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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Carlos Heitor Cony

folha de são paulo
A supremacia do Supremo
RIO DE JANEIRO - Semana passada foi deprimente. O bate-boca entre dois ministros do Supremo Tribunal Federal mostrou que ainda não chegamos ao ponto ótimo de uma democracia, quando o respeito pela opinião alheia --por mais estranha que seja-- é a condição primeira e última de uma sociedade realmente livre.
Sem entrar no mérito da briga entre as duas Excelências, lembro que o STF, entre outras manifestações que honraram o Brasil no terreno da justiça e da liberdade, teve momentos de bravura no passado recente do país.
Jardel Noronha de Oliveira e Odaléa Martins publicaram, em 1967, um livro em três volumes intitulado "Os Grandes Julgamentos de 1964", entre eles, os processos no STF relativos a Café Filho, Seixas Dória, Parsifal Barroso, Ênio Silveira, Francisco Julião, Gregório Bezerra, Tenório Cavalcanti, Hélio Fernandes, Juscelino Kubitschek, Mauro Borges, Miguel Arraes e muitos outros.
Cronologicamente, o primeiro habeas corpus foi pedido por meu advogado, Nelson Hungria, livrando-me da Lei de Segurança Nacional no processo que me foi movido pelo então ministro da Guerra, general Costa e Silva. Ganhei por nove a um, mas continuei processado pela Lei de Imprensa vigente na época, pegando uma pena de seis meses. No caso da Lei de Segurança Nacional, a pena seria de 20 a 30 anos.
A sucessão de habeas corpus dada pelo Supremo Tribunal Federal alertou os militares. Logo que puderam, cassaram três ministros cujos votos eram sempre independentes: Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal.
Tanto no passado como no presente, o STF sempre deu provas de grandeza. Dos três Poderes da República, é o mais conceituado. Antes de ser uma instituição republicana, é um patrimônio moral do povo brasileiro. Deve ser respeitado e respeitar-se.

    domingo, 18 de agosto de 2013

    Confusão no país é geral, e a questão é onde está Amarildo - Carlos Heitor Cony

    folha de são paulo
    Gol contra
    RIO DE JANEIRO - Alguma coisa não está funcionando no Brasil --poderia dizer no mundo, mas fiquemos no Brasil, que está mais próximo da gente. Seria o caso de perguntar se não foi sempre assim, já tivemos até momentos piores, embora menos complicados.
    Dona Dilma aparece muito, em vários lugares e circunstâncias, garantindo que tudo está nos conformes. Acho que ela perdeu um pouco de seu rebolado.
    Não consegue domesticar sua base aliada, e a base não aliada também não consegue domesticar-se entre si --a confusão é geral e a grande incógnita do momento não é saber quem será candidato a candidato presidencial, a questão agora é saber onde está o Amarildo, que, por sinal, não é candidato a nada, a não ser a defunto.
    Se, no Executivo, as coisas estão complicadas, no Judiciário temos o Supremo complicadíssimo, não só no plenário, mas nas adjacências. O termo jurídico apropriado --e que foi usado abertamente-- limitou-se a "chicana". Nos botequins espalhados pelo território nacional, o termo seria outro e impublicável.
    O Legislativo não fica atrás em matéria de confusão e falta de decoro. A reforma política está seguindo a trajetória da reforma agrária, que nunca foi feita e era cláusula pétrea de todos os partidos e candidatos a qualquer coisa no país.
    O povo, bem, o povo reclama da corrupção e da vida em geral, é função histórica que ele cumpre com mau humor, mas nunca se ouviu dizer que esteja satisfeito. Já foi o tempo em que o problema da nação era saber onde estavam os ossos de Dana de Tefé. Agora, é saber onde está o citado Amarildo, em carne e osso ou somente em osso.
    Por Júpiter! A coisa está feia. O herói nacional é um argentino que aconselha a se botar mais água no feijão. E o Brasil perde até para a Suíça. Por gol contra.

      terça-feira, 13 de agosto de 2013

      Carlos Heitor Cony

      folha de são paulo
      Os cartéis do Abrantes
      RIO DE JANEIRO - Num filme do qual não guardei o nome, um empresário está para falir e ser preso, fez imensa fortuna obtendo empréstimos cujas garantias eram os próprios empréstimos. Além disso, descobre que a mulher o trai e propõe a fuga para um país distante e com legislação econômica mais amena.
      A mulher atira-lhe na cara o fato de estar arruinado e em processo de prisão. O empresário, sabendo o que diz, responde que há muito dinheiro solto rolando pelo mundo, em poucos meses poderá recuperar tudo sem muito esforço. O filme é relativamente antigo, acho que de 1992, nada tem a ver com o caso que estourou agora no Brasil, mas cujos ingredientes são mais ou menos contemporâneos do cartel atribuído a uma companhia alemã e que, direta ou indiretamente, envolve governos paulistas daquele tempo.
      Evidente que sempre rolou dinheiro solto no mundo inteiro e, paradoxalmente, em tempos de crises econômicas. Sob o pretexto de enfrentar a recessão, os governos anunciam planos mirabolantes, desde a transposição de imensos rios até o reaparelhamento dos sistemas de transportes urbanos, incluindo trens, metrô, novos aeroportos, o diabo.
      Como se trata de governos honestos, são feitas complicadas licitações, na base do superfaturamento, mas as cartas estão previamente marcadas, os interessados sabem que, unidos, jamais serão vencidos. É o cartel. Todos ganham, inclusive os governos que obtêm assombrosos recursos para financiar campanhas eleitorais. Além dos intermediários.
      O empresário falido e corno que citei no início desta crônica conhece o mapa da mina. Sabendo que em determinado país serão feitas pirâmides gigantescas, nem espera as licitações que ele mesmo faz, juntando-se a outros empresários não necessariamente falidos e cornos.

