segunda-feira, 18 de março de 2013

Xico Sá

folha de são paulo

FOCO
Monólogo de Nicole Puzzi nos torna meninos espiando pela fechadura
Uma das divas da pornonchanchada dos anos 1970/1980 estreia espetáculo em bar de SP
XICO SÁCOLUNISTA DA FOLHANicole Puzzi voltou uma ova, Nicole Puzzi nunca saiu das nossas cabeças. Se o amigo tem mais de 40 sabe perfeitamente o que estou falando. É pronunciar Nicole Puzzi e o desejo rebobina rolos e rolos de filmes em cartaz permanente.
Por isso foi tenso vê-la em carne e osso. A diva da pornochanchada protagoniza a peça (ela prefere chamar de "stand-up romântico") "Eu Só Estava Amando em 70", texto dela com direção de Dominique Brand, no bar Biroska.
Nicole Puzzi, 54, continua linda e gostosa como na capa da velha "Status" amarelada que guardo comigo. A mesma "Status" das revelações inéditas do cronista Rubem Braga -a picareta desculpa para tê-la até hoje.
No monólogo com tintas autobiográficas, a atriz encarna a personagem Mirna Loy, uma romântica enrustida que dialoga com amores à distância e, quando enche a cara, conversa com Elvis Presley.
Só Nicole Puzzi para fazê-lo sambar miudinho. O roqueiro também funciona como consultor sentimental da moça.
Ali está, no palco do bar, a atriz de "Convite ao Prazer" (1980), de Walter Hugo
Khouri, o Antonioni da Mooca, o homem que sabia filmar as mulheres mais do que qualquer outro cineasta do mundo.
Nicole Puzzi que arrastava multidões aos cinemas de rua nos anos 1970 e 1980. A estrela de "Possuídas pelo Pecado", de Jean Garrett, a "Ariella", de John Herbert, que também a dirigiu em "Tessa, a Gata".
Não há como não ficar nervoso de tesão ao rever Nicole ali na tua frente falando do amor nos tempos do drive-in. "Era ditadura e eu só estava amando", sussurra, entre uma música e outra de Roberto. Chega a ameaçar o Rei com um processo. É que as canções do cara a deixam triste, tadinha da nossa musa.
E quando ela interage com a plateia -com a presença de muita gente do cinema da "Boca do Lixo"- e dialoga justamente contigo!
Ela me perguntou se devia usar um vestido transparente ou uma saia cor-de-rosa com blusinha idem. Votei pela transparência total do figurino. Não foi nada fácil.
Trêmulo, senti-me um tarado Tarcisão Meira de "Eu", a mais freudiana das fitas de Khouri, com Nicole, óbvio.
Eu só estava amando quinta à noite no Biroska. Porque o monólogo de Nicole Puzzi é uma brincadeira com o tempo e nos põe como adolescente no buraco da fechadura.

    Rock do século passado

    folha de são paulo

    Folhateen 
    Bandas dos anos 1990 voltam a tocar no rádio e a ter destaque em festivais, adoradas por adolescentes que rejeitam grupos novos e veneram um som mais furioso
    DANILA MOURACOLABORAÇÃO PARA A FOLHA"Fomos a última geração que fazia canções mais transgressoras. Rolava uma abertura maior para bandas com letras ferozes e riffs fortes. Atualmente, a indústria fonográfica, amedrontada pela pirataria, prefere investir em fórmulas fáceis de vender. É uma pena", declara Canisso, baixista do Raimundos.
    Grupo que se manteve na ativa desde os anos 1990, com Digão assumindo o microfone depois da saída do vocalista Rodolfo -que virou evangélico-, Raimundos está de volta às radios e aos shows lotados.
    Mas esse renascimento passa longe de tiozinhos saudosistas. "A grade da plateia dos shows é dominada 90% por garotos de 15 anos. É gratificante!", exalta Canisso.
    "Essa melação pop de Restart e genéricos eu não aguento ouvir de jeito nenhum", brada o estudante Fernando Costa, 14, que fala de bandas brasileiras como se estivesse numa rodinha de amigos há 20 anos. "Tinha despontado o Charlie Brown, rolava Rumbora, era uma época de bandas com letras muito mais divertidas, escrachadas. Hoje eu não sinto a mesma pegada", declara o estudante Felipe Holanda do Nascimento, 21, que visita frequentemente os estúdios da rádio UOL 89 FM e tem pavor de rock bonitinho demais.
    MUDANÇA DE GÊNERO
    Até hoje o paulistano Gabriel de Souza Shon, 25, consegue se lembrar do dia em que voltou do colégio, em 2006, e ligou o rádio. Tomou um susto que deu um nó em sua garganta roqueira. "Ouvia a 89 FM direto, era a trilha sonora do meu dia a dia. Do nada, começou a tocar dance music. Chocante, tinha virado uma rádio pop!"
    Após um período em que mudou radicalmente seu estilo musical, a emissora famosa como "a rádio rock" voltou ao gênero. Além de se manter no dial, passou a ser hospedada na internet com a marca UOL 89 FM.
    "Esperávamos atender somente um público na faixa dos 35 anos, saudosista dos anos 1990. Mas nos surpreendemos com o grande número de adolescentes que nem era nascido no auge da emissora e hoje prefere ouvir bandas daquela época. E o ibope está respondendo com sucesso", afirma Ricardo Dutra, diretor de marketing do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.
    É gente como Shon e outros adolescentes que ainda usavam fraldas enquanto os shows do Raimundos agitavam rodinhas de pogo ao som de "Quero Ver o Oco".
    Falta de transgressão nas letras, melodias sobre o amor e o visual meigo da maioria das bandas brasileiras de hoje são reclamações de uma legião de teens fãs das mesmas bandas da adolescência de Shon. Inclusive sua irmã Heloísa, 18, que tinha só dois anos quando o Planet Hemp foi detido pela polícia, acusado de apologia às drogas.
    "Até gosto de algumas bandas atuais, mas acho quase sempre bobinhas. Prefiro ouvir Raimundos, Planet Hemp e Charlie Brown Jr.", afirma a garota.
    Outro termômetro que atesta essa tendência no gosto dos adolescentes é a presença desses grupos nos grandes festivais de música. No próximo dia 31, o Planet Hemp fecha a noite do palco Butantã no Lollapalooza Brasil, em São Paulo.

