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domingo, 4 de agosto de 2013

Os pensamentos imperfeitos de um selvagem - @alvaromarechal

folha de são paulo
A literatura de Rubem Fonseca chega aos 50 anos
ALVARO COSTA E SILVARESUMO Em 1963, o ex-delegado lançou seu 1º título, o volume de contos "Os Prisioneiros", iniciando uma obra que conquistou leitores e seguidores com seu registro seco da violência. O autor prepara novo livro e perdura como influência na literatura urbana brasileira, apesar das críticas negativas à sua produção recente.
"A condessa Bernstroff usava uma boina onde pendurava uma medalha do kaiser. Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia." Com essas linhas se abre "Fevereiro ou Março", primeiro conto de "Os Prisioneiros", livro inaugural da obra de Rubem Fonseca, que completa 50 anos.
Em outubro de 1963, começava com elas a "literatura brutalista" e o "realismo feroz"que se estenderiam sobre gerações posteriores de influenciados --e de imitadores. "Sabe-se que Rubem Fonseca, ao contrário dos discípulos, não se repetiu por afagos constantes ao vitorioso estilo inicial, tornando-o vicioso e viciado. O ficcionista se distancia dele para se tornar complexo e inimitável", avalia o crítico e escritor Silviano Santiago.
Como um de seus personagens prisioneiros de si mesmos, mas sobretudo da arte de narrar, Rubem Fonseca continuou escrevendo, sem ligar para estragos ou conquistas. Aliás, continua: uma nova coletânea de textos breves, a 14º da carreira, está no forno.
"Amálgama" deve chegar às livrarias entre o fim de agosto e o princípio de setembro. Além dos contos, informa Janaína Senna, da Nova Fronteira, o volume inclui poemas, totalizando 34 textos, que, conforme resume a editora, "tratam de assuntos os mais variados, mais especialmente da própria atividade do escritor, da velhice, de deformidades físicas e de diferenças sociais".
SURPRESA Ao estrear, o autor desconhecido aprontou mais de uma surpresa. Sua editora, a pequena GRD, do baiano Gumercindo Rocha Dorea, limitara-se, até o início da década de 1960, a promover obras de e sobre Plínio Salgado (líder do movimento integralista).
A publicação de "Os Prisioneiros" --que estampava na capa uma ilustração de Zeca Fonseca, filho do autor, então com seis anos-- era parte de uma guinada na linha editorial, que incluía o lançamento de outros livros de ficção (entre eles, os romances "O Valete de Espadas", de Gerardo Melo Mourão, e "Guia Mapa de Gabriel Arcanjo", de Nélida Piñon) e de uma pioneira coleção de ficção científica.
Naquele 1963 outro contista que se tornaria notável, João Antônio, fez também sua estreia, com "Malagueta, Perus e Bacanaço". No romance, "Kaos", de Jorge Mautner, levou o Prêmio Jabuti, e "O Braço Direito", obra-prima de Otto Lara Resende, passou quase despercebida. Na crônica, Sérgio Porto mostrou "A Casa Demolida". No plano internacional, marcou o ano de "Rayuela" ("Jogo da Amarelinha"), romance-desmontável de Julio Cortázar, marco do chamado "boom" latino-americano.
O advogado e ex-delegado de polícia José Rubem Fonseca, mais conhecido pelos amigos que nem sequer o imaginavam escritor como Zé Rubem, foi considerado "a revelação do ano" pelo "Jornal do Brasil", em crítica assinada por Fausto Cunha. Wilson Martins, em sua coluna no suplemento literário de "O Estado de S. Paulo", foi mais longe: saudou-o como renovador do conto brasileiro "no momento mesmo em que estaríamos inclinados a considerá-lo esgotado".
"Os Prisioneiros" já trazia a essência da brutalidade e da ferocidade diagnosticadas mais tarde por dois dos maiores críticos literários do país, Alfredo Bosi e Antonio Candido, respectivamente.
