domingo, 9 de março de 2014

Tecnologia disruptiva - Domingo Braile

sábado, 8 de março de 2014

TeVê

TV PAGA » Drama no baseball


Estado de Minas : 08/03/2014



 (Keith Bernstein/Divulgação)


Curvas da vida, protagonizado por Clint Eastwood (foto), Amy Adams e Justin Timberlake, estreia às 22h, na HBO. Dirigido por Robert Lorenz, o drama conta a história de Gus Lobel, famoso e veterano olheiro de baseball, que, a três meses do fim de um contrato e às vésperas de uma viagem para observar um jovem talento, descobre que está perdendo a visão. Sua filha decide acompanhá-lo e, apesar do relacionamento conturbado, a empreitada se torna uma oportunidade para que eles resolvam assuntos pendentes.

UM XERIFE E MUITOS
PROBLEMAS EM SÉRIE

Estreia às 20h no canal A&E a segunda temporada da série Longmire. O suspense volta a sondar o estado de Wyoming. Desta vez, o incorruptível xerife Walt Longmire terá que enfrentar uma reeleição concorrida ao cargo de xerife da cidade de Absaroka; a acusação de um detetive, que o culpa de ter assassinado o homem que anos antes matou sua esposa; e problemas com a filha Cady.

MARATONA MARCA 50
ANOS DO GOLPE DE 1964


Estreia às 21h05, na GloboNews, a série Dossiê, que tem como foco o golpe militar no Brasil, que está completando 50 anos. A maratona será comandada pelo repórter Geneton Moraes Neto e terá duração de quatro sábados consecutivos.

TERRA PROMETIDA
NO CANAL HISTORY

O History exibe às 22h o episódio A terra prometida, na série “Os segredos da Bíblia”. A Terra Prometida é considerada o lugar mais sagrado do planeta, embora venha sendo disputada por milhares de anos. Para o povo judeu, é a terra onde David foi rei, onde Salomão construiu um grande templo e onde Abraão e seus descendentes poderiam viver em paz e prosperidade. Já os cristãos acreditam que têm o direito a essa área porque, de acordo com o Novo Testamento, é ali que Jesus aparecerá quando voltar para o dia do juízo final.

OS SEGREDOS DA ALMA
PELA ÓTICA DA CIÊNCIA


A alma existe ou seria ela uma desculpa para nossas dúvidas existencialistas? Há algo em nós que transcende a matéria e, consequentemente, a morte física? Seria a alma o elemento decisivo para tornar a espécie humana o que ela é hoje? Em A ciência da alma, especial inédito com estreia às 22h, o Discovery Science busca evidências acerca dessas questões, que intrigam a humanidade desde sempre. Em 90 minutos, o documentário compila informações que fazem parte de estudos recentes sobre a vida e a morte, com o objetivo de rastrear algum elemento que supere os
limites da fisiologia e da química de nosso corpo.

PROGRAMAÇÃO FEMININA
CELEBRA O 8 DE MARÇO

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o canal Universal exibe hoje quatro filmes que têm figuras femininas como protagonistas. Às 10h30, será a vez de Elizabeth, com Cate Blanchett; às 13h40, Erin Brockovich: Uma mulher de talento, filme que deu o Oscar a Julia Roberts; às 20h, Domino – A caçadora de recompensas, com Keira Knightley; e, às 22h15, encerrando a programação, Milla Jovovich encarna sua personagem mais conhecida, Alice, da série Resident evil (será exibido o filme número quatro).



CARAS & BOCAS » Mulheres no comando
Simone Castro

Patrícia Poeta vai dividir a bancada do Jornal nacional com outra colega pela primeira vez na atração   (João Miguel Júnior/TV Globo  )
Patrícia Poeta vai dividir a bancada do Jornal nacional com outra colega pela primeira vez na atração

No Dia Internacional da Mulher, festejado hoje, a programação é especial e elas assumirão o comando. Na Globo, as homenagens chegam aos telejornais e às variadas atrações durante todo o dia. A começar pelos programas educativos matinais. Alguns dos principais jornais locais (caso das duas edições do MGTV) também serão apresentados por elas. À frente do Jornal hoje estará Renata Capucci; Cris Dias apresenta o Globo esporte, que será transmitido para todo o Brasil. Na verdade, as mulheres já ocupam esses postos. A novidade da data será na bancada do Jornal nacional de hoje, na qual estarão Patrícia Poeta e Sandra Annemberg. É a primeira vez que isso ocorre no jornalístico principal da emissora. A programação do Globo News (TV paga) também será apresentada pelas jornalistas do canal.

