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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Nizan Guanaes

folha de são paulo
Transmídia
Empresas que nasceram plataformas digitais estão se transformando em mídia e provedores de conteúdo
A comunicação é muito mais eficiente que a marreta para derrubar barreiras. E elas não param de cair.
Desde que Jeff Bezos comprou o "Washington Post", no início deste mês, por US$ 250 milhões, as especulações sobre suas motivações e intenções se multiplicam como opiniões na blogosfera.
O casamento de um ícone e marca venerada do jornalismo como o "Post" com o gênio das vendas eletrônicas da Amazon, a mais disruptiva força do varejo das últimas décadas, oferece alimento ao pensamento.
São tantas as possibilidades nessa união, e são tantas barreiras a quebrar. Não na marreta, mas no clique.
O trio parada dura de céticos, cínicos e realistas acha que Bezos comprou fundamentalmente poder na capital americana ao adquirir o jornal mais importante de Washington. Sim, mas as coisas hoje em dia têm muitas dimensões, especialmente nas áreas de comunicação, mídia e conteúdo.
Bezos sabe o que um veículo e uma marca como o "Post" podem fazer neste mundo faminto de informação e consumidor de notícias. Um consumo voraz, mas fugaz.
Vamos ver o que vai acontecer. Só sabemos, mesmo, é que estamos ainda na infância do futuro. Um futuro digital e global, como escreveu sir Martin Sorrell, fundador e presidente-executivo da WPP, até o mês passado o maior grupo de publicidade do mundo, em sua coluna de estreia neste mês no LinkedIn, a rede social focada em relações profissionais, com 240 milhões de usuários pelo mundo, mais de 11 milhões só no Brasil. E que há dez anos nem sequer existia.
Como os smartphones, que só agora estão se tornando de fato produtos de massa. Segundo dados da Anatel, o Brasil tem hoje um contingente de quase 80 milhões de usuários de internet no celular. É a população inteira da Alemanha, crescendo a taxas chinesas. Isso pode mudar um país e certamente afeta o seu negócio e a sua vida.
Basta olhar uma roda de adolescentes para entender a centralidade das telinhas dos gadgets na vida das pessoas hoje e no futuro.
É um mundo onde menos é mais. Pequeno é grande. Nano é giga. Menos palavras, mais comunicação. Das mais variadas formas.
Outro dia, por exemplo, conheci um aplicativo fantástico que promove a mais efêmera e intensa comunicação: você manda um vídeo de poucos segundos que pode ser visualizado apenas uma vez pelo receptor antes de se autodestruir, como aquelas mensagens de "Missão Impossível".
E, para os que acham que essa condensação instantânea de mensagens é uma condenação instantânea a bobagens, pensem de novo e pensem novo.
Com todo apreço e respeito aos grandes romances (e Machado é o maior dos mestres para qualquer redator brasileiro), torpedos, posts, tuítes e e-mails ressuscitaram o poder da escrita num mundo oral e audiovisual.
Nunca na história humana tantas pessoas escreveram tantos textos para se expressar e se comunicar com tanta gente.
Esses bilhões de novos escritores estão criando uma nova língua ao misturar idiomas, subtrair letras, inventar palavras, uma nova literatura para novos tempos e novas mídias.
Vivemos agora em estado de conexão permanente com indivíduos e grupos, o que cria caminhos e oportunidades em vários níveis da comunicação --na forma como ela é produzida, consumida, estruturada, difundida, transacionada.
Empresas que nasceram plataformas digitais estão se transformando em mídia e provedores de conteúdo. Facebook e Google são o quê? São híbridos, em expansão. A Amazon, de Bezos, o novo dono do "Washington Post", por exemplo, além de ser a maior vendedo- ra de livros, tornou-se também mídia. Ela produz conteúdo e vende espaço publicitário na esfera dos bilhões.
Bezos é antes de tudo um homem de negócios inovador, testado no campo de batalha digital. Ele tem recursos financeiros e estruturais para fazer uma revolução dentro da revolução.
Sua entrada no ramo da notícia pelo "Washington Post" é a melhor notícia desse ramo no ano. Foi, como escreveu Elio Gaspari nesta Folha, "um grande dia na história da imprensa".

    terça-feira, 23 de julho de 2013

    Solução dos sonhos - Nizan Guanaes

    folha de são paulo
    Eu não corro duas horas por dia porque amo fazer isso, mas porque preciso para ter pique e ter bom sono
    Tenho lutado continuamente para me reinventar e reinventar o meu negócio. Fiz um grupo de comunicação justamente porque tinha e tenho consciência de que às vezes a melhor campanha de publicidade é um bom plano de relações públicas. Ou um trabalho de marketing direto. Ou uma ação digital.
    Em tese, todos concordam com isso. Mas colocar isso em prática é como fazer dieta. Dificílimo.
    Eu não corro duas horas por dia porque eu amo. Mas porque preciso disso para ter pique e ter bom sono.
    As pessoas ferem suas empresas brigando com o novo. E querendo ter razão.
    Eu não quero ter razão, eu quero ter sucesso. Cerco-me de mentes jovens que sabem mexer, fazer e ver coisas que eu não sei. Mas também adoro gente de cabelo branco.
    Sou uma pessoa que adora falar. Mas eu também adoro ouvir. Não tenho medo de voltar atrás, de desdizer e desfazer em segundos a bobagem que eu fiz. É melhor aprender com os erros dos outros. Mas, se você errar, erre logo e corrija mais rápido ainda.
    Faço parte de uma equipe digital que tem produzido alguns dos trabalhos mais "likados" do mundo digital do Brasil. Mas não adianta olhar só para o novo em busca do novo. Velhos elementos funcionam muito bem em novos tempos.
    A roda e a alavanca não perderam sua utilidade séculos e séculos depois de descobertas. Elas ainda oferecem muitas soluções para o mundo de hoje e o mundo de amanhã.
    Adoro criar para o rádio, um meio burramente desprezado por muitos hoje em dia. E acabo de comprar de uma só vez mais de 500 páginas de anúncio para um cliente porque mídia impressa é uma grande oportunidade, com uma grande (relação com sua) audiência. Tem coisas que só existem no papel. Assim como tem coisas que só existem na internet.
    Estamos naquele momento Santiago de Compostela. Foco no essencial. Escolha um cajado, leve o mínimo possível e, acima de tudo, cuidado para não molhar os pés e não criar bolhas.
    Se você me perguntar o que eu estou fazendo neste momento pela minha empresa, eu respondo prontamente: controle de custos e muito exercício.
    Eles não melhoram a realidade, mas a percepção.
    No fim do dia, vou novamente à academia Bodytech me exercitar. Grandes empreendedores que conheço fazem atividade física intensa, e hoje, para mim, é fácil entendê-los. Ajuda a despertar, a dormir e a sonhar. E, quando a realidade está difícil, o melhor caminho é sonhar.
    Como disse lindamente o mestre Oscar Niemeyer: a linha reta não sonha.
    Pois é o sonho do chinês que sustenta o desenvolvimento chinês. Sua aspiração pessoal conectou-se de alguma forma à aspiração nacional. É o sonho americano que inspira o sonho do americano. O Brasil ainda não sonha assim. No futebol, talvez. É um caminho. Temos orgulho daquela camisa amarela. A força que projetamos nela, sentimos em nós. Entramos em campo para ganhar. Precisamos construir esse sonho grande e essa força para o país. O povo nas ruas caminha por isso e para isso.
    A nova classe média não ia mesmo ficar parada. Ela sonha ascender mais e prover mais para si, para seus filhos e para seus netos. Seu movimento é impossível de ser detido e empurra o país.
    Antes a brasileira tinha cinco filhos em média, e a maioria mal frequentava a escola. Hoje ela tem em média menos de dois filhos, que estão na escola e com probabilidade cada vez maior de chegar à universidade. Formarão uma geração muito diferente e muito mais preparada do que os seus pais para exercer e cobrar a cidadania econômica e social.
    Por isso, e para isso, nós precisamos dar o próximo passo, superar as próximas barreiras. Elas ficam cada vez maiores à medida que se avança. Mas nós também crescemos.
    Philippe Starck me disse certa vez que todas as vezes que ele tem um problema para resolver ele dorme. Dormindo, ele se sente uma impressora de ideias. Não é uma imagem genial?
    Está difícil dormir? Vamos sonhar.