Em "Fevereiro ou Março", um halterofilista vende o próprio sangue; em "Duzentos e Vinte Gramas", a autopsia de uma linda mulher é descrita sem compaixão; em "Teoria do Consumo Conspícuo", um casal de quase amantes discute a necessidade de uma operação plástica de nariz. Tudo narrado em diálogos poderosos, estilo desconcertante, cortes precisos.
NOVIDADE Em 1963, Rubem Fonseca era, em suma, uma novidade, tanto na temática quanto na técnica --o que em literatura não acontece todos os dias.
"Associo o impacto a dois fatores: a emergência da voz de uma classe social que não costumava falar com voz própria e o surgimento de um novo registro de representação da violência", diz Idelber Avelar, professor de literatura na Universidade de Tulane, nos Estados Unidos. "Os contos de Fonseca trazem a voz de um lumpemproletariado até então desconhecido na literatura brasileira, personagens que não aparecem como meras vítimas silenciosas. Surgem como agentes da ação e portadores de um discurso que escandaliza o leitor de classe média."
Estudioso da obra de Rubem Fonseca desde 1972, Deonísio da Silva considera o escritor uma resposta, urbana e alienígena, a Guimarães Rosa: "Depois de Grande Sertão: Veredas' [1956], ficou a pergunta: Como se escreveria dali por diante?'. Fonseca chega com outro olhar, outros temas, outros personagens. Nada nele é parecido com os que o antecederam, e ele parece não receber influência de ninguém no Brasil. Sua obra está atrevidamente calcada em modelos literários vindos dos EUA".
Em futuros escritores, a identificação foi imediata. Lilian Fontes, autora de três romances --no mais recente, "De Olhos Bem Abertos" (2011), a narradora cita textualmente o conto "Gazela", de "Os Prisioneiros"--, era uma adolescente de 13 anos quando, em 1972, leu o livro de estreia de Fonseca.
"A narrativa em primeira pessoa, seca, e o uso de termos chulos mostravam um autor que tinha como premissa não poupar o leitor. Aquele livro de poucas páginas me desvendou um mundo."
Fonseca voltaria a semear assombro com uma nova seleção de contos, "A Coleira do Cão", lançada pela GRD em 1965.
A rigor, o primeiro e o segundo livros poderiam fazer parte de um único volume, tal a coesão de abordagens e estilos. "A Força Humana", que abre a coletânea, dá sequência a "Fevereiro ou Março" e foi descrito pelo crítico Wilson Martins, habitualmente avaro em elogios, como não apenas "um dos melhores contos brasileiros até hoje escritos" mas "um dos melhores contos da literatura universal".
Destaca-se ainda o conto-título, no qual um quase lírico delegado de polícia faz uma incursão por uma favela, bem antes de elas se tornarem bocas de tráfico e pontos de visitação turística. Mais pela dicção que pelo cenário, "Madona" é talvez o conto mais carioca do mineiro de Juiz de Fora, chegado ao Rio aos oito anos.
Fato raro (ou eram outros tempos?) que um segundo livro de autor caseiro, e ainda mais de contos, gênero olhado com desconfiança por leitores, editores e críticos, despertasse tal expectativa como a que se ergueu em torno de "A Coleira do Cão", merecendo até nota na coluna social de Ibrahim Sued no "Diário de Notícias". No "Suplemento Literário de Minas Gerais", Assis Brasil, depois de considerar o autor "um dos melhores contistas brasileiros", perguntava-se se ele iria prosseguir no conto ou "sairá para novas pesquisas".
Pode-se dizer que, com "Lúcia McCartney", publicado pela pequena Olivé em 1969, Rubem Fonseca não só continuou preferindo os relatos curtos como também realizou, com eles, pesquisas: "Corrente" conta-se em apenas 14 linhas, e "A Matéria do Sonho", num único parágrafo de quase dez páginas.
