sábado, 23 de março de 2013

Complexo de gabiru - Xico Sá

folha de são paulo

Amigo torcedor, amigo secador, impusemos 2 x 0 na Itália, ainda no primeiro tempo --poderia ser três se o homem de preto não fosse um dom Corleone de ocasião que roubou um pênalti explícito-- e parecia que o Brasil inteiro implorava pelo empate deles. Parecia que o Brasil inteiro não mais acreditava que seria normal, no ano da graça de 2013, um triunfo de goleada sobre a Itália.
O país inteiro pediu, nos botecos e nas redes sociais, para tomar o empate. Como assim, 2 x 0 na Azurra, impossível, tem algo de errado. Ninguém acreditava. Os moleques principalmente. O inconsciente de videogame falava mais alto. Não podemos vencer os europeus, ora bolas, eles são incríveis, tampas de Crush, fodões do bairro Peixoto.
Vivemos, à véspera da Copa das Confederações e na antevéspera da Copa-14, não mais o rodriguianíssimo complexo de vira-lata pré-1958, vivemos algo muito pior, vivemos a síndrome do cão de raça premiado em momento de certa decadência. O cão desconfiado da sua potência.
Após cinco taças, a canarinha não ganha dos grandes, quase sempre é encurralada --independentemente do técnico-- e vê-se, no semblante de cada um dos jogadores, de cachorro pidão e inferiorizado.
A narrativa da crônica ludopédica nem se fala. É mais humilhante ainda. Diante de qualquer esperneio de Neymar, por exemplo, carimba-se o passaporte do menino para a Europa. Fica uma pergunta pendurada: quantas Copas ganhamos por causa desse suposto selo de qualidade? O jequismo mata o Brasil de inanição, amigo. Crescemos economicamente e ficamos condenados ao terceiro-mundismo mental.
O inconsciente gabiru não nos deixa matar o jogo no primeiro tempo. Ah, como assim, é a Itália! Como assim, é um gigante. Como assim, somos o 18º no ranking da Fifa. E nisso esquecemos inclusive a superioridade de títulos e decência estética na arte de jogar bola.
É a cabeça, irmão, como diria o compadre Walter Franco. Nossa crise não é técnica, não é tática, não é de pé de obra, como me ensinou o amigo Sócrates. Temos bons aqui e nos melhores times do mundo --só para acalmar o jequismo.
Fico em dúvida em nomear nosso complexo. Se caísse no conto da mídia diria: os técnicos europeus reinventaram a bola. Não caio. É de enrubescer o Jeca Tatu tamanha e óbvia tautologia a cerca do nada.
Sim, amigo Tite, falam muito e não dizem nada. Precisamos urgentemente recuperar nosso passado de cão mordedor. Vira-lata ou de raça. Não importa. E principalmente precisamos esquecer a Europa. Precisamos comer, viver, existir e jogar bola como brasileiros.
Pela repatriação do nosso inconsciente coletivo. Voltemos à várzea para sermos grandes de novo.
Pelo direito imediato de chamar todo lateral esquerdo de João, como fazia o Garrincha.
@xicosa
Xico Sá
Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte".

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Universal fará campanha publicitária para se apresentar como igreja "comum"