      Hits dos anos 90
      "Raimundos"
      Raimundos (1994)
      Primeiro álbum da banda, pelo selo indie dos Titãs. Com "Puteiro em João Pessoa" e "Selim"
      "Gol de Quem?"
      Pato Fu (1995)
      O disco que fez a banda de Fernanda Takai estourar, com os hits "Mamãe Ama meu Revólver" e "Sobre o Tempo"
      "Rappa Mundi"
      O Rappa (1996)
      O grupo de Falcão, ainda com Yuka, emplacou "A Feira" e "Pescador de Ilusões"
      "Usuário"
      Planet Hemp (1996)
      Marcelo D2 & Cia. detonam polêmica com "Legalize Já" e "Mantenha o Respeito"
      "Preço Curto... Prazo Longo"
      Charlie Brown Jr. (1999)
      Chorão canta os hits "Te Levar" (que foi para "Malhação")
      e "Zóio de Lua"

        Vanessa Barbara

        folha de são paulo

        Sigam aquele inhame
        Nunca tinha visto "Community" (Sony, quartas, às 17h30, e sábados, às 14h30) até ser atraída pelo episódio "Basic Lupine Urology", eleito o melhor capítulo de comédia de 2012 pelo site TVLine.
        A série aborda um grupo de adultos desajustados numa faculdade comunitária na cidade de Glendale, Colorado. Uma das peculiaridades da atração é o uso de metalinguagem em paródias cinematográficas e televisivas, e o episódio acima é um belo exemplo.
        O capítulo segue os clichês de séries policiais na investigação do assassinato de um inhame, experimento de biologia que foi covardemente arremessado e pisoteado.
        A cena do crime é lacrada e uma das alunas, fã de histórias policiais, destaca dois colegas para a investigação: "Encontrem testemunhas, estabeleçam a hora da morte, descubram o motivo e me tragam um suspeito. Vocês têm 48 horas antes que a trilha esfrie. Comecem pela última pessoa a ver o inhame vivo".
        Troy e Abed passam a agir como uma dupla de detetives durões. Munidos de frases de efeito, invadem um asilo para interrogar o velhinho responsável por regar a planta, que, pressionado, confessa que não chegou a fazê-lo. Seu álibi, considerado plausível pelos investigadores: "Adormeci tomando um solzinho".
        No laboratório, uma mulher faz a autópsia do legume e diz que "o cilindro vascular foi totalmente desintegrado". Abed pergunta: "Alguma possibilidade de ter sido natural?", e ela ri: "Para um inhame ficar assim, é preciso mais do que gravidade. Precisa de uma bota".
        Por trás do vidro de um aquário, na sala de interrogatório, o aluno designado para ser o "tira mau" perde o controle e brada: "Não faz sentido! Ketchup é um condimento!", dando um soco na parede.
        Na sequência, há uma perseguição em que ambos gritam: "Saiam da frente! Não somos policiais!".
        O episódio é bem encadeado e cheio de reviravoltas. Na hora de deter um suspeito, os policiais recitam: "Todd, você tem o direito de fazer o que quiser. Nada do que disser ou fizer poderá ser usado contra você, mas realmente gostaríamos que viesse, por favor e obrigado".
        Naturalmente, há um julgamento, quando os policiais afirmam que concordaram em omitir uma informação por motivos de "promessa do mindinho". O episódio tem cortes ousados, diálogos divertidos e cenas excêntricas. Será exibido na próxima quarta-feira, no canal Sony.

