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domingo, 1 de setembro de 2013

O documentarista do sonho - EUCLIDES SANTOS MENDES


RESUMO O sucesso de "A Doce Vida" (1960) fez do italiano Federico Fellini um signo do cinema. Mas foi três anos depois, com "Oito e Meio", que o adjetivo "felliniano" nasceu para o mundo. O diretor deu adeus à escola neorrealista e levou o universo onírico, já presente em seus desenhos, para o centro de sua obra.
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Acredita-se que alguns dos personagens mais característicos da obra de Federico Fellini (1920-93) tenham tido seu primeiro sopro de vida nas recordações que o cineasta reunia no seu "Libro dei Sogni".
Esse "livro dos sonhos" se relaciona ao modo de criação artística por meio do inconsciente e da subjetividade.
Ao que se supõe, há nos desenhos registrados ali impulsos profundos de criação de personagens e episódios, alguns recriados na tela cinematográfica.
Em "Oito e Meio", filme que completa agora 50 anos, o cineasta traz o mundo onírico que anotava em seus álbuns ao primeiro plano, ao tentar explicar as motivações do protagonista, o cineasta Guido, naquilo, em suma, que o crítico italiano Ennio Bispuri qualificou, no livro "Interpretare Fellini", como "o sonho de onipotência de um impotente".
Não se sabe ao certo se os registros imagéticos do "Livro dos Sonhos" -obra ainda a ser devidamente estudada- têm relação direta com a criação de "Oito e Meio". Vale observar, no entanto, que há uma camada onírica essencial no enredo do filme.
Guido Anselmi (interpretado por Marcello Mastroianni, ator-fetiche de Fellini) é um cineasta que, prestes a começar seu próximo trabalho, não tem ideia de que filme fazer.
A crise criativa mergulha o personagem em sonhos assombrados pela família, recordações da infância e mulheres que marcaram sua vida.
A arquitetura visual arrebatadora circula pelo inconsciente de Guido, mas também avança pela memória decodificada do personagem e pelo tempo presente.
RIMINI
A relação de Fellini com o desenho se estabeleceu ainda na infância e na adolescência em Rimini, cidade na costa do mar Adriático onde nasceu.
Apreciava caricaturas, charges e histórias em quadrinhos -tornou-se "fumettista" (cartunista) precocemente.
Reprodução
Cena do filme "Oito e Meio" (1963), do cineasta Federico Fellini
Cena do filme "Oito e Meio" (1963), do cineasta Federico Fellini
Foi no começo dos anos 1960 que o talento para desenhar transformou-se numa terapia. Aconselhado por um psicanalista junguiano, o berlinense Ernst Bernhard, com quem passou a se consultar, Fellini decidiu registrar graficamente os próprios sonhos.
Quase todas as manhãs, assim que despertava, punha-se a desenhar efusivamente as lembranças da noite.
O hábito durou até 1990; quando se deu por satisfeito, possuía três grandes álbuns preenchidos por imagens coloridas e voluptuosas, com histórias carregadas de simbolismo.
Após a morte do diretor, em 1993, dois dos álbuns -o terceiro desapareceu- foram trancados no cofre de um banco italiano, a salvo da disputa entre os herdeiros de Fellini e os de sua mulher, a atriz Giulietta Masina (1921-94).
Em 2006, após um acordo que envolveu a Fundação Federico Fellini (sediada em Rimini), o governo da Emilia Romagna (região italiana onde Fellini nasceu) e os herdeiros de Masina, os enigmáticos livros foram, enfim, abertos e apresentados publicamente como um precioso instrumento para ajudar a compreender a estilística e a poética do diretor de "Oito e Meio".
Seu conjunto foi publicado de fato como livro em 2007, na França e na Itália.
MERGULHO
Em "8 1/2 de Fellini - O Menino Perdido e a Indústria", publicado no livro "A Sereia e o Desconfiado - Ensaios Críticos", o crítico Roberto Schwarz vê na estrutura atemporal do filme o sinal e, por conseguinte, o caminho para o mergulho simbólico na "alma" do protagonista.
O crítico adverte, todavia, ser um artifício enganoso o espelhamento que costumeiramente se faz entre Fellini e Guido -identificação "autorizada pelos colunistas de mexerico, pelo próprio diretor, talvez, mas não pelo filme".
"Se Fellini é Guido", escreve Schwarz, "os conflitos deste campeiam idênticos no peito daquele, que seria o bobo de suas próprias limitações, um pequeno-burguês nostálgico e fantasioso, incapaz de fazer qualquer coisa que preste".
A potência subjetiva de "Oito e Meio" é reveladora de um gesto maior, que vai além da psicologia do diretor e que avança pelo campo do imaginário na criação artística, como um tratado poético em forma de imagens, cujo pensamento, vivo e pulsante, alcança densidade poética inigualável.
É como se o filme e o gesto de pensá-lo criassem, em película, a experiência de uma aventura em que o mundo da memória e dos sonhos se manifesta por meio de imagens "significantes".
No ensaio "O Salto Mortal de Fellini", publicado no livro "Exercícios de Leitura", a crítica Gilda de Mello e Souza avalia que o filme se inscreve na linha de vanguarda da narrativa contemporânea.
Segundo a ensaísta, apesar de dúvidas e indecisões, avanços e recuos, "foi para a aventura de saltar da torre no espaço vertiginoso da arte que Guido se preparou longamente. O filme de Fellini é a fenomenologia deste gesto frágil e arriscado".
De onde vêm, contudo, essa fragilidade e esse risco? Talvez da própria tentativa de construção imagético-discursiva do "cinema de poesia" em Fellini.
"Cinema de poesia", tal como pensado e analisado pelo cineasta e crítico italiano Pier Paolo Pasolini no ensaio de mesmo nome, é um termo que se relaciona ao uso da "subjetiva indireta livre", meio narrativo, derivado do discurso indireto livre da literatura, em que o autor manifesta suas ideias, seus sentimentos e suas perspectivas de mundo por meio da psicologia dos personagens e da poética inerente ao discurso cinematográfico.
A existência contraditória de Guido evidencia a experiência do impasse no filme como gesto criativo complexo.
O personagem é o "álibi narrativo" para Fellini tecer seu argumento poético, na medida em que ele expressa em Guido condições análogas -e, por isso, enganosas numa relação direta de identificação- na cultura e na psicologia, como requintados atributos de onde ecoa sua própria voz.
Guido, num ambiente marcado pela decadência e pelo posterior reencontro moral, talvez seja o ápice da experiência de confronto do cineasta com a criação cinematográfica tal como pensada pelo "cinema de poesia".
É por meio da expressão ambígua e desnorteante do personagem que se evidencia o sentido da formação individual do diretor, pois "Oito e Meio" se resume nisto: é como Fellini torna-se cineasta.
Em 1960, "A Doce Vida" havia feito de Fellini um ícone do cinema; mas foi "Oito e Meio" o filme que fez nascer para o mundo o adjetivo "felliniano".
Federico Fellini, esse "documentarista do sonho", como diz Glauber Rocha no ensaio "Glauber Fellini", dá adeus à escola em que se formou -desde que, em 1945, colaborou como corroteirista em "Roma, Cidade Aberta", de Roberto Rosselini, filme-manifesto do neorrealismo.
Com "Oito e Meio", Fellini mergulha na poesia de seu próprio cinema, retornando ao magma neorrealista originário, mas moldando-o como artifício da sua própria expressão, colocando o artista em confronto com sua subjetividade mais real e, por isso, também, configurando-se como um exame de maturidade.

