sábado, 27 de abril de 2013

Simpatia não é tudo na vida - Alexandre Vidal Porto

folha de são paulo

No afã de sermos cordiais, toleramos o intolerável e aceitamos o inaceitável só para não parecermos chatos
No Brasil, a simpatia tem valor supremo. Todo mundo quer ser simpático. No afã de sermos cordiais, toleramos o intolerável e aceitamos o inaceitável só para não criarmos caso e parecermos chatos.
Moro em Tóquio. Na semana passada, fiz uma rápida viagem ao Brasil. Tudo correu bem, mas achei estranho ver amigos em São Paulo jantarem com medo de arrastão e senti raiva ao descobrir que o cartão de débito, que eu usei uma única vez em um caixa eletrônico do Rio, havia sido clonado.
Ontem, saí com colegas de trabalho. Voltei para casa perto da meia-noite, pedalando minha bicicleta, sozinho. No caminho, atravessei um dos maiores parques da cidade --uma espécie de Ibirapuera local. Vi casais sentados nos bancos, namorando. Passei por vários outros ciclistas e pessoas fazendo cooper. Ninguém teve medo de ninguém.
Senti-me privilegiado. Um dos poucos brasileiros com a oportunidade de gozar a sensação de liberdade que pedalar despreocupadamente pela madrugada pode evocar. Infelizmente, isso deixou de ser possível para boa parte das pessoas nas cidades brasileiras e foi substituído pelo medo de ameaças reais.
E acabamos aceitando. Para que protestar? Uma turista foi estuprada numa van? Eliminemos as vans. Tem tiroteio na sua vizinhança? Compre uma apólice de seguro contra balas perdidas. Tem arrastão nos restaurantes da cidade? Jantemos em shopping centers.
Agora que incendiaram uma dentista em seu consultório em São Bernardo do Campo, o que faremos? Proibiremos tratamentos dentários?
Achar que esse tipo de ameaça é o preço a pagar pela vida em grandes cidades é equivocado. Nova York e Bogotá são exemplos de que políticas públicas bem implementadas são eficazes na redução radical da criminalidade urbana.
Nesta semana, a Secretaria de Segurança Pública informou que o número de homicídios na cidade de São Paulo aumentou pelo oitavo mês consecutivo. No entanto, em um país com os recursos do Brasil, ninguém deveria transitar pelas cidades como quem passa por uma selva ou uma zona de guerra, temendo ataques de animais selvagens ou fugindo de balas perdidas.
O aperfeiçoamento das sociedades democráticas exige a expressão política do povo. Do contrário, degringola. Democracia é bom, mas dá trabalho. Não é algo que se possa abandonar nas mãos de Deus.
O povo brasileiro tem a obrigação de manifestar à classe política sua indignação e seu inconformismo. Os políticos funcionam sob pressão. A expressão da opinião pública é mais poderosa do que parece.
Em 1923, Tóquio foi devastada por um terremoto. Voltou a ser destruída na Segunda Guerra Mundial. A cada vez, seus habitantes transformaram suas ruínas em construções. Nós, brasileiros, temos de nos educar e fazer o mesmo.
Ficar omisso, querendo ser simpático, enquanto a qualidade de vida nas cidades brasileiras se degrada, é inconsequente. É como fechar a porta da cozinha para não ver a louça suja que temos de lavar.
Parece cordialidade e simpatia, mas é comodismo e preguiça.

