terça-feira, 28 de maio de 2013

Notas essenciais - Denise Fraga

folha de são paulo

Notas essenciais


Como é bom poder tocar um instrumento! Já dizia mano Caetano. Não toco um instrumento. Adoraria.
Meus pais me ofereceram a oportunidade, bem me lembro. Fiz uma aula experimental de piano, meu pai dizia que eu tinha mãos de pianista. Era um professor careca e de óculos, que, por infelicidade do destino, estava gripado naquele dia.
De quando em quando, caía um pingo de seu nariz sobre as teclas. Ele pedia desculpas, pegava o lenço, mas foi o suficiente. Eu não quis mais voltar. A coriza do velho professor cegou de vez a menina de nove anos para toda a felicidade que poderia estar por trás daquelas teclas molhadas.
Muito tempo depois, tentei até destrinchar um violãozinho, mas não consegui ir adiante. Canto no chuveiro.
Na escola dos meus sonhos, aprender a tocar um instrumento deveria ser matéria obrigatória.
Quiséssemos ou não, com professores gripados ou não, todos nós deveríamos sair da escola sabendo reproduzir uma frase musical qualquer, no mínimo compreendendo a mecânica da música, ainda que não fizéssemos nada com ela. Produzir música é capacidade humana que enriquece, sensibiliza e alegra qualquer um. É como saber ler. Merece ser cultivada. E mais: é necessidade.
Acho que todos os povos da humanidade produziram algum tipo de música. Estive certa vez no maravilhoso museu de antropologia da Cidade do México e fiquei encantada com a quantidade de instrumentos esquisitos produzidos por cada tribo ancestral. O que me faz crer que comer, beber, reproduzir-se, cantar e dançar são coisas essenciais à nossa existência.
Mãe esforçada que sou, ofereci desde cedo aulas de música aos meus pequenos. Matriculamos os dois na iniciação musical e, assim que foi possível, eles começaram as aulas de piano.
Agora, nosso caçula toca guitarra. Quer dizer, tínhamos dúvidas, porque só ouvíamos atrás da porta. Se entrávamos no quarto, ele parava.
Mas, faz alguns dias, o rapazinho começou a andar com sua guitarra pela casa e nos brinda displicente com alguns acordes, desde que não demonstremos atenção.
No outro dia, eu passava pela sala apressada procurando meu celular dentro da bolsa, quando fui surpreendida por um legítimo Led Zeppelin saindo de suas cordas. Nossa sala foi invadida por uma atmosfera encantada. Continuei procurando o celular como se nada fosse, mas não queria encontrá-lo nunca mais. Eu, que não posso subir a Teodoro Sampaio sem brilhar os olhos por seus violões, não consegui conter as lágrimas. Meu filho produz música.
Arquivo Pessoal
Denise Fraga é atriz e autora de "Travessuras de Mãe" (ed. Globo) e "Retrato Falado" (ed. Globo). Escreve a cada duas semanas na versão impressa do caderno "Equilíbrio".

FOTOGRAFIA » Carta de amor à Terra (Sebastião Salgado)-Sérgio Rodrigo Reis‏

Sebastião Salgado abre mostra Genesis amanhã, no Rio.  


Sérgio Rodrigo Reis

Estado de Minas: 28/05/2013



Mulheres zo'e towari ypy, conhecidas por usar o urucum para cozinhar e decorar o corpo. Pará, 2009

O fotógrafo mineiro Sebastião Salgado se deparou há alguns anos com uma constatação e uma ideia: diante do caos do planeta e das transformações provocadas pelo ser humano nos cinco continentes, ainda havia paisagens remotas, em lugares ermos e praticamente intocados. Começou aí a aventura do projeto Genesis, que, a partir de amanhã, o país começa a conhecer. Depois de inúmeras viagens, quando realizou milhares de fotografias, ele selecionou as 245 retratando um mundo preservado e intocado, que estarão no Museu do Meio Ambiente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, depois de temporada em Londres. Em setembro, as imagens irão para São Paulo e, em maio de 2014, chegam a Belo Horizonte.

Na primeira mostra de grandes proporções em 10 anos, Sebastião Salgado revela o olhar de documentarista diante das cinco seções geográficas do planeta, em busca das maravilhas ainda imunes à aceleração da vida moderna. Encontrou a realidade entre 2004 e 2011 em montanhas, desertos, florestas, tribos, aldeias e animais. As imagens em preto e branco foram fruto de 30 viagens a regiões remotas do globo, a maioria de dificílimo acesso.