A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, vai lançar ofensiva publicitária em rádios, jornais, revistas, outdoors e emissoras de TV para "apresentar" a comunidade "à sociedade". Nas peças não serão mostrados bispos nem templos, mas pessoas "comuns" que seguem seus preceitos.
CORPO
A publicidade vai mostrar empresários, atletas, jornalistas e advogados, por exemplo, contando suas histórias de vida. No final, todos encerram com a frase: "Eu sou a Universal". A campanha começa na segunda.
QUESTÃO DE ESTADO
E o papa Francisco confirmou viagem a Brasília em julho. Vai se encontrar com a presidente Dilma Rousseff, o que transformará sua vinda ao país, para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio, em visita oficial.
EM OBRA
Dilma Rousseff continuará com o pé na estrada nas próximas semanas. Depois da Páscoa, ela visita Salvador para inaugurar o estádio Fonte Nova, vai ao Ceará para visitar barragens e ao Rio Grande do Norte para ver as obras do projeto Minha Casa, Minha Vida.
EM OBRA 2
Encerrado o roteiro no Nordeste, Dilma segue em outra direção. Vai visitar os três Estados do Sul do país.
MULTIPLICARTE
Karime Xavier/Folhapress
Ana Serra (à esq.) e Renata Castro e Silva, nora da galerista Nara Roesler, resolveram investir no mercado de arte. Elas inauguram na terça a Carbono, em Pinheiros. A galeria terá como foco os trabalhos múltiplos (peças feitas para serem reproduzidas) de 16 artistas, como Waltercio Caldas, Antonio Dias e Paulo Pasta. "O múltiplo democratiza e facilita o acesso às obras de arte", diz Ana.
CORPINHO DE 50
"É mentira que completei 70 anos", brinca Milton Nascimento. Depois de uma bateria de exames, os médicos do cantor informaram que ele tem a saúde de uma pessoa de 50 anos.
NA SALA DE JANTAR
A israelense Michal Rovner, que participará da SP-Arte, fará uma instalação especial para a casa de Kim Esteve, na Chácara Flora, em São Paulo. É que será na residência do colecionador o jantar oferecido pela galeria Pace, que tem espaços em Nova York, Londres e Pequim, no dia 4, a convidados da feira de arte.
HOLLYWOOD É AQUI
O ator americano Paul Walker e as modelos Erin Heatherton e Izabel Goulart desfilaram pela Colcci, na quinta-feira (21), no penúltimo dia da São Paulo Fashion Week. Os atores Tiago Abravanel e Nívea Stelmann e a cantora Alinne Rosa conferiram a coleção.

Paul Walker, de "Velozes e Furiosos", desfila na SPFW

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Zanone Fraissat/Folhapress
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O ator americano Paul Walker desfilou para a Colcci no penúltimo dia da São Paulo Fashion Week, na quinta-feira (21)
À FRANCESA
O evento Le Brésil Rive Gauche, do Le Bon Marché, em Paris, teve coquetel de lançamento no hotel Fasano. A consulesa francesa Alexandra Loras, a estilista Gilda Midani e a apresentadora Paola de Orleans e Bragança estavam presentes.

Famosos vão a evento no hotel Fasano

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Avener Prado/Folhapress
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A apresentadora e modelo Paola Orleans e Bragança participou do evento de moda Le Brésil Rive Gauche, no hotel Fasano, na terça-feira (19)
VARELA REEDITADO
Marcelo Tas foi autorizado pelo Ministério da Cultura a captar R$ 600 mil para recuperar os vídeos do repórter Ernesto Varela, seu personagem que fez sucesso nos anos 1980, na TV Gazeta, em parceria com Fernando Meirelles. O material será disponibilizado gratuitamente para consulta na internet. Vai virar livro, DVD e fará parte do acervo da Cinemateca Brasileira.
VARELA REEDITADO 2
Entre o material que será recuperado estão séries de entrevistas na antiga União Soviética, em Cuba e com políticos brasileiros como Lula, Fernando Henrique Cardoso, Marta Suplicy e, claro, Paulo Maluf. "O Malufão é um dos mais presentes", diz Tas.
UMA VERDADE
Os músicos José Miguel Wisnik, Juçara Marçal e Celso Sim participarão amanhã, às 11h, de ato do Dia Internacional do Direito à Verdade, na rua Maria Antônia, em São Paulo.
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A Companhia do Latão fará um coro com "As Cinco Dificuldades para Escrever a Verdade", de Brecht. A psicanalista Maria Rita Kehl, da Comissão da Verdade, falará sobre a importância da data.
MÚSICA DO BEM
O jornalista Salomão Schvartzman, Denise Feder e Vera Len estiveram, na quinta-feira (21), no Theatro Municipal, em concerto beneficente do pianista Arnaldo Cohen e da Orquestra Sinfônica Municipal de SP.

