Mostrando postagens com marcador cadão volpato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cadão volpato. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de junho de 2013

Sexo, drogas e bebop marcam as 'Memórias de uma Beatnik'

folha de são paulo
Marco do feminismo não puritano escrito em 1969 por Diane di Prima ganha edição brasileira
De um jeito veloz e sem vergonha, autora narra no livro coisas como seus casos simultâneos com Ginsberg e Kerouac
CADÃO VOLPATOESPECIAL PARA A FOLHASer mulher nunca foi fácil, mas para uma poeta beat como Diane di Prima, nascida em 1934, parece ter sido ainda mais difícil.
Diane di Prima entrou para o clube fechado de Allen Ginsberg (1926-1997), Jack Kerouac (1922-1969) e companhia ainda no final dos anos 1950, mas sempre esteve à sombra dos homens, fossem eles hétero ou homossexuais.
Assim como as outras poetas do período --meninas talentosas e problemáticas feito Joyce Johnson, Elise Cowen, Carolyn Cassady, Joan Vollmer, Brenda Fraser e Joanne Kyger-- Diane comeu o pão que o diabo amassou na mão dos rapazes beats, embora também tenha aprontado das suas, conforme ela relata em "Memórias de uma Beatnik", que ganha agora uma edição brasileira pela Veneta.
O volume é uma coleção de relatos encharcados de sexo, drogas e bebop, escritos em 1969 sob encomenda do editor Maurice Girodias.
Nada disso tira a graça do trabalho, uma narrativa veloz e desavergonhada sobre uma garota mal saída da adolescência e do Brooklyn, perambulando pelo lado selvagem de uma Manhattan aberta aos primeiros sonhos e pesadelos beatniks.
"Memórias de uma Beatnik" hoje é estudado nas universidades como uma das primeiras e mais importantes manifestações de um novo feminismo não puritano.
INTERNAÇÃO
Diane, que se recusa a dar entrevistas e atualmente está hospitalizada, tem uma folha corrida e tanto.
O avô era da turma de Emma Goldman (1869-1940), a anarquista linha dura que aparece no filme "Reds", de Warren Beatty.
Quando adolescente pré-Manhattan, Diane visitou o poeta Ezra Pound (1885-1972) no Hospital Saint Elizabeth, em Washington, onde ele estava encarcerado por traição na Segunda Guerra Mundial.
Foi para a cama com os papas dos beats, Jack Kerouac e Allen Ginsberg --ao mesmo tempo, segundo o livro.
Ficou amiga de Bob Dylan e Miles Davis (1926-1991), quando Miles ainda era um junky da pesada.
Pertenceu a uma comunidade hippie em que pontificava um outro beat, o escritor Gary Snyder.
Fez uma espécie de ponte entre Nova York e a Califórnia, privando da lisérgica companhia do guru Timothy Leary em San Francisco.
Por fim, foi casada com o único poeta negro beat de que se tem notícia, o inflamado LeRoy Jones, hoje conhecido como Amiri Baraka.
ABORTO
Um aborto feito a pedido de Jones, como "prova de amor", deu origem ao poema mais famoso que ela já escreveu, o dilacerante "Brass Furnace Going Out", que traz versos do tipo "Quero você dentro de uma garrafa para enviá-la ao seu pai, acompanhada de uma longa nota amarga/ Quero que ele saiba que eu não vou perdoar você ou ele/ por não ter nascido".
As linhas de "Memórias de uma Beatnik" não são tão amargas assim. Pelo contrário, insistem na leveza despudorada que só as pessoas muito jovens (ou muito velhas) são capazes de expressar, como se tivessem sido escritas por um Rabelais adolescente, de saias.
Elas revelam uma menina sensível, estranhamente antenada com um futuro que traria para a cena o paraíso e o pesadelo hippie.
Diane di Prima viveu tudo isso antes de todo mundo, na pele de uma garota destemida do Brooklyn.

    quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

    Vida dos santos ganha tom pop em livro


    Rogério de Campos, criador da editora Conrad e ex-militante trotskista, publica obra sobre o imaginário cristão
    Autor diz que não inventou nada, mas admite que certos casos lembram o grupo cômico Monty Python
    CADÃO VOLPATOESPECIAL PARA A FOLHA DE SÃO PAULOOs santos andam meio fora de moda (a santidade, nem se fala). Rogério de Campos, 51, um dos criadores da editora Conrad, especializada em livros de esquerda, quadrinhos, videogame e mangás, concorda.
    Por isso, talvez, para estar na contramão, ele está lançando a hagiografia "O Livro dos Santos", por sua nova editora, a Veneta.
    "É não ficção. Não inventei nada", ele faz questão de dizer, mas as histórias dessas pessoas fabulosas do imaginário cristão não têm nada de realistas. Segundo a ficha catalográfica é sim um livro de ficção. Campos se diverte.
    Para um homem que, apesar da formação católica clássica, teve uma banda de rock nos anos 1980 chamada Crime e participou do movimento trotskista Libelu no final dos anos 1970, contar a vida de santos poderia não cair bem. "Eu escrevo os livros que não achei para ler, e gosto de escrever sobre assuntos de que não entendo."
    Como autor, Campos já publicou um pequeno romance político-policial, "Revanchismo". Conquistou neste ano o terceiro lugar da categoria gastronomia do prêmio Jabuti com "Dicionário do Vinho", escrito em parceria com Maurício Tagliari, velho parceiro, mais conhecido como produtor musical.
    Campos passou anos colecionando histórias de santos. Também foi atrás de obras de referência, frequentando livrarias cristãs em torno da praça da Sé, no centro da cidade. "Comprei um monte de santinhos. E os vendedores me tratavam muito bem, talvez porque seja cada vez menor o número de pessoas interessadas no assunto."
    Mas a grande epifania veio mesmo com o "Gênesis", de Robert Crumb, que a Conrad lançou no Brasil em 2009. "Ele trata o tema com respeito", garante. "Só a Bíblia de Jerusalém é tão boa".
    O autor só usou fontes católicas. "Acho que juntei histórias extraordinárias e reveladoras sobre a nossa própria vida", diz. "Só que, em alguns momentos, reconheço que parece Monty Python."
    De fato, a história de são Vicente, detido e torturado pelos romanos, daria um quadro perfeito do famoso grupo cômico inglês. Depois de ter todos os seus ossos quebrados e de ser espetado com ferro, o santo gozava dos torturadores e pedia mais suplícios.
    Foi então levado a um braseiro -ao qual subiu sozinho- e grelhado, "enquanto os soldados o perfuravam com garfos ardentes e jogavam sal no fogo". Mesmo assim, Vicente continuou vivo.
    Os santos do livro são seres assim tão extraordinários que parecem super-heróis. O autor, porém, rechaça a comparação. "Nunca gostei de super-heróis. Eles são para meninos que não têm vida sexual."

      TRECHOS
      SANTA BRÍGIDA
      A tradição atribui diversos milagres à irlandesa santa Brígida, mas o que se sabe ao certo é que a água em que ela tomava banho transformava-se em cerveja.
      SÃO VEDASTO
      No enterro de são Vedasto, um velho cego chamado Audomato lamentou não ter tido a chance de ver o santo. Deus, em sua grande generosidade, fez então com que Audomato recuperasse a visão, visse o corpo do santo, e voltasse a ser cego.
      SÃO FILLAN
      A mão do monge são Fillan, do século 8, brilhava à noite, para que ele pudesse estudar as Sagradas Escrituras.

        CRÍTICA / RELIGIÃO
        Comentários sardônicos trazem influência de Buñuel e de Marx
        ESPECIAL PARA A FOLHALuis Buñuel conta uma piada anarquista em seu livro de memórias, "Meu Último Suspiro": "Dois padres vinham pela calçada. Diante de tal provocação...". E a anedota termina aí.
        "O Livro dos Santos" tem uma pegada meio buñuelesca em certos momentos. Rogério de Campos distribui aqui e ali alguns comentários sardônicos que entregam seu passado marxista.
        Ao falar de são José, o santo aclamado pelo papa Pio 11 como "patrono daqueles que combatem o comunismo ateu", ele escreve numa nota de rodapé: "O herói da luta anticomunista na Itália mereceu até um elogio especial do papa Pio 11: 'Benito Mussolini é [...] um homem enviado pela Divina Providência, um homem livre dos preconceitos dos políticos da escola liberal'."
        Mas, no geral, o livro se contenta em descrever as façanhas miraculosas dos santos, estabelecendo uma conexão curiosa com a literatura fantástica.
        Afinal, segundo está escrito nele, são Cristóvão, patrono dos caminhoneiros, media exatos 7,92 metros.
        Há também inúmeras histórias divertidas sobre santos voadores ("algumas dezenas", segundo o autor).
        Entre elas, se destaca a de são José de Cupertino, um santo tão despreparado para a santidade que acabou levado ao cinema.
        O escritor americano John Fante, de "Pergunte ao Pó", foi quem escreveu o roteiro de "O Santo Relutante" (1962), com Maximilian Schell no papel principal.
        "Além de voar, fazer curas milagrosas e ter muita sorte nas provas, são José de Cupertino, apesar de não tomar banho e usar roupas imundas, exalava, segundo uma narrativa católica, 'um fino e delicado perfume'. Mais uma razão pela qual ele se tornou muito popular entre os estudantes católicos", escreve o autor.