      terça-feira, 9 de julho de 2013

      Cerveja verde - Nizan Guanaes

      folha de são paulo

      Beber cerveja sem álcool é moderno, é um avanço rumo ao bem-estar; ela é o refrigerante do adulto
      O mundo está mudando. O carro do ano é a bicicleta, o plástico verde é melhor que o papel, e a cerveja sem álcool é o refrigerante do adulto.
      Não podemos seguir fazendo as coisas do mesmo jeito. É preciso aproveitar a nova capacidade de comunicar, informar e mobilizar para avançar, o que nos dias de hoje significa basicamente inovar.
      Inovar é diferente de criar. É a criação no chão da fábrica. É o que as nações, as empresas e as pessoas bem-sucedidas estão fazendo.
      Mas não existe moleza e muito menos almoço grátis. O empreendedor é um sonhador disciplinado, não um criador relaxado. É preciso trabalhar duramente todo dia para tornar a sua própria empresa obsoleta, antes que os seus concorrentes o façam.
      Inovar não é fácil, mas é fundamental. É o insumo indispensável da competitividade. Se, ao invés de você, for seu concorrente a descobrir a próxima grande inovação, você será a próxima grande vítima.
      A inovação no Brasil está dada por suposto. Processamos elementos reunidos apenas aqui, da geografia ao povo. O enorme sucesso do agronegócio nacional é o melhor exemplo do quanto podemos conquistar aliando inovação ao potencial Brasil, que é o antídoto ao custo Brasil.
      Somos um país específico, de grande escala e em renovação. Como afirma educadamente aquele slogan nos cartazes das manifestações: "Desculpem o transtorno, estamos mudando o país".
      Desculpe o transtorno, mas esse slogan deve ser aplicado também à sua empresa.
      Não se iluda com o sucesso nem desanime com o insucesso porque o padrão como a sociedade consome notícias, música, papel, roupas, jogos, energia... mudou. E isso abre enormes oportunidades.
      Queimar petróleo é burro, jogar papel fora é velho. O plástico é mais inteligente e mais versátil que o couro.
      O mercado de cerveja, que conheço bem, é outro bom exemplo.
      Não faz sentido hoje a indústria da cerveja se apaixonar pelo álcool, que é uma pequena parte do produto, quando ela pode se apaixonar pelo sabor, tal qual o vinho, ou pela refrescância, como o refrigerante.
      Não quero que meus filhos fiquem enfiando carros em postes. Beber e dirigir é uma mistura babaca. Eu sou 100% a favor da Lei Seca. Mas é verdade que o Estado e a família podem ser mais modernos no cumprimento dos seus papéis nesse contexto.
      Estamos trabalhando, por exemplo, para que o metrô de São Paulo fique aberto até duas horas mais tarde na sexta-feira, já que o trem das 11, hoje em dia, começa na balada das 3h da manhã.
      Vamos lembrar que foram monges que inventaram a cerveja como a entendemos hoje. Mas na sociedade daqueles monges não tinha carro nem o estresse que nós vivemos hoje em dia e muito menos festas "rave".
      O Brasil é o país do churrasco e do futebol. E a cerveja costuma acompanhar as duas coisas, não o suco. Ela aparece em boa parte das músicas do cancioneiro popular. Entretanto as circunstancias de trabalho e de deslocamento pedem uma cerveja sem álcool.
      Cerveja sem álcool não é novidade. A novidade é uma cerveja sem álcool, mas com sabor. Foi a resposta da indústria ao novo contexto.
      A necessidade sempre será a mãe da inovação. Eu sou publicitário, eu sou pai. Tenho filhos, sobrinhos, eu tenho compromisso com o meu país.
      Tirar os prazeres da vida torna a vida muito chata. E o tiro então acaba saindo pela culatra, como aconteceu com a Lei Seca nos Estados Unidos no começo do século passado. Por isso eu aplaudo essa inovação. Porque ela é um avanço rumo ao bem-estar.
      Ajudar as pessoas a beber cerveja de maneira moderna quando elas estão em circunstâncias de não consumo de álcool, isso para mim é o futuro agora.
      E a sua empresa e organização? Como ela está respondendo às enormes mudanças que nos cercam? O futuro está nessa resposta.

