sábado, 16 de novembro de 2013

José Miguel Wisnik

José Miguel Wisnik

Itamar

Como todo grande cancionista, Itamar Assumpção é um amante da sílaba

O Iº Encontro de Estudos do Canto e da Canção Popular, na Unicamp, me fez pensar em Itamar Assumpção e a canção paulista, nesse momento em que Zélia Duncan, que lançou o CD “Tudo esclarecido”, com músicas de Itamar, lança o DVD do seu show-monólogo tecido com as canções de Luiz Tatit. Itamar tinha o desejo de fazer sucesso, ao mesmo tempo em que parecia fazer tudo para impedi-lo, como se provocasse e testasse, compulsivamente, a si e as leis do mundo e do mercado musical. Essa era apenas uma das suas ricas complexidades e apenas um dos seus complexos. Os arranjos de suas canções, em seus discos, são muitas vezes sobrecarregados, excessivos, ou em desequilíbrio inquieto, tanto dando força quanto obscurecendo as canções. O “Tudo esclarecido” de Zélia funciona como uma lâmina comparativa, em formato pop, que contribui para ouvir com transparência certas propriedades internas a elas, mesmo que atenuando muito do que elas têm de sombrio.
“Na sala numa fruteira/ a natureza está morta/ laranjas maçãs e peras/ bananas figos de cera/ decoram a noite torta”. “Noite torta” é uma canção sobre a separação amorosa, como tantas que existem. Mas só Itamar enuncia esse cortejo de frutas mortas que se abate sobre a mesa da cozinha como uma cifra lutuosa da ausência de alguém, que se faz sentir de repente ali. Contribui para isso o uso sutil do verbo estar. “A natureza está morta”, isto é, a natureza morta (como chamamos o arranjo decorativo de frutas, agravado pelo fato de serem artificiais) ficou morta com a partida de alguém. Vida morta ao cubo: a irônica morte da natureza morta, destituída do sentido compartilhado. Mais do que semântica, a questão em Itamar é sempre prosódica, porque a enumeração das frutas, feita em pulso regular, como todo o resto, e numa melodia altamente comprimida, faz saltarem em destaque as menores variações acentuais, como acontece na palavra “maçãs”, no caso acima. Sei que é difícil explicar para quem não ouviu, mas a questão é que as sílabas ficam oscilando como partículas em suspensão e em colisão.
Por isso mesmo Itamar, cantando, sabia instaurar uma frase repetida que, a partir daí, parecia ficar dançando no ar, sozinha. É que esse negro paulista e paranaense, morador da Penha, em São Paulo, sem o auxílio fusional do samba, tem que ir ao âmago do suingue que mora nas menores flutuações dos acentos dos ritmos e dos sentidos das palavras. É um suingue decantado e que se dá num plano minimal e total. “Sozinha nessa cozinha/ em pé eu tomo um café/ na pia, a louça suja/ me lembra da roupa suja/ no tanque que a vida é”. A metáfora — a vida é um tanque de roupa suja — fica muito mais rente ao real com esse festival de oxítonas que de repente se instala na canção: “no tanque que a vida é”, rimando rebarbativamente com “em pé eu tomo um café”. Aqui, a natureza está (morta), e a vida, sem saída e amputada de adereços, é. São modulações semânticas e prosódicas, no caso, dessa propriedade particular da língua portuguesa, de distinguir, como poucas, o ser e o estar, e fazer isso com um sutil corte rítmico. Não por caso uma outra canção de Itamar, em parceria com Alice Ruiz, diz com gosto: “É de estarrecer: estar e ser, em inglês, é a mesma coisa”.
“Enquanto penso nela/ observo o sol por detrás da serra/ e daquela singela capela/ bem da janela da sala de espera/ desta bela tarde lilás amarela”. Nessa outra canção, “Enquanto penso nela”, a obsessiva lembrança de alguém, pontuada pela reiteração rítmica, é deslocada para a paisagem, na qual certas palavras saltam à frente, movidas por suas simples propriedades acentuais, como “singela” e “lilás”. “Observo o mar marejar a terra/ escaravelhos velhas caravelas/ sou sentinela de um barco à vela/ nesta bela tarde lilás amarela”.
Em Itamar Assumpção a canção é uma questão de escansão: o suingue interno às defasagens entre o pulso métrico da música e o impulso do acento verbal. Como todo grande cancionista, ele é um amante da sílaba. E deu-lhe status de rainha, bordejando o vazio e o tanque de roupa suja da vida, de uma maneira única. Gostaria de comparar aqui, contrastando, com a poética pan-etonímica da sensibilidade em rede de Arnaldo Antunes, também única. E com a decantação irônica das sílabas no próprio Luiz Tatit (com quem terei a honra de me apresentar hoje, no Espaço Tom Jobim, no contexto do Festival Villa-Lobos).
Mas não deu. Um exemplo ainda da gaia ciência de Itamar. Quando morreu o amigo e parceiro Paulo Leminski, Itamar, chamado a dar seu depoimento, declarou à “Folha de S.Paulo”: “Leminski, aqui é Beleléu. Não fui no teu enterro, também não irás no meu. Estamos quites, adeus”.


