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domingo, 1 de setembro de 2013

Parece o mesmo filme de dez anos atrás no Iraque, mas há diferenças - Sergio Dávila

folha de são paulo
ANÁLISE
Parece o mesmo filme da ação contra o Iraque, mas há diferenças
SÉRGIO DÁVILAEDITOR-EXECUTIVO
Amparado por evidências questionáveis reveladas ao mundo por seu secretário de Estado, diante de uma nação dividida e passando deliberadamente por cima da ONU, o presidente norte-americano surpreende a todos e avisa que vai atacar um país do Oriente Médio.
Foi o que George W. Bush fez em 17 de março de 2003, dias antes de invadir o Iraque, depois de Colin Powell anunciar que os EUA haviam comprovado que o governo de Saddam Hussein tinha capacidade de produzir armas de destruição em massa (o que se mostraria uma inverdade).
É o que Barack Obama faz agora, dez anos depois, ao dizer na tarde de sábado que os EUA devem agir militarmente contra alvos do regime sírio, após John Kerry afirmar que está claro que Bashar al-Assad usou armas químicas (o que ainda não foi 100% comprovado).
Mudam os atores, o filme é o mesmo? Mais ou menos.
Bush quis esticar o crédito de boa vontade mundial conseguido após o ataque da Al-Qaeda ao World Trade Center (2001), que resultou na Guerra do Afeganistão, com ação militar autorizada pelo Congresso e avalizada pelas principais potências mundiais.
Perdeu-se porque, no Iraque, cumpria uma agenda pessoal, quase uma vendeta de faroeste. No anúncio, feito solitariamente num corredor interno da Casa Branca, o republicano mencionava Saddam e seus filhos e dava um ultimato a eles: saiam do poder ou encarem as consequências.
Ontem, Obama seguiu outro roteiro. Acompanhado do vice-presidente, Joe Biden, sob o sol do jardim da residência presidencial, disse que, embora não precise, o líder da "democracia constitucional mais antiga do mundo" pedirá autorização ao Congresso para agir.
Bush se isolou antes mesmo de o primeiro míssil ser disparado. Obama divide o peso da decisão com senadores e deputados. Além disso, diferentemente de seu antecessor, que no auge do conflito enviou dezenas de milhares de soldados para o front, o presidente do "drone", que intensificou o uso dos aviões não tripulados, só fará ataques pontuais por ar.
É uma grande diferença. Quando ele atacar --já parece ser uma questão de "quando", não de "se"--, fará sem baixas do lado norte-americano e com o Legislativo ao seu lado. O resto do mundo continua sendo ignorado, mas o público interno tenderá a estar mais unido.

sábado, 24 de agosto de 2013

"Legado de Obama é oposto ao de Martin Luther King" - Cornel West

folha de são paulo
JOANA CUNHA
DE NOVA YORK
Ouvir o texto

O legado do primeiro presidente negro dos EUA será "o oposto do de Martin Luther King, que verteria lágrimas ao ver Barack Obama pender para o lado da hegemonia", diz à Folha o intelectual americano Cornel West, 60.
Uma das vozes negras mais influentes do país, o professor da Universidade Princeton apoiou a primeira campanha de Obama, mas, anos depois, o acusou de se tornar um fantoche de Wall Street.
Se Luther King estivesse vivo, não seria convidado para a homenagem aos 50 anos do discurso "Eu tenho um sonho", afirma West, que também ficou de fora do evento, na quarta-feira.
Bebeto Matthews - 3.nov.2011/Associated Press
O professor, teólogo e ativista Cornel West participa de protesto "Ocupe Wall Street", em Nova York
O professor, teólogo e ativista Cornel West participa de protesto "Ocupe Wall Street", em Nova York
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"Eu tenho um sonho" completa 50 anos no dia 28. O que ficou do discurso?
Se Martin Luther King estivesse vivo hoje, derramaria lágrimas ao observar a pobreza, os salários estagnados e Wall Street no comando.
Mas muitos elogiaram o primeiro discurso de Obama sobre raça, quando a absolvição do branco George Zimmerman, que matou o negro Trayvon Martin, gerou protestos.
Muitos têm uma atitude protetora com relação a Obama por causa da [emissora]Fox News e da direita, mas há uma comunidade profundamente desapontada. Eles esperavam tão pouco dele que, quando fez um discurso, muitos se entusiasmaram. Mas sabem que o foco não está nas questões da classe trabalhadora e dos negros. O presidente, finalmente, disse alguma coisa sobre a nova Jim Crow [conjunto de leis segregacionistas vigentes nos EUA de 1876 a 1965]. As pesquisas mostram que ele está caindo na opinião dos negros. Pioraram o emprego, a educação e o salário. Há uma face negra simbólica na Casa Branca.
Que símbolo é este?
Obama ficará na história como o 'presidente dos drones' [aviões não tripulados]. E os negros sempre fomos mais desconfiados de atitudes como matar inocentes dentro e fora do país. Obama pendeu mais para o lado da hegemonia americana do que para aquilo pelo que Luther King morreu. Não vamos nos esquecer do irmão David Miranda [namorado do jornalista Glenn Greenwald], detido no aeroporto em Londres, pois também sabemos o que é ter nossos direitos violados. Os legados de Luther King e Obama são o oposto. Um é sigilo, falsidade e drones. O outro, sonhos, verdade e justiça. Luther King disse 'I have a dream' [Eu tenho um sonho], enquanto Obama diz 'Eu tenho um drone'.
Obama disse que Ray Kelly [chefe da polícia de Nova York] teria qualidades para chefiar a Segurança Interna. Mas não é Kelly quem defende o "stop and frisk", a prática de revistar pessoas tão criticada por ter como alvos negros e latinos?
É o que o presidente negro diz sobre um chefe de polícia envolvido em um programa de discriminação racial, com 5 milhões de jovens negros e latinos sendo parados e revistados. A Justiça agora chega à verdade, considerando a operação inconstitucional e coloca alguma pressão. Mas essa discriminação é uma forma de criminalizar os negros, especialmente os pobres, pois raça e classe são inseparáveis.
O senhor foi convidado para a homenagem aos 50 anos do discurso?
Ninguém me convidaria. Sou um negro livre. Lá, você não vai ouvir ninguém falando de "drones", nem de criminalidade em Wall Street e vigilância de cidadãos. Eles dizem coisas que só parecem progressistas. Mas não serão críticos ao governo. Luther King morreu falando de crimes do governo americano. O que importa sobre Edward Snowden e Glenn Greenwald é que estão revelando não só mentiras, mas crimes do governo americano.
Luther King seria convidado?
Sem chances. Se fosse, seria tirado do palco pois diria muitas verdades.
Como o sr. avalia a posição da Suprema Corte de ter derrubado uma parte da Lei do Direito ao Voto, de 1965, que era vista como uma proteção ao eleitorado negro?
É uma visão triste dos conservadores da corte. Temos de continuar lutando, não só pelo direito ao voto, mas também por ter alguém em quem votar, pois os dois partidos, democratas e republicanos, estão ligados ao 1% dos bancos e grandes empresas.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Matias Spektor

folha de são paulo
Russas
Legislação russa esvazia argumento brasileiro de que Brics seriam renovação nas relações internacionais
A Rússia acaba de criminalizar a homossexualidade. Com isso, seus diplomatas trabalham para legitimar as chamadas leis antigay em foros internacionais.
O tema afeta o Brasil, onde está em pauta um projeto de lei que pretende fazer o oposto, criminalizando a homofobia.
O embate pela futura legislação brasileira não é trivial. Em 2012, notificaram-se 10 mil casos de homofobia no país, um terço dos quais envolveu lesão corporal, maus-tratos ou tentativa de homicídio.
Como essa questão divide a sociedade, as políticas públicas são contraditórias. Enquanto o STF e os seguros de saúde reconhecem a união civil entre pessoas do mesmo sexo, os ministros da Educação e da Saúde suspendem campanhas de conscientização.
Com uma mão, o Planalto recebe as demandas dos movimentos sociais; com a outra, pactua no Parlamento com quem faz da homofobia uma bandeira.
Ciente de que esse é um campo minado, a política externa brasileira tem inserido a orientação sexual e a identidade de gênero nos foros multilaterais.
Nesse quesito, o talho do Itamaraty é progressista. Nos últimos meses, houve vitórias significativas na ONU e na OEA.
Mas a batalha é árdua. Países do norte queixam-se de que Brasília não reforma as suas próprias leis, além de ser leniente com africanos e também com asiáticos.
Países árabes, por sua vez, resistem às pressões brasileiras e já chegaram a condicionar a realização de cúpulas com a América do Sul à retirada, nas Nações Unidas, de propostas do Brasil.
Por isso, as notícias vindas da Rússia não ajudam. Ao acirrar a divisão entre os países, elas dificultam o trabalho da diplomacia brasileira, cujo êxito depende da possibilidade de estabelecer pontes entre gregos e troianos.
Para piorar as coisas, a legislação russa esvazia ainda mais o argumento brasileiro segundo o qual os Brics seriam uma força renovadora nas relações internacionais.
O que fazer?
Algumas vozes no estrangeiro sugerem um boicote à Olimpíada de Inverno de fevereiro próximo, que será sediada pela Rússia.
Fazê-lo, contudo, seria contraproducente. O governo russo empunharia a bandeira nacionalista, ganhando boa dose de apoio popular.
Melhor é o Brasil participar com sua mensagem contundente.
Afinal, a homofobia brasileira tem raízes profundas. Na televisão, bicha é malvada ou espalhafatosa. No Congresso, Feliciano preside. No futebol, torcedor promete "fazer a vida impossível" do jogador que lascou um selinho em outro homem.
E, no entanto, o Brasil não é a Rússia. Pode ser conservador, mas não criminalizará gente que ama gente do mesmo sexo. Porque a tese, aqui, não sobrevive nas tribunas, nos tribunais ou nas urnas.
"Não aceitamos que o homossexualismo seja tratado como doença. E muito menos como assunto de polícia", disse Lula na convenção petista de 1981.
Imagine se Dilma quebrasse o silêncio que tem mantido sobre a homofobia repetindo essas palavras no inverno russo que se aproxima.