Exercícios de guerra - Como o Brasil poderia ser invadido

folha de são paulo
RICARDO BONALUME NETORESUMO Embora hoje pareça improvável uma invasão do território, as fragilidades do sistema de Defesa e a porosidade das fronteiras do país tornariam viável um ataque. Neste texto, desenham-se cinco cenários hipotéticos de invasões por terra, mar e ar, uma dos quais chegou a ser planejada pelos Estados Unidos, em 1942.
"Si vis pacem, para bellum." "Se quer a paz, prepare a guerra", diz o clássico provérbio latino atribuído a Publius Flavius Vegetius Renatus. O romano sabia do que falava. Além de autor de um importante tratado militar, ele vivia a decadência do Império Romano do Ocidente, que cedia aos bárbaros invasores partes de seu território.
Mesmo os EUA não estavam preparados para a Segunda Guerra Mundial; tinham uma respeitável Marinha, mas Exército e aviação ridiculamente pequenos quando Japão e Alemanha declararam guerra em 1941. E conflitos podem surgir de repente. Ninguém previu o ataque argentino a uma colônia britânica em 1982 no Atlântico Sul, as Falklands (ou "Malvinas", para os invasores). Havia menos de cem fuzileiros navais para defender a colônia habitada por cerca de 2.000 britânicos.
Graças à diplomacia ao longo de dezenas de anos, com destaque para o barão do Rio Branco no começo do século passado, o Brasil tem as fronteiras mais tranquilas do planeta. Ninguém quer um pedaço dos seus 8.511.865 quilômetros quadrados. Ninguém ambiciona os recursos naturais do país. No entanto nem sempre foi assim, como mostra a história.
E se os cenários mudarem? Um país com perto de 200 milhões de habitantes e apenas 325 mil militares teria como se defender? São cerca de 200 mil homens e mulheres no Exército, 60 mil na Marinha e 65 mil na Força Aérea. Mas a disponibilidade de equipamento para esse pessoal costuma ser baixa. Faltam recursos para a manutenção e operação.
Dos cerca de cem navios da Marinha, só metade está disponível. Dos 200 aviões de combate (caça-bombardeiros), o normal é ter só uns 85 operacionais. Dos quase 300 aviões de transporte, só um terço poderia decolar agora. E dos perto de 2.000 blindados de vários tipos do Exército, só metade conseguiria sair dos quartéis.
Existe ainda a questão da obsolescência. O único porta-aviões, de segunda mão, é de 1963 (além de passar a maior parte do tempo no porto, seus caça-bombardeiros foram projetados nos anos 1950).
O país tem investido no desenvolvimento e compra de novos equipamentos, mas em quantidade pequena.
Se algum inimigo hoje insuspeito atacasse de repente, hipoteticamente, o que poderia acontecer?
Cenário 1 - Amazônia "Jovens, bem-vindos ao Amapá. Soube que entre vocês estão estudantes de várias disciplinas. História, geografia, ciência política, arquitetura, engenharia. Ótimo. Embora vocês provavelmente interajam pouco com seus colegas de outras áreas, aqui é o lugar em que um enfoque multidisciplinar faz sentido. É preciso entender um pouco de tudo para apreciar essa obra-prima, esse monumento que ajuda a explicar o motivo de a maior parte da Amazônia ser brasileira."
Os estudantes continuam em silêncio. Alguns olham para a anatomia das colegas mais jeitosas, outros ficam pensando se foi boa ideia embarcar nessa viagem até o fim do mundo para ver um monte de pedras empilhadas, algumas moças pensam no efeito que o calor equatorial vai ter na sua maquiagem. E, surpresa, há até alguns que param para digerir o que diz o anfitrião.
"Moças, rapazes; vocês agora têm o prazer de conhecer uma joia da arquitetura militar luso-brasileira, a fortaleza de São José de Macapá. E seu simbolismo é tão forte que seu traçado está na própria bandeira do Estado."
Os estudantes automaticamente levantam o olhar para uma das bandeiras. Logo em seguida, olham estarrecidos na direção do mar. Uma explosão, um clarão. Novas explosões. Eles saem correndo em várias direções. Uns poucos têm o bom senso de se jogar no chão ou de se proteger atrás das muralhas da velha fortaleza. As explosões continuam. A Amazônia está sendo invadida.
OBSTÁCULO Um historiador tinha deixado claro o papel da fortaleza: "Imensa e bem construída, esta fortificação se ajustou razoavelmente às propostas do marquês de Pombal para a região, servindo de prova efetiva e tangível de que a Coroa portuguesa era a proprietária do cabo do Norte e de que qualquer pessoa que tentasse disputar a posse teria que superar esse gigantesco obstáculo antes de atingir seu objetivo. A fortaleza passava a ser o verdadeiro fecho do Império' na foz do Amazonas".
Continuando, o historiador Adler Homero Fonseca de Castro foi preciso: "Em 1863, um relatório que examinou as fortificações do Brasil teceu novas considerações elogiosas sobre a posição", "a mais vantajosa e interessante, por estar situada na foz do norte do Amazonas", apesar de não defender "totalmente" a entrada do rio.
Embora esteja obsoleta há mais de um século, a fortaleza, num ataque como o descrito, não seria o alvo, a despeito de ser uma das antigas "fechaduras" da região.
Um dos objetivos era relativamente pequeno e modesto: um navio de patrulha da classe "G" ali atracado, com deslocamento de apenas 217 toneladas, comprimento de 46,5 metros e velocidade máxima de 27 nós (50 km/h). O armamento principal é um modesto canhão de calibre 40 mm de duplo emprego (antiaéreo e antinavio). Os 12 navios de patrulha brasileiros da classe Grajaú têm todos nomes começando com "G", como Guarujá, Guanabara e Gurupi.
Refletem uma tradição; durante a Segunda Guerra Mundial, a Marinha deu os mesmos nomes para também pequenos caça-submarinos de fabricação americana, usados para patrulhar o litoral do país contra submarinos "invasores" no mar territorial do país vindos da Alemanha e da Itália.
É tudo muito pouco para defender o extenso litoral do país. Um invasor facilmente ocuparia as chaves da região amazônica, Macapá e Belém.
Cenário 2 - "Amazônia azul" Para mostrar a importância do mar territorial, a Marinha criou a curiosa expressão "Amazônia azul".
Mais ao sul, mais especificamente no sudeste do país, um dos três mais modernos navios da Marinha do Brasil estava em operação, uma missão de rotina. A Marinha adora siglas; logo, os três navios da mesma classe, Amazonas, são conhecidos como NPaOc, acrônimo para Navio Patrulha Oceânico.
São navios modernos --os mais novos de todos, com um maior grau de informatização--, apesar de não serem os navios com maior poder de combate para seu tamanho: mesmo com mais de 2.000 toneladas completamente carregados, só têm armamento leve. Nem mísseis nem torpedos; e o canhão principal tem calibre 30 mm. Já as fragatas e corvetas da Marinha têm canhões principais de calibre 114 mm, além de ter mísseis e armas antissubmarinas.
Os três NPaOc servem mais a uma função "policial" do que "militar". Não foram projetados para a guerra convencional contra uma marinha inimiga, mas para lidar com problemas mundanos como narcotráfico, pirataria e contrabando. A Marinha, afinal, tem que proteger instalações como as plataformas de petróleo.
À noite, essas plataformas parecem inusitadas cidades em pleno oceano. Luzes no horizonte, contatos no radar. É difícil imaginar isso em pleno mar. Mas ali vivem e trabalham milhares de brasileiros, extraindo do fundo do mar um recurso cada vez mais raro no planeta. Isso faz as plataformas se multiplicarem e, cada vez mais, se aprofundarem em busca do combustível fóssil.
O navio classe A estava patrulhando entre dois grandes campos de plataformas quando um marinheiro observou um clarão no horizonte. Quase simultaneamente, um sargento notou um contato no radar se aproximando rapidamente. Lembrou-se de um treinamento anterior. Parece um míssil vindo na direção do navio. Como? Não há nenhum exercício planejado!
Seria um alvo fácil para um ataque surpresa. E o resto da esquadra, concentrada na baía da Guanabara, seria fácil de achar e atacar. Claro, apenas os americanos teriam hoje condições de fazer um ataque destes. Mas e se, em um futuro não tão distante, os chineses conseguissem bases no oeste africano e prosseguissem por algum motivo na sua busca insaciável por recursos naturais?
Cenário 3 - Mais Amazônia O veículo, ou "viatura", como prefere o pessoal do Exército, foi chamado de VBTP-MR Guarani. Veículo (ou "Viatura") Blindado de Transporte de Pessoal, Médio, Sobre Rodas. Produzido em Minas Gerais, projeto em parceria com a empresa italiana Iveco. Alguns deles estão sendo testados em um lugar incomum: Roraima.
Detalhes do veículo? Comprimento: 6,91 m /Altura: 2,34 m/Largura total: 2,7 m /Peso vazio: 14,5 toneladas /Peso carregado: de 17 a 20 toneladas /Velocidade máxima em estrada: 100 km/h.
Demorou anos, mas o Exército Brasileiro, o EB, resolveu substituir seus velhos blindados sobre rodas Urutu e Cascavel, produtos da jurássica empresa (faz tempos falida) Engesa. Eram bons veículos de seis rodas, exportados para vários países, usados pelo EB em missões de paz em Angola, Moçambique, Haiti --lamentavelmente, porém, são obsoletos hoje.
O Guarani começou a ser produzido em uma versão básica de transporte de infantaria, levando um grupo de combate de infantes, com uma metralhadora no teto, de calibre 12,7 mm, de controle remoto. Mas também se criou uma versão experimental de "veículo de combate de infantaria", com um mais parrudo canhão calibre 30 mm; e uma versão para substituir o Cascavel, um carro de reconhecimento, com canhão calibre 90 mm ou o mais poderoso 105 mm.
Sejam quais forem as decisões sobre armamento, ainda pendentes, dois grupos desses VBTP-MR foram enviados para dois possíveis locais de emprego em guerras convencionais contra vizinhos, por mais que os vizinhos da República Federativa do Brasil sejam em geral amistosos.
Com certeza um dos destinos previstos e previsíveis foi o Rio Grande do Sul. Esse sempre foi o local de praxe paras as forças mais móveis do Exército, onde se concentrou o grosso da cavalaria e da sua versão moderna, mecanizada, os tanques (que o EB chama de "carros de combate") e os blindados de transporte de tropas. Durante muito tempo se pensou em uma "Blitzkrieg" de blindados argentinos atacando a região (Uruguai e Paraguai nunca foram ameaças sérias no século 20). Cenário cada vez mais improvável.
Os primeiros testes com o Guarani foram feitos no Rio, no campo de provas do Exército. Depois duas pequenas unidades foram enviadas a campo. E, além do óbvio Rio Grande do Sul, outro lugar foi Roraima -- a Amazônia não inclui apenas floresta: Roraima tem campos perfeitamente adequados para veículos militares.
CLAREIRA Um pelotão de Guaranis --quatro veículos-- fazia uma patrulha perto da fronteira. Uma opção de organização desse tipo de unidade, ainda não definitiva, inclui um veículo armado com o canhão de 30 mm, e os restantes com o tradicional 12,7 mm (a clássica metralhadora "ponto cinquenta", ou.05 polegada). De repente saem de uma clareira alguns blindados não identificados. O tenente comandante do pelotão ordena que os VBTP parem e procurem cobertura possível atrás das poucas árvores e colinas em torno. Ele abre a escotilha para observar melhor, quando vê um clarão e ouve logo em seguida uma explosão.
O inimigo avançaria rápido por esses campos com forças blindadas. Supondo que fossem venezuelanos bolivarianos fanáticos, também tomariam a região de Essequibo, na vizinha Guiana.
Foi pura coincidência. Alguém no Exército também resolveu testar na região uma bateria de artilharia bem especial: o sistema Astros II, da Avibrás, um sistema de foguetes de múltiplos calibres capaz de atingir alvos a distâncias entre 9 e 300 km, que logo entraria em ação, tornando o resultado do conflito menos previsível.
Cenário 4 "" Fronteiras Em vários pontos do país existe outro produto da indústria de defesa nacional em operação no mesmo momento, um avião de transporte. Levou algum tempo para produzi-lo, um pouco mais que o previsto, mas compreensivelmente, pois o objetivo era substituir um dos aviões mais icônicos, seminais e clássicos da história, o avião de transporte americano Hercules C-130. "O substituto de um Hercules é outro Hercules", dizia a fabricante, a Lockheed. A empresa brasileira Embraer resolveu apostar que teria uma opção melhor: a aeronave de transporte e reabastecimento aéreo de combustível KC-390.
O C-130 é um turboélice de quatro motores; o KC-390 é um bimotor a jato, o primeiro grande projeto multinacional na área de aviação em que uma empresa brasileira é a principal envolvida. E os novos aviões estavam voando pelo país em diferentes missões.
As fronteiras do país, no mar ou em terra, costumavam ter os fortes como principais barreiras a uma invasão. Muralhas e canhões eram o principal desafio que um inimigo tinha que contornar, assim como --e principalmente-- os homens por trás das defesas.
A ameaça passou a ter novas dimensões. Um dos novos "fechos" da Amazônia, e das fronteiras em geral, é uma outra classe de aviões da Embraer, os EMB 145 ISR --aviões-radar, de vigilância área e de sensoriamento remoto.
A empresa usou como plataforma para o equipamento eletrônico seu bem-sucedido avião comercial ERJ 145 e criou a dupla R-99 e E-99. O EMB 145 Multi Intel, ou R-99, é voltado para sensoriamento remoto, e o EMB-145 AEW&C (do inglês "Airborne Early Warning and Control"), ou E-99, é um avião-radar de alerta aéreo antecipado e controle de tráfego aéreo.
Aviões-radar dão informações. Mas é preciso que existam aviões de combate aptos a utilizá-las. A depender da ameaça, não precisam ser caças de última geração: aviões de traficantes e contrabandistas podem ser visados por aeronaves de ataque leve como o Embraer EMB-312 T-27 Tucano (um sucesso internacional de vendas: cerca de 650 aeronaves operando em 15 forças aéreas mundo afora) ou seu sucessor, o EMB 314 A-29 Super Tucano --ou ALX.
O Super Tucano também tem uma função de ataque a guerrilhas, ou "insurgentes", como é moda defini-las hoje. Tem sido usado nessa função pela Força Aérea da Colômbia.
MÍSSIL O par de Super Tucanos patrulhava a fronteira sobre a floresta. Impossível identificar qualquer coisa debaixo das árvores. O avião-radar, contudo, tem uma visão mais precisa e detalhada. É possível "enxergar" parte do que acontece no solo. De repente surge um clarão na tela. Que se repete visualmente, na direção dos dois aviões de ataque leve. Um míssil terra-ar, certamente disparado do ombro, da classe do antigo soviético SAM-7, ou do americano Stinger. Seja qual for o míssil, é barato, é simples de operar, e um grupo de narcotraficantes pode usar. Os dois Tucanos percebem a ameaça e começam manobras evasivas.
Meio-dia, terça-feira, 26 de fevereiro de 1991; cerca de 40 homens realizam uma incursão em território brasileiro. Eles atacaram um destacamento do Exército na margem do rio Traíra, na fronteira entre Brasil e Colômbia. Durante a ação, a unidade brasileira de 17 homens teve três soldados mortos e nove feridos; armas e equipamento brasileiros foram capturados. Uma retaliação depois recuperaria parte do armamento roubado e mataria parte dos "insurgentes".
O episódio deixa claro a "área cinzenta" entre tráfico de drogas, guerrilha e banditismo puro em partes da fronteira do país, retratada também em artigo do coronel Álvaro de Souza Pinheiro ("Guerrilla in The Brazilian Amazon", Foreign Military Studies Office, Fort Leavenworth, KS., 1995).
HISTÓRIA Um pouco de história: em 1624 os holandeses atacaram e tomaram Salvador. Perderam no ano seguinte. Atacaram e tomaram Recife e Olinda em 1630; só foram expulsos em 1654. Mesmo antes disso, tinham iniciativas na Amazônia --pequenos fortes e feitorias--, assim como ingleses, franceses e mesmo irlandeses.
Franceses fundaram, na prática, duas cidades brasileiras, duas capitais de Estados: Rio de Janeiro e São Luís. Foram expulsos pelos portugueses. Em 1710 e 1711, atacaram de novo o Rio, mas apenas para saquear --com sucesso, na segunda vez.
Os holandeses queriam dominar o comércio do açúcar, e também o dos escravos necessários para sua produção (por esse mesmo motivo chegaram a dominar Luanda, em Angola, antes de serem rechaçados).
Novos invasores podem ir atrás de outros recursos. Como o petróleo do pré-sal. Biodiversidade amazônica? Difícil; a biotecnologia resolve as coisas com mais facilidade nos laboratórios, sem precisar invadir um país para ter acesso a folhas e formigas. Recurso mais raro e valioso no futuro: a simples água doce. Na Amazônia está a maior reserva do mundo, que pode ter cada vez mais sede, dependendo do aumento da população e da mudança climática.
Cenário 5 - Plano "Em 22 de fevereiro de 1942, dois meses e meio após o ataque japonês a Pearl Harbor, os Estados Unidos invadiram e ocuparam o Nordeste do Brasil. Após 12 dias de navegação a partir de Hampton Roads, Virgínia, EUA, uma força naval de apoio de fogo --incluindo o couraçado USS Texas (BB-35), e o 11º Grupo de Aviação dos fuzileiros navais embarcado no porta-aviões USS Ranger (CV-4), e um comboio de navios de transporte carregados de equipamento de combate para a força de desembarque de batalhões da 1 ª Divisão de Fuzileiros Navais e 9ª Divisão do Exército--, apareceu na madrugada ao largo da cidade de Natal na protuberância' a leste do Brasil", foi a descrição de um historiador da invasão que poderia ter acontecido, e foi planejada, mas não houve, graças à diplomacia ("Invade Brazil?!", por Michael Gannon, United States Naval Institute Proceedings, Vol. 125, No. 10, Oct. 1999).
Segundo Gannon, o "problema" do governo americano com o Brasil era a ditadura liderada por Getúlio Vargas e a noção de que a maior parte das Forças Armadas, especialmente o Exército, era a favor do eixo Berlim-Roma-Tóquio.
O curioso, como ele mostra, é que o plano de invasão poderia redundar em um grande fracasso. Nem tanto pela competência das Forças Armadas brasileiras, mas pela falta de experiência americana em desembarques anfíbios e pelas praias de difícil acesso do Nordeste por embarcações ainda não testadas. O número de tropas era pequeno para lidar com eventual insurgência. Os EUA poderiam ter tido no Brasil em 1942 o que teriam no Iraque depois de 2003.
Preservado hoje no Estado que lhe deu o nome, o USS Texas foi veterano da Primeira Guerra Mundial e da Segunda. Seus canhões deram apoio de fogo em operações importantes, como a invasão da África do Norte em 1942, a da Normandia em 1944 (o "Dia D") e depois, no Pacífico,contra os japoneses em Iwo Jima e Okinawa, em 1945. Recebeu cinco "battle stars" ("estrelas de batalha") por operações como essas. Para sorte dos brasileiros, Natal não entrou nessa lista.