Concerto beneficente no Theatro Municipal

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Avener Prado/Folhapress
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O jornalista Salomão Schvartzman esteve no concerto beneficente em prol da Acredite e do Ciam, no Theatro Municipal de SP, na quinta (21)
CURTO-CIRCUITO
Regina Duarte inicia neste sábado (23) temporada da peça "Raimunda, Raimunda" no Sesc Ipiranga. 14 anos.
Reinaldo Lourenço e Daslu lançam coleção masculina, a partir das 11h, na loja do Cidade Jardim.
Lígia Cortez recebe o diretor inglês Jonathan Martin para workshop na escola de artes Célia Helena.
Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza, recebe prêmio neste sábado no Fórum Nacional do Varejo, no Guarujá.
Fause Haten faz show do CD "Vício", às 20h, no Itaú Cultural, na Paulista. Livre.
O DJ Renato Ratier, do D-Edge, toca no domingo (24) em duas festas em Miami.
Mônica Bergamo
Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

Combate às drogas - Drauzio Varella

folha de são paulo

No combate às drogas ilícitas vamos de mal a bem pior. Até quando insistiremos nesse autoengano policialesco-repressivo-ridículo que corrompe a sociedade e abarrota as cadeias do país?
Faço essa observação, leitor, porque será votado na Câmara um projeto de lei que endurece ainda mais as penas impostas a usuários e traficantes.
Em primeiro lugar, não sejamos ingênuos, a linha que separa essas duas categorias é para lá de nebulosa: quem usa, trafica. O universitário de família privilegiada compra droga só para ele? O menino da periferia resiste à tentação de vender uma parcela da encomenda, para diminuir o custo de sua parte? Como amealha recursos o craqueiro da sarjeta que tem por princípio não roubar nem pedir esmola?
Nas ruas, quem decide como enquadrar o portador de droga apanhado em flagrante é o policial. Entre o universitário branco de boas posses e o mulato do Capão Redondo você consegue adivinhar quem irá preso como traficante?
Embora considerada tolerante, a legislação vigente desde 2006 agravou a situação das cadeias. Naquele ano, foram presos por tráfico 47 mil pessoas, que correspondiam a 14% do total de presos no país. Em 2010, esse número saltou para 106 mil, ou 21% do total.
O projeto a ser votado propõe várias ações controversas, para dizer o mínimo.
Entre elas, a ênfase descabida na internação compulsória, enquanto os estudos mostram que o acompanhamento ambulatorial é a estratégia mais importante para a reinserção familiar e social dos dependentes. Isolá-los só se justifica nos casos extremos em que existe risco de morte.
O projeto propõe uma classificação surrealista das drogas de acordo com sua capacidade de causar dependência, segundo a qual alguém surpreendido com crack seria condenado a pena mais longa do que se carregasse maconha.
No passado, os americanos adotaram lei semelhante, que condenava o vendedor de crack a passar mais tempo na cadeia do que o traficante de cocaína em pó. As contestações judiciais e os problemas práticos foram de tal ordem que a lei foi revogada, há mais de dez anos.
O projeto reserva atenção especial à criação de um incrível "cadastro nacional de usuários". No artigo 16, afirma que "instituições de ensino deverão preencher ficha de notificação, suspeita ou confirmação de uso e dependência de drogas e substâncias entorpecentes para fins de registro, estudo de caso e adoção de medidas legais".
Nossos professores serão recrutados como delatores dos alunos para os quais deveriam servir de exemplo? Os colégios mais caros entregarão os meninos que fumam maconha para inclusão no cadastro nacional e "adoção de medidas legais"?
O mais grave, entretanto, é o endurecimento das penas. Segundo a lei atual, a pena mínima para o fornecedor clássico é de cinco anos; o novo projeto propõe oito anos. Os que forem apanhados com equipamento utilizado no preparo de drogas, apenados com três a dez anos na legislação de hoje, passariam a cumprir de oito a 20 anos. As penas atuais de dois a seis anos dos informantes que trabalham para grupos de traficantes, seriam ampliadas para seis a dez anos. E por aí vai.
Enquanto um assassino covarde responde ao processo em liberdade, quem é preso com droga o faz em regime fechado.
Não quero entrar na discussão de quanto tempo um traficante merece passar na cadeia, estou interessado em saber quanto vamos gastar para enjaulá-los.
Vejam o exemplo do Estado de São Paulo, que conta com 150 penitenciárias e 171 cadeias públicas. Apenas para reduzir a absurda superlotação atual deveríamos construir mais 93 penitenciárias.
Se levarmos em conta que são efetuadas cerca de 120 prisões por dia, enquanto o número de libertações diárias é de apenas cem, concluímos que é necessário construir dois presídios novos a cada três meses.
Drauzio Varella
Drauzio Varella é médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro "Estação Carandiru" (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de "Ilustrada".