    terça-feira, 20 de agosto de 2013

    Reino Unido minimiza detenção de brasileiro para interrogatório - Bernardo Mello Franco,Diana Brito,Italo Nogueira

    folha de são paulo
    Namorado de jornalista que revelou esquema de espionagem americano cobra ação do Brasil
    Chanceler brasileiro pede explicações a colega britânico e critica "desvios" na política de combate ao terrorismo
    DO RIODE LONDRES
    O Reino Unido minimizou ontem a detenção do estudante brasileiro David Miranda, 28, que no domingo foi retido com base em uma lei antiterrorismo quando fazia uma escala no aeroporto de Heathrow, em Londres.
    Miranda, que foi liberado após interrogatório, é companheiro do jornalista Glenn Greenwald, autor das reportagens que revelaram a existência de esquema de espionagem da NSA (a agência de segurança nacional dos EUA).
    Um porta-voz do premiê David Cameron saiu em defesa da lei antiterror. "Cabe à polícia decidir quanto à necessidade e à proporção do uso desses poderes", afirmou ao jornal "The Guardian".
    Em nota, a embaixada britânica no Brasil afirmou que o assunto "continua sendo uma questão operacional da Polícia Metropolitana de Londres". O comunicado foi divulgado após o chanceler Antônio Patriota ter abordado o assunto em conversa telefônica com seu colega britânico William Hague.
    Antes do telefonema, Patriota afirmara no Rio que a ação "não é justificável com base numa lei que se aplica a suspeitos por terrorismo".
    Em evento para lembrar os dez anos da morte de Sergio Vieira de Mello, o chanceler disse que o brasileiro, funcionário da ONU, não aceitaria "desmandos e desvios no combate ao terrorismo", em clara referência ao caso.
    "O terrorismo precisa ser combatido com muita seriedade, mas defendemos que seja dentro das boas práticas multilaterais. [...] Sem enquadrar pessoas em que não há justificativa alguma de suspeita de envolvimento com terrorismo", disse.
    Miranda ficou detido em uma sala com seis agentes da Scotland Yard, quando fazia escala no país para voltar de Berlim ao Rio. De acordo com os britânicos, sua detenção durou menos de nove horas, mas, em entrevista à Folha, ele disse ter passado onze horas em poder dos agentes.
    Miranda teve equipamentos apreendidos e permaneceu incomunicável. "Perguntaram sobre a minha vida inteira, sobre tudo. Seguraram o meu computador, videogame, celular, pen drives, máquina fotográfica", contou.
    A viagem de Miranda foi financiada pelo "Guardian", para o qual Greenwald trabalha. Lá, ele visitou Laura Poitras, documentarista que auxilia o jornalista na divulgação dos documentos repassados pelo ex-técnico da NSA Edward Snowden.
    A Casa Branca informou que as autoridades britânicas avisaram os EUA antes de prender Miranda, mas negou ter pedido a prisão e o interrogatório do brasileiro.
    O embaixador britânico no Brasil, Alex Ellis, foi convocado para dar explicações.
    Ao desembarcar no Brasil, o estudante de Comunicação disse esperar uma atitude firme do governo brasileiro.
    "Espero que o governo brasileiro faça alguma coisa, porque a gente não sabe o que está acontecendo de verdade", afirmou Miranda. (DIANA BRITO, ITALO NOGUEIRA E BERNARDO MELLO FRANCO)

    Ação foi 'muito atípica', diz ouvidor britânico
    BERNARDO MELLO FRANCODE LONDRESO brasileiro David Miranda só poderia ser detido pela polícia britânica se fosse suspeito de terrorismo. A afirmação é do ouvidor independente David Anderson, que vai investigar se houve abuso na ação da Scotland Yard.
    Ele disse à Folha que pode recomendar mudanças na lei antiterror se ficar constatado que o brasileiro foi detido ilegalmente no aeroporto.
    "Posso dizer que a ação da polícia foi muito atípica. É raro alguém ser detido por nove horas com base na lei antiterror", afirmou o ouvidor.
    "A lei dá poderes excepcionais e só pode ser usada em casos específicos. Se a polícia não tiver motivo para acreditar que o cidadão seja terrorista, ele deve ser liberado imediatamente", disse.
    Anderson vai investigar se houve abuso na aplicação das leis antiterrorismo, que dão poderes especiais às autoridades desde 2000.
    As autoridades britânicas são obrigadas, por lei, a apresentar uma justificativa clara ao ouvidor.
    Se concluir que houve abusos, ele deve enviar um relatório especial ao Parlamento e sugerir mudanças imediatas na legislação.
    Mais cedo, deputados da oposição trabalhista criticaram a detenção do brasileiro. Yvette Cooper, responsável por fiscalizar o Ministério do Interior, cobrou uma investigação urgente do caso.
    "Qualquer suspeita de que os poderes contra o terrorismo estão sendo usados de forma incorreta deve ser investigada e esclarecida com urgência", afirmou.
      Sob ameaça
      'Guardian' diz ter destruído dados Vazados
      Emissários do premiê britânico, David Cameron, obrigaram o jornal "The Guardian" a destruir material sobre espionagem vazado pelo americano Edward Snowden, escreveu o editor-chefe do jornal, Alan Rusbridger. Se não cumprisse a recomendação, o jornal seria processado, segundo Rusbridger. Agentes teriam acompanhado a destruição de discos rígidos no porão do jornal, no mês passado.

      Entrevista
      'Fiquei 9 horas na sala recebendo ameaça de prisão'
      FABIO BRISOLLADO RIOO carioca David Michael dos Santos Miranda, 28, diz que, após duas horas circulando no aeroporto de Heathrow (Londres) sob custódia de agentes da Scotland Yard, ficou nove horas sendo interrogado. Ele diz que teve confiscados equipamentos em que havia arquivos de Edward Snowden.
      Estudante de marketing, ele é companheiro do jornalista britânico Glenn Greenwald, que revelou o conteúdo de parte dos arquivos de Snowden.
      Folha - Qual o motivo da ida para a Alemanha?
      David Miranda - Levar alguns dados para a Laura [Poitras], que trabalha com o Glenn desde o início do caso Snowden e trazer dados armazenados em dois pendrives e um HD. Tudo foi apreendido. Não sei nada sobre o conteúdo.
      Como foi a abordagem da polícia britânica?
      Embarquei em Berlim, com conexão em Londres. Lá a comissária avisou que todos deveriam sair com o passaporte em mãos. Três oficiais me esperavam. Ao verem meu passaporte, um disse: "Me acompanhe por favor, senhor."
      A Scotland Yard informou que você foi detido por nove horas com base na Lei de Combate ao Terrorismo.
      Mentira. Foram 11 horas. Antes de seguir para a sala, fiquei duas horas circulando com os oficiais.
      Como foi o interrogatório?
      Fui levado para uma sala branca, sem janelas, com quatro cadeiras, uma mesa e uma máquina para registrar impressões digitais. Fiquei ali nove horas, sendo ameaçado de prisão. De 30 em 30 minutos, me ofereciam água. Eu não bebia. Jogavam o líquido fora. Pegaram minha bagagem de mão. Vasculharam tudo. Sumiram um aparelho roteador e um "smartwatch".
      O que eles queriam saber?
      Eles me perguntaram várias vezes sobre minha relação com Glenn e minha participação no trabalho dele. Andavam em volta de mim enquanto falavam. Foi um ataque psicológico. Queriam saber se eu tinha acesso ao conteúdo enviado por Snowden. Expliquei que meu trabalho com Glenn estava restrito à área de marketing.
      O que mais perguntaram?
      Por que as pessoas protestavam nas ruas do Brasil.
      Você suspeitou que estava sendo monitorado?
      Estranhei quando não pude antecipar o voo a Londres e quando disseram que não tinha como comprar outra passagem. Na Alemanha, fui a um bar com a Laura e uma funcionária dela, que estava com uma mochila, que cheguei a carregar por alguns momentos. Quando estávamos no bar, a mochila sumiu.

