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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Rio lança edital para a criação de 'Hollywood carioca' - Marco Aurelio Canônico

folha de são paulo
Prefeitura estima investimento privado de R$ 90 mi; vencedor da licitação terá concessão por 30 anos
Produtores que atualmente ocupam a área rebatem estudo e dizem que retorno do investimento é inviável
MARCO AURÉLIO CANÔNICODO RIOSe antes os cineastas brasileiros reclamavam da falta de dinheiro para fazer filmes, hoje, com o crescente financiamento público para o setor, o problema maior passou a ser a falta de infraestrutura.
É sob este diagnóstico que a RioFilme, empresa municipal de fomento audiovisual, quer lançar ainda neste mês um edital que prevê investimentos privados de no mínimo R$ 90 milhões para criar uma espécie de "Hollywood carioca".
O local será uma ampliação do atual Polo Rio Cine e Vídeo, na Barra da Tijuca (zona oeste). Criado em 1988, ele é a única alternativa de grande porte à produção independente audiovisual na cidade, mas nunca chegou a ser completamente concluído.
Hoje, seus oito estúdios, administrados por uma associação sem fins lucrativos formada por 86 produtoras, ocupam menos da metade do terreno disponível.
A Prefeitura do Rio vai licitar a área oferecendo a concessão por 30 anos, com obrigação de investimento: o vencedor precisará construir no mínimo 5.000 m² a mais de estúdios, além de reformar inteiramente os 5.000 m² existentes, num investimento mínimo de R$ 90 milhões.
"Hoje, a associação do polo paga barato para explorar estúdios de qualidade baixa, defasados tecnologicamente. Nosso interesse é que quem for assumir os estúdios pague mais e ofereça um local de qualidade internacional", diz Adrien Muselet, 31, diretor comercial da RioFilme.
Segundo ele, os atuais administradores --cujo contrato venceu em março e não foi renovado (a prefeitura entrou com uma ação de despejo)-- pagam R$ 17 mil mensais pela área dos estúdios. O novo aluguel será aumentado progressivamente, chegando a R$ 200 mil em 2017.
Produtores do polo ouvidos pela Folha reclamaram das condições "draconianas"do edital e das exigências de investimento de pelo menos R$ 90 milhões.
"Esse valor é absurdo, já fizemos estudos que mostram que esse investimento não retorna em 30 anos", diz Diler Trindade, produtor de filmes de Xuxa e Renato Aragão e membro da atual diretoria.
"A associação administra isso aqui há 24 anos, sabemos qual é a curva de ocupação dos estúdios, qual o preço que as empresas pagam."
Muselet rechaça a acusação. "Todas as pessoas do setor privado que eu consultei, com exceção deles, me dizem que o negócio fica em pé", diz o diretor da RioFilme.
Ele cita estudos feitos pela empresa municipal que estimam o faturamento anual em R$ 28,3 milhões a partir de 2016, com todos os novos estúdios prontos. "O tempo de retorno para o investidor seria de 17 anos."
Segundo ele, cinco empresas --as brasileiras Quanta, Casablanca e CiaRio, além das europeias Pinewood e FremantleMedia-- já procuraram a RioFilme interessadas no edital.
Outro projeto da prefeitura é o da ocupação do quartel-general da Guarda Municipal, em São Cristóvão (zona norte), que será desativado. A ideia é construir ao menos dois estúdios de 400 m², sediar produtoras e locais para cursos de formação de mão de obra --o espaço total é de 25 mil m², em três andares.
"Estamos montando o estudo de viabilidade agora, é mais complexo. Queremos uma fração maior do espaço para cursos e coisas do gênero, que não dão receita", diz Muselet.
Como no caso do edital do Polo Rio, ele diz que pretende criar um projeto que não envolva dinheiro público ("Sempre dá para fazer só com dinheiro privado"). O plano para o local deve ser anunciado no próximo FestRio, no final de setembro.

    quinta-feira, 11 de julho de 2013

    Segundo Marta, Petrobras terá Vale-Cultura

    folha de são paulo
    DO RIOO Vale-Cultura, uma das principais bandeiras da gestão Marta Suplicy no Ministério da Cultura, será sancionado pela presidente Dilma Rousseff na próxima semana, segundo a ministra, e terá a participação de todas as empresas estatais.
    "Eu visitei a última estatal que faltava, a Petrobras, que também vai entrar", disse Marta anteontem, no Rio.
    "Todos os funcionários dos Correios, da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras, de todas as estatais vão entrar. Isso vai dar mais ou menos 200 mil pessoas beneficiadas, fora as empresas privadas que vão participar."
    O Vale-Cultura é um benefício mensal de R$ 50 para a aquisição de bens culturais por parte de trabalhadores que recebam até cinco salários mínimos. Empresas de lucro real --com receita bruta total superior a R$ 48 milhões no ano anterior-- podem destinar ao vale até 1% do Imposto de Renda devido.
    A isenção fiscal financia R$ 45 do benefício, e os R$ 5 restantes ficam a cargo do trabalhador ou da empresa.
    Marta disse que o caso dos Correios é simbólico, porque a empresa tem funcionários em praticamente todos os municípios do país e grande parte dos empregados ganha até cinco salários mínimos.
    "Como o teto é de 1% do lucro real da empresa e os Correios têm muita gente ganhando até cinco salários mínimos, vão ter que colocar entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões de seu próprio orçamento para participar."
    Segundo a ministra, o Vale-Cultura "vai ter um efeito grande na produção cultural", notadamente em cidades pequenas, ao criar demanda.
    O benefício será cumulativo, para que "a pessoa possa juntar para ir num teatro mais caro ou dar uma entrada para comprar um instrumento musical", disse Marta.

      Faltam museus, diz novo titular do setor

      folha de são paulo
      Ângelo Oswaldo de Araújo Santos assume Ibram três meses após nomeação com mesma bandeira de antecessor
      Último presidente do Instituto Brasileiro de Museus já defendia uma instituição em cada município do país
      MARCO AURÉLIO CANÔNICODO RIOMais de três meses depois de ter sido indicado pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, como o novo presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), o mineiro Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, 65, teve sua nomeação publicada anteontem, no Diário Oficial da União, e disse à Folha que o país tem menos museus do que o necessário.
      "O Brasil tem 3.300 museus e [quase] 5.600 municípios, então precisa de mais museus, porque muitos municípios ainda não têm um", disse Araújo Santos anteontem à noite, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.
      "A ministra Marta Suplicy tem a clara compreensão do fenômeno dos museus, porque o museu se transformou num instrumento para o desenvolvimento de projetos socioculturais", disse.
      Araújo Santos ecoa a opinião do antropólogo José do Nascimento Júnior, exonerado por Marta em março deste ano depois de ter criado o Ibram em 2009, com a mesma bandeira de que o país precisa de pelo menos um museu em cada município.
      O Ibram administra diretamente 30 museus federais, além de coordenar as políticas públicas para o setor.
      Segundo Araújo Santos, os museus do Ibram precisam ser "paradigmáticos, referência, e cada vez mais aperfeiçoados". Não é o que se observa hoje na maioria deles. O Museu Nacional de Belas Artes, onde ocorreu a entrevista, sofre com graves problemas de infraestrutura, que não consegue solucionar por demora na liberação de verbas.
      Único museu do Ibram em São Paulo, o Lasar Segall, também perde em comparação com seus concorrentes estaduais, que têm programação mais forte e dinâmica.
      Questionado se a baixa taxa de visitação da maioria dos museus brasileiros não depõe contra a ideia de aumentar o número de instituições, Araújo Santos citou o que vê como exemplos de sucesso.
      "Não acho que os museus brasileiros sejam pouco visitados, porque estou acostumado a ver fila todo dia na porta do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. O museu [Instituto] Inhotim, hoje, atrai gente do mundo inteiro para Brumadinho [MG]. O Museu Imperial, de Petrópolis [RJ], é um dos mais visitados do país", disse, lembrando ainda o Masp, a Fundação Iberê Camargo [Porto Alegre], o MAC de Niterói e o Museu Paulista, em São Paulo.
      "Estamos numa escalada, o país está em desenvolvimento e os museus acompanham o ritmo do país. Há hoje um público novo, com acesso à produção cultural. Há uma transformação positiva, cabe ao Ibram buscar sempre mais, ampliar o público e aprimorar os museus."
      Ex-prefeito de Ouro Preto (MG) em três mandatos, pelo PMDB, Araújo Santos já havia presidido o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão responsável pelos museus do país antes do Ibram.
      Na contramão de boa parte dos presidentes de órgãos ligados ao MinC, que reclamam da falta de pessoal e de verbas, o novo presidente do Ibram elogiou a situação do instituto --que tem um orçamento de R$ 142 milhões previsto para este ano, R$ 14 milhões a mais do que em 2012.
      "Temos equipe competente para assumir qualquer desafio. Do ponto de vista financeiro, temos uma legislação que nos permite captar recursos. A ministra esteve na Petrobras, e vamos ter recursos para investimentos nos museus nos próximos meses."
      Ele não quis antecipar o valor a ser investido pela estatal --disse que Marta fará um anúncio em breve--, mas mostrou que conta com a ministra para cumprir o que chamou de "grande desafio".