      terça-feira, 25 de junho de 2013

      Nizan Guanaes

      folha de são paulo
      Padrão brasileiro
      Sou a favor da Copa do Mundo no Brasil; e sou mais a favor ainda de um debate profundo e fecundo sobre ela
      O Brasil é o país da Copa. Jogos de Copa do Mundo aqui são tratados como o 4 de Julho nos Estados Unidos. Reunimos a família e os amigos, fazemos churrasco, empunhamos a bandeira nacional.
      O país, por tudo isso, exultou quando no longínquo 2007 a Fifa escolheu o Brasil para sediar a Copa de 2014.
      Seis anos depois, o povo está nas ruas exigindo um freio de arrumação no país e questionando, entre tantas coisas, os gastos com a Copa.
      Eu sou a favor da Copa do Mundo no Brasil. E sou mais a favor ainda de um debate profundo e fecundo sobre ela. Porque não adianta ter razão, é preciso saber explicar.
      Esta é a era da comunicação, que é também a era da informação, do debate, da participação, da mobilização. É por isso que o povo está nas ruas. Precisamos ver nisso uma oportunidade de avançar.
      Na China, durante a Olimpíada de Pequim, dissidentes tentaram protestar aproveitando a presença da imprensa internacional e acabaram reprimidos duramente na frente dos jornalistas.
      No Brasil, é diferente. Cultivamos nas últimas décadas uma democracia funcional, que permite e protege o direito de se manifestar. É uma democracia jovem, imperfeita, mas forte, que busca nas ruas energia nova e depuração.
      Vamos discutir a Copa do Mundo, para fazê-la da melhor forma possível. Vamos discutir o padrão Fifa para termos também educação e hospitais padrão Fifa, como pedem os protestos.
      Quem esteve nas novas arenas erguidas para a Copa constatou o salto incrível em relação aos estádios antigos. O país do futebol agora tem palcos dignos para sua arte. Na Copa do Mundo, serão palcos globais. E nós seremos os principais atores, fora e dentro do campo.
      Copas e Olimpíadas são portais para a globalização, atalhos para a consciência global. Apesar de nossos problemas, e sem querer minimizá-los, somos um gigante que vive em paz com os vizinhos e pratica a democracia e a economia de mercado como nenhum outro grande emergente.
      Precisamos mostrar ao mundo o que é o Brasil: nossa energia, nossa inteligência, nossa criatividade. E, agora, nossos revolucionários.
      A democracia e o capitalismo amadurecem juntos e tendem a convergir para um país mais justo e mais dinâmico. O país se transformou com a estabilidade econômica e a emergência de dezenas de milhões de brasileiros ao mercado consumidor. A grande ola de protestos percorrendo o Brasil é fruto dessas transformações e pode transformar o país de novo.
      Como publicitário, fico fascinado de ver os slogans que os manifestantes orgulhosamente apresentam nos cartazes, produto do marketing cidadão, de um grande "brain storm" popular.
      Minha favorita: "Desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil". Lembra muito outro slogan do também criativo e seminal movimento estudantil de 1968: "As barricadas fecham ruas, mas abrem caminhos".
      Amanhã, em Belo Horizonte, Brasil e Uruguai se enfrentam numa copa no Brasil 63 anos depois da derrota mítica da seleção brasileira naquela final do Mundial de 1950, no Maracanã. Espera-se uma grande manifestação, que será tão grande quanto for pacífica.
      Daremos uma grande lição ao mundo e a nós mesmos se jogarmos um bolão dentro e fora do estádio. Vamos encher o campo de gols e as ruas de ideias. "Fair play" é fundamental nos dois palcos: o da bola e o da cidadania.
      A Copa de 2014 não é o evento inocente e paroquial de 1950. É um evento global que traz uma pauta objetiva e tem o poder de organizar uma nação, com dia, data e hora para as coisas acontecerem. Ela coloca o país na vitrine e na vidraça do mundo.
      O futebol foi nosso primeiro desejo de potência global realizado. Ele projetou o Brasil alegre, inovador, vencedor. Nasci em 1958, ano do primeiro Mundial, e cresci marcado por nossas grandes conquistas em campos pelo mundo.
      Isso formou minha ambição, nossa ambição, de um dia estarmos à altura do nosso futebol. Não o padrão Fifa, o padrão brasileiro. É isso que buscamos no campo, é isso que buscamos nas ruas.

        terça-feira, 11 de junho de 2013

        Nizan Guanaes

        folha de são paulo
        É a propaganda, estúpido
        A propaganda passa por transformações profundas. Mas ela nunca foi tão demandada e relevante
        A propaganda, como o jornalismo, passa por transformações profundas. Disruptivo é pouco para descrever o momento.
        Mas a propaganda, como o jornalismo, nunca foi tão demandada. E seu futuro nunca foi tão relevante, ainda que diferente do que é hoje.
        Nesta era da comunicação, que é por consequência a era da informação, compra desinformada é um hábito em extinção. O consumo é uma operação cada vez mais sofisticada, inteligente, informada. Clientes que no ato da compra têm acesso ao preço do produto comprado em vários concorrentes são só o começo das transformações em curso.
        Para competir nesse mundo informado, será preciso informar e trocar informações. Será preciso ter voz, cabeça e coração. Uma marca será mais que uma marca.
        Mas essa nova conversação surgiu antes dos serviços para atendê-la. Estamos aprendendo no caminho. E, se o novo fascina, ele também engana.
        Não se deve confundir permanência com velhice. Muitas coisas serão sempre relevantes justamente por serem antigas, testadas, verdadeiras.
        A nova propaganda tem em sua essência o DNA da velha propaganda. A arte, a inteligência e o conhecimento são atemporais. Os profissionais da propaganda e do marketing acumulam há décadas gigabytes de conhecimento empírico sobre a arte de vender e de informar o mercado sobre o que está sendo ofertado.
        O marketing e a propaganda sempre foram e seguirão fundamentais para a inovação mercadológica. São disciplinas necessárias para entender as demandas do mercado e transformá-las em novos produtos para atendê-lo. Sua importância na economia não deve nem pode ser subestimada.
        Não é coincidência que novas grandes empresas inovadoras como Facebook e Google tenham como maior receita justamente a publicidade em suas redes.
        Esta Folha noticiou na semana passada que a Amazon faturou US$ 610 milhões com publicidade em 2012, um crescimento de 45% em relação ao ano anterior. E pode chegar a US$ 800 milhões neste ano, crescimento de 30%. E a Amazon é um varejista eletrônico, não é mídia.
        Ou é? A loja virtual é também uma coletora de informações preciosas sobre seus clientes expressas na navegação que fazem ali. Com essas informações ela é capaz de oferecer anúncios muito mais focados no gosto do consumidor.
        Entendeu a força da publicidade no novo mundo em que nos comunicamos? Ela pode ter mudado, mas sua importância é vital.
        O Twitter acaba de fechar uma parceria com a WPP, o maior grupo de serviços de marketing do mundo, comandado pelo mestre sir Martin Sorell, para explorar novas formas de anunciar na rede, sempre balizadas pelas informações fornecidas pelos seus usuários, neste caso, sobre o que tuítam ou seguem, para oferecer propaganda focada.
        No Facebook, que atingiu no ano passado a fabulosa marca de 1 bilhão de usuários no mundo, 85% do faturamento vem da publicidade, e a empresa não para de inventar novas formas de anunciar. A última reformulação foi apresentada na semana passada.
        O mercado prevê crescimento mais do que chinês de 30% na receita do Facebook com publicidade neste ano, para US$ 5,6 bilhões.
        O crescimento previsto no segmento "mobile" da rede social é ainda mais vigoroso: de US$ 500 milhões em 2012 pra US$ 1,5 bilhão neste ano. Isso apesar da crise econômica global. Crise?
        Mas é olhando para o Google que a força da publicidade no novo mapa da comunicação fica mais clara. A empresa americana faturou nada menos que US$ 40 bilhões com publicidade em 2012, crescimento de mais de 20% em relação ao ano anterior.
        É preciso, diante desses números acachapantes, olhar a relação das novas formas de comunicação com a propaganda do jeito que ela é.
        Não como uma ameaça, mas uma parceira e um condutor importante para que os publicitários sigam fazendo aquilo que sabemos fazer melhor do que ninguém: entender o produto, o mercado, as mídias e a relação entre eles para proporcionar as melhores oportunidades de negócios para as empresas prosperarem.