        domingo, 11 de agosto de 2013

        Carlos Heitor Cony

        folha de são paulo
        Mistérios do massacre
        RIO DE JANEIRO - Escrevo esta crônica para abordar um caso que ainda não está encerrado nem apurado. Na última segunda-feira, na Vila Brasilândia, na zona norte da cidade de São Paulo, uma família de cinco pessoas foi assassinada. No momento, há duas linhas de investigação que mobilizam a polícia e que, na realidade, estão chocando o Brasil inteiro.
        Primeira linha: um menino de 13 anos, filho de um casal de policiais, mata o pai que estava dormindo e mata a mãe, que, de certa forma, tentou reagir ao crime. Logo depois, o mesmo menino mata a avó e a tia-avó, que também estavam dormindo, numa casa anexa. Usa uma pistola profissional, cujo coice pode derrubar o atirador. Vai (ou não vai) à escola, horas depois volta ao local do crime e se suicida com a mesma arma.
        Segunda linha de investigação: a mãe do menino, cabo da polícia, teria delatado alguns colegas ligados a bandidos especializados em assaltar caixas eletrônicos e de cometer outros crimes paralelos. Em represália, os criminosos decidiram acabar com a família inteira.
        O caso, nas duas hipóteses, até agora tem mais furos do que um queijo suíço. Não explica nem convence ninguém. Espera-se que as autoridades paulistas desvendem as incoerências de ambas as versões. De qualquer forma, para todos nós que formamos a população brasileira, o massacre da Vila Brasilândia revela um estágio da nossa sociedade que nos deprime e irrita.
        Tanto a hipótese do garoto de 13 anos que matou quatro pessoas (pai, mãe, avó e tia-avó) como a da vingança de policiais que exterminaram a família de uma colega que teria delatado os bandidos incrustados na própria polícia servem para uma reflexão amarga sobre os tempos em que vivemos.
        Num e noutro caso, temos motivos para duvidar dos valores da sociedade da qual fazemos parte.

          terça-feira, 6 de agosto de 2013

          Carlos Heitor Cony

          folha de são paulo
          Luiz Paulo Horta
          RIO DE JANEIRO - Não dá para entender, embora seja a única verdade daquilo que chamamos "vida". Nem adianta, como no caso do acadêmico Luiz Paulo Horta, falecido subitamente no último sábado, argumentar com a sua discutível condição de "imortal", uma piada macabra que acompanha acadêmicos de várias latitudes.
          O fato é que um dos trancos mais difíceis de suportar é quando um dos imortais que penetrou em nossa intimidade, sem aviso prévio nem tardio, paga seu tributo à fada que nos espera em algum lugar, em algum tempo e modo, fada que para muitos é considerada uma bruxa mesmo sem vassoura e nariz adunco, uma fada verde como o absinto que matou tantos poetas e artis- tas que tentaram esquecer a condição mortal de todos nós, poetas ou não, no ajuste final e, aqui entre nós, inevitável.
          Horta começou a vida tentando aprender a tocar acordeão. Não era uma boa promessa, mas ele sabia, ou melhor, intuía, que o destino dele estava na música, que o levaria à religião. Bach, Beethoven e Mozart de um lado, os intelectuais que no fim do século 19 e início do século 20 se voltaram para a religião, fizeram de Horta o homem que conhecemos e admiramos.
          Nunca resvalou para um proselitismo que não o agradava, como jornalista, e principalmente como escritor. Neste ponto, não imitava Jackson de Figueiredo nem mesmo o mestre Alceu Amoroso Lima, que tinham alguma coisa de polemistas no panorama de nossa realidade intelectual.
          Antes de ser um servidor de sua religião, e amante compulsório da música, Horta foi, sobretudo, um humanista em seu sentido pleno e nunca saciado. Chego ao atrevimento de considerá-lo uma espécie de santo que não cheirava a incenso, mas quando sorria (e sorria sempre), mostrava um pouco que não era deste mundo.