A crítica voltou a incensar o trabalho --que escapou de ser batizado com o infeliz, embora analiticamente sugestivo, título de "Ficção e Não" e ganhou o nome de uma personagem prostituta, espécie de Bruna Surfistinha "avant-garde".
Fábio Lucas elaborou uma tabela explicativa: "Atitude do autor: desafio. Arma principal: o impacto. Objetivo: a comunicação. Razão do êxito: o rigor inventivo e a radicalização da experiência. Maior temor: o academismo. Pecado (venial): a repetição". Sérgio Sant'Anna cravou, simplesmente: "É o mais importante livro de ficção brasileira dos últimos anos".
TERREMOTO "Feliz Ano Novo", foi o primeiro livro de Rubem Fonseca que Tony Bellotto leu. "Eu estava com 14 anos e foi como se um terremoto tivesse atingido a minha casa em Assis", conta o escritor e roqueiro. Ali, na quarta reunião de contos do autor, "estava uma realidade submersa, que não aparecia no meu dia a dia, mas que tinha muito mais a ver com a verdadeira realidade do que tudo que eu via acontecer a meu redor".
O livro, editado em 1975 pela Artenova com despojado projeto gráfico (diagramação de relatório, sem orelhas nem prefácio, capa amadora), marca, para Silviano Santiago, o fim do primeiro dos "grupos harmoniosos e diferenciados" em que o ensaísta divide a obra de Fonseca. "Cada relato curto descarna a cordialidade do brasileiro pela análise do destempero e da violência que cimenta o cotidiano urbano das classes altas, médias e populares", descreve.
"Feliz Ano Novo" traz três das peças curtas mais citadas e estudadas na obra do escritor: o conto-título --em que três párias invadem uma festa de Réveillon numa casa de ricos-- e o dístico "Passeio Noturno I e II" --em que um executivo usa o atropelamento de pessoas como exercício de relaxamento.
"Mais que a brutalidade da violência gratuita cometida por um personagem de classe média alta, choca-nos a fato de que o escritor tenha dado voz a esse personagem. A narrativa em primeira pessoa é a chave da perplexidade gerada pelo conto", nota Idelber Avelar. "A violência não aparece inscrita dentro de um projeto emancipatório ou de possibilidade de redenção. Ela está representada na sua mais pura brutalidade, fora de qualquer consideração ética."
Em novembro de 1976, depois de vender 30 mil exemplares, "Feliz Ano Novo" teve publicação e a circulação proibidas pela censura. Exemplares foram recolhidos nas livrarias pela Polícia Federal, sob a alegação "de exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes". Foi liberado em 1989, depois de longa batalha judicial.
Quando o quinto livro de contos, "O Cobrador", deixou a gráfica da Nova Fronteira, em outubro de 1979, esperava-se uma continuação ou elaboração de "Feliz Ano Novo", que, de alguma forma, respondesse à ditadura. Mas ali havia um Rubem Fonseca na muda --ou num "momento de indecisão", segundo Wilson Martins. Ali, fizeram entrada em sua obra as alusões a outros autores e gêneros --"H.M.S. Cormorant em Paranaguá" tem um quê de ensaio-- e não por acaso três das histórias são narradas por escritores.
O advento de um novo ciclo criativo se confirmou em 1983, com "A Grande Arte", seu segundo romance "" o primeiro, "O Caso Morel, saíra dez anos antes.
Paródia do gênero "hard-boiled", denúncia do capitalismo criminoso, com personagens grotescos e um protagonista charmoso (o advogado/detetive Mandrake, egresso de três contos), o livro fez com que Rubem Fonseca --que já desfrutava de boa recepção crítica no mercado internacional, principalmente de língua espanhola-- fincasse os pés de vez na lista dos mais vendidos do Brasil, chegando a superar o aparentemente imbatível Jorge Amado.
