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domingo, 11 de agosto de 2013

Minha história - Clelia Luro de Podestá

folha de são paulo
MINHA HISTÓRIA - CLELIA LURO DE PODESTÁ, 87
Linha direta
Viúva de um ex-bispo, argentina amiga do pontífice foi apelidada de 'bruxa má' por Francisco após 'prever' que ele seria papa; hoje eles se falam a cada 15 dias
LÍGIA MESQUITADE BUENOS AIRES
RESUMO
A argentina Clelia Luro de Podestá, 87, foi casada com o ex-bispo da cidade de Avellaneda, Jerónimo Podestá. Em Buenos Aires, o casal conheceu Jorge Bergoglio. Quando Clelia ficou viúva, em 2000, Bergoglio lhe deu muito apoio e os dois se tornaram amigos. Em 2005 ela disse ao então cardeal que ele seria papa. Hoje, o pontífice a chama de "bruxa má" e liga a cada 15 dias para a amiga.
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Em 1960 me separei do meu primeiro marido. Vivia em Salta, em um engenho de açúcar, onde ele trabalhava, e voltei para Buenos Aires com minhas cinco filhas e a sexta na barriga.
Para me sustentar, trabalhava numa companhia de poupança e empréstimo de casas e veículos.
Em 1966, um padre amigo de Salta, que era alcoólatra, me escreveu pedindo que eu achasse o bispo de Avellaneda para ajudá-lo.
Foi assim que conheci Jerónimo. Ele conseguiu trazer o padre para se tratar em Buenos Aires. Ficamos próximos e me tornei secretária privada dele.
Jerónimo fazia sermão com a "Populorum Progressio", a encíclica revolucionária de Paulo 6º (1897-1978), e estávamos aqui com a ditadura militar de Juan Carlos Onganía. Como Jerónimo tinha muita força, muito carisma, os militares não gostavam.
Eles pediram a Roma que o tirassem de Avellaneda, e o Vaticano pediu a Jerónimo que me mandasse embora.
Eu era uma mulher muito linda, agora não sou mais. Tinha 38 anos, era livre, já havia enfrentado a vida com o divórcio. Ele disse não à minha renúncia e o Vaticano o tirou de Avellaneda no fim de 1967.
Para nós, no começo era impossível ser um casal. Não pensávamos nisso. Mas, quando o Vaticano lhe deu uma punição e impediu que ele exercesse publicamente o ministério, decidimos nos casar.
Eu engravidei de um menino, mas recebi uma notícia ruim e tive um aborto aos 4 meses.
Em 1974 fomos para o exílio no Peru. Foi um período difícil. Jerónimo tinha uma herança do pai, o que nos ajudou no começo. E toda vez que eu vinha visitar minhas filhas em Buenos Aires trazia cerâmicas peruanas para vender e deixava dinheiro com elas.
Voltamos em 1980. Em 1984, fomos a Roma na primeira reunião da confederação internacional dos sacerdotes casados. Naquela época, de 400 mil padres, uns cem mil eram casados. Quando retornamos, criamos a federação latino-americana. O que nós queremos é que Roma olhe pra gente. Não somos contra o celibato, mas queremos que seja facultativo.
Jerónimo era um homem lindo, de coração doce. Era profeta, patriota, lutava pelos direitos humanos. Era fora de série. Não há nenhum outro igual, acho que só Jesus. Se tivesse que viver tudo novamente, eu colocaria os pés nos mesmos lugares.
Os padres aqui não entendiam nada, não falavam com a gente. E ainda não entendem, porque julgam sem entender. O pior é que muitos deles têm mulheres escondidas.
MEU AMIGO FRANCISCO
Aí conhecemos [Jorge Mario] Bergoglio [que se tornaria papa Francisco]. Jerónimo me disse que queria conhecê-lo. Perguntei para quê, já que nenhum padre queria recebê-lo. Ele falou que Bergoglio era inteligente e saberia escutá-lo.
Os dois ficaram contentes de terem se conhecido. Quando Jerónimo estava no hospital, antes de morrer Bergoglio lhe deu a unção dos enfermos.
Para mim, Bergoglio foi um bom interlocutor quando eu estava mal com a ausência de Jerónimo. Ele me ligava todos os domingos, me dava forças. Foi meu amigo. Agora, ele me liga de Roma a cada 15 dias.
Eu dizia para Bergoglio que ele seria papa. E ele falava que não queria. Em 2005, quando ele foi ao conclave e voltou, eu disse: você escapou, mas na próxima não vai poder. E ele se tornou papa e me chama de "bruxa má".
Tenho certeza de que ele vai mudar muitas coisas, já está mudando. Está fazendo muita coisa em Roma, com sua postura de pobreza, com a questão do banco [do Vaticano], da Cúria romana.