    MInha História: Abdul Hoque, 39 - De calça curta

    folha de são paulo

    Após ser aliciado por amigo, costureiro que passou 3 anos em condições análogas à escravidão no Equador vem para o Brasil como imigrante ilegal
    RESUMO - Natural de Bangladesh, o costureiro Abdul Hoque, 39, é um exemplo dos novos imigrantes que têm entrado ilegalmente no Brasil pelo Peru. Antes de chegar, aliciado por um amigo, trabalhou três anos em situação análoga à escravidão no Equador. No abrigo improvisado pelo governo do Acre em Brasileia, foi difícil se relacionar com os imigrantes haitianos. No último dia 18, Hoque partiu de ônibus para SP.
    REYNALDO TUROLLO JR.ENVIADO ESPECIAL A BRASILEIAConfio em todo mundo, e as pessoas sempre me põem para baixo, me arrumam problemas. Como muçulmano, aprendi que você tem de confiar nas pessoas. Se lhe traírem, Deus irá puni-las.
    Vivi em Comilla, Bangladesh, até 1997. No meu país, 10% são hindus, 5% cristãos e o restante é muçulmano. Bangladesh é um país muito pequeno, de população muito grande e muita corrupção.
    Em 1997 fui trabalhar em Durban, na África do Sul, como costureiro. Fazia calças, camisas, estava indo muito bem. Cheguei a ter meu próprio negócio. Penso que nunca deveria ter saído de lá.
    Em 2009, fui ver minha família depois de quase 12 anos na África. Um amigo me convenceu de que poderia fazer no Equador o mesmo trabalho que fazia em Durban, só que ganhando muito mais.
    Antes de ir ao Equador, me casei, porque minha família achava que estava ficando muito velho. Mas fui sozinho, de avião, de Bangladesh a Dubai. Passei por São Paulo, Lima e, por fim, Guayaquil.
    Cheguei em 2 de janeiro de 2010. Quando vi, estava num quartinho com um banheiro e 45 pessoas dentro.
    Fiquei confuso, só chorava, não imaginava aquilo. Tiraram meu passaporte, não podia sair à noite. Recebia US$ 240 por mês para costurar mochilas, bolsas.
    Vivi três anos assim, costurando em Guayaquil. Como não conseguia mandar dinheiro, minha mulher causava problemas para minha família, então me divorciei.
    Outro amigo de Bangladesh, que estava em Guayaquil como eu, veio para o Brasil. Na última vez que falei com ele, já em Brasileia, ele disse que estava em uma granja em São Paulo.
    Ele disse que tenho que esperar, ser paciente, mas nestas condições, com cheiro de cocô e xixi espalhado em todo o abrigo, é difícil.
    Há muitas pessoas de Bangladesh no Brasil, mas a maioria vem com visto. Acho que do Equador, cruzando a fronteira do Peru, vieram mais ou menos 50.
    Vim de ônibus de Guayaquil a Lima e tomei outro ônibus até a fronteira. Entrei por Assis Brasil (AC), às 4h, em 8 de março. Tinha um haitiano no táxi comigo. Paguei quase US$ 1.000 para vir do Equador até aqui. Em Lima, paguei mais US$ 100 à polícia.
    O pior de tudo desde que cheguei foi esperar um mês pelos documentos. Agora tenho CPF. Quero trabalhar na indústria de roupas, tenho experiência de 18 anos. Gosto do trabalho bem-feito, não só fazer por fazer.
    Gosto das pessoas no Brasil, não posso reclamar. Tratam todo mundo bem, cristãos, muçulmanos. Só a convivência com os haitianos no abrigo é difícil. Eles brigam por comida e água e tomam banho sem roupa [camisa].
    Eu não faço isso, porque se você for sete metros para baixo da terra, Deus ainda assim pode ver o que está fazendo. Alguns senegaleses [também muçulmanos] e eu vamos a um hotel. Pagamos apenas pelo banho e o banheiro.
    Durmo só três ou quatro horas por noite, por causa do barulho, da música alta dos haitianos. Quando vou dormir, vejo se não incomodo ninguém com meus passos.
    Eu deveria orar às 5h, às 13h, às 16h, às 17h30 e às 20h30, mas no alojamento não consigo, por causa do cheiro de xixi e da sujeira [causados pela superlotação]. Não dá para abaixar naquele chão para rezar.
    Preciso ser paciente. Amanhã [último dia 18] estou indo para São Paulo de ônibus. Vou encontrar meu amigo. Já comprei passagem. Hoje [17] vou passar minha última noite em Brasileia no hotel.
    Se Deus ajudar, quero ir a Bangladesh só por períodos de três meses, para visitar minha família e voltar para trabalhar no Brasil. Se as coisas correrem bem, posso até conhecer uma mulher aqui e me casar de novo.