          terça-feira, 14 de maio de 2013

          Nizan Guanaes

          folha de são paulo

          Viral pode ser fatal
          Campanhas que ferem a sensibilidade comum estão quebrando a cara das marcas e dos produtos
          A criatividade tem um poder inestimável. É a faculdade humana mais parecida com as faculdades divinas. Deus é criador, e o criativo também. Vendo por esse ângulo, a criação tem limites? Sim. A realidade é o seu limite.
          Quantas vezes eu fui dormir sonhando com uma campanha espetacular que horas mais tarde seria dizimada no choque com a realidade das salas corporativas.
          Passamos muito tempo enquadrados dentro de pesquisas e parâmetros, que agora são revistos. O que é bom e é perigoso. Se nem todas as revoluções são gloriosas, elas são sempre dolorosas.
          Grandes anunciantes já sentem essa dor. Campanhas cada vez mais ousadas, que deliberadamente ferem a sensibilidade comum em busca de visibilidade e viralidade, estão quebrando a cara das marcas e dos produtos que promovem.
          Reportagem do "New York Times" listou exemplos dessa perigosa busca de notoriedade num mundo cada vez mais fragmentado, dominado por novas gerações de consumidores muito diferentes dos que os que os precederam na forma como consomem conteúdos e mídias. Eles inclusive se tornaram conteúdos e mídias. O consumidor hoje fala.
          É um ambiente conflagrado e perigoso, que um publicitário fa- lando ao "Times" comparou ao Velho Oeste.
          Na Europa, um fabricante de carros fez anúncio com um motorista tentando se matar mantendo o carro ligado na garagem fechada. Mas a tentativa fracassa por se tratar de um veículo com emissão zero de poluentes. O tratamento irônico do suicídio teve repercussão muito negativa e o anúncio foi rapidamente suspenso.
          Nos Estados Unidos, uma marca de refrigerante convocou um polêmico rapper para criar anúncio no qual uma garçonete branca combalida tenta identificar seus agressores numa fila de suspeitos formada por afro-americanos e um bode. Foi também subitamente gongado pela reação popular.
          São evidências claras de como a transição do antigo regime da comunicação para o novo regime não será fácil. Tenho dúvidas inclusive se haverá tempo para consolidar um novo regime, como o do longo reinado do comercial de TV de 30 segundos, que vigorou por décadas.
          É um número tão avassalador de inovações e de conhecimento vindo de todos os lados que, por mais coisas que você esteja fazendo hoje, está quase sempre atrás da curva.
          A capacidade aguda de comunicar é o que mais nos distingue e o que nos possibilita criar organizações tão complexas. Uma capacidade que ganhou propulsão atômica com as redes mundiais instantâneas e ubíquas da nossa era.
          A capacidade de todos se comunicarem com todos em todos os lugares a todo o momento é o fenômeno mais transformador da humanidade.
          Mas toda essa intensidade deve ser tratada com muita sensibilidade. Não podemos simplesmente trocar amor por sexo, valores por performance.
          Não é apenas medir quantas vezes sua mensagem é vista, mas como ela é vista e por quem. Não adianta mais dizer "compre!". É preciso dizer "compre porque"... É o fim da marca fantasia e o começo da marca verdade.
          Se você quer acompanhar esse mundo mutante, não fique com sua cabeça enfiada dentro do seu negócio. Como o mundo é cheio de vasos comunicantes, a melhor maneira de ver seu negócio e seus produtos é vê-los também pelo lado de fora.
          E, se a novidade está por toda parte, é preciso ter em mente que o mundo não está sendo inventado agora. Por trás das coisas novas existem permanências.
          Fala-se tanto em comunidade em um mundo de redes, mas o Rotary Club, que é justamente isso, foi fundado no início do século passado. E se as pessoas em rede estão hiperconectadas, persiste muita solidão nessa tecnologia.
          Nesse caos criativo e destrutivo, é preciso agir rápido: ouvir, falar, pedir desculpas, ser proativo. Como o mundo está transparente, o consumidor cobra o que você diz que é.
          Como dizia aquele filósofo francês: a existência precede a essência.
          Não deixa de ser irônico para a propaganda. Na época da comunicação total, a verdade tornou-se a maior arma de persuasão em massa.