        Golpe é sempre má ideia - Clovis Rossi

        folha de são paulo
        Exemplo do Irã nos anos 50 serve como reflexão para o que ocorre neste momento no Egito
        Num 19 de agosto como ontem, faz exatos 60 anos, a CIA derrubou o primeiro-ministro do Irã, o nacionalista Mohamad Mossadegh.
        Na ocasião, parecia uma boa ideia aos olhos dos Estados Unidos e do Reino Unido: afinal, Mossadegh, eleito em 1951, defendia a propriedade iraniana dos recursos naturais, principalmente o petróleo, e havia nacionalizado a Anglo-Iranian Oil Company, um dos símbolos do imperialismo à época.
        Era tão popular que o xá Reza Pahlavi, chefe de Estado, teve que se exilar em Roma por alguns dias, em face da reação da massa à demissão de Mossadegh. De todo modo, ele acabou caindo e o xá instalou a sua ditadura pró-Ocidente.
        O que parecia uma boa ideia virou um pesadelo para os norte-americanos, porque a ditadura do xá acabou sendo substituída (1979) por um regime ainda mais nacionalista e muito mais antiocidental do que o de Mossadegh.
        O governo dos aiatolás iranianos tem, portanto, todas as razões do mundo para desconfiar do Ocidente, por mais que nunca se tivesse confirmado oficialmente o patrocínio da CIA ao golpe de 1953. Nunca até ontem, quando Malcolm Byrne, diretor-adjunto do Arquivo de Segurança Nacional, editou um resumo de "A Batalha pelo Irã", baseado em documentos internos da própria agência.
        Nele se lê, com todas as letras, que "o golpe militar que derrubou Mossadegh e seu gabinete da Frente Nacional foi efetuado sob orientação da CIA como um ato de política externa norte-americana".
        Com esses antecedentes, é natural que, ainda hoje, 60 anos depois, abundem teorias conspiratórias envolvendo os Estados Unidos.
        Exemplo: Alaeddin Boroujerdi, presidente do Comitê de Segurança Nacional e de Política Externa do Parlamento iraniano, jura que "os Estados Unidos e Israel buscam conseguir que os países muçulmanos se enredem em problemas domésticos, para o que usam grupos Takfiri [termo árabe livremente traduzível como quinta coluna'], que são marionetes dos Estados Unidos e de seus aliados regionais".
        Pode ser que Boroujerdi tenha razão, embora pareça mais lógico supor que os Estados Unidos queiram desembaraçar os países muçulmanos de problemas domésticos que os estão arruinando. Não têm mais é a força para impor uma solução ou outra, do que dá prova o comportamento no Egito: apoiaram timidamente o governo do islamita Mohammed Mursi, não chamaram de golpe o golpe evidente desfechado pelas Forças Armadas, suspendem manobras militares com os egípcios, mas não suspendem a ajuda militar, e por aí vai.
        Eram mais simples os tempos em que a CIA podia operar contra governos não confiáveis, mas o simples, no médio ou longo prazo, acaba se revelando também o errado.
        O caso do Irã é exemplar: por ruim que o governo Mossadegh fosse, para os interesses ocidentais, dez vezes pior é o regime dos aiatolás.
        E o teor de democracia no Irã, tanto com o xá como agora, é próximo de zero, o que não se podia dizer de Mossadegh.
        Moral da história, aplicável ao Egito de 2013: golpes de Estado nunca são uma boa ideia.

          segunda-feira, 19 de agosto de 2013

          Rubens Ricupero

          folha de são paulo
          Domando o poder americano
          A tendência inelutável do poder, ensinavam os teóricos do realismo, é jamais ficar ocioso
          Caía sobre Washington uma chuvinha melancólica no dia em que Nixon renunciou. Confesso que me emocionei com o adeus daquele homem que tinha sido o mais poderoso do mundo e perdia tudo por haver abusado do poder na Guerra do Vietnã e no escândalo de Watergate.
          A reação do país aos abusos foi indignada e vigorosa. O Congresso impôs limites estritos às operações clandestinas no exterior --contra Angola, por exemplo. No Senado, uma comissão presidida pelo senador Frank Church, que morreria prematuramente, investigou as sistemáticas violações de direitos pelas agências de inteligência.
          Praticamente tudo o que agora causou espanto nas revelações de Edward Snowden já tinha vindo à luz nos depoimentos à comissão. Soube-se que a quase desconhecida National Security Agency (NSA) possuía de longe o maior orçamento das 16 agências americanas de inteligência. Sua missão era, já então, monitorar todas as comunicações telegráficas e telefônicas, decifrando os códigos das embaixadas estrangeiras, cujas sedes eram violadas por agentes disfarçados de funcionários das empresas de telecomunicação ou de operários incumbidos de reformas.
          Eu era conselheiro de nossa missão nos EUA e lembro que mandamos todas as informações ao Itamaraty. Quando voltei como embaixador, em 1991, assumi como hipótese que tudo o que eu dizia ao telefone ou transmitia ao Brasil, cifrado ou não, poderia ser facilmente interceptado, dada a superioridade dos meios tecnológicos americanos.
          Aproveitei a situação para criticar em linguagem não diplomática o que me parecia absurdo na política exterior de Washington (em particular, a campanha de subversão contra o governo legal e eleito de Angola e o apoio à guerrilha da Unita, de Jonas Savimbi). Nunca acreditei que a lei aprovada pela comissão do Senado proibindo as escutas e violações tivesse sido obedecida.
          De qualquer modo, a questão se tornou acadêmica ao se adotar o Patriot Act, legislação antiterrorista de 2001, após os atentados às Torres Gêmeas. De novo o pêndulo se moveu em favor de privilegiar a segurança em detrimento da privacidade e dos direitos individuais.
          Desta vez foi pior do que 40 anos atrás. O desastroso epílogo da Guerra do Vietnã e o choque com os métodos criminosos de Watergate haviam desmoralizado a justificativa das agências de espionagem. A sociedade americana, quase de forma unânime, condenou o recurso abusivo a operações clandestinas.
          Hoje duvido que a maioria americana, traumatizada duravelmente pela ameaça do terrorismo islâmico, opte por abrir mão da espionagem cibernética devido às revelações de Snowden. Assim como não vai querer renunciar aos "drones" para matar à distância, de modo seguro, terroristas reais ou supostos.
          A tendência inelutável do poder, ensinavam os teóricos do realismo, é jamais ficar ocioso. Domar o poder por meio de estritos freios legais é a essência do processo civilizatório. Contudo, como voltamos a ver, inclusive em prejuízo do Brasil, convém não se fiar nas promessas e lutar para que a lei internacional possa um dia submeter efetivamente o arbítrio dos poderosos.

          Londres detém brasileiro por terrorismo - Isabel Fleck

          folha de são paulo
          David Miranda é namorado do jornalista Glenn Greenwald, pivô das denúncias de espionagem do governo dos EUA
          Repórter diz que polícia só questionou namorado sobre suas reportagens; Itamaraty condena medida 'injustificável'
          ISABEL FLECKDE SÃO PAULOO estudante brasileiro David Miranda, 28, foi detido ontem no aeroporto de Heathrow, em Londres, com base na lei britânica de combate ao terrorismo, que permite prender suspeitos sem mandado judicial.
          A detenção, no entanto, se mostrou ainda mais controversa pelo fato de Miranda ser namorado do jornalista Glenn Greenwald, responsável pela publicação, no jornal britânico "Guardian", das denúncias sobre o programa de espionagem do governo dos EUA.
          O brasileiro ficou detido por nove horas no aeroporto e teve laptop, celular e outros equipamentos eletrônicos apreendidos. Não pôde telefonar para seu advogado --isso foi feito por autoridades britânicas-- e um advogado enviado pelo "Guardian" só teve acesso aos últimos 15 minutos de seu depoimento.
          "Eles não perguntaram nada a ele sobre terrorismo, só sobre jornalismo: o que eu estou fazendo, o que eu não estou fazendo", disse Greenwald à Folha.
          Um porta-voz da Scotland Yard (polícia metropolitana de Londres) confirmou que "às 8h05 (4h05 no Brasil) de domingo, um homem de 28 anos foi detido sob o artigo 7 do Terrorism Act 2000'".
          Para Greenwald, "está claro" que a detenção do namorado foi uma ação para intimidá-lo e um "ataque à liberdade de imprensa".
          Segundo ele, os oficiais perguntaram até se Miranda tinha acesso a "senhas" envolvendo o material das reportagens de Greenwald.
          "Mas agora eu vou fazer muitas reportagens, e ser muito mais agressivo do que antes: vai ter o efeito oposto ao que eles quiseram."
          Greenwald comparou a detenção à proibição que governos europeus deram ao presidente boliviano Evo Morales de sobrevoar seus países em julho. Segundo La Paz, os europeus acreditavam que o foragido ex-técnico da CIA Edward Snowden poderia estar no avião de Evo.
          A detenção mobilizou o Itamaraty, que lançou uma nota classificando o episódio como uma "medida injustificável".
          "Trata-se de medida injustificável por envolver indivíduo contra quem não pesam quaisquer acusações que possam legitimar o uso de referida legislação", afirma o Itamaraty. O governo diz ainda esperar que incidentes como esse "não se repitam".
          O subsecretário-geral do Itamaraty para as comunidades brasileiras no exterior, Sergio Tanese, telefonou para Greenwald para oferecer apoio do governo brasileiro.
          Antes de Miranda, dois brasileiros foram detidos nos EUA, em 2004, sob a lei de combate ao terrorismo no país. O paraibano Mizael Cabral e o carioca Daniel Correa foram acusados de reportar falsamente a presença de uma bomba em sua bagagem, no aeroporto de Miami. Ficaram mais de dois meses detidos.
          Miranda voltava de Berlim, onde passou uma semana em companhia da documentarista americana Laura Poitras, que trabalha com Greenwald na análise dos documentos vazados por Snowden.
          O estudante, que vive no Rio de Janeiro com Greenwald, deveria chegar ao Brasil na madrugada de hoje.
          Greenwald vem publicando no "Guardian", desde 5 de junho, uma série de artigos revelando as ações de espionagem digital da NSA (Agência de Segurança Nacional) dos EUA, utilizando documentos vazados por Snowden.
            DEPOIMENTO
            'Está claro que isso foi uma mensagem de intimidação'
            Jornalista que publicou denúncias fala sobre a detenção do namorado
            DE SÃO PAULOO jornalista americano Glenn Greenwald, 46, diz que a detenção do namorado, David Miranda, no aeroporto de Heathrow, em Londres, foi uma "mensagem de intimidação" a ele. Ele afirmou à Folha, que responderá com reportagens "ainda mais agressivas". Leia o depoimento abaixo.
            (ISABEL FLECK)
            -
            O oficial britânico me ligou às 6h30 de hoje [ontem] para me avisar que o David tinha sido detido sob essa lei antiterrorismo. Ele disse que me ligou porque o David não tinha direito a ter advogado, mas ele tinha o direito de pedir que ligassem para um advogado, e eu sou advogado.
            Eu ainda não falei com o David, só com o advogado do "Guardian", que me disse que é muito raro que alguém fique detido mais do que uma hora.
            Mas eles não perguntaram nada a ele sobre terrorismo, só sobre jornalismo: o que eu estou fazendo, o que eu não estou fazendo.
            Ele esteve na Alemanha, na última semana, com Laura Poitras, que está trabalhando comigo. Eles perguntaram o que ele e a Laura fizeram, se ele tinha senhas para ter acesso [ao material sobre as denúncias], coisas assim. Está claro que foi só para me mandar uma mensagem de intimidação.
            O advogado disse que tomaram seu laptop, telefone, videogame, DVD, sem dar explicações. Eles têm o poder, sob essa lei, para tomar qualquer coisa para investigação.
            Agora farei muitas reportagens e serei muito mais agressivo que antes: vai ter o efeito oposto ao que queriam.
            Foi exatamente o que eles fizeram quando impediram o avião do [presidente boliviano] Evo Morales [de sobrevoar países europeus]. Eles sabiam que teriam um problema enorme no mundo, mas quiseram mandar essa mensagem. Eles agem como criminosos.

