sábado, 28 de junho de 2014

O livro perdido - João Paulo

O livro perdido
João Paulo
Estado de Minas: 28/06/2014

Estátua de James Joyce numa rua de Dublin: presença ainda viva no imaginário da Irlanda     (Cathal McNaughton/Reuters  )
Estátua de James Joyce numa rua de Dublin: presença ainda viva no imaginário da Irlanda


James Joyce (1882-1941) é autor de um dos maiores romances de todos os tempos, Ulysses, publicado em 1922, exatamente no dia que o autor completava 40 anos. Foi um marco. Dele decorrem centenas de outros livros, que se inspiram na linguagem, no experimentalismo, na busca do sentido da vida por meio da criação. Obra que foi uma sementeira. O que impressiona ainda hoje em Ulysses, ao ponto de se celebrar todo ano o 16 de junho (dia em que se passa a ação do romance) como uma data mítica, é sua capacidade de dialogar com toda a cultura do Ocidente e abrir novos caminhos, além de contar de forma magistral a história de um homem. Por mais que os especialistas se esforcem, Ulysses é uma obra que se lê com extremo prazer.

O mesmo não se pode dizer do romance seguinte de Joyce, Finnegans wake, lançado em 1940, sob vários aspectos uma obra tão difícil que se torna praticamente vetada aos não iniciados. É romance feito de sofisticados experimentos linguísticos, que parece se colocar o desafio de desconstruir toda a velha linguagem em nome de um novo modo de operar os signos, fazendo com que a ficção surja da própria linguagem. Para o especialista em literatura do modernismo Malcolm Bradbury, “livro algum foi concebido de modo mais ambicioso. A ideia era realizar uma história do mundo, o livro de todo o mundo; construir uma metalinguagem moderna, um esperanto para a ficção”.

No meio do caminho, no entanto, havia Finn’s Hotel, um manuscrito aparecido nos anos 1990 que causou rebuliço nos meios literários. Curto, direto e compreensível, foi considerado uma espécie de esboço de Finnegans wake, um germe dos temas e da linguagem que depois explodiriam no romance-universo de Joyce. Tudo que era excesso, jogo de linguagem, exagero, inventividade audaz e caudalosa da obra final do escritor, poderia ser absorvido nos enxutos manuscritos. Foram mais de 20 anos até que as querelas jurídicas fossem superadas. Finn’s Hotel acaba de chegar ao Brasil, em tradução de Caetano W. Galindo (Companhia das Letras), que verteu recentemente o Ulysses, na terceira e mais legível das traduções da obra-prima no Brasil.

O livro é composto de 10 pequenos capítulos, na verdade contos curtos que têm como tema momentos da história irlandesa. Dez épicos ou mitos, que atravessam 1.500 anos de história, com heróis lendários e episódios graves e cômicos. Os conhecedores do Finnegans wake poderão avaliar se de fato Humphrey Chimpden Earwicker e Anna Lívia Plurabelle são os mesmos nos dois livros, entre outras pistas espalhadas aqui e ali. Na verdade, mais que uma coleção de contos, Finn’s Hotel vale como um jogo literário e intelectual. O leitor tem em mãos dois livros, pelo menos: o próprio Finn’s Hotel e a história sobre seu sentido na compreensão da obra do escritor irlandês. A elegância do pequeno volume ajuda a dar materialidade à dupla tarefa.

Filologia e história

Por isso, a edição acerta em cercar o texto de prefácio do tradutor, que ao falar de seu trabalho dá várias indicações sobre a obra joyciana (com bom humor, se orgulha em escrever apenas uma nota à tradução, logo na primeira página, deixando para o leitor o prazer que parece ter tido com o trabalho) e os estudos de Danis Rose e Seamus Deane, que se aprofundam em temas filológicos e históricos. Danis Rose é um dos maiores especialistas na obra de James Joyce, sendo responsável pela fixação crítica do texto de Finnegans wake. Sua argumentação sobre a ligação entre Finn’s e Finnegans, por isso mesmo, deve ser levada a sério. O poeta Seamus Deane mergulha no que há de mais profundamente irlandês no livrinho.