Programas de entretenimento, como o Caldeirão do Huck, Big brother Brasil 14 e Zorra total, terão conteúdo especial. Por falar em BBB, especula-se que Boninho fará surpresas aos confinados. As mães dos participantes vão entrar na casa hoje, e passarão uma semana também participando de provas e festas. Ao site Uol, uma amiga da família garante que apenas a mãe de Clara não estará no grupo. Obviamente, o diretor do programa não confirma nada e pode, diante do vazamento da notícia, cancelar tudo. Se realmente ocorrer a presença das mães – que só se comunicarão com os filhos por vozes, segundo o jornal Extra – será algo inédito no reality show.

INTERNAUTAS QUEREM
VER LOGO O THE NOITE

O programa The noite, que Danilo Gentili estreia na segunda, à meia-noite, no SBT/Alterosa, é uma das atrações mais esperadas, segundo enquete realizada pelo site Na telinha. A pergunta era: “qual dos novos programas do SBT cria mais expectativa pra você?” O The noite ficou em primeiro lugar, com 76,04%, de um total de 13.681 votos. Em segundo lugar apareceu Esse artista sou eu, de Márcio Ballas, com 8,84%, já adiado para o segundo semestre. O Arena SBT, que tem estreia marcada para hoje, às 23h15, vem em terceiro lugar, com 6,19%. Na opção “outro”, em quarto lugar, foram registrados 5,21% e o menos aguardado, em quinto, é a atração de Otávio Mesquita, Okay, pessoal, com 3,7% dos votos.

ATRIZ VAI DAR O AR
DA GRAÇA EM SERIADO

Grazi Massafera vai participar de alguns episódios da última temporada de A grande família (Globo). Ela será a mãe biológica de Lineuzinho, bebê adotado por Nenê (Marieta Severo) e Lineu (Marco Nanini). O seriado volta ao ar em abril.

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL
EM EPISÓDIO DE ADEUS


O doutor Preston Burke fará participação especial em Grey’s anatomy, depois de sete anos do afastamento de seu intérprete, o ator Isaiah Washington. O personagem era noivo da doutora Cristina Yang, vivida por Sandra Oh, e aparecerá no episódio que marcará a despedida da médica. A saída de Preston foi tumultuada: ele abandonou Cristina no dia do casamento deles. Depois, pediu demissão e foi trabalhar em outro hospital. Na vida real, o problema com o ator foi bem mais sério: ele se envolveu em discussões no set e foi acusado de disparar ofensas homofóbicas contra o ator T.R. Knight. Pelo visto, são águas passadas. Grey’s anatomy é exibida no Brasil no canal Sony (TV paga).

Depois do Oscar

A apresentadora Ellen DeGeneres poderia ter passado sem essa. Ainda rende o episódio em que ela, como mestre de cerimônias do Oscar 2014, realizada domingo, nos Estados Unidos, fez uma piada com a atriz Liza Minnelli, que estava presente para participar da homenagem à sua mãe, a atriz Judy Garland. Durante o evento, Ellen brincou que Liza, na verdade, era uma drag queen representando a atriz. “Uma das melhores que já vi”, disse a comediante. Ao site TMZ, Liza disse que a piada não funcionou muito bem. “Acho que ela pensou que seria engraçado, mas ela não parou de falar aquilo para dizer ‘minha amiga’ Liza Minnelli. Então, acho que ficou um pouco feio para ela.” Liza, no entanto, acredita que não houve má intenção por parte da apresentadora. “Não acho que ela queria me causar algum mal. Ela é uma mulher maravilhosa e fez um ótimo trabalho.” Ao longo da premiação, Liza pareceu desconfortável com a piada.


viva


Analu Prestes, a vó Tita de Além do horizonte (Globo). A veterana atriz, como era de se esperar, é excelente e a personagem merece maior espaço na trama.

vaia

Jornal nacional de anteontem chama roubo de pecado capital e se corrige depois, mas parece titubear ao esclarecer que crime é um dos 10 mandamentos. Pegou mal.

simone.castro@uai.com.br

João Paulo - Labirintos e novas chaves‏

Labirintos e novas chaves 
 
João Paulo
Estado de Minas: 08/03/2014


Não criamos problemas que não podemos resolver: recusar a política é jogar fora a chave de casa     (Yuriko Nakao/Reuters  )
Não criamos problemas que não podemos resolver: recusar a política é jogar fora a chave de casa


Jorge Luis Borges escreveu certa vez que o mais amedrontador dos labirintos é o que não tem paredes. Não se trata de um paradoxo, mas de uma constatação: vivemos imersos em um mundo cheio de limites que nos constrangem sem que tenhamos consciência deles. E, como em todo labirinto, não vemos a saída e seguimos como ratos tateando nos mesmos caminhos.

