segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

"Ilustrada" destaca os principais nomes da cultura de 2012 e quem ainda vem por aí

FOLHA DE SÃO PAULO

DE SÃO PAULO

A convite da "Ilustrada", nomes relevantes de cada área da cultura elegeram a figura que mais se destacou em seu campo de atuação no ano que termina hoje. Também apostaram nos nomes que devem ter maior projeção em 2013.
Nas artes plásticas, no cinema, na televisão, na música, no teatro e na literatura, convidados escolheram três nomes em cada categoria e foram eleitos os que tiveram mais menções.

Os nomes da cultura em 2012

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Daniel Marenco/Folhapress
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JOÃO EMANUEL CARNEIRO. Autor de "Avenida Brasil", o maior sucesso da TV brasileira em 2012, João Emanuel Carneiro mudou as regras do folhetim tradicional com diálogos realistas, um olhar fresco sobre o subúrbio do Rio e uma estrutura narrativa ágil, que viciou espectadores numa galeria de personagens poderosos como Nina e Carminha
QUEM É:
MÚSICA: TULIPA RUIZ
A cantora e compositora superou a famosa "síndrome do segundo disco" e provou não ser "fogo de palha" após sua estreia com "Efêmera".
Mais do que isso, Tulipa liderou a votação de destaque da música brasileira de 2012 por ter ido além das expectativas com "Tudo Tanto".
Composições mais maduras, arranjos mais elaborados e ousadias vocais funcionaram tanto em seu segundo álbum quanto no show que ela levou aos palcos.
Com casas de shows lotadas para lhe ver, seu alcance de público ainda aumentou com a inclusão de "Só Sei Dançar com Você", de seu primeiro disco, na trilha da novela "Cheias de Charme", exibida pela Globo em 2012.
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TEATRO: MARCIO ABREU
Ao criar a Companhia Brasileira de Teatro --em 1999, em Curitiba-- Marcio Abreu deu início a um dos mais sólidos e belos trabalhos de grupo em território nacional.
Em 2010, a companhia chegou a um ponto alto de sua trajetória com o espetáculo "Vida", mas depois ainda vieram "Oxigênio" (2010), "Isso Te Interessa?" (2011) e uma sucessão de prêmios, o Bravo! e o Shell entre eles.
A atriz Renata Sorrah estava de olho no grupo, com quem firmou parceria neste ano para estrear "Esta Criança", do francês Joël Pommerat. Tiro certo: a peça tem cinco indicações ao Shell do Rio. Virá a São Paulo em março.
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ARTES PLÁSTICAS: ANNA MARIA MAIOLINO
Italiana radicada em São Paulo desde os anos 1960, Anna Maria Maiolino, 70, chegou ao auge da carreira neste ano. Participou da 13ª Documenta, em Kassel, na Alemanha, com uma instalação que ocupou uma casa inteira no parque Karlsaue, arrancando elogios da crítica.
Também teve o conjunto da obra reconhecido na primeira edição do prêmio Masp/Mercedes Benz de Artes Visuais e expõe agora no museu da avenida Paulista um recorte de sua produção, dos anos 1970 aos dias atuais.
Maiolino se firmou com uma obra de caráter político contundente, calcado na condição feminina e construído em escala doméstica, como suas obsessivas esculturas de argila sempre feitas à mão.
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CINEMA: KLEBER MENDONÇA FILHO
Poucos filmes brasileiros foram tão incensados antes de uma estreia quanto "O Som ao Redor" -que entra em cartaz nesta sexta.
E seu diretor, Kleber Mendonça Filho, foi o nome do cinema nacional mais lembrado pelos especialistas consultados pela Folha.
Com formação de crítico, o pernambucano de 44 anos conseguiu unir técnica e cuidado na interpretação em seu primeiro longa de ficção.
O resultado foi um acúmulo de prêmios em festivais internacionais (Roterdã, Oslo), nacionais (Rio, Gramado, São Paulo) e uma lembrança na lista dos melhores filmes do ano pelo "The New York Times".
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TELEVISÃO: JOÃO EMANUEL CARNEIRO