          domingo, 4 de agosto de 2013

          Carlos Heitor Cony

          folha de são paulo
          Gatos-pingados
          RIO DE JANEIRO - Quando tomou posse na prefeitura carioca (mais tarde seria governador), Negrão de Lima arregalou os olhos quando os técnicos em urbanismo informaram-lhe que havia 8 milhões de ratos na cidade. Perguntou: "Como é que vocês contaram?".
          No Carnaval, em certos eventos e no Réveillon, a mídia chuta números astronômicos. Agora, na visita do papa, a informação geral foi que na praia de Copacabana havia 3 milhões de "peregrinos" numa das cerimônias. Recebi do leitor Peter Bauer uma carta esclarecedora:
          "Praia de Copacabana. Comprimento: 4.000 metros. Largura média: 100 metros. A mídia local contagiou a mídia estrangeira, mantendo em uníssono que 3 milhões de fiéis estavam na praia, todinhos ao mesmo tempo! No sábado, 27 de julho. Sem descontar os obstáculos que diminuem a área total (palco, restaurantes, quiosques, barracas, facilidades públicas etc.), o simples cálculo é que se a densidade média de cada m² da área fosse de três pessoas por m², o total poderia chegar a 1,2 milhões.
          Claro que, na prática, a densidade três só se dá perto do palco, sendo que, depois de um certo raio, o grau de densidade diminui progressivamente para até menos de um.
          Um ex-pesquisador suíço com conhecimento de causa afirma que, nesse dia, teve 560.000 [pessoas], margem de 30.000 para mais ou para menos. Também disse que o recorde dos últimos 20 anos foi no Réveillon de 1999-2000, com quase 700.000."
          Em 1964, quando lancei na Cinelândia o livro de crônicas "O Ato e o Fato", que escrevia no "Correio da Manhã" contra o regime militar instalado naquele ano, o mesmo jornal informou que havia 3.000 pessoas na praça, incluindo as escadarias da Biblioteca Nacional e do Theatro Municipal. Os jornais que apoiavam a ditadura garantiram que só havia 18 gatos-pingados.

            terça-feira, 30 de julho de 2013

            Receita de mãe - Carlos Heitor Cony

            folha de são paulo
            RIO DE JANEIRO - Muito boa, antológica, a entrevista [aqui e aqui] que o papa Francisco concedeu ao Gerson Camarotti, merecedora de um prêmio especial por vários motivos, pelo entrevistado e pelo entrevistador.
            Há 2.000 anos, são raríssimas as entrevistas pessoais com os chefes da Igreja Católica. Não havia veículos de transmissão e, quando surgiram jornais, revistas, rádio e TV, continuaram raríssimas. Para falar a verdade, só me lembro de três.
            Viajei com João Paulo 2º duas vezes. Bati papo com ele, mas não foi uma entrevista. Ele contou que havia aprendido a dizer em português "aquele abraço". Perguntou se colava mal repetir a saudação em seus pronunciamentos oficiais. Não me deu conselho al-gum, mas o pediu a um pecador, agnóstico profissional.
            Papa Francisco respondeu com sinceridade e coragem a todas as perguntas do Gerson. Na edição da entrevista, houve inserções dos seus pronunciamentos públicos, inclusive o que me pareceu mais veemente, quando exigiu que os jovens continuassem a protestar em todo o mundo contra uma sociedade injusta e violenta. Chegou a dizer, em público e na entrevista pessoal, que o jovem calado não é do seu agrado.
            Reconheceu os pecados da igreja, ele próprio se admitiu pecador. Não será fácil reformar a Cúria Romana, poderá até se tornar trágico --já houve precedentes ao longo da história.
            A sua primeira visita internacional foi mais do que um sucesso. Ele chegou a pedir desculpa ao prefeito do Rio pela "bagunça" que provocou na cidade. A culpa não foi dele, mas das autoridades locais, que se mostraram incompetentes para enfrentar um even- to de nível mundial.
            A palavra que Francisco mais falou na entrevista foi "proximidade". A mãe que segura o filho no colo e fala com ele no peito, e não por meio de cartas e homilias. Valeu.

              domingo, 28 de julho de 2013

              O papa e o povo - Carlos Heitor Cony

              folha de são paulo
              RIO DE JANEIRO - Por motivo de edição, escrevo esta crônica dois dias antes de terminar a Jornada Mundial da Juventude. Não dá para fazer um comentário completo, mas já tenho alguns elementos para um juízo pessoal e, tanto quanto possível, isento do grande evento que o Rio está vivendo.
              Comecemos pelas falhas: aquela chegada do papa no trajeto entre o Galeão e a catedral. Falhou tudo. Os batedores estavam em outra pista, o carro ficou totalmente bloqueado, dando sopa para um incidente, atropelamento de fiéis, brigas com os seguranças, sem falar na possibilidade de um atentado. Nota zero para os organizadores do roteiro.
              Uma despesa fenomenal foi feita em Guaratiba, que seria o local da acolhida oficial do papa. A chuva fez da esplanada um lamaçal e a cerimônia teve de ser transferida para Copacabana. Os promotores do evento não levaram em conta a possibilidade de uma chuva constante --a despesa foi feita, inclusive com a construção de um altar bem bolado. Tudo inútil.
              É bem verdade que as falhas poderão alertar as autoridades nos próximos eventos mundiais. Os latinos diziam que é errando que se aprende. Fifa, Comitê Olímpico e o governo anfitrião da Copa e da Olimpíada devem prever alternativas para que tudo corra bem e sem despesas inúteis.
              Agora, dois sucessos que devemos registrar com alegria: o papa e o povo. O povo já tem tradição de festa, desde os tamoios que ficaram assanhadíssimos quando aqui chegaram as caravelas.
              O papa foi uma surpresa. Aguentou firme as cerimônias, caiu no gosto de todos, foi simples, não fez proselitismo explícito e abriu espaço para o bom humor, falando na água do feijão e no ódio que o carioca tem do frio e da chuva. Obrigou o craque Oscar Schmidt, campeão de basquete, a declarar, a partir de agora, o seu amor definitivo por um argentino.