O que parece ser apenas bom argumento para um conto ou um pequeno pesadelo diurno pode ser adaptado para várias situações da vida real. Nossas escolhas são sempre marcadas pelos condicionamentos do tempo. Em nenhum terreno isso é mais nítido do que na política. Todos querem mudar o rumo das coisas, melhorar o mundo, aprimorar as instituições, garantir mais liberdade e igualdade. No plano das ideias.

Quando se chega na prática, no entanto, fica difícil sair da imitação para propor a novos rumos de fato. Vencer a mimese e parir a criação. Criticamos sempre o outro com os mesmos argumentos com que somos diminuídos pelos adversários. O cenário eleitoral que atravessamos é um bom território para testar limites e propor caminhos de fato inovadores. Para um labirinto invisível, chaves criativas são cada vez mais necessárias.

O primeiro teste talvez seja a capacidade de recuperar distinções fundamentais que vêm sendo amortecidas com o tempo. É o caso do par direita e esquerda. Os dois lados parecem temer a defesa necessária de sua forma de pensar. Sem ir à raiz dos termos e das posturas ideológicas, direita e esquerda ajudam a localizar o campo de batalha de diferentes projetos de sociedade. Por isso, quanto mais explícitos, melhor para a sociedade.

A direita, que se constrange em dizer seu nome, tem um projeto político que precisa ser defendido de peito aberto. Seja na vindicação de princípios, como a propriedade privada, a meritocracia e a livre iniciativa, seja em sua forma de expressão do poder, que tende para a aristocracia e para a representatividade, o conservadorismo precisa assumir suas bandeiras com mais clareza. Na agenda da direita estão situados temas que fazem muita falta ao debate político.

A esquerda, por sua vez, se encontra no grande desafio de avançar duplamente, no campo dos projetos e do exercício da política. Há uma cobrança por eficiência que vai além da ideologia e questiona se há um modo socialista de gerir políticas públicas. Por outro lado, a incorporação da democracia como horizonte do socialismo (e nesse sentido patrimônio muito mais dos progressistas que dos liberais) estimula a ir além do revolucionarismo, do ceticismo e do adesismo de ocasião. Além de desafiar a criar formas de democracia direta, que ampliem o grau de participação popular.

Direita e esquerda hoje podem ser bons operadores para julgar distintos projetos políticos, deixando de lado tanto o discurso moralista da direita – que vê corrupção e incompetência em tudo, mas não mira o próprio umbigo – como o triunfalismo das esquerdas – que anula a crítica em nome de uma certeza mais filosófica que real na construção de um novo modelo de sociedade. Recuperar as duas categorias históricas de julgamento pode recolocar em cena propósitos que deem ao cidadão real papel no jogo democrático.

Consciência possível


O segundo elemento que pode dinamizar a vida política brasileira nessa quadra de debates em torno de projetos de governo é, mais uma vez, uma categoria que já tem história – na verdade quase 100 anos –, apresentada pelo pensador marxista Gyorgy Lukács (e bastante contestada à direita e à esquerda, é bom que se diga). Trata-se do conceito de “consciência possível”. Para o filósofo húngaro, ainda nos anos 1920, a consciência tem gradações, ela pode ser desenvolvida, aprimorada, aprofundada. Em outras palavras, é possível ir de um estágio de menor consciência para um momento de consciência ampliada, o que indicaria o grau de amadurecimento político.

Assim, quando uma classe chega ao poder, terá seu papel histórico mais ou menos determinante e significativo quanto maior for seu patamar de consciência. Quanto mais consciente de seu papel, mais progressista seria uma classe em seu projeto de exercício de poder. Trazendo para nossa realidade, de forma mais simbólica que propriamente teórica, o conceito de consciência possível talvez nos ajude a compreender o papel dos diferentes segmentos sociais no Brasil durante os últimos governos.