        segunda-feira, 8 de julho de 2013

        Marco Aurélio Canônico

        folha de são paulo
        Na Flip, como na Copa
        RIO DE JANEIRO - Durante entrevista na Festa Literária Internacional de Paraty deste ano, Gilberto Gil criticou as "esbranquiçadas" arquibancadas dos estádios brasileiros em jogos da Copa das Confederações.
        Poderia ter dito o mesmo sobre a plateia da Tenda dos Autores, para a qual ele e mais de 40 outros se apresentaram. A audiência da Flip lembra muito a dos eventos Fifa: classe média alta paulista, carioca, branca.
        No ano passado, o escritor americano-nigeriano Teju Cole já havia mostrado seu espanto por ser um dos poucos negros presentes no evento literário, seja na plateia ou no palco --neste ano, aliás, Gil foi o único negro convidado da tenda principal.
        Na Flip, como nas Copas por aqui, pobre e negro só aparece "como prestador de serviço", para citar uma quilombola que participou de um protesto em Paraty, anteontem.
        Como lembrou outro dos convidados da festa literária, o mexicano Juan Pablo Villalobos, esse cenário é "um espelho do que é o Brasil".
        O que falta ao país são mais eventos como a Flupp, a Festa Literária das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), que acontece hoje e amanhã na Penha, zona norte do Rio. Nela, sete autores estrangeiros que estiveram em Paraty irão falar, gratuitamente, para o público de uma das áreas mais pobres e violentas da cidade --a UPP da Penha é daquelas que ainda não fazem jus a seu último P.
        Quem viu a primeira edição da festa literária das favelas no ano passado, organizada com o apoio da Flip, pôde notar como a interação da plateia com os autores é tão viva quanto aquela vista em Paraty.
        Não por acaso, o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, que assistiu à primeira Flupp, afirmou que o sucesso da pacificação depende tanto de eventos como este quanto da presença da polícia. Resta torcer pelo dia em que o público das duas festas se mesclará naturalmente, tanto nelas quanto nos estádios.

          sábado, 6 de julho de 2013

          Público aplaude de pé poemas de Pessoa por Bethânia e dona Cleo

          folha de são paulo - FLIP2013
          Autora encanta festa com 'fazcarigundum'
          Em debate ontem sobre Nabokov, tema de seu livro elogiado, franco-iraniana Lila Azam ganha plateia em Paraty
          Musa do evento, ela falou sobre a influência do autor de 'Lolita' e cantarolou música de Adoniran Barbosa
          RODRIGO LEVINOENVIADO ESPECIAL A PARATYA franco-iraniana Lila Azam Zanganeh, 36, foi consagrada em Paraty como a musa desta Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).
          Ontem, pouco antes de subir ao palco principal e depois de alguns meses estudando português via Skype com um professor brasileiro, a escritora, que fala seis idiomas, temia não ter vocabulário suficiente para levar adiante a discussão com o ensaísta carioca Francisco Bosco, com quem dividiria a mesa "O Prazer do Texto".
          Estimulada por colegas -e pelo namorado brasileiro-, pôs o tanto que já dominava à prova. E, no primeiro pedido de desculpas pela pronúncia (cheia de charme e sotaque francês), ganhou a plateia da Tenda dos Autores.
          SONHO
          Lila é autora de "O Encantador: Nabokov e a Felicidade", um ensaio sobre a busca pela felicidade na obra do autor de "Lolita". Ela disse ter sonhado várias vezes com o próprio durante a feitura do seu livro. Um dos trechos da obra, aliás, traz uma entrevista fictícia com Vladimir Nabokov feita por Lila, no final dos anos 1970. Na verdade, ela tinha apenas dez meses de idade quando o escritor morreu.
          "Nos meus sonhos, ele tinha muitas ideias erradas e o pior: não gostava de escritoras e tradutoras de suas obras", disse.
          Segundo ela, um teste de fogo foi ter lido em voz alta trechos do livro para Dmitri, filho de Nabokov, que estava doente à época.
          "Inicialmente ele ficou bravo, perguntando por que eu havia inventado aquelas coisas que estavam no livro, mas depois me ajudou na pesquisa sobre o pai."
          A autora explicou como a personalidade do escritor russo-americano (1899-1977), que enfrentou uma série de tragédias pessoais e encontrou, nos exílios, novos prazeres da vida, a inspirou na busca pela felicidade em seu texto.
          Um dos pontos altos da mesa se deu quando Francisco Bosco falava da força da expressão verbal na música quando perde o contato com a realidade e tende à explosão, como as onomatopeias de "País Tropical", do cantor Jorge Ben Jor.
          "É como em 'Trem das Onze'", interveio Lila, que continuou, dessa vez cantarolando: "Que tem aquele 'fazcarigundum, fazcarigundum, fazcarigundum'".
          A plateia veio abaixo em sorrisos e aplausos.
            Coutinho diz que só se vê filme nacional 'por acaso'
            Cineasta relança tiragem limitada em que critica filme de Bergman e nouvelle vague
            MARCO AURÉLIO CANÔNICOENVIADO ESPECIAL A PARATY"Eu nunca tenho nada a dizer, amanhã vai ser um problema." A reclamação do cineasta Eduardo Coutinho, 80, na entrevista coletiva ontem, em Paraty, poderia ser mau presságio para a mesa de que participa hoje na Flip.
            Mas basta a primeira pergunta para Coutinho mostrar que tem muito a dizer sobre cinema e o gênero de sua preferência, o documentário.
            "Não me levo muito a sério, isso é essencial. Como eu fiquei relativamente conhecido com 50 anos, levo isso tudo com muita ironia. Eu sou o melhor cineasta de mim mesmo, do meu quarteirão", disse o diretor de "Cabra Marcado para Morrer" (1984) e "Edifício Master" (2002).
            Coutinho disse lidar com a crítica a seus filmes "de modo contraditório". "Quando a crítica é burra, eu nem ligo. Tem coisas que falam bem de um filme meu e eu acho que me enganei, porque, para certas pessoas estarem elogiando, só pode ter sido erro meu. E há outras que indicam novas leituras possíveis, coisas que eu não tinha pensado."
            A presença do cineasta na Flip será celebrada também com uma tiragem limitada do livro "O Olhar no Documentário", que reúne o ensaio que dá título a obra, em que Coutinho analisa sua profissão, e depoimentos de Ferreira Gullar, João Moreira Salles e Eduardo Escorel.
            A parte mais rara do livro é a que inclui críticas cinematográficas que o próprio Coutinho assinou para o "Jornal do Brasil", entre 1973 e 1974.
            Nelas, diz ter falado mal de "O Sétimo Selo", "o pior filme do Bergman, com uma simbologia que pesa toneladas" e atacado duramente a nouvelle vague francesa.
            "Não gosto do surrealismo no cinema, acho que não dá certo. E odeio a vanguarda francesa. Os dois filmes que o [Luis] Buñuel fez com o [Salvador] Dalí, Um Cão Andaluz' e A Idade do Ouro', valem mais do que toda a vanguarda francesa junta, pode pegar e jogar no lixo."
            Com um humor ranzinza, Coutinho falou sobre a falta de audiência do cinema nacional, em que "o público só vê filme brasileiro por acaso". "Estava entrando no cinema para ver um filme nacional e o porteiro me falou: Olha, o filme é brasileiro, hein'",
              Público aplaude de pé poemas de Pessoa por Bethânia e dona Cleo
              Recital dedicado ao português foi um dos pontos altos da Flip
              MARCO RODRIGO ALMEIDAENVIADO ESPECIAL A PARATYA noite de ontem tem tudo para ser lembrada como um dos maiores momentos da história da Flip. A cantora Maria Bethânia e a professora Cleonice Berardinelli fizeram uma homenagem comovente ao português Fernando Pessoa. Foram aplaudidas de pé diversas vezes.
              A palestra foi a primeira a ter os ingressos esgotados nesta Flip.
              Aos 96 anos, Cleonice, ou dona Cléo, como a chama Bethânia, encantou o público com seu humor e disposição.
              A primeira parte da apresentação foi dedicada à leitura ininterrupta, por mais de uma hora, de poemas.
              Dona Cléo, imortal da Academia Brasileira de Letras e especialista em Pessoa, fez um roteiro que abarcou toda a obra do poeta. Começou com "Dois Excertos de Ode", do heterônimo Álvaro de Campos.
              A partir daí elas se alternaram em poemas como "Abdicação", "O Infante" e "Natal".
              Arrancaram ainda mais aplausos a cada vez que recitavam juntas, como em "Todas as Cartas de Amor São Ridículas", em que cabia a dona Cleo todos os "ridículos" ao longo do poema.
              Depois, dona Cleo deitou e rolou com perguntas do público, como "qual seu heterônimo preferido?" ("É como perguntar a uma mãe de que filho ela gosta mais").
              Bethania disse que quer gravar com a amiga um CD recitando Pessoa, ao que dona Cleo complementou: "Responder a isso é mais fácil que as perguntas que vocês me fazem: claro que quero!".
                FLIPETAS
                AQUARELA BRASILEIRA
                A americana Lydia Davis fez um passeio de barco na manhã de ontem, acompanhada do marido. Nadou no mar, alimentou macacos e disse ter se sentido "num paraíso tropical". Sobre Paraty, disse ainda estar "aprendendo a andar nas ruas de pedra", mas elogiou a população e a comida --seu prato preferido foi uma moqueca de banana-da-terra.
                SOM, SOM
                Maria Bethânia inovou na Flip: resolveu passar o som antes de sua mesa ontem, recitando versos de Fernando Pessoa. "Muito ruim. O som tá abafadinho." Reclamou também da luz e do ar refrigerado. "E ainda nem testaram o microfone de dona Cleo! [Cleonice Berardinelli]", disse.
                700
                é o número estimado de participantes da manifestação que atravessará hoje Paraty. O cálculo foi feito ontem por 20 integrantes em reunião de duas horas. A ideia é que eles ocupem por 20 minutos a ponte que dá acesso à Tenda dos Autores --justamente o que preocupa a organização do evento.