    quarta-feira, 7 de agosto de 2013

    Por baixo da batina - Minha história

    folha de são paulo
    MINHA HISTÓRIA
    Por baixo da batina
    Jovem que se descobriu gay quando já era padre cortou os laços com a igreja; agora, escreveu ao papa Francisco pedindo que homossexuais não sejam vistos como 'aberração'
    LÍGIA MESQUITADE BUENOS AIRES
    RESUMO
    O argentino Andrés Gioeni, 41, foi padre durante dois anos e meio em Mendoza até largar a batina e assumir ser gay. Ator, diretor e escritor de peças infantis, vive em San Isidro, na Grande Buenos Aires, com seu companheiro, Luís, há nove anos e meio. Na semana passada, ele escreveu carta aberta ao papa Francisco pedindo que ele ajude aos gays a "transitar pela fé" sem renunciar à "experiência do amor".
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    Na infância, estudei em um colégio religioso, marista. E dizia: nunca na minha vida vou ser sacerdote, não queria aquilo. Minha família era católica, mas não religiosa. Comecei a participar de um grupo missionário e começamos a fazer trabalhos voluntários num bairro pobre de Mendoza [a 1.100 km de Buenos Aires].
    Na época, eu namorava uma menina, Carmem, e tínhamos o plano de nos casarmos e virarmos missionários na África.
    Nesse bairro, as pessoas me falavam que faltava um padre. Eu estava estudando para tentar a faculdade de medicina, aí resolvi ir para o seminário.
    Quando entramos, éramos 12 seminaristas e só quatro se tornaram sacerdotes. Desses quatro, só um ainda é padre.
    Fiquei oito anos no seminário. Não me sentia sozinho, tinha uma família lá. Foi mais difícil quando virei sacerdote, aos 27. Vi que não era tão fácil, tinha muitas responsabilidades, ficava sozinho. Mas gostava de celebrar a missa.
    Aí comecei a me dar conta do que estava acontecendo: algo que não era, para mim, natural. Eu me condenava.
    No seminário, a questão da homossexualidade só era tratada em algumas aulas. No dia a dia, era um tabu.
    Olhando agora para trás, vejo que no seminário já sabia [que era gay], mas eu negava.
    Se percebia que estava gostando de algum companheiro, logo me reprimia, falava a mim mesmo: "O que está acontecendo? Está louco?."
    Dois seminaristas fizeram insinuações pra mim, queriam me namorar. Eu achava que fosse loucura,negava aquilo. Eles saíram do seminário, eu fiquei. Me dei conta de que era gay mesmo quando já era sacerdote.
    Gostava de entrar em salas gay de bate-papo como anônimo. Depois, me arrependia, dizia que nunca mais faria aquilo. Um dia, encontrei um homem que conheci no chat.
    Conversamos durante umas cinco horas e não contei que era padre. Acabamos tendo relações sexuais.
    Foi uma experiência linda, mas, no outro dia, acreditava que estava no inferno, que era a pessoa mais pecadora do mundo. Comecei a rezar, chorei muito e fui me confessar sem dizer que era padre. Falei: "Basta, isso vai passar, não pode mais acontecer".
    E não passou. E passei a me perguntar se era algo transitório ou para a vida. Quando me dei conta que era para a vida, cortei laços com a igreja.
    Vim para Buenos Aires começar uma nova vida. Uma pessoa me chamou para fazer umas fotos nu para uma revista gay. Depois, trabalhei por um ano de garçom numa boate gay. Foi muito difícil me aceitar. Por 30 anos, recebi a informação de que isso que eu vivia --ser gay-- não era bem visto aos olhos de Deus.
    Depois, comecei a me dar conta de que Deus não é assim. Ele segue me amando e acompanhando, não importa que eu seja homossexual.
    Há nove anos e meio vivo com Luís. Queremos nos casar oficialmente. Mas adotar um filho não está nos planos.
    Sigo acreditando em Deus, não no da igreja, que tem tantas leis. Fiquei feliz quando Francisco virou papa, uma pessoa mais aberta. Quando ouvi suas palavras na viagem de volta do Rio, resolvi que era a hora de escrever para ele. Publiquei o texto no Facebook e pedi para amigos compartilharem e me ajudarem a fazer chegar a ele a carta.
    O catecismo não pode seguir dizendo que um gay é uma aberração. Sei que mudanças não virão de hoje pra amanhã. Mas espero que, daqui a 30 anos, um menino possa dizer sem medo que é homossexual.