            terça-feira, 30 de abril de 2013

            Nizan Guanaes

            folha de são paulo

            Os dados estão lançados
            Nem tudo é exato; os dados servem para nos formar e informar, mas a intuição é a mãe da invenção
            Se você acha que as coisas mudaram muito nos últimos anos, prepare-se porque elas ainda não pararam de mudar. Nem vão parar. O fluxo será constante, ubíquo e cada vez mais rápido.
            A última próxima grande coisa tem grande até no nome: "big data". E quem entende disso diz que isso vai mudar ainda mais o que já está mudando.
            "Big data" é a capacidade de armazenar e trabalhar de forma inteligente a quantidade avassaladora e crescente de dados disponíveis em todos os níveis, dos "likes" despretensiosos publicados no Facebook até bancos de dados imensos dentro das empresas, das organizações, dos governos, dos laptops, dos tablets, dos fones inteligentes, dos chips dos carros e TVs, dos cartões de crédito, dos mecanismos de busca, da nuvem.
            A lista de veículos de produção e registro de informações não termina. Nossa pegada de comunicação cresce dia a dia, post a post, tuíte a tuíte, compra a compra, segundo a segundo.
            Antigamente, algumas pessoas tinham o hábito de escrever diários para si que eventualmente mostravam a pessoas próximas. Hoje, bilhões de pessoas pelo mundo todo escrevem esse mesmo diário, só que em público e para o público. Eles são fontes inesgotáveis e em tempo real de tendências sociais, hábitos de consumo e muito mais.
            Pesquisadores já mostraram que só usando os "likes" publicados pelos usuários do Facebook é possível traçar perfis precisos das pessoas, preciosos para comunicação de alto impacto.
            Outras pesquisas concluíram que as tendências de busca no Google relacionadas ao setor de habitação nos Estados Unidos conseguem prever a venda de casas no próximo trimestre com mais precisão do que os economistas especializados no setor imobiliário.
            Essa agregação e essa análise inteligentes da informação disponível em escala global estarão cada vez mais acessíveis para um número cada vez maior de empresas e organizações.
            O McKinsey Global Institute, o braço de pesquisa da reputada consultoria de negócios, chamou o "big data" de a próxima fronteira para inovação, competitividade e produtividade.
            No famoso estudo que fez sobre o assunto, a McKinsey destacou que por cerca de US$ 500 era possível comprar um disco rígido com capacidade de armazenar toda a música do mundo!
            Tanta informação disponível e armazenável, para a McKinsey, passará a ser analisada e usada sistematicamente, produzindo uma nova onda de revolução tecnológica depois da dos computadores, da web, da web 2.0, do "mobile".
            Uma nova revolução que turbinará novamente a produtividade e reabrirá oportunidades imensas a novos entrantes por tornar muito mais acessível quantidade enorme de inteligência de informação antes restrita a grandes corporações.
            Claro, nem sempre softwares e complexos modelos matemáticos acertam. Já vimos na última crise econômica mundial o estrago que os algoritmos conseguem fazer nas finanças.
            E ainda não inventaram nada mais criativo e inteligente que a sensibilidade humana.
            "Big data" sem intuição é como aquele personagem de Charlie Chaplin em "Tempos Modernos" apertando parafusos como se fosse extensão da máquina. O cérebro humano não pode ser a extensão do software. Sua intuição será cada vez mais a sua profissão. O resto será feito por coisas e programas.
            Por isso abri uma nova agência de propaganda em que a intuição é base de tudo, com zero de burocracia e quase zero de pesquisa. A pesquisa e a informação precisam estar a serviço da geração de ideias, não no controle delas.
            Às vezes, é preciso deixar de lado a mania de querer provar. Nem tudo é exato. Os dados servem para nos formar e informar, mas a intuição é a mãe da invenção. E intuição é quando as pessoas parecem falar uma coisa e você percebe que elas estão dizendo outra. Assim pode entregar o que elas querem antes mesmo de elas pedirem.
            Mas, se você quiser fazer tudo de olhos abertos, seus olhos vão lhe enganar. Por cima de todas as informações e análises, é preciso ouvir, sentir, usar todos os sentidos mais do que nunca. Porque dados sem sentidos não fazem sentido.

            terça-feira, 16 de abril de 2013

            Nizan Guanaes

            folha de são paulo

            Precisa-se de roteiristas
            Como os engenheiros, os roteiristas serão essenciais para formar o novo Brasil
            Cada um cria a sua própria história. Não espere ninguém para fazer a sua. O mundo é tão diverso quanto o número de pessoas que o habitam. Todo dia nasce gente e todo dia nascem histórias.
            O Brasil tem uma das maiores populações do planeta, somos já quase 200 milhões. E o Brasil é um dos países mais ricos e diversos do mundo. Temos muitas histórias para contar e agora temos mais meios para contá-las, mais meios e mensagens, porque o Brasil mudou, o Brasil é novo de novo.
            As coisas quase nunca acontecem de forma reta, lógica, perfeita. As coisas acontecem do jeito delas. Sou um defensor entusiasta da livre iniciativa e também um defensor tão entusiasta quanto da cultura. Dentro das dificuldades históricas que temos para produzi-la, que não são só do Brasil, mas de grande parte dos países, inclusive grandes produtores culturais, como França e Itália, é preciso reconhecer a necessidade de algum apoio oficial e defesa de mercado.
            A produção audiovisual, principalmente cinema e programas de TV, é uma grande oportunidade para as marcas brasileiras e para a imagem do país aqui dentro e lá fora. Basta ver o que o cinema fez pelos Estados Unidos ou imaginar James Bond trocando o tradicional dry martini por uma caipirinha.
            Como bem sabe a propaganda, imagem e som é a mistura mais eficiente para contar histórias e emocionar plateias.
            Por isso fiquei muito feliz ao saber outro dia que estamos sofrendo de falta de... roteiristas. Sim, pela primeira vez na história do Brasil faltam roteiristas. Não é maravilhoso isso? Um país que precisa de criativos.
            A nova legislação do setor audiovisual aumentou exponencialmente a necessidade de conteúdo nacional na TV paga. E isso no momento em que esse setor cresce a uma taxa de 26% ao ano e já a- tinge mais de 16 milhões de brasileiros.
            Para atender à nova legislação e alimentar esse público com conteúdos brasileiros, governo, operadoras e programadoras privadas dos canais de TV por assinatura estão realizando investimentos cada vez maiores na formação e na prospecção de roteiristas e roteiros.
            A proteção do mercado ocorre no momento de explosão do mercado. A demanda por histórias brasileiras será enorme e tem bons precedentes. Basta ver sucessos como "Tropa de Elite", "Avenida Brasil", "Gonzaga - de Pai pra Filho" e tantos outros. Se tiver um bom produto na frente, o brasileiro consome o nacional com o mesmo gosto que consome megaproduções hollywoodianas.
            De qualquer forma, a deman- da está dada por lei, goste-se ou não. É uma oportunidade imensa para a nossa cultura e os nossos criativos.
            Estou seguro de que nos próximos 20 anos a cultura brasileira será mais apreciada no Brasil e no mundo. O "jeitinho brasileiro", tão depreciado, deve evoluir benignamente para o "brazilian way", tolerante, inovador, original e específico como nosso país.
            Mas, se nosso mix populacional e geográfico, nosso conservadorismo atrevido, nossa tolerância exorbitante e nossa diversificada economia nos tornam únicos, a essência brasileira ainda está em formação com a emancipação mesmo que tardia das massas, a emergência nos últimos anos de dezenas de milhões de brasileiros ao mercado consumidor, movimento que transforma a economia, a sociedade e também a cultura.
            Essa enxurrada de novos programas, novos filmes, novas séries, novos documentários dará vez, voz e palco a esse novo Brasil.
            É um Brasil que pode seduzir o mundo, com Copa das Confederações daqui a dois meses, Copa do Mundo no ano que vem e Olimpíada logo depois.
            O Brasil não quer dominar o mundo, o Brasil quer seduzi-lo. Não somos apenas um mercado emergente, somos também um estilo emergente.
            E nada melhor que bons roteiros e boas histórias para levar tudo isso às massas. Do Brasil e do mundo.
            Precisamos de roteiristas. Assim como os engenheiros, eles serão essenciais para formar o novo país.