                sábado, 27 de julho de 2013

                Esperar do papa uma ruptura com o dogma católico é burrice - Carlos Heitor Cony

                folha de são paulo
                OPINIÃO
                MUITOS PAPAS SE TORNARAM NOTÁVEIS COMO POLÍTICOS E DIPLOMATAS, MAS ESSE PAPEL FOI ESVAZIANDO-SE MAIS E MAIS
                CARLOS HEITOR CONYCOLUNISTA DA FOLHAThomas Mann, após receber o Prêmio Nobel pelo lançamento de "A Montanha Mágica" e ser considerado o maior escritor alemão depois de Goethe, visitou o papa Pio 12 e foi recebido como um chefe de Estado.
                Estranhamente, ao se aproximar do ex-cardeal Pacelli, que fora núncio apostólico em Berlim durante a ascensão do nazismo, o escritor se ajoelhou diante da magra e hierática figura daquele que tem o seu pontificado discutido e até amaldiçoado por muitos.
                Evidente que a mídia da época não o perdoou. A foto do escritor consagrado (e até amado), de joelhos diante do papa polêmico, escandalizou a inteligência da época e até hoje parece esquisita, ou pelo menos estranha. Criticado pela sua atitude dentro e fora da Alemanha, ele se explicou: "Ajoelhei-me diante do ícone branco do Ocidente".
                Bem ou mal, a história da igreja é a própria história ocidental no que ela tem de bom ou reprovável. E foi diante desse símbolo que transcende a contingência de um indivíduo e da sua época que Thomas Mann adotou não a postura de um crente, mas a de um humanista que pressentia a barbaridade que o mundo em breve atravessaria.
                Bem verdade que o mundo moderno desbastou em parte a figura de ícone, de rei dos reis e soberano em seus pronunciamentos e decisões.
                Muitos papas se tornaram notáveis como políticos e diplomatas, dirimiram questões delicadas no cenário mundial, aliviaram tensões através de gestões muitas vezes sigilosas (basta lembrar a importância de João Paulo 2º e do presidente Ronald Reagan no esfacelamento da antiga União Soviética).
                Mas esse papel político-diplomático foi perdendo importância, esvaziando-se mais e mais.
                Afinal, como disse Stálin, o papa não tem divisões de infantaria e artilharia nem dispõe de um arsenal atômico. Mas, como acentuou Andrew M. Greeley, "paradoxalmente, foi o fato de perder o seu tradicional papel político e diplomático que acabou valorizando o papa perante os donos temporais da Terra: a liderança religiosa, pura e simples, acabou por ter enorme impacto político".
                Pulando do plano da grande história para os dias recentes, temos agora um papa entre nós, recebendo homenagens e até veneração para desespero daqueles que, alegando o fato de ser o Brasil um estado laico, dizem que não se devia dar tanto espaço e dinheiro para receber o chefe supremo de uma religião que não representa a fé e o modo de outras religiões praticadas por grande parcela do povo brasileiro.
                Curiosamente, quando Fidel Castro recebeu a visita de João Paulo 2º, fez tudo o que outros países costumam fazer: não só recebeu o visitante oficialmente, dentro e fora dos protocolos habituais, mas participou, de corpo presente, da missa rezada pelo papa ao lado de um amigo que não era cubano nem católico, o escritor Gabriel García Márquez. O mesmo aconteceu nas visitas de Bento 16 a países laicos e não laicos.
                Questiúnculas à parte, o que sobra é o futuro que, de certa forma, pode ser melhorado ou piorado pela liderança espiritual de um homem que dá os primeiros passos no cenário mundial.
                Esperar do papa Francisco uma ruptura com o dogma e a moral do cristianismo em sua versão católica é mais que um despropósito: é uma burrice. Ele está comprometido pela fé e pelo seu estado sacerdotal com um corpo de doutrinas que atravessou mais de 2.000 anos e pelo qual foi eleito não democraticamente, mas legitimamente pelos representantes da comunidade católica universal.
                Em 1980, acompanhei a primeira visita de João Paulo 2º ao Brasil. Por interferência de dom Eugênio Sales, fiz parte da comitiva papal e guardei profissionalmente, como jornalista, as impressões de sua passagem por 13 cidades brasileiras.
                O que me ficou não teve nada com a visita em si. Ao voltar para Roma, após um passeio pelo rio Amazonas que o deslumbrou, a um grupo pequeno de jornalistas que o rodeavam em sua cabine no avião da Alitalia o papa, em certo momento, desabafou: "Depois de tudo o que vi e ouvi, nem sei ao certo o que devo fazer em Roma".