Em "Avenida Brasil", sua segunda incursão no horário das 21h da Globo, João Emanuel Carneiro aprofundou sua investida no thriller, iniciada com "A Favorita" (2008).
O autor também transformou o subúrbio carioca em um laboratório de tipos amorais, não poupando nem a mocinha, a vingativa Nina (Débora Falabella).
Carneiro mobilizou as redes sociais, criou bordões e fez os telespectadores se apaixonarem pela vilã Carminha, interpretada com intensidade por Adriana Esteves.
Na enquete promovida pela "Ilustrada", tanto Carneiro como Esteves obtiveram cinco votos cada para o posto de "Ilustrado de 2012".
Entre criador e criatura, a Redação desempatou o título em favor de Carneiro.
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LITERATURA: ANGÉLICA FREITAS
Não foi simples chegar a um consenso sobre o grande nome literário do país em 2012, o que não deixa de ser bom sinal: a se julgar a pulverização de votos, não faltaram bons nomes publicados.
No fim, quem venceu foi a poeta pelotense Angélica Freitas, 39, que, cinco anos e meio depois de publicar seu primeiro livro, "Rilke Shake" (7 Letras/Cosac Naify, 2007), voltou às livrarias, e em dose dupla: lançou o volume de poemas "Um Útero É do Tamanho de um Punho" (Cosac Naify) e a graphic novel "Guadalupe" (Quadrinhos na Cia.), esta em parceria com o quadrinista Odyr Bernardi.
"Gosto de publicar só quando realmente tenho algo a dizer", diz Angélica. Para 2013, tem mais um projeto de HQ em parceria com o Odyr.
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QUEM SERÁ:
TELEVISÃO: MARCELO ADNET
Há cinco anos, quando despontou na MTV com um programa diário, Marcelo Adnet, 31, passou, em pouco tempo, de revelação ao posto de um dos principais nomes do humor no Brasil.
Em 2012, foi escolhido como o melhor humorista da TV pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e alçado à aposta para a televisão nacional em 2013 pelos críticos ouvidos pela "Ilustrada".
A escolha de Adnet, no entanto, está diretamente vinculada a sua transferência para a Globo em 2013. As negociações estão adiantadas.
"Será um desafio. O Adnet é um dos mais talentosos humoristas vivos, mas, na Globo, não terá tanta liberdade como na MTV", afirma Tony Goés, colunista do "F5", site de entretenimento da Folha.
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LITERATURA: BERNARDO CARVALHO
Apontar o nome que promete mobilizar a literatura brasileira em 2013 também dividiu escritores e críticos ouvidos pela "Ilustrada".
Uma pequena vantagem deu vitória a Bernardo Carvalho, 52. Um dos principais escritores brasileiros contemporâneos, ele é autor de "Nove Noites" (2002) e "Mongólia" (2003), editados pela Companhia das Letras, entre outros livros.
Desde 2009, dedica-se a escrever seu novo e aguardado romance, previsto para ser lançado pela Companhia no primeiro semestre de 2013.
Procurado pela Folha, ele preferiu não comentar o novo livro. "Estou trabalhando ainda, no meio do processo de escrita. Sou um pouco travado para escrever, prefiro me preservar por enquanto."
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MÚSICA: SILVA
Depois de despontar com um EP lançado em 2011, o cantor e compositor capixaba Lúcio da Silva Souza, o Silva, não "aconteceu" de fato em 2012 por ter lançado "Claridão", seu disco de estreia, já no finalzinho do segundo semestre.
Não que a época não seja boa, mas não deu tempo de estourar antes de 2012 acabar.
Visto como uma espécie de "Guilherme Arantes do século 21" (com mais uma série de referências brasileiras e estrangeiras), o músico foi o campeão de votos para aposta da música brasileira de 2013 por ter lançado um álbum consistente, feito à base de um som que consegue ser pop sem ser simplório e sem perder a qualidade.
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TEATRO: LEONARDO MOREIRA
Aos 30 anos --e com menos de cinco de carreira-- Leonardo Moreira já venceu o prêmio Shell duas vezes. O primeiro troféu foi conquistado pela autoria da peça "Escuro" (2009/2010), aos 28.