De forma sumamente didática, o Brasil viveu nos últimos 20 anos dois projetos diferenciados, um em torno do PSDB e outro do PT, ambos partidos com seus aliados de ocasião, que têm diferentes motivações e fundamentos. De um lado o neoliberalismo privatista, de outro o desenvolvimentismo social. De certa forma, passadas duas décadas, são projetos que, em linhas gerais, se mantêm operantes.

Como se portaram as classes sociais nesses dois momentos históricos? É justamente aí que a ideia de “consciência possível” pode ser uma boa chave para nosso labirinto invisível. Há uma mudança inquestionável no perfil de visibilidade de parte significativa da sociedade brasileira nos últimos anos. Falou-se, com diferentes graus de sutileza sociológica, em “nova classe média” e “batalhadores”, como tentativa de explicar o novo ator social, incluído por meio do consumo (e muitas vezes rejeitado exatamente por isso).

O desafio dado hoje é exatamente – e para os dois lados, é bom frisar, já que as classes sociais não são “base” natural de nenhum dos dois projetos – avançar em grau de consciência. O aprimoramento político será dado pela capacidade de alimentar a consciência do consumidor, transfigurando-a em postura de cidadão. Para isso, é preciso sair do patamar da concessão para o da autopostulação de direitos essenciais. O consumo não integra, apenas inclui.

A grande lição que vem sendo dada pela nova cidadania brasileira é um avanço tanto para os conservadores como para os progressistas. Para os primeiros, ensinou que a sociedade é mais complexa e capaz de articulação do que sonhavam os vãos projetos de construção da hegemonia via meios de comunicação (não é um acaso que os candidatos dos grandes meios de comunicação percam eleições seguidamente). Para a esquerda, chega a constatação de que os novos cidadãos, ainda que incluídos via políticas distributivas e de renda mínima, não aceitam o papel de coadjuvantes ou expressam alinhamento mecânico. A chamada nova classe média apresentou o povo à direita e o cidadão à esquerda.

Duas conversas


Por fim, a terceira gazua para nossas paredes invisíveis da política é a capacidade de entender os novos universos da fala. Hoje não existem apenas papos sérios, há muita conversa fiada. Não se trata de uma crítica sobre o esvaziamento cultural da contemporaneidade, como muitos gostam de lamentar, mas um novo paradigma de comunicação. As pessoas ganharam novas formas de elocução. O discurso interpessoal nunca foi tão poderoso em termos quantitativos, o que, certamente, tem consequência no nível de sua realização.

A resposta que os políticos têm dado a essa revolução tem perdido o que ela tem de melhor. Quase sempre, as redes sociais são vistas como territórios que é preciso dominar com a linguagem da publicidade, como se se tratasse apenas de novos consumidores. Os gastos com esse tipo de campanha têm aumentado e dirigem parte significativa da atenção dos marqueteiros e candidatos. No entanto, parecem que estão deixando de lado o mais importante: não se trata apenas de mais gente disposta a ouvir, mas de novos sujeitos capazes de falar.

E o que falam os atores sociais siderados pela comunicação em rede? Em primeiro lugar, desestabilizam o sistema centralizado para propor novos discursos. Em seguida, trata-se de uma ferramenta de mobilização que anula a ideia de centro, criando uma nova geometria política paradoxal: o centro é a periferia, está em todo lugar, ao mesmo tempo. Por fim, mudam o rumo das falas, de temas verticais definidos de forma autoritária ou tradicional, para assuntos que dizem respeito às vidas dos novos falantes. Um não às agendas predeterminadas dos publicitários ou dos políticos convencionais. Quem não souber ouvir, vai perder o bonde da história.

Há, como identificou o filósofo Renato Janine Ribeiro, novos “elos fracos” que competem com os “elos fortes” da comunicação. A conversa mole pode pautar a conversa dura. Um exemplo dessa surdez foi dada recentemente durante a convocação dos jovens para ocupar shoppings. O discurso foi lido com a chave tradicional da invasão e da violência, o que motivou ações desmedidas e tacanhas, próprias de quem sempre foi mouco para a diferença.