"Rubem Fonseca criou uma ficção que se liga ao que Machado de Assis fez no século 19: unir sofisticação e entretenimento", acredita o escritor Flávio Carneiro, cujo romance "O Campeonato" (2002) gira em torno do conto homônimo, exemplar de ficção científica que integra "Feliz Ano Novo". "A diferença é que Fonseca soube se apropriar de um gênero popular, o policial, para fazer uma literatura que reescreve a tradição."
"A linha investigativa foi a forma que ele encontrou para entrar na narrativa longa", acredita Lilian Fontes. "Ele nutriu-se dos ingredientes de um gênero rotulado de subliteratura para introduzir pensamentos sofisticados, citações filosóficas, uma erudição que corre paralela ao enredo."
ROMANCES Silviano Santiago identifica nos romances --depois de "A Grande Arte", vieram, em sequência, "Bufo & Spallanzani" (1986), "Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos" (1988) e "Agosto" (1990)-- um segundo conjunto dentro do corpo da obra. "São fartamente documentados e elaborados. São alegóricos e, contraditoriamente, viscerais. A visão de mundo que projetam vem embebida em carne, suor e sangue", diz o crítico, para quem a etapa finda com "O Selvagem da Ópera" (1994).
"Cito A Grande Arte' e Agosto' como exemplos de romances em que ele conseguiu manter a tensão e a excelência de seus contos. O homem vence por nocaute, sempre", elogia Tony Bellotto.
Flora Sussekind, que se debruçou algumas vezes como crítica sobre a obra de Fonseca, não enxerga nos seus romances o vigor que encontra em parte dos contos.
"Nas narrativas mais longas, certos truques, certos achados narrativos, certas formas de corte ficavam mais evidentes como técnica. Os textos perdem nitidamente a força: o romance expôs muito a mecânica dele e, a meu ver, ele procurava resolver a dificuldade com o relato mais longo via registro genérico (histórico, policial) ou com soluções narrativas predeterminadas. E isso parece ter ecoado ainda em boa parte da série de sub-Rubem Fonsecas que se multiplicou na ficção brasileira."
Na opinião da pesquisadora, essas dificuldades se reapresentariam posteriormente também nos contos, forma que Fonseca retomaria em "Romance Negro e Outras Histórias" (1992), "O Buraco na Parede" (1995), "Histórias de Amor" (1997), "A Confraria dos Espadas" (1998), "Secreções, Excreções e Desatinos" (2001), "Pequenas Criaturas" (2002), "Ela e Outras Mulheres" (2006).
Na vizinhança dos anos 2000, "A Confraria dos Espadas" é o marco inicial do terceiro conjunto identificado por Silviano Santiago para definir a obra de Fonseca.
Com o volume, inaugura-se uma etapa que dá vez a "escritos que escapam à bitola estreita de gênero (conto e romance)". "São apenas textos. Visam a processar, tanto no sentido informático do verbo quanto no seu sentido jurídico, o senso comum vitorioso e a ditadura dos bons sentimentos comunitários, que passou a moeda política no início deste milênio."
A essa altura, porém, a crítica, com as exceções de praxe, já tinha virado o disco. A produção mais recente foi vista como "vulgar", "imediatista", "banal", "blasé", "autocaricata", "glamourizada". Em resenha na Folha sobre "Secreções, Excreções e Desatinos", Alcir Pécora escreveu que o livro não chegava "a cheirar nem a feder".
Ainda assim, apesar das oscilações e do peso da idade --chegou aos 88 anos em maio--, Fonseca teve também o reconhecimento de dois dos prêmios mais importantes para o mundo ibero-americano: o Camões, para autores em língua portuguesa, e o Juan Rulfo, dado pelo México, ambos em 2003.
Tony Bellotto expõe com veemência a opinião dos que não acreditam que a mágica do escritor possa ter esfriado: "A literatura de Rubem Fonseca continua de pau duro. Só não vê quem não quer. Ou quem tem medo de pau duro."
TROCA Em 2009, Rubem Fonseca fez uma inesperada troca de editora, deixando a Companhia das Letras, que o publicava desde "Agosto", pela Agir, do Grupo Ediouro (que também detém hoje a Nova Fronteira). Disse-se à época que a negociação, conduzida pela agente literária Lúcia Riff, tinha sido fechada em R$ 1 milhão.