João Paulo - Revolta permanente‏

João Paulo

Estado de Minas: 16/11/2013 



Em junho o povo mostrou nas ruas quem manda. É bom não esquecer (Christopher Simon/AFP)
Em junho o povo mostrou nas ruas quem manda. É bom não esquecer

Este mês o mundo celebra o centenário do argelino Albert Camus (1913-1960), que se tornou mundialmente conhecido pelo romance O estrangeiro. Próximo ao grupo dos existencialistas que davam as cartas na intelectualidade europeia, Camus romperia com Sartre e sua turma em razão de divergências políticas. Enquanto o filósofo se firmava em suas posições comunistas, alinhadas com a União Soviética, o escritor argelino passou a desconfiar dos descaminhos soviéticos e se tornou defensor de um senso de revolta mais individual, quase metafísico.

No começo dos anos 1950, Camus publica o livro O homem revoltado, que marca o rompimento definitivo com Sartre. Com o olhar de hoje, pode-se dizer que Camus acertou na história, enquanto Sartre reinava na ideologia. Como se vê, a política é menor que a história e deve seu pedágio ao tempo. O livro de Camus pode ser lido ainda hoje com proveito. O comunismo soviético não existe mais. Que o senso de revolta tenha sido mais durável que a revolução é uma das boas lições que a história nos lega.

E é exatamente a revolta que hoje melhor define o sentido da política no mundo. A onda que se espalhou pelo planeta, mesmo sem saber, teve saudável inspiração camusiana. Com a desconfiança em torno das opções convencionais e do chamado realismo político – que não tem nada de real nem de político –, as pessoas foram às ruas para exigir novo patamar de representação, participação e competência na gestão do Estado.

No Brasil, a partir de junho, o que se viu foi exatamente um ultrapassamento do Estado pela sociedade. Se as táticas e estratégias habituais da esquerda apontavam a conquista do poder como estágio final, a partir do qual se estabeleceriam as bases de um novo arranjo de forças, hoje se sabe que questionar o poder é a tarefa por excelência da esquerda. Não apenas o poder conservador, mas todo tipo de poder. Enquanto os políticos tradicionais se digladiavam apontando a falha nos outros, o cidadão repudiou todos eles. O sistema político perdeu prestígio enquanto a política assumia novos horizontes.

Durante a movimentação que tomou conta do Brasil, muito se escreveu nos jornais e blogs, os debates foram intensos em várias instâncias, as teorias se esforçavam para dar conta da novidade. Entender o que se passava nas ruas não era apenas uma exigência da razão, mas um caminho para desdobrar a revolta em ações consequentes. Tudo que a teoria política, a história e a sociologia haviam ensinado até então parecia se desmanchar no gás lacrimogêneo.

Passados alguns meses, o fruto desse intenso trabalho de inteligência – em meio a muita burrice e má-fé – fez surgir as primeiras sínteses sobre as chamadas revoltas de junho. Alimentadas pela cobertura jornalística tradicional, mas vitaminada pelas novas mídias e canais militantes, o período já pode ser hoje compreendido e debatido em novas bases. Mais que aclarar um momento histórico rico, os estudos parecem abrir um novo período temporal na história recente brasileira. Essa é a inspiração dos estudos mais consistentes que estão chegando ao leitor.