    domingo, 25 de agosto de 2013

    Por uma vida menos ordinária [Peter Singer] - Marcelo leite

    folha de são paulo

    De mal com a natureza


     
    MARCELO LEITE
    Ouvir o texto

    RESUMO Após povoar a literatura nos anos 2000, o temor do aquecimento global arrefece, mas não se apaga. Em novos romances, protagonistas se mostram entediados diante da percepção de que a catástrofe não é tão iminente como parecia, e falta reencontrar o fascínio com o mundo natural que vigia nas letras entre o séc. 19 e o 20.[continue lendo aqui ]
    *
    ENTREVISTA PETER SINGER
    Por uma vida menos ordinária
    O filósofo australiano nos recorda de que a ética é coisa do dia a dia
    MARCELO LEITERESUMO Peter Singer, professor da Universidade de Princeton (EUA), vem ao Brasil para duas palestras no ciclo Fronteiras do Pensamento. Ele argumenta que a pobreza e a mudança do clima são os maiores problemas do mundo e, como solução, defende que as pessoas reduzam consumo de carne e doem parte de sua renda.
    O filósofo australiano Peter Singer, da Universidade de Princeton (EUA), é o conferencista de amanhã, em Porto Alegre, do ciclo Fronteiras do Pensamento. Na quarta-feira ele estará em São Paulo para palestra no Teatro Geo, onde deve abordar temas de ética prática como a pobreza no mundo, escolhas alimentares, bem-estar animal e mudança climática.
    Para o controverso autor do clássico "Libertação Animal" [trad. Marly Winckler e Marcelo Brandao Cipolla, WMF Martins Fontes, 496 págs., R$ 79,90], cada pessoa deveria doar uma parte de sua renda para ajudar a diminuir a desgraça de 1 bilhão de pobres que vivem com menos de um dólar por dia. Esse é o tema do livro "The Life You Can Save", de 2009 (lançado em Portugal com o título "A Vida que Podemos Salvar", Gradiva, 252 págs., R$ 69,10, sob encomenda), mas um de seus primeiros artigos, de 1972, já tratava dele --e foi citado por 1.259 outros autores desde então.
    Singer está insatisfeito com o efeito do livro, que calcula ter vendido 60 mil cópias no mundo inteiro. Mais ainda com o baixo número de "compromissos" (pledges) da página de internet equivalente, em que pessoas comuns podem jurar em público que vão passar a doar determinado percentual de sua renda para organizações de caridade: 16.394. Ele doa um terço de sua renda, mas prefere não equiparar a "cegueira moral" dos outros ao Holocausto, e diz que é o maior problema do presente é a pobreza, ao lado da mudança do clima, no futuro.
    Folha - O tema da mudança climática já apareceu também no seu radar ético? Ela tem o potencial de tornar a vida pior para um bocado de gente pobre, no futuro. Devemos nos importar menos com as vidas futuras do que com as do presente?
    Peter Singer - Esses dois assuntos estão intimamente conectados. A resposta curta para a pergunta é "não". Devemos nos importar o mesmo tanto com as pessoas, não importa a época em que vivam. Claro que há questões sobre a incerteza, quando falamos do futuro. Nós podemos saber muito mais sobre as pessoas que vivem agora, de modo a ajudá-las, do que podemos saber sobre pessoas que viverão daqui a cem anos. Isso é relevante, e podemos aplicar um desconto sobre o futuro, mas num grau bem pequeno.
    Não é demais pedir a alguém que se torne vegetariano e ainda por cima doe uma porção significativa de sua renda para combater a pobreza?
    Reconheço que só algumas pessoas vão de fato agir nesse sentido. Mas acho que todo mundo poderia considerar uma mudança nas suas escolhas alimentares e, se tiverem alguma sobra de dinheiro, considerar sua responsabilidade perante os pobres do globo. Não é uma questão de tudo ou nada, ou você se torna um vegetariano ou não faz nada. Várias pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, estão dizendo: "Bem, eu como carne todos os dias...". Existe uma prática chamada Segunda-Feira Sem Carne. Outros escolhem dois ou três dias por semana em que não comem carne. Penso que seja algo fácil de fazer, uma coisa saudável, e obviamente faz diferença, pelo menos do ponto de vista de reduzir a pecuária industrial e a emissão de gases do efeito estufa.
    Se o sr. tivesse de dar um conselho a um adolescente sobre como agir, diria que ele ou ela devem se juntar a uma organização de caridade, a um partido político ou a uma ONG militante? O que seria mais eficaz para salvar vidas agora e no futuro?
    Bem, não há razão para não fazer as três coisas. Não precisa ser uma escolha do tipo "ou isso ou aquilo". O valor de se envolver com um partido político vai depender de onde, no mundo, a pessoa vive e de quão abertos são os partidos políticos, da possibilidade de fazer alguma diferença nesses partidos. Minha resposta, realmente, é: quanto mais, melhor.
    Há um problema com a ideia de ação individual. Um exemplo: no livro "Uma Verdade Inconveniente", Al Gore dá uma série de ideias sobre o que as pessoas podem fazer para combater o aquecimento global, como trocar as lâmpadas de casa. Mas, desde 2006, as coisas só pioraram nesse campo. O sr. acha que pedir às pessoas que doem parte de sua renda resolve algo?
    Acho que não é igual ao caso da mudança climática. Se eu doo para a Oxfam ou outra organização eficiente, isso faz uma diferença específica. Claro que não se trata de resolver a questão da pobreza global; obviamente eles não podem fazer isso. Mas quer dizer que algumas famílias vão receber telas contra mosquitos para as camas e que suas crianças não vão morrer de malária, ou que as crianças vão receber vermífugos e, sem parasitas, serão mais saudáveis, terão mais energia e irão melhor na escola. Ou uma aldeia consegue abrir um poço, e as pessoas não terão mais de caminhar três horas por dia para conseguir água.
    A razão para não ser assim com a mudança do clima é que, neste caso, de fato é necessário que governos se unam e estabeleçam limites de emissões de gases do efeito estufa. Não há como reunir um grupo de pessoas que possa fazer algo de significativo para de fato reduzir o aumento dos gases de efeito estufa e o aumento de temperatura resultante. São decisões mais amplas, como livrar-se de usinas elétricas movidas a carvão, criar um imposto sobre o carbono ou um mercado para créditos de carbono. É uma situação diferente da pobreza global, para a qual penso que indivíduos podem fazer uma grande diferença.
    Voltando ao tema do bem-estar animal e do bem-estar humano. O sr. responde ao romance "A Vida dos Animais", do sul-africano J.M. Coetzee, indicando que vê problema na comparação que a protagonista, Elizabeth Costello, faz entre o modo como tratamos os animais e o Holocausto. O sr. escreveu: "O valor que se perde quando algo é esvaziado depende do que estava ali quando estava cheio, e há mais [conteúdo] na existência humana do que na de um morcego".
    Esse argumento se parece ao de parte de pecuaristas que destroem a floresta no Brasil: eles criam empregos que vão beneficiar pessoas, e pessoas são mais importantes que o ambiente ou espécies selvagens. O sr. concorda?
    Concordo com a posição geral de que é relevante a questão de quantas pessoas estão se beneficiando e quantas pessoas estão sofrendo, mas não que isso seja usado como argumento para destruir a Amazônia ou pôr mais cabeças de gado para pastar, ignorando as questões de longo prazo de que falávamos há pouco. Uma das principais causas das emissões brasileiras de gases do efeito estufa é o desmatamento; outra, o próprio gado. Esse pessoal não está de fato beneficiando mais pessoas do que aquelas que consomem essa comida hoje. Eles causam muito mais dano no mundo todo, hoje e no futuro. É um cálculo errado.
    E quanto à oposição de valores entre existências humanas e animais? Devemos ter uma preferência?
    É razoável dizer que, se se trata do valor de uma vida, do ato de matar em si, o ser cuja vida contenha mais capacidades sofre uma perda maior. Se for para comparar a morte de uma pessoa com a de uma vaca, é razoável dizer que a morte de um ser humano é a tragédia maior. Mas há muito mais que o ato de matar na criação industrial de animais, que vivem vidas horríveis. Precisamos perguntar: por que fazemos isso, qual a necessidade de fazer assim?
    Seria comparável ao caso dos alemães que preferiam ignorar a existência de campos de concentração, como sugere a personagem Elizabeth Costello, de Coetzee?
    Há um certo paralelo aí. A diferença, suponho, é que as pessoas na Alemanha aceitavam a moralidade da ideia de que é errado matar seres humanos inocentes. Creio que estavam mais conscientes da seriedade do mal que se fazia durante o Holocausto, na medida em que sabiam do que estava acontecendo. No entanto, a maior parte das pessoas não é criada com a noção de que animais são moralmente importantes, de que devemos dar a seus interesses a mesma consideração que damos aos nossos. Pode-se dizer que voltar as costas para isso é mais desculpável. Mas também creio que haja algum paralelo, sim.
    Um paralelo constrangedor, não? Essa é a questão suscitada pelo livro de Coetzee.
    Sim. Ele é um escritor brilhante e nos faz sentir o desconforto das pessoas na plateia quando ouvem a palestra de Elizabeth Costello sobre o questionamento de seus hábitos. Há no livro a discussão particular sobre o paralelo com o Holocausto, muito contencioso. Coetzee está expondo as pessoas a esse desconforto. Mas, de novo: não há um número suficiente de pessoas que o estejam lendo e levando essas questões em conta.
    O sr. iria até o ponto de dizer que a pobreza mundial é o Holocausto do século 21?
    Não gosto muito de usar essa linguagem de Holocausto, de estendê-la para coisas que não estão assim tão perto. Vejo algumas diferenças. Ao dizer que o que está acontecendo com os pobres do mundo é o nosso próprio Holocausto, você desqualifica ou reduz a enormidade do que aconteceu no período histórico dos anos 1940. Mas o que eu diria é que, ao lado da mudança climática, é uma cegueira moral que temos e que, na escala de sua seriedade e de suas consequências, é comparável ao Holocausto.