              terça-feira, 2 de abril de 2013

              Nizan Guanaes

              folha de são paulo

              A importância da empresa
              Se a figura símbolo do velho Brasil era o especulador, o símbolo do Brasil novo deve ser o empresário
              No fim do ano passado, fui ao Japão ver o Corinthians ganhar o título mundial e depois tive um tempinho para viajar pelo país. O tempo foi curtíssimo, mas suficiente para perceber o orgulho que o Japão tem por suas empresas.
              Minha guia dizia com indisfarçável satisfação que a cidade tal era sede da Honda, a cidade tal era sede da Toyota. Ela tinha, especificamente, uma admiração extraordinária pela Honda, como se fosse um laço familiar.
              Lamentavelmente, não vejo isso ser construído no Brasil, esse país capitalista que não sai do armário e onde a palavra lucro ainda é palavrão.
              Tudo em nossa língua traz tom pejorativo à nossa relação com o dinheiro. Aqui se ganha dinheiro, nos Estados Unidos, faz-se dinheiro ("you make money"). As pessoas que querem me ofender dizem que eu só penso em trabalho.
              A empresa no Brasil é submetida a um verdadeiro corredor polonês de impostos, regulações e leis. Se sobreviver, terá sua margem de lucro tutelada.
              Há ainda em muitos setores restrições atávicas ao empresariado. Mas não se pode inverter o papel da empresa, esperando que elas e os empresários exerçam o papel do Estado e da família.
              Não é a publicidade de cerveja que deve ensinar que as pessoas bebam com moderação (embora eu defenda os alertas feitos nas campanhas), nem é o McDonald's que deve combater a obesidade infantil. A propaganda tem que fazer o papel da propaganda, e a sociedade civil tem que fazer o papel da sociedade civil. A propaganda não deve deseducar, claro, mas educar não é sempre o seu papel principal.
              A empresa no Brasil é assim uma sobrevivente diante de uma quantidade avassaladora de restrições e preconceitos.
              E, se o empresário conseguir sobreviver a tudo isso, ainda deve esconder a todo custo seu progresso para não atrair olho gordo, já que sucesso no Brasil é quase uma ofensa pessoal.
              Mas, sem Olavo Setubal e sem Amador Aguiar, sem Naturas, Grendenes, Havaianas e Ipirangas, não se faz um país, como o Japão da Toyota, os Estados Unidos da Apple, a Coreia do Sul da Samsung, a França da Chanel, a Itália da Fiat.
              O sistema bancário brasileiro deve ser fonte de orgulho do país. Sua solidez na última grande crise financeira global mostrou competência.
              Foram as empresas brasileiras que geraram os milhões de empregos dos últimos anos e que nos trouxeram a esse patamar inédito de praticamente pleno emprego.
              Essas empresas e o espírito empreendedor de seus líderes transformaram e transformam a vida da população e mudam a cara do país.
              Estou há dez anos construindo meu grupo empresarial. Tenho hoje um bom patrimônio. Mas praticamente tudo o que eu tenho está dentro do grupo, investido em seus talentos e projetos. Fazer leva tempo. E o empresário nunca pensa no curto prazo. Ele tem que pensar longe, crescer com o Brasil.
              Administrar uma empresa, como viver, é errar e consertar rápido. Melhor é aprender com os erros dos outros. Mas, se errar, erre rápido. Como disse Juscelino Kubitschek, com erro não há compromisso.
              Há compromisso com os talentos, com a meritocracia, com a comunidade e com o país. Porque não adianta apenas o necessário compromisso com o lucro líquido.
              É preciso que a empresa produza também orgulho líquido. E criar orgulho é mais difícil do que criar lucro. Esse desafio enorme deve servir como novo combustível para impulsionar nossas empresas e consolidá-las como o grande vetor do desenvolvimento.
              É na empresa que prosperam a inovação, a produção e o emprego. Ela é a forma mais eficiente de organizar e desenvolver o nosso potencial.
              Está na hora de disseminar um posicionamento pró-empresas no Brasil. Elas só podem ser pró-funcionário, pró-pai de família, pró-mãe, pró-comunidade, pró-cidade, pró-Estado, pró-país. Mais do que do empresário, a empresa é do Brasil.
              Se a figura símbolo do velho Brasil era o especulador, o símbolo do Brasil novo deve ser o empresário ou a empresária. Aquele brasileiro que, por meio de sua empresa, ajuda a construir o país.
              NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.