Em movimento Livro que merece destaque nesse cenário é Imobilismo em movimento – Da abertura democrática ao governo Dilma, de Marcos Nobre (Editora Companhia das Letras). Professor de filosofia da Unicamp, Marcos Nobre havia sido um dos primeiros a lançar um olhar de profundidade sobre as revoltas de junho com o estudo Choque de democracia, as razões da revolta, publicado em formato de livro eletrônico no calor da hora. Seu novo trabalho, que acaba de ser lançado, mostra que havia um substrato para a análise, um estudo prévio que permitiu enquadrar as revoltas num esquema mais profundo de interpretação.

Marcos Nobre estuda um período muito recente, os últimos 30 anos, que parecem ter ficado entre parênteses em razão de interesses ideológicos. Como havia um inimigo comum, da ditadura militar aos governos neoliberais, o sistema político em si ficou blindado de críticas e intervenções mais corajosas dos analistas. Em outras palavras, o Brasil assumiu um perfil que o autor chama de “pemedebismo”, que pode ser resumido como a política do balcão de negócios, das alianças espúrias em nome da governabilidade, do moralismo de resultados.

Não se trata de uma crítica de um partido específico, o PMDB (que merece todas as críticas), mas de uma cultura que permite, por exemplo, que sua ética (ou falta de ética) se torne hegemônica no sistema político. Para viabilizar um governo, ainda que bem-intencionado (ou mesmo exatamente por ser bem-intencionado), valeria a pena sujar a mão no toma lá dá cá que escreve a história da maioria das legendas de aluguel que definem a política nacional?

É nesse cenário que se inscreve a interpretação das revoltas de junho. Em sua originalidade, fora dos padrões tradicionais de mobilização e distantes da cooptação pemedebista (inclusive a encastelada no Estado), o movimento das ruas explode o sistema político para impor nova agenda e nova relação entre a sociedade e o Estado. A democracia se enraizou na vida cotidiana. Não é um acaso que tenham sido os preços e a qualidade dos serviços o estopim de tudo. Nesse novo contexto, é tão importante o poder estatal como a gestão eficiente dos serviços devidos ao público. Não se aceita mais barganhar um pelo outro.

Outro livro que qualifica o debate é As ruas e a democracia, de Marco Aurélio Nogueira (Editora Contraponto e Fundação Astrojildo Pereira). Entre a análise de conjuntura e o esforço teórico, Marco Aurélio também sustenta suas observações num esquema histórico mais amplo. Ele explica que a crise não foi fruto de um acaso nem surgiu de repente, tendo germinado ao longo do tempo em razão de ações políticas específicas. Não se pode, lembra o autor, esquecer a insatisfação popular pela mediocridade da gestão, nem a revolta sempre renovada contra a corrupção do sistema.

Marco Aurélio reforça o fato de as revoltas terem se dado sob governos petistas, em razão da reprodução das bases de clientelismo, patrimonialismo e corrupção que o partido tanto criticou e com as quais passa a conviver. Mesmo reconhecendo as mudanças na sociedade brasileira, com o combate à miséria, a distribuição de renda e a incorporação de grandes parcelas da população no mundo do consumo e da legalidade trabalhista, nem por isso se estabeleceu um pacto que fosse leniente com os desvios e a incompetência em tocar a máquina e oferecer serviços de qualidade.

O pesquisador capta o surgimento de uma nova politicidade, de novas relações que tiraram a política da letargia e colocaram em desconfiança os modelos habituais de formação de consensos. Mudou a sociedade, a comunicação, as relações sociais. Mesmo com baixo poder de agenda, as ruas se firmam como uma espécie de inconsciente político em repouso, pronto para emergir à consciência e se rearticular em bandeiras específicas. A tarefa de dar consistência e continuidade à revolta ficou exatamente para a parte menos nobre do jogo: os partidos. O que fica claro é que a reforma política por si não resolve. As ruas pedem outra política.

