segunda-feira, 8 de abril de 2013

Virar o jogo contra as mudanças climáticas

folha de são paulo

RICARDO ABRAMOVAY

As sociedades contemporâneas têm hoje a possibilidade real de vitória na luta contra o horizonte catastrófico representado pelas mudanças climáticas.
Esaa visão otimista apoia-se em dois conjuntos de circunstâncias, chamados por Paul Gilding (o celebrado autor de The Great Disruption) de pontos de virada, ou "tipping points". A expressão refere-se ao acúmulo de fatores que, a partir de certo patamar, revoluciona, de maneira quase sempre irreversível, a dinâmica de um determinado sistema.
Economistas e sociólogos usam-na para explicar alterações bruscas de comportamentos coletivos. E é exatamente disso que se trata quando está em questão a mutação de uma ordem social apoiada em combustíveis fósseis para uma organização em que energias renováveis tenham o papel preponderante.
Primeiro ponto de virada: o uso de combustíveis fósseis durante a última década colocou a espécie humana numa situação de alto risco. A continuar no ritmo atual, o aumento de temperatura previsto para 2060 é de 4ºC. E, como diz o recente relatório do Banco Mundial que contém essa previsão, não há qualquer sinal de que a humanidade esteja preparada para adaptar-se a tal mudança na temperatura global média. Se esse limite for atingido, prossegue o relatório, será difícil evitar a perspectiva de 6ºC de elevação da temperatura no início do próximo século, com o aumento no nível do mar entre 50 centímetros e um metro.
Mas, se é assim, onde está o ponto de virada?
Ele se encontra no fato de que as mudanças climáticas estão deixando de ser uma preocupação fundamentalmente ecológica ou ambiental e passam a ser um fator decisivo do próprio cálculo dos mais importantes atores econômicos globais.
Divulgação
Alto Sertão I, maior complexo de energia eólica da América Latina
Alto Sertão I, maior complexo de energia eólica da América Latina
Essa mudança de percepção se traduz na ideia de fósseis não passíveis de serem queimados, ou, na excelente expressão em inglês, "unburnable carbon". Um relatório recente do HSBC mostra que, se o carbono contido no carvão, no petróleo e no gás detido pelas maiores petrolíferas europeias (BP, Shell, Statoil, ENI e Total) não for queimado, isso fará com que elas percam entre 40% e 60% de sua previsão de receita.
O cálculo se apoia num artigo publicado na"Nature" em 2009 : se a humanidade optar por uma chance de 50% de não elevar a temperatura global média além de dois graus, as emissões de gases de efeito estufa entre 2000 e 2050 (o que os especialistas chamam de orçamento carbono) não poderão ultrapassar 1.440 gigatoneladas.
O conceito de orçamento carbono é fundamental: ele não aponta para o limite na disponibilidade de combustíveis fósseis e sim para o ponto além do qual queimar carbono ameaça a atmosfera e, portanto, as condições que permitem a reprodução da própria vida. Não se trata apenas de saber qual a riqueza existente e sim qual a possibilidade de que esta riqueza seja usada sem destruir os fundamentos da convivência social.