              domingo, 18 de agosto de 2013

              Clovis Rossi

              folha de são paulo
              Sem islamitas, sem democracia
              A única eventual saída para a crise egípcia é aceitar a incorporação do Islã ao jogo político
              A única eventual saída para o labirinto em que os militares enfiaram o Egito é os setores laicos e liberais que iniciaram a revolta que levou à queda da ditadura anterior (Hosni Mubarak, 1981/2011) aceitarem o fato de que ou se incorpora o islamismo à vida política ou não haverá democracia nem no Egito nem nos demais países de maioria muçulmana.
              É a constatação, por exemplo, de Luz Gómez García, professora de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Autônoma de Madri, em artigo para "El País": "Acreditar que a democracia e a revolução são possíveis com a Irmandade Muçulmana silenciada é um absurdo exercício de possibilidades".
              Reforça a revista "The Economist", cujas credenciais liberais a impedem de ter a mais leve simpatia por movimentos tipo a Irmandade Muçulmana:
              "Os generais não podem suprimir os islamitas sem também privar milhões de outros egípcios das liberdades pelas quais ansiaram --e que experimentaram, ainda que brevemente, desde a queda de Mubarak".
              A defecção do principal líder laico e liberal, Mohammed ElBaradei, após o massacre de quarta, mostra que os militares não conseguirão apoio dessas correntes para manter a carnificina indefinidamente.
              O problema para a aceitação da Irmandade Muçulmana como parceiro eventualmente hegemônico no jogo político é a desconfiança que cerca o islamismo político. Sua magra experiência de um ano no poder foi permanentemente acompanhada de afirmações, pouco comprovadas, de que havia uma agenda de completa islamização do país.
              Há razões para a desconfiança, mas há também razões para crer em um certo exagero no anti-islamismo.
              Veja-se, por exemplo, a declaração da dona-de-casa Afaf Mahmoud para a "Economist": "Se ele [o presidente Mohammed Mursi] tivesse prendido todos aqueles que o criticaram, como Mubarak teria feito, talvez ainda estivesse no poder".
              De fato, o teor de democracia no curto período Mursi ficou longe dos 100%, mas seria preconceituoso dizer que ele estava perto de implantar uma ditadura sob a égide da sharia, a lei islâmica.
              Os dez anos de governo do islamita AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento) na Turquia também testemunham que islamismo e democracia podem conviver --com percalços, é verdade, em geral não muito maiores do que os que ocorrem em alguns países vizinhos do Brasil.
              Deixar os islamitas fora do jogo levaria a que perdessem a confiança no processo democrático, o que "seria uma má notícia para o Egito e um impulso para a Al Qaeda e outros jihadistas [adeptos da guerra santa contra o Ocidente] que creem que só se pode conseguir o poder com sangue e terror", escreve para "El País" o ex-chanceler de Israel Shlomo Ben Ami, hoje vice-presidente do Centro Internacional pela Paz de Toledo (Espanha).
              Se os liberais resolverem disputar votos com os islamitas em vez de aceitar o sangue, talvez haja uma chance. Talvez.

              sábado, 17 de agosto de 2013

              Alexandre Vidal Porto

              folha de são paulo
              Democratização e política externa
              A contribuição de agentes interessados em relações internacionais não deve ser menosprezada
              CONHECI Matias Spektor, colunista da Folha, em Washington, faz alguns anos, em um seminário sobre o Brasil. No meio daquela conversa antiga de brasilianistas arcaicos, foi refrescante ouvir alguém cuja visão fugia do estereótipo.
              Recentemente, Spektor escreveu sobre a importância de que a sociedade civil possa participar mais ativamente do processo de elaboração da política externa brasileira.
              Eu concordo com ele.
              A política externa pode parecer um conceito abstrato e distante, mas é política pública como qualquer outra. Lança os objetivos econômicos, políticos e estratégicos que um país quer alcançar no plano internacional. Também defende e promove princípios e valores.
              Realiza-se em capitais distantes e é discutida em línguas estrangeiras. Ainda assim, deve projetar a nacionalidade e ser executada em nome dos cidadãos.
              Por isso, como convém à boa política pública, seus objetivos têm de se acoplar ao projeto mais amplo de desenvolvimento econômico e social que cada governo formula. A ideia é, tanto quanto possível, conciliar interesses nacionais específicos com a paz e a prosperidade de toda a comunidade global.
              Nada mais natural, portanto, que, numa democracia, diferentes setores da sociedade possam participar na identificação desses objetivos.
              No Brasil, em diversas ocasiões, a sociedade civil contribuiu para definir linhas da ação diplomática. É reconhecida a participação dos ativistas de direitos humanos e ambientalistas nas Conferências de Durban (2001) e, mais recentemente, na Rio +20 (2012). Muitas vezes, porém, essa participação se dá de maneira informal, mais por boa vontade do agente público do que por obrigação institucional.
              Em sua coluna, Matias Spektor mencionou que o Itamaraty resolvera criar em sua estrutura um foro permanente para diálogo com a sociedade civil. A ideia seria democratizar e dar mais legitimidade à política externa.
              Na longa história do órgão, é a primeira vez que se estabelece um mecanismo dessa natureza. Trata-se de evolução institucional importante cujo objetivo, em última análise, é aproximar a política externa do cidadão comum.
              A consolidação da democracia transforma a ação diplomática. A tecnologia, também. Não há como falar de democratização da política externa sem mencionar as mídias sociais. Tornaram-se um canal de contato direto com a população, pelo qual o formulador mostra seu trabalho e convida a opinião pública, nacional e internacional, a comentar sobre sua atuação.
              Com isso, passa a contar com a possibilidade de quantificar e analisar dados de seu Ibope particular.
              A contribuição de especialistas e agentes interessados em relações internacionais --seja em foro institucionalizado, debates acadêmicos ou mensagens de Facebook-- não deve ser menosprezada.
              O debate tem de ser inclusivo e diverso. O desafio democrático que caberá à política externa --e a seu formulador-- será atingir e expressar o equilíbrio dessa diversidade.

                quinta-feira, 15 de agosto de 2013

                Clovis Rossi

                folha de são paulo
                A primavera acaba em sangue
                O massacre devolve o Egito à condição de ditadura militar e interdita a democracia
                O massacre de ontem no Egito devolve o país à situação prévia à chamada Primavera Árabe: volta a ser uma ditadura militar.
                Mudam só os nomes: ontem era Hosni Mubarak, agora é Abdul Fatah al-Sisi, chefe das Forças Armadas, o verdadeiro dono do poder, embora o presidente nominal seja um fantoche civil.
                Na verdade, a ditadura se instalou quando foi derrubado o presidente legítimo, o islamita Mohammed Mursi, conforme já foi dito aqui em "Pinochetazo à moda árabe" (folha.com/no1310122).
                Mas ainda se preservava a forma, o que ruiu por completo ontem.
                O que está em curso é a velha tendência de interditar o islamismo, com o que se interdita, na verdade, a democracia.
                Na democracia, governa a maioria, com o perdão pela obviedade. E, nas eleições, o braço político da Irmandade Muçulmana e os islamitas mais radicais da Al Nour ficaram com 65% dos votos, enquanto os grupos seculares/liberais não passaram de 15%.
                Que os militares, que mantiveram a Irmandade na clandestinidade a maior parte de seus 80 e poucos anos de vida, queiram repetir o esquema já é condenável, mas pelo menos é explicável.
                É o eterno braço de ferro entre as duas grandes forças egípcias.
                Mas é escandaloso que os liberais tenham se juntado aos militares para golpear a democracia.
                Veja-se o que escreve Steven Cook, do Council on Foreign Relations, especialista na região:
                "O fato de alguns grupos revolucionários [os da Primavera Árabe] e ativistas da democracia, que se consideram liberais, terem feito causa comum com os remanescentes do antigo regime e com os militares mina sua pretensão de serem democráticos. E também faz deles, se não forem cuidadosos, peões potenciais em um jogo que forças antirrevolucionárias estão jogando com o intuito de restaurar alguma aparência da velha ordem".
                Que se trata de uma volta ao passado, fica ainda mais evidente pela análise feita por Hossam Bahgat, diretor da Iniciativa Egípcia pelos Direitos Individuais, ainda antes do massacre de ontem:
                "Algumas pessoas pensam que o regime policial de Mubarak foi desmantelado, o que é falso. Ele continuou durante a transição militar [entre a queda de Mubarak e a eleição] e, depois, com o presidente Mohammed Mursi. Durante todo esse tempo, nenhuma ação foi tomada para a reforma da instituição policial e dos programas ensinados na academia de polícia. Da mesma forma, nenhuma medida foi tomada contra os oficiais acusados de violação dos direitos do homem."
                O massacre de ontem pode provocar uma "forte condenação", como diz a nota oficial da Casa Branca, mas não deveria provocar surpresa ante a preservação de um estamento militar habituado à violência desde sempre.
                Por falar na nota da Casa Branca, é patético "urgir o governo do Egito --e todas as partes no Egito-- a evitar a violência e resolver suas diferenças pacificamente."
                Equivale a pôr no mesmo pé quem entrou com o sangue e quem entrou com as balas.
                crossi@uol.com.br