          Luiz Felipe Pondé

          folha de são paulo

          Helena não tem culpa
          Responsabilizar a mulher pelos males do mundo é coisa de homem brocha que quer aplacar sua desgraça
          Dias atrás, uma amiga, alta executiva paulista, radicada no Rio, me mandou um e-mail com a cópia de uma resenha sobre um livro (fruto de pesquisa de campo) de um antropólogo,
          Napoleon Chagnon, que estudou os índios ianomâmis no Brasil e na Venezuela por muitos anos.
          Suas conclusões não são aquelas que a comunidade acadêmica, ideologicamente orientada na sua quase totalidade, costuma gostar.
          Quem sabe, este "desgosto ideológico dos pares" (gente ávida por destruir oponentes teóricos) tenha sido responsável pelos desdobramentos negativos que o antropólogo teve em sua vida profissional por conta desta pesquisa.
          O livro ("Noble Savages"), que logo comprei, deveria ser lido nas escolas. Um tratado contra a tradição marxista, não só em antropologia, mas em tudo mais. Mas o que especificamente tem esse livro contra esta tradição?
          Engana-se quem pensa que a tradição marxista comece com Marx, ela começa com Rousseau e seu bom selvagem. O princípio é que o homem é bom e a sociedade é que o perverte. A perversão do bom selvagem pelo "Das Kapital" é apenas uma decorrência do principio do Rousseau, só que para Marx não partimos do bom selvagem, mas sim chegaremos a ele quando superarmos esta sociedade má.
          Uma ideia assim (que somos bons e a sociedade nos corrompe, e aqui você pode colocar no lugar de "sociedade" a família, o patriarcado, a igreja, o capital, os EUA, o patrão, seu pai autoritário) faz almas fracas gozarem de prazer. Porque o que ela diz é que, ao final, não sou responsável por nada que faço. Não fosse pela "sociedade", eu seria um homem bom.
          Ao contrário do que parece, essa tradição pegou porque alimenta algo de muito banal: que somos homens bons em nossa natureza essencial. Esta ideia alimenta nossa vaidade e não foi por outro motivo que Burke, filósofo britânico do século 18, chamava Rousseau de "filósofo da vaidade".
          Nossa origem é o bom selvagem? É por isso que australianos que não têm o que fazer se pintam de aborígenes e gritam por aí? Quanta bobagem! Quanto lixo escrito com tinta cara!
          Também concordo que devemos olhar para o "passado" para entendermos como somos hoje. A diferença é que minha ideia de "estado natural do homem" é diferente da de Rousseau, o filósofo da vaidade. Partilho da ideia que para nos entendermos devemos olhar para a pré-história de fato, e não a mítica, como a do Rousseau.
          Este mito alimenta uma outra bobagem: a ideia de que toda diversidade cultural é linda. "Viva a diferença!", dizem os festivos por aí.
          A "humanidade", na sua capacidade frágil de não ser bicho malvado, foi tirada das pedras, à custa de muito sangue. Sempre bebemos o sangue dos outros no café da manhã.
          E aí voltamos ao livro. A conclusão de Chagnon é que os ianomâmis, parentes nossos que vivem muito perto do que seria o neolítico, tribos que permaneceram bastante "puras" enquanto outras já haviam sido "contaminadas pela maldade do homem branco" (risadas?), sempre se mataram por uma razão nada complexa: "mulher, mulher, mulher".
          Inclusive, quem tinha mais mulher, tinha mais descendentes.
          Qualquer evolucionista gargalharia diante de tamanha obviedade ocultada pelas interpretações ideológicas pueris da falsa história do bom selvagem.
          Os ianomâmis também têm suas Helenas de Troia. Entre eles, quem matava mais tinha mais mulher. Entre nós, quem é mais "adaptado" tem mais mulher.
          Não se trata de culpar as mulheres porque são filhas de Eva. Responsabilizar a mulher pelos males do mundo é coisa de homem brocha que, por não conseguir penetrá-la, recorre à falsa culpa feminina para aplacar sua desgraça.
          Reconhecer que os ianomâmis se matam em troca de mulheres (ou se matavam enquanto eram "puros" ou "bons selvagens") não é uma prova contra as mulheres. É uma prova contra Rousseau e sua tradição do bom selvagem.
          Eu, pessoalmente, acho até uma boa causa. Quero dizer, nos matarmos por mulheres. Neste caso, o troféu é bem concreto e todo mundo sabe de seu "valor de uso".
          Isto é, não precisamos de provas metafísicas para reconhecer o valor de uma mulher.