Pois bem, das 1.440 gigatoneladas de CO2 que poderiam ser queimadas até 2050 (para manter o limite de dois graus na elevação da temperatura), já foram usadas, desde 2000, nada menos que 400 GT CO2. Ou seja, mais de um quarto do orçamento carbono para cinco décadas foi usado em pouco mais de dez anos. Resta então algo em torno de 1.000 GT CO2, para que o limite de dois graus seja respeitado. Como as reservas conhecidas de combustíveis fósseis são de 2.860 GT CO2, isso significa que somente cerca de um terço dessa riqueza potencial pode transformar-se em utilidade real (e ganho econômico).
O resultado é obviamente devastador para as empresas cuja estratégia consiste fundamentalmente em explorar combustíveis fósseis. Ou então será devastador para a espécie humana. Mas, insiste Gilding, há indícios de que se forma uma coalizão social voltada a evitar o pior cenário. Esta coalizão não envolve apenas ativistas, mas também segmentos crescentes do meio empresarial, da comunidade científica e das administrações públicas.
E aí reside o segundo ponto de virada. O avanço nas energias renováveis está superando as mais otimistas expectativas. Nos Estados Unidos, nos últimos cinco anos, o preço do kW produzido por painéis solares caiu de US$ 5 para US$ 0,50. Em 14 Estados norte-americanos, a energia solar já é mais barata que a convencional.
Um relatório recente do gigante financeiro UBS mostra que os domicílios europeus já reduzem suas contas de eletricidade por meio da instalação de painéis solares, cujos custos de produção caíram drasticamente nos últimos anos.
Um dos países em que a energia solar melhor funciona é a pouco ensolarada Alemanha. O relatório prevê que a autoprodução de energia com base em painéis solares deve chegar, em 2020, a 14% na Alemanha, 18% na Espanha e 17% na Itália. Desde a Revolução Industrial, a eficiência na oferta de energia ligou-se sempre à concentração e ao poder de firmas gigantescas.
A virada está não só na perspectiva de redução dos fósseis, mas no avanço de formas descentralizadas e conectadas em rede de produção de energia.
Quais as consequências deste cenário para o Brasil?
É verdade que o país avançou de maneira expressiva na produção de energia eólica, embora o mesmo não possa ser dito da solar. O problema é que, quando se comparam os investimentos e o esforço de inovação em fósseis com o empenho em fortalecer a matriz energética renovável, fica claro que a opção brasileira atual é por fortalecer, na prática, a coalizão social, que, em termos globais, prospera com o avanço dos combustíveis fósseis.
O risco é duplo: por um lado, perda de valor das atividades petrolíferas, que hoje consomem parcela decisiva dos investimentos nacionais. Por outro, e mais grave, o Brasil continuará na retaguarda da inovação do que há de mais significativo em termos de energia renovável.
São questões que vão muito além da briga pela divisão dos royalties do petróleo.
RICARDO ABRAMOVAY, professor titular da FEA e do IRI/USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, é autor de "Muito Além da Economia Verde", ed. Planeta Sustentável.
twitter: @abramovay
e-mail: abramov@usp.br