              terça-feira, 19 de março de 2013

              Nizan Guanaes

              folha de são paulo

              Francisco
              Marca, design, conduta, relações públicas, alinhamento interno: "habemus papam"
              Que coisa mágica é a vida. Estava eu chegando a Buenos Aires na semana passada para uma reunião de trabalho e jamais poderia imaginar que estivesse ali naquele dia para presenciar a mão do Espírito Santo e da história.
              Saí do Aeroparque, o belo aeroporto ribeirinho da capital argentina, e fui até o meu hotel trocar de roupa antes de minha reunião. Liguei a televisão e, para a minha surpresa, o papa já havia sido escolhido.
              Durante a próxima hora, eu e o mundo esperamos para ver que novo papa a fumaça branca nos traria. E eis que ele chegou. Surpreendente como a vida. Um argentino. E eu em Buenos Aires.
              Começava ali uma aula de comunicação para o mundo que resume e mostra de maneira instintiva tudo o que os teóricos enchem a paciência e perdem um tempo enorme para explicar: a comunicação de 360 graus.
              O cardeal Jorge Mario Bergoglio mostrou sem PowerPoint nem lero-lero como uma palavra pode mudar tudo, como um nome pode ser capaz de transmitir para o mundo todo uma mensagem tão poderosa e precisa.
              A palavra é Francisco.
              Francisco é uma palavra rica de significados num mundo pobre de significado.
              Francisco quer dizer coma moderadamente num mundo obeso. Francisco quer dizer beba com alegria num mundo que enfia a cara no poste. Francisco quer dizer consumo responsável em sociedades de governos e consumidores endividados. Francisco quer dizer o uso responsável do irmão ar, do irmão mar, do irmão vento e de todas as riquezas debaixo do irmão Sol e da irmã Lua.
              Francisco é um freio de arrumação não só na Igreja Católica Apostólica Romana, mas na sociedade a quem ela deve guiar. Em 24 horas, Bergoglio pegou uma instituição que estava emparedada e a tirou da parede, transportou-a dos intramuros do Vaticano para o meio da rua, para o meio do rebanho.
              Comunicar é o papel da igreja. Para isso, foram escritos o Velho Testamento e o Novo Testamento, e Jesus não deixa dúvida quando disse aos apóstolos: "Ide e anunciai o Evangelho".
              Ide, ao contrário do que faz a gorda Cúria Romana, quer dizer ir, não quer dizer ficar em Roma. Quer dizer ir e anunciar.
              E anunciar hoje é muito mais do que o comercial de 30 segundos. Anunciar hoje é usar todas as ferramentas disponíveis, todos os pontos de contato com seu público. Papa Francisco sabe disso muito bem.
              Tanto sabe que muito antes de se apresentar ao mundo na sacada do Vaticano baixou um Steve Jobs nele, e, quando o monsenhor veio lhe oferecer uma veste toda rebuscada, Francisco Jobs retrucou: Se o senhor quiser, pode vesti-la, monsenhor, eu, não. O carnaval acabou.
              É digno de reparo que Francisco não fez pesquisas nem testes antes de criar tudo isso. Não precisava. Foi buscar sua mensagem no DNA da igreja. E está escrevendo certo por linhas tortas.
              Mesmo as coisas conservadoras que têm dito, coisas com as quais eu pessoalmente não concordo, são muito relevantes. A igreja não pode querer agradar a todo mundo. Ela tem que marcar territórios e significar coisas, e, ao fazê-lo, naturalmente exclui almas de seu rebanho.
              Marca, design, conduta, relações públicas, endomarketing, alinhamento interno: "habemus papa".
              Francisco se utilizou de todos os recursos do marketing para passar sua mensagem rapidamente, com alto impacto e precisão, para o público interno e para o público externo.
              Parece até que o 3G Capital assumiu o comando da igreja. Choque de gestão, orçamento base zero, alinhamento com a cultura perdida, volta às raízes, fé no trabalho, administração franciscana e disciplina de jesuíta de santo Inácio e professor Falconi.
              Paradoxalmente, Francisco hoje acredita numa gestão mais parecida com Lutero do que com a tradição romana. Mas a igreja só teve que se enfrentar com Lutero porque ao longo do tempo se esqueceu da palavra Francisco.
              NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.

                terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

                Nizan Guanaes

                folha de são paulo

                A diferença é a marca
                A construção de uma marca é uma obra empresarial suada, que leva tempo, feita com disciplina
                A diferença entre um tablet fabricado na China e o mesmo tablet igualzinho, só que com a marca Apple, é a marca da Apple.
                A marca não é só um logo estampado num produto, mas um conjunto de valores e atributos tangíveis e intangíveis que essa marca carrega e aquele logo anuncia. A construção de uma marca é uma obra empresarial suada, que leva tempo, feita com disciplina e profissionalismo.
                A marca não é, como muitos pensam, fruto só de publicidade. Ela é uma verdade, um sonho ou uma fantasia. A única coisa que ela não pode ser é uma mentira. É uma verdade mesmo que essa verdade seja a fantasia da Disney.
                Uma marca também é definida por coisas que não é. Louis Vuitton, por exemplo, não é barato. A marca se gaba de nos últimos anos não ter feito liquidação. Por isso, quem a usa carrega não só uma bolsa, mas uma bolsa cara, que leva toda a história da casa Vuitton.
                As marcas não vendem só luxo, exclusividade ou frescura. Quem compra na Zara, por exemplo, ostenta inteligência: "Sou mais inteligente porque me visto bem na Zara, comprando o que está na moda sem pagar o preço alto da moda".
                Para isso, a Zara é um prodígio de seguir a moda sem copiar seus custos, abrindo lojas bem na frente das marcas de luxo.
                As marcas, assim como os grandes jornais que amamos, têm que ter conselho editorial e editor-chefe. Steve Jobs foi o maior editor-chefe empresarial dos últimos tempos. Construiu a marca Apple pelas coisas que fez e não fez, como não dar ouvidos ao consumidor, impondo sua própria vontade.
                Num mundo onde virou moda certos clientes maltratarem suas agências de propaganda (refluxo da arrogância das agências nas décadas de 70 e 80), Jobs colocou a agência TBWA dentro, fisicamente, do prédio da Apple e construiu junto com ela alguns dos melhores momentos da publicidade, a ponto de em alguns comerciais ele mesmo fazer textos e até locução.
                Jobs soube também explorar com maestria as relações públicas. Todos temos no imaginário o Steve Jobs de jeans e gola rolê apresentando a um auditório lotado e em frenesi o próximo lançamento.
                Ele fez da coletiva um instrumento midiático moderno, global e excitante. E usou o design para tornar um aparelho único porque o design o fazia parecer único mesmo quando não era tão único assim.
                O silêncio, a discrição e quase nenhuma publicidade podem também construir uma marca.
                A família Safra é um exemplo. Discretos, construíram uma marca e várias casas bancárias com uma ferramenta de marketing poderosa, o "no marketing".
                O "no marketing" não é só ser discreto e "low profile". É também ter fama de discreto e "low profile". Construir a cultura do "no marketing" é repeti-la com exaustão dentro da organização e fazer com que todos a conheçam e se comportem assim.
                Indo de um polo a outro, marcas como Redbull foram inventadas com todo o barulho e ferramentas de marketing, de forma tão revolucionária quanto o silêncio dos Safra.
                Adotando os esportes radicais, o gênio de seus criadores fez de uma bebida de gosto estranho marca de aceitação global. Redbull é a energia do novo novo. Com o patrocínio dos esportes de alto risco e alta energia, tornou-se sinônimo mundial de energia, uma ação de "branding" maciça que consumiu, pasmem, 35% do seu faturamento.
                Apple, Safra e Redbull são "brandings" diferentes, unidos pelo alinhamento total entre a marca e a cultura da organização empresarial. Como Ralph Lauren, cuja vida se confunde com a marca e a empresa que levam seu nome. Criou valores, processos e crenças, conhecidos por todos, que terão de ser respeitados mesmo quando ele não estiver aqui para lembrá-los.
                O mundo da moda é o mais dinâmico usuário dos instrumentos de marketing. Como fica velha todo ano, a moda tem que se tornar anualmente jovem e renovada. As diferenças podem vir nas embalagens, no produto, na publicidade, no preço ou na tecnologia e na inovação.
                Num mundo lotado de marcas e ferozmente competitivo, ninguém sobrevive ou constrói marca se não tiver uma diferença clara e se a organização não estiver alinhada, consciente e doutrinada a trabalhar para não esquecer nem deixar o consumidor esquecer aquela diferença.