Ano que vem tem eleição, mas antes tem Copa do Mundo. Um bom teste para a memória política das revoltas de junho. Um boicote seria o ideal. Mas, se não for possível, vai ser muito bom atrapalhar como for possível a festa pobre para a qual não fomos convidados, mas cuja conta estamos pagando.

O tempo não para - Mozahir Salomão Bruck

O tempo não para 
 
Um elemento a mais no jogo sem fim da memória e da verdade, as biografias ocupam espaço em permanente mutação entre a ciência e a arte, a lenda e o registro, o conhecimento e a imaginação 
 
Mozahir Salomão Bruck

Estado de Minas: 16/11/2013


Para a romancista Virginia Woolf, diferentemente do poeta, o biógrafo seria obrigado a aceitar em última instância o curso de uma vida real (Gisele Freund/Reuters  )
Para a romancista Virginia Woolf, diferentemente do poeta, o biógrafo seria obrigado a aceitar em última instância o curso de uma vida real

Exclusiva coincidência, passei a dedicar parte de meus estudos às biografias em 2003, mesmo ano em que teve início a vigência, no Brasil, do então novo Código Civil, que acolheu a polêmica proibição de publicação de biografias não autorizadas. Ou, para melhor entendimento, a exigência de permissão dos biografados (ou de seus herdeiros) para que as histórias de suas vidas possam ser contadas. Nesses pouco mais de 10 anos, confesso que nunca tinha visto a mídia e outras instâncias da sociedade dar tanto espaço e importância ao tema “biografias”. A recolha de Roberto Carlos em detalhes (Editora Planeta), em 2007, por determinação da Justiça, acatando pedido do cantor, foi, salvo melhor juízo, o momento mais intenso de discussões. Mas mesmo diante da gravidade da medida restritiva, o debate foi curto e deixou de fora o cerne da discussão que agora eclodiu: o direito à liberdade de expressão.

Ao que tudo indica, a discussão ganhou força neste momento por evidenciar um conflito de direitos não equacionável: o da liberdade de expressão colocado em contraponto ao direito à privacidade. Essa junção de artistas do Procure Saber reivindica, em sua plenitude, este último: o de decidir quando, quem e como suas trajetórias de vida serão contadas. Entendem que se a vida lhes pertence, as narrativas sobre elas também lhes são de domínio exclusivo. Mas narrativas têm propriedade? Mesmo entendendo ser o âmbito da privacidade um direito fundamental, como desconhecer que o direito à liberdade de expressão é um direito absoluto e, por isso mesmo, impossível de ser relativizado, com autorizações prévias ou acordos e negociações?

A polêmica está matizada, pode-se dizer assim, por grupos de questões de naturezas distintas: sobre essencialidades de direitos, sobre detenção de propriedades autorais e também sobre as biografias. No debate atual, as biografias colocam-se, talvez, menos como o centro da questão – que, como já se disse, trata-se de um embate acerca de direitos conflitivos – e mais como um mote que apenas o patrocina.

O trabalho biográfico estabelece-se a partir de operações que diretamente tocam e são tocadas por questões e aspectos fundantes da experiência e do conhecimento humano: o ético, o estético, o epistemológico, o ideológico e o psicológico. O espaço e o tempo. Sendo uma narrativa de natureza memorialística, a biografia se institui a partir de uma relação tensa com o tempo. Tem o objetivo de impedir o progressivo apagamento de personagens e seus feitos, seus efeitos e, se for essa a perspectiva, seus defeitos – ou seja, em tudo aquilo que esses atores se dispuseram de maneira mais vital no mundo. É um jogo entre temporalidade e significação. Entre vida e morte. As significações de uma vida que se distancia no tempo e que tendem a reduções e condensações, fazendo com que o que delas persista não seja uma essência, mas uma fórmula, um espectro.

Mas talvez o que mais desponte nas biografias seja sua circunstância paradoxal. Sendo as biografias, em geral, marcadas, caracteristicamente, por uma contratação que busca se basear na verdade e na tentativa de reposição efetiva de fatos e circunstâncias de uma trajetória de vida, elas acabam sendo, no entanto, em função desta substância e essência, atiradas a uma zona de sombreada e não definida entre a ciência e a arte, entre a lenda e o registro científico, e entre o conhecimento e a imaginação.