Para completar, a edição traz em anexo outro texto de James Joyce que surgiu do mesmo empenho em descobrir genealogias. Trata-se de Giacomo Joyce, um manuscrito de apenas oito páginas datilografadas em frente e verso, que foi considerado, à época de seu descobrimento, um rascunho de Ulysses. Ou seja, estaria para a saga de Bloom, como o Finn’s Hotel para o Finnegans. O texto já é conhecido do leitor brasileiro, em tradução feita por Paulo Leminski. Ao fim, o leitor tem uma pequena joia nas mãos: criação literária, especulação filológica, estudo histórico e pesquisa genética. Para quem gosta de literatura, é um quebra-cabeça sofisticado e divertido. Se sentir vontade de ler mais Joyce, a tarefa estará paga e o caminho aberto.


 jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br

Orelha

Estado de Minas: 28/06/2014 


Portrait de Jane Austen, do pintor inglês Ozias Humphry: a maior escritora inglesa (Stan Honda/Reuters)
Portrait de Jane Austen, do pintor inglês Ozias Humphry: a maior escritora inglesa


Jane quando jovem

Se você acha que já leu tudo de Jane Austen, a Editora Landmark chega com um presente: uma edição bilíngue do pouco conhecido Lady Susan, escrito entre 1793 e 1794, quando a escritora era uma jovem promissora. Como sempre, a personagem da novela está em busca de um casamento vantajoso. Desta vez, a protagonista Susan, de 30 anos, espera encontrar um marido para si e, ao mesmo tempo, para a filha. Para isso, ela preenche sua agenda de compromissos com convites para visitas estendidas a parentes de seu falecido marido e conhecidos, por meio de uma série de manobras astuciosas. Utilizando a forma do romance espistolar, Jane Austen já mostra domínio da linguagem, inteligência para revelar as maquinações sociais e o humor elegante que caracterizariam a escritora na maturidade. Ainda inédita no cinema, Lady Susan já ganhou adaptações para a TV e para os palcos britânicos. Para quem se interessar ainda mais pela jovem Jane Austen, vale a pena procurar Juvenília, recém-lançado pela Penguin/Companhia, que reúne textos das moças Austen e Charlotte Brontë.


Ponto e vírgula

   (Ana Ruth/Divulgação)


Compositor e escritor, o gaúcho Vitor Ramil (foto) está lançando seu terceiro romance, A primavera da pontuação. Os personagens são elementos do mundo da língua portuguesa, que interagem numa trama meio pop, meio farsesca: uma palavra-caminhão trafega carregada de letras garrafais, atropela um ponto numa esquina de frases e foge sem ser identificada. Um romance sobre a linguagem. A edição da Cosac Naify mimetiza a ação, com projeto gráfico que destaca os pontos, vírgulas e outro sinais.


Abba está vivo


A primeira letra dos nomes de Agnetha, Bjorn, Benny e Anni-Frid formam o nome de uma das mais conhecidas bandas da história do pop, o quarteto sueco Abba, que vive na memória do público 30 anos depois da separação. E é a trajetória do grupo que chega agora aos leitores com Abba – A biografia, de Carl Magnus Palm, que está sendo lançada no Brasil pela Editora Best Seller. A narrativa começa em 2005, na noite de estreia do musical Mamma mia! em Estocolmo, voltando no tempo para mostrar as várias fases do quarteto, com direito a brigas e conflitos, além da tentativa de carreira solo de cada integrante.


Crime brutal

Mais um título policial do selo Vestígio chega às livrarias. Seguindo a tradição violenta da literatura nórdica contemporânea, Indesejadas, de Kristina Ohlsson, narra um caso de sequestro ocorrido num trem lotado na Suécia. A menina desaparecida é encontrada morta com a palavra “indesejada” escrita na testa, num caso que será investigado por Frederika Bergman. A autora é cientista policial e trabalha como agente contra o terrorismo na polícia sueca.