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Basf e Shell disputam na Justiça para ver quem pagar maior parte de indenizações


As multinacionais Basf e Shell se enfrentam na Justiça: condenadas a indenizar mais de mil pessoas contaminadas por metais pesados da fábrica de pesticidas que operaram juntas em Paulínia (a 126 km de SP), as empresas terão que pagar cerca de R$ 500 milhões às famílias. E há disputa para ver quem fica com a maior parte da conta.
QUEM PAGA 2
Dona da indústria entre 2000 e 2002, a Basf aceita arcar com menos de 20% do valor. E acionou a Shell para que ela, que administrou a planta de 1977 a 1992, pague o restante. A ação, impetrada pelo advogado Paulo Henrique Lucon, corre em segredo de Justiça. A Shell diz que o processo está suspenso e que busca "a melhor forma" de encerrá-lo.
EM DIA
As duas empresas, de qualquer forma, assinam hoje o acordo com os trabalhadores e familiares que prevê a indenização. O TST (Tribunal Superior do Trabalho) mediou a conciliação.
NEM LUXO NEM LIXO
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Flávia Alessandra, 38, protagoniza ensaio como "rica entediada" na revista "Joyce Pascowitch" que circula amanhã. Mas a atriz diz que se considera simples e entusiasmada: "O pouco me faz feliz. Algumas pessoas dizem que sou feliz até demais. Acho que incomoda".
No ar na novela "Salve Jorge", da TV Globo, Flávia tem acordado às 4h30 por causa das gravações do folhetim. A atriz malha e bebe até quatro litros de água por dia para manter o peso de 55 kg, mas ela, às vezes, se permite exageros, como comer uma lata inteira de leite condensado.
JOGO DE DAMAS
Dilma Rousseff negocia palanque único no Ceará para a eleição de 2014, unindo o PT e o PSB de Cid Gomes. Pelo desenho imaginado, o governador sairia candidato ao Senado, o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) disputaria o governo e o PT indicaria o vice. Falta combinar com a ex-prefeita petista Luizianne Lins, que faz oposição aos Gomes no Estado.
BAIÃO DE DOIS
Se conseguir unir as peças do tabuleiro, Dilma impedirá que os irmãos Cid e Ciro Gomes abram palanque exclusivo para Eduardo Campos (PSB-PE) caso ele de fato se lance candidato à Presidência contra ela. O espaço seria no mínimo dividido entre a petista e o governador de Pernambuco.
MEIO A MEIO
Outro palanque que Dilma tenta "dividir" entre PT e PSB é o do Piauí. Lá o acordo é para que o senador Wellington Dias (PT-PI) se lance ao governo e os socialistas, liderados no Estado pelo governador Wilson Martins, indiquem um vice.
DIREITO ADQUIRIDO
O CFM (Conselho Federal de Medicina) emitiu parecer determinando que adolescentes transexuais tenham direito a receber tratamento hormonal quando começarem os primeiros sinais de puberdade, para bloquear o aparecimento de características do gênero com o qual não se identificam.
DIREITO ADQUIRIDO 2
O documento recomenda ainda que, após indicação médica, jovens recebam, caso queiram, hormônios do gênero no qual se reconhecem a partir de 16 anos. O CFM instituiu o parecer depois de consulta da Defensoria Pública de SP, que foi procurada por adolescentes e familiares reclamando de dificuldades para conseguir tratamento na rede pública.
MARACATU ATÔMICO
A exposição "O Interior Está no Exterior", com curadoria de Hans Ulrich Obrist, foi aberta na quinta, no Sesc Pompeia. No mesmo local, os cantores Gilberto Gil e Jorge Mautner faziam um show. A cantora Karina Buhr e a artista Raquel Kogan circularam por lá.

Sesc Pompeia recebe show de Gilberto Gil e Jorge Mautner e exposição de arte

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Zanone Fraissat/Folhapress
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Os cantores Gilberto Gil e Jorge Mautner se apresentaram no Sesc Pompeia, na quinta (4); na mesma data, a exposição "O Interior Está no Exterior" foi inaugurada no local
BONS FILHOS
Fabio Braga/Folhapress
Após quatro anos fora da MTV, parte deles na TV Record, Felipe Torres, Marco Antônio Alves, Fausto Fanti e Adriano Silva estão de volta.
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Já em gravação, o novo "Hermes e Renato" estreará no dia 25, misturando os personagens clássicos -Boça, Padre Gato, Palhaço Gozo e Joselito- com novas paródias.
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"Vivemos um momento difícil, fazendo humor para um outro público. Mas foi importante. Talvez se tivéssemos ficado na MTV, o grupo não existisse mais", diz Fausto Fanti.
MAM NA CHINA
O Museu de Arte Moderna de SP está em negociações com o centro cultural Ullens Center for Contemporary Art, em Pequim, para levar, em junho de 2014, obras de seu acervo para uma mostra na capital chinesa.
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Primeira grande exibição de brasileiros no país asiático, ela é organizada por Sarina Tang, que coordena residências artísticas na China, e Philip Tinari, do Ullens. Em troca, o MAM receberá uma mostra de chineses.
SEM SALÁRIO
Cássio Scapin, em cartaz com a peça "Lampião e Lancelote", em SP, tirou licença não remunerada de um ano na Record, onde tem contrato até 2017. Ele está com dois novos projetos para o teatro: um monólogo, "Eu Não Dava para Aquilo", e um espetáculo com Francisco Cuoco.
MESTRE
A convite da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), Luiz Gonzaga Belluzzo dará aula magna da cátedra Raul Prebich, no dia 22, em Santiago.
CURTO-CIRCUITO
Flávio Gikovate lança o livro "Sexualidade sem Fronteiras", hoje, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Ucha Meirelles será a personal sytlist oficial do evento Le Brésil Rive Gauche, entre abril e junho, na Le Bon Marché, em Paris.
A mostra Play!, na fachada do prédio da Fiesp, foi prorrogada até domingo.
O shopping VillaLobos começa hoje coleta de agasalhos para o Fundo Social de Solidariedade de SP.
Mônica Bergamo
Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