      Apesar do casuísmo, regra teria efeito saneador

      folha de são paulo

      ANÁLISE - NOVOS PARTIDOS
      Se aprovada, pela primeira vez sistema tratará com mais rigor siglas que recebem dinheiro público sem ter votos
      FERNANDO RODRIGUESDE BRASÍLIA
      É impossível melhorar a lei dos partidos sem impor perdas para algumas das agremiações. Qualquer mudança também sempre terá um pouco de casuísmo. A depender do ângulo observado, alguém perderá mais ou menos no momento da alteração.
      Esse é o caso do projeto sobre novos partidos. Há casuísmo, mas também eventuais benefícios. Se a regra vier a ser aprovada, inclusive com a emenda apresentada pelo DEM, pela primeira vez desde a redemocratização o sistema tratará com mais rigor as siglas nanicas que se beneficiam de dinheiro público sem ter apoio nas urnas.
      Pelo modelo atual, partidos sem deputado ou com bancadas diminutas acabam tendo espaço suficiente para falar nas campanhas eleitorais no rádio e na TV. É um negócio rentável. O político fica famoso, é cortejado no segundo turno e acaba ganhando cargos no governo seguinte --com pouquíssimo apoio recebido nas urnas.
      Quem paga essa farra é o contribuinte. O horário eleitoral só é gratuito para os políticos. As emissoras recebem um ressarcimento quase integral pelo tempo cedido.
      No projeto em tramitação no Congresso, com a emenda do DEM, o tempo destinado a pequenos partidos é reduzido a uma parcela ínfima. Personagens folclóricos como Enéas Carneiro (1938-2007), do extinto Prona, seriam desestimulados, pois mal conseguiriam gritar seus nomes na propaganda.
      Os partidos de oposição e várias siglas menores enxergam menos liberdade de expressão no projeto sobre novos partidos. "O que está em jogo é a democracia", diz o senador Aécio Neves (PSDB-MG), pré-candidato a presidente em 2014.
      Na realidade, ocorre uma confusão entre democracia e democratismo. Quando o Brasil se preparava para sair da ditadura, voltou a vigorar o sistema pluripartidário. À época, a ideia era oferecer todas as facilidades necessárias para que pudessem prosperar novas legendas.
      Por essa razão houve uma licenciosidade inicial, com amplo acesso a tempo de rádio e de TV. Ocorre que se passaram décadas desde o fim da ditadura. Alguns partidos começaram pequenos e cresceram (o PT, por exemplo). Outros quase não saíram do lugar (caso do PC do B).
      Manter as regras como estão é rejeitar o conceito de meritocracia pelo voto. Nessa hipótese, o custo da sobrevivência de nanicos sem apoio eleitoral será bancado com o dinheiro dos impostos dos contribuintes brasileiros.