História vegetal

Usos e circulação de plantas no Brasil, séculos XVI a XIX, volume coletivo organizado por Lorelai Kury reúne ensaios sobre a história do Brasil, tendo as plantas por protagonistas. Os historiadores que participam do projeto voltaram seus olhares para o reino das plantas, tão complexo quanto o império dos homens. Os capítulos abordam a troca de vegetais no império português, as grandes rotas marítimas do Renascimento, o uso das plantas medicinais pelos padres da Companhia de Jesus e o universo da medicina holística dos séculos 17 e 18, entre outros temas. O lançamento é da Estúdio Editorial.


Cortázar de volta


 (Antonio Conceza/EM/D. A Press)


Dois livros de Julio Cortázar (foto) que estavam fora de catálogo no Brasil ganham novas edições pela Civilização Brasileira. Final de jogo é uma coletânea de 18 contos, divididos em três níveis de dificuldade, medidos pelo esforço que o leitor deve fazer para entender as histórias. O outro livro, Um tal Lucas, reúne contos surrealistas em torno de um mesmo personagem. Entre o fim de agosto e começo de setembro, será relançado A fascinação das palavras, obra escrita a quatro mãos por Cortázar e o uruguaio Omar Prego, que desvenda o mundo íntimo do escritor. O centenário de Cortázar será celebrado em agosto.


Real em HQ

Tungstênio é o nome do novo álbum de Marcelo Quintanilha, que sai pela Editora Veneta. Um recorte da vida do subúrbio das grandes cidades, narrado de forma cinematográfica, que revela as mazelas sociais do país. Nascido em Niterói e radicado em Barcelona, Quintanilha teve seu primeiro trabalho publicado em 1988 e desde então colaborou nas revistas General e Heavy Metal, além dos jornais espanhóis La Vanguardia e El País.

ENTREVISTA/ALBERTO MUSSA » "O passado me povoa"‏

Romancista carioca lança terceiro livro de uma série dedicada aos mitos de formação do Rio de Janeiro


Carlos Herculano Lopes
Estado de Minas: 28/06/2014



 (Cristina Lacerda/Divulgação)


Alberto Mussa é um carioca típico: boa-praça de ótima conversa, que pode entrar dia adentro. Mas é, principalmente, um excelente escritor. Sua obra está traduzida em diversas línguas e é motivo de estudo em universidades ao redor do planeta. Com o recém-lançado A primeira história do mundo, ele dá sequência ao ambicioso projeto de elaborar um compêndio mítico do Rio de Janeiro por meio de cinco romances policiais, um para cada século da vida da cidade. A primeira história do mundo, no qual ele conta, misturando realidade e fantasia, como foi o primeiro assassinato ocorrido no Rio, em 1567, é o terceiro da série, que se iniciou com O trono da rainha Jinga, cuja ação se passa em 1626, e O senhor do lado esquerdo, no qual fala de um crime ocorrido em 1913. Baseado em documentos, mas sem ter “feito uma pesquisa exaustiva”, neste belo romance, que leva o leitor a querer saber desde o início quem foi o assassino do serralheiro Francisco da Costa, Alberto Mussa mescla erudição com um talento nato para a narrativa. Em entrevista ao Pensar, o romancista fala de sua relação com a cidade e garante: “Não vivo no Brasil. Vivo no Rio de Janeiro”.

A primeira história do mundo é o terceiro livro no qual você reconta a história mítica do Rio. No caso, o primeiro crime de morte ocorrido na cidade. Como surgiu o livro?