Hipóteses para explicar o episódio pipocaram. Em 18 de março de 2010, reportagem daFolha cravou: a relação de quase 20 anos entre Rubem Fonseca e Luiz Schwarcz, "publisher" da Companhia, avinagrou após a editora recusar o romance "Gonzos e Parafusos", de Paula Parisot, uma das discípulas do escritor. Fonseca negou; Schwarcz não quis comentar.
No mesmo ano chegou às livrarias um novo romance, "O Seminarista", e teve início o relançamento de sua obra completa, com "Os Prisioneiros" e "Lúcia McCartney", em edições coordenadas pelo jornalista Sérgio Augusto, dotadas de posfácios contextualizando os títulos com a fortuna crítica em torno de seu lançamento.
Seguiram-se, também, mais dois inéditos, ambos publicados em 2011, o volume de contos "Axilas e Outras Histórias Indecorosas" e "José", de fundo memorialístico.
As vendas vão bem, obrigado: no caso dos títulos novos, ficaram na casa dos 18 mil exemplares nos três meses iniciais de lançamento, sem contar vendas especiais e adoções. Entre as reedições do catálogo, cada título vende uma média anual de 2.000 exemplares, também sem contar as adoções.
Ex-editor de Rubem Fonseca na Agir, Paulo Roberto Pires defende a vitalidade do autor, tanto o de hoje como o de ontem: "Sinto que falta uma reflexão mais aprofundada sobre um escritor de obra tão extensa e marcante. Houve um tempo em que era moda gostar; mais recentemente, virou moda não gostar. Assim funciona nossa bolsa de valores literários".
"Acontece um fenômeno com grandes autores", afirma Idelber Avelar. "Impõe-se uma determinada leitura, geram-se muitos imitadores, mas a obra renova sua legibilidade com o tempo. Pode acontecer com Rubem Fonseca."
É aguardar "Amálgama" para ver se o velho Fonseca reinventa sua grande arte.

    domingo, 28 de julho de 2013

    O Rio se farta de coxinhas - Alvaro Costa e Silva

    folha de são paulo

    O Rio se farta de coxinhas


     
    ALVARO COSTA E SILVA
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    A coxinha é de origem francesa. Mas, entre nós, de aclimatação paulista. Segundo historiadores da alimentação, a receita aportou com a Corte portuguesa, em 1808, e cresceu na preferência popular com a industrialização de São Paulo: era um substituto mais barato e prático das coxinhas de frango com osso que eram vendidas nas portas das fábricas. Massa de farinha de trigo e caldo de galinha, com recheio de carne de frango.
    E o "coxinha"? De origem paulista, é gíria usada de forma depreciativa para identificar certo grupo de pessoas cujo comportamento é elitista ou afetado.
    Com a rapidez da internet, via redes sociais, o termo chegou ao Rio esnobando as ruas. Os cariocas não só já sabem identificar um "coxinha" como adotaram a classificação como se ela tivesse surgido numa birosca do morro da Serrinha, nos arredores do Arpoador ou nos condomínios fechados da Barra da Tijuca -esse último, em teoria, um lugar "coxinha".
    Como toda gíria que se preze, foi usada a princípio como código em um organismo fechado -a cadeia, a caserna, a zona de prostituição- para só depois conquistar novos territórios. O que espanta é que esse território hoje seja o Rio.
    Os cariocas se acostumaram a ditar modas e gírias para o Brasil inteiro. Pelo que se escuta, não mais. Geograficamente no centro da polaridade norte-sul, cabeça política até a mudança da capital para Brasília, com tendência cosmopolita, o Rio chegou a ter o padrão da fala no país. Finalmente sua praia foi invadida. E não apenas por "coxinhas". A detestável "balada" é de uso corrente. Espera-se para breve a chegada de "perifa", "rasgado", "parça", "breja", "monstra" e outros verbetes do coxês-português.