      Vinicius Torres Freire

      folha de são paulo
      Trabalhar cansa
      Mais que inviável, o crescimento econômico tornou-se indesejável?
      VINICIUS TORRES FREIRERESUMO A crise de 2008 serve como ponto de fuga para dois livros acerca de um certo esgotamento do capitalismo. André Lara Resende e Luiz Gonzaga Belluzzo enfocam as perversões da sociedade consumista e os impasses do crescimento, considerado tanto inviável a longo prazo como incapaz de promover qualidade de vida.
      "Por que e para que crescer são perguntas que deixaram de ser feitas. Não costumamos nos questionar sobre o óbvio", afirma André Lara Resende num dos 18 artigos recolhidos em "Os Limites do Possível: a Economia além da Conjuntura" [Portfolio, 288 págs., R$ 44,90].
      O economista causou certa sensação em 2012 ao associar a dificuldade de solução da crise de 2008 ao esgotamento dos recursos naturais do planeta.
      A saída menos dolorosa para a crise e seu entulho econômico maior, o excesso de dívidas, seria o crescimento econômico. Porém, dado o "limite físico do ecossistema", que "pode ter sido atingido ou está muito próximo", "não há mais como pretender que a economia mundial volte a crescer". Caso cresça, não será por muito mais tempo, pois "não há como viabilizar 7 bilhões de pessoas, com o padrão de consumo e as aspirações do mundo contemporâneo, nos limites físicos da Terra", ideias em parte baseadas no livro "The Great Disruption", do ambientalista Paul Gilding.
      Esses são "os novos limites do possível", título de um artigo do livro, de janeiro de 2012, publicado como a maioria dos demais no jornal "Valor Econômico".
      Resende, como se sabe, foi um dos economistas que pensaram as manhas da inflação brasileira e as bases dos planos econômicos que dariam no Real. Foi professor da PUC do Rio, serviu no governo FHC e trabalha como financista.
      "Os Limites do Possível" dialoga enfronhada e inadvertidamente com outra obra recente, "O Capital e suas Metamorfoses" [ed. Unesp, 192 págs., R$ 32], de Luiz Gonzaga Belluzzo, professor titular da Unicamp, também homem público e empresário na área de educação. O livro de Belluzzo é feito de cinco ensaios baseados em aulas e textos dos anos 80 e 90, além de dois trabalhos mais conjunturais, dedicados à economia contemporânea.
      Os dois livros têm como ponto de fuga a crise de 2008, a qual no entanto tratam como uma circunstância, embora grave, de processos históricos muito mais amplos. No caso de Belluzzo, como desenvolvimento último e consequente da lógica da acumulação capitalista. No caso de Resende, como inconsequências devidas à incompreensão de certo esgotamento capitalista, entre outros erros.
      No livro, Resende comenta artigo do economista Robert J. Gordon que discute uma implicação ora lúgubre da teoria neoclássica do crescimento. No longo prazo, o crescimento depende dos ganhos de produtividade derivados do progresso tecnológico, avanços que nas economias ricas são agora muito menores que os registrados entre os séculos 18 e o final do 20. As economias na fronteira tecnológica tenderiam a crescer agora mais devagar.
      ABISMO Ou seja, além de à beira do precipício ambiental, as economias avançadas talvez apenas possam chegar ao abismo se arrastando, se tanto, ou movidas a bolhas de consumo suicidas. A dificuldade de crescer não decorre pois da circunstância da crise de 2008, que seria mais um efeito das tentativas exageradas de anabolizar, com excesso de consumo e dívidas, economias que deram o que tinham que dar.
      O crescimento, além de inviável ou esgotado, talvez também não seja mais desejável, quando não sem sentido. Resende aceita, com restrições, conclusões de estudos em voga segundo os quais a satisfação (ou a felicidade) dos indivíduos deixa de aumentar a partir de um certo nível de renda. Por que então crescer mais? Para aumentar a renda per capita: tornar a população na média mais rica (isto é, tornar a economia mais produtiva).
      "Mas para que serve a riqueza?", pergunta Resende, secundando Keynes. Para reduzir o tempo dedicado ao trabalho. Nos termos de Belluzzo, formulados com o auxílio do mesmo Keynes (ecoando Marx), a economia industrial suscitou a "esperança do aumento do tempo livre desfrutado de forma enriquecedora por indivíduos autônomos", utopia negada por sociedades, porém, cada vez mais ricas.
      Porém "nunca [atualmente] se considerou tão fundamental trabalhar... e nunca se considerou tão ameaçadora a ideia de que a economia possa não crescer", comenta Resende."O mundo contemporâneo" (e não só), no entanto, não tem opinião unívoca sobre o assunto, apesar do que dá a entender, talvez por lapso, o texto do economista. Há conflito social, desculpe-se a obviedade.
      Os trabalhadores franceses, por exemplo, nos anos 1990 bateram-se pelo direito à semana de 35 horas, motivo de crítica ou desprezo e chacota dos economistas padrão. Os franceses seguem uma tradição moderna, de pelo menos 250 anos, de combate pelo direito ao tempo livre ou mesmo à preguiça; pelo direito de ganhar menos e seguir uma vida mais calma, como os plantadores de batata alemães estudados pela sociologia alemã da virada do século 19 para o 20, ou como tantos socialistas.
      BARBÁRIE Os motivos da barbárie que é negar, a bilhões de indivíduos, condições de subsistência e de realização da vida boa são tratados de modo complexo pelos autores, mas no meio do caminho os dois curiosamente se detêm na mesma pedra cheia de musgo da obra do economista Thorstein Veblen (1857-1929), sua "Teoria das Classes Ociosas" (1899) e seu conceito de "consumo conspícuo", marginalizados pela teoria econômica tradicional.
      Os dois tratam das perversões da sociedade consumista, com ênfase mais "psicológica" no caso de Resende e mais "sociológica" no caso de Belluzzo, para recorrer a um resumo adjetivo precário. Como diz Resende, não é a riqueza absoluta, mas a riqueza relativa que nos importa. "Não nos basta ser apenas ricos, mas sim mais ricos que nossos pares."
      Ressalte-se que os enfoques são, porém, completamente diferentes. Apesar de se declarar ex-economista na introdução de seu livro, Resende não lança fora os fundamentos padrão de sua profissão, a qual no entanto tornou-se "um campo menor da matemática aplicada" (fala da teoria macroeconômica).
      Na economia de Belluzzo, trata-se de uma conversa metaheterodoxa travada por Marx e Keynes, entre outros algo menos cotados; economia e sociedade são um caldo de cultura que resulta da mesma moenda do capital, da acumulação sem sentido, o que não é um problema, mas fundamento, da economia padrão.
      "O Capital e suas Metamorfoses" pode ser lido como uma série de razões que desmontam argumentos vulgares sobre as origens e desenvolvimento da crise de 2008: imoralidade dos financistas, mero defeito da regulação da economia, "desvirtuamento" da economia de mercado ou "descolamento" da "valorização fictícia dos estoques de riqueza em relação à geração de valor na esfera produtiva".
      Nos ensaios, Belluzzo reapresenta a maquinaria conceitual de "O Capital" de Marx, em diálogo com problemas atuais e com autores da tradição "ortodoxa" e "heterodoxa" da economia, em especial com Keynes. Belluzzo procura mostrar congruências entre as ideias do comunista e do "fundador" da macroeconomia (Keynes) a respeito de finanças, crédito e investimento.
      Por fim, note-se uma última coincidência essencial nos oceanos de diferenças entre Resende e Belluzzo, ou pelo menos um grande farol de suas preocupações: a ruína política no capitalismo plenamente desenvolvido ou esgotado, a depender dos autores.
      Na visão de Belluzzo, estamos vivendo uma situação histórica em que "a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Essas duas percepções convergem na direção da deslegitimização' do poder administrativo e na desvalorização da política".
      Resende não é um adepto "sem mais" do capitalismo, que cria desigualdades e exclusão (no entanto mencionadas de passagem) e promove valores (privatização excessiva da vida, consumismo etc) ora incompatíveis com a valorização da vida pública e da política, os meios de dar conta das mazelas da economia de mercado.
      Mas o que seria essa revalorização da vida pública? O "projeto" é tornar compatível o mundo "globalizado" com a valorização das comunidades locais, aproximar homens públicos de sua comunidades, conter de modo drástico a influência da publicidade e do marketing sobre a vida pública, influência já bastante deletéria na promoção do consumismo.

        A capelinha de Manuelzão - Fernando Granato

        folha de são paulo
        ARQUIVO ABERTO
        MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
        A capelinha de Manuelzão
        Andrequicé, 1995
        FERNANDO GRANATOA estrada era esburacada. O ar seco, típico do sertão, provocava grande poeira. Estávamos eu e o fotógrafo Walter Firmo num carro alugado, rumo às ruínas de uma antiga capelinha, erguida na fazenda chamada Baixio da Sirga (interior de Minas) a pelo guia que nos acompanhava: Manuel Nardi, o Manuelzão, imortalizado na obra de João Guimarães Rosa.
        No conto "Uma Estória de Amor", depois publicado no volume "Manuelzão e Miguilim" (1964), Rosa descreve a saga da construção dessa igrejinha que procurávamos naquele junho de 1995. Trabalhando como um repórter, o escritor mineiro, já projetado pelo sucesso de seu primeiro livro, "Sagarana" (1946), resolveu seguir uma boiada em maio de 1952.
        E o fez nas imediações de sua cidade natal, Cordisburgo, para depois escrever com mais propriedade seu "Grande Sertão: Veredas" (1956). Nos dias que passou na companhia dos boiadeiros, entre eles Manuelzão, o escritor ainda coletou material para outros textos.
        "O João Rosa perguntava de tudo", relatou Manuelzão. "E ficou impressionado quando eu contei que tinha construído a capelinha para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro a pedido de minha mãe. Sempre tive preguiça de padre, mas pedido de mãe a gente atende."
        O velho lembrou ainda que Rosa carregava uma caderneta pendurada no pescoço por uma cordinha, para manter as duas mãos firmes nas rédeas. "Nela, tudo ele escrevia", contou. "O nome das plantas, como era o canto dum passarinho, as conversas da gente."
        Conforme o carro avançava em meio à vasta plantação de eucaliptos que havia tomado conta do sertão, Manuelzão, sentado na frente, ia narrando com sua voz rouca peculiaridades daquele maio de 1952: "O João Rosa inventou alguma coisa. Mas manteve o principal do que viu e da história que contei para ele. Só trocou alguns nomes".
        Firmo e eu buscávamos detalhes da aventura que Guimarães Rosa havia vivido entre os boiadeiros, alimento para a sua obra maior. Com a cópia das cadernetas do escritor nas mãos, o objetivo era seguir as mesmas trilhas que ele tinha percorrido 43 anos antes.
        O sertão não era mais o mesmo. "Acabou tudo que é vivente", comentou Manuelzão. "Onde tem eucalipto não fica nem urubu."
        Além do eucalipto, carvoarias se espalhavam pela região, no centro de Minas Gerais, para abastecer as siderúrgicas produtoras de ferro-gusa. E os vaqueiros, que antes percorriam aquelas empoeiradas estradas com seus melancólicos aboios, viraram carvoeiros. "Agora boi só viaja de caminhão por essas paragens", explicou.
        Chegamos ao local da antiga capelinha. O mato subia alto. Sobraram apenas as madeiras da estrutura externa, já apodrecidas pelo tempo. Ao lado, quatro túmulos de um pequeno cemitério sertanejo, entre eles o da mãe de Manuelzão.
        Como disse o escritor, "um cemiteriozinho, razoável, cercado de aroeiras, moirões que podiam durar sem acaba, e coberto pelo capim duro do cerrado, no qual, no raiar das madrugadas, o orvalho é azul e mata a sede".
        Enquanto caminhávamos pelo que sobrou, avistando ao longe o São Francisco, com suas águas turvas, Manuelzão resmungou baixinho, curvado sobre o túmulo da mãe: "A gente tá na vida emprestado. Deus chama quando ele quer".
        Manuelzão morreu dois anos depois desse nosso encontro, aos 92 anos. Na casinha em que viveu em Andrequicé, pequeno vilarejo próximo à Sirga, foi erguido um memorial em sua homenagem.
        Nele há fotos, utensílios, coleção de canivetes, sela e a enorme capa de boiadeiro --a fiel e inseparável companheira. Tudo reunido pela mulher dele, dona Didi, já que o personagem de Guimarães Rosa não guardava nada.
        "Por mim punha fogo em tudo isso", disfarçou ele, na época da nossa conversa. Que nada --Manuelzão bem que gostava da fama conquistada na literatura.