Algumas razões para se deprimir - Luiz Felipe Pondé

folha de são paulo

Diante da questão de Hamlet, "ser ou não ser, eis a questão", a resposta talvez seja "não ser". Deprimir-se ou resistir?
Dias assim, melhor dormir. Mas, como a vida continua, insistimos. Um tratado de "Crítica da Razão Deprimida" deveria começar pela descrença na democracia.
Como crer na democracia quando sabemos que a popularidade de nossa presidente é alta? Se o pastor Feliciano não tem o perfil para o cargo, tampouco ela o tem. Lembramos então do que dizia o líder inglês durante a Segunda Guerra, Winston Churchill: "Quando falo com os eleitores, duvido da democracia".
Por quê? Como "o povo" pode continuar crendo na economia quando ela já dá sinais de queda há algum tempo?
Claro, quem entre aqueles que vivem graças a bolsas famílias pode entender que uma mentalidade entre o varguismo e o comunismo (como a da nossa presidente e a do restante do PT, que continua na sua marcha para transformar o país num país comunista) não pode fazer nada pela economia do país? E, mais, que, se a economia vai para o saco, as bolsas também vão?
Claro, o problema é que na democracia dependemos da maioria, e esta é quase sempre estúpida. Sei que muitos não concordam com essa ideia e, mais do que isso, entendem que há algo de "sagrado" na sabedoria do povo.
Mas, sei também que quem afirma isso, conhecendo um pouco de história, o faz por má-fé, ou simplesmente, por mais má-fé ainda. Temo que esteja sendo redundante, mas a redundância é uma vantagem evolutiva em meio às obviedades contemporâneas.
Outra coisa que me faz suspeitar de que os deprimidos têm razão me ocorre quando ouvimos gente supostamente inteligente falar coisas como "a comunidade internacional decidiu X". O que vem a ser isso mesmo? Onde ela se encontra? Na ONU? Esta estatal internacional mais corrupta do que a república da banana? A ONU é uma mistura de circo com mensalão. Um cabide de emprego para países de Terceiro Mundo.
Como crer em quem crê numa "comunidade internacional"? A "comunidade internacional" só funciona quando tem interesses comerciais em jogo. E olhe lá.
Qualquer decisão da "comunidade internacional" no âmbito moral (como, por exemplo, a partir de hoje estão proibidas a fome, a tortura, a violência contra os mais fracos) é tão séria quanto a declaração de que Papai Noel deve existir porque, do contrário, estamos indo contra o direito à fantasia infantil.
Imagino que os neandertais que são contrários à publicidade infantil concordariam com uma ideia boba como essa.
Mas, é claro, toda vez que alguém diz acreditar na "comunidade internacional" não o faz por ingenuidade, mas, sim, porque este alguém ganha algo com isso, mesmo que seja apenas fama de bonzinho.
E a decisão britânica de criar um órgão do governo para censurar a mídia? Claro, dirão os mesmos que acreditam na "comunidade internacional" que a mídia deve ser "impedida" de circular ideias preconceituosas e ideologicamente perversas.
O caso britânico -resultado da baixaria de alguns "funcionários excessivos" determinados de um jornal específico- não justifica a criação deste órgão fascista para controlar a mídia.
Deduzir a necessidade de controle da mídia do fato de alguns jornalistas terem colocado escutas na vida de cidadãos é como decidir colocar câmeras em todas as salas de aula porque existe risco de abusos por parte de professores e alunos.
O grande erro histórico foi não perceber que a vocação fascista não era um traço só de Mussolini e Hitler, mas sim de todas as propostas de que a política e a educação sejam irmãs gêmeas, ou, dito de outra forma, de que a "política deva fazer moral".
Esta ideia é típica da tradição política contemporânea baseada na premissa de que a política deve "construir um homem melhor". Neste sentido, a esquerda é absolutamente fascista e, como ela venceu na cultura, na educação e nas ciências humanas como um todo, não há esperanças.
É impressionante como "os bonzinhos" de uns dias para cá foram tomados por um amor meloso pelas suas empregadas domésticas. Seria isso uma forma de atestar pureza racial (desculpe, moral) para a burocracia fascista de nossos dias?
Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