                  terça-feira, 23 de julho de 2013

                  Carlos Heitor Cony

                  folha de são paulo
                  Lembrando João de Deus
                  RIO DE JANEIRO - O primeiro papa a visitar o Brasil foi João Paulo 2º, em 1980. Por indicação de dom Eugenio Sales, então arcebispo do Rio de Janeiro, fui incluído, como jornalista, na comitiva oficial do papa, fazendo todo o percurso que começou e terminou em Ro- ma, após longa visita a várias ca-pitais brasileiras.
                  Já no avião da Alitalia à disposição do pontífice, recebi de dom Romeo Panciroli, secretário de Imprensa do Vaticano, a cópia do primeiro discurso que o papa faria no Brasil. Antes, evidentemente, ele cumpriria o cerimonial diplomático, sendo recebido em Brasília pelo presidente da época, João Figueiredo, que lhe deu as boas-vindas protocolares reservadas aos chefes de Estado. Após os encontros oficiais, ele iniciou sua visita pastoral, indo ao encontro dos presos na penitenciária da Papuda.
                  O Brasil engatinhava lentamente na senda da abertura política, a mídia internacional noticiava com frequência a repressão militar, com atos de tortura, assassinatos e prisões lotadas de contestadores do regime. Parcela importante da sociedade civil criticava o encontro do papa com o último general da ditadura. Justamente por isso, João Paulo 2º fez seu primeiro pronunciamento como pastor numa penitenciária da própria capital do Brasil.
                  Ainda a bordo do avião da Alitalia, li em versão bilíngue o discurso, que publiquei na revista em que trabalhava, e depois, no livro-álbum "Nos passos de João de Deus", lançamento das Edições Bloch, com as fotos que Arturo Mari, fotógrafo oficial do papa, me cedeu com parcial exclusividade.
                  Emocionou-me um trecho que agora transcrevo: "A visita que ora vos faço, embora breve, significa muito para mim. É a visita de um pastor no gesto de procurar com mais desvelo a sua ovelha e ficar alegre por encontrá-la".

                    domingo, 21 de julho de 2013

                    'Un certo cardinale...' - Carlos Heitor Cony

                    folha de são paulo
                    RIO DE JANEIRO - Perguntado sobre o maior defeito da mídia, respondi que era a redundância. Quando há uma pauta relevante, todo mundo escreve ou comenta a mesma coisa. Temos agora o papa Francisco, que está para chegar ao Rio. Todos os escribas já escreveram sobre o assunto.
                    É um homem humilde, que andava de metrô e ônibus pelas "calles" de Buenos Aires, é amigo de Messi, torcedor do San Lorenzo e fã de Francisco Canaro "y su orquestra típica". Sabe todos os tangos de Gardel e Libertad Lamarque. É amigo dos judeus e rabinos.
                    Vou engrossar o assunto. Um sujeito foi a Roma para falar com o papa. Tinha feito um casamento desastroso e queria anulá-lo, informaram-lhe que somente o papa poderia fazê-lo, após demorado processo no Vaticano.
                    Chegando à cidade eterna, procurou com desespero um jeito de chegar à Sua Santidade. Indicaram-lhe um cara que conseguia tudo, os melhores contatos com as autoridades, os melhores restaurantes e museus, sobretudo, as melhores mulheres e os melhores travestis para qualquer gosto.
                    Encontrou o cafetão, que lhe mostrou fotos das mais famosas profissionais da "dolce vita", acrescentando detalhes: "Esta tem 15 anos, virgem, faz tudo... 2 mil euros...". O sujeito ia recusando todas até que o cafetão perdeu a paciência: "Ma lei cosa vuole?" (o que você quer?).
                    O sujeito foi claro. Queria falar com o papa, só com ele. O cafetão pensou um pouco. Nunca lhe haviam feito pedido de tamanha envergadura. Pensou ter ouvido mal e perguntou de novo. Recebeu a mesma resposta:
                    -- Voglio il papa!
                    -- Il papa???
                    -- Sì. Il papa!
                    Abaixando a voz, o cafetão disse:
                    --Il papa? Il papa é troppo difficile... ma, un certo cardinale...

                    terça-feira, 16 de julho de 2013

                    Carlos Heitor Cony

                    folha de são paulo
                    Segredos do tempo do onça
                    RIO DE JANEIRO - A revelação de documentos secretos do governo dos Estados Unidos sobre a política da América Latina continua provocando injustificáveis preocupações.
                    Mencionei, nesta coluna, o telegrama da CIA sobre uma visita que Juscelino Kubitschek fez, no dia 29 de março de 1964, ao general Jair Dantas Ribeiro, ministro da Guerra de Jango, que seria deposto dois dias depois. O general internara-se num hospital com uma crise renal, nem ele nem JK estavam envolvidos nas manobras que resultaram no golpe daquele ano.
                    Luthero Vargas, filho do presidente, escreveu o livro "Getúlio Vargas - A Revolução Inacabada" (Bloch, 1988), narrando episódios domésticos do Palácio do Catete, inclusive o mais importante de todos. Após o atentado da rua Toneleros, em 1954, a CIA praticamente invadiu o Rio de Janeiro, rastreando qualquer indício que colocasse Vargas fora do poder.
                    Oficiais da Aeronáutica, monitorados por elementos da CIA, blindaram o Catete com a tecnologia da época, que já incluía equipamentos ainda fora do mercado.
                    O mesmo fora feito na Guatemala, também naquele ano, quando o coronel Carlos Castilho Armas, agente ostensivo da CIA, promoveu o golpe que depôs o presidente Jacobo Arbenz Guzmán, que havia desapropriado as principais companhias norte-americanas que exploravam as bananeiras daquele país.
                    Voltando a Vargas: os jornais noticiaram que Maneco, um de seus filhos, era sócio de Gregório Fortunato num campo gaúcho. Vargas chamou o filho. Numa varanda interna do palácio, e sem a presença de ninguém, perguntou a ele se era verdade. Maneco confirmou.
                    Naquele momento (imediatamente comunicado a Washington), o pai abaixou a cabeça e se afastou do filho. Segundo Luthero, a partir de então Vargas não mais lutou nem pelo governo nem pela vida.

