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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Julia Sweig

folha de são paulo

A grande notícia de Cuba
Sucessão em Havana agora tem um prazo, um nome e um rosto -ou rostos, para sermos mais precisos
Não obstante a fixação da mídia brasileira por Yoani Sánchez, não é ela a grande notícia do momento vinda de Cuba. Não, a história real é que a sucessão em Havana agora tem um prazo, um nome e um rosto -ou rostos, para sermos precisos.
"Não é um político de tubo de ensaio" é a frase empregada por um diplomata cubano na América Latina para descrever Miguel Díaz-Canel, eleito esta semana primeiro vice-presidente de Cuba e aparente sucessor de Raúl Castro.
No domingo passado, a Assembleia Nacional Cubana ratificou o segundo e último mandato de cinco anos de Raúl Castro como presidente da República e presidente do Conselho de Estado. E elegeu ou (em alguns casos) reelegeu cinco vices.
Há muita sobreposição entre o politburo do Partido Comunista e a liderança do Conselho de Estado, com seus 31 membros, que também é diferente do Conselho de Ministros. Por mais confusas que possam ser essas estruturas, o que Raúl Castro deixou cristalinamente claro em seu discurso inaugural de 35 minutos é que ele deixará a Presidência até no máximo fevereiro de 2018 (quando terá 86 anos).
Ainda há três outros "históricos" no primeiro escalão em Cuba, mas hoje duas mulheres na casa dos 50 anos ocupam o cargo de vice-presidente, e um homem de 68 anos e descendente de africanos é o novo presidente da Assembleia Nacional.
Como eu escrevi nesta coluna este mês, a diversidade de gênero, racial, geográfica e, sim, política -o setor privado agora ocupa um lugar à mesa, e a comunidade LGBT, também- nunca foi tão pronunciada entre os 602 membros da Assembleia Nacional.
Dentro em breve uma nova lei vai instituir limites máximos de dois mandatos de cinco anos cada para as altas autoridades, o que significa que a era da estase e da liderança personalista em Cuba chegou ao fim.
A era pós-Castro agora tem nome e rosto. Engenheiro formado, Díaz-Canel não lutou na Serra Maestra. E tampouco é um burocrata do partido que cresceu em algum prédio de escritórios de Havana.
Ele é conhecido como fazedor, alguém que construiu sua reputação realizando coisas em campo. O secretário-geral do partido em cada província é um pouco como um governador. E, em Villa Clara e Holguin, as duas províncias de Cuba central e oriental onde Díaz-Canel ocupou esse cargo, ele ganhou fama de ser um líder das bases, alguém que põe a mão na massa.
Oh, você pergunta -ele pode ter nascido após a revolução de 1959, mas, se tem a bênção dos Castro, até que ponto pode ser um agente de reformas? E, depois que Raúl deixar a Presidência, Díaz-Canel terá a boa fé política necessária para tecer um consenso a partir dos interesses políticos em muitos casos conflitantes que a abertura política vai produzir?
Minhas respostas: 1) ele parece encarnar o espectro de continuidade-transformação que é condizente com a gestão de uma transformação estável, feita por Raúl; 2) apenas o tempo dirá.
E Yoani? Como deixou clara sua semana no Brasil, a base política dela fica fora de Cuba.
Tradução de CLARA ALLAIN

    quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

    Julia Sweig

    folha de são paulo

    Sucessão papal importa para todos
    O Vaticano já não possui o peso do Conselho de Segurança da ONU, mas seu poder cultural é enorme
    AS ESPECULAÇÕES sobre quem o colégio de cardeais vai eleger para ser o novo papa estão centradas na distribuição geográfica dos católicos no mundo. Apenas 16% da população mundial é católica, mas cerca de 40% desses fiéis são latino-americanos, e 16%, africanos.
    E eis mais alguns números: de acordo com o Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública, 432 milhões de latino-americanos -nada menos que 73% da população da região- se identificam como católicos (mesmo que não sejam praticantes).
    Mais ou menos 124 milhões de brasileiros se declaram católicos, fazendo do Brasil o país de maior população católica no mundo, com 12,2% do total mundial. O México possui a segunda maior população católica. Na Colômbia, apenas o sexto país católico do mundo, 38 milhões dos 42 milhões de habitantes se dizem católicos.
    Não saberemos antes da Páscoa se a forte concentração católica latino-americana e africana vai penetrar a longa história de domínio da Europa sobre o pontificado.
    Pode levar mais tempo para a liderança do Vaticano tornar-se mais representativa do que levará para o Conselho de Segurança da ONU, onde o Brasil e a América Latina, como um todo, têm direito a reivindicar com legitimidade igual uma distribuição mais representativa dos assentos permanentes.
    Contudo, mais além da origem nacional ou regional do sucessor do papa Bento, e deixando de lado a questão distinta de como o Vaticano enfrenta (ou, quem sabe, inadvertidamente propicia) a ascensão dos evangélicos nas duas regiões, me parece que a Igreja Católica ainda não está preparada para adaptar sua doutrina ao modo como as pessoas vivem e amam hoje.
    Casamento e união civil gays, direitos das mulheres e contracepção para prevenir gravidezes ou doenças: não tenho as estatísticas à mão, mas vale apostar que alguns latino-americanos que se identificam como católicos também são gays, lésbicas, mulheres, usuários de contracepção ou todas as alternativas acima. Ou que são simplesmente seres humanos modernos: homens, mulheres, gays, heterossexuais ou pessoas situadas em algum outro ponto do espectro contínuo de gênero/sexualidade.
    O mesmo pode ser dito dos EUA, onde as prioridades evangélicas da igreja se chocam com a rigidez dela na doutrina social e sua hipocrisia por proteger responsáveis por abuso sexual de menores, ao mesmo tempo em que prega a proteção dos mais vulneráveis entre nós.
    Mas será realmente necessário que a Igreja Católica se torne menos rígida, mais progressista? Todos nós conhecemos católicos praticantes ou quase praticantes que extraem de suas orações uma força espiritual que vale muito mais que suas divergências doutrinais com a igreja. Se os próprios fiéis podem conviver com as contradições, ansiar por um Vaticano mais moderno não será um pouco secular demais, ou até um pouco ingênuo?
    Creio que não. Embora o Vaticano já não possua o peso político do Conselho de Segurança da ONU, ele ainda exerce poder cultural enorme. E esse poder ainda afeta todos nós.

    quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

    Julia Sweig

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Políticas pouco auspiciosas
    Acordo assinala o fim da grande barganha, a fórmula bipartidária de uma era anterior
    O acordo tentativo de Washington para evitar o chamado "abismo fiscal" vai, apropriadamente, elevar os impostos sobre os ricos, ao mesmo tempo adiando por pouco tempo as negociações sobre os gastos, o deficit e a dívida.
    Líderes partidários, entre eles o presidente Obama, defenderão o acordo, dizendo ter sido sinal de liderança política e de concessões necessárias, até mesmo democráticas. Mas o acordo assinala o fim da grande barganha -a fórmula bipartidária de uma era anterior, algo pelo qual muito se anseia, mas que parece fora de alcance.
    A nova normalidade em Washington é o hiperpartidarismo, com o qual os republicanos descobriram que, se aguardarem o suficiente, os democratas acabarão cedendo. Meus amigos republicanos me dirão que os democratas são igualmente intransigentes. Mas os democratas não têm mais uma ala poderosa de esquerda que os impeça de fazer concessões políticas (se é que ela o tenha feito em alguma época).
    Bill Clinton rompeu aquela velha coalizão do New Deal com reformas previdenciárias nos anos 1990. O Partido Democrata ainda é uma coalizão que vai desde progressistas até a centro-direita. Desde os anos de Clinton, porém, os democratas raramente bloquearam seu presidente ou liderança no Congresso.
    A intransigência republicana, uma postura curiosa à luz do etos nacional que reelegeu Obama há pouco, não se deve a uma unidade de visão. Pelo contrário. A liderança do Partido Republicano, especialmente na Câmara, é assediada por ideólogos do Tea Party cuja oposição à maioria dos gastos governamentais não militares paralisou as maneiras de fazer política mais antigas, que envolviam concessões.
    Com o presidente republicano da Câmara incapaz de unificar seu partido, majoritário, como a Casa Branca conseguiu o pacto parcial sobre aumentos de impostos? Como notou um repórter do "New York Times", dois homens de 70 anos falaram ao telefone. Joe Biden, democrata e vice-presidente, e Mitch McConnell, republicano e líder da minoria no Senado, que atuaram juntos no Congresso por 28 anos.
    Existe nesse fato algo de tranquilizador e também de preocupante. Os laços pessoais acabam tendo importância sim e com frequência são cruciais para a superação de processos políticos paralisados.
    Alguns de meus melhores amigos são homens de 70 e 80 anos; eu valorizo sua sabedoria. Mas acabamos de passar por uma eleição que mostrou que questões demográficas -idade, etnia, gênero- são poderosos agentes de transformação nos EUA, remodelando o país de modo muito mais significativo do que sugeriria o pacto arquitetado por Biden e McConnell.
    As divisões internas republicanas vão, perversamente, dar ao partido condições de frustrar a agenda do presidente para a reforma da imigração? O controle de armas? Mitch McConnell, que no início do primeiro mandato de Obama prometeu que a agenda legislativa dos republicanos seria moldada em primeiro lugar pelo objetivo de impedir a reeleição, hoje é o aliado político da Casa Branca. E isso gera um começo pouco auspicioso para 2013.