João Pereira Coutinho

folha de são paulo

Riqueza é felicidade


Ah, o reino do Butão. Toda a gente conhece: é o país mais feliz do mundo, dizem os sábios. Tudo porque o tiranete local, em 1972, decidiu renunciar ao "Produto Interno Bruto" (que era, digamos, típico de brutos) e passou a calcular a riqueza com a "Felicidade Interna Bruta". Mais importante que a riqueza criada era a sensação de bem-estar dos respectivos súditos.
E esse bem-estar não está dependente de coisas filistinas como o consumo e o vil metal. Riqueza não traz felicidade. Nem sequer paga o que ela gasta, como dizia o saudoso Millôr Fernandes.
A fantasia ficou. E, na mesma década de 1970, o economista Richard Easterlin deu tratamento científico (e empírico) ao fenômeno.
Dizia Easterlin que a riqueza de um país não garante necessariamente felicidade ao seu povo. Isso porque o bem-estar é determinado pelo rendimento relativo, não absoluto. Tradução: sempre que o meu vizinho enriquece, eu gemo um bocadinho.
O país pode ficar cada vez mais rico. Mas isso só irá trazer frustração cada vez maior também. Em termos absolutos (e comparativos), um norueguês não é mais feliz que um etíope.
Nunca comprei o "paradoxo de Easterlin". Muito menos a "Felicidade Interna Bruta" do reino do Butão. Não por motivos "científicos". A minha desconfiança era meramente intuitiva: entre a Etiópia ou a Noruega, eu não hesitaria na escolha.
Pois bem: parece que a ciência vem ao encontro das minhas intuições. O analista financeiro Allister Heath revela no "Telegraph" dois estudos recentes que apontam no mesmo sentido: o "paradoxo de Easterlin" está errado. Riqueza, afinal, é felicidade.
Fui ler os dois estudos. Recomendo.
O primeiro, da Universidade da Pennsylvania, analisou dados de 140 países e chegou a três conclusões.
Primeira: os mais ricos de um país têm maiores níveis de satisfação do que os mais pobres.
Segunda: países com maior PIB per capita apresentam níveis de satisfação maiores do que países com riqueza mais modesta.
Terceira: o nível de satisfação de um povo cresce na exata proporção do seu processo de enriquecimento. E uma subida de 20% no rendimento de um indivíduo que recebe US$ 500 tem o mesmo impacto hedônico que uma subida similar naquele que recebe US$ 5.000. Podemos gemer de inveja com a Mercedes do vizinho. Gememos menos se tivermos uma Volkswagen.
Ruut Veenhoven e Floris Vergunst, por sua vez, introduzem uma observação adicional --e qualitativa: sim, o bem-estar aumenta com a riqueza de um país. Mas esse bem-estar aumenta consideravelmente nos países em que a riqueza aumenta também consideravelmente.
Moral da história?
Chega de paternalismo autoritário e romântico: da próxima vez que alguém disser que riqueza não traz felicidade, o melhor é convidar esse sábio a ir morar para o reino do Butão. E sem Volkswagen.
João Pereira Coutinho
João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na versão impressa de "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, no site.