          domingo, 18 de agosto de 2013

          Só sobrou uma poça fedida e fumarenta - VIRGINIA WOOLF - tradução DENISE BOTTMANN - ilustrações QUENTIN BELL

          folha de são paulo
          IMAGINAÇÃO

          PROSA, POESIA E TRADUÇÃO
          Charlestonianos eminentes: Clive
          SOBRE O TEXTO As páginas aqui reproduzidas integram edição fac-similar do que se acreditam ser os últimos inéditos da inglesa Virginia Woolf (1882-1941). "The Charleston Bulletin Supplements", recentemente editados em livro no Reino Unido pela British Library (org. Claudia Olk, 144 págs., R$ 57,80, sob encomenda), era o nome de um jornal doméstico produzido entre 1923 e 1927 pela escritora e seu sobrinho Quentin Bell (1910-96), que mais tarde se tornaria seu biógrafo. O teor humorístico e "nonsense" dos textos em que a dupla satirizava familiares, como Clive Bell, pai de Quentin, traz à luz um lado cômico quase desconhecido da autora de "Mrs. Dalloway" (1925).
          VIRGINIA WOOLF
          tradução DENISE BOTTMANN

          1. CLIVE E O ACORDEÃO
          Mr. Bell confundindo um acordeão com um gato, ou um gato com um acordeão; ninguém sabe direito, pois aquilo soltou um guincho e só sobrou uma poça mienta medonha, fedida e fumarenta.
          2. RESGATA MARY
          Súbito sumiço de Mrs. St. John Hutchinson, em Rodmell Brooks. Aqui, Mr. Bell aparece salvando o que sobrou: dois pés, uma mão, três dedos de uma anágua cor-de-rosa e uma Bíblia que a sra. H. tinha roubado de Leonard Woolf, Esquire.
          3. 1) POR QUE CLIVE TEM POUCO CABELO
          Ao analisar a calvície de Clive Bell, temos a tentação de atribuí-la à aplicação indiscriminada de bolas frescas de neve a um cocuruto não suficientemente protegido.
          4. 2) POR QUE CLIVE TEM POUCO CABELO
          Ou podemos arriscar a hipótese de que a dita depilação do crânio sobreveio após a descoberta da infestação de lepidópteros em seu segundo melhor traje de noite.
          5. PROEZA
          Sabe-se que Clive Bell, Esquire, alcançou sua inconteste proeminência no mundo das Artes & Letras graças à sua perícia na ciência da equitação e à sua ascendência vulpina, aqui mostradas, às quais seu empenho literário e conhecimento dos Clássicos de nossa língua, aqui mostrados, pouco ou nada acrescentaram de grande importância.
          6-7. OS CHOCOLATES
          Mr. Bell cedendo à sua paixão por doces. Uma caixa por vez, diz o entremez -- ele exclama, e o pobre Quentin vai triste p'ra cama.
          8. PRÊMIOS DA VIRTUDE
          Aqui temos a célebre cena em que, por causa de uma curiosa semelhança fisionômica natural, o conhecido parlamentar Churchill recebe a homenagem destinada ao crítico Bell.







          O lado escuro de Getúlio - Otavio Frias Filho

          folha de são paulo
          Cesarismo camaleônico fez do líder popular um ditador
          RESUMO Segunda parte da biografia de Getúlio Vargas aborda seu lado "ruim", concentrando-se nos anos que levaram à ditadura do Estado Novo. Apesar de certo tom oficialesco, livro se destaca pela narrativa da Revolução de 32 e da Intentona Comunista e ajuda a desfazer maniqueísmo ingênuo em torno da figura do líder.
          OTAVIO FRIAS FILHO
          ASSIM COMO o colesterol, pode-se dizer que existe um Getúlio Vargas "bom" e outro "ruim". O primeiro é o líder de uma revolução democrática, o campeão dos direitos sociais, o governante nacionalista. O segundo é o chefe da única ditadura pessoal que o Brasil conheceu e o político inescrupuloso aferrado ao exercício do poder.
          Claro que esse maniqueísmo ingênuo se desfaz conforme conhecemos mais sobre personalidade tão ambígua e sua complexa inserção numa época conflagrada como os meados do século passado. Fomentar essa compreensão isenta é o maior mérito da biografia em três volumes empreendida pelo jornalista e pesquisador Lira Neto, da qual se publica agora a segunda parte, "Getúlio - Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo (1930-1945)" [Companhia das Letras, 632 págs., R$ 52,50].
          Nela se concentra o Getúlio "ruim", o equilibrista ardiloso que sobrenada em meio às tormentas ideológicas da década de 1930, jogando uns contra outros, sempre aliado ao adversário da véspera --chefe do governo provisório (1930), presidente eleito pela Constituinte (1934) e enfim ditador a partir de 1937.
          É natural que o protagonista comande o espetáculo numa biografia; mesmo no caso de figura decisiva como Vargas, porém, é fascinante o grau em que sua trajetória foi antes comandada pelas circunstâncias. Mestre da paciência e do silêncio, ele esperava que se consolidassem à medida que tratava de se amoldar a elas.
          Não eram apenas circunstâncias locais, pois os anos 1930 ilustram com nítida evidência que não existe o "nacional", no sentido de que ele é sempre uma variante particular de fenômenos mais amplos, de dimensão internacional.
          Impulsionada pela catástrofe da crise econômica de 1929, por toda parte a revolução social parecia iminente. Sua ponta de lança eram os partidos comunistas, organizados sob disciplina militar e obedientes à União Soviética.
          O fascismo foi, como se sabe, uma defecção nacionalista e racista desse movimento revolucionário, logo apropriada pelos setores interessados em preservar a propriedade e a hierarquia ameaçadas. Desde os anos 1920, hordas de fanáticos das duas seitas --opostas nos propósitos, iguais em método e estética-- se enfrentavam em arruaças nas principais cidades do mundo.
          Quando duas forças políticas se empenham num confronto violento e prolongado sem que nenhuma submeta a outra, torna-se provável um desenlace cesarista (também chamado bonapartista). Incapaz de um compromisso estável, exaurida pelas lutas intermináveis, a sociedade vê um ditador enfeixar o poder absoluto para restabelecer a ordem periclitante, ainda que sob uma retórica revolucionária.
          Nada muito diverso ocorreu no Brasil da época. Mas a comparação é instrutiva porque permite isolar, quase como num experimento químico, as peculiaridades que distinguem o cesarismo tupiniquim, getuliano, do padrão mais geral.
          A mais notável, talvez, é seu caráter camaleônico. Embora formado no positivismo autoritário e reformista que fez longa escola na política gaúcha, Getúlio nunca aderiu a qualquer doutrina ideológica. Conforme as conveniências, manipulava este ou aquele aspecto de todas elas, reivindicando para si o centro de gravidade da política, afastado de ambos os extremos.
          Característica psicológica da personagem? Certamente. Mas também sintoma de uma sociedade onde ideologias têm função decorativa, na qual as ideias não são levadas ao pé da letra nem sequer a sério, em que programas e compromissos são "para inglês ver".
          Esse traço cultural do país responde por mazelas (sucessivas constituições, leis e orçamentos que não se respeitam, partidos de araque, política inautêntica) e também por subprodutos benfazejos (ausência de racismo politicamente articulado, tolerância religiosa e sexual, descrença em relação a dogmas).
          Tortura e assassinatos políticos faziam parte da rotina da repressão policial, sobretudo após o golpe do Estado Novo, em 1937. Não podem ser quantificados porque os registros foram destruídos a tempo, mas as revoltas armadas do período deixaram um saldo reduzido de baixas.
          Foram 22 mortos na Intentona Comunista (1935); ainda menos na tentativa de golpe integralista (patética versão nativa do fascismo) em 1938. Mesmo a Revolução Constitucionalista de 1932, o maior conflito armado na história republicana depois das sangrentas campanhas de Canudos e do Contestado, deixou menos de mil mortos.
          Esse cômputo integra um padrão reiterado na formação brasileira, uma sociedade mais violenta do que a maioria das demais, desde logo pela extensa deformação da escravatura, mas onde a violência encontra escassa expressão política.
          Cada um é livre para especular sobre esse enigma nacional. Resultado da profunda desarticulação social que é própria do legado escravocrata? Hábito adquirido da conciliação, dos acertos "pelo alto", a fim de não despertar o vulcão adormecido da desigualdade? Anemia da sociedade civil, o que deixa as forças políticas quase sempre à mercê do bloco que controla o hipertrofiado poder central? Porosidade à ascensão individual, que impede a pressão coletiva de atingir um ponto crítico?
          PROTESTOS Na opinião deste resenhista, dois episódios se destacam na narrativa de Lira Neto. O primeiro é a Revolução de 1932, a começar pela extraordinária descrição do incidente --os protestos de 23 de maio nas ruas em São Paulo-- que a prenunciou. Ainda que o livro nunca abandone a perspectiva da personagem incrustada no Palácio do Catete, seu relato transmite a sensação de que a revolta se desenrola diante de nossos olhos.
          Fica patente o quanto havia de reacionário no movimento, que mobilizava um sentimentalismo nostálgico da supremacia política paulista. Ao mesmo tempo, deflagrada pela elite econômica e cultural, a insurreição teve substancial apoio popular e conduziu à breve democratização de 1934, que adiou a ditadura.
          Esta seria inevitável em decorrência do outro episódio proeminente, o infausto levante militar organizado no ano seguinte pelo Partido Comunista. Por volta de julho de 1935, Josef Stálin, o ditador soviético, finalmente atinou que o nazifascismo era a ameaça prioritária. Os partidos comunistas, até então instruídos a incitar a revolução armada, passaram a adotar uma política defensiva de frente ampla com as demais forças antifascistas. No Brasil, o golpe em preparação não foi abortado, em parte por causa das estimativas delirantes sobre a chance de vitória que seu líder, Luís Carlos Prestes, repassava a Moscou.
          Detonada em novembro no Recife e em Natal, e dias depois no Rio, a intentona foi facilmente estrangulada pelo governo. Concebida por uma potência estrangeira, converteu-se no fantasma a ser invocado como eterno pretexto pelas duas ditaduras do século, a de 1937 e a de 1964. Foi o maior dos muitos erros de Prestes, tido por militar capaz, mas politicamente obtuso.
          Seu fracasso aproximou perigosamente o Brasil do Eixo, tendência revertida para um tardio realinhamento com os Estados Unidos que só seria consumado em 1942, quando aquele país compeliu o nosso a ceder bases aéreas no Nordeste como apoio logístico para a campanha no Atlântico. Na barganha, Getúlio obteve dos americanos financiamento para a primeira siderúrgica, Volta Redonda.
          Premido por manifestações populares, provocadas pelo afundamento de navios brasileiros que violavam o bloqueio naval imposto pela Alemanha à Inglaterra, o governo enviou uma força expedicionária à guerra na Itália. O engajamento com as potências democráticas desencadeou a dinâmica que levaria os militares à primeira deposição de Getúlio Vargas (1945).
          Como saldo, o Estado Novo deixava um aparelho federal modernizado, uma legislação trabalhista que renderia ao getulismo dividendos eleitorais por muitos anos e incipientes processos de industrialização e urbanização que se fariam avassaladores nas décadas seguintes.
          Não faltam amenidades ao livro. Desde o apreço de Getúlio Vargas por pontualidade, churrasco, cavalos, charutos, golfe e pingue-pongue até detalhes de sua estreita relação com a filha Alzira, confidente e secretária particular que organizou os arquivos do pai, esta biografia não perde o fio do pitoresco, do íntimo e do prosaico. O antiquado romance com a mulher de um hierarca do regime --a "bem-amada" que aparece nos diários secretos do presidente-- é contado em tom picante.
          Duas ressalvas num livro de resto admirável. A pouca familiaridade do biógrafo com temas econômicos deixa lacunosa essa importante faceta na atuação do ditador.
          E as principais fontes do livro --as recordações filtradas pela devoção de Alzira Vargas e os diários mantidos pelo pai (1930-42), que mesmo ali ostenta a compostura protocolar de quem calcula sua revelação póstera-- às vezes conferem uma tonalidade oficialesca ao conjunto, que não deixa de refletir, entretanto, o pesado clima cartorial da época.
          Na segunda parte da biografia de Vargas, se concentra o Getúlio "ruim", o equilibrista ardiloso que sobrenada em meio às tormentas ideológicas da década de 1930
          No livro, fica patente o quanto havia de reacionário no movimento de 1932, que mobilizava um sentimentalismo nostálgico da supremacia política paulista
          Getúlio nunca aderiu a qualquer doutrina ideológica. Conforme as conveniências, manipulava este ou aquele aspecto de todas elas, afastado de ambos os extremos

