domingo, 3 de março de 2013

Biblioteca infantil reúne livros infantojuvenis em diversas línguas

folha de são paulo

SIMONE TINTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

São Paulo vai ganhar uma biblioteca infantojuvenil diferente. Nela, as prateleiras serão ocupadas por livros em diversas línguas: inglês, francês, japonês, alemão, italiano, espanhol, além de braile e português, entre outros idiomas.
Grande parte dos 11 mil exemplares reunidos até agora veio das estantes de Duda Porto de Souza, 28, jornalista e idealizadora da Biblioteca Infantojuvenil Multilíngue, que funcionará no Centro Universitário Belas Artes, na Vila Mariana, zona sul. A data da inauguração está marcada para 18 de abril -Dia Nacional do Livro Infantil e aniversário de Monteiro Lobato.
"A minha coleção de infância está aqui", diz ela, sobre os títulos que ocupam temporariamente a biblioteca infantil do Belas Artes. A literatura sempre esteve presente na vida de Duda: seu avô é Sergio Porto (1923-1968), que ficou conhecido assinando crônicas em jornais e revistas sob o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. Além disso, como sempre estudou em escola britânica em São Paulo, Duda é fluente em inglês, o que a aproximou de obras estrangeiras.
A ideia do futuro espaço, conta ela, nasceu em 2009, espalhou-se entre amigos até que chegou à equipe do Belas Artes, que adotou o projeto. Hoje, o acervo está sendo criado com a colaboração de editoras, artistas, escritores e consulados estrangeiros.

Biblioteca Infantil Multilíngue

 Ver em tamanho maior »
Pétala Lopes/Folhapress
AnteriorPróxima
Biblioteca terá livros em inglês, italiano, francês, alemão, japonês e outras línguas
Na lista de livros, desperta a curiosidade aquele que o presidente Barack Obama escreveu para suas filhas. Outros, com ilustrações em "pop-up", mais parecem obras de arte --ou, quando abertos, brinquedos.
E aí está outra contribuição da biblioteca: valorizar o cuidado com o visual e com o conteúdo de cada obra que será oferecida ao público. Quadrinhos, e-books, DVDs e audiobooks também poderão compor o acervo.
Além dos livros, brinquedos e móveis sob medida para crianças ocuparão os 300 m² do novo espaço, conta Leila Rabello de Oliveira, bibliotecária-chefe da universidade. O projeto prevê ainda um playground na área externa e uma entrada separada da universidade, aberta ao público.
A agenda permanente da biblioteca deverá incluir contações de histórias, sessões de brincadeiras, workshops e palestras para escritores e ilustradores. "Assim como eu tive uma biblioteca maravilhosa em casa, quero que outras crianças também tenham", diz Duda, que aceita doações de obras infantis, em qualquer idioma --é só escrever para o e-mail bibliotecainfantil@belasartes.br e combinar a retirada dos títulos.