                  quarta-feira, 14 de agosto de 2013

                  Luciana Coelho [Brasil/USA]

                  folha de são paulo
                  ANÁLISE
                  Maturidade chegou, mas países jogam na zona de conforto
                  LUCIANA COELHOEDITORA-ADJUNTA DE MERCADOÉ difícil imaginar visita de secretário de Estado americano ao Brasil mais insípida do que a de John Kerry ontem.
                  Não que seja de todo um mau sinal. Não fosse o desconforto causado pela constatação de que os EUA espionam o Brasil, não exatamente uma surpresa, seria fácil dizer que as relações entre Washington e Brasília navegam na calmaria. Sem grande risco, sem grande emoção.
                  O chanceler Antonio Patriota levantou o tema, como esperado, e Kerry respondeu, protocolarmente, que a relação supera a escaramuça.
                  Mas o que sobrou do encontro, além disso, e o que esperar da visita de Estado da presidente Dilma Rousseff a Barack Obama, em outubro?
                  Pelo que se ouviu, pouco.
                  Indagados sobre o fim da exigência de vistos a brasileiros, os chanceleres deixaram claro que é uma meta comum, mas ainda sem previsão.
                  Há regras a cumprir ou a mudar, e, para mudá-las do lado americano, a via principal é o inoperante Congresso dos EUA, onde até há algum interesse, mas do qual é difícil esperar ação rápida.
                  Como Dilma em sua primeira visita aos EUA, em 2012, os dois ressaltaram o Ciência sem Fronteiras e seu análogo americano como medida do avanço das relações.
                  Seria de se espantar, contudo, que dois países com intercâmbio comercial intenso, interesses regionais às vezes díspares e maturidade para aprofundar a relação de fato pusessem o intercâmbio estudantil no topo da agenda.
                  Seria jogar na zona de conforto, onde tudo opera bem, mas não há maior pretensão (para desgosto de empresários e turistas dos dois lados).
                  É verdade que EUA e Brasil abriram nos últimos anos um sem-número de iniciativas conjuntas. Mas tantos diálogos dispersam o foco ao invés de concentrá-lo no que interessa: energia, comércio, segurança regional, turismo.
                  Kerry, casado com uma moçambicana, tratou de dar "bom dia" e "obrigado" em português, familiarizado com a língua. É uma analogia melhor para a relação bilateral do que as muitas fotos opondo a altura dos chanceleres.
                  Diferentemente do passado, afinal, hoje o Brasil tem estatura global, e os dois países entendem bem o que o outro diz. Pena que, por ora, a conversa se limite ao trivial.

                  terça-feira, 13 de agosto de 2013

                  Clovis Rossi

                  folha de são paulo
                  O ocaso da rainha Cristina
                  Resultado das primárias dá a entender que é quase impossível que a presidente possa obter a re-reeleição
                  A hipótese de re-reeleição de Cristina Kirchner parece ter sido sepultada pelos resultados das primárias realizadas domingo.
                  É verdade que a FpV (Frente para a Vitória, a coligação inventada pelo kirchnerismo) obteve a maioria relativa dos votos, mas, mesmo que a vitória se repita na eleição para valer, em outubro, não será o suficiente para alcançar os 2/3 em cada Casa do Congresso necessários para reformar a Constituição de forma a autorizar uma segunda reeleição.
                  É sintomático que, na retórica usualmente triunfalista do kirchnerismo, um de seus expoentes, o intelectual Ricardo Forster, tenha jogado "para depois de 2015" o debate sobre a reforma da Constituição.
                  É o ano em que termina o mandato de Cristina. Para obter um novo período, ela precisaria de uma vitória esmagadora nas eleições de outubro, que renovam metade da Câmara e um terço do Senado.
                  As primárias realizadas no domingo eram tidas como uma grande pesquisa de opinião pública para a votação de outubro.
                  Se foi assim, Cristina perdeu, mesmo nas contas de um colunista do "Página 12", o jornal que a apoia incondicionalmente: "O governo obteve menos votos do que os calculados, na maioria dos distritos e no total geral", escreveu Mario Wainfeld.
                  Acrescentou: "O resultado conseguido pela Frente para a Vitória e seus aliados de ferro esteve abaixo de 30%, que é um piso baixo para a sua história e suas pretensões".
                  Se é esse o ânimo entre os simpáticos à presidente, é natural que no polo contrário haja euforia. O jornal "Clarín", a principal oposição ao governo, brada: "O kirchnerismo sofreu ontem a pior derrota eleitoral na década que está no poder, e que, a dois anos do fim do segundo mandato de Cristina Kirchner, parece antecipar o final de um ciclo político".
                  De fato, é razoável supor que se trata do início do fim do ciclo mais longo de um único sobrenome na Presidência da Argentina.
                  Os Kirchner completarão 12 anos no poder, os quatro primeiros (2003/07) com Néstor, os oito seguintes com Cristina.
                  Nem o general Juan Domingo Perón, o patrono do casal, chegou a tanto. Em seus três períodos, totalizou dez anos de governo, tantos quanto Carlos Menem, que governou de 1989 a 1999.
                  É óbvio que, em democracia, só se consegue durar tanto no poder mostrando serviço, o que os Kirchner fizeram: içaram a Argentina da mais grave crise econômico-social de sua história.
                  Se, agora, o ciclo chega ao fim, é porque Cristina brigou com gente demais simultaneamente, dos ruralistas a seu vice no primeiro mandato, do "Clarín" ao líder sindical Hugo Moyano.
                  Essa percepção esteve muito presente na avaliação do grande vencedor das primárias, Sergio Massa (com quem, aliás, Cristina também se desentendeu, depois de tê-lo içado a chefe de gabinete): "Os que nos acompanharam [nas primárias] disseram basta' ao confronto na Argentina".
                  Só a eleição legislativa de outubro começará a dizer se Massa será de fato a cara de um eventual novo ciclo.
                  crossi@uol.com.br

                    segunda-feira, 12 de agosto de 2013

                    Raul Juste Lores

                    folha de são paulo
                    Kerry tenta aliviar mal-estar com Brasil
                    A dois meses de visita de Dilma aos EUA, secretário de Estado chega amanhã e deve discutir espionagem da NSA
                    Kerry, que já se referiu duas vezes à América Latina como 'quintal', tem de conter incômodo do Brasil com vigilância
                    RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTONAmanhã, em sua primeira visita como secretário de Estado americano ao Brasil, John Kerry vai tentar melhorar o clima entre os dois governos às vésperas da visita de Estado que a presidente Dilma Rousseff fará aos EUA, em outubro.
                    Para diplomatas dos dois países ouvidos pela Folha, a visita não vai acontecer "em um bom momento". E boa parte dos acordos e anúncios que poderiam ser feitos em Washington está "travada".
                    Kerry, que chamou duas vezes a América Latina de "quintal" durante a sabatina no Senado americano que o confirmou no cargo, precisa reduzir os estragos provocados pelas denúncias de Edward Snowden de que os americanos estão espionando milhões de pessoas, governos e empresas pelo mundo, incluindo o Brasil.
                    O mal-estar levanta diversas questões sobre a visita de Dilma a Washington, com honrarias militares e um jantar de gala.
                    Se Dilma está tão preocupada com a espionagem dos americanos, aceitará ficar hospedada na Blair House, o palacete em frente à Casa Branca que costuma hospedar chefes de Estado convidados pelos EUA?
                    Os preparativos para a visita estão atrasados dos dois lados. O primeiro rascunho de comunicado conjunto que Dilma e Obama apresentarão já atrasou mais de um mês.
                    Desde maio, o governo americano está esperando saber que tipo de música a presidente Dilma gosta para montar o cardápio do jantar de gala na Casa Branca. Após os protestos de junho, quem tem coragem de incomodar a presidente com um assunto desses?', lamenta um diplomata brasileiro.
                    Os protestos de junho levantaram muitas dúvidas entre os funcionários do governo americano consultados pela Folha.
                    Praticamente todos perguntaram ao correspondente se Dilma pode não ser reeleita no pleito do ano que vem. Também questionam se o crescimento vertiginoso da economia brasileira "já virou história".
                    A última vez que um presidente do Brasil foi convidado a uma "visita de Estado" aos EUA foi Fernando Henrique Cardoso, em 1995. No mesmo período, chefes de Estado da China (1997 e 2011) e da Índia (2005 e 2009) foram recebidos duas vezes com a maior gala da Casa Branca.
                    Kerry, que foi derrotado por George W. Bush em 2004, conheceu sua mulher, a bilionária americana, filha de portugueses, Teresa Heinz, no Brasil, durante a Eco 92, no Rio de Janeiro.