Tal circunstância paradoxal da biografia – estar aquém e além de muitas das características das narrativas nos campos em que acaba por ser enquadrada, desde a história, o jornalismo até a literatura – faz com que esta acabe se tornando objeto de percepções e conceituações difusas por parte de teóricos e estudiosos e, mesmo, dos leitores em geral. François Dosse (Le pari biographique) a denominou de gênero impuro, em função exatamente dessa natureza imprecisa. Já Virginia Woolf (The art of biographie), que foi uma atenta estudiosa e crítica das biografias, percebia-as como o resultado do trabalho não de um artista, mas de um artífice.

Para Woolf, na ficção e na poesia, a imaginação do artista, na sua mais alta intensidade, acende o que é perecível em fato; e constrói com o que é durável. Já o biógrafo seria obrigado a aceitar o que é perecível, o curso de uma vida real – construir com ele, incrustá-lo bem no tecido de seu trabalho. Por isso, o biógrafo estaria mais para um artífice, e seu trabalho não seria uma obra de arte, mas algo intermediário e localizado entre ambos. Para a escritora, a arte da biografia – se é que se pode chamá-la assim – seria a mais restrita das artes, pois tem sua prova bem à mão. Ao contrário da arte efetiva, sua matéria-prima é tangível.

Proximidade Se há uma contraindicação para a feitura de uma biografia é a de que o biógrafo seja alguém muito próximo do biografado ou de seus familiares. Para autores como Janet Malcom (A mulher calada), o biógrafo deve ser um “inimigo” da família do biografado. A jornalista e pesquisadora norte-americana Malcom analisou cinco biografias sobre a vida da poetisa Sylvia Platt, que se suicidou em 1963. A atenção de Malcom se volta especialmente para uma das biografias, Bitterfame, elaborada por Anne Stevenson e lançada em 1989. Mesmo considerando-a, de longe, a melhor das cinco biografias, Malcom desmonta o trabalho de Stevenson, a começar pelo prefácio da obra, em que a biógrafa assinala: “Toda biografia de Sylvia Platt escrita enquanto seus familiares e amigos ainda estão vivos precisa levar em consideração a vulnerabilidade dessas pessoas, mesmo que sua abrangência possa sofrer com isso”.

Para Malcom, Stevenson estabeleceu com o viúvo de Platt, Ted Hughes, uma relação de proximidade e cooperação pouco indicada e que resultou num trabalho que optou por manter-se na superfície da densa vida da poetisa. “Levar em conta, protestou Malcom, a vulnerabilidade! Dar mostras de contrição! Poupar os sentimentos alheios! Deixar de avançar até onde for possível! O que essa mulher estará pensando? A tarefa do biógrafo é satisfazer a curiosidade dos leitores, e não demarcar seus limites. Sua obrigação é sair a campo e, na volta, entregar tudo – os segredos malévolos que ardiam em silêncio nos arquivos. [...] Os familiares são os inimigos naturais dos biógrafos”.

Aspectos diversos como as contratações estabelecidas pelo biógrafo, tanto em relação ao biografado quanto ao leitorado, e as ferramentas, critérios, caminhos e soluções de natureza técnica e estética de que se vale para construir suas biografias, acabam por revelar a percepção e intencionalidades que tem o autor em relação à obra biográfica. Quem teve a oportunidade de ler a biografia sobre Roberto Carlos, construída por Paulo César de Araújo, sabe muito bem que, por si só, o livro não daria motivos ao cantor para que se opusesse e trabalhasse para cassar a publicação. Muito pelo contrário: chega a incomodar na biografia a postura abertamente laudatória do biógrafo, um assumido fã do cantor.

Ou seja, tecnicamente – em termos do que se espera do trabalho de investigação e revelação do biógrafo – é uma biografia frágil. E isso é tão evidente que Paulo César de Araújo insere no texto passagens autobiográficas, que atestam sua admiração por Roberto Carlos. Nada disso fez com que o cantor de Esse cara sou eu! poupasse a biografia. Obteve a proibição na Justiça, valendo-se do disposto no Código Civil brasileiro. Como anunciou recentemente pela mídia, Roberto só aceitaria uma biografia sobre sua vida narrada por ele mesmo. E pondera: “Só eu poderia dar todos os detalhes do que vivi e senti nos momentos de minha vida”.