            Ao mestre, com rapadurinhas - Carlos Castelo

            folha de são paulo
            ARQUIVO ABERTO
            MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
            Ao mestre, com rapadurinhas
            São Paulo, 1994
            CARLOS CASTELO
            EU NÃO SUPUNHA que 1994 seria um ano de ensinamentos tão importantes para mim. À época vivia num limbo. Nos anos 1980 participara ativamente, como compositor, no movimento conhecido como vanguarda paulistana.
            Mas o cenário musical estava mais morno na década seguinte e eu buscava me inscrever numa outra categoria artística: a de escritor. Foi quando soube que um colega, o jornalista Mylton Severiano, era muito próximo ao contista João Antônio (1937-96).
            Na noite de 23 de dezembro de 1993, fui apresentado ao próprio no restaurante Consulado Mineiro, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.Por algumas horas ele dissertou sobre temas que iam de Garrincha a padre Vieira, passando por sua experiência como autor-residente na Alemanha.
            Queria muito fazer parte da confraria de missivistas que se correspondiam com ele. Já no dia seguinte preparei um texto impressionista sobre a noite no Consulado e pedi que Mylton Severiano o entregasse ao mestre.
            No "Panegírico a João Antônio", em determinado trecho, redigi:
            "Eu vi um homem. Eu, tão cultura rock. Um Mário Reis literário, um três-bês: branco, besta, bem-nascido... eu vi um homem esbravejando por um ideal. Meu Deus, e esbravejar por um ideal é a antítese do pop que me foi vendido."
            Adicionei à carta uma caixa de rapadurinhas. Em 17 de janeiro de 1994, Mylton me enviou um fax da última carta que recebera de João Antônio. Havia nela uma menção a mim.
            "Eis aí um Castelo que promete escrever com a alma e o coração. E, então, já se adentrou em terreno sagrado. Vamos dar um jeito no Castelo, vamos lhe dar uma boa ripada', talvez uma esculhambação'? Direta ou indiretamente, ele é um nosso irmão, mais novo, em Noel Rosa, não é?
            É de se tentar construí-lo. Ele precisa cair na vida, vidão? Primeiro: ele não tem culpa nenhuma de ser um filho da classe média. Chico Buarque ou Noel Rosa são exemplos."
            Em 25 de janeiro de 1994 fui aceito no grupo e recebi do contista a primeira de uma série de mensagens.
            "Não me cabe, por direito ou por torto, evangelizar a vida de quem quer que seja. Assim, pouco tenho a lhe acrescentar. Já lhe falei sem parar lá no Consulado Mineiro."
            Contudo, mais à frente, ele passaria a dar aconselhamentos que me surpreenderam pela disposição, quase didática, no ensino de seu "métier".
            "Descubra o de que você gosta. E dentro dele, o de que você gosta mais. E dentro dele, o que você ama. Então, será aquilo. Procure escrever sobre o que você ama. E as variações do amor são um leque enorme. Você poderá ser um gigante nesse sentido."
            Durante vários meses, vieram mais outras correspondências da mesma natureza. Quando lhe escrevi afirmando que chegara à conclusão de que o meu veio era o humor, aconselhou-me a ler Rabelais "" "ele é pai e avô de muitos grandes do humor".
            E ainda grafou uma definição notável sobre o tema: "Nada mais sério que o humor. É a quinta-essência da seriedade. Acima dele, só o pensamento, em termos filosóficos. E acima de acima (a meu pobre entender) só a poesia. E acima, mais acima, a profecia".
            Do primeiro ao último, todos os seus textos demonstravam uma grande generosidade com um aspirante a ficcionista como eu. A atitude era contrastante com algumas opiniões que diziam que o criador de "Malagueta, Perus e Bacanaço" seria um gênio difícil.
            Depois de algum tempo, o filósofo da malandragem, para minha surpresa, passou a me pedir insistentemente que telefonasse à sua mãe, dona Irene. Como bom discípulo, obedeci.
            "Elogie muito o filho primogênito dela, diga que sou um valor das letras pátrias, um caso de talento inefável, um senhor texto, uma senhora cultura e outras loas. Mesmo que você minta há de ser virtude. Haverá um humanismo porejante nessas mentiras e, assim, havemos de ficar mais amigos. Dei muito trabalho a meus pais e sempre fui um desgarrado." Até hoje me pergunto: teriam sido as rapadurinhas que o adoçaram?

              Arte fora de controle - Violência e paixão povoam a cena alemã - SILVIA BITTENCOURT

              folha de são paulo
              DIÁRIO DE BERLIM
              O MAPA DA CULTURA
              QUAIS SÃO OS limites da arte? É o que vêm perguntando os críticos alemães sobre dois artistas famosos do país, o rapper Bushido e o performer Jonathan Meese.
              Bushido, 35, acaba de ver sua música "Stress ohne Grund" (estresse sem motivo) entrar temporariamente para o "índex" de obras prejudiciais à juventude.
              O texto incita a violência contra homossexuais e políticos alemães, entre eles a líder do partido verde: "Atiro em Claudia Roth e ela ganha buracos como num campo de golfe", diz um dos versos.
              Quando ficou famoso, cerca de dez anos atrás, o berlinense Bushido, filho de pai tunisiano, tornou-se um exemplo para a integração de imigrantes na Alemanha.
              Fato é, porém, que ele sempre esteve na mira da polícia: na juventude, por pequenos delitos; agora por envolvimento no crime organizado e por suas declarações homofóbicas, antissemitas e machistas.
              Já o pintor, escultor e artista performático Jonathan Meese, 43, está sendo processado porque fez nas suas últimas aparições o chamado "Hitlergruss" --a saudação nazista, com o braço direito esticado, proibida na Alemanha. É acusado de empregar "sinais de organizações inconstitucionais".
              Meese é conhecido por suas performances caóticas e megalomaníacas, nas quais frequentemente se ocupa de personalidades controvertidas como Hitler, Friedrich Nietzsche e Richard Wagner. O "Hitlergruss", diz ele, seria apenas um elemento de seu show e não uma declaração política.
              Bushido e Meese não foram os primeiros artistas a passar dos limites, na visão das autoridades. Em 1997, o diretor Christoph Schlingensief (1960-2010) foi preso ao divulgar um cartaz, na exposição Documenta de Kassel, contra o então chanceler do país: "Matem Helmut Kohl". E em 2008 foi a vez de Anselm Kiefer polemizar, expondo oito autorretratos com a saudação nazista.
              ROMANCE DE VERÃO
              Königsallee (alameda do rei) é o nome do mais famoso boulevard de Düsseldorf. E é o título e o palco do último romance de Hans Pleschinski, que ali conta um episódio (fictício) da vida do escritor e Prêmio Nobel Thomas Mann (1875-1955).
              A história se passa em 1954, poucos anos depois de Mann retornar do exílio americano à Europa. O escritor visita Düsseldorf para apresentar o livro "Confissões do Impostor Felix Krull". E ali encontrará, para sua surpresa, o comerciante Klaus Heuser, uma antiga paixão do final dos anos 1920.
              Pleschinski mistura ficção e não ficção (a visita de Mann a Düsseldorf e o reencontro com Heuser não aconteceram, mas o seu antigo caso de amor, sim), traz passagens divertidas sobre o circo montado em torno do escritor e anotações tiradas dos diários de Thomas Mann --entre elas, as que assumem a paixão pelo jovem 35 anos mais moço.
              Também faz alusão a várias obras do escritor, sobretudo "Carlota em Weimar" --que narra um reencontro amoroso entre Goethe e sua amada Lotta.
              PRECIOSIDADES
              Acaba de ser inaugurado o primeiro arquivo on-line para textos jornalístico-literários alemães: www.waahr.de. Criado por três jornalistas e escritores, Anne Waak, Joachim Bessing e Ingo Niemann, o arquivo traz tanto artigos inéditos como textos antigos de publicações já extintas.
              O serviço tem também o objetivo de fomentar o jornalismo literário alemão --na tradição do "new journalism" americano, no qual o repórter escreve textos subjetivos, envolvendo-se com a sua história. O título "waahr" joga com a palavra "wahr" em alemão ("verdadeiro"), sugerindo, segundo disse Waak à Folha, uma coleção de "verdades subjetivas".
              Os artigos mais antigos são do escritor Heinrich von Kleist (1777-1811). Também se encontram textos de Marc Fischer (1970-2011), autor de "Ho-ba-la-lá "" À Procura de João Gilberto" (Companhia das Letras).
              AEROPORTO
              Até hoje os berlinenses não sabem o que fazer com o imenso prédio do antigo aeroporto de Tempelhof, no centro da cidade. Desativado em 2008, o campo com as pistas de pouso e decolagem tornou-se uma enorme área de laz er para os habitantes da capital.
              A questão agora é o destino do prédio tombado do aeroporto. Ele já vem servindo a eventos culturais, como shows e desfiles de moda. Mas, para continuar de pé, precisaria de uma reforma que custaria milhões de euros.
              Inaugurado no final dos anos 1920, o aeroporto de Tempelhof foi ampliado na década de 30, transformando-se numa construção monumental, típica da arquitetura nazista.
              Ficou famoso no auge da divisão da Alemanha, no início dos anos 1960, quando os americanos instalaram ali uma ponte-aérea para abastecer a população de Berlim Ocidental, ilhada pelo Muro.