                NA INTERNET
                Outros destaques
                A COZINHA VENENOSA
                Silvia Bittencourt dá aula' sobre o Münchener Post', pequeno jornal que fez vigorosa oposição a Adolf Hitler durante dez anos.
                folha.com/no1306723
                ENGAJADO
                Biógrafo de Graciliano Ramos afirma que escritor, filiado ao Partido Comunista, apoiaria os protestos no Brasil.
                folha.com/no1306768
                AFINIDADES
                Ensaísta Roberto Calasso diz que Kafka e Baudelaire têm em comum a habilidade de envolver seus leitores.
                folha.com/no1307074
                LOBÃO
                Na programação paralela, Roqueiro volta ao ataque e classifica projeto de lei que prevê controle do Ecad de golpe'.
                folha.com/no1307287

                ANDRÉ BARCINSKI

                Festa literária e política de Paraty
                Você pode sair de um debate sobre Baudelaire e dar de cara com palhaços lendo histórias infantis
                Veteranos da Flip sentem no ar estranhas vibrações. Se, em anos anteriores, a literatura foi o tema dominante do evento --afinal, trata-se de uma festa literária, certo?--, neste ano, as discussões políticas dão o tom.
                O efeito das manifestações populares que tomam conta do Brasil é sentido em muitas mesas e debates. Gilberto Gil reclamou do público "esbranquiçado" que dominou as arquibancadas do Maracanã na final da Copa das Confederações; Dênis de Moraes, biógrafo de Graciliano Ramos, disse que o velho Graça, se vivo fosse, certamente estaria apoiando os protestos. Na quinta-feira à noite, a mesa "Narrar a Rua", que por vezes teve um clima mais de palanque que de conversa, foi muito aplaudida pelo público.
                Em meio ao tiroteio de opiniões e frases de efeito, um debate sobre o prazer do texto sob a ótica de Nabokov e Barthes, com a franco-iraniana Lila Azam Zanganeh e o ensaísta brasileiro Francisco Bosco, trouxe um pouco de leveza à festa.
                A verdade é que a Flip é uma alegre bagunça. Você pode sair de um debate denso sobre Baudelaire e Kafka com Roberto Calasso e dar de cara com um grupo de palhaços lendo histórias infantis, ou ver uma multidão se espremendo em frente à Casa Folha para ouvir o Pondé falando sobre Kant e Nietzsche.
                Nos cafés e restaurantes, um assunto dominava as conversas: a manifestação marcada para a manhã de hoje, que sairá do cais de Paraty e percorrerá a cidade. A concentração está marcada para as 9h, e a saída, para as 13h. Se as ruas de pedra já ficam intransitáveis nesses dias de Flip, como estarão hoje?
                O que acontecerá quando manifestantes, carregando cartazes contra o preço dos ônibus, os gastos da Copa e a "cura gay", encontrarem os pequenos fãs de Adriana Calcanhotto assistindo a seu show infantil na praça da Matriz? A conferir.

                  sexta-feira, 5 de julho de 2013

                  FLIP2013 - Debate sobre protestos é o mais aplaudido da festa

                  folha de são paulo - FLIP 2013
                  DO ENVIADO A PARATYA primeira das duas mesas extras da Flip para debater os protestos no país, ontem à noite, foi a mais aplaudida da festa até aqui.
                  Reuniu o jornalista espanhol Juan Arias, correspondente do jornal "El País" no Brasil, o poeta Fabiano Calixto, autor de coletânea de poemas inspirada pelos protestos, o diretor Marcus Faustini, que prepara filme das manifestações, e Pablo Capilé, da rede Fora do Eixo.
                  Arias se disse "muito orgulhoso" do que viu nas ruas. "O Brasil acordou, recuperou sua voz e está fazendo perguntas ao poder. Depois disso, nunca mais vai ser o mesmo", afirmou, sob muitos aplausos.
                  Tão ovacionado quanto Arias foi Pablo Capilé, que falou sobre a "crise de intermediários", iniciada com a música a partir do declínio das grandes gravadoras, e que, hoje, estaria na imprensa, "pega de calças curtas quando deveria estar apresentando novas soluções".
                    FLIPETAS
                    ELE VEM?
                    A organização da Flip informou que o poeta palestino Tamim Al-Barghouti, que vive no Cairo e cujos poemas embalaram a Primavera Árabe no Egito, estava ontem no aeroporto a caminho do Brasil, mas que voos antes do dele haviam sido cancelados. Sua participação foi posta em dúvida com o golpe militar de anteontem naquele país.
                    PEDOLATRIA
                    O cartunista Laerte ganhou o público que lotou a Casa Folha na tarde de ontem. Falou sobre política, preconceito, "cura gay" e o fato de se vestir de mulher há quatro anos. Alguns também prestaram atenção em outros talentos de Laerte.
                    "Você tem um pé tão bonito. Gosta de comprar sapato?", perguntou uma fã. Outra, que integrava a longa fila que ficou de pé fora da Casa Folha, ficou encantada com a pele do cartunista.
                    PRA INGLÊS BEBER
                    O ensaísta britânico Geoff Dyer tem declarado aos quatro cantos na Flip que o bar Jobi, no Rio, se tornou o seu botequim predileto no mundo. Ele frequentou o lugar pouco antes de ir a Paraty e promete volta.
                    OUÇA ESTE LIVRO
                    O bósnio radicado nos EUA Aleksandar Hemon foi quem montou o setlist da festa que a editora Rocco fez na noite de quarta. No repertório, músicas que influenciaram sua obra, como "Three", do Massive Attack", "I Zimbra", do Talking Heads, e "Thristy Dog", de Nick Cave & the Bad Seeds.
                    "Acho interessante falar de coisas que não são sublimes, grandiosas, como uma maçaneta. Acho que os poemas de amor estão nas maçanetas, disfarçados"
                    ALICE SANT'ANNA
                    poeta, durante debate ontem com as colegas Bruna Beber e Ana Martins Marques
                      Gil critica falta de negros em torneios no país
                      DO ENVIADO A PARATYO cantor Gilberto Gil criticou, ontem, em Paraty, a falta de acesso da população negra e pobre às partidas da Copa das Confederações e da Copa-2014.
                      "Tem de haver uma mobilização nas favelas para suprir a carência que esses grandes eventos impõem ao Brasil, que é a filtragem pelo preço dos ingressos", disse o ex-ministro da Cultura, que foi ao Maracanã no último domingo, para a final Brasil x Espanha.
                      "Fiquei na tribuna de honra, ao lado do [Joseph] Blatter [presidente da Fifa], do Zagallo, Ivete Sangalo, Jorge Ben Jor. Quando cheguei em casa, vi pela TV que o lugar onde os jogadores correram para abraçar a torcida não tinha o matiz racial brasileiro, era esbranquiçado."
                      Informado de que a Fifa anunciou que venderá ingressos a preços populares na Copa-2014, Gil listou outras sugestões, como linha de crédito bancário ou patrocínio de empresas para parcelar os ingressos.
                        Niemeyer foi o melhor e o pior da arquitetura brasileira, diz crítico
                        Americano Paul Goldberger debateu em Paraty com arquiteto português Eduardo Souto de Moura
                        Um dos principais analistas da área nos EUA defende que brasileiro se repetiu e ofuscou grandes nomes
                        RODRIGO LEVINOENVIADO ESPECIAL A PARATYNo segundo dia da principal festa literária do país, a arquitetura foi responsável por um dos pontos mais elevados dos debates.
                        Na segunda mesa da Flip 2013, o crítico americano Paul Goldberger, vencedor do prêmio Pulitzer, e o arquiteto português Eduardo Souto de Moura, vencedor do prêmio Pritzker de arquitetura, se mostraram pouco simpáticos à obra de Oscar Niemeyer (1907-2012), quando provocados pela plateia a respeito da arquitetura brasileira.
                        "Niemeyer foi brilhante ao mostrar que certas obras são possíveis, mas [essas obras] nem sempre se prestam ao público", disse Souto de Moura, expoente da chamada "escola do Porto" de arquitetura.
                        Crítico de arquitetura mais popular dos EUA --escreveu para o "New York Times" e para a "New Yorker" e hoje tem uma coluna na "Vanity Fair"--, Goldberger foi mais duro ao analisar a obra do maior arquiteto brasileiro.
                        "Niemeyer foi a melhor e a pior coisa para a arquitetura brasileira. A sua sombra perdurou tanto que há até pouco tempo as pessoas sequer conheciam Lina Bo Bardi, certamente uma das maiores arquitetas do século 20."
                        Tanto Souto de Moura quanto Goldberger concordaram no apreço pelas primeiras obras do brasileiro.
                        "Quando ele surgiu, foi como a bossa nova para o jazz: deu sensualidade, curvas, movimento", comparou o americano. "Mas, com o passar do tempo, me parece que ele acreditou demais na própria lenda, se copiar, fazer uma paródia que eu considero simplista de si mesmo".
                        Sobrou também para o urbanista Lucio Costa, com quem Niemeyer projetou Brasília. "Na teoria, Costa é perfeito, coisa que não acontece com a prática de seus projetos", atacou Souto de Moura.
                        Os dois elogiaram a obra de outro brasileiro, Paulo Mendes da Rocha, no dizer de Souto de Moura, "em plena flor da idade criativa". "Interesso-me por seu modo de ver o mundo, sua profundidade ética, política e confesso que já o copiei num projeto", disse, para diversão da plateia.
                        Antes de a discussão desaguar em Niemeyer, Souto de Moura afirmou que todo arquiteto é um esquizoide, na medida em que precisa equacionar a sua originalidade, o pedido do cliente e a exequibilidade da obra.
                        Goldberger foi além: "Eu diria que [o arquiteto é] também um pouco de psiquiatra ou psicanalista, pois, quando ele projeta uma casa para alguém, de certo modo adentra a alma daquela pessoa na busca pelo que a define".
                          NA INTERNET
                          Outros destaques
                          'GUERNICA' VIVA
                          O historiador britânico T.J. Clark deu uma aula sobre a gênese e a influência de "Guernica", obra de Picasso que "se recusa a morrer".
                          folha.com/no1306537
                          CRISE GERACIONAL
                          Paulo Scott e José Luiz Passos falaram sobre política. "Juramos que não cometeríamos os mesmos erros no processo de redemocratização. Mas falhamos", disse Scott.
                          folha.com/no1306470
                          COPA BRANCA
                          Gil critica torcida "esbranquiçada" em Copas e propõe cotas ou parcelamento de ingressos para pobres.
                          folha.com/no1306442
                          NA ALEMANHA
                          Pavilhão do Brasil na Feira de Frankfurt será focado no país como é hoje, evitando a abordagem memorialística.
                          folha.com/no1306463