                      domingo, 14 de julho de 2013

                      Carlos Heitor Cony

                      folha de são paulo
                      Pelas barbas da história
                      RIO DE JANEIRO - Para complicar ainda mais o cenário nacional, a CUT e a nave-mãe que é o PT decidiram aproveitar a onda de protestos que nasceu meio misteriosamente, mas desvinculada de qualquer caráter partidário, apresentando suas reivindicações de forma inédita no país. As ruas reclamaram, principalmente contra a corrupção instalada na máquina do poder. E melhorias nos serviços essenciais do Estado: saúde, educação, segurança etc.
                      Entre os milhares de cartazes que desfilaram, não havia um só pedindo aumento de salários e melhores condições trabalhistas. Pela primeira vez, acredito, o povo invadiu as ruas exigindo um país melhor, mais justo e, sobretudo, sem corrupção.
                      A entrada da Central Única dos Trabalhadores nas atuais manifestações populares tem, evidentemente, razões até históricas para reclamar e promover passeatas, comícios e até greves. Só que, desta vez, o furo foi mais em cima. É a sociedade como um todo, com todas as suas classes e problemas, que decidiu cobrar do Estado os direitos que sucessivos governos esnobaram de uma forma quase cínica.
                      PT e CUT querem pegar uma casquinha num movimento, talvez o maior que o país já teve, puxando a sardinha para o saco de seus méritos. O diferencial do movimento classificado como Passe Livre (o nome não exprime o significado das passeatas) foi justamente o fato de que nasceu espontaneamente, com a juventude, as redes sociais e a internet criando e alimentando os protestos.
                      Até mesmo a mídia, que, de uma forma ou de outra, alimentava ou apoiava movimentos populares, desta vez ficou a reboque, limitando-se ao óbvio: publicando o que todos víamos nas ruas. Admito que há um mistério até agora não detectado pelos entendidos. Levará algum tempo até que cheguemos a compreender a história que está sendo feita sob nossas barbas.

                        domingo, 7 de julho de 2013

                        Carlos Heitor Cony

                        folha de são paulo
                        Plebiscito sobre plebiscito
                        RIO DE JANEIRO - Não sabemos se a ideia do plebiscito foi de dona Dilma ou de algum assessor dela.
                        De qualquer forma, foi ingenuidade ou esperteza para ganhar tempo e deixar arrefecer os protestos das ruas.
                        Impossível que não houvesse uma alma para lembrar que a sugestão seria impraticável pela sua complexidade e falta de tempo.
                        Uma vez invocado o recurso, que vem lá de trás, do direito romano, seria o caso de convocar um plebiscito para que o povo se manifestasse sobre a necessidade ou não de um referendum.
                        Seria uma consulta viável. Plebiscito ou referendum foram fei- tos para provocar respostas pre- cisas: sim ou não.
                        Foi assim quando o povo decidiu sobre a Monarquia ou a República, sobre o parlamentarismo ou o presidencialismo, sobre a venda de armas. Com a resposta do povo, que seria rápida e bastante, dona Dilma poderia partir para a etapa seguinte, fazendo um mix das medidas (ou pactos) que acalmasse o povo.
                        Algumas das propostas da pre- sidente Dilma Rousseff, como o fim do voto secreto nas eleições do Congresso Nacional, a ficha limpa para que qualquer cidadão possa exercer função pública e os royalties do petróleo poderiam até ser objeto de emen- das constitucionais.
                        Onde a porca torce o rabo é na mais importante e necessária rei- vindicação popular: a reforma polí- tica. Não poderia ser respondida com um sim ou um não.
                        O próprio governo, com ou sem a colaboração do Congresso Nacional e/ou do Supremo Tribunal Federal, proporia a reforma política em todos os seus meandros.
                        Aí sim, seria convocado não um plebiscito, mas um referendum em que o povo aprovaria ou não a proposta da reforma política, na base do sim ou do não.

                        terça-feira, 2 de julho de 2013

                        Carlos Heitor Cony

                        folha de são paulo
                        A mídia perde o bonde
                        RIO DE JANEIRO - À margem dos comentários provocados pelos últimos acontecimentos em todo o país, que, apesar de redundantes, atingiram a mídia internacional, pode-se chegar a uma constatação periférica. As manifestações e reivindicações que o povo, principalmente os jovens, levou para as ruas e praças foram criadas e operadas pelas redes sociais, que podem ser comparadas aos icebergs: a parte maior fica submersa, o que se torna visível é a pequena porção de um obstáculo que pode destruir não apenas um titânico navio, mas todo um sistema político.
                        Até então, era a mídia impressa que criava e orientava os grandes movimentos populares. Bastaria lembrar os mais recentes: o impedimento de um presidente da República, a luta pelas Diretas-Já e até mesmo a morte de Vargas e o golpe de 1964 foram produzidos pela indignação da imprensa prontamente transmitida ao povo.
                        Com a crescente propagação dos sites e blogs, o poder de mobilizar a população foi transferido para a internet, onde cada cidadão, sem necessidade de qualquer habilitação ou representação, pode expressar a sua cólera contra toda instituição, grupo ou indivíduo.
                        Não há manuais de Redação ou leis específicas que possam patrulhar o descontentamento que, quando é geral, transforma-se em manifestações que paralisam o país, confundem o governo e podem até provocar o vandalismo de alguns.
                        O universo virtual criado e gradativamente aumentado pela internet (que ainda está atravessando sua idade da pedra) fez a mídia autorizada (jornal, rádio e TV) perder o bonde da história.
                        Não há mais a oportunidade para um só título ("J'accuse!") mudar o rumo de uma infâmia nacional. Temos agora milhares de Zolas capazes de acusar os abusos e os crimes contra o povo.