Sua produção ao lado da Cia. Hiato ganhou corpo com "O Jardim" (2011) e "Ficção" (2012), que radicalizaram o estilo de narrativa fragmentada estabelecido pelo autor em seus primeiros textos.
Moreira começará 2013 com dois projetos na manga. Sua peça "Ensaio" estreia no teatro Geo em janeiro. E o festival Santiago a Mil, no Chile, mostra uma retomada dos trabalhos que marcaram a trajetória da Hiato.
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ARTES PLÁSTICAS: JAC LEIRNER
Jac Leirner, 51, não é nenhuma novata nas artes visuais do país, mas a artista está em plena ascensão depois de um intervalo na produção.
Sua elogiada retrospectiva na Estação Pinacoteca no fim do ano passado promoveu seu retorno às galerias.
Ela entrou para o time da poderosa Fortes Vilaça, onde fez uma mostra individual em 2012, e se prepara para ocupar, em junho, um dos monumentais espaços da galeria britânica White Cube, em Londres, que passa a representar a artista no exterior.
Leirner é conhecida por suas instalações de estética construtivista e minimalista, que criticam o sistema das artes visuais. Ela articula objetos descartados, colecionados à exaustão, em situações que expõem os bastidores das grandes galerias e museus.
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CINEMA: MARCO DUTRA
Ao lado da parceira constante Juliana Rojas, o diretor Marco Dutra é assíduo frequentador do Festival de Cannes, seja com curtas ("O Lençol Branco", "Um Ramo") seja com longa-metragem ("Trabalhar Cansa", único representante brasileiro no evento de 2011).
Em 2013, o paulista tem o desafio de lançar o primeiro filme solo, "Quando Eu Era Vivo". O prestígio do jovem cineasta de 32 anos está tão em alta que, mesmo com orçamento modesto, conseguiu convencer Antonio Fagundes e a cantora Sandy a protagonizar o thriller, previsto para estrear em maio --se depender da lógica, em Cannes.
QUEM VOTOU? Artes plásticas Luis Pérez-Oramas (curador), Moacir dos Anjos (curador), Ivo Mesquita (diretor da Pinacoteca), Luisa Strina (galerista), Adriana Varejão (artista plástica), Fernanda Lopes (crítica de arte), Marcia Fortes (galerista), Adolpho Leirner (colecionador), Fabio Cypriano (crítico da Folha), e Nino Cais (artista plástico)Cinema Inácio Araujo (crítico da Folha), Leonardo Cruz (Editor de "Tec"), Neusa Barbosa (crítica e pesquisadora), Sergio Rizzo (crítico), Sergio Alpendre (crítico), Andre Barcinski (crítico da Folha), Ricardo Calil (crítico da Folha), Alexandre Agabiti (crítico), Cassio Starling Carlos (crítico da Folha), Mariane Morisawa (jornalista)Televisão Keila Jimenez (colunista da Folha), Vanessa Barbara (colunista da Folha), Tony Góes (colunista do "F5"), Alberto Pereira Jr. (repórter da "Ilustrada" ), José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (ex-diretor geral da Globo), Nilson Xavier (pesquisador), José Armando Vanucci (crítico), Patrícia Kogut (colunista do jornal "O Globo"), Laurindo Leal Filho (professor) e Marcelo Marthe (repórter de "Veja") Música Rodrigo Levino (editor-assistente da "Ilustrada"), Roberta Martinelli (apresentadora de rádio), Thales de Menezes (editor-assistente da "Ilustrada"), Ronaldo Evangelista (crítico), Carlos Calado (crítico), Mariana Tramontina (editora-assistente de música do UOL), Zé Pedro (DJ e produtor musical), Pablo Miyazawa (editor da "Rolling Stone"), Lúcio Ribeiro (colunista da Folha), Irineu Franco Perpetuo (crítico) Teatro Luiz Fernando Ramos (crítico da Folha), Lenise Pinheiro (fotógrafa), Celso Curi (editor do "Off Guia de Teatro"), Valmir Santos (crítico), Michel Fernandes (crítico), Soraya Belusi (repórter), Macksen Luiz (crítico), Tânia Brandão (crítica), Kil Abreu (crítico e curador) e Silvia Fernandes (pesquisadora)Literatura Paulo Werneck (editor da "Ilustríssima"), Luiz Bras (escritor), Alcir Pécora (professor), Joca Reiners Terron (escritor), Noemi Jaffe (escritora), Cadão Volpato (escritor), Alfredo Monti (professor), Sérgio Alcides (professor), Manuel da Costa Pinto (colunista da Folha) e Mário Hélio (curador)