                            quinta-feira, 4 de julho de 2013

                            Milton Hatoum destaca ética de Graciliano Ramos em Flip política

                            folha de são paulo
                            FLIP 2013
                            Autor usou trechos de obras e trajetória do alagoano para tratar de problemas crônicos do país
                            Para curador da festa, autor de "Vidas Secas" lançaria "olhos meio desconfiados" sobre homenagem a ele
                            DOS ENVIADOS ESPECIAIS A PARATY (RJ)A "postura ética irrepreensível" de Graciliano Ramos (1892-1953), homenageado desta Festa Literária Internacional de Paraty, esteve no centro da conferência com que o romancista Milton Hatoum deu largada, na noite de ontem, à 11ª edição do evento.
                            Numa Flip que se propõe a realizar, segundo o curador Miguel Conde, "um esforço redobrado de pensamento sobre o momento político", trajetória e obra do autor de "Vidas Secas" (1938) permitiram a Hatoum aludir indiretamente a problemas que levaram a manifestos pelo país.
                            "Graciliano teve plena consciência das contradições do país e viu nelas um impasse. E uma das causas, para ele, é a ausência ou inconsistência da educação", disse, referindo-se ao uso da palavra pelo autor alagoano como uma "arma de explicação sutil".
                            Hatoum mesclou, numa leitura de uma hora e meia, trechos de obras do autor, como "São Bernardo"(1934), "Angústia" (1936) e "Memórias do Cárcere" (1953), com interpretações próprias e de críticos como Antonio Candido e Otto Maria Carpeaux.
                            A isso costurou detalhes da trajetória pessoal e profissional de Graciliano, que, nos anos 20 e 30, foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL) e diretor da Instrução Pública de Alagoas, cargo equivalente ao de um atual secretário da Educação.
                            "A postura ética [de Graciliano], que subjaz à visão crítica, está a anos-luz do cinismo, da indiferença e da empáfia que ele criticou na figura de alguns de seus personagens", disse.
                            Hatoum lembrou ainda os célebres relatórios de prestação de contas que renderiam ao autor o convite para publicar o primeiro romance, "Caetés" (1933).
                            "Nesses textos já aparecem os assuntos de Vidas Secas', São Bernardo' e Infância', e a crítica ferina, o tom desabusado e as frases breves de seu estilo literário."
                            DESCONFIANÇA
                            Ao apresentar a conferência de abertura, o curador Miguel Conde disse que "Graciliano devolveria com olhos meio desconfiados o olhar de admiração que lançamos sobre ele".
                            "Ele era avesso a eventos solenes, como este não deixa de ser, e desconfiava da mistificação da figura do escritor, especialmente numa sociedade como a nossa, em que a cultura letrada muitas vezes serve de signo de demarcação das diferenças sociais", disse Conde.
                            Graciliano teria motivos de sobra para desconfiar de Paraty por estes dias.
                            É tema de exposição na Casa da Cultura, tem manuscritos em letras garrafais na entrada da Tenda dos Autores --o trecho de "Vidas Secas" em que a cadela Baleia, prestes a morrer, sonha em acordar "num mundo cheio de preás"-- e está entre os autores mais vendidos na tenda da Livraria da Travessa, que trouxe dezenas de títulos dele ou sobre ele.
                            "CAETÉS"
                            Durante a tarde, a editora Record lançou uma edição comemorativa dos 80 anos do livro "Caetés".
                            O título, escrito entre 1925 e 1928, e revisado pelo autor em 1930, narra a história de um escritor com planos de um grande livro que sucumbe à mesquinharia dos tipos de uma cidade do interior.
                            Segundo Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano, o avô, conhecido pelo pessimismo e pela autoironia, dizia que o romance não era tão bom assim, "mas tinha um ótimo prefácio" --uma referência ao texto do crítico Antonio Candido para a terceira edição da obra.
                            Autor nacional mais vendido da Record, com mais de 4 milhões de exemplares, Graciliano tem sido modernizado aos poucos.
                            Somente neste ano, 12 livros seus estarão disponíveis em formato digital.
                            Em 2014 será lançada edição especial de "Memórias do Cárcere". Também estão programados para o ano que vem uma coletânea de entrevistas e o lançamento de "Cangaços", volume de não ficção incluindo textos inéditos.
                              FLIPETAS
                              SOM PARA TODOS
                              Após começar sua apresentação na abertura da Flip com "Realce" e "Novidade", Gilberto Gil presenciou uma pequena manifestação.
                              Centenas de pessoas que assistiam ao show fora da tenda começaram a reclamar do som, que mal chegava às laterais. Sem entender a reclamação ruidosa, Gil anunciou que estava em assembleia. "Mas vem cá, tem uma pauta específica ou é um movimento difuso como as manifestações?", perguntou, divertindo parte da plateia. O imbróglio durou alguns minutos, até a apresentação ser reiniciada com "Domingo no Parque".
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                              FALTAS JUSTIFICADAS
                              O escritor norueguês Karl Ove Knausgård alegou motivos pessoais para cancelar sua participação na Flip às vésperas do início do evento. A Folha apurou que a mulher do autor está com depressão, o que teria impossibilitado a viagem.
                              Entre organizadores da Flip, corre a maldade de que Michel Houellebecq, outra baixa importante desta edição e que já cancelara sua participação no ano passado, desistiu de vir ao Brasil por medo das recentes manifestações no país.
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                              R$ 13 milhões
                              é o total movimentado em Paraty durante os cinco dias de festa literária, segundo estimativa do secretário de turismo da cidade, Wladimir Santander
                                ANDRÉ BARCINSKI
                                De Maria Bonita a Jack Sparrow
                                Evento mexe com Paraty, muda os hábitos dos comerciantes e até as roupas dos moradores moradores --até na vestimenta
                                Não é segredo que a Flip mexe com Paraty. Tivemos prova disso há alguns dias, quando encontramos nosso amigo Wagão, que só anda de chinelo de dedo e camiseta regata do Fluminense, usando capacete, uniforme de "staff" do evento e falando apressadamente ao walkie-talkie: "Tô trabalhando na montagem das tendas", explicou Wagão.
                                Quem mora na cidade logo percebe os sinais de aproximação do evento: o casal vestido de Maria Bonita e Lampião se coloca na ponte que liga o Pontal ao centro histórico e vende sua literatura de cordel; o jovem de cabelo "black power" posiciona a plaquinha que oferece "versos a um real". Não demora, e aparece também o sósia de Jack Sparrow, de "Piratas do Caribe", cobrando dois reais por uma foto.
                                As lojas da cidade reciclam sua mercadoria: nas vitrines, somem as camisetas "Antes um bêbado conhecido que um alcoólatra anônimo", "Vem pra cachaça você também" e "Instrutor de sexo: primeira aula grátis", substituídas por estampas com poemas de Drummond. Faz parte.
                                Outro personagem inescapável da Flip é o sujeito que chamamos de "morador ocasional": durante os cinco dias da festa, a figura abre as portas e janelões de um casarão colonial no centro histórico, liga um Miles Davis no último volume e passa as tardes sentado na calçada, fumando um cachimbo, lendo poesia e acariciando um cachorro do tamanho de um camelo.
                                Muito "cool". Curiosamente, não é visto nos outros 360 dias do ano. Também faz parte.
                                A verdade é que a Flip é vital para a cidade. Restaurantes, pousadas, hotéis, agências de turismo, barqueiros, cachaçarias, lojas, todos esperam o evento com ansiedade. São 800 empregos diretos, sendo metade para a população local.
                                Os hotéis e pousadas ficam tão cheios que tem gente se hospedando em Ubatuba, a 70 quilômetros.
                                Na tarde de quarta-feira, antes do início oficial da festa, Paraty já estava lotada.
                                Na ponte, Maria Bonita oferecia seus cordéis e autores independentes tentavam vender seus livros. Muito bonito ver tanta gente tentando sobreviver da literatura.