    É UM ASSOMBRO
    Diante da invasão, nativos radicais já ensaiam protesto: carioca que diz "coxinha" é "coxinha". O verdadeiro carioca come coxinha.
    O cantor e compositor Gabriel Cavalcante, o Gabriel da Muda, é especialista em besteiras de botequim, de preferência as bebíveis e comestíveis. Indica como melhor coxinha do Rio a preparada no Bar da Gema (r. Barão de Mesquita, 615, Tijuca). É tão especial que é servida apenas um dia por semana: às terças. E é personificada: atende por coxinha da Luiza, com todo o respeito, em homenagem à proprietária e cozinheira. Custa R$ 4, e a receita é segredo de família.
    A da tradicional Confeitaria Colombo, fundada em 1894, continua um assombro: é do tipo coxa creme, com a coxa propriamente dita e a sobrecoxa cozidas no caldo de legumes e ervas (R$ 10,80 a unidade). Na hora do almoço, é a que mais sai nos luxuosos salões da rua Gonçalves Dias, 32, centro.
    CHORO MODERNO
    O choro flui e reflui conforme as ondas da cidade e sempre teve pouso certo nos quintais dos bairros ao longo dos trilhos da antiga Leopoldina Railway e em rodas de botequins menos barulhentos. Expoente da nova geração, Abel Luiz toca cavaquinho, bandolim, viola caipira e violão tenor aos sábados, a partir das 14h, no bar Adelos (r. do Mercado, 51, Centro).
    Com o violão de sete cordas de Marlon Mouzer e o percussionista Reinaldo Pestana, Abel fundou o grupo Choro Novo, que acaba de lançar o CD "Sotaques e Influências" (Pupurri Cultural, R$ 15), uma reflexão sobre as possibilidades na contemporaneidade de um gênero surgido em ambientes -vá lá- "coxinhas" do século 19 e depois avacalhado nas ruas.
    AI, SE EU TE PEGO
    João Paulo 2º preferia o aterro do Flamengo para missas campais. Como bom argentino, o papa Francisco cruzou o Túnel Novo e aportou em Copacabana, bairro que concentra o maior número de idosos no país. Foi um choque ver os velhinhos lado a lado com os peregrinos, cerca de 800 mil, a maioria mulheres com menos ou pouco mais de 20 anos.
    Nem Fausto Fawcett, em seus maiores delírios musicais, poderia imaginar que Copacabana se transformaria no real "purgatório da beleza e do caos".
    Em frente aos inferninhos da avenida Prado Júnior, as lolitas de Cristo passavam cantando aos berros "Ay, si Yo te Agarro", versão em espanhol para o sucesso brega-sertanejo.
    Haja "namoro santo", como proposto pela igreja, para conter tanto entusiasmo.
    ALVARO COSTA E SILVA, o "Marechal", 50, é jornalista.

    domingo, 5 de maio de 2013

    Orestes: pena e tamborim - Há 120 anos nascia o cronista do samba

    folha de são paulo

    MEMÓRIA
    ALVARO COSTA E SILVA
    RESUMO
    Cronista e sambista que cantou tipos populares do Rio do começo do século 20, Orestes Barbosa (1893-66) prefigurou tendências modernas da cultura brasileira, como o trânsito entre o meio letrado e o popular. Aos 120 anos de seu nascimento, dois livros inéditos prometem restituir seu lugar central nas artes do país.
    -
    Quando João do Rio morre em 1921 (dentro de um táxi, de infarto do miocárdio) e Lima Barreto sofre um colapso cardíaco em 1922, os cariocas ficamos momentaneamente sem crônica, a tradição literária de explicar, traduzir e --por que não?-- inventar uma cidade. É quando entra em cena Orestes Barbosa.