Vanessa vê TV


FOLHADE SÃO PAULO
VANESSA BARBARA
vanessa.barbara@uol.com.br
Saúde para dar e vender
Roteiro automático para os telejornais de hoje: começamos com a apresentadora entre empolgada e surpresa, entoando: "Já é Ano-Novo na Austrália". Surgem imagens da Ópera de Sidney e do espetáculo de fogos de artifício.
Depois de algumas frases sobre a comemoração nas ruas da Oceania e flashes de nativos espocando champanhe, entra uma matéria sobre a corrida de São Silvestre e o cotidiano de treinos de um queniano na cidade. Direto do parque Ibirapuera, o repórter convence a pobre vítima a dizer: "Feliz Ano-Novo", em português, o que faz a âncora sorrir.
Há uma notícia sobre calamidades climáticas em um país distante, que é prontamente equilibrada com uma matéria sobre como decorar sua mesa para o Réveillon.
Se o programa é no dia seguinte, lá se vão cenas do primeiro bebê do ano e as previsões de um vidente para 2013. "Alguém importante vai morrer", ele garante. A apresentadora assume um ar sorumbático.
Outro clichê doloroso é o Show da Virada, na Globo, com a presença de bandas que você achava que não existiam desde a década de 90. Este ano, teremos Claudia Leitte, Zezé di Camargo & Luciano, Skank, Paula Fernandes, Aviões do Forró, Sorriso Maroto, Thiaguinho, Latino, Banda Eva, Chiclete com Banana e Raça Negra.
Saber que o especial é gravado com um mês de antecedência (este ano foi em 27 de novembro) dá sentido àquela euforia excessiva e artificial. Todo mundo de branco, pulando e gritando, em comemoração a uma prosaica terça-feira à noite.
O mesmo acontece antes da contagem regressiva: dá para imaginar o produtor contando à distância e pedindo para repetirem porque o público não vibrou o suficiente, ou uma atriz estava com couve no dente. Vamos lá, é 2013 de novo: dez, nove, oito...
E todos entoam aquela canção desejando "muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender" -que, aliás, não faz sentido, pois não dá para sair por aí doando ou comercializando vigor e robustez física, a menos que você esteja disposto a ceder um de seus rins.
Ontem, o "Fantástico" exibiu "imagens emocionantes" de brasileiros no momento em que receberam suas melhores notícias do ano, como a alta do hospital, a confirmação da gravidez ou a aprovação num novo emprego.
Tudo minuciosamente fabricado para fazer o espectador se emocionar.
Ou o contrário: ele enfim se cansa das mesmas coisas, desliga a tevê e vai passar mais tempo com a família.

    Mônica Bergamo

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Com as mãos no fogo
    Prestes a comandar a maior capital brasileira, Fernando Haddad sai em defesa do ex-presidente Lula, vê "onda conservadora impressionante" no país e afirma que não será candidato à Presidência da República em 2018