                                  quarta-feira, 26 de junho de 2013

                                  Participantes da Passeata dos Cem Mil, que completa 45 anos hoje, analisam os protestos atuais

                                  folha de são paulo
                                  PAÍS EM PROTESTO 1968-2013
                                  Igual, mas diferente
                                  Participantes da Passeata dos Cem Mil, que completa 45 anos hoje, analisam os protestos atuais
                                  MARCO AURÉLIO CANÔNICODO RIO"Estava todo mundo entupido de problemas, com gana de protestar." A frase da cantora Nana Caymmi se encaixa perfeitamente nos dias atuais, mas se refere a um outro 26 de junho --como hoje, uma quarta-feira--, o de 1968, data da Passeata dos Cem Mil.
                                  Principal manifestação popular de resistência à ditadura militar, a passeata, que aconteceu no centro do Rio, completa 45 anos hoje.
                                  Folha ouviu alguns de seus participantes célebres para colher comparações com os protestos atuais --no Rio, as principais manifestações na semana passada aconteceram na mesma região da de 1968.
                                  "O foco era muito preciso, havia uma mobilização geral da sociedade contra a ditadura", diz Gilberto Gil, um dos muitos artistas retratados durante a passeata por fotógrafos como o americano David Drew Zingg, cujas fotos da época estão expostas no blog do Instituto Moreira Salles (www.blogdoims.com.br).
                                  "Essa de agora é a nuvem, para usar a expressão da internet. É um conjunto de demandas difusas em relação a uma série de coisas, apesar de ter pontos objetivos também, como o passe livre", afirma Gil.
                                  "Naquela época, a gente queria organizar uma democracia. Hoje, existe uma decepção com essa ideia da democracia representativa, e não só no Brasil. Não sei como resolver isso, não gosto de democracia direta, acho que acaba no populismo", diz o cineasta Cacá Diegues.
                                  A Passeata dos Cem Mil foi resultado de uma série de insatisfações e incidentes, como o assassinato do secundarista Edson Luís, 18, pela Polícia Militar do Rio, em 28 de março, no restaurante estudantil conhecido como Calabouço.
                                  "Aquilo se seguiu a três dias de confronto com a polícia na semana anterior, com muitos mortos", diz Vladimir Palmeira, ex-presidente da União Metropolitana de Estudantes e um dos líderes da passeata.
                                  "O governo decidiu permitir porque ficou com medo de que degenerasse para um conflito generalizado. Eles decretaram ponto facultativo, para tentar esvaziar."
                                  Diferentemente das maiores passeatas atuais, com violência de parte dos manifestantes e repressão policial, a de 1968 transcorreu em paz.
                                  "Houve uma intimidação. Tinha tanque de guerra, metralhadoras, cavalos, um aparato militar como se fosse um dia de guerra. Mas a passeata foi em paz", diz o diretor teatral Renato Borghi.
                                  HIERARQUIA
                                  Hoje, como em 1968, foi a jovem classe média que saiu às ruas. "Quem tem consciência e atua na sociedade politicamente é a classe média", diz o poeta Ferreira Gullar, colunista da Folha.
                                  "A diferença é que, naquela época, sabia-se quem estava organizando: a UNE, com os artistas e o respaldo do Partido Comunista. Participaram sindicatos, igreja, associações de mães. Agora não, é o povo desorganizado."
                                  A existência de um comando central na Passeata dos Cem Mil deu unidade política ao discurso e evitou a violência dos manifestantes.
                                  "Escolhia-se desde o itinerário até as palavras de ordem, era mais ensaiado", diz o ex-deputado Fernando Gabeira.
                                  Outro sinal desse planejamento foi a série de discursos na passeata, tanto em seu início, na Cinelândia, quanto no final, em frente ao Palácio Tiradentes-- atacado por manifestantes na semana passada.
                                  Mesmo sem lideranças identificáveis, à exceção do Movimento Passe Livre, as manifestações atuais conseguiram um objetivo semelhante a dos Cem Mil.
                                  Como Costa e Silva à época, Dilma Rousseff recebeu representantes do movimento.
                                  Entre os que estavam no protesto de 1968 e foram ouvidos pela Folha, apenas Vladimir Palmeira foi a uma passeata atual --ele acompanhou a da última quinta no Rio, que reuniu estimadas 300 mil pessoas.
                                  "As maiores reivindicações são por educação, saúde e a luta contra a corrupção. O problema é que grande parte da esquerda se sente atingida pela luta contra a corrupção, fica cheia de dedos por causa do processo do mensalão."
                                  Para Nana Caymmi, agora os protestos precisam parar. "Já deram o recado, o mundo ficou sabendo, agora sossega o rabo. Deixa os outros trabalharem. Se o governo não tomar providência, marquem outra. Ou aprendam a votar."

                                    domingo, 23 de junho de 2013

                                    Nova 'Saramandaia' tem revolta nas ruas e 'Occupy o Coreto'

                                    folha de são paulo
                                    TELEVISÃO
                                    Versão de Ricardo Linhares que estreia amanhã na Globo atualiza tom político da obra de Dias Gomes
                                    Remake da novela clássica exibida em 1976 mantém crítica e realismo mágico, mas agrega personagens
                                    MARCO AURÉLIO CANÔNICODO RIORicardo Linhares já tinha escrito mais da metade da nova versão de "Saramandaia", adaptação da obra de Dias Gomes (1922-1999) que estreia amanhã na Globo, na faixa das 23h, quando viu explodir nas ruas do país uma trama bem parecida com a sua.
                                    "Vejo esses protestos como uma insatisfação generalizada contra políticos, e é exatamente disso que trata a novela", disse o autor por telefone, na última terça --duas semanas após receber a Folha em seu apartamento de frente para a praia de Ipanema.
                                    "Quando comecei a escrever os capítulos, em outubro, já sentia essa revolta contra tudo e contra todos que está em ebulição no mundo. A novela começa com o Occupy o Coreto' e os personagens dizem que estão vivendo a primavera saramandense'."
                                    O caráter político já fazia parte da obra de Dias Gomes, escrita logo após a censura à sua "Roque Santeiro" (1975).
                                    Exibida no ano seguinte, "Saramandaia" incorporou alguns personagens da trama proibida --como o professor que vira lobisomem-- e se destacou pelas metáforas usadas para driblar a ditadura e por levar à TV o chamado realismo mágico, com personagens extraordinários.
                                    "Não faria sentido refazer uma obra dessa sem referências à nossa vida política. O Dias era um cara político e o realismo mágico se caracteriza pela crítica social e política", diz Linhares, que incluiu referências ao mensalão e a outros episódios recentes.
                                    COMÉDIA
                                    Ele frisa, no entanto, que sua versão é uma comédia. "Não é como Anos Rebeldes' [1992, na qual foi um dos colaboradores de Gilberto Braga], que queria documentar realmente aquela situação [a ditadura militar brasileira]."
                                    Linhares propôs à Globo fazer um "remake" há cerca de oito anos. Quando consultou o material original, viu que ele "não tinha tramas, era como se fossem esquetes", e criou um fio condutor inédito --a Globo divulga a novela como sendo "livremente inspirada na obra original de Dias Gomes".
                                    "Criei uma história de amor e ódio entre duas famílias, por três gerações."
                                    Linhares diz ter aproveitado "os personagens emblemáticos do Dias" [veja ao lado] e criado outros, também com traços de realismo mágico --como o de Lilia Cabral, que se derrete por amor, e o de Tarcísio Meira, que criou raízes de tanto ficar sentado.
                                    Para isso, valeu-se de algo que o autor original não tinha a seu dispor: efeitos especiais criados em computador.
                                    Tudo que a primeira versão tinha de tosca na hora de mostrar gente voando ou botando formigas pelo nariz, a nova "Saramandaia" promete de surpreendente. Com 57 capítulos (contra 160 da original) de meia hora cada --a exceção é o primeiro, de uma hora--, tem o tamanho que o autor considera ideal.
                                    A novela marca ainda os 30 anos de Linhares na Globo, onde passou pela oficina de autores dirigida por Dias Gomes, antes de escrever obras como "A Indomada" (1997), com Aguinaldo Silva, e "Insensato Coração" (2011), com Gilberto Braga.