                  terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

                  Nizan Guanaes

                  folha de são paulo

                  Super
                  A TV segue dominante no mundo pós-digital e a grande TV aliada à web é uma combinação matadora
                  Domingo foi dia de Super Bowl. A final do campeonato americano de futebol americano é um dos grandes momentos do calendário anual da publicidade.
                  Uma posição medida pelo valor do segundo de comercial durante sua transmissão: US$ 133 mil.
                  Ou US$ 4 milhões por "spot" de 30 segundos.
                  Essa montanha de dinheiro por segundo conquista a atenção de mais de um terço da população dos Estados Unidos, ou mais de 100 milhões de espectadores, e mostra como esporte, televisão e publicidade juntos podem criar riqueza e oportunidades para marcas, produtos e ideias.
                  O Superbowl é superlativo em tudo, inclusive como fonte de ensinamentos ao país da Copa das Confederações, da Copa do Mundo e da Olimpíada.
                  Antes de seu sucesso, veio a visão compartilhada da liga de futebol americano, das empresas de comunicação e dos publicitários/anunciantes de que poderiam tornar a final um evento especial dada a popularidade do esporte no país e a dramaticidade do momento: ao contrário dos outros dois esportes populares nos Estados Unidos, o basquete e o beisebol, o futebol americano termina numa única e decisiva partida, como a Copa do Mundo.
                  Graças à força da visão e ao talento de atletas, dirigentes esportivos, executivos de mídia, publicitários e anunciantes, a superfinal transformou-se num grandioso momento de união nacional, patriotismo e cultura que atrai todo ano milhares de pessoas à cidade-sede da partida: no final de semana passado, o circo foi montado em Nova Orleans, teve show de Beyoncé no intervalo (no ano passado foi Madonna), Alicia Keys cantando o Hino Nacional e até um apagão que paralisou o jogo por minutos.
                  A força da publicidade americana é parte essencial desse enorme sucesso.
                  Foram os anunciantes, no final das contas, que sustentaram a grande visão e permitiram às redes de TV pagar cifras cada vez maiores pelo direito de transmissão, alavancando investimentos milionários das equipes e o desenvolvimento de uma próspera indústria esportiva.
                  O Super Bowl, do ponto de vista publicitário, transformou-se na grande plataforma de lançamento das campanhas mais sofisticadas, principalmente a partir de 1984, quando o gênio de Steve Jobs entrou em campo.
                  Os comerciais do intervalo do Super Bowl tornaram-se referência cultural depois do anúncio da Apple de 1984. Dirigido pelo cineasta Ridley Scott, a obra reproduzia o cenário sombrio do livro "1984", de George Orwell, até uma atlética loira em shorts curtos aparecer correndo entre zumbis e, com o lançamento de um martelo, destruir a tela do Big Brother.
                  No que subiam letreiro e voz dizendo: "Em 24 de janeiro de 1984 a Apple Computer lançará o Macintosh. E você verá por que 1984 não será como '1984'".
                  É verdade que a web deixou 2013 muito mais parecido com "1984" do que 1984. Mas, para quem quer se comunicar, a internet só pode ser vista como aliada. Para uma audiência nacional de mais de 100 milhões de um domingo de Super Bowl, alguns comerciais feitos para o evento são hoje vistos até 400 milhões de vezes on-line.
                  O Super Bowl, assim, prova duas coisas: a grande TV ainda segue dominante no mundo pós-digital e a grande TV aliada à web é uma combinação matadora.
                  O barulho envolvendo o Super Bowl agora começa semanas antes, com grandes esforços de relações públicas e mídias sociais lançando campanhas que atingirão o clímax nos filmes de 30 segundos exibidos no momento da partida e seguirão reverberando.
                  O campeão pré-jogo deste ano foi a Toyota, que teve 11 milhões de exibições na web de versão de seu filme de Super Bowl.
                  No Brasil, o que mais se assemelha ao Super Bowl são os jogos da seleção brasileira em Copa do Mundo: ocasiões que transcendem o esporte para também se tornar celebração familiar, cultural e, por que não, patriótica.
                  A Copa do Mundo agora será em nossa casa. Serão vários Super Bowls em sequência. Cada jogo, uma oportunidade espetacular para nossas marcas, nossos produtos e o talento de nossos publicitários. Afinal, teremos o mundo como plateia.