    Fernando Haddad está em período de tensão pré-posse. "Acho que só no dia 2 vou relaxar", afirmou ele à coluna na manhã de sexta, 28, ao conceder a sua "última" entrevista antes de assumir a Prefeitura de São Paulo. "É muita coisa para se pensar. Depois, melhora. Na cadeira de prefeito, a coisa deslancha." Estrela maior do PT nas eleições deste ano, Haddad diz não temer as consequências da retração na economia, admite que o partido pode estar acuado por uma "guinada conservadora" e sai em defesa de Lula: "Eu ponho as duas mãos no fogo" por ele.
    CRISE ECONÔMICA
    Não acredito em queda de arrecadação municipal porque no ano que vem a economia vai crescer mais do que neste ano. Tenho certeza. Agora, nosso problema só vai se resolver com parceria público-privada e público-pública. E este é o ponto relevante: como é que se vai recuperar a economia brasileira para patamares de crescimento de 4% ao ano sem investimento público? São Paulo pode ter uma carteira de projetos que interessará necessariamente ao governo central.
    Qual é a situação de SP? É a de um orçamento basicamente consumido pelo custeio.
    Folha - São R$ 42 bilhões?
    Haddad - Se é que essa receita se realizará.
    Está superestimada?
    Talvez um pouco. Mas mesmo com R$ 38, R$ 39 bilhões, você está falando de uma arrecadação consumida pelo custeio da máquina, que está pesada. Há pouquíssimo espaço para investimento.
    Quanto? R$ 6,5 bilhões?
    Não sei de onde, sinceramente, saem esses números. Essa conta não é minha -e está errada. Os recursos que, dizem, estão na conta [da Prefeitura] são carimbados. Não é um dinheiro que você pode manusear para investir. E corresponde a pouco mais de um mês de arrecadação. Está aquém da nossa necessidade. Muito aquém.
    LULA
    Eu tenho pelo presidente Lula um apreço incomensurável. Fui seu ministro [da Educação] durante quase seis anos e, se eu disser que o presidente Lula me deu um telefonema para discutir qualquer assunto que não fosse do interesse da educação estritamente, estaria mentindo. Eu administrei o segundo maior orçamento da República. Montei equipe, programas, o plano de desenvolvimento da educação, com total liberdade, endosso, entusiasmo e patrocínio do presidente Lula. Então é uma pessoa que eu conheço e reconheço não só como liderança política, mas grande administrador público.
    MARCOS VALÉRIO
    Ponho as duas mãos no fogo pelo presidente Lula. E mais: acho uma coisa absolutamente temerária esta pessoa, o Marcos Valério [pivô do mensalão que afirmou recentemente que Lula deu "ok" para as operações que originaram o escândalo], depois de anos defendendo reiteradamente uma versão, agora mudar. É temerário se atribuir o valor que está se atribuindo a esse depoimento. A partir do momento em que muda ao sabor das circunstâncias, a credibilidade dessa pessoa é que precisa ser discutida.
    E a Operação Porto Seguro, que envolve uma ex-assessora de Lula [Rose Noronha] numa máfia de venda de pareceres?
    As investigações é que vão dizer. O que de fato aconteceu a partir desse suposto tráfico de influência? Ele foi eficaz? Produziu efeito concreto? Enfim, o que posso dizer é que convivi com o presidente Lula e sei do seu método de trabalho, do seu compromisso com o país, da sua dedicação.
    O senhor já me disse que Lula é a única personalidade na defesa de quem as pessoas sairiam de casa.
    Ah, ele mobiliza, né? As pessoas confiam no presidente Lula. E quem trabalhou com ele tem duas vezes mais razão para isso.
    Acha possível uma mobilização em defesa de Lula?
    Creio que não haverá a menor necessidade disso.
    O senhor também já falou que essas críticas podem forçar Lula a ser candidato de novo.
    Não vejo que o presidente se paute por esse tipo de circunstância. Mas ele é novo, fisicamente forte, gosta da política e foi o melhor presidente da República que o Brasil já teve, segundo todas as pesquisas de opinião. Por que não pode pensar em voltar? Ele tem todas as condições de pleitear um cargo público, qualquer que seja.
    Governador? Senador?
    Estou tão acostumado a vê-lo como presidente da República que é difícil imaginá-lo em outra posição.
    Em 2014 ou em 2018?
    Não vejo essa hipótese de 2014 em função até do sucesso da presidenta Dilma [Rousseff] e da sua vontade, ainda não manifesta, de continuar o seu trabalho, que é apreciado pela população.
    MENSALÃO
    Os desdobramentos jurídicos desse julgamento vão ganhar mais espaço. Porque do ponto de vista político está encerrado o assunto. Mas, do ponto de vista doutrinário, há um longo caminho a ser explorado, nas faculdades de direito, entre juristas, criminalistas.