                                      domingo, 9 de junho de 2013

                                      Monarco assume presidência da Portela

                                      folha de são paulo
                                      Aos 79 anos, sambista ganha posto de honra na escola de samba e disputa prêmio de melhor disco do ano
                                      Na quarta, ele volta ao Theatro Municipal, onde no começo da carreira "o samba não passava nem pelos fundos"
                                      MARCO AURÉLIO CANÔNICODO RIOCom a voz grave inconfundível e a autoridade de quem sabe do que está falando, Hildemar Diniz, o homem conhecido como Monarco, se lembra do tempo em que "o samba era considerado coisa de marginal".
                                      "No Theatro Municipal, o samba não passava nem pelos fundos, rapaz. Aquilo ali era só para grandes operetas e para aquelas famílias riquíssimas. Hoje, você vê que o samba frequenta até o Municipal."
                                      De fato: na próxima quarta-feira, o próprio Monarco estará no centenário teatro carioca para disputar o Prêmio da Música Brasileira nas categorias melhor álbum ("A Soberania do Samba") e melhor cantor de samba.
                                      As indicações, diz ele, foram recebidas como um presente pelos 80 anos que completará em agosto, quase todos eles dedicados ao gênero no qual versa desde os sete, quando começou a fazer "uns sambinhas mal-acabados".
                                      Monarco também dedicou a maior parte de sua vida à Portela, escola na qual chegou aos 13 anos e da qual acaba de ser eleito presidente de honra, com a difícil tarefa de ajudar a tirar da fila a maior campeã do Carnaval carioca, cujo último título foi em 1984.
                                      "Eu sou mais antigo, se me enrusto, ia ser falta de coragem, de atitude e de amor", diz o líder da Velha Guarda da Portela, com a qual se apresenta desde os anos 1970 --o primeiro cachê, ele lembra, foi em um show em São Paulo, em 1972, produzido por Elifas Andreato.
                                      AJUDA DO PAULINHO
                                      O sucesso individual viria no ano seguinte. "Eu guardava carros na porta do Jornal do Brasil', até que o Martinho [da Vila] gravou um samba meu que foi sucesso nacional", diz, cantando "Tudo, Menos Amor".
                                      "A partir daí, eu passei a ter credibilidade no meio. Outros intérpretes, como Clara Nunes, Beth [Carvalho], Paulinho [da Viola], passaram a me gravar. Aquela canseira que eu levava nas gravadoras foi parando, graças a Deus."
                                      No vasto repertório que lançou desde então, destacaram-se canções de amores desajustados, como "Coração em Desalinho", "Vai Vadiar" (ambas famosas na voz de Zeca Pagodinho) e "Lenço".
                                      "Desilusões amorosas, tive muitas na minha vida. Por muitas eu mesmo fui culpado, reconheço. Já sofri muito, de eu pensar que estava bem e, de repente, receber uma bola nas costas. Ficava triste, aí nascia o samba."
                                      RECONHECIMENTO
                                      Na maturidade, Monarco encontrou sossego para o coração --está casado há 20 anos-- e valorização para sua vasta obra musical.
                                      "Só me deram reconhecimento mesmo há uns dez anos", diz ele, se referindo ao resgate da Velha Guarda da Portela liderado por figuras de grande apelo midiático, como a cantora Marisa Monte, que produziu o disco "Tudo Azul" (2000) e produziu o documentário "O Mistério do Samba" (2008).
                                      O sambista não reclama da sorte, "porque teve gente até mais injustiçada do que eu, como Cartola e Nelson Cavaquinho".
                                      "Eu estou feliz, muito embora já esteja na reta final. Não estou rico, mas pelo menos tenho esse reconhecimento. Faço show aí pelo Brasil e as pessoas cantam minhas músicas, pedem para tirar foto comigo."
                                      Se a atenção dos fãs faz bem à alma, para manter a voz ele deixou de fumar há 40 anos e diz não beber.
                                      "Não me acho um cantor, mas tem pessoas que gostam da minha voz. Nesse negócio do prêmio que vai ter aí no Theatro Municipal, eu estou na categoria de cantor, veja bem", diz rindo.
                                      Mais do que de sua voz, ele sente orgulho da obra, da inspiração que "nasce espontaneamente, dádiva divina".
                                      "Se não passar pelo coração, fica com prazo de validade. Pode ser sucesso hoje, tocar muito no rádio, mas depois some. E você vê sambas de 80 anos atrás que são cantados até hoje."

                                        domingo, 26 de maio de 2013

                                        Os 40 anos de "Pérola Negra", de Luiz Melodia

                                        folha de são paulo
                                        MARCO AURÉLIO CANÔNICO
                                        DO RIO

                                        RESUMO Descoberto pelos tropicalistas quando ainda morava no morro, o carioca Luiz Melodia estreou em 1973, aos 22 anos, com um disco que ainda hoje impressiona pela força das composições e dos arranjos. A "Ilustríssima" narra os bastidores do sucesso, da musa da maioria das canções aos produtores e músicos do LP.
                                        *
                                        Vinte e oito minutos. Esse foi o tempo que Luiz Melodia precisou para escrever seu nome na história da MPB, com as dez canções que compõem seu álbum de estreia, "Pérola Negra", lançado há 40 anos. Em menos de meia hora, vai do choro tradicional de "Estácio, Eu e Você", a primeira faixa, ao "Forró de Janeiro", a décima. Passa ainda pelo samba, rock, blues, soul, até foxtrote.
                                        Tal variedade, somada à força das letras e da interpretação, causou grande impacto entre os artistas, críticos e intelectuais da zona sul carioca dos anos 70, reverberando a partir daí e garantindo ao disco, décadas depois, lugar cativo entre os melhores da MPB.
                                        O que se ouve em "Pérola Negra" são as crônicas urbanas, o coração partido e a poesia incomum de um rapaz de 22 anos, negro, da zona norte do Rio --morro de São Carlos, no mesmo Estácio que, nos anos 1920, deu à luz o samba.
                                        Divulgação
                                        Luiz Melodia no festival Abertura, em 1975
                                        Luiz Melodia no festival Abertura, em 1975
                                        "Eu não tinha a fissura de ser artista. Gostava de tocar e de cantar, mas não pensava em ganhar a vida com música", diz Melodia, que recebeu a Folha em sua casa, em São Conrado, zona sul do Rio. "Tive a felicidade de estar na hora e no local certos quando uma mulher que virou minha amiga, a Rose, foi morar no morro. Ela conhecia muito os baianos, Caetano, Waly Salomão, Gal, todos eles."
                                        Rose apresentou Melodia a Waly (1943-2003), que frequentava o morro para ouvir samba. O ano era 1971, e o rapaz do São Carlos já tinha um passado em bandas amadoras e em concursos de rádio, além de um punhado de composições que encantaram o poeta.
                                        Agitador cultural nato, Waly Salomão introduziu Melodia à sua trupe tropicalista, incluindo o poeta e jornalista Torquato Neto (1944-72), que usou sua coluna "Geléia Geral", no jornal "Última Hora", para divulgar o "negro magrinho com composições interessantes, do morro do São Carlos".
                                        "O Waly e o Torquato ouviram meu trabalho, outras pessoas da zona sul vieram saber, fiquei amigo de algumas, vira e volta descia o morro para tocar em reuniões na casa da Suzana de Moraes [filha de Vinicius] ou do [Jards] Macalé."
                                        Nesses encontros começou a se destacar a canção"My Black, Meu Nego", que viraria "Pérola Negra" por sugestão de Waly, inspirado pelo apelido de um jovem gay da turma. O baiano, prestes a dirigir o show "Gal a Todo Vapor", instou Melodia a mostrar a pérola à dona do palco. "Fomos a ela num ensaio, peguei o violão e mostrei, e ela ficou apaixonada. Daí ficamos amigos, e ela falou: 'Vou pôr no meu disco'. Foi um acontecimento."
                                        De fato, a reboque do sucesso de "Gal a Todo Vapor" --que lotava ininterruptamente o teatro Tereza Rachel, em Copacabana, e seria registrado em célebre disco ao vivo--, "Pérola Negra" estourou e jogou luz sobre seu compositor.
                                        "A gente conheceu o Melodia em 1972, por causa da gravação da Gal. Foi o [arranjador] Perinho Albuquerque quem me disse que tinha um cara com umas músicas muito boas", conta o músico Roberto Menescal, àquela altura diretor artístico da principal gravadora da MPB, a Philips/Phonogram. "Saquei que já não era mais a bossa nova, a tropicália. Estavam chegando Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Fagner. Fiquei de olho nessa turma. Quando o Perinho me falou, fui sacar as músicas do Melodia e o contratei."
                                        Na época, o cantor passou a ser empresariado pelo poderoso Guilherme Araújo (1937-2007). "Eu tinha, de certa forma, costas bem quentes: ele tinha todo mundo, o Caetano, o Gil, a Gal. Me tornei o caçula, tinha todo um aparato em que confiei e que foi consistente."
                                        Para um jovem desconhecido, vindo do morro, conviver com a turma do desbunde na Ipanema do amor livre e das "dunas do barato" foi um choque cultural. "Eu era um cara à parte da situação, era um menino. Lembro que, quando a Gal, aquela mulher linda e gostosíssima, sentava na minha frente de perna aberta, eu não entendia picas. E era uma coisa natural."
                                        PAPA-ANJO
                                        Em dezembro de 1972, quando entrou nos estúdios da Polygram, em Botafogo, para começar a trabalhar em seu disco de estreia, Melodia já tinha as dez composições próprias, criadas ao violão, que gravaria. Metade havia sido inspirada em uma mulher. "Foi um amor eloquente que eu tive, com 18, 19 anos. Era namorada do Waly Salomão, Deda --bem mais velha do que eu, tinha uns 28 anos, por aí. Ela era tipo 'papa-anjo'", diz o cantor, rindo.
                                        "Ficamos amigos, tivemos uma relação muito rápida, depois ela parou com o Waly. Foi danado. Ela me inspirou bastante, talvez por ter sido a primeira mulher branca que eu namorei. Não sei se ela sabe que foi a musa do disco."
                                        Deda era linda e fina. Ainda que os personagens não lembrem de que país vinha (Melodia diz que ela morava em Lima) nem de seu sobrenome. "Era argentina, se não me engano, tinha cabelo longo, loiro. O pai era cônsul, ela tinha um apartamento muito gostosinho na Lagoa, o Waly foi morar com ela", diz Jorge Salomão, irmão do poeta.
                                        É fácil rastrear em "Pérola Negra" as canções nascidas do caso. E, à exceção da romântica "Magrelinha" --que Caetano Veloso regravaria em 2001--, as letras mostram que ele não acabou bem para o autor. "Quanto você ganha pra me enganar?/Quanto você paga pra me ver sofrer?", pergunta "Vale Quanto Pesa" (que ganhou versão do Barão Vermelho em 1996).
                                        O drama chega ao ápice em "Farrapo Humano": "Eu choro tanto, escondo e não digo/Viro farrapo, tento suicídio/Com caco de telha, com caco de vidro". Veemente, a letra inicialmente foi vetada pela censura da ditadura militar, diz Melodia.
                                        "Tinha um jeitinho que o Guilherme e a gravadora davam que não precisava mexer. Eles faziam as remandiolas deles lá e acabavam liberando." O "jeitinho" não funcionou com "Pra Aquietar", outra faixa cuja letra foi censurada.
                                        O compositor não lembra o que incomodou os censores --a música fala de singelos passeios familiares à ilha de Paquetá, na baía de Guanabara--, mas diz ter reagido intempestivamente. "Com raiva, mudei a letra de imediato, botei qualquer coisa, só pelo som das palavras." Isso explica os versos "não posso pra lá, paraguaio para/menino de cá, faço o tempo parar".
                                        "Pra Aquietar", que ganhou versão de Arnaldo Antunes, tem duas outras particularidades: é a faixa mais roqueira, com guitarra do então desconhecido Hyldon (que faria sucesso com "Na Rua, na Chuva, na Fazenda", de 1975), e é a única sem arranjos do baiano Péricles Albuquerque, o diretor musical do álbum.
                                        VIOLÃO
                                        "O Perinho fez um trabalho genial nos arranjos. Foi muito bacana como ele entendeu a coisa e passou para o papel, me ouvindo tocar as canções no violão", diz Melodia, que, curiosamente, não empunhou instrumentos na gravação. "Devido à autenticidade do meu violão, muita gente queria que eu tocasse no disco, mas não toquei. Achei que havia pessoas que fariam isso melhor do que eu."
                                        O time convocado por Perinho para gravar "Pérola Negra" incluiu alguns dos melhores músicos de estúdio do país, como o baixista Rubão Sabino e o pianista Antonio Perna --o trabalho da dupla é particularmente notável na faixa-título e em "Magrelinha".
                                        Houve ainda convidados pontuais, como Rildo Hora e sua gaita marcante em "Estácio, Holly Estácio" (que Bethânia já havia gravado, em seu disco "Drama", de 1972), os chorões do Regional do Canhoto em "Estácio, Eu e Você", com Altamiro Carrilho na flauta, e o guitarrista Renato Piau, que participou de "Farrapo Humano" e virou parceiro regular de Melodia.
                                        O disco foi gravado no verão de 1973, em sessões diárias, das 9h às 15h. Ficou pronto em menos de dois meses, e sua mixagem original não agradou ao cantor. "Acho que a voz poderia estar num nível diferente, alguns instrumentos não se destacam tanto em algumas músicas", diz Melodia, que no dia desta entrevista ainda não havia ouvido a versão remasterizada do disco, lançada agora pela gravadora Universal em uma caixa com dois outros álbuns dele, "Felino" (1983) e "Pintando o Sete" (1991).
                                        Sua capa, que ficou quase tão famosa quanto as canções, foi feita pelo fotógrafo Rubens Maia, velho parceiro de Melodia. Ela traz duas imagens: na base, cobrindo toda a área disponível, um monte de feijões pretos; em cima deles, no centro, uma foto do cantor dentro de uma banheira na vertical, segurando um globo terrestre.
                                        O desgosto com a mixagem foi atenuado pela boa recepção crítica, que o levou a enxergar a obra com muita autoconfiança. "É um disco em que todas as músicas são geniais. Eu acho, e falavam para mim na época. Quando as pessoas ouviram, ficaram surpresas comigo, com minha idade, com a maneira como eu escrevia, com a intensidade." Não que a surpresa tenha se traduzido em estouro de vendas --a maior parte do dinheiro que Melodia recebeu então vinha da execução de "Pérola Negra" por Gal.
                                        "Não foi um disco de boa venda, mas isso era normal", diz Roberto Menescal, que naquele 1973 emplacou vários novatos bons de crítica (Fagner, Sérgio Sampaio, Melodia), mas só um também de público: Raul Seixas. "O Fagner vendeu mil e poucos discos, o Melodia deve ter vendido por aí também, assim como o Sérgio Sampaio. Nenhum emplacou de cara, mas eu tinha certeza de que havia uma possibilidade boa de carreira ali. Não lembro por que não demos continuidade nele, algum problema deve ter havido."
                                        Houve: Melodia diz que foi pressionado a gravar logo um segundo LP, e que não se sentia pronto em termos artísticos. Na contramão da variedade que eternizaria "Pérola Negra", sugeriram um álbum só com sambas, para poder vendê-lo com o rótulo de "sambista".
                                        "O lance fonográfico era barra. Se pudessem, eles te usavam de maneira que você não mostrava sua arte. Queriam só números, e eu não estava viajando naquela onda." Mesmo iniciante, Melodia marcou posição --e pagou por isso.
                                        "Quando viram que eu não ia gravar um novo disco, até porque eu não estava a fim, começou um choque com a gravadora, eu virei o cara difícil. Saí da Philips e já tinha as más línguas dizendo para não assinar contrato [com ele]. Começou uma coisa maluca de os caras não entenderem o que eu queria e começarem a me ver como difícil. Fiquei anos sem gravar."