    Nesta terça (7), este insuspeitado historiador do Rio --também poeta de linhagem penumbrista e parceiro de Francisco Alves, Silvio Caldas, Custódio Mesquita, Noel Rosa, Wilson Baptista, na época de ouro da música popular-- terá discreta celebração de seus 120 anos de nascimento: um bate-papo no Instituto Cravo Albin, na Urca, às 18h, com a presença do biógrafo de Orestes, o músico e pesquisador Carlos Didier.
    Didier tem na agulha, prontinhos, dois livros em torno do Orestes Barbosa cronista: "Samba & Outras Crônicas", terceira edição do clássico "Samba", de 1933, acrescida de 17 textos publicados na mesma época na imprensa, e "Crônicas da Cidade do Rio de Janeiro: 1921-1927", com 61 peças pescadas em livros e jornais e agrupadas por temas: crime, malandragem, prostituição, sexo, amor, música, tipos e cárcere. Ambos estão à espera de um editor.
    "O Samba' teve uma reedição desastrosa da Funarte em 1978: eliminaram os asteriscos que separavam as microcrônicas, e o livro perdeu seu encanto. Além de reparar o erro, escrevi 132 notas de pé de página, uma espécie de bate-bola entre o autor e seu biógrafo", diz Didier, que escreveu a biografia "Orestes Barbosa: Repórter, Cronista e Poeta" (Agir, 2005), escrita a partir de material organizado em banco de dados, com 1.263 tópicos e 8.833 registros, usado para cruzamento de informações.
    Dito assim, parece um livro frio. Mas é dos mais quentes, como foi a vida do personagem e dos boêmios, sambistas, seresteiros, marginais, cafetões, viciados com quem ele conviveu nas calçadas, nos cafés, nas redações e rádios cariocas.
    Orestes se orgulhava de ter vindo ao mundo na zona norte do Rio, e deixou isso estampado na abertura do seu mais famoso livro, "Bambambã" (que apresenta um insuperável glossário de gírias): "Nasceu na Aldeia Campista, às três da madrugada do dia 7 de maio de 1893". Note-se que é o mesmo território mítico --nas fronteiras das ruas Pereira Nunes, dos Artistas, Ambrosina, Possolo e poucas outras-- onde mais um grande cronista do Rio e de seus subúrbios, Nelson Rodrigues, ambientaria peças e contos da vida como ela é.
    Foi menino de rua. Morou em barracos, com paredes de madeira ou taipa, cobertura de zinco, um ou dois aposentos e cozinha externa. Sem desconfiar, ali estava um tema que exploraria na sua obra-prima, a canção "Chão de Estrelas", feita em parceria com Silvio Caldas, com o verso famoso --"Tu pisavas nos astros distraída"-- que entusiasmou Manuel Bandeira e tantos mais.
    Encontrou uma boa alma, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, que o desasnou e aproximou do violão. Aqui temos mais uma coincidência: Clodoaldo tornou-se o pai de Vinicius de Moraes, e Orestes anteciparia Vinicius, ao trocar, nos anos 1930, a poesia dita séria pela letra de música, o que autor de "Garota de Ipanema" só faria em meados dos anos 1950.
    PRISÃO
    No jornalismo, Orestes começou como revisor e logo passou a repórter de polícia, função na qual se especializou a ponto de, por duas ocasiões, ter estado preso. Daí resultando um de seus primeiros livros, "Na Prisão".
    "Condenado a períodos de férias no presídio da Frei Caneca, foi ali que conquistou seu primeiro tema de impacto. Em vez de reclamar da própria situação, soube aproveitar a oportunidade: escreveu sobre os prisioneiros e a vida na prisão", conta Didier.
    Cobriu o assassinato de Pinheiro Machado e o naufrágio da Barca Sétima. Entrevistou João Cândido, Dilermando de Assis e, em início de carreira, Pixinguinha, Donga, Cartola. Dividiu tiras de papel e tinteiros com Rui Barbosa e Mário Filho. Mas foi, sobretudo, como cronista da cidade que encontrou o seu estilo.
