domingo, 9 de dezembro de 2012

José Simão


Dezembro! Chegou a Simone!
E adorei a faixa que os manos estenderam no aeroporto: "Japão! A favela tá chegando"
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Chegou dezembro! E eu sei que chegou dezembro quando entro no supermercado e escuto a Simone: "Então ééé Natal". Executando o John Lennon. Pelo décimo ano. Ops, pelo 20º ano! E corre na internet uma campanha: "Cala a boca, Simone!". Rarará!
E um amigo meu está em Nova York e disse que só tem brasileiro comprando e tirando foto com o Papai Noel! Que, na verdade, é outro brasileiro!
E o Timão no Japão? Tão chamando de TSUMANO! Tsumano no Japão! O Japão é um país predestinado: bomba atômica, tsunami e agora 20 mil corintianos! Diz que é a maior migração desde a Era do Gelo! Eu acho que é: Fuga em Massa!
E o aviônibus dos manos? Arrombaram as janelinhas pra ir batendo com as canecas na lataria. E vão pedir pro piloto parar no Frango Assado! Japão em Alerta Vermelho! O site Futirinhas revela o apelo das autoridades japonesas para a população: "COLAM PALA AS COLINAS!".
E adorei a faixa que os manos estenderam no aeroporto: "Japão! A favela tá chegando". Verdade! Eu tenho a foto. Achei essa faixa sensacional! E esta empresa de viagens: "Grande Promoção de Passagens! Ainda temos lugares nas asas". E tem empresa de ônibus clandestinos oferecendo pacote Itaquera-Tóquio-Itaquera! Bate e volta! Bate na saída e bate na volta!
E o primeiro corintiano preso: tava surfando no trem bala! Rarará!
E a Rosemary do Lula? A Rosemary é corruptrefe: corrupta mequetrefe! Aceita convite pra camarote de Carnaval. De São Paulo! E convite pra cruzeiro do Bruno e Marrone. Nem do Roberto Carlos é! E um leitor me disse que o Lula é cabra macho, nasceu em Garanhões! Garanhuns vira Garanhões!
E a Rosemary tem cara de zebrinha. Mas uma senhorinha no ônibus disse que ela tem cara de empada. E adorei a charge do Marco Aurélio com a dona Marisa no balcão do Aerolula: "A sua milhagem não é suficiente, dona Marisa, mas a senhora peça pra Rosemary, que ela tem de sobra". Eu chamo isso de: humilhagem! Rarará!
E a Rosemary podia doar milhagem pros manos irem pro Japão! E o ministro da Justiça: "A Rosemary é usada". Usada? Não se fala mais usada. Agora é seminova! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

    Maurício Stycer


    Silvio Santos em ritmo de pegadinha
    Já vista mais de 20 milhões de vezes no YouTube, a brincadeira de sucesso diz muito sobre o SBT
    Em 2009, dois anos depois de perder a vice-liderança do mercado de televisão para a Record, o SBT anunciou um novo slogan: "a TV mais feliz do Brasil". Feliz com o quê? A história da emissora é repleta de fatos desse naipe, na fronteira do surpreendente com o incompreensível, sempre levando o espectador a se perguntar se está sendo vítima de uma brincadeira de Silvio Santos.
    Nada mais exemplar desse espírito do que a pegadinha tosca na qual uma menina despenteada surge como se fosse um fantasma dentro de um elevador para assustar quem está lá dentro. Já vista mais de 20 milhões de vezes no YouTube, a brincadeira de sucesso diz muito sobre o SBT, o seu comandante e o seu público fiel.
    Há poucos dias, por exemplo, a colunista Keila Jimenez, da Folha, contou que o cabeleireiro Jassa, responsável pelo topete e pelas tinturas de Silvio, está encabeçando as negociações para a contratação de Ronnie Von pelo SBT.
    Para quem não sabe, Silvio submete sua cabeça a Jassa desde 1976 e nunca desmentiu os rumores de que, além de amigo, o mestre da tesoura é uma espécie de diretor informal do SBT, com mais poder do que muitos executivos da empresa.
    O dono do SBT gosta de vender a imagem de que é um intuitivo, capaz de captar no ar (ou por telepatia) os interesses do seu público. Nunca se preocupou com as classes A e B. Em alguns momentos, sensível à rejeição do mercado publicitário, dosou a baixaria na programação, mas nunca deixou de oferecer o suprassumo do popular ao espectador.
    A grade do SBT se sustenta em programas simples, às vezes simplórios, que fazem a alegria de um público aparentemente distante do sonho da modernidade. "Carrossel", "Casos de Família" e "Programa do Ratinho", entre outros, dão a impressão de que o SBT está na
    década de 1960.
    Não à toa, Marquito, assistente de palco de Ratinho, foi espirituoso ao comentar a votação que lhe deu o modesto posto de 71º mais votado candidato a vereador em São Paulo em 2012: "Acho que muita gente não votou em mim para que eu continuasse na televisão".
    Silvio completou 80 anos em dezembro de 2010. No palco, não cansa de dizer que está "ficando gagá" e adora fazer piadas picantes com as suas "colegas de trabalho", entre um e outro aviãozinho de dinheiro que atira para a plateia.
    Conversando com Helen Ganzarolli, em abril deste ano, ele disse: "Penso em você e, não sei por que razão, acordo chorando. Sempre que vou me aproximar de você, eu acordo. Não sei por quê, ultimamente, na hora H sempre falha".
    Há duas semanas, depois de ver uma foto recente de Chico Buarque, exclamou: "Nossa, ele tá um trapo. Tá acabado, tá muito estragado".
    Em maio, ao lançar a novela "Carrossel", Silvio disse: "Se der 15 pontos (no Ibope), a gente dá uma paulada na Record. Ela se ferra, passamos pra segundo lugar tranquilo. Vamos nadar em mar sereno. Agora, se der cinco pontos, vamos continuar remando na tempestade".
    Por culpa de uma série de equívocos da Record, bem como por conta do sucesso de "Carrossel", o SBT conseguiu, de fato, reduzir a diferença no cômputo geral de audiência e chegou a recuperar por alguns meses a vice-liderança perdida em 2007.
    A situação não está consolidada. Ambas as emissoras duelam, neste momento, para ver quem encerrará 2012 em segundo lugar. Qualquer que seja o resultado, imagino Silvio dando aquela gargalhada.