A aventura, cada uma com várias semanas de duração, deu origem ao conjunto de imagens que, ao fim do processo, foi dividido em cinco seções que formam os núcleos da exposição. Entre os lugares registrados estão a Antártida, as Ilhas Galápagos, Nova Guiné, Indonésia, Madagascar, Botswana, Ruanda, Congo, Uganda e Etiópia.

O Norte do planeta aparece em fotos tiradas nas regiões do Alasca e do Colorado, nos Estados Unidos, além do Canadá e do extremo norte da Rússia. O Brasil, ao Sul do planeta, está representado pela enorme floresta tropical que, vista do céu, cortada pelo Rio Amazonas e seus afluentes, parece um desenho que lembra uma gigantesca árvore da vida, com braços e mãos se estendendo em direção ao coração do país.

Genesis é o terceiro mergulho de longa duração em questões globais feito por Sebastião Salgado. Sua primeira imersão foi com Trabalhadores (1986-1992) e, em seguida, com Êxodos (1994-1999). Ambos retrataram as duras consequências das mudanças econômicas e sociais sobre as vidas humanas. A opção atual é pelo ambiente natural. A curadora, Lélia Wanick Salgado, esposa do fotógrafo, explica que a intenção foi exaltar a majestade e a fragilidade do nosso planeta.

GENESIS Fotografias de Sebastião Salgado. Abertura no Rio de Janeiro amanhã, no Museu do Meio Ambiente, Rua Jardim Botânico, 1.008. Até 26 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 17h. Entrada franca. Informações: (21) 2294-6619. A mostra vai, em seguida, para São Paulo, no Sesc Belenzinho, a partir de 11 de setembro. Ano que vem, em maio, será aberta no Palácio das Artes. As imagens estão sendo lançadas em livro pela Taschen (520 páginas, R$ 169), editado e desenhado por Lélia Wanick Salgado.

três perguntas para...
Sebastião Salgado
fotógrafo

Qual a história que buscou contar indo atrás de lugares inóspitos?

Fui ver um mundo com um prazer imenso de ver. Queria escrever uma carta de amor ao meu planeta. Fui vê-lo não como jornalista ou antropólogo. No fundo, quis revelar nessa coleção de fotos o que ainda há de puro no planeta. São lugares ameaçados pela sociedade de consumo, formada por nós mesmos.

O que mais o surpreendeu?

Muita coisa. Mas principalmente o fato de descobrir que todas as espécies têm uma racionalidade. Não só nós seres humanos. Outra coisa que me surpreendeu foi constatar que  somos os mesmos dos nossos antepassados, que já se amavam, eram solidários, tinham seus costumes parecidos em sua essência com os nossos atuais. A sabedoria da humanidade já existia há muito tempo.

Sua reflexão em torno da preservação da natureza ganhou efeito prático, há 10 anos, quando o senhor fundou em Aimorés, em Minas, o Instituto Terra. Como está o projeto?

O amplo processo de reflorestamento na propriedade de 700 hectares com espécies originais da mata atlântica hoje tem resultados visíveis. São 2 milhões de árvores plantadas e já é possível ver 177 espécies de pássaros e até onças voltando. Minha meta é chegar a um projeto maior de recuperação do Rio Doce, que está morrendo. A ideia é recuperar as nascentes. Será um projeto-piloto. Se der certo, a intenção é realizar o mesmo em todo o país. Já temos a tecnologia para fazer. Vai dar certo. 