    "De frases e parágrafos curtos, surgiu de modo natural por interferência da língua falada na língua escrita. O leitor sente que o cronista está batendo papo, o que é perfeito quando o assunto é uma história do dia a dia da cidade", explica o biógrafo. "Outra coisa: os parágrafos breves têm a dimensão próxima à de um verso, formato curioso mesmo levando-se em conta que Orestes era um poeta nato".
    O crítico José Lino Grünewald fez a seguinte aproximação: "Concepção de texto absolutamente inédita. Faz lembrar, em várias passagens, as poesias de Oswald de Andrade". E Carlos Heitor Cony, esta, surpreendente: "Excelente cronista, criador de um estilo que lembra, até certo ponto, um Guimarães Rosa urbano, um ancestral de Guimarães Rosa, com as mesmas bossas, com alguma invenção vocabular, coisas que não existiam nos duros tempos de Coelho Neto e Humberto de Campos".
    Quanto à temática, o jornalista contribuiu mostrando a cidade marginal e subterrânea, que ele preferia, e que convivia em oposição à outra, a "da avenida" (referência à avenida Central, atual Rio Branco, aberta com as reformas modernizadoras de Pereira Passos no início do século 20).
    "Ele flagra a cidade no momento em que surgiu a cultura que os jovens hoje buscam reencontrar na Lapa. Aliás, uma de suas crônicas mais conhecidas descreve a cafetina Alice Cavalo de Pau, que atuava na rua Visconde de Maranguape, ali mesmo no bairro. A turma que curte os sambas de Noel Rosa, Ismael Silva, Cartola, que são criações do Estácio e redondezas, sabe que essa cultura brotou daquele meio que o Orestes fixou nas crônicas", explica Didier.
    PERTENCIMENTO
    Ao selecionar e apresentar a antologia "Cocaína: Literatura e Outros Companheiros de Ilusão" (Casa da Palavra, 2006), a pesquisadora Beatriz Resende agrupou Orestes Barbosa (com os textos "O Namoro na Cadeia" e "A Favela") ao lado de Álvaro Moreyra, João de Minas, Ribeiro Couto, José do Patrocínio Filho, Théo-Filho, Benjamin Costallat, Patrícia Galvão, a avançada Chrysanthème (pseudônimo da jornalista Cecília Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos), ou seja, a geração pré-modernista, desvinculada da Semana da Arte de 1922.
    "Orestes tem o mérito de levar para o espaço das crônicas a vida das favelas e das prisões", avalia Beatriz. "Creio que o olhar dele sobre essa parte da vida de excluídos da grande cidade é, sobretudo, de dentro. Mais do que João do Rio, um observador importante, Orestes Barbosa fala com mais pertencimento."
    Orestes Barbosa e Benjamin Costallat colaboravam na incrível "A Banana", revista de humor e erotismo fundada em 1923 por Théo-Filho. Naquele mesmo ano, Costallat conquistou fama de escritor de escândalo ao publicar "Mademoiselle Cinema". Três meses depois, Orestes seguiu os passos do colega, ao escrever seu primeiro e único romance, "A Fêmea".
    É um banquete apimentado, reunindo episódios em que um industrial frequenta a mulher de um empregado de confiança; um político moralista, após apaixonar-se pelo cunhado, conquista namorados na praça Tiradentes; uma madame é amante de "milionários e cachorros de linguinha afiada". Um dos relatos descreve uma cerimônia de casamento na qual há três defloramentos, menos o da noiva.
    Um personagem aparece com o nome real e como frequentador de prostíbulos: Julio César de Mello e Souza, mais tarde famoso como Malba Tahan, autor de "O Homem que Calculava". Orestes quase apanhou dele e, para fazer uma segunda impressão, pois a primeira se esgotara em três dias, teve de retirar o capítulo em que o professor fazia das suas. Desde então, o livro não voltou a circular.
    Quem não dava um doce para conhecer "A Fêmea"?