                      Entrevista da 2ª Julio Calzada - Lucas Ferraz

                      folha de são paulo
                      Legalizar a maconha é um processo de risco
                      Designado para coordenar projeto que libera plantio e venda da droga no Uruguai, sociólogo defende o controle estatal
                      LUCAS FERRAZDE SÃO PAULO
                      O sociólogo Julio Calzada, 57, vai comandar o processo de legalização da maconha no Uruguai. Secretário-geral da Junta Nacional de Drogas, ele foi designado pelo presidente José Mujica para coordenar a (nova) política nacional sobre o tema.
                      "O país iniciará um processo de risco", disse à Folha. "Não há antecedentes, nenhum país fez o que estamos fazendo. Há que minimizar os riscos, mas temos pouca margem para equívocos."
                      No próximo mês, o Senado deve concluir votação do projeto de lei que libera o plantio e a venda de maconha no Uruguai --tudo controlado pelo Estado. Espera-se aprovação mais folgada que na Câmara, há 12 dias.
                      Se aprovado, o Uruguai será o primeiro país do mundo a legalizar a maconha --nos EUA, até agora dois Estados aprovaram o uso "recreativo" e, na Holanda, cuja lei é conhecida pela tolerância, permite-se fumar pequenas quantidades em cafés, mas nunca em locais públicos.
                      Segundo o projeto, haverá cadastro para usuários --com mais de 18 anos e residentes no país, sem levar em conta a nacionalidade--, que poderão comprar até 40 gramas da droga por mês.
                      O consumo já é permitido --a Constituição uruguaia reconhece os direitos individuais em relação ao corpo e à própria vida.
                      Entra aí a incongruência da atual situação, que será sanada com a aprovação da lei: para praticar um ato legal, o cidadão precisa recorrer a meios ilícitos.
                      Formado em sociologia pela Universidade da República, de Montevidéu, Julio Calzada afirma que o modelo a ser adotado no Uruguai não serve para outros países. E nem é perfeito --o secretário admite que o projeto "limita" direitos aos cadastrados.
                      "Há uma limitação de direitos, mas assumimos isso para mudar a política de drogas, que é fracassada. Não há alternativa a não ser o controle do Estado de todo o processo, do plantio à distribuição".
                      A seguir, trechos da entrevista concedida por telefone, na semana passada, em Bella Unión, no lado uruguaio da tríplice fronteira com Brasil e Argentina.
                      Folha - O Senado deve aprovar a lei no próximo mês. Como será a legalização?
                      Julio Calzada - Levará tempo, acho que no final deste ano ou talvez no início do próximo. Ainda estamos decidindo assuntos referentes ao cultivo e à distribuição. Não sabemos quantas associações vão cultivar a droga e quantos locais de venda o Estado terá.
                      Fizemos pesquisas para entender como funciona o tráfico no país, os preços cobrados etc. Estipulamos um valor com base no mercado negro. O valor médio do grama é de US$ 1, US$ 1,50 (entre R$ 2,30 e R$ 3,40). Vamos trabalhar com um valor nessa faixa. Decidimos também um montante anual que será produzido e permitido pelo Estado, 22 toneladas de maconha por ano, que é a quantidade que se consome atualmente no país.
                      O que explica o fato de o país ser o primeiro a regulamentar o cultivo e o acesso à droga?
                      O convencimento do presidente da República de que os mecanismos de controle existentes há 50 anos não davam os resultados que esperávamos. Em primeiro lugar está o aspecto da saúde pública. É preciso dar resposta aos usuários. Uma resposta que seja adequada. Os usuários são estigmatizados ou considerados cidadãos de segunda classe. Este é o ponto central.
                      Um segundo aspecto, não menos importante, é a incongruência de nosso país. Aqui o consumo é legal. Nossa Constituição diz que atos pessoais, privados, desde que não afetem terceiros, não podem ser proibidos pelo Estado ou pelo Poder Judiciário.
                      Qual a maior dificuldade para legalizar a maconha?
                      É um processo que carece de precedentes. Há alguns poucos casos, como a Holanda e alguns Estados dos EUA. Há um conjunto de coisas que precisamos adequar à realidade. A dificuldade é que não há antecedentes, nenhum país fez o que estamos fazendo. Há que minimizar os riscos, temos pouca margem para equívocos.
                      A maioria da população uruguaia é contrária. Esse cenário não cria um problema para a regulamentação da lei?
                      O que estamos fazendo é trabalhar com muita dedicação e profissionalismo. Mudar o paradigma é muito difícil. Mas temos estudado a experiência de alguns países com a produção de ópio, como Índia e Turquia, por exemplo. É uma experiência prévia. É preciso haver sobretudo controle, para não haver desvios.
                      Há um convencimento de que a melhor forma de se lutar contra o tráfico é no plano econômico. O que essa lei busca é tirar o usuário do comércio ilegal. A única forma de matar o tráfico é tirar sua sustentação econômica. Essas organizações se utilizam da estrutura das drogas para cometer outros crimes, como tráfico de armas ou de pessoas. A atual política gera mais danos que benefícios.
                      Há preocupação com potenciais efeitos da legalização nos vizinhos Brasil e Argentina?
                      Estamos atentos aos controles necessários para evitar qualquer problema. Os usuários precisam se registrar, e para isso é necessário comprovar residência no país. Só assim as pessoas poderão comprar a maconha produzida aqui. Ou terão permissão para plantar em casa.
                      O objetivo é controlar o que seja produzido legalmente e evitar que essa produção seja desviada para o mercado negro e para países vizinhos.
                      Só a lei será suficiente para impedir a entrada da droga legal no mercado negro?
                      Sim, haverá um sistema de licenças que permite ao Estado interferir em todo o processo. Os produtores tampouco poderão competir entre si. O mercado será fechado e completamente controlado pelo Estado.
                      Um cidadão recebe autorização para plantar maconha. O Estado irá na sua casa para fiscalizá-lo?
                      Sim, essa pessoa terá que se registrar e nos informar qual tipo de planta irá utilizar. Tudo isso será controlado, sobretudo a quantidade. Se ficar comprovado que há mais do que o especificado, a pessoa poderá responder por tráfico de drogas.
                      Muitos usuários dizem que o projeto fere liberdades individuais e civis, já que eles precisam se cadastrar para plantar ou comprar do Estado. O que o sr. pensa dessa afirmação?
                      Este é um aspecto muito discutido pelas organizações sociais. Estamos num momento de debate e mudanças na política de drogas em todo o mundo. Essa é uma maneira de controle no marco dessa nova política.
                      Mas, para o sr., não há desrespeito às liberdades individuais e civis?
                      Há, sim, uma limitação de direitos, mas assumimos isso para mudar a nossa política de drogas, que é fracassada. Não há outra alternativa a não ser o controle do Estado em todo o processo, do plantio à distribuição. A medida tem dois aspectos. O primeiro é evitar o desvio da droga. Depois, também é uma medida sanitária, para controlar a quantidade de droga consumida no país.
                      O sr. acredita que o modelo uruguaio poderá ser aplicado em outros países latino-americanos?
                      É um projeto pensado exclusivamente para o Uruguai. Não somos um modelo a ser seguido. Estamos dando uma resposta aos nossos problemas, à realidade do Uruguai. A medida está de acordo com a presença do Estado na vida do país. Vamos controlar o comércio e oferecer um programa de assistência médica e também preventivo.
                      Queremos que neste século haja uma política progressiva em relação às drogas. O Uruguai, por ser o primeiro país a fazer isso, certamente vai contribuir ao debate como um exemplo. Brasil e Argentina têm uma política de drogas completamente distinta da nossa. Mas, neste caso, cada país precisa modificar essa política de acordo com a realidade local.

                      RAIO-X JULIO CALZADA
                      IDADE
                      57 anos
                      ORIGEM
                      Nascido em Dolores, Uruguai
                      FORMAÇÃO
                      Graduado em sociologia pela Universidade da República, de Montevidéu
                      ATUAÇÃO
                      Secretário-geral da Junta Nacional de Drogas do governo de José Mujica desde abril de 2011