                O segredo entre as pernas das mulheres - Luiz Felipe Pondé

                folha de são paulo
                ENSAIO
                A adúltera
                O segredo entre as pernas das mulheres
                RESUMO A série em que a "Ilustríssima" adianta os principais lançamentos do ano apresenta trecho de "A Filosofia da Adúltera", reunião de ensaios do colunista da FolhaLuiz Felipe Pondé inspirados em Nelson Rodrigues. O texto a seguir enfoca, a partir da peça "Perdoa-me por Me Traíres", o embate entre culpa, pecado e desejo.
                LUIZ FELIPE PONDÉ
                "Não se abandona uma adúltera."
                Nelson Rodrigues, em "Perdoa-Me Por Me Traíres"
                JÁ DISSE VÁRIAS VEZES que o segredo do mundo se encontra entre as pernas das mulheres. Claro, exagero. Mas nem tanto assim.
                Para quem gosta de mulher, parte da vida se resume aos seus movimentos pélvicos e sua saliva. E seus tédios. Mas, ainda assim, se visitarmos a mais radical visão evolucionária da pré-história humana, veremos que grande parte da vida em bando, seus afetos (base da relação entre moral e religião, porque base fisiológica e psicológica de ambas), suas guerras, suas festas e protoinstituições encontram sua ancestralidade funcional no calor úmido entre as pernas das mulheres.
                O afeto feminino é úmido e quente. No entanto, para mim, esse fundamento científico pouco importa; não faço ciência aqui e quase nunca.
                Onde nascem os famosos sistemas de parentesco, de que falam os antropólogos, se não entre as pernas das mulheres? Dirão que sou sexista, porque, afinal, as mulheres não geram parentesco por elas mesmas, mas com os homens. Pode ser; mas os homens pouco me importam, talvez porque desde muito cedo percebi que as mulheres são deliciosas e cheirosas, e tudo que penso nasce de sensações.
                Desejo é escravidão, e temperamento é destino. Como diria o cético escocês David Hume no século 18, "knowledge is feelling" (conhecimento é sentimento). Com o tempo, o temperamento se transforma em caráter. Faço filosofia sobre o que está entre as pernas das mulheres porque gosto de estar entre as pernas das mulheres, e não por alguma razão histórica defensável, apesar de que, como disse acima acerca da teoria evolucionária, acho possível sustentar minha máxima de que "o segredo do mundo se encontra entre as pernas das mulheres" com alguma cientificidade, apesar de desprezar esse tipo de fundamentação.
                Minha simpatia pelo darwinismo é, antes de tudo, devida ao seu caráter dramático, e não ao científico. Ou melhor, seu caráter estético. O fato de ele ser científico, para mim, apenas aprofunda sua natureza operística.
                Posso me perder imaginando uma bela mulher que pertence a outro homem, de joelhos, sendo uma amante infiel. Pedindo pelo amor de Deus para não levá-la a fazer o que ela quer, mas sentindo-se culpada por querer. Talvez chore e trema, como de costume, quando a culpa segue sua fisiologia.
                A culpa e o pecado são os maiores aliados do desejo que existem, e nesse sentido Nelson está muito além da estupidez contemporânea que pensa, erroneamente, que "sexo livre" dá tesão. É da natureza feminina desejar o que "dói".
                E também, como dizia Nelson, a prostituta não é a primeira profissão do mundo, mas a sua vocação mais antiga. E essa vocação é a de desejar ser objeto do homem que a possui, seu dono (mesmo que simbolicamente e por algum tempo). Mas essa vocação não significa ausência de sofrimento ou de contradição: pelo contrário. É a contradição que a deixa tão desejável em sua incapacidade de controlar seu ímpeto de infidelidade. E se tornar uma adúltera.
                SEGREDO Essa contradição assume a forma de suor líquido, gosto, cheiro, gesto, gemidos, restos, enfim, tudo aquilo que constitui o segredo da vida entre as pernas das mulheres. E o desejo escorre pelas pernas. A adúltera revela o fracasso de toda moral porque a interdição apaixona. Tornar-se objeto, coisa que se deixa mandar.
                Mas a adúltera na obra de Nelson é mais do que isso. Ela é um de seus arquétipos essenciais para representar a condição humana.
                Aliás, Nelson também via as mulheres como objeto intenso de desejo e reflexão. Não é por acaso que, quando Nelson fala de suicídios, homicídios e enterros, diz que, quando o morto era uma mulher, tudo era mais dramático, interessante e intenso para ele. Suspeito de que uma das razões para esse fato é ser ele um heterossexual e, por isso mesmo,alguém que via parte do mundo e da vida mediado pelo que há entre as pernas das mulheres.
                Sexo é destino, apesar de alguns quererem brincar dizendo que não, porque querem ter o sexo do outro. Mas, ainda assim, é o sexo que é destino; nesse caso, o sexo errado.
                Pensar através da adúltera é, antes de tudo, uma confissão de desejo pela mulher na sua condição de filha de Eva, aquela primeira infiel.
                Os ensaios deste livro foram escritos sob o signo da adúltera: são as confissões de um desgraçado que luta constantemente para não se perder no próprio desejo e em suas inconsistências. A filosofia selvagem brota desse combate e do medo que me acompanha o tempo todo.
                Por que não se abandona uma adúltera?
                Em "Perdoa-me por Me Traíres", o marido, que afirma que não se abandona uma adúltera, representa a clássica posição de Nelson de que sexo demais é falta de amor. A tese supõe que a mulher trai porque não é amada. Será verdade? Acho que não. Essa hipótese de Nelson fala de sua idealização do amor.
                Ela, a adúltera, seria vítima, e não culpada, por isso o marido pede perdão a ela por ela o ter traído, invertendo a lógica da frase.
                Não há dúvida de que, para Nelson, somos seres capturados numa armadilha interior: desejamos um amor ideal, mas ele não existe. Como não existe, caímos em desgraça inevitavelmente, e daí decorre tudo o mais.
                Uma das piores formas dessa idealização do amor é seu mal infinito: queremos sempre mais e, quanto mais queremos, mais dependentes e inseguros ficamos. Ciúmes, delírios de traição, impotência de controlar o outro. Por isso, a adúltera representa o necessário fracasso de um animal atormentado por um desejo de amor sempre impossível. O pecado moral nasce dessa vontade esmagada.
                Não importa o que você fizer: quanto mais amar, menos "bem resolvido" será. Mas a indiferença apodrece. Por conta disso, sem o tormento do amor, você apodrece --por isso só os neuróticos verão a Deus. Ou nos angustiamos ou apodrecemos, dizia Nelson.
                O amor só se resolve quando morre ou quando vira amizade. Esse núcleo básico, que é dramático em sentido dramatúrgico e dramático nos sentidos filosófico e psicológico (porque descreve uma natureza humana em contínuo conflito consigo mesma, o que aproxima Nelson de Freud), inviabiliza qualquer noção de afetos corretos.
                Nossa era, tomada pela crença idiota na solução política e ideológica de tudo, parece não entender esta aporia --doença que ele identificou no Brasil nos final dos anos 1960 e, por isso, dentre outras razões, foi chamado de reacionário. Há uma desordem afetiva no ser humano que todo mundo experimenta e, por isso, é necessário mentir, muitas vezes como ato de misericórdia. "Mintam, pelo amor de Deus", porque a verdade é insuportável.
                O autoconhecimento é uma forma de tormento. A tradição espiritual cristã é marcada pela consciência de que conhecer a si mesmo é, antes de tudo, um ato de autoimolação. Nossa fragilidade ontológica pede a mentira como modo de sociabilidade e sensibilidade pedagógica.
                Mas o que no plano da convivência é uma necessidade, no plano do pensamento é uma traição, por isso Nelson se dizia ex-covarde. Há que dizer a verdade, pelo menos como forma de reconhecimento de nossa miséria e abandono.
                Já em sua infância, Nelson conheceu uma adúltera. Uma vizinha. Conta ele como a viu num desfile de Carnaval ao lado do marido traído. Dois infelizes. O rosto dela carregava a marca do fracasso e da vergonha. Linda como uma morta. O rosto dele trazia o peso do homem que não consegue deixar de amar sua adúltera, e que também é punido por todos.
                Noutro relato, Nelson conta como uma jovem belíssima e recém-casada foi chamada à casa de um vizinho milionário, mais velho, que tenta seduzi-la com um colar de pérolas. Ela recusa, ofendida, e reafirma sua fidelidade ao marido.
                Quando o marido chega em casa, ela conta a ele o ocorrido. Ele, pra surpresa da infeliz, condena seu ato ingênuo de fidelidade e diz a ela que não se recusa um colar de pérolas assim. As vizinhas todas concordam com ele.
                Ela, então, volta à casa do milionário e traz o colar de pérolas, e o joga na cara do marido, que fica paralisado. As vizinhas todas, com a certeza tranquila do bando, gritam: "Cachorra, adúltera".
                Os homens pouco me importam, talvez porque desde muito cedo percebi que as mulheres são deliciosas e cheirosas, e tudo que penso nasce de sensações
                Em "Perdoa-me por Me Traíres", o marido representa a clássica posição de Nelson de que sexo demais é falta de amor. A tese supõe que a mulher trai porque não é amada
                A prostituta não é a primeira profissão do mundo, mas a sua vocação mais antiga. E essa vocação é a de desejar ser objeto do homem que a possui, seu dono