Pensei no projeto desse livro porque ele me permitia unir três coisas com que me identifico: história, mitologia e narrativa policial. Escolhi o Rio de Janeiro por motivos um tanto óbvios: é a minha cidade, a cidade que conheço melhor. Posso, inclusive, ir aos lugares que descrevo. Acredito que isso seja uma grande vantagem na hora de escrever. Quando decidi escrever sobre o século 16, comecei a ler livros que tratam dessa época. Então, casualmente, li um chamado Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro, que vem a ser um dicionário biográfico escrito por Elysio Belchior. Nele é que estão referidas algumas circunstâncias desse primeiro homicídio, que acabou sendo o fio condutor do romance.

Alguns episódios do livro foram baseados em fatos reais. Até onde a realidade e a ficção se misturam na história?
Se eu revelar onde fica essa fronteira, vou tirar o prazer da leitura, que se baseia precisamente nessa confusão. Aliás, todo autor de romance policial não fala sobre a própria história. É uma convenção do gênero. Para escrever A primeira história do mundo não fiz uma pesquisa exaustiva, daquelas próprias dos cientistas. Fiz, e faço sempre, uma espécie de imersão na época onde situo a narrativa. Leio livros que lançam luz naquele passado. No caso do romance em questão, li também as cartas dos jesuítas, os relatos de viagens de aventureiros, cronistas e historiadores contemporâneos que tratam daquele século. A partir dessas leituras o passado “entra” na minha cabeça, povoa minha imaginação. Acho que é um processo diferente da pesquisa propriamente dita.

Em um dos seus livros, Meu destino é ser onça, você se volta para as mitologias indígenas, tema que retoma em A primeira leitura do mundo, no qual mostra também ter um bom conhecimento do tupi-guarani. Chegou a estudar essa língua?
Estudei tupi antigo – nome mais apropriado – também de forma autodidata, quando comecei a estudar linguística, durante meu mestrado, que foi feito na área de língua, não de literatura, como seria mais natural. A linguística foi – e ainda é, num certo sentido –, uma das minhas paixões intelectuais. Foi uma grande descoberta. Aprender línguas, particularmente aquelas muito diferentes do nosso idioma materno, abre um espectro de símbolos e conceito impensáveis. Acho que o tupi tinha que ser ensinado nas escolas. Pode não ter utilidade, prática; mas (como ocorre com a matemática) aumenta consideravelmente o poder de abstração dos alunos.

Você também estudou o árabe como autodidata ou aprendeu com seu pai, que era filho de libaneses? Você costumava explorar a biblioteca de seu pai?
Meu pai, David Mussa, que era de Campos de Goytacazes, foi um homem extremamente culto, sabia inúmeras línguas, conhecia todos os clássicos. Embora ele reprovasse minha aproximação com a cultura popular, me incentivou a ler e a não ter medo de ler. Com 15 anos, já tinha lido vários desses clássicos: Cervantes, Machado de Assis, Eça de Queirós, Tolstói, Dostoiévski, Oscar Wilde e especialmente os poetas Camões, Cruz e Souza, Castro Alves, Augusto dos Anjos. Meu pai gostava de poesia, queria imitá-los. Os poetas, mais que os romancistas, foram decisivos na minha adolescência.

E quanto ao estudo do árabe?
Nas famílias árabes de origem cristã, é muito raro a língua árabe sobreviver além da primeira geração. Na minha família, entre os nascidos no Brasil, ninguém falava árabe, nem meu pai nem meus tios. Era uma vergonha, havia um preconceito muito grande contra os “turcos”. Comecei a estudar árabe já com mais de 30 anos, quando meu pai e meus avós libaneses já tinham morrido. Aprendi sozinho, como autodidata. Porque tinha também conhecimentos teóricos de linguística, o que facilita muito. Por isso, por ter estudado sozinho, não sei falar, só ler e escrever. Meu propósito era apenas o de poder traduzir Os poemas suspensos, clássico da literatura árabe pré-islâmica. Foi uma grande aventura, que me tomou 10 anos. Agora, a tendência é ir esquecendo aos poucos.