Festa para a poesia - Painel das Letras - Raquel Cozer

folha de são paulo

Um evento anual representativo para a poesia como o Festival de Teatro de Curitiba é para a dramaturgia no país. Eis o plano ambicioso da produtora Abaporu, que teve autorizada a captação de R$ 539 mil via Rouanet. A primeira edição do Festival de Poesia de Curitiba está prevista para outubro, com sete dias de eventos pela cidade.
Planejam-se debates, leituras, shows, performances em faculdades, “saraokês” (mistura de sarau com karaokê) em bares e declamações de poetas populares nas ruas. “A ideia é não fazer um negócio chato”, resume o poeta e curador Sergio Conti. Alice Ruiz cuidará dos debates, para os quais vêm sendo sondados nomes como Arnaldo Antunes, Mário Bortolotto e Chacal. Falta patrocinador, mas está apalavrado o apoio da Fundação Cultural de Curitiba, importante agente cultural da cidade.
Festa para a poesia 2 
Poeta maior de Curitiba e marido por 19 anos de Alice Ruiz, Paulo Leminski (1944-1989) não será homenageado no festival neste ano. Se o evento emplacar, ele será lembrado na edição de 2014, quando completaria 70 anos.
Mas a voz do povo já o celebra: primeirão nas recentes listas de mais vendidos da Livraria Cultura e da Martins Fontes, Leminski faz raríssima aparição poética na atual lista de mais vendidos da Folha, em nono lugar em ficção.
Seu “Toda Poesia”, lançado há três semanas pela Companhia das Letras, já teve 15 mil cópias impressas.
E “Arnaldo Antunes Lê Paulo Leminski”, que a produtora Mínimas fez a pedido da editora, teve 18 mil visualizações no YouTube, ante média de 600/mês de outros vídeos da Companhia.
FOTOGRAFIA O Instituto Moreira Salles lança em julho “A Vida em Movimento”, coedição com a Éditions Hazan, com imagens de Jacques Henri Lartigue (1894-1986); elas estarão em mostra no IMS-RJ, em junho
Crônicas A produtora Mínimas já preparou seu segundo “booktrailer” para a Companhia das Letras, baseado em “O Amor Acaba”, de Paulo Mendes Campos. Foi filmado com livreiros de São Paulo como figurantes e deve estrear nos próximos dias.
Repaginada O escritor Antonio Xerxenesky deixou o Instituto Moreira Salles rumo à Cosac Naify, onde assume o cargo de editor do site. Será responsável por levar novos colunistas e colaboradores ao blog da editora.
Cadê? Pedro Cezar (“Só Dez por Cento É Mentira: Manoel de Barros”) teve o projeto do documentário “Tudo Vai Ficar da Cor que Você Quiser” —sobre o escritor Rodrigo de Souza Leão, com roteiro e direção de Letícia Simões e Ramon Mello— selecionado em julho por edital da Secretaria de Estado de Cultura do Rio. Passados oito meses, não veio a verba de R$ 197 mil. A secretaria diz que deve sair nos próximos dias.
Leva Três obras do crítico Luiz Costa Lima devem sair neste ano pela EdUFSC.
Leva 2 “Mímesis: Desafio ao Pensamento”, do crítico, terá nova edição preparada por Sérgio Alcides, que também organiza para a editora da Universidade Federal de Santa Catarina um volume com “Dispersa Demanda: Ensaios sobre Literatura e Teoria” e “Pensando nos Trópicos”.
Matadores A DarkSide Books lança em junho “Serial Killers: Anatomia do Mal”, de Harold Schechter, que analisa matadores e sua ligação com a cultura. Está lá, por exemplo, Ed Gein, inspiração para Norman Bates (“Psicose”) e Hannibal Lecter (“O Silêncio dos Inocentes”).
Fantasia Carolina Munhoz, 24, já teve mais de 20 mil cópias de “A Fada” e “O Inverno das Fadas”, ambos do ano passado, vendidos pelo selo Fantasy, da Casa da Palavra. No próximo semestre, ela lança “Feérica”.
Inéditos A LeYa Brasil quer bombar o 5º Prêmio LeYa, em abril. O concurso, que paga o equivalente a R$ 256 mil, nunca pegou do lado de cá do oceano. Em Portugal, quem ganha vira best-seller.