumas sensatas e outras malucas. É comum do ser humano. Desço para o quintal e me vejo me inebriando com o canto de uma sabiá, que me comove, mas incomoda uma paulistana que reclama que a fêmea do passarinho ensina seus filhotes a cantar na madrugada da metrópole. Ela o faz naquela hora para não atrair os predadores, mas a mulher urbana se desespera com a aula de cantar. Reclama que não dorme.
Agora me vejo a contemplar pequenos insetos que caminham pelo chão do terreiro. De onde vieram, para onde vão? Quanto tempo de vida têm, se não forem pisados por algum sapato distraído? O sol está quente, a piscina azulzinha e não posso mergulhar meu corpo nela, pelo menos por uns dois meses, penso, quando o calor da primavera estiver habitando o nosso cotidiano.
Uma pequena folha de papel chama a minha atenção. É uma anotação que fiz para algum escrito: abaixo qualquer ditadura. Temos de reconhecer que para muita gente ditadura só é ruim se é comandada por forças de uma ideologia diferente da sua. Quando os seus companheiros é que oprimem o povo, não há problema. Os fins justificam os meios e o que se quer é o bem futuro de todos. A história está cansada de dizer que não é bem assim: tudo de bom para os comandantes e seus aliados e masmorra para quem não concordar com eles. Tenho nojo de ditaduras e ditadores.
Outro lembrete solto no papel: quem precisa ser controlado é o governo. Os governos não têm o direito de controlar nossa liberdade. Os cidadãos é que devem controlar os governantes.
Mesmo assim minha jornada é lenta e me socorro da capacidade de pensar a vida e o mundo. Qualquer estímulo exterior me atiça. E a mente surpreende com ideias, algumas sensatas e outras malucas. É comum do ser humano. Desço para o quintal e me vejo me inebriando com o canto de uma sabiá, que me comove, mas incomoda uma paulistana que reclama que a fêmea do passarinho ensina seus filhotes a cantar na madrugada da metrópole. Ela o faz naquela hora para não atrair os predadores, mas a mulher urbana se desespera com a aula de cantar. Reclama que não dorme.
Agora me vejo a contemplar pequenos insetos que caminham pelo chão do terreiro. De onde vieram, para onde vão? Quanto tempo de vida têm, se não forem pisados por algum sapato distraído? O sol está quente, a piscina azulzinha e não posso mergulhar meu corpo nela, pelo menos por uns dois meses, penso, quando o calor da primavera estiver habitando o nosso cotidiano.
Uma pequena folha de papel chama a minha atenção. É uma anotação que fiz para algum escrito: abaixo qualquer ditadura. Temos de reconhecer que para muita gente ditadura só é ruim se é comandada por forças de uma ideologia diferente da sua. Quando os seus companheiros é que oprimem o povo, não há problema. Os fins justificam os meios e o que se quer é o bem futuro de todos. A história está cansada de dizer que não é bem assim: tudo de bom para os comandantes e seus aliados e masmorra para quem não concordar com eles. Tenho nojo de ditaduras e ditadores.
Outro lembrete solto no papel: quem precisa ser controlado é o governo. Os governos não têm o direito de controlar nossa liberdade. Os cidadãos é que devem controlar os governantes.
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