    O julgamento estará imerso em controvérsia, em função das inflexões que ele promoveu. Porque houve uma mudança de jurisprudência radical para a condenação dos acusados. Toda uma releitura foi feita. A controversíssima tese do domínio do fato [que levou à condenação de José Dirceu], por exemplo. Essa discussão vai perdurar por muitos anos, vai se verificar se outros casos vão receber o mesmo tratamento...
    Como o mensalão do PSDB?
    Por exemplo. A curiosidade é grande.
    PT ACUADO
    O uso que partidos conservadores fizeram dessas temáticas [descriminalização do aborto, defendida no passado pelo PT, e combate à homofobia] pode, sim, ter acuado o PT. Porque foi um uso muito truculento [referindo-se às campanhas presidencial de 2010 e municipal de 2012, em que o então candidato do PSDB José Serra discutiu os temas]. E de onde menos se esperava. Porque os tucanos sempre foram percebidos como uma camada ilustrada da sociedade. Tinham verniz de modernidade, não se associariam ao obscurantismo para a luta política rebaixada. Mas, na hora do embate, lançam mão de qualquer expediente para ganhar uns votos. O PT se surpreendeu com essa atitude e talvez tenha taticamente se recolhido. Até em busca de uma explicação para tamanha virulência de um partido que nasceu com bandeiras modernas também.
    O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defende a descriminalização das drogas.
    Mas o PSDB finge que não ouve, né? Que não é com ele.
    Mas o PT não perdeu a posição de "vanguarda"? Não virou, como já disseram, "o partido de combate à pobreza dentro da ordem absoluta"?
    O PT é o partido mais vivo do país. Tem taxa de preferência quatro, cinco vezes maior que a do segundo colocado, o PMDB. É um fenômeno de massa impressionante. Já fez muito pelo país e continuará fazendo. Mas reage às circunstâncias. O partido acaba, de forma quase incontornável, fazendo cálculos sobre onde é possível avançar na sua própria agenda com mais facilidade e aderência social. E por isso o que o teu principal adversário faz importa.
    ONDA CONSERVADORA
    E há no plano da cultura, indiscutivelmente, uma onda conservadora impressionante. Basta você ver quem eram os intelectuais, os filósofos, os críticos que tinham voz e palanque nos anos 80 e 90 -e compará-los com os de hoje. Não vou dizer nomes. Mas é uma desproporção! Você tem uma virada conservadora e rebaixada do ponto de vista argumentativo. Quer dizer, perdemos duas vezes. A agenda cultural parece que está na mão de pseudointelectuais.
    Eu vejo esses fenômenos acontecerem inclusive fora do país. Houve uma guinada à direita, ao conservadorismo.
    Importantes paradigmas sociais e econômicos vêm sendo rompidos pelos governos do PT. Mas reconheço que, no plano da cultura, há um déficit de pró-atividade. Acaba sendo uma escolha diante de uma circunstância muito problemática.
    NOVO PT
    Existe o PT, que tem força popular. Não é velho, não é novo. É o PT. Quando você conversa com o cidadão, ele fala 'eu voto no PT', ele não fala 'eu voto no novo PT'. E é óbvio que ele sabe que por trás da legenda tem a liderança do Lula, ou da Marta [Suplicy], da [Luiza] Erundina. Quem me levou a 28% dos votos [no primeiro turno da eleição] foi esse partido.
    Não é assim no mundo desenvolvido? Alguém sabia quem era o Mitt Romney [candidato derrotado à Presidência dos EUA pelo Partido Republicano] pouco tempo atrás? Ele tem o voto republicano. O PT tem a força da legenda e empresta prestígio para quem empunha a bandeira. Com a consolidação dos partidos no Brasil, isso tende a ser a regra. A política fica menos personalista, abre espaço para a renovação permanente dos quadros.
    EDUARDO CAMPOS
    Olha, o Eduardo é um quadro político da mais alta respeitabilidade, qualificado para qualquer voo. Mas eu não acredito que saia candidato à Presidência da República [pelo PSB] em 2014.
    Em 2018 o senhor pode concorrer à Presidência com ele?
    Penso que Eduardo, neste ano, será candidato. Eu, não [risos]. Estou concentrado aqui nos meus afazeres, que não serão nada simples a partir do dia 2.
    FRASES
    "Ponho as duas mãos no fogo pelo presidente Lula"
    "Acho absolutamente temerário essa pessoa, o Marcos Valério, depois de anos defendendo reiteradamente uma versão, agora mudar"
    "A partir do momento em que muda ao sabor das circunstâncias, a credibilidade dessa pessoa [Valério] é que precisa ser discutida"
    "Lula é novo, fisicamente forte, gosta da política e foi o melhor presidente que o Brasil já teve. Por que não pode pensar em voltar?"
    "O julgamento [do mensalão] estará imerso em controvérsia. Porque houve uma mudança de jurisprudência radical para a condenação dos acusados"
    "O uso que partidos conservadores fizeram dessas temáticas [aborto e homofobia] pode, sim, ter acuado o PT"
    "E há no plano da cultura, indiscutivelmente, uma onda conservadora impressionante"
    "A agenda cultural está na mão de pseudointelectuais"
    "Eduardo [Campos] será candidato [à Presidência em 2018]. Eu, não"