A nova comunicação em rede criou um território livre, muitas vezes aplainado, mas que tem sua expressividade própria e invencível. Não é bom ou ruim, é assim. Janine propõe que devemos nos acostumar com a “riqueza do efêmero”. É uma boa definição de comunicação. Pode ser o novo desafio para política a ser construída. A única certeza do labirinto é que as paredes estão lá. A liberdade não se resume apenas em encontrar a saída, mas em lutar para que ela exista de fato, ainda que como horizonte.


 jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br

O sonho e o desencanto [Google]

O sonho e o desencanto
 
Maior site de buscas da internet, o Google nasceu em meio a promessas utópicas de democratização da cultura, mas pratica o mais selvagem pragmatismo de mercado 
 
João Lanari Bo
Estado de Minas: 08/03/2014


Sergey Brin e Larry Page, inventores do PageRank: o idealismo, mais uma vez, rende-se ao capitalismo  (Ben Margot/AP - 15/1/04)

Sergey Brin e Larry Page, inventores do PageRank: o idealismo, mais uma vez, rende-se ao capitalismo

‘‘Don’t be evil” foi o moto corporativo inventado pelo pessoal que trabalhava no início do Google, em 2000 ou 2001, numa reunião em que se discutiam os “valores” que deveriam nortear a empresa. A ideia era marcar a diferença com os competidores, os motores de busca da internet mais fortes no mercado à época (Altavista, Yahoo). Essas empresas estavam “explorando os usuários” ao misturar capciosamente propaganda com resultados da busca. A marca Google queria ser percebida como um projeto utópico, idealista e altruísta: organizar o acesso universal à informação e ao conhecimento por meio de uma tecnologia “mágica” livre do bombardeio publicitário sub-reptício, uma espécie de celebração coletiva e consensual do progresso da humanidade.

Os inventores do PageRank, o formidável algoritmo que transformou o Google nessa virtual unanimidade do ciberespaço, Sergey Brin e Larry Page, chegaram a escrever um paper acadêmico em Stanford contra os motores de busca vinculados à propaganda. Isso ocorreu em 1998, e logo os dois começaram a mudar de ideia, ao mesmo tempo em que saíam da garagem que ocupavam e estruturavam a empresa nos moldes capitalistas das startups do Vale do Silício californiano.

A história oficial do Google se inclui nas narrativas mitológicas que os americanos inventaram para vender ao mundo a excelência de suas empresas inovadoras – mitologia que os demais países, inclusive o Brasil, querem desesperadamente copiar. Em pouco mais de uma década, a empresa cresceu de maneira avassaladora, consolidou um motor de busca que para muita gente confunde-se com a própria internet, expandiu-se para outros domínios, e... passou a praticar, sugerem os críticos, uma crescente e inquietante “maldade”.

O menino bom se transformou num adolescente esperto demais e ninguém sabe o que vai ocorrer quando ele chegar à maturidade.

Hoje, o famoso algoritmo seminal muda 500 a 600 vezes por ano: muda para reorganizar, com velocidade assombrosa, o imenso cabedal de informações personalizadas mantidas nos data centers do Google. São 12 centros operando non-stop: seis nos EUA, um na América Latina (Chile), três na Europa e dois na Ásia. “See where the internet lives”, diz a página do próprio Google, onipresente e onisciente, sem falsa modéstia. Tudo isso para relançar as pegadas digitais dos inúmeros usos que fazemos da internet a partir da busca no Google, as páginas que visitamos, os assuntos que nos atraem, com o fim de adequar nossos desejos, obsessões e ambições à oferta de produtos e serviços.

Adesão Se o internauta for além da simples busca e usar alguns dos serviços do grupo – Gmail (425 milhões de usuários), YouTube, blogger, iGoogle –, os detalhes da auscultação serão mais acurados ainda. O que era o sonho da universalização do saber se transformou no mais esmerado e milimetricamente construído mercado publicitário de que se tem notícia. Uma construção, diga-se de passagem, baseada em complexos modelos matemáticos de padronização que ignoram as convenções clássicas das agências de publicidade. Pior: essa armação ocorre com a nossa (in)voluntária e irrestrita adesão.

Como fomos seduzidos, como somos seduzidos diariamente, inúmeras vezes, para essa armadilha? Nossa confiança no Google é sobretudo pragmática, no sentido ordinário do termo. Acreditamos que o consenso em torno dele, obtido por meios aparentemente democráticos, é digno de confiança. O método do Google de depender do juízo ativo e coletivo de milhões de cibernautas parece a aplicação de uma das teorias mais influentes da epistemologia: o famigerado pragmatismo americano, desenvolvido por Charles Peirce e William James no século 19, aperfeiçoado por Richard Rorty quase 100 anos depois.