"Quero viver mais 70 anos para consertar as merdas que fiz", diz Jards Macalé

folha de são paulo

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO

Jards Macalé já comeu muito da farinha do desprezo.
Aos 70 anos, completados neste domingo (3), o autor de "Vapor Barato" (com Waly Salomão) se alegra com o reconhecimento das novas gerações e diz, jocosamente, que "deveria ser tombado" como patrimônio imaterial.
Mas não espera muito do Ministério da Cultura ("É uma tristeza, aparelhamento político"), por onde passaram recentemente seu amigo Gilberto Gil e sua ex-namorada Ana de Hollanda, com quem está brigado (e não comenta).
Macalé recebeu a Folha no quarto e sala alugado em que vive, numa ladeira do Jardim Botânico (zona sul do Rio).
Quando a reportagem chegou, ele assistia a um documentário sobre o geógrafo Milton Santos (1926-2001), um de seus exemplos de livre pensar. "O pensamento independente é o que importa. Seja no nível político, seja no da arte, que é onde atuo."
Daniel Marenco/Folhapress
O cantor e compositor Jards Macale, em sua casa, no Rio; músico completa 70 anos e comemora com shows e disco reeditado
O cantor e compositor Jards Macale, em sua casa; músico comemora 70 anos com shows e disco reeditado
Carioca da Tijuca, celeiro de músicos na zona norte do Rio ("Tem Villa-Lobos, Tom Jobim, Erasmo Carlos, Tim Maia. Somos uma turma forte"), tem trajetória ímpar. Da formação erudita, à qual somou samba, jazz e bossa nova, caiu na psicodelia movida a drogas dos anos 1960 e 1970. Foi vanguarda e tradição.
Para celebrar o aniversário, faria show ontem, no Rio. No dia 10 toca em São Paulo, no Auditório Ibirapuera, quando será exibido o documentário "Jards" (2012), de Eryk Rocha. Quer mostrar nos shows uma parceria inédita com Caetano Veloso, composta quando visitou o baiano no exílio em Londres, para ajudá-lo a gravar o célebre "Transa" (1972).
As comemorações incluem também o relançamento de seu primeiro compacto, "Só Morto" (1970), de quatro canções, que sai em março pelo selo Discobertas com dez faixas adicionais, ao vivo.
*
Seu primeiro compacto, "Só Morto" (1970), está sendo relançado. Como ele aconteceu?
Depois da apresentação de "Gotham City" [no 4º Festival Internacional da Canção, em 1969], o João Araújo, que era diretor artístico da RGE, me convidou para fazer um compacto duplo. Chamei o pessoal das bandas Som Imaginário e Soma, toquei duas músicas com voz e violão e fizemos o compacto. Mal gravado, horroroso, um negócio terrível. Mas a capa é ótima.
Esse disco não repercutiu?
Não, foi lançado ao léu. Naquela época já tinha essa coisa de eu ser um bicho raro, um estranho no ninho, depois daquela apresentação maluca de "Gotham City", que o Maracanãzinho em peso vaiou. Não teve ninguém que batesse palma. Foi unânime, e, como toda unanimidade é burrice, depois eu disse: 'Pô, mas isso aqui foi o máximo'. Eu e o Capinam, os autores, fomos dormir anônimos e acordamos famosíssimos.
E como um músico de formação erudita chegou ao rock?
Fui morar em Ipanema nos anos 1950 e 1960, entre a bossa nova e o rock. Caí nos modismos, cheguei a ir ao Leblon quebrar o cinema por causa de Bill Haley [sucesso com a canção "Rock Around the Clock", que virou filme musical em 1956].
Ouvia Elvis Presley, uma maravilha de cantor, fora o rebolado, que eu brincava de imitar. Aí cheguei a Little Richards, Chuck Berry, e fui andando pelo rock, o que me levou ao melhor, Jimi Hendrix. Ele é o ápice que ultrapassou a medida do rock com aquela guitarra.
Como foi seu trabalho em discos simbólicos como "LeGal" (1970) e "Transa" (1972)?
Foi um período riquíssimo. Quando Caetano e Gil foram presos, Gal ficou como uma espécie de porta-voz, rompeu com aquela timidez dela, foi um negócio incrível. O "LeGal" foi uma coisa mais formal, menos louca, mas é um belíssimo disco. E a capa é do Hélio Oiticica [1937-1980].