                        domingo, 11 de agosto de 2013

                        Portugal vive sua maior crise demográfica - Patricia Campos Mello

                        folha de são paulo
                        Queda na taxa de fecundidade e emigração podem tirar cerca de 1 milhão de habitantes do país em 10 a 20 anos
                        'Primeira, segunda e terceira opção de nossos melhores alunos é emigrar', diz diretor de incubadora de Lisboa
                        PATRÍCIA CAMPOS MELLOENVIADA ESPECIAL A LISBOAPortugal vive a crise demográfica mais grave de sua história. O país pode perder 1 milhão de habitantes em 10 a 20 anos --quase 10% de sua população de 10,6 milhões.
                        "É catastrófico", diz João Peixoto, professor da Universidade de Lisboa. "A crise demográfica em Portugal é muito grave, porque junta motivos estruturais, como a queda da taxa de fecundidade, e conjunturais, as emigrações por causa da crise."
                        Cerca de 100 mil portugueses emigram por ano desde 2010, segundo o governo.
                        São os mais qualificados e mais jovens que deixam o país. Gente como o economista Alexandre Abreu, 34, que vai trabalhar em Timor Leste por dois anos.
                        Ele fez faculdade e mestrado na Universidade de Lisboa e doutorado na Universidade de Londres, estudando migrações e a crise do euro. Grande parte dos seus estudos foi custeada por bolsas do governo português.
                        Há dois anos voltou da Inglaterra, mas não consegue emprego fixo em Portugal, porque as vagas foram congeladas no plano de austeridade. Com contrato de meio período, ganhava € 1.000 por mês (cerca de R$ 3.000).
                        "Tentei ficar, mas, com esse contexto de crise, não consegui. Fomos subsidiados pelo governo para atingir essa formação avançada e agora não há empregos aqui."
                        O declínio da natalidade é antigo na Europa, mas era parcialmente compensado pelos imigrantes, que têm número maior de filhos.
                        Portugal teve queda forte na taxa de fecundidade, hoje em 1,28 filho por mulher. E a crise demográfica do país é mais grave que a de outras nações europeias porque se alia à onda de emigração de mão de obra qualificada.
                        "A crise agravou a queda de fecundidade, porque, quanto maior a instabilidade na vida profissional, menor a vontade de ter filhos", diz o demógrafo Jorge Malheiros, da Universidade de Lisboa.
                        Os nascimentos vêm caindo. Foram 96.856 em 2011, 89.841 em 2012 e a estimativa para este ano é de 80 mil.
                        Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, o número de mortes em Portugal foi 11.868 superior ao de nascimentos entre janeiro e abril deste ano. Associado às emigrações, o país encolhe a taxas aceleradas.
                        "Só não emigram mais portugueses porque outros países também estão em crise", diz o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário.
                        A maioria emigra para outros países da Europa, aproveitando-se do espaço Schengen. França, Reino Unido, Luxemburgo e Alemanha são os principais destinos.
                        Em 2012, calcula-se que Angola tenha recebido 30 mil portugueses, Moçambique, 5.000, e o Brasil, 2.171.
                        Além de Portugal, também Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Hungria e Romênia encolheram em 2011.
                        "A longo prazo, nenhum país consegue ter crescimento econômico forte com regressão demográfica; um país que perde população não tem dinamismo", diz Jorge Malheiros.
                        Segundo dados do Eurostat, Portugal tem a quarta maior porcentagem de população com 65 anos ou mais da UE ""19,4%. Perde apenas para Alemanha, Itália e Grécia.
                        "E os jovens são mais capazes de assumir riscos, de empreender, então, ao se perder jovens, perde-se capacidade de inovação no país", diz o demógrafo.
                        "A mobilidade de quadros é positiva, desde que eles voltem. Hoje não temos forma de atraí-los de volta", acrescenta José Cesário.
                        A taxa de desemprego de Portugal foi de 17,4% em junho. Mas entre os jovens (abaixo dos 25 anos) é bem mais grave --está em 41%.
                        "Portugal sempre foi um país de emigrantes --emigrar não dói, não aleija, e todos têm um emigrante na família", diz João Vasconcelos, diretor da Startup Lisboa, que reúne 40 empresas de alta tecnologia e estimula o empreendedorismo. "Mas agora é diferente: todos os melhores alunos, nossa elite, têm como primeira, segunda e terceira opção emigrar".
                          Visto de trabalho a portugueses dobra no Brasil
                          DA ENVIADA A LISBOAO número de portugueses que receberam visto de trabalho no Brasil aumentou 101% no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período de 2012. Segundo o Ministério do Trabalho, foram 704 diante de 349 em 2012. Em 2010, foram 757 vistos; em 2011, 1.547; em 2012, 2.171.
                          Mas, segundo autoridades dos dois países, o número de portugueses que chegam ao Brasil é bem maior do que os vistos concedidos, pois a maioria entra de forma irregular. A concessão de vistos é burocrática, e o processo chega a levar mais de seis meses.
                          "A equivalência de diplomas de arquitetos e de engenheiros portugueses no Brasil, país que precisa muito desses profissionais para as suas obras de infraestrutura, evolui muito lentamente", conta o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário.
                          "Visto de trabalho para o Brasil é muito difícil, burocrático, por isso alguns optam por outros países europeus ou por Angola e Moçambique", diz ele. (PCM)
                            Apesar de iniciativas do governo, interior passa por 'desertificação'
                            PATRÍCIA CAMPOS MELLODA ENVIADA A FELGAR (PORTUGAL)
                            A última escola primária de Felgar, aldeia em Trás-os-Montes, fechou no início deste ano. Tinham sobrado só 12 alunos. Felgar, como o resto do interior do país, vive um processo de esvaziamento.
                            A aldeia, cercada de oliveiras e amendoeiras, faz parte do município de Torre de Moncorvo, que tem 8.572 mil pessoas (Censo de 2011). Em 1960, eram 18 mil.
                            Não se veem jovens nas ruas de pedra de Felgar. São quatro idosos com mais de 65 anos para cada jovem no município.
                            Toda a família de Antonia Maria Salgado, 88, foi embora dali. "Só sobramos eu e minha prima Conceição", diz. Conceição tem 83 anos.
                            Dois dos três filhos de Antonia morreram. Um não vive mais na aldeia. De seus netos, nenhum ficou em Felgar. Um foi para Angola e outra está na França.
                            Felgar é um retrato da chamada desertificação do interior de Portugal. No interior, o número de municípios que perdeu população aumentou de 173 (entre 1991 e 2001) para 198 entre 2001 e 2011.
                            Também aumentou o número de municípios com decréscimos populacionais superiores a 10% no interior.
                            "Teremos cada vez mais aldeias vazias; isso resulta em um país muito desequilibrado", diz Jorge Malheiros.
                            Na onda de emigração dos anos 60 e 70, os trasmontanos foram para Lisboa, Porto, França e Alemanha. Muitos agora se aposentaram e voltaram para as aldeias. Mas seus filhos, mais qualificados que a geração anterior, estão quase todos no exterior ou em cidades grandes.
                            O governo fez iniciativas para repovoar o interior. "O turismo rural e a profissionalização da agricultura não foram suficientes para reverter o esvaziamento do interior, principalmente em algumas aldeias em Trás-os-Montes e no Alentejo", diz o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário.

                            Clovis Rossi

                            folha de são paulo
                            O sermão de Mantega ao FMI
                            Incidente sobre ajuda à Grécia serve para mostrar plena sintonia entre os governos Dilma e Obama
                            Guido Mantega, o ministro da Fazenda, pode não estar vivendo exatamente momentos de glória, mas nem por isso deixou de fazer um belo sermão ao Fundo Monetário Internacional, que, no fundo, reflete a convicção mais profunda do governo Dilma: crescimento é tão ou mais importante que austeridade.
                            Mantega aproveitou o mal-entendido com Paulo Nogueira Batista Jr., o representante brasileiro e de um punhado de outros países latino-americanos no Fundo Monetário Internacional, para dizer ao FMI que "o programa de resgate da Grécia e de outros países da periferia da zona euro precisa ser revisto de forma a permitir melhores oportunidades de recuperação para tais países" (refere-se, essencialmente, a Espanha e Portugal, além da Grécia).
                            Como se sabe, o programa do Fundo prevê duros ajustes que, em vez de resgatar tais países, ajudaram a afundá-los na recessão.
                            Nogueira Batista dissera a mesmíssima coisa, acrescentando que, no ritmo em que vão as coisas, a Grécia não conseguirá pagar suas dívidas e terá que recorrer a um novo calote, inclusive na dívida para com o FMI. A divergência se deu porque Nogueira Batista votou contra a liberação de mais uma fatia do socorro à Grécia, com o que Mantega não concordou.
                            É razoável supor que, na fase atual da economia brasileira, que não entusiasma ninguém além de Mantega e Dilma, o sermão do ministro ao Fundo pode parecer pretensioso. Não é.
                            O programa para a Grécia é de fato um tremendo fracasso. Algumas provas: o país está entrando no sexto ano de recessão, com o que sua economia sofrerá, no total, uma retração de um quarto, coisa que só países em guerra conhecem; em maio, o desemprego bateu de novo o recorde, atingindo 27,6%, outro indicador que só mesmo catástrofes conseguem produzir; a dívida, que, no momento do pacote de resgate, girava em torno de 163% do PIB, vai bater neste ano em 176%.
                            Mesmo que o sermão de Mantega fosse pretensioso, estaria em companhia ilustre, a do presidente Barack Obama. Ao receber o primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, na quinta-feira, Obama também constatou que "políticas focadas só em redução de gastos não ajudariam a Grécia a retornar à prosperidade econômica".
                            O presidente norte-americano não nega a importância do ajuste fiscal, mas diz que igualmente importante é o foco em crescimento e em emprego.
                            Vê-se, pois, que, a dois meses do encontro que terão na Casa Branca, em outubro, os governos Dilma e Obama continuam em plena sintonia no campo econômico, divergências sobre espionagem à parte.
                            No fundo, repete-se uma situação que vem sendo recorrente nas cúpulas recentes do G20: os Estados Unidos, com apoio integral do Brasil, pressionando a Europa para um arranjo capaz de combinar austeridade com crescimento econômico.
                            O problema é que nem Obama nem Dilma nem Mantega conseguiram pôr de pé uma proposta que seja capaz de devolver o crescimento aos países que estão em crise ou de acelerar o crescimento em seus próprios países.
                            crossi@uol.com.br