                        domingo, 30 de junho de 2013

                        Carlos Heitor Cony

                        folha de são paulo
                        Ganhando tempo
                        RIO DE JANEIRO - Não acreditei no que ouvi. Mudei de canal para confirmar. Dona Dilma, muito bem produzida, continuava falando e repetiu o que eu julgara impossível: acuada pelas manifestações das ruas, ela propunha uma "constituinte específica".
                        Reduziu as exigências feitas pelas multidões em todo o país a alguns pontos também específicos. Para resolvê-las, prometeu uma constituinte "ad hoc". Nem mesmo Swift, nem Voltaire, nem Rabelais, que imaginaram povos e países absurdos, pensaram numa solução igual. Para cada problema específico, uma lei magna também específica.
                        O comentário mais gentil que recebeu, de um jovem manifestante que ela convocou para tentar um diálogo com representantes da massa, foi definitivo: o estudante considerou a nossa presidente "despreparada".
                        Eu acreditava que dona Dilma --que dispõe de 39 ministros, dos quais não sabe o nome de todos, além de assessores também específicos nos vários setores de um governo que não é específico porque é geral, e cuja gestão inclui o universo dos problemas e desafios de quase 200 milhões de brasileiros-- tivesse ao lado uma santa alma para adverti-la sobre a besteira (o nome é duro, mas é este mesmo) de sua proposta.
                        Ainda bem que, no dia seguinte, teve a sabedoria de recuar. Evidente que se trata de uma senhora ilustre e prendada, mas a impressão que deu, ao tentar propor uma solução específica para uma situação que nada tem de específica, foi a da banalidade de ganhar tempo, deixar o ânimo das ruas esfriarem, esperar uma catástrofe natural para desviar a tensão popular e continuar sua famosa gestão com 39 cogestores.
                        Qualquer situação mais séria e ela terá o remédio engatilhado: uma constituinte específica que especificamente lhe dará tempo para resolver até mesmo a quadratura do círculo.

                          terça-feira, 25 de junho de 2013

                          Carlos Heitor Cony

                          folha de são paulo
                          O funeral de César
                          RIO DE JANEIRO - Nunca tantos estiveram dizendo a mesma coisa por motivos diferentes. A começar pelos editoriais da mídia e a terminar com a fala presidencial de dona Dilma, que leu sem quase emoção um texto que escreveram para ela. E, pensando bem, usou e abusou das mesmas palavras e conceitos que os ditadores do outro lado do mundo usaram por ocasião da Primavera Árabe.
                          Em resumo: toleramos os protestos pacíficos, mas repudiamos o vandalismo de alguns manifestantes. As mesmas palavras que os dirigentes da República de Weimar usavam para condenar as primeiras manifestações do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), que instalou o nazismo naquele país.
                          Curiosamente, pouco mais tarde, o próprio Hitler, em Nuremberg, num comício-monstro, disse mais ou menos a mesma coisa. E, uma vez no poder, copidescou a frase, proibindo e punindo qualquer manifestação das ruas. Não fez por menos: atribuiu qualquer descontentamento popular ao poder do judaísmo internacional, que manobrava contra o seu regime.
                          Os latinos diziam que toda comparação claudica, mas tem um fundo de verdade. No caso atual da nossa vida pública, apesar de tudo, seria forte demais comparar o PT com os nazistas. Quem conhece a ascensão do partido soberano e único na Alemanha dos anos 20 e 30 do século passado encontrará algumas semelhanças de meios e modos com a ascensão do PT em nossa realidade política e social.
                          É bom visitar o passado para compreender o presente --perdão pelo clichê. Depois do famoso discurso de Marco Antônio no funeral de César, o povo saiu pelas ruas de Roma depredando tudo. Vandalismo total. Matou até mesmo um poeta (Cinna) pelos seus maus versos. E os assassinos de Cesar ("Brutus and the rest") eram todos homens honrados.