E promete contar tudo sobre o acidente com o trem, em que perdeu a perna direita – como se ainda houvesse o que ser contado. Quando da proibição do livro de Paulo César de Araújo, entre os inúmeros comentários que circularam, um dava conta de que a reação judicial do cantor tinha se dado em função de o biógrafo abordar o tema do acidente. Difícil acreditar. Paulo César de Araújo narra o fato com timidez, dedicando-lhe pouco mais de dois parágrafos. Como já se disse, é uma biografia frágil, escrita por um biógrafo tímido, sobre a vida de um biografado arrogante.

Por outro lado, seria ingenuidade imaginar que os desvios, inverdades ou imagens equivocadas sobre qualquer pessoa pública sejam, de modo prevalente, cristalizados pelas biografias. Tais narrativas podem, pelo contrário, contribuir para que se desfaçam mitos que foram construídos pela memória coletiva. Dê-se como exemplo a excelente biografia Estrela solitária (Companhia das Letras), sobre a vida de Garrincha – também alvo de ação judicial e escrita por Ruy Castro.

O biógrafo apresenta dados suficientes para desmontar a percepção que o senso comum – com efetivo apoio da imprensa – alardeou e cristalizou sobre Garrincha: a ideia de que o incrível craque de pernas tortas – que tanta alegria deu ao Brasil – foi “esquecido” por toda a nação, tendo morrido pobre e abandonado. Uma meia-verdade. Pobre sim, mas não abandonado. Garrincha nunca foi esquecido pelo povo e recebeu, dos amigos, efetivo e generoso apoio – moral e mesmo financeiro – para que tentasse escapar da bebida. Mas insistia em aplicar seus mais ousados dribles contra si mesmo.

As biografias são, enfim, apenas mais um elemento do infinito universo da memória, que se substancia de mitos, imaginações, crenças sem fundamento e, também, claro, verdades. Uma substância informe que se rearranja, se recicla e se reconfigura permanentemente. E que nos dá uma única certeza em relação ao passado: ele nunca está concluído.


Mozahir Salomão Bruck é pesquisador da PUC Minas.

Política vivida em público‏

Política vivida em público 
 
Ricardo Fabrino Mendonça e Márcia Maria Cruz

Estado de Minas: 16/11/2013


As recentes manifestações que tomaram as ruas de diversos países ajudaram a enterrar a velha hipótese de uma dissociação constitutiva entre “engajamento on-line” e “mobilização efetiva”. Não é possível (como nunca foi) operar com uma dicotomia entre um suposto ativismo de sofá e a concreta manifestação de grupos de interesse em ações tidas como reais. A internet, em sua diversidade de plataformas e modos de interação, perpassa a vida pública contemporânea, configurando-se não como mero instrumento de mobilização, mas como um dispositivo que atravessa a própria construção dos sujeitos, de suas ações e da sociedade em que se inserem.

Não há, pois, como distinguir claramente o que é específico da internet ou mesmo linhas unidirecionais de difusão – como se os protestos “saíssem” da internet para ganhar as ruas. Nem mesmo de uma circularidade entre rua e internet poderíamos falar, já que tal ideia partiria da premissa de que há duas entidades claramente distinguíveis: a rua e a internet. O que parece claro é que não há como separar rua e internet, o que ajuda a contestar a ideia de que o dito mundo on-line é palco de um ativismo cômodo, descompromissado e inócuo, diferentemente da voz do povo nas ruas.

Dito isso, podemos dar mais um passo e pensar algumas consequências das recentes manifestações brasileiras. Há quem defenda que elas acabaram por se dissolver sem deixar muitas consequências. Um olhar atento ao processo revela, todavia, que ele tem sido bastante revelador e transformador. Não estamos, aqui, restringindo as consequências das manifestações às conquistas no plano da política institucional, embora algumas mudanças formais tenham, de fato, ocorrido. Essa redução do sentido das manifestações a conquistas institucionais implicaria desconhecer a própria natureza das manifestações. Mesmo porque seria extremamente difícil avaliar as conquistas em comparação com as demandas, tendo em vista a frequente manifestação pública de reivindicações contraditórias.