      Painel - Vera Magalhães

      folha de são paulo

      Risco de contágio
      Com Aloizio Mercadante declarando-se fora do páreo pelo governo paulista, o PT terá de lidar com dilema que aflige sua cúpula: o risco de a candidatura do agora favorito Alexandre Padilha levar para o palanque o desempenho do governo Dilma Rousseff na Saúde, área mal avaliada nas pesquisas. Petistas temem desgaste à reeleição da presidente em São Paulo, maior colégio eleitoral do país e onde o partido acredita ter chances de inédita vitória na corrida pelo Planalto.
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      Geopolítica O desempenho de Dilma no Estado é considerado decisivo, uma vez que o PT trabalha com expressiva perda de vantagem em Minas Gerais, de Aécio Neves (PSDB), e no Nordeste, de Eduardo Campos (PSB).
      Sem sinal Padilha estará hoje em uma aldeia indígena a 1.500 km de Manaus (AM), incomunicável. A ordem no QG do ministro é que nada muda na rotina por ora.
      Chapão Sem o recall de Mercadante, o PT vê como prioridade tentar uma aliança com PMDB e PSD já no primeiro turno. Nunca testados nas urnas, Padilha ou Guido Mantega (Fazenda), também lembrado como opção, precisarão de mais tempo de TV para serem competitivos.
      Bumbo Auxiliares de Dilma afirmam que o foco do governo para o 1º de Maio será o trabalhador doméstico. A presidente queria o projeto que regulamenta a PEC das Domésticas pronto para divulgação da data, mas falta ajustar detalhes com o relator Romero Jucá (PMDB-RR).
      Ampulheta Setores do governo não apostam na conclusão do estudo de impacto financeiro do projeto antes do Dia do Trabalho. Na terça, Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Jucá devem se reunir.
      Brecha 1 Contrários à decisão de Renan Calheiros (PMDB-AL) de segurar a criação de quatro novos tribunais regionais federais, deputados petistas incentivam André Vargas (PT-PR) a promulgar o projeto na ausência do presidente do Congresso.
      Brecha 2 Existe previsão de que Renan viaje em maio, o que levaria o vice-presidente da Câmara a assumir o Congresso. "Ainda não tenho decisão, mas é uma possibilidade", diz Vargas.
      Endereço A ênfase dada por Eduardo Campos ao desequilíbrio entre União, Estados e municípios na propaganda do PSB se deve a uma aposta do governador de Pernambuco. Ele acha que líderes políticos locais podem ajudá-lo a compensar a falta de palanques fortes em algumas regiões do país em 2014.
      Costura Acompanhada de deputados e senadores, Marina Silva fará visita ao gabinete de Joaquim Barbosa na próxima semana. A ex-ministra pretende levar ao presidente do STF seus argumentos contrários ao projeto que restringe os direitos dos novos partidos políticos.
      Arena Em conversa com Gilmar Mendes ontem para agendar encontro na segunda-feira, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), brincou: "Ministro, vamos conversar antes que nos coloquem como guerreiros em guerra".
      Visitas à Folha Augusto Nardes, presidente do Tribunal de Contas da União, visitou ontem a Folha. Estava com Artur Cotias e Silva, chefe de Gabinete, Hamilton Delfino Silva, secretário de Controle Externo, Cláudia Jordão, secretária de Comunicação, e Simone Barbosa, assessora do cerimonial.
      Ricardo Young (MD), vereador em São Paulo, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Ana Carolina do Amaral Silva, assessora de imprensa, e Felipe Neves, assessor de comunicação.
      com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
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      TIROTEIO
      "Não estou cogitando deixar o partido, mas, se estivesse, não me filiaria a nenhuma legenda. Afinal, não sou candidato a nada em 2014."
      DO GOVERNADOR CID GOMES (CEARÁ), sobre as especulações de que deixará o PSB por discordar da candidatura de aliado Eduardo Campos ao Planalto.
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      CONTRAPONTO
      Memória seletiva
      Em reunião na quarta-feira, vereadores de São Paulo discutiam a pauta de projetos na Comissão de Constituição de Justiça. Como é praxe, alguns pediam vistas ou adiamento de votação para averiguar o conteúdo das proposituras ou obstruir os trabalhos.
      Em dado momento, o presidente da CCJ, Antonio Goulart (PSD), anunciou texto de Arselino Tatto (PT).
      Para surpresa geral, o líder governista solicitou a retirada da pauta de votações. E explicou, arrancando risos:
      --Presidente, por favor. É que eu já não faço a menor ideia do que se trata esse projeto.