Embora tenha nascido numa família de classe média abastada, você sempre foi ligado à cultura popular, tendo inclusive sido coautor do ensaio Samba de enredo: história e arte. Como nasceu esse interesse?
Da minha mãe Marlene, que tem origens muito brasileiras, de Minas e de Alagoas, herdei o gosto pela literatura policial e pelo samba. Ela sempre leu Agatha Christie e Conan Doyle e ouvia samba no rádio. Pouco tempo depois descobri que meu tio Didi, irmão dela, era compositor de escola de samba. Foi ele quem me levou numa quadra pela primeira vez, na União da Ilha, quando eu tinha 14 anos. Essa foi outra experiência fundadora. Sou até hoje completamente fascinado pelas escolas de samba.

O fato de sido criado no Grajaú, na Zona Norte do Rio, deve também ter ajudado. O que ficou daqueles tempos da infância?

Tudo. Nós somos do nosso lugar. A verdadeira pátria de um indivíduo é a cidade onde ele nasce e passa a viver. O país é algo muito abstrato. Sou brasileiro, mas não vivo no Brasil. Vivo no Rio de Janeiro. As pessoas são do lugar onde podem vigiar a vida dos outros. Onde compram o jornal. Onde seu sotaque se confunde com o dos outros. O Grajaú e a Zona Norte do Rio estão tão entranhados em mim que, hoje, mesmo morando a duas quadras da praia, não vou ao mar, a não ser no fim do ano, na festa de Iemanjá.

A vida na Zona Norte e o convívio com seu povo também influenciaram o escritor?

Creio que sim. Foi a experiência fundamental da minha vida. Foi o meu rito de passagem. Foi no morro que me tornei homem. Onde se constituiu o meu caráter. Aprendi coisas que os livros não me ensinaram, porque os livros não ensinam tudo. Foi no morro que fiz meus primeiros amigos, foi no morro que amei pela primeira vez. Particularmente no que se refere ao futuro ofício do escritor, creio que meu contato com a cultura popular me fez perceber intuitivamente como opera o pensamento mítico, que depois viria a explorar nos meus textos.

. A primeira história do mundo
• De Alberto Mussa
• Editora Record
• 236 páginas

Do football ao futebol - Livro de Mario Filho

Livro de Mario Filho, o irmão de Nelson Rodrigues, revela como o esporte mais praticado no Brasil driblou espetacularmente o racismo das elites brancas e se consagrou como arte popular brasileira


Severino Francisco
Estado de Minas: 28/06/2014



O elegante Didi, um dos maiores craques de todos os tempos, criador da folha seca e defensor do
O elegante Didi, um dos maiores craques de todos os tempos, criador da folha seca e defensor do "jogo bonito"

O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho, merece ser chamado de clássico, com todas as letras, por vários motivos. O livro é um trailer do Brasil, lança luzes esclarecedoras sobre as principais forças de nossa formação de país escravocrata durante mais de três séculos de sua história de 514 anos: o racismo, o espírito de sabotagem e a covardia das elites brancas; a astúcia dos negros e mestiços; a intuição em inventar bolas de meia e em driblar a discriminação. O livro ganhou inesperada atualidade neste momento em que o nazismo jeca volta a se manifestar nos campos de futebol do Brasil e da Europa. É um clássico, ainda, pelo estilo impecável de Mario Filho, que narra essa saga com histórias saborosas, evocadas com a graça e a elegância de uma folha seca do meio-campo Didi.

Recuemos no tempo até o início do século 20, mais precisamente em 1904, quando a capital era o Rio de Janeiro e os engenheiros ingleses trouxeram para o Brasil uma grande novidade: o football. Sim, o primeiro time era o The Bangu Atletic Club. Goleiro era goalkeeper; lateral direito, fullbackrigth; beque central, center-half; centroavante, center-forward. Só podia jogar quem falasse ou gritasse em inglês; para avisar que havia ladrão de bola era preciso berrar: “Man on you!”. Quando precisava chamar os atacantes para voltar e ajudar na marcação, a ordem era: Come back forwards. O campo era chamado pelos cronistas esportivos de fields.