      Luiz Felipe Pondé


      Odette para 2013
      "Meu amor, você faria amor comigo hoje? Se não estiver bem disposta, ok, entenderei"
      Um casal conversa na mesa de jantar de casa no final de um dia comum. Classe média média
      (duas vezes média). Ele com cara de cansado (deve ter um desses empregos nos quais pessoas como ele engolem sapos diariamente fingindo que ainda são donos de suas vidas), ela com cara de quem tomou banho para jantar, mas permaneceu com ar de enfado. Deve ter esperado o marido o dia todo, mas não com muito gosto...
      Ele (Mário Alberto) pergunta o que há para sobremesa. Ela (Odette) responde "tangerina". Ele reclama que a única coisa que queria quando chegasse em casa depois de um dia inteiro de trabalho era uma sobremesa decente. Nada de chique, talvez um pudim. Ou mesmo algo que ela goste. Ou seja, ele não é exigente. Carrega em si aquele ar esmagado de quem sabe que já perdeu a partida com a vida e com o mundo. Normalmente, a esposa encarna tanto a vida quanto o mundo para os "bons maridos".
      Nelson Rodrigues costumava dizer que todas as qualidades que fazem de um homem um grande e desejado homem são inviáveis em "bons maridos".
      Ele diz para ela que uma sobremesa decente é tudo que ele quer, e pergunta para ela o que ela quer. Aí, vem o show de Odette.
      Ela diz: (perdão pela licença poética) "O que eu quero Mário Alberto? Você quer saber o que eu quero? Eu quero foder. Veja que não disse fazer amor, transar ou fazer 'nheco-nheco', mas foder".
      Odette passa a qualificar "seu desejo": ela quer foder não apenas com Mário Alberto, mas com o chefe dele (imagem particularmente tocante no que diz respeito a um homem humilhado que teme que sua mulher sonhe em dar justamente para aquele desgraçado que manda nele), com o irmão dele, com o time de futebol da Nigéria, com o exército de Israel.
      Assume-se que o time da Nigéria seja composto de negros fortes e bem dotados e que não perguntarão para ela "meu amor, com todo respeito, você faria amor comigo hoje? Se não estiver bem disposta, ok, entenderei e continuarei a te amar".
      Quanto ao exército de Israel, Odette parece desejar suas famosas e decantadas virtudes militares: coragem, eficiência incomparável, audácia, juventude e vitórias consecutivas contra milhares de inimigos ao mesmo tempo e de todos os lados. Odette parece lembrar o que o mundo esqueceu: o exército de Israel é que está esmagado por inimigos de todos os lados, e não o Hamas.
      Mas Odette não para por aí. Sem citar aqui todos os exemplos que ela dá de seu desejo escondido, passemos ao "modo" como ela quer que este desejo se realize: Odette quer que usem e abusem dela, que a tratem como cadela, que a deixem assada e doída, que sua boca fique imprestável. Ao final, depois de dizer que quer tudo isso repetidas vezes, confessa que também quer "passar recibo" de tudo que deu e recebeu como um modo claro de dizer "sim, sou a vagabunda de vocês".
      Impossível não relacionar Odette (inclusive pelo nome dela) a algumas heroínas rodriguinianas conhecidas como bonitinhas mas ordinárias, que pedem para homens as violentarem enquanto as chamam de cadelas.
      Após dizer tudo isso, ela silencia e continua a comer com aquela contenção de classe média à mesa. Não esqueçamos que "etiqueta" é coisa de gente que queria ser elegante mas não consegue. Traço claro de decadência.
      Ele, assustado, diz que "tangerina está ótimo". Ela avisa que a tangerina não está gelada, mas ele diz que tudo bem assim. Mário Alberto reassume o papel que deve desempenhar todo o dia, todos os dias.
      Trata-se de um vídeo da internet que é muito indicativo do que é a incomunicabilidade da vida cotidiana entre as pessoas. No caso específico, um casal de classe média.
      Claro está que Odette, mulher sem grandes dotes de beleza ou sensualidade, não parece feliz com sua vida sexual de "mulher de família". Não quer ser "uma mulher de família". Quantas Odettes irão a sua festa de Réveillon hoje? Espero que
      pegue uma.
      O mundo não muda, nem os homens, nem as mulheres. Liberte-se do mito desta mudança. Resta para os caras a pergunta que não quer calar: Quando vai se alistar no exército de Israel? Feliz 2013 com sua Odette.[folha de são paulo]