                              Minha história - Clelia Luro de Podestá

                              folha de são paulo
                              MINHA HISTÓRIA - CLELIA LURO DE PODESTÁ, 87
                              Linha direta
                              Viúva de um ex-bispo, argentina amiga do pontífice foi apelidada de 'bruxa má' por Francisco após 'prever' que ele seria papa; hoje eles se falam a cada 15 dias
                              LÍGIA MESQUITADE BUENOS AIRES
                              RESUMO
                              A argentina Clelia Luro de Podestá, 87, foi casada com o ex-bispo da cidade de Avellaneda, Jerónimo Podestá. Em Buenos Aires, o casal conheceu Jorge Bergoglio. Quando Clelia ficou viúva, em 2000, Bergoglio lhe deu muito apoio e os dois se tornaram amigos. Em 2005 ela disse ao então cardeal que ele seria papa. Hoje, o pontífice a chama de "bruxa má" e liga a cada 15 dias para a amiga.
                              -
                              Em 1960 me separei do meu primeiro marido. Vivia em Salta, em um engenho de açúcar, onde ele trabalhava, e voltei para Buenos Aires com minhas cinco filhas e a sexta na barriga.
                              Para me sustentar, trabalhava numa companhia de poupança e empréstimo de casas e veículos.
                              Em 1966, um padre amigo de Salta, que era alcoólatra, me escreveu pedindo que eu achasse o bispo de Avellaneda para ajudá-lo.
                              Foi assim que conheci Jerónimo. Ele conseguiu trazer o padre para se tratar em Buenos Aires. Ficamos próximos e me tornei secretária privada dele.
                              Jerónimo fazia sermão com a "Populorum Progressio", a encíclica revolucionária de Paulo 6º (1897-1978), e estávamos aqui com a ditadura militar de Juan Carlos Onganía. Como Jerónimo tinha muita força, muito carisma, os militares não gostavam.
                              Eles pediram a Roma que o tirassem de Avellaneda, e o Vaticano pediu a Jerónimo que me mandasse embora.
                              Eu era uma mulher muito linda, agora não sou mais. Tinha 38 anos, era livre, já havia enfrentado a vida com o divórcio. Ele disse não à minha renúncia e o Vaticano o tirou de Avellaneda no fim de 1967.
                              Para nós, no começo era impossível ser um casal. Não pensávamos nisso. Mas, quando o Vaticano lhe deu uma punição e impediu que ele exercesse publicamente o ministério, decidimos nos casar.
                              Eu engravidei de um menino, mas recebi uma notícia ruim e tive um aborto aos 4 meses.
                              Em 1974 fomos para o exílio no Peru. Foi um período difícil. Jerónimo tinha uma herança do pai, o que nos ajudou no começo. E toda vez que eu vinha visitar minhas filhas em Buenos Aires trazia cerâmicas peruanas para vender e deixava dinheiro com elas.
                              Voltamos em 1980. Em 1984, fomos a Roma na primeira reunião da confederação internacional dos sacerdotes casados. Naquela época, de 400 mil padres, uns cem mil eram casados. Quando retornamos, criamos a federação latino-americana. O que nós queremos é que Roma olhe pra gente. Não somos contra o celibato, mas queremos que seja facultativo.
                              Jerónimo era um homem lindo, de coração doce. Era profeta, patriota, lutava pelos direitos humanos. Era fora de série. Não há nenhum outro igual, acho que só Jesus. Se tivesse que viver tudo novamente, eu colocaria os pés nos mesmos lugares.
                              Os padres aqui não entendiam nada, não falavam com a gente. E ainda não entendem, porque julgam sem entender. O pior é que muitos deles têm mulheres escondidas.
                              MEU AMIGO FRANCISCO
                              Aí conhecemos [Jorge Mario] Bergoglio [que se tornaria papa Francisco]. Jerónimo me disse que queria conhecê-lo. Perguntei para quê, já que nenhum padre queria recebê-lo. Ele falou que Bergoglio era inteligente e saberia escutá-lo.
                              Os dois ficaram contentes de terem se conhecido. Quando Jerónimo estava no hospital, antes de morrer Bergoglio lhe deu a unção dos enfermos.
                              Para mim, Bergoglio foi um bom interlocutor quando eu estava mal com a ausência de Jerónimo. Ele me ligava todos os domingos, me dava forças. Foi meu amigo. Agora, ele me liga de Roma a cada 15 dias.
                              Eu dizia para Bergoglio que ele seria papa. E ele falava que não queria. Em 2005, quando ele foi ao conclave e voltou, eu disse: você escapou, mas na próxima não vai poder. E ele se tornou papa e me chama de "bruxa má".
                              Tenho certeza de que ele vai mudar muitas coisas, já está mudando. Está fazendo muita coisa em Roma, com sua postura de pobreza, com a questão do banco [do Vaticano], da Cúria romana.

                                sábado, 10 de agosto de 2013

                                Tensão social gera série de ataques entre os chineses - Marcelo Ninio

                                folha de são paulo
                                Tensão social gera série de ataques entre os chineses
                                Para ativistas, atos de violência são resposta a rígido controle do governo
                                Censura estatal não consegue mais abafar completamente os casos, divulgados pelas redes sociais no país
                                MARCELO NINIODE PEQUIMUm vendedor de melancias é brutalmente morto por guardas municipais. Inconformado com a política de filho único, um pai de quatro filhos mata dois funcionários públicos a facadas.
                                No ultravigiado aeroporto de Pequim, um deficiente detona uma bomba caseira em protesto contra a agressão policial, que ele alega tê-lo deixado paralítico.
                                Após comprar uma faca num supermercado da capital, um homem ataca várias pessoas a esmo, incluindo uma criança de dois anos.
                                Uma série de atos sangrentos ocorridos na China nas últimas semanas evidencia a crescente tensão social no país, que já não pode ser mais totalmente abafada pela censura graças às redes sociais.
                                Essa é a opinião de proeminentes ativistas de direitos humanos consultados pela Folha, que descrevem um panorama pouco animador da nova liderança chinesa nos primeiros cinco meses no poder.
                                Eles preveem que as ações extremas se multiplicarão, alimentadas pela sensação de impotência diante do autoritarismo do governo e da inexistência do Estado de Direito na China, onde não há separação entre poderes.
                                "A tensão social definitivamente está crescendo. Há uma relação direta entre os recentes atos de violência e os métodos de controle do governo", diz o dissidente Hu Jia. "Quando as pessoas não têm meios de obter justiça, resta o desespero".
                                Mesmo após ficar três anos e meio preso, acusado de subversão, Hu não mede palavras contra o governo. Para ele, a política de manter a estabilidade a qualquer custo tem transformado a sociedade chinesa num "barril de pólvora".
                                O incidente mais falado das últimas semanas foi o de Deng Zhengjia, 56, um fazendeiro da província de Hunan (sul) que teve um fim brutal quando tentava vender melancias.
                                Segundo testemunhas, ele morreu ao ser golpeado na cabeça com um peso de sua balança por fiscais parapoliciais, os odiados "chengguan", durante discussão sobre a licença de trabalho do agricultor.
                                As imagens do corpo de Deng estirado no chão se espalharam pela internet, antes que a censura oficial pudesse apagá-las.
                                A frustração com o sistema legal está na origem da frustração, diz Sophie Richardson, diretora para a China da Human Rights Watch."Há tão pouca confiança na capacidade do Estado de fazer justiça que é difícil supor que não haverá protestos."
                                Dois ataques a facadas em centros comerciais de Pequim em poucos dias deixaram três mortos. A polícia reagiu proibindo a venda de facas em supermercados, e o governo atribuiu os ataques a "desequilibrados mentais".
                                Mas até a mídia estatal manifestou preocupação com a violência. "É importante que haja punições de acordo com a lei", disse a estatal Xinhua. "Mas o mais importante é que o governo crie um ambiente social harmonioso, com cuidado, tolerância e justiça."
                                Segundo estudo da ONG americana Freedom House, o controle da internet aumentou desde a posse do novo presidente chinês, Xi Jinping.
                                "A censura continua rigorosa, mas mesmo que a informação sobreviva por pouco tempo no ar, é o suficiente para que as pessoas fiquem sabendo", diz Hu Jia.
                                "Xi [Jinping, presidente chinês] enfatiza o sonho chinês e o naciona-lismo, mas promove o legado de Mao [Tse-tung], em que os direitos humanos são praticamente ignorados"
                                Pu Zhiqiang, advogado do artista Ai Weiwei
                                  ANÁLISE
                                  Casos de violência com camelôs na China evidenciam impacto da desaceleração
                                  DO "FINANCIAL TIMES"A cada ano, o verão da China leva às ruas multidões de vendedores ambulantes não licenciados. Eles muitas vezes são tratados asperamente pelas autoridades, mas este ano vem sendo especialmente sangrento, como mostra o caso de Deng Zhengjia, vendedor de melancias morto por um grupo de "chengguan".
                                  Para especialistas, o desemprego, especialmente no setor industrial de exportação de produtos de baixo preço, gera alta no número de camelôs, causando confrontos nas ruas.
                                  Além da menor disponibilidade de emprego no setor, também existe um descompasso entre os empregos disponíveis e a capacitação e ambições dos trabalhadores.
                                  "Para muitos camelôs, o problema não é que não consigam encontrar emprego, mas sim que não estão dispostos a trabalhar por longas horas nos empregos de alto risco do setor industrial" diz Ye Tan, colunista que costuma escrever sobre os chengguan.
                                  Porque as vendas ambulantes são a principal fonte de renda de muitos desses migrantes, o potencial de confronto violento é maior quando os chengguan conduzem batidas regulares contra os camelôs não licenciados.