Para o "Transa", ensaiamos à beça e fizemos o disco quase ao vivo. Havia vontade de fazer algo muito bom. O primeiro ensaio à vera foi num dia lindo de primavera, quando fomos fazer um piquenique e tocar num parque, com umas moças maravilhosas. Diante do quadro que estava aqui, era o paraíso.
Tem alguma faixa dele de que você goste mais?
Gosto muito de "Nine out of Ten" e "Mora na Filosofia". Agora, a melhor coisa que vejo no disco e que adorei ter gravado foi "Triste Bahia". Ali fizemos um arranjo bacana.
Marcos Vinicius - 18.set.1987/Folhapress
O cantor e compositor carioca Jards Macalé, em entrevista em sua casa, no Rio
O cantor e compositor Jards Macale, em sua casa; músico comemora 70 anos com shows e disco reeditado
As drogas tiveram papel central na criação nesse período?
Talvez sim, pelo jeito de escrever, uma coisa menos preciosista. É claro que influenciou na produção, mas acho que foi mais experimentação pessoal. Eu, por exemplo, me apaixonei pela Branca de Neve em Londres, no museu [Madame] Tussauds. Foi um tempo interessante, de experimentação. Foi engraçado e perigoso. Muita gente não voltou. Essa foi a tragédia.
Como você se ligou à turma das artes plásticas?
Foi via Hélio Oiticica. Quando o conheci, ele sacou meu violão, sacou aquelas tentativas que eu, Waly e Capinam fazíamos. Também tinha amizade com Rubens Gerchman [1942-2008].
Entrei naturalmente nessas artes de que participei e participo. Aspectos de cinema, teatro, artes plásticas, dança e música se encontraram em mim. O que interessa é estar cada vez mais independente na ação artística.
Essa independência traz muitos aborrecimentos?
Só traz. Mas é preciso criar uma força de pensamento independente. Meus exemplos são José Oiticica [1882-1957], avô do Hélio, ele próprio, Milton Santos [1926-2001], Darcy Ribeiro [1922-1997]. Temos casos maravilhosos de gente que pensava livremente, para não ficarmos atados a esse pensamento cristalizado e louco. Milton diz algo genial: o fundamentalismo real é esse consumismo exacerbado, essa tara de ter coisas.
Passaram pelo Ministério da Cultura duas pessoas próximas de você, Gil e Ana de Hollanda. Como viu a atuação deles?
Não quero falar disso. O MinC é uma tristeza, aparelhamento político. Não vou elogiar nem um nem outro. Gil é meu amigo, a outra já não é. Confrontar o melhor e pior eu não sei. Gil avançou mais. Estou adorando essa coisa de bem imaterial. Imaterial é comigo mesmo, eu deveria ser tombado. Tentam tombar de outra forma, mas quero ser tombado de pé.
Você já brigou muito por causa dos direitos autorais.
Direitos autorais aqui são uma esculhambação, vários entram nisso e ficam se dando bem com cargos. Esses interesses, rapaz, são tão... Olha, dinheiro, di-nhei-ro é o mal da humanidade. Enquanto houver isso, essa ganância, a humanidade está perdida. Onde houver dinheiro, não há relação humana limpa. Ele estraga tudo.
Nos últimos anos, você foi tema de dois documentários, teve discos relançados. Está ganhando reconhecimento?
Não sei, começaram a me medalhar há um tempo. Ganhei medalha na Câmara dos Vereadores, um negócio da ONU pela defesa dos direitos humanos. Mas não sei se nego está me reconhecendo mesmo ou me sacaneando (risos). Não é possível que seja de verdade.
Mas e o reconhecimento da nova geração?
Acho até natural que a nova geração esteja me buscando como informação nova. Fiz uma banda só de jovens, com eles troco informação de música. Outro dia um deles falou no Facebook: "Tocar com Macalé é como tocar com Miles Davis". Morri de vergonha, onde já se viu [pausa]. Sou melhor do que Miles Davis, sou brasileiro, porra! Isso sim é reconhecimento.
Como é chegar aos 70 anos?
Ótimo, estou feliz da vida. Quero viver mais 70 para consertar as merdas que fiz. E fazer coisas boas.