                                        Hoje um nome estabelecido na MPB, Melodia crê ter tomado a decisão correta. "Se eu abrisse mão e começasse a fazer um disco atrás do outro, não estaria no cenário musical como estou até hoje."

                                        quarta-feira, 22 de maio de 2013

                                        Teste de esqueleto biônico para paraplégicos deve começar em junho

                                        folha de são paulo

                                        MARCO AURÉLIO CANÔNICO
                                        DO RIO

                                        O ambicioso projeto do grupo de cientistas comandado pelo paulistano Miguel Nicolelis, 52, que pretende fazer um paraplégico dar o pontapé inicial da Copa de 2014, no Brasil, usando um esqueleto biônico controlado pelos pensamentos, deve entrar na fase de testes com humanos no mês que vem.
                                        A revelação foi feita por Nicolelis durante palestra ontem na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), a agência pública brasileira que financia o projeto, chamado Andar de Novo e orçado em R$ 33 milhões.
                                        Daniel Marenco/Folhapress
                                        O neurocientista Miguel Nicolelis, durante a palestra no auditório da Finep, no Rio
                                        O neurocientista Miguel Nicolelis, durante a palestra no auditório da Finep, no Rio
                                        "As primeiras simulações do exoesqueleto já foram feitas e, para minha satisfação, ele funciona como planejado", disse Nicolelis, que está à frente do IINN (Instituto Internacional de Neurociências de Natal) e é professor da Universidade Duke (EUA).
                                        Segundo ele, até o momento, já houve uma simulação com macacos usando um protótipo. "Conseguimos realizar padrões de marcha usando simuladores e, daqui a alguns meses, a gente espera que esse macaco ande com o exoesqueleto tanto lá na Duke quanto no nosso laboratório aqui em Natal."
                                        Para os testes com humanos, os voluntários serão selecionados pela AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) , em São Paulo, segundo Neiva Paraschiva, diretora-executiva da associação que gerencia o IINN. Ela afirmou também que os primeiros testes "não serão invasivos", ou seja, não haverá a conexão de eletrodos ao cérebro do paciente para que eles possam emitir os comandos que controlarão o exoesqueleto. O equipamento deve incluir ainda um revestimento que dará um feedback tátil ao cérebro do usuário, permitindo que ele "sinta" o chão onde pisa.
                                        Segundo a AACD, serão selecionados para o teste dez pacientes com lesão medular incompleta, isto é, ainda com algum grau de movimento.
                                        O superintendente-geral da instituição, João Octaviano Machado Neto, diz que a aprovação do estudo pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) deve sair ainda neste mês.
                                        A parceria da AACD com os cientistas, financiada pela Finep, ampliará o laboratório da entidade, criando "o mais avançado laboratório de reabilitação neurorrobótica do planeta", segundo Nicolelis.
                                        O cientista disse também que o primeiro simulador de locomoção completo do mundo será testado na AACD "nas próximas semanas".
                                        "O paciente vai olhar para um avatar de si mesmo andando e vai treinar o cérebro, usando a informação visual, para gerar os sinais que precisamos pegar para controlar o exoesqueleto no futuro."
                                        Nicolelis se emocionou ao citar a meta de demonstrar o projeto na abertura da Copa.
                                        "Se tudo der certo, um brasileiro ou uma brasileira, jovem adulto, de até 1,70 m, com até 70 kg, vai levantar de uma cadeira de rodas, realizar 25 passos da linha lateral até o centro do gramado e abrir a Copa com um chute da ciência brasileira para toda a humanidade", disse o cientista, indo às lágrimas.
                                        Para Machado Neto, da AACD, o prazo curto, de um ano, até a abertura da Copa não é um problema. "É um desafio, mas os desafios produzem grandes resultados."
                                        Ainda que o exoesqueleto não seja uma solução para todos os paraplégicos, diz ele, é uma vertente importante de pesquisa. "Temos toda sorte de paciente, o importante é melhorar a qualidade de vida deles."