As comemorações também eram em inglês. Avançavam pela noite com muita bebedeira. When more we drink together (Quando nós bebemos muito juntos) virava, na boca dos raros brasileiros, “onde mora o Pinto Guedes”. E For he is a jolly good-felow se transformava em “a baliza é bola de ferro”. Só respeitáveis técnicos ingleses de bigodes imperavam. Os clubes eram fechados para ingleses e filhos de ingleses. “O Paissandu e o Rio Cricket eram pedaços da Inglaterra transplantados para o Brasil”, comenta Mario Filho. “Nos domingos claros de sol, a bandeira inglesa se esticava ao vento, bem no alto dos mastros, um na rua Paissandu, outro em Icaraí.”

Um Fla-Flu só merecia míseras 10 linhas burocráticas de registro nos jornais. Esporte popular era o remo, daí o fato de os clubes se chamarem até hoje Clube de Regatas Flamengo ou Clube de Regatas Vasco da Gama. É claro que, a princípio, os negros e mulatos não podiam praticar esse esporte tão sofisticado, caro e cheio de rituais inacessíveis. A princípio, os brancos reinaram absolutos, pois os estudantes filhos da elite carioca tinham tempo de sobra para treinar. Era um problema de cultivo, cultura, proteínas, treino e disponibilidade de tempo: “O jogador de boa família tinha muito mais tempo para treinar. Era, quase sempre, um estudante. Estudava e jogava futebol. Jogando até mais futebol do que estudando”. Com isso, o jogador branco tinha de ser, durante bastante tempo, superior ao preto, observa Mario Filho. “Quando o preto começou a querer aprender a jogar, o branco já estava formado em futebol. O grande clube sendo uma espécie de universidade. Tudo quanto era professor de futebol ia para lá. Ingleses e brasileiros que tinham estudado na Europa, todos com o seu curso de futebol. Foram eles que trouxeram o futebol para o Brasil, que o passaram adiante, formando clubes. Quem começou antes levando vantagem acentuada. O caso do Fluminense. Quando se fez uma liga, o campeonato foi conquistado pelo Fluminense.”

Improviso A molecada negra e mulata ficava nas imediações dos estádios à espera de que algum beque mais grosso desse um chutão e jogasse a bola fora para roubá-la. Logo a febre do novo esporte se alastrou pelas ruas dos subúrbios, em infinitas peladas com bolas de meia, onde se reinventou a previsibilidade do football inglês, acrescentando-lhe o balanço do samba e a ginga da capoeira; o football virou futebol, expressão cultural brasileira, dança improvisada e imprevisível. Os primeiros negros e mulatos começaram a despontar, timidamente, nos times da elite: “O futebol se vulgarizava, se alastrava como uma praga”, lembra Mario Filho. “No meio das ruas, nos terrenos baldios, onde se atirava lixo, nos capinzais. Bastava arranjar uma bola de meia, de borracha, de couro. E fabricar um gol, com duas maletas de colégio, dois paletós bem dobrados, dois paralelepípedos, dois pedaços de pau. O remo era para os privilegiados, para os seres superiores. Não para qualquer um, como o futebol.”

Os primeiros negros e mulatos começaram a despontar, timidamente, nos times da elite. Havia distinções entre o Bangu, o Botafogo e o Fluminense: “O Bangu, clube de fábrica, botava operários no time em pé de igualdade com os mestres ingleses. O Botafogo e o Fluminense  não, nem brincando, só gente fina. Foi a primeira distinção que se fez entre clube grande e pequeno, um, o clube dos grandes, o outro, o clube dos pequenos.” O futuro da exclusão no futebol não era nada alentador: “Como acabaria aquilo? Bastava olhar para o Bangu. Os ingleses ficando de fora, pouco a pouco. Mais operários no time, menos mestres. Preto barrando branco. Não seria o destino do futebol? O futebol se tornando brasileiro demais”.