Janio de Freitas

folha de são paulo
Indignação e indignidade
É preciso que a divergência sobre a anistia encontre a trilha que leve o debate a uma resposta definitiva
A divergência em torno da permanência ou superação da anistia gozada pelos que torturaram e assassinaram em nome do Estado, durante a ditadura militar, precisa encontrar a trilha que leve o debate, espera-se, a uma resposta definitiva.
Dos pontos de vista moral, criminal e humanístico, os argumentos dos opositores à superação da anistia nem precisariam ser considerados, diante da maciça comprovação dos propósitos e feitos facinorosos da repressão efetivada por militares. Não há o que discutir, nem pessoa respeitável com quem discutir, se a anistia é defensável moral, criminal e humanisticamente.
Ao responder "não" à pergunta "A Lei da Anistia deve ser revista?", embora aderindo àqueles pontos de vista contrários à anistia, o advogado José Paulo Cavalcanti Filho enveredou pelo território que a seu ver nega a revisão: o jurídico (Folha de sábado, pág. A3, e ainda no site do jornal). Cavalcanti vai a cada degrau jurídico do percurso de leis, tratados, artigos constitucionais e datas que o conduzem à sua conclusão. Abre as portas ao segundo veio da divergência.
É por aí que o debate precisa se dar. A mera continuidade da anistia em desconsideração à grandeza das razões e à indignação que a repelem é, no mínimo, uma indignidade nacional a projetar-se sobre muito tempo ainda.
Impor a superação da anistia, sem mais considerações, aplacará a justa indignação e restabelecerá o respeito por valores nela negados, mas essenciais. Mas tenderá a uma inversão acusatória não menos problemática do que a atual, não se sabe por que meios.
Aos doutos, pois, a discussão produtiva, o quanto antes. No terreno em que a divergência se põe.
TEM MAIS
O Tribunal Superior Eleitoral recebeu representação, encaminhada pela vice-procuradora-geral Sandra Cureau, com pedido de multa à presidente da República e ao PT. Os dois estão acusados de propaganda eleitoral antecipada na forma dada a três inserções da propaganda gratuita do partido na TV.
Ou a procuradora se lembra de fazer pedido semelhante para os programas muito mais explícitos de Aécio Neves / PSDB e Eduardo Campos / PSB, ou não escapará à desconfiança de que agiu por motivação pessoal. Sandra Cureau candidatou-se publicamente à substituição do procurador-geral Roberto Gurgel. Foi preterida por Dilma Rousseff.
SERVIÇOX
Ao pretender a venda de um negócio seu na Argentina, a Petrobras foi posta aqui sob suspeitas e logo acusações de negociata com grupos empresariais ligados a Cristina Kirchner, em particular o que controla também cassinos. Ao comunicar agora a desistência de vender, o noticiário pôs logo a Petrobras sob suspeita de motivações escusas.
Não houve tempo nem de um contato informático com Buenos Aires. E o senador Álvaro Dias, prontamente ouvido, entrou com o disco de uma "investigação da imoralidade", a ser providenciada pelo PSDB.
Boa ideia, aliás. Mas que faça o serviço completo: comece por aquela pretendida e frustrada troca do nome Petrobras para Petrobrax, no governo Fernando Henrique. E depois diga quanto era.

    CURTA-METRAGEM » Como nos bons tempos‏

    Estado de Minas - 28/05/2013

    Exibir filmes fora da programação comercial, muitas vezes na contramão da estética – e também da ideologia – convencional e com debate depois das exibições. Essa era uma prática que ajudou a formar público e incentivou muita gente a procurar o cinema como forma de expressão. O cineclubismo, que tem história em Minas, pode ser experimentado agora no projeto Curta Degustação, que exibe amanhã, às 13h, na Imprensa Oficial, o curta-metragem Macacos me mordam, de César Maurício e Sávio Leite.

    A história, baseada em conto de Fernando Sabino, apresenta uma cidade que vive um momento de grande agitação com a chegada de macacos. A narrativa foi transposta para o cinema em formato de animação. Sávio Leite é agitador cultural e realizador de filmes que circulam em diversos festivais nacionais e internacionais. O humor e a experimentação são as marcas de seus trabalhos, feitos com técnicas de animação ou live action (sem recursos e intervenções de desenho ou animação de objetos). Sávio é também organizador da Mostra Udigrudi Mundial de Animação, a M.U.M.I.A., que completou 10 anos no ano passado.

    O parceiro de Sávio em Macacos me mordam, César Maurício, é artista plástico, cineasta e músico, ex-vocalista e compositor do grupo Virna Lisi. Atualmente, o artista mantém o projeto Radar Tantã e tem canções gravadas por Lô Borges e Samuel Rosa. César Maurício tem também produção reconhecida na área de videoclipes.

    O Curta Degustação é uma parceria entre o Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC) e o Instituto Humberto Mauro, com o apoio da Imprensa Oficial. O projeto restaura a colaboração entre o CEC e a Imprensa Oficial, que, nos anos 1970, exibiam no auditório do que viria a ser o Teatro Clara Nunes sessões de filmes de Godard, Glauber Rocha, Pasolini e outros cineastas, em plena ditadura militar, seguidos de acalorados debates.


    Macacos me mordam
    Curta-metragem de Sávio Leite e César Maurício. Hoje, às 13h, na Sala Multimídia da Imprensa Oficial, Av. Augusto de Limas, 270 Centro. Entrada franca. Sessão com presença dos realizadores.