                                        quinta-feira, 16 de maio de 2013

                                        Artistas lançam campanha Rio sem Preconceito com show no Circo Voador

                                        folha de são paulo

                                        MARCO AURÉLIO CANÔNICO
                                        DO RIO

                                        Com um show que incluiu convidados como Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Preta Gil, foi lançada na noite desta quarta (15) a campanha Rio sem Preconceito, promovida pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual, órgão da Prefeitura do Rio comandado pelo estilista Carlos Tufvesson.
                                        "Nos somos os agentes transformadores da sociedade. O preconceito é um problema de todos, se você não fizer nada, uma hora ele chega até você. Não podemos continuar a viver num país em que a cada 23 horas um homossexual é vítima de um crime de ódio", disse o estilista.
                                        Realizado no Circo Voador, na Lapa, o evento gratuito teve público de mais de 2.000 pessoas. "A gente tá aqui pra comemorar, estamos em um lugar em que as pessoas são iguais de coração", disse Zélia Duncan, que cantou sucessos como "Alma" e "Toda Forma de Amor". "Pra mim, é difícil entender como alguém pode ser contra a natureza de uma pessoa, se ela não te fere em nada", afirmou a cantora.
                                        Ney Matogrosso, que cantou "Noite Torta" e "Poema", disse que "está havendo uma regressão na cabeça das pessoas". "A falta de informação gera preconceito, e não apenas sexual. Qualquer preconceito é atraso", afirmou o cantor, que citou ainda seu próprio exemplo:
                                        "O que me difere é que eu sempre tive um pensamento livre. Eu segui as minhas necessidades, meus anseios, não concedi a ninguém o direito de determinar qual o meu caminho no mundo."
                                        A proximidade entre o show e a decisão do Conselho Nacional de Justiça obrigando os cartórios a registrarem casamentos homossexuais foi saudada pelos artistas. "Ainda não foi uma lei, mas é um avanço", disse Caetano.
                                        "Essa é a coincidência mais maravilhosa: o evento acontece no mesmo dia em que foi publicada a resolução. A partir de hoje, eu sou tão cidadão quanto os demais brasileiros. Até ontem eu tinha os mesmos deveres, hoje eu tenho os mesmos direitos", disse Tufvesson, que vive há 18 anos com seu companheiro André.
                                        Roberto Frejat, Toni Garrido e Fernanda Abreu também participaram do show, que teve ainda depoimentos em vídeo das atrizes Fernanda Montenegro, Dira Paes e Cissa Guimarães.
                                        O repertório da noite foi eclético, com os convidados alternando sucessos próprios e alheios. Frejat, que cantou "Amor pra Recomeçar" e "Pro Dia Nascer Feliz", resumiu o espírito da campanha: "As escolhas são pessoais. A gente acha nosso caminho na vida e isso tem que ser respeitado. Não existe regra geral pra nada, não existe um caminho só."

                                        sábado, 4 de maio de 2013

                                        Não deveríamos produzir eventos editoriais, diz novo presidente da Biblioteca Nacional

                                        folha de são paulo

                                        MARCO AURÉLIO CANÔNICO
                                        DO RIO
                                        RAQUEL COZER
                                        ENVIADA ESPECIAL AO RIO

                                        Dois ventiladores tentam cumprir, na sala de reuniões do gabinete da Fundação Biblioteca Nacional, o papel que caberia a um dos antiquíssimos aparelhos de ar condicionado da instituição --posicionado, inerte, ali perto.
                                        É um sintoma do aniversário indesejável que a instituição --detentora do oitavo maior acervo do mundo--, faz neste mês. Completa um ano sem ar-condicionado, desde que o vazamento de um aparelho inundou um andar.
                                        É um mês de decisões emergenciais. Com a saída das políticas de livro e leitura da estrutura da FBN -estas ficarão no MinC, sob comando do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL)-, é preciso redesenhar o organograma.
                                        Leonardo Wen/Folhapress
                                        O cientista político Renato Lessa, que assumiu nesta semana a presidência da FBN
                                        O cientista político Renato Lessa, que assumiu nesta semana a presidência da FBN
                                        As mudanças começaram com a decisão da ministra Marta Suplicy (Cultura) de demitir Galeno Amorim da presidência da FBN, em março.
                                        Agora, o cientista político Renato Lessa, recém-empossado na biblioteca, e o novo secretário-executivo do PNLL, José Castilho Marques Neto, precisam definir, até o dia 31 de maio, a divisão do orçamento entre as duas áreas --para então iniciarem os trabalhos práticos.
                                        Lessa assume a biblioteca, em estado crítico, e, ao mesmo tempo, a organização da participação brasileira na Feira do Livro de Frankfurt, a mais importante do mercado editorial, em outubro. Não gosta do modelo. "Não há contrapartida das editoras, o governo paga tudo", diz.
                                        À Folha ele fala sobre suas metas e o cenário "borgiano e kafkiano" que encontrou.
                                        *
                                        Folha - Como o sr. recebeu o convite para assumir a FBN?
                                        Renato Lessa - Não demorei a notar a mistura do mundo de Jorge Luis Borges com o de Franz Kafka que existe na Biblioteca Nacional.
                                        A dimensão Borges tem a ver com esse paraíso na forma de biblioteca. Mas é um paraíso com fios desencapado, goteiras, que tiram o aspecto diáfano. O lado kafkiano diz respeito à burocracia.
                                        Uma preocupação foi o fato de a biblioteca ter, nos últimos anos, incorporado as políticas do livro. Para mim, era mais do que uma irracionalidade, era algo que asfixiava a biblioteca. Mas isso a ministra já planejava corrigir.
                                        Por que a FBN continua responsável pela área de internacionalização do livro, que faz parte dessas políticas?
                                        A área será reformulada. Saem da biblioteca a DLLLB [Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas], o Proler [Programa Nacional de Incentivo à Leitura] e o Sistema Nacional de Bibliotecas.
                                        A internacionalização do livro fica, mas o conceito muda. Será internacionalização da biblioteca. Manteremos bolsas de tradução, prêmios literários. Isso é compatível com a FBN. Mas o foco será na conexão com outras bibliotecas, redes internacionais.
                                        Como fica a participação em feiras internacionais?
                                        A Feira de Frankfurt é uma política de governo, compromisso assumido em 2010 e que envolve os Ministérios da Cultura e das Relações Exteriores. A FBN cumprirá a sua parte.
                                        Editoria de Arte/Folhapress
                                        Mas penso em outra forma de internacionalizar a biblioteca. A FBN não pode ser plataforma de produção de eventos editoriais. Prefiro que participe com seu acervo, com a destreza de seus quadros técnicos. Não significa que será uma autarquia nacionalista, mas aparecerá de forma mais própria a ela.
                                        Quais são as atribuições da biblioteca em Frankfurt?
                                        Cuidamos da programação literária, que inclui a montagem do pavilhão e o estande das editoras. Cerca de um terço do gasto com o evento, que deve bater os R$ 18 milhões, passa pela FBN por meio do Fundo Nacional de Cultura, não do orçamento fixo da biblioteca. Outra parte é liberada via Funarte e Ministério das Relações Exteriores.
                                        E qual a participação do mercado editorial na organização?
                                        A participação da Câmara Brasileira do Livro hoje é feita só com recursos do governo.
                                        Não acho que seja o ideal. O país precisa de projeção internacional, mas não às custas exclusivas de recursos públicos. O mercado editorial brasileiro é rico. Deve haver contrapartida das editoras.
                                        Qual o maior problema da Biblioteca Nacional hoje?
                                        Há problemas infraestruturais conhecidos. A FBN precisa de obras, emergenciais e de longo prazo, incluindo ar condicionado e segurança.
                                        Quando foram anunciados R$ 70 milhões para questões como o ar condicionado, a perspectiva de solução era para 2015. É possível agilizar?
                                        Um ponto emergencial é tornar operacionais os antigos aparelhos de ar condicionado que temos. A licitação está sendo feita e isso deve se resolver em curto prazo.
                                        Outro fator é uma obra geral na refrigeração da biblioteca. Que não tem a ver só com o desconforto dos frequentadores, mas com o armazém, que chegou a bater 50°C no verão. Não é recomendável uma temperatura dessas para a guarda de documentos.
                                        Preciso analisar os procedimentos já definidos. Vou falar com a Fundação Getúlio Vargas [FGV], que está elaborando os termos para a licitação. A FBN não tem estrutura para fazer isso internamente.
                                        Como está hoje o déficit de servidores na FBN?
                                        O desaparelhamento institucional obriga a biblioteca a contratar serviços para atividades que deveria poder fazer. Se não precisássemos da FGV para elaborar os termos necessários à licitação, o processo poderia ser abreviado.
                                        É urgente um concurso público. Deve ocorrer em curto prazo, mas não repõe todo o quadro necessário.
                                        Qual seria o quadro ideal?
                                        A biblioteca tem 791 pessoas, entre terceirizados, cedidos por outros órgãos e concursados. Houve evasão de 25% dos concursados desde 2006. Parte do que hoje é terceirizado deveria e deverá ser incorporado à estrutura.
                                        Com a vinda da imensa estrutura das política do livro para cá, houve um realinhamento dos cargos de confiança. A composição ficou torta.
                                        E é preciso aumentar salários. Como a guardiã da memória do país pode ser desmemoriada em relação aos que trabalham nela?
                                        O sr. é a favor da equiparação com a Casa de Rui Barbosa?
                                        É um belo exemplo. A Casa Rui conseguiu aumentar os salários por ser uma casa de pesquisa. Foi entendida dentro do sistema nacional de ciência e tecnologia. A FBN tem de fazer o mesmo.
                                        Vou convidar o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, a visitar a biblioteca. Não se trata de mudar de ministério, mas de reconhecê-la como um ente híbrido.
                                        Como está a digitalização do acervo da biblioteca?
                                        Há uma ênfase do governo no tema da inovação. A biblioteca tem que mostrar que guardar acervos tem a ver com inovação. Temos uma estrutura boa para digitalização.
                                        O trabalho já está sendo feito, mas precisamos acelerar, pensar num instrumento de busca que vincule outras bibliotecas. Uma ideia é trabalhar por uma rede de bibliotecas lusófonas, compartilhando bases.
                                        *
                                        RAIO-X
                                        RENATO LESSA
                                        VIDA
                                        Nasceu no Rio de Janeiro. Tem 58 anos.
                                        FORMAÇÃO
                                        Ciências sociais pela Universidade Federal Fluminense, mestrado e doutorado em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro
                                        CARREIRA
                                        Professor de teoria política na UFF (Universidade Federal Fluminense), foi diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj) e presidente do Instituto Ciência Hoje