                            domingo, 23 de junho de 2013

                            O bolo e a sopa - Carlos Heitor Cony

                            folha de são paulo
                            RIO DE JANEIRO - Concordo com o cronista Antonio Prata quando disse, em coluna nesta Folha, que precisamos admitir uma verdade: ninguém está entendendo nada. Exemplo: muita gente, sobretudo no governo, acreditou que os protestos nas ruas de todo o Brasil foram motivados pelo aumento de 20 centavos nos transportes públicos.
                            Por causa disso, manifestantes em Brasília depredam o Itamaraty, no Rio atacam a prefeitura, em Ribeirão Preto um rapaz é morto, ônibus e carros são incendiados em várias cidades.
                            Eisenstein, em seu "Encouraçado Potemkin", fez a revolução russa começar no cais de Odessa, com o corpo de um marinheiro assassinado "por causa de uma sopa". Para início de história, não estava errado. A Revolução Francesa não começou com Maria Antonieta mandando o povo comer bolos.
                            Antes da tomada da Bastilha, data oficial do movimento, já tinha havido a convocação dos Estados Gerais (nobreza, clero e povo) e os enciclopedistas, tudo estava pronto para um Robespierre inaugurar o terror com a tecnologia da época fornecida pelo dr. Guillotin.
                            Espero que esteja exagerando, mas essas coisas costumam acontecer. Principalmente quando não há uma liderança visível, uma causa específica para provocar um tumulto.
                            O normal seria que, de um lado, houvesse um grupo responsável pelos protestos e, de outro lado, um grupo para negociar ou abrir um caminho para a normalização da vida pública.
                            Seria o caso de a presidente Dilma não apenas lamentar a indignação popular, mas fazer por onde. Na semana passada, o senador Cristovam Buarque acentuou a falta de uma liderança na crise que atravessamos. Sem ironia, disse que só há um nome forte no atual panorama nacional: é de um cidadão suíço, Joseph Blatter, presidente da Fifa.

                              terça-feira, 18 de junho de 2013

                              Carlos Heitor Cony

                              folha de são paulo
                              "Penne arrabbiata"
                              RIO DE JANEIRO - Um conhecido de vista e chapéu, como aquele cara que Dom Casmurro encontrou num trem da Central, mesmo sem chapéu, me cumprimentou e perguntou se podia bater um papo. Como as donzelas dos romances antigos, não gosto de conversar com estranhos, mas topei a liberdade e ele sentou-se na mesa onde, sozinho, eu almoçava um "penne arrabbiata".
                              "O senhor sabe quem está por trás dos atos de vandalismo em São Paulo e em outras cidades brasileiras?"
                              Ia responder que não, nem queria saber, mas o homem já tinha começado: "Tenho lido o que a mídia está dizendo a respeito. Os entendidos são unânimes em afirmar que o movimento é organizado, e não espontâneo, como a vaia que deram na presidente no estádio de Brasília. Sendo possível ou sendo verdade, quem estaria interessado em bagunçar a paz da sociedade brasileira?".
                              E continuou:"Nenhum dos partidos existentes. Em 64, as marchas por Deus e pela democracia eram coordenadas e financiadas pelo dinheiro do trigo que o embaixador Lincoln Gordon desviava para armar uma situação que justificaria a intervenção dos Estados Unidos, que já tinham mandado uma esquadra para garantir a invasão".
                              "A quem interessa uma ruptura do regime democrático que, bem ou mal, estamos mantendo? Não temos nem o ouro de Moscou nem o dinheiro dos cubanos que sonhavam com uma nova Sierra Maestra. O PT, especializado em orquestrar a voz das ruas, faria tudo para se conservar no poder. Os evangélicos, os gays, os ecologistas?"
                              "Com a Comissão da Verdade ameaçando chegar aos torturadores do regime de 1964, com a repulsa aos militares que estão sendo chutados como cães atropelados, qual o grupo interessado em virar a mesa?"
                              O sujeito foi embora e eu perdi a vontade de comer o meu "penne arrabbiata".

                                domingo, 16 de junho de 2013

                                Carlos Heitor Cony

                                folha de são paulo

                                Uma lição do passado


                                RIO DE JANEIRO - O grande assunto da semana que passou foram os protestos, que se tornaram atos de vandalismo, em São Paulo e no Rio de Janeiro principalmente, e até tiveram repercussões internacionais. Não irei comentá-los, seria uma redundância, mas vou lembrar um momento do passado.
                                Governo de JK (1956-1961). Por duas vezes, oficiais da Aeronáutica tentaram golpes, em Jacareacanga e Aragarças, levaram armas, aviões e deitaram manifestos, exigiam a deposição do presidente e convocavam o povo para uma guerra civil. Juscelino não usou a força para combater os revoltosos. Passada a crise, anistiou todos os oficiais envolvidos no golpe. Praticamente, não perdeu uma noite de sono por causa deles.
                                Em meio de seu mandato, estoura um movimento no Rio: estudantes ligados à UNE, a pretexto de um aumento nas passagens dos bondes, imobilizam a cidade, deitando nos trilhos da Light e exigindo um recuo do governo que autorizara as novas tarifas.
                                Ao contrário de Jacareacanga e Aragarças, JK passou duas noites sem dormir. Com seu instinto político, sabia que a paralisação do principal meio de transporte numa grande cidade, mesmo sem atos de vandalismo, representava sério perigo para seu governo.
                                Convocou a liderança da UNE, serviu cafezinho e água gelada aos estudantes e colocou a questão de forma simples: "Se vocês continuarem o movimento, eu serei deposto e vocês serão presos. É isso o que vocês querem?".
                                Nem houve debate nem consulta às bases. Os estudantes liberaram os trilhos, os bondes voltaram a circular. Duas rebeliões militares foram esvaziadas, não havia apoio da
                                população para um golpe de Estado. A paralisação pacífica dos bondes numa só cidade fez JK arrumar a mala para ir embora. O episódio consta de suas memórias.
                                Carlos Heitor Cony
                                Carlos Heitor Cony é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no "Jornal do Brasil". É autor de 15 romances e diversas adaptações de clássicos.