Mas não se imagine que a inclusão dos negros e dos mestiços no futebol profissional foi automática. Ela só ocorreu de maneira dramática, com sabotagens, alianças e lances de segregação e humilhação. É significativo o depoimento de um atacante de que “já havia sido negro um dia”. O jogador Carlos Alberto passou pó de arroz no rosto para embranquecer a pele e jogar no aristocrático Fluminense. Tinha de entrar em campo, correr para o lugar mais cheio de moças na arquibancada, parar um instante, levantar o braço e abrir a boca num hip, hip, hurra. “Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó de arroz, ficando quase cinzento. Não podia enganar ninguém, chamava até mais a atenção. Quando o Fluminense ia jogar com o América, a torcida de Campos Salles caía em cima de Carlos Alberto: ‘Pó de arroz! Pó de arroz’”.

Em 1923, ninguém prestou atenção no Vasco da Gama, time patrocinado pelos comerciantes portugueses, que, na boa tradição lusitana, misturou negros, mulatos e brancos bons de bola. O Vasco que formasse o time do jeito que lhe desse na veneta. Os brancos continuariam vencendo. Os comerciantes portugueses contrataram um certo Platero, treinador linha- dura, que obrigava os jogadores a trotar do campo da Rua Moraes e Silva até a Praça Sete. Nenhum jogador do América, do Flamengo, do Fluminense ou do Botafogo havia se submetido nunca a esse tipo de treinamento. O Vasco sagrou-se campeão.

Em represália, a liga dos clubes da elite branca carioca baixou portaria exigindo que todos os jogadores escrevessem o nome e tivessem vínculo empregatício. Mas não adiantou: com o profissionalismo, o futebol tornou-se o primeiro espaço realmente democrático da sociedade brasileira, onde não vale o pistolão, o nome de família ou o dinheiro. É preciso impor-se pela competência, a habilidade e o talento. O Vasco mostrou que não se ganhava mais um torneio no Brasil sem jogadores negros e mulatos. Um time de brancos, negros e mulatos era o campeão da cidade. O futebol driblou, espetacularmente, o racismo, mostrando que, como disse Câmara Cascudo, o que o Brasil tem de melhor mesmo é o brasileiro. Ou retificando com mais exatidão crítica: o que o Brasil tem de melhor são alguns brasileiros.


Trecho


“De nada valia, para o Vasco, o campeonato de 23, pelo contrário. A única coisa que o Vasco tinha, além da torcida, a maior torcida que já se vira em campos cariocas, era um time. Os grandes queriam que o Vasco fosse para a Amea com a sua torcida, com o português de escudo da cruz de malta ao peito, toda a colônia, não queriam que o Vasco levasse o seu time. Para isso havia uma comissão de sindicância. Reis Carneiro, do Fluminense, Diocesano Ferreira Gomes, o Dão, do Flamengo, e Armando de Paula Feitas, do América, iriam ver se os jogadores do Vasco, os Nelson Conceição, os Mingote, os Bolão, os Pascola e os Torteroli, trabalhavam ou não trabalhavam. Como viviam, se podiam viver com o que ganhavam.

Se não trabalhassem, seriam cortados. Se trabalhassem e ganhassem pouco, uma quantia que não bastasse para a vida que eles levavam, seriam cortados. E se trabalhassem, e se ganhassem bastante, ainda teriam de passar pela prova terrível do beabá.

Acabara-se o tempo de o jogador só precisar saber assinar o nome na súmula. Se não soubesse escrever e ler corretamnte, e na presença de alguém assim como o presidente da Liga, estava cortado.

Todas as noites, o Custódio Moura, um sócio do Vasco, aparecia em Moraes e Silva para a aula de caligrafia. O mais importante era a caligrafia.

Um pouco antes de começar o jogo, o juiz chamava os jogadores, um por um, o jogador assinava a súmula e pronto. Mas a Liga foi exigindo mais. A papeleta de inscrição tornou-se quase um exame de primeiras letras. Uma porção de perguntas. Nome por extenso, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalha, onde estuda, etc., etc.”