Assim gostaríamos de chamar a atenção para três transformações que emergem no bojo das manifestações e que dizem: (1) das formas de algumas lutas contemporâneas; (2) dos conflitos e dilemas experimentados no Brasil atual; (3) do tipo de participação almejada.

(1) As manifestações contemporâneas chamam a atenção por suas características organizacionais, que abrem novas possibilidades para as lutas sociais. Não defendemos, com isso, que elas sejam inteiramente inovadoras em suas estruturas e formas. Mas há de se reconhecer que o conjunto da obra tem certas especificidades. Um ponto que chama a atenção na organização destes protestos é a existência de diferentes níveis organizacionais no interior de uma manifestação. Se há pessoas mobilizadas efemeramente por meio de redes sociais e encontros casuais, existem conjuntos mais organizados de ativistas em torno de grupos, coletivos, movimentos ou associações. Se isso pode parecer óbvio, a compreensão das relações dinâmicas entre esses dois níveis organizacionais não é nada banal. Há pontos de convergência e de tensão entre esses níveis, sendo que os desdobramentos das lutas dependem dessas relações. Por um lado, é interessante observar, por exemplo, como a presença pública de um grande volume de pessoas permite ações que não seriam possíveis de outra forma. Afinal, os ditos “coxinhas” podem prestar um serviço aos ativistas de longa data. Por outro lado, é este mesmo volume que pode levar a uma dispersão das reivindicações. Um segundo ponto sobre a natureza organizacional das manifestações está relacionado a um processo de personalização da participação, que foi bem analisado por Lance Bennett e Alexandra Segerberg.

(2) Para além da dinâmica organizacional de alguns conflitos contemporâneos, as manifestações são reveladoras de conflitos e dilemas experimentados pelo Brasil. Em primeiro lugar, a pulverização das demandas gera uma competição simbólica sobre a efetiva natureza dos protestos. Nessa competição, vieram à tona discursos tradicionalmente invisíveis, que demonstraram sua força e capilaridade. É o que se nota, por exemplo, nos cartazes que propõem o retorno dos militares ao poder. Em segundo lugar, e no sentido de tornar discursos existentes visíveis, observa-se que as manifestações fizeram aflorar as tensões existentes em um país que se diz consensual. No Brasil para inglês ver, não havia conflitos religiosos, nem entre direita e esquerda, assim como o Brasil de outrora já foi visto como uma democracia racial. Ao questionar o mito de um país consensual e capaz de acomodar diferenças, as manifestações contribuíram para a exposição de dilemas muito significativos com os quais se faz necessário lidar.

(3) Uma terceira mudança apreensível a partir das manifestações diz respeito ao tipo de democracia almejada por parcelas significativas da população. Pode-se, facilmente, argumentar os perigos de um sistema político sem partidos para afirmar que os protestos contemporâneos não apresentam uma alternativa concreta à forma como as democracias liberais estão institucionalizadas. No entanto, é possível ler a crítica aos partidos como uma defesa por formas de organização política que aproximem eleitores e representantes e que gerem novas formas de expressão e consideração das opiniões dos cidadãos. Essa defesa implica transformações nas organizações partidárias, nos processos eleitorais e, também, nas próprias instituições participativas existentes. Os protestos parecem apontar para a insuficiência de certas instituições participativas existentes, demandando formas de debate mais inclusivas, abertas, articuladas e empoderadas.

 A institucionalização informal desse anseio nas assembleias populares é forte indício desse desejo. A geração de diversos debates públicos historicamente silenciados (que vão do acesso à cidade até a reforma política, passando por questões de direitos humanos) também acena para o desejo de uma política construída e vivida em público.

Ricardo Fabrino Mendonça é professor adjunto do Departamento de Ciência Política da UFMG. Márcia Maria Cruz é jornalista.