      Ferreira Gullar


      in Folha de São Paulo
      A guerra sem batalhas
      Muito melhor do que enfrentar o inimigo no campo de batalha é solapar o moral de seus soldados
      Falei aqui de uma China que, em pleno século 18, se julgava um império celestial, centro do mundo civilizado, e que considerava todos os demais povos como bárbaros. Isso está no livro de Henry Kissinger "Sobre a China". Mas se você continua lendo-o, tem outras surpresas, como se verá.
      A civilização chinesa, diferentemente da ocidental, não criou uma religião que prometesse a salvação da humanidade, nem acreditava em vida após a morte. Guiou-se fundamentalmente pelo pensamento de um filósofo chamado Confúcio, cuja sabedoria estava voltada para a solução de problemas do mundo real.
      Confúcio ensinava que o fundamental para cada um é conhecer seu lugar e buscar uma harmonia superior. Nesse sentido, o imperador era concebido como um soberano supremo da raça humana, a ligação entre o céu, a Terra e a humanidade. Se se desviasse do caminho da virtude, o mundo se tornaria um caos.
      Dá, assim, para imaginar a responsabilidade que pesava sobre seus ombros. Por isso mesmo, o protocolo insistia no reconhecimento de sua condição soberana no
      "kowtow" -um ato de completa prostração, a que todos estavam obrigados diante dele, tocando o chão três vezes com as costas, a cada reverência.
      Essa mescla, que une a divinização do imperador e do próprio reino chinês a uma compreensão prática da vida e da política, é uma das surpreendentes originalidades da China. Tal visão pragmática decorre dos ensinamentos de Confúcio, que ajudaram a formar uma espécie de sacerdócio de funcionários -eruditos, selecionados por meio de exames realizados em todo o país e encarregados de manter a harmonia nos outros domínios do imperador.
      Essa elite administrativa desenvolveu uma visão política que norteava as decisões do governo em face das questões que surgiam com os que lhe invadiam o território.
      Em vez de tentar derrotar e submeter aqueles "bárbaros", tratava de dividi-los, e se aproveitava dessa divisão para jogá-los uns contra os outros. "Favorecemos um lado ou outro e deixemos que lutem entre si", escreveu um funcionário da dinastia Ming.
      Como observa Kissinger, em raras ocasiões os estadistas chineses arriscaram o resultado de um conflito em uma única batalha de tudo ou nada. O seu estilo, pelo contrário, era usar de elaboradas manobras de longa duração. Não é por acaso que o jogo mais antigo da China é o "wei qi", que implica submeter o adversário a um cerco estratégico. Múltiplas batalhas são disputadas simultaneamente em diferentes pontos do tabuleiro. No final do jogo, o tabuleiro está repleto de domínios estratégicos parcialmente interligados e o vencedor nem sempre é fácil de identificar. É o contrário do jogo de xadrez jogado no ocidente, em que a vitória é total e óbvia.
      A finalidade do jogo, aqui, é o xeque-mate. Disso resulta que, se o xadrez é uma batalha decisiva, o "wei qi" é uma campanha prolongada. Se o jogo de xadrez visa à vitória total, o "wei qi" busca a vantagem relativa. O jogador de "wei qi" precisa avaliar não só as pedras que estão no tabuleiro, como também os reforços que o adversário está em condições de mobilizar. É um jogo que ensina a arte do cerco estratégico, e nisso se assemelha à teoria militar chinesa, que igualmente busca a vantagem psicológica e procura evitar o conflito direto, como ensina o célebre tratado "A Arte da Guerra", de Sun Tzu, escrito há mais de 2.000 anos.
      Conforme observa Kissinger, o que distingue essa teoria militar da teoria ocidental é a ênfase nos elementos psicológicos e políticos, em vez dos puramente militares. Os estrategistas ocidentais testam suas convicções pelas vitórias nas batalhas, enquanto Sun Tzu as testa pelas vitórias em que as batalhas não foram necessárias.
      Sun Tzu pergunta em que o estadista deve se mostrar prudente, e responde que a vitória não é simplesmente o triunfo das armas e, sim, a realização dos objetivos políticos que o conflito militar pretendia assegurar.
      Por isso, muito melhor do que enfrentar o inimigo no campo de batalha é solapar o moral de seus soldados. No fundo, a estratégia militar, segundo ele, resolve-se em uma disputa psicológica. A suprema vitória consiste em vencer o inimigo sem travar qualquer combate.