                  Como aprender árabe - Diogo Bercito

                  folha de são paulo
                  LÍNGUA
                  Como aprender árabe
                  O que se fala nem sempre se escreve
                  RESUMO Na última década, o interesse global por assuntos ligados ao Oriente Médio e ao islã contribuiu para aumentar o número de estudantes do árabe. Correspondente da Folha em Jerusalém aborda complexidades do aprendizado da língua, como a diglossia, a convivência de sua variante formal e dialetos locais.
                  DIOGO BERCITO
                  COM A QUEDA das Torres Gêmeas, em 2001 e, dez anos depois, a derrocada de ditadores como o egípcio Hosni Mubarak e o líbio Muammar al-Qaddafi, o idioma árabe tornou-se um "habib" --querido-- dos estudantes de idiomas.
                  Já falado por milhões ao redor do mundo, o árabe teve aumento de 46,3% de procura no bancos acadêmicos americanos entre 2006 e 2009, segundo a Modern Language Association. Foi o idioma estrangeiro com maior procura no país, com incremento de 126,5% em relação à edição anterior do mesmo estudo, no qual o árabe havia passado a figurar entre os dez idiomas estrangeiros mais estudados nos Estados Unidos.
                  O fenômeno é recente, mas não está desligado do fato de que o árabe foi, no passado, uma das línguas da ciência no mundo. É o idioma da conquista islâmica, do califado de Córdoba, do Alcorão e dos clássicos medievais de Avicena. É a fala do cinema egípcio, dos discursos do ditador sírio Bashar al-Assad e de populações associadas, via preconceito, ao terrorismo.
                  Estudar árabe, porém, é um compromisso de longo prazo --digo por experiência própria. Mais de dois anos depois de decidir estudar o idioma e após ter estado em um punhado de países árabes como correspondente desta Folha no Oriente Médio, ainda passo minhas tardes tentando me lembrar das declinações e da vocalização correta. Isso quando não estou frustrado, em um mercado de Jerusalém, tentando entender quanto custa uma latinha de Coca-Cola.
                  LENDA Uma lenda do século 7º fala de como Ziyad ibn Abihi, governador de Basra, no atual Iraque, convenceu o sábio Abu al-Aswad a normatizar o árabe. Abertos os portões da expansão islâmica, as fronteiras da península Arábica devoravam África e Ásia. Os novos falantes emprestavam erros à língua.
                  Como o sábio resistia à tarefa, o governador teve uma ideia: pediu que um homem sentado à beira de uma estrada recitasse o Alcorão, trocando, porém, as terminações dos casos gramaticais. Em árabe, isso faz com que uma frase como "Deus e o profeta salvam dos incrédulos" tenha seu sentido subvertido para "Deus salva dos incrédulos e de seu profeta".
                  Assim Aswad se convenceu da necessidade de compilar um conjunto de regras para chegar a um árabe padrão. Essa lenda passou a servir como um dos mitos fundadores da tradição gramatical do árabe, reunindo diversas das características que marcaram, desde então, o estudo dessa língua.
                  Está presente na historieta, por exemplo, a ideia ainda corrente de que a língua é uma característica biológica dos povos árabes e que os desvios, portanto, nascem nos povos arabizados. Ou a ideia de que a língua é um fato estanque, desvinculado da história, preso a um texto sagrado do qual é, aliás e antes de tudo, uma manifestação.
                  Além disso, a lenda do governador e do sábio dá conta da obsessão pela manutenção dos casos gramaticais na língua --cujo bom uso, aparentemente, é ameaçado desde os anos desérticos do surgimento do islã, no centro da península Arábica, até a manhã em que assisti à minha primeira aula de árabe, na Universidade de São Paulo.
                  Minha história com o estudo do árabe decepcionaria aqueles que gostam de narrativas orientadas pelo "maktub", o conceito de que algo "estava escrito" --popularizado (mesmo no mundo árabe) por Paulo Coelho.
                  Quando escolhi essa língua, não estava pensando na "qisma", a ideia de que o árabe é a parte do latifúndio linguístico que coube aos árabes como dádiva divina. Nem me motivava um bisavô paterno talvez damasceno, de quem não há nenhum registro ou memória.
                  Eu escolhi me habilitar em árabe, durante o curso de letras, porque o hebraico só era ensinado à noite, enquanto eu trabalhava na Redação. Os anos se seguiram e, antes de me mudar para Jerusalém, eu só havia passado de raspão por essa língua irmã do árabe.
                  Durante uma corrida de táxi em Rabat, a capital do Marrocos, onde por três meses fui bolsista do projeto Ibn Batuta de ensino da língua, o motorista desandou a falar em árabe ao me ouvir conversar sobre xiismo com um colega holandês.
                  Ainda iniciante, perdi quase todas as palavras. Mas aproveitei para perguntar como se dizia "direita", em árabe. Podia ser útil para dar indicações no próximo trajeto. "Al-yamin", ele respondeu. E aí, bem de longe, o hebraico fez sua aparição: "Mas não confunda com Binyamin", brincou o motorista, fazendo troça com Binyamin Netanyahu, atual premiê de Israel.
                  Eu ri e disse que usaria a tirada para memorizar a palavra. "Como vai fazer com a esquerda?", ele me perguntou. "Fácil. Al-shimon", brinquei. A resposta correta é "Al-yasar", mas eu estava então falando de Shimon Peres, o presidente israelense. O táxi balançou de tanto que nós três rimos da piada, ainda que não tivesse havido graça.
                  Talvez pelo contato com todo tipo de passageiro, os taxistas dominam a variante padrão do árabe --o termo se entende pelo fato de que não existe, na prática, a "língua árabe". O que há é um conjunto de línguas, nem sempre compreensíveis entre si, que não formam um idioma, do ponto de vista linguístico. São dialetos. Mais por política e religião, as variantes se cobrem sob um mesmo véu, no que se chama uma sociolíngua.
                  Para os muçulmanos, Deus decidiu que o Alcorão fosse revelado a Maomé em árabe --não em hebraico, grego ou persa, porque era aquela a revelação feita especificamente a eles (em árabe, diz-se que o livro "nazala", "desceu"). Assim, para autoridades religiosas, a língua está em seu estágio único. Não há antes, não há depois.
                  É como diz o poeta sírio Adonis, o nome mais cotado, entre os que se expressam em língua árabe, para o Nobel de literatura. "O Islã se revelou como inspiração divina em língua árabe. A partir daí, a língua, como portadora das verdades divinas, deixou de ser uma parte da realidade relativa e mutável. Tornou-se absoluta: imagem absoluta do absoluto Deus."1
                  Se existe uma unidade na religião ("não há nenhum deus que não seja Deus", diz a profissão de fé do árabe, uma das bases teológicas do islamismo), a ideia de que haveria também uma homogeneidade na língua árabe se debate diariamente contra a realidade.
                  Dessa maneira, uma ação cotidiana, como tomar o café da manhã antes da aula, pode se transformar num desafio linguístico. Em que língua pedir dois croissants? Em árabe --ou em árabe?
                  Havia duas opções. Eu poderia dizer o número como "ithnan", em árabe formal, e soar como saído do século 7º, de um manuscrito ou da lenda de Abu al-Aswad. Mas, se preferisse usar a palavra "juj", típica do coloquial marroquino, os vendedores poderiam ver nisso a pretensão de me passar por local. Como se um estrangeiro em São Paulo usasse uma expressão como "de boa" para dizer "tudo bem".
                  ESQUIZOFRENIA A linguística tem nome específico para essa convivência entre formal e coloquial. Chama-se "diglossia", "duas glossas", situação geralmente exemplificada pelo latim, que manteve por séculos uma variante culta e diversas versões vernaculares. "É claro que isso é uma espécie de esquizofrenia", explica o escritor libanês Amin Maalouf.
                  Maalouf escreve em francês ""entre os vários reconhecimentos a sua obra está o Goncourt, prêmio máximo da literatura na França, que ele recebeu em 1993 por "O Rochedo de Tânios". Ele defende, intelectualmente, a manutenção da variante culta do árabe, diante de propostas de simplificar a língua a partir de um consenso entre as dezenas de dialetos. "É preciso viver com a dicotomia."
                  "O latim desapareceu como uma língua falada. Mas, com o árabe, as coisas aconteceram de maneira diferente. O árabe produziu dialetos locais, mas a variante culta não desapareceu. Ela permanece verbalizada, escrita e compreendida pelos falantes educados", diz Maalouf. "Ter uma língua em comum é um recurso cultural importante."
                  O árabe seguiu um caminho distinto daquele trilhado pelo latim --que, diante da queda do Império Romano, perdeu seu centro, possibilitando que surgissem, nas periferias, as línguas românicas, transformadas pelos séculos em idiomas como o português, o castelhano, o sardo e o romeno.
                  Professor na Universidade de Zaragoza, o acadêmico Federico Corriente, autoridade no estudo do árabe falado na península Ibérica durante o califado de Córdoba (séculos 10 e 11), insiste que um processo semelhante ao do latim seria um "empobrecimento" tanto cultural quanto político para a comunidade de países falantes.
                  "O latim, infelizmente, foi destruído pelos nacionalismos da idade moderna e contemporânea, prejudicando todos os europeus, já que não temos mais uma língua culta comum a todos", diz. Unificar o árabe, afirma Corriente, seria repetir o "disparate que a Europa cometeu ao abdicar do latim: fragmentação e preguiça mental".
                  LÍNGUA FRANCA Ao contrário do que houve no Ocidente, continua havendo uma língua franca para a comunicação entre os Estados de população árabe. Também são ligados pelo árabe como língua litúrgica os milhões de muçulmanos ao redor do mundo. O Alcorão não pode ser traduzido, e o estudo do árabe formal torna-se, assim, um imperativo religioso.
                  "O Alcorão teve uma grande influência na língua árabe", opina o jovem saudita Muhammad Hassan Alwan, autor de "The Beaver", uma das obras que concorreram ao Arabic Booker Prize, competição pan-árabica lançada em 2007. "Esse livro sagrado manteve a língua por 14 séculos de maneira que pode ser facilmente entendida hoje."
                  Apesar dos mitos sobre sua inacessibilidade, o árabe padrão ainda é compreendido nas ruas. Foi com essa variante que um grupo de crianças me cercou, em Rabat, para perguntar se eu era muçulmano. Quando disse que não, uma gritou, as mãos na cabecinha indignada: "La! La tarif al-nar?" ("Não! Você não conhece o fogo?")
                  Um estudioso do idioma que não segue o islã e não é nem sequer de origem árabe se vê, por vezes, obrigado a justificar seus estudos. É possível argumentar que o interesse vem do prazer histórico. Mantida estática pelas exigências da religião, a língua ainda é próxima do dialeto urbano falado em Meca no século 7º. Falar árabe é como conversar com beduínos --o falante ideal, segundo a tradição.
                  O árabe é parente não só do hebraico mas também das demais línguas semíticas, como o acadiano, o aramaico e o fenício. Quem diz "salam", em árabe, de certa forma está dizendo "shalam" (acadiano), "shlam" (aramaico) e "shalom" (hebraico).
                  O termo "semita" vem de Sem --na Bíblia, um dos filhos de Noé. Emprestado da linguística, foi compreendido politicamente como designação étnica. Em sua origem, era a reunião de um grupo específico das línguas afro-asiáticas, como o hebraico e o árabe, parentes distantes do egípcio antigo.
                  Para falantes de línguas latinas ou germânicas, ambas indo-europeias, aprender um idioma semítico envolve adaptar-se a um modo de pensar. O árabe não tem verbos "ser", "estar" e "ter". A existência é presumida (de "eu Diogo" se entende "eu sou Diogo"). O estado, também ("eu doente"). Para a posse, se diz "para mim, um carro".
                  "Línguas orientais exigem muita dedicação", diz Mamede Mustafa Jarouche. Tradutor do "Livro das Mil e Uma Noites", Jarouche ensina gramática árabe na USP. "Com línguas como o inglês, é possível haver aprendizado passivo. Um aluno pode aprender sem nunca ter ido aos Estados Unidos. Isso não ocorre com o árabe."
                  A forma da escrita, com alfabeto próprio, correndo da direita para a esquerda na página, é outro aspecto a levantar curiosidade em torno de um estudante de árabe. Quando foi estabilizada, em cerca de 1.000 a.C., a escrita fenícia --origem dos sistemas do árabe, do aramaico e do hebraico-- seguia esse sentido. Os gregos, ao se apropriarem da invenção semítica num momento posterior, mudaram-lhe o rumo.
                  LEITURA Pouco se fala, porém, da real dificuldade da leitura em árabe. Para os acadêmicos mais rigorosos com a classificação, a escrita do árabe não é de fato "alfabética", apesar de "alfa" e "beta" serem ironicamente palavras emprestadas do fenício pelos gregos. O árabe é escrito por meio de um "abjad" --uma escrita consonantal.
                  O árabe (como o hebraico, o siríaco e o nabateu) não registra todos os sons que são falados. Boa parte de suas vogais é subentendida. Assim, escreve-se "ktb" para dizer "kataba", ou "ele escreveu". O que pode levar a problemas, uma vez que "ktb" também pode ser lido "kutub", "livros". Ou "kutiba", "foi escrito".
                  (A hstór de Abu al-Aswd nos lembr de que os árbs stveram, desd o níci do slmism, prcpads com a mntnção do text crânc. Tref inglóri par um livr sgrad scrit sem dverss de sus vgais.2)
                  Daí entram os diacríticos, marcações feitas sobre ou sob as letras para indicar vogais ocultas. Os sistemas de diacríticos são, de certa maneira, uma invenção siríaca motivada pelas traduções da Bíblia e pela necessidade de grafar com exatidão os nomes gregos registrados durante a Antiguidade.
                  A atual vedete do ensino do árabe é um método didático chamado "Al-Kitaab fi Ta'alum al-Arabiya", organizado por professores americanos. É usado em Chicago e em Harvard, e também na USP e na escola Qalam wa Lawh, onde estudei no Marrocos.
                  É, porém, um livro controverso. Em 2008, um editorial do "Washington Post" expressava preocupação quanto ao método. O quarto capítulo do manual mostra a personagem Maha, antipática filha de uma professora palestina, dizendo a frase que se tornou clássica entre estudantes (no meu caso, rendeu a ideia para um rap, escrito para um trabalho da USP): "Ana la uhibu madinat Niw Yurk", "Não gosto da cidade de NY". Os motivos? Trânsito e calor. De onde vinha Maha? Do Cairo, a quente e caótica capital do Egito.
                  Apesar do estranhamento que o livro possa ter causado, é exagerada a alegação de que o método do "Kitaab" forme terroristas. Mas é pertinente a observação de acadêmicos, como o espanhol Corriente, que se opõem às tentativas de ensinar o árabe padrão por diálogos.
                  O árabe formal não é uma língua falada. As situações de comunicação são em geral pouco naturais, como discursos na ONU --o idioma é uma das seis línguas oficiais das Nações Unidas, ao lado do inglês, do chinês, do francês, do russo e do espanhol. Experimente pedir uma cerveja em árabe formal a um garçom no Marrocos: ele vai olhar para você como se estivesse diante de um personagem de um filme.
                  O estudante de árabe nunca está em paz, entre a "fusha" ("a eloquente", como se chama a variante formal) e a "amia" ("a popular", os dialetos). Se estuda o padrão, lhe perguntam por que não quis o dialeto --afinal, é a língua das ruas. Caso estude o vernacular, lhe perguntam por que não escolheu o formal --ora, é a língua dos livros!
                  O ideal, opina o espanhol Corriente, é "um conhecimento equilibrado da realidade linguística árabe, abarcando tanto a habilidade de ao menos ler a língua clássica quanto falar um dialeto". Mas isso esbarra, diz, na realidade de que o ensino do árabe "é catastroficamente terrível, por falta de métodos, de definição de objetivos e de preparação pedagógica".
                  A predominância da "fusha" como única variante escrita, porém, parece estar caindo. Os livros dizem ser impossível registrar os dialetos, porque têm sons sem equivalente na escrita. Mas, na estação de ônibus de Rabat, um outdoor anuncia: "kein" desconto --"kein" é o equivalente dialetal marroquino para o formal "hunaka", "há".
                  A Wikipedia também aposta em um futuro menos rígido para as línguas árabes. Alguns verbetes, como o referente a Cleópatra, têm versões em "egípcio". "Egípcio", como vem sendo chamado na enciclopédia colaborativa o dialeto cairota, era o termo que designava, até há pouco, a língua escrita com hieróglifos, no tempo dos faraós.
                  CENÁRIO O terreno para um novo cenário cultural, ainda que o total declínio do árabe formal como língua franca seja pouco provável, é a literatura. É nela, e sobretudo em diálogos, que as variantes vernaculares ganham corpo. "O árabe dialetal está carregado de história, de cultura religiosa e de cultura profana, de memória", diz o escritor libanês Rachid Daif.
                  O autor --que terá um de seus livros, "Que se Estrepe Meryl Streep", traduzido ao português por Felipe Benjamin Francisco, monitor de cursos de gramática na USP, como dissertação de mestrado-- afirma que "os dialetos estão vivos e são capazes de traduzir o ritmo da vida contemporânea".
                  A americana Meredith Meyer, minha colega no Marrocos, era um exemplo de estudante capaz de usar o dialeto naturalmente.
                  Além de sua notável pronúncia do "ayn", uma consoante tão gutural que parece vir do âmago do ser humano, ela soltava qual um nativo o corrente "ghadi an darrrbak": "Vou sentar a mão na sua cara", em tradução livre.
                  Como as ruas que ligavam os antigos califados islâmicos no passado, o caminho que leva o estudante de árabe até o domínio do idioma é longo. Às vezes, mesmo para os mais hábeis nos dialetos ou para os afiados na variante padrão, parece sem fim. Costumamos nos perguntar, ansiosos: "Seremos, um dia, fluentes?". A resposta possível, por ora, está numa palavra que aprendi com o tempo: "Mumkin". Talvez.
                  Uma ação cotidiana, como tomar o café da manhã, pode se transformar num desafio linguístico. Em que língua pedir dois croissants? Em árabe --ou em árabe?
                  Mantida estática pelas exigências da religião, a variante padrão ainda é próxima do dialeto urbano falado em Meca no século 7º. Falar árabe é como conversar com beduínos
                  O estudante de árabe nunca está em paz, entre a "fusha" ("a eloquente", como se chama a variante formal) e a "amia" ("a popular", os dialetos)