RAIO X - JARDS MACALÉ
VIDA
Jards Anet da Silva nasceu na Tijuca, zona norte do Rio, em 3 de março de 1943
OBRA
Em 1970, lança seu primeiro compacto, "Só Morto". Foi compositor, músico e arranjador nos discos mais psicodélicos de Gal Costa, "Gal" (1969) e "LeGal" (1970). Produziu o álbum "Transa" (1972), de Caetano. Também em 1972, saiu "Jards Macalé", que traz versões autorais de clássicos como "Mal Secreto", "Hotel das Estrelas" e "Movimentos dos Barcos", lançadas em shows e discos por Bethânia e Gal.

    Mauricio Stycer

    folha de são paulo

    Trocando "furos" por sexo
    Jornalistas costumam ser críticos com colegas, mas não gostam de ouvir avaliações vindas "de fora"
    Tanto quanto políticos e advogados, jornalistas sempre renderam bons vilões na ficção -primeiro, na literatura; depois, no cinema e, mais recentemente, na televisão. O seriado "House of Cards", disponível desde 1º de fevereiro na
    Netflix, tem merecido reparos pelo retrato nada edificante que pinta de um tipo específico, e poderoso: o repórter de política.
    Jornalistas costumam ser críticos e até maledicentes com colegas de ofício, mas não gostam de ouvir avaliações vindas "de fora" a respeito de suas práticas.
    A série se passa em Washington, nos dias atuais. O protagonista, Frank Underwood (Kevin Spacey), um experiente e poderoso deputado democrata, acaba de saber que o presidente dos Estados Unidos ignorou um acordo que parecia certo e não o nomeou secretário de Estado.
    Destinado a se vingar, mas sem perder a proximidade com o presidente, Underwood faz tudo o que o senso comum imagina ser da alçada de um político sem escrúpulos: ajuda a queimar o nome do político indicado para o cargo com que sonhava, manipula votações, mente, troca cargos por votos, destrói carreiras, faz lobby suspeito etc..
    A jornalista Zoe Barnes (Kate Mara) tem um papel central neste projeto de poder de Underwood. Sonhando voos mais altos no "Washington Herald", onde trabalha, a jovem repórter se aproxima do deputado interessada em conseguir notícias exclusivas mesmo que em troca de sexo.
    Casado, o deputado adverte a repórter de que ela vai se machucar no fim, mas Zoe está mais interessada nos benefícios no curto prazo. Estabelece-se, então, uma relação de negócios, com benefícios para ambos.
    Com as informações passadas por Underwood, a carreira da jornalista dá um salto. Logo é convidada pelo chefe a assumir o cargo de principal repórter na Casa Branca, mas recusa. "É onde as notícias morrem", diz. A ocupante do posto, uma repórter veterana, suspeita que Zoe esteja trocando notícias exclusivas por sexo. Em um episódio, dirá para a colega: "Também fiz isso no início da carreira".
    Numa discussão com a dona do jornal, o chefe de Zoe Barnes diz que a repórter, assim como o Twitter e blogs, é superficial. O jornal foi fundado sob outras bases e não são essas novidades que o manterão vivo, diz. É demitido.
    Depois de dar uma série de "furos" no "Herald", ela troca o jornal por um site, Slugline, onde ouve da nova chefe que não precisa mostrar previamente os seus textos. "O objetivo aqui é que todos publiquem com mais velocidade do que eu tenho a capacidade de ler."
    Tanto os diálogos entre Zoe e Underwood, quanto os que a repórter tem com os demais jornalistas na série são de uma crueza assustadora. Beau Willimon, autor do texto, trabalhou com uma série de políticos, inclusive Hillary Clinton, no final dos anos 1990. É autor da peça "Farragut North", que virou o filme "The Ides of March" ("Tudo pelo Poder"), dirigido por George Clooney em 2011.
    Enquanto a série "The Newsroom" apresenta uma visão do que o jornalismo poderia ser, mas não é, "House of Cards" expõe o que ele não deveria ser. Não espanta que o retrato da repórter Zoe Barnes, bem como o da profissão hoje, pintado nesta série, desagrade muito mais.