        Filósofo diz que deficiência do Bolsa Família é positiva


        RICARDO MENDONÇA

        FOLHA DE SÃO PAULO
        EDITOR-ASSISTENTE DE "PODER"
        Referência internacional em programas de transferência de renda, o filósofo belga Phillippe Van Parijs diz que um dos aspectos positivos do Bolsa Família advém de uma deficiência do programa.
        Para ele, a falta de inspeção rigorosa para remover beneficiários torna o Bolsa Família mais parecido com um sistema de renda básica universal, modelo que ele julga ideal.
        Ciceroneado pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), outro defensor histórico da proposta, Parijs esteve em São Paulo na semana passada, onde deu palestras na USP e na Fundação Getúlio Vargas.
        Apu Gomes/Folhapress
        O filófo Philippe Van Parijs, que deu palestra na USP e na FGV-SP na semana passada
        O filófo Philippe Van Parijs, que deu palestra na USP e na FGV-SP na semana passada
        *
        Folha - Que avaliação o senhor faz do Bolsa Família?
        Parijs - Acho um programa muito importante, imprescindível. Não há dúvida sobre sua contribuição para reduzir a pobreza e a desigualdade. Acho muito bom que seja pago em dinheiro, não em vale alimentação. E acho uma boa ideia ter condicionantes de saúde e educação. As dificuldades são a focalização --encontrar milhões de famílias pobres-- e, principalmente, a regra que faz com que as pessoas saiam quando conseguem obter um pouco mais de dinheiro com suas próprias fontes.
        Por que isso é um problema?
        É um defeito dos programas desse tipo, pois cria dependência. Uma armadilha: se a pessoa encontra um emprego, é punida, precisa ser tirada do programa. Então muitos permanecem nessa situação de dependência. [...] Na angústia de perder o benefício, não faz nada, fica parada, não muda sua situação. Esse é o perigo. É por isso que acho importante o aspecto universal. Dizer: "olha, não há risco de perder, pode ir adiante, pode assumir um trabalho, mesmo que seja mal remunerado no início".
        Mas não há evidência de que os inscritos no Bolsa Família deixem de procurar emprego.
        É verdade. Mas no último congresso que participei, recebi a informação de que é muito pequeno o número de famílias que deixam o programa. Elas recebem o Bolsa Família porque estão nas condições de ingresso, mas depois não são visitadas para ver se arrumaram emprego. Dessa forma, o Bolsa Família já opera como um programa de renda básica universal. O que eu e outras pessoas como o senador Suplicy dizemos é que seria melhor ter um piso de renda que possa ser dado para todo mundo.
        Todos?
        Todos. Se a pessoa encontra um trabalho, ela mantém o benefício. Mas a forma como o Bolsa Família funciona de fato já é similar a isso, porque não tira a família se alguém acha trabalho, é formalizado e fica um pouco acima do patamar de ingresso. Isso é bom. [...] Essa disfunção do Bolsa Família é um elemento de dinamismo do programa com efeito positivo.
        Alguém já adotou um programa como o senhor propõe: universal e incondicional?
        No Alasca (EUA) há uma pequena renda básica, produto de um fundo originário do petróleo. O dinheiro é distribuído para todos. Cerca de US$ 2 mil por ano, para crianças, para idosos. Vem desde 1982. E funciona. Foi implantado por um governador republicano.
        Qual seria o valor adequado para o Brasil?
        Digo que o ideal é o nível máximo sustentável. Não só o possível, mas o sustentável de geração em geração. E na escala mais larga possível. É uma resposta genérica, de princípio.
        O senhor diria que dinheiro é um direito humano?
        Não gosto [dessa definição] porque há uma inflação dos direitos humanos. Seria uma retórica útil, mas prefiro formular as coisas em termos de uma sociedade justa. Uma sociedade na qual há liberdade real para viver. O ingresso universal [num programa de renda básica] é um dos elementos centrais nesse sentido. Uma boa educação, um bom sistema de saúde, um ambiente público agradável também são.