A verdade, nessa linha de pensamento, “é gerada por um processo de experimentação, descobrimento, retroalimentação e consenso”. Um enunciado verdadeiro é aquele que surte efeito no mundo, diria James. As páginas que aparecem na tela do computador são aquelas automaticamente mais “populares” – quer dizer, são aquelas que têm mais links em outras páginas igualmente “populares”, e assim por diante. Um clique de busca desencadeia a cadeia global de consultas, que conferem de maneira quase instantânea no imenso depositório de páginas visitadas quais as mais relevantes associadas com aquela procura. Enfim, somos nós, os bilhões de usuários do Google, que construímos em tempo integral essa maravilha, ou esse monstro, conforme o ângulo da análise.

Essa e outras finas ideias o leitor pode encontrar no livro A googlelização de tudo, de Siva Vaidhyanathan (Editora Cultrix). Embora um pouco defasado, pois foi escrito em 2010, o texto desse americano descendente de indianos é implacável em seu arsenal crítico, sem apelar para a pichação exagerada de que o Google se tornou alvo nos últimos anos. Em maio de 2012, confirmando a tendência apontada por Siva de privilegiar o lado “comercial” em detrimento do “idealista”, a empresa anunciou que não mais manteria a separação estrita entre resultado de buscas e propaganda. O método para aferir qual anunciante ocupará o topo da lista passou a se basear exclusivamente nos leilões-relâmpago que o Google faz entre os anunciantes por meio de seu principal programa de publicidade, o AdWords – que se apoia nos gigabytes das informações pessoais e o conteúdo criativo fornecidos gratuitamente por milhões de usuários à rede todos os dias.

Os críticos insistem: os pequenos negócios perderão de vez a chance de obter visibilidade em função da relevância, pois quem vai ocupar o topo da lista dos resultados da procura será quem pagar mais no leilão. E os consumidores, os usuários do Google na internet, acostumados com a indicação baseada na relevância – o tradicional Google do “don’t be evil” – talvez não se deem conta da transição...

Digitalização de livros Outra área em que essa postura “do bem” se pretendia imutável era a discussão da chamada “neutralidade da rede”, que o Google defendia encarniçadamente. No Brasil, esse tópico, como se sabe, é um dos nós que vêm travando a aprovação do marco civil da internet no Congresso. O gigante da internet se aliava, nesse particular, aos puristas da internet, ciosos na manutenção da “democracia na rede, permitindo assim acesso igualitário de informações a todos, sem quaisquer interferências no tráfego on-line”. Quando a empresa entrou no negócio de vender serviço de banda (Google Fiber), mudou de ideia.

O acesso passou a ser, doravante, proporcional a quem paga mais. O Google Books, outra estratégia de expansão supostamente ancorada no “acesso universal ao conhecimento e cultura”, mostrou limites antes impensáveis para a empresa: a simples possibilidade de digitalização de livros despertou ondas de preocupação no ecossistema global de informação, levantando dúvidas e ansiedades nos diversos agentes do sistema (direitos autorais, privatização de bibliotecas públicas). Depois de uma longa e tumultuada batalha judicial, o cenário resultante parece trazer embutida perversa reviravolta que poderá restringir ainda mais o acesso prometido, favorecendo comercialmente a posição do Google no mercado de livros digitais, como sugerem especialistas – entre eles Lawrence Lessig, respeitado professor de Harvard. Ou seja, acesso universal, mas de acordo com o que pode pagar o consumidor.

Toda essa transformação do perfil do Google repercute, inevitavelmente, na imagem de seus dirigentes, que parecem agora mais arrogantes e soberbos. Alguns entram e saem do governo, outros se arrogam o direito de destilar profecias geopolíticas ligadas ao progresso tecnológico, em geral inspiradas nos tabus e preconceitos da visão de mundo conservadora do mainstream norte-americano. Na Europa, onde o Google é responsável pela assombrosa cifra de 90% das buscas, a empresa está prestes a sofrer a maior sanção de sua história em virtude das novas e espertas práticas comerciais. O caso Google, um sucesso empresarial absurdamente significativo, ilustraria talvez uma daquelas famosas doutrinas de Jean Jacques Rousseau: “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”.

Do idealismo da garagem, que tanto influenciou e estimulou jovens empreendedores nos quatro cantos do planeta, o grupo que criou a empresa terminou aterrissando no pragmatismo selvagem de mercado, como suporia, aliás, a velha e vã filosofia.

João Lanari Bo é professor de cinema da Universidade de Brasília (UnB)