      Ferreira Gullar

      folha de são paulo

      De volta à avenida
      O desfile é um acontecimento único no mundo, demonstração da criatividade do brasileiro
      Depois de vários anos, voltei, no domingo de Carnaval, à passarela do samba, para assistir ao desfile das escolas, a convite do amigo Eduardo Paes, prefeito do Rio. O que me afastara desse desfile foi, entre muitas outras coisas, o som altíssimo dos alto-falantes, que não apenas me deixava atordoado como me impedia de ouvir a escola cantar.
      Isso não mudou, até piorou.
      A impressão que tive, desta vez, foi que o som estava mais alto do que antes. Já temendo isso, levei algodão para tapar os ouvidos e o fiz, mas não adiantou muito. Devo, porém, admitir que, não os houvesse tapado, não teria ficado muito tempo ali.
      Entendo que, dado o tamanho da passarela, com vastas e altas arquibancadas, os alto-falantes tornam-se necessários, uma vez que, sem eles, uma boa parte dos espectadores não seria tocado mais intensamente pelo espetáculo.
      Isso pode, porém, ser resolvido sem ampliar o som de modo insuportável, com acontece agora. Bastaria erguer, naquelas arquibancadas, postes com alto-falantes. Desse modo, creio, teríamos um espetáculo menos estressante e mais fiel à natureza mesma do desfile que, no passado, não contava com esse sistema de som.
      O resultado é que, naquela época, se ouvia os foliões cantando o samba, no momento mesmo em que passavam diante de nós. Hoje, não se ouve voz alguma, a não ser a do puxador do samba, num berreiro atordoante. Neste domingo, houve um momento em que o som dos alto-falantes falhou e foi uma maravilha: não durou dois minutos, mas foi o suficiente para ouvirmos a escola cantando e, num impulso, o público inteiro aplaudiu.
      Mas nada tira o brilho desse espetáculo único no mundo, que é o desfile das escolas de samba. Falo de cadeira, porque comecei a assisti-lo em 1956, quando me enamorei da carioca Thereza Aragão. O desfile ainda era na avenida Presidente Vargas, depois passou para a Rio Branco e, finalmente, para a Marquês de Sapucaí, ainda com arquibancadas desmontáveis, de madeira.
      A passarela atual -mal apelidada de sambódromo- foi invenção de Darcy Ribeiro, que convidou
      Oscar Niemeyer para projetá-la. Nenhum dos dois nunca havia assistido a um desfile.
      A praça da Apoteose foi imaginada por Darcy como o lugar onde o desfile de cada escola se encerraria como apoteótico espetáculo de dança. Disse a ele que isso jamais aconteceria e não aconteceu: a praça da Apoteose, apesar do nome pomposo, tornou-se o lugar de dispersão, como tinha que ser.
      O que piorou muito, nestes últimos anos, foi a letra dos sambas-enredo. Isso já vinha ocorrendo e se acentuou a partir do momento em que os traficantes de drogas passaram a mandar nas escolas de samba e a impor seus comparsas como autores dos sambas. O principal sintoma disso foi o aumento do número de parceiros: de um ou dois compositores passaram a cinco, seis, sete.
      Outro fator foi a necessidade de desfilar com tempo determinado, o que provocou a aceleração do ritmo, e o samba virou marcha. Este ano, à exceção talvez do samba da Vila Isabel, que teve Martinho da Vila como um de seus autores, os outros são péssimos.
      As letras, além de banais, são desconexas, frases soltas, incongruentes, sem sentido algum. A melodia às vezes escapa, mas nada que se compare aos sambas-enredo do passado. Tanto que ninguém os decora nem os canta durante o desfile, como antigamente. O que salva o desfile hoje em dia são as baterias que, quando passam, empolgam o público e o fazem sambar.
      De qualquer modo, o desfile das escolas de samba é um acontecimento único no mundo, demonstração da criatividade do povo brasileiro. Um espetáculo belo e empolgante, a que nenhum outro se compara, realizado a céu aberto com a participação apaixonada da plateia.
      E há mais: a criatividade dos carnavalescos que inventam alegorias belíssimas, em que a inventividade plástica e cromática se soma muitas vezes à poesia e ao humor.
      Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, nos anos 1960, revolucionaram as alegorias e as fantasias, abrindo caminho para as inovações de um Paulo Barros, que hoje encanta o público com suas invenções surpreendentes. Neste ano não deixou a desejar e, sim, pelo contrário, arrebatou a plateia com um extraordinário navio fantasma, que me pareceu